
OPINIÃO RBS
O vencedor e o vencido
O eleitor volta às urnas neste domingo para decidir pela continuidade na Presidência da República, com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ou pela alternância de poder, com Flávio Bolsonaro (PL). Por ser uma escolha que selará o destino do país pelos próximos quatro anos, espera-se que cada voto neste segundo turno resulte de uma profunda ponderação sobre os candidatos, suas propostas conhecidas, contradições e os projetos políticos que representam.
Flávio e Lula personificam duas visões inconciliáveis de país. Tamanhas diferenças, que se expressam em igual medida no tecido social brasileiro, ajudaram a criar o ambiente de uma campanha eleitoral que será lembrada como uma das mais rasteiras e rasas desde a redemocratização. Não apenas pela postura das candidaturas, mas pelo contexto da disputa, em meio ao escândalo do Banco Master e à crise moral do Supremo Tribunal Federal (STF).
Propostas inverossímeis, abuso do populismo, profusão de acusações para elevar a rejeição do adversário, escassez de debates, uso da desinformação, contestações a ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), arroubos censórios na Corte e suspeitas de interferência de big techs ajudaram a tumultuar e a degradar a qualidade da corrida ao Planalto. De positivo, até aqui, deve-se registrar a ausência de teorias conspiratórias sobre as urnas eletrônicas, que outra vez, no primeiro turno, tiveram desempenho modelar.
Os principais desafios do país, como a situação das finanças públicas, não foram discutidos de forma honesta. Se o festival de bondades prometidas à população for cumprido, o país seguirá com juros sufocantes para as famílias e para as empresas e a inflação permanecerá pressionada. Mas o choque de realidade está próximo. As áreas em que a população mais necessita do poder público, como saúde, educação e segurança, tampouco mereceram a atenção necessária dos candidatos.
Neste domingo, serão conhecidos o vencedor e o vencido. Ambos terão responsabilidades.
O acirramento dos ânimos na reta final da campanha aponta, infelizmente, para a manutenção da divisão profunda da sociedade. Diante desse cenário, seria extremamente salutar se, de certa forma contrariando as expectativas, existissem dos dois lados acenos ao apaziguamento. Ao vitorioso, cabe também saber vencer. No sentido de ter uma postura de incentivo à convivência civilizada entre os cidadãos que pensam diferente, de afirmar que governará para todos e de dar garantias de respeito à Constituição, aos valores democráticos e aos princípios da harmonia e da independência entre os poderes. Dar o exemplo confere maior força à liderança.
Do derrotado, aguarda-se uma postura de grandeza e de aceitação do resultado. Em 2023, o ex-presidente Jair Bolsonaro não passou a faixa a Lula. Há duas eleições presidenciais o perdedor não faz a tradicional ligação telefônica para o vencedor, para reconhecer o desfecho do pleito e cumprimentá-lo. Espera-se que esses gestos da liturgia republicana voltem a ser prática no país.
Os solavancos da democracia brasileira e os momentos tensos desta campanha e dos últimos anos, de qualquer forma, não sobrepujam o principal: haverá a certeza de que o veredito das urnas, seja qual for, será a materialização da vontade soberana da maioria dos eleitores.
Nenhum comentário:
Postar um comentário