terça-feira, 13 de julho de 2010



13 de julho de 2010 | N° 16395
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Uma vida particular

“Você não tem mensagens novas” – me informa a secretária eletrônica do telefone. Minhas reações são diversas e divididas. Recebo sempre, a cada manhã, vários recados. São vozes que querem me empurrar um excelente cartão de crédito, a assinatura de uma revista que garantem ser a melhor do país, um cupom que me candidata ao sorteio de um carro.

E há também os que são mais simples e menos ambiciosos. S. reclama que me enviou um e-mail, e que eu não respondi. D. se queixa que me mandou seu último livro e eu sequer acusei o recebimento. G. repete o convite para tomarmos um cappucino no café do Margs.

Não desgosto das mensagens comerciais. Afinal, são pessoas que ganham a vida tentando vender o trivial variado para gentes que desconhecem. Não careço de cartões de crédito, sou bem servido com os que já tenho. Não me faltam revistas, quer em casa pelo Correio, quer no lugar onde trabalho. Não necessito de um carro novo, pois aposentei o último que tive por uma espécie de economia íntima, como a que me descreveu em ida entrevista ninguém menos do que Erico Verissimo.

Quanto a S., está coberta de razão. Sou relapso com os e-mails que recebo. Na maioria dos casos vou deixando que se acumulem antes de lhes dar adequada resposta. Já D. está certa. Me chegam tantos livros que acabo por ser descortês, não enviando sequer um muito obrigado a autores e editores. Pior: nem chego a ler todos.

No que diz respeito a G., me declaro em dupla dívida. Nem só já deveria ter repartido um cappucino com ela, como revisitado as obras do Margs, um dos melhores museus do Brasil. O fato é que são tantas e tão variadas as pequenas e grandes exigências do cotidiano que termino por faltar com certos deveres e prazeres que não poderia esquecer.

Aliás, por mim programaria minha vida de um modo todo particular. Para princípio de conversa, não teria hora para despertar, pouco importando se ela fosse às 10h, às 11h30min ou ao meio-dia. Trabalho? Nem pensar. Dedicaria todos os meus momentos a lazeres, aí incluídas as histórias que ainda tenho na cabeça e preciso transferir para a tela de um computador.

Não negligenciaria os amigos. Dedicaria a eles cada instante que hoje devoto ao duro ofício da sobrevivência. Eu viajaria muito, veria infinitos filmes, eu não perderia concertos, eu frequentaria exposições de arte, eu sairia no encalço de cada amada que balançou meu coração.

Mas desconfio que tudo isso é apenas o sonho de uma noite de verão.

Linda terça-feira para você. Aproveite o dia

domingo, 11 de julho de 2010


ELIO GASPARI

A "conjunção carnal" do delegado de SC

Reapareceu a teoria segundo a qual não existe estupro, existem mulheres mal comportadas

NO DIA 14 DE MAIO, uma garota de 13 anos encontrou-se com um amigo num shopping de Florianópolis e foi ao seu apartamento, onde vive com a mãe e o padrasto. Ele tem 14 anos e é filho de Sérgio Sirotsky, diretor do Grupo RBS de comunicação em Santa Catarina. A empresa, pertencente à sua família, controla 46 emissoras de televisão e rádio e oito jornais diários no Sul do país.

O que aconteceu no apartamento do garoto não se sabe com precisão, pois o inquérito policial e o processo correm em segredo de Justiça. Durante a investigação, quem devia preservar o sigilo permitiu que ele vazasse.

A jovem contou em seu depoimento que foi estuprada por um ou dois rapazes, ambos menores. Além do dono do apartamento, denunciou o filho de um delegado. Medicada num hospital, deu queixa à polícia e submeteu-se a um exame de corpo de delito. Nos últimos dez dias, o caso explodiu na internet.

A família Sirotsky publicou um comunicado informando a ocorrência do "lamentável episódio", lembrando que "confia integralmente nas autoridades policiais".

Para que se possa confiar mais nessas autoridades, o secretário de Segurança de Santa Catarina deve exonerar o delegado Nivaldo Rodrigues, diretor da Polícia Civil de Florianópolis. Numa entrevista gravada, ele disse o seguinte:

"Eu não posso dizer que houve estupro. Houve conjunção carnal. Houve o ato. Agora, se foi consentido ou não, se foi na marra, ou não, eu não posso fazer esse comentário, porque eu não estava presente".
A declaração do delegado é uma repetição da protofonia das operetas que começam investigando casos de estupro e terminam desgraçando quem os denuncia.

Noutra entrevista, com o inquérito concluído, o doutor informou que "o caso investigado é de estupro", mas ao especular (indevidamente) sobre a motivação do ocorrido informou: "Amizade, se encontraram, resolveram fazer uma festa. Se foi na marra, não sei".

Falta o delegado definir "marra". É crime manter relações sexuais com menores. Se isso fosse pouco, segundo a denúncia, podem ter sido dois os rapazes que usufruíram a "conjunção carnal". Se o delegado não podia dizer se o ato foi "consentido ou não", devia ter ficado calado. Afirmar que não pode opinar porque "eu não estava presente" beira o deboche.

Existe uma razoável literatura sobre estupros de grupo. Em geral, ocorrem quando a vítima está alcoolizada ou drogada, o que torna despicienda a questão do consentimento.

Se o doutor Nivaldo sair virgem do episódio, os catarinenses perderão um pouco de sua segurança, triunfarão as teorias conspirativas sobre a impunidade do andar de cima e prevalecerá uma racionalização do crime: não há estupros, há mulheres que não sabem se comportar. (Exceção feita às mães dos defensores dessa doutrina, e que Santa Maria Goretti proteja suas filhas.)

sábado, 10 de julho de 2010



11 de julho de 2010 | N° 16393
MARTHA MEDEIROS


Hein?

A surdez pode ser uma deficiência física, mas pode também ser uma deficiência provocada, voluntária

Quando meu pai ouve uma asneira muito grande, mas muito grande, ele costuma dizer: É preferível ouvir isso do que ser surdo, relativizando a ignorância alheia: há coisas piores na vida.

A surdez nunca me comoveu profundamente. Sempre imaginei que a deficiência auditiva seria a mais tolerável, mesmo sabendo que esse ranking é um disparate, não existe a melhor e a pior deficiência, ainda que, em segredo, todos já tenham pensado um dia: entre ser cego ou surdo, surdo toda vida.

O surdo tem recursos. Aparelhos auditivos, leitura labial, linguagem de sinais. Ele só não socializa se não quiser. E se não quiser, tem o álibi perfeito. “Desculpe, não estou escutando nada”.

Acabei de ler um livro que é o que costumo esperar de um bom livro: inteligente, divertido, humano, terno e bem escrito. Chama-se Surdo Mundo, do talentoso David Lodge, autor inglês. O título é um trocadilho deplorável, como todo trocadilho, mas não se pode querer tudo.

É a história de um professor de linguística aposentado que está perdendo a capacidade de ouvir. Ele, um aficionado pelas palavras, já não as escuta com precisão. Sua mulher está cada dia mais irritadiça por ter que repetir as frases toda hora.

Seu velho pai já está meio surdo também, e além disso, caduco, o que torna as conversas entre eles totalmente nonsense. Uma aluna bonitona e sem escrúpulos entra na jogada e torna a confusão ainda maior. Mas essa confusão tem mesmo a ver com a surdez que ele sofre, ou com a surdez que ele deseja?

Estamos nos tornando surdos por gosto. As fofocas propagadas diariamente no local de trabalho, as queixas mil vezes repetidas na sala de jantar, as grosserias disparadas pelas janelas dos carros em meio ao trânsito, as angústias de sempre reprisadas nos divãs, as confissões íntimas que acabam por se banalizar: quem está a fim de ouvir quem hoje?

Não por acaso, a personagem maluquete do livro está fazendo uma pesquisa sobre bilhetes de suicidas, pessoas que chegam ao extremo de se matar, por quê? Simplificando o que não é simples, poderíamos dizer que elas não estão sendo escutadas com a paciência e devoção que precisam. Um dia cansam de falar sozinhas.

Estamos todos muito barulhentos, virulentos, verborrágicos, ansiosos. Há muita comunicação, mas pouco conteúdo. A surdez pode ser uma deficiência física, mas pode também ser uma deficiência provocada, voluntária: cansei, não quero escutar mais nada.


O mercado contra o Estado

Em seu novo livro, o cientista político americano Ian Bremmer analisa o crescimento do capitalismo de Estado no mundo – inclusive no Brasil. Para ele, o sistema de livre mercado ainda vai prevalecer. A seguir, um trecho do livro - Ian Bremmer - Jianan Yu
AUTOAJUDA

Fábrica de roupas descartáveis, na China. Os governos autoritários abraçaram o livre mercado, mas só para se perpetuar no poder

Em maio de 2009, recebi um convite por e-mail para discutir a crise financeira global com o vice-ministro de Relações Exteriores da China, He Yafei, junto com um pequeno grupo de economistas e acadêmicos. O vice-ministro iniciou o encontro, realizado no consulado chinês, na 12a Avenida, em Manhattan, com uma pergunta: “Agora que o livre mercado fracassou, que papel vocês acham que caberá ao Estado na economia?”.

Seu tom maliciosamente pragmático e a grandiosidade de sua afirmação quase me fizeram rir. Mas a pergunta era séria – e uma rápida olhada nas manchetes dos jornais revelava muitas evidências em seu favor. A quebra do banco de investimento Lehman Brothers, em setembro de 2008, demonstrou que a crise financeira havia atingido uma escala que não podia mais ser ignorada.

As autoridades de Washington tinham assumido a responsabilidade por decisões que geralmente são tomadas pelos mercados, em Nova York. O então presidente George W. Bush assinou o Ato Emergencial de Estabilização Econômica, criando o Programa de Alívio de Ativos Problemáticos (Trouble Asset Relief Program, Tarp, em inglês), de US$ 700 bilhões.

No início de 2009, seu sucessor, Barack Obama, avisou que, se Washington não atuasse rapidamente, os Estados Unidos viveriam uma catástrofe. Os legisladores responderam ao chamado aprovando um plano de resgate de US$ 787 bilhões.

He Yafei aguardou pacientemente por uma resposta. “Os bancos fracassaram em se autorregular, mas isso não significa que o governo vai dominar permanentemente a economia”, respondi. Robert Hormats, do (banco de investimento) Goldman Sachs, Don Hanna, do Citigroup, o economista Nouriel Roubini e outros acrescentaram suas visões à conversa.

Ao longo dos 90 minutos seguintes, meus colegas americanos e eu defendemos o capitalismo de livre mercado e o senhor He defendeu o capitalismo dirigido pelo Estado. Nós encontramos algumas ideias em comum. Mas, ao final do encontro, ficou claro que tínhamos discutido os méritos de dois conjuntos incompatíveis de princípios políticos e econômicos.

Em encontros de consequências muito mais amplas, realizados agora em todo o mundo, essa incapacidade de concordar em relação ao papel adequado do Estado na economia mudará a forma de a gente viver. O exemplo mais óbvio é a mudança da mesa internacional de negociações dominada pelos chefes de Estado do G7, o grupo das nações mais industrializadas do mundo – todas elas campeãs do capitalismo de livre mercado – para o modelo do G20, no qual céticos do livre mercado, como China, Rússia, Arábia Saudita, Índia e outros países, participam da discussão.

Agora, quando os líderes das democracias de livre mercado fazem o diagnóstico dos problemas da economia global, enfrentam o sorriso cético de He Yafei – e de todos aqueles na mesa que acreditam que o livre mercado fracassou e que o Estado deve ter um papel preponderante na economia. É um enorme problema, que vai trazer desafios por várias décadas. Como chegamos aqui? O fim da Guerra Fria não trouxe a vitória do capitalismo de livre mercado?

Apesar de ter cumprido as promessas de campanha, Lula não é nenhuma Margaret Thatcher

Em dezembro de 1991, um atônito Mikhail Gorbatchev anunciou a seu povo que eles estavam vivendo num mundo novo. Seis dias depois, a União Soviética acabou. Em três semanas, o líder chinês Deng Xiaoping lançou uma nova fase da reforma de livre mercado da China.

Em um ano, até Fidel Castro tinha aceitado a necessidade de implementar algum grau de experimentação capitalista. Países do Pacto de Varsóvia começaram a marchar em direção à Organização do Tratado
do Atlântico Norte (Otan) e à União Europeia. O capitalismo de livre mercado parecia ter obtido uma vitória definitiva.

Mas, como os russos descobriram de forma dolorosa nos anos 90, há um longo caminho entre uma economia planificada e o capitalismo de livre mercado. A queda do comunismo não representou o triunfo do livre mercado, porque não colocou um ponto final em governos autoritários. O governo chinês aprendeu algumas lições importantes com o colapso da União Soviética e a revolta da Rússia contra o caos e a corrupção que se seguiram. Primeiro, reconheceu que, se o Partido Comunista Chinês fracassasse em gerar prosperidade para o povo, seus dias estavam contados.

Segundo, aceitou que o Estado não pode criar crescimento econômico duradouro por decreto. Só com a liberação da inovação e das energias empreendedoras de sua vasta população a China poderia prosperar e o partido sobreviver. Terceiro, percebeu que, quando esse potencial de crescimento fosse liberado, o partido só poderia proteger seu monopólio de poder político se o Estado controlasse a maior parte possível da riqueza que os mercados viessem a gerar.

Assim como a China, governos autoritários em todo o mundo aprenderam a competir abraçando o capitalismo de livre mercado. Certos de que economias planificadas estavam destinadas ao fracasso, mas temerosos de que o verdadeiro livre mercado fugisse do controle, os autoritários inventaram o capitalismo de Estado.

Neste sistema, os governos usam vários tipos de empresas controladas pelo Estado para administrar o que consideram como joias da coroa e para criar e manter um grande número de empregos. Eles elegem empresas privadas para dominar certos setores econômicos. Usam os fundos soberanos para investir o dinheiro extra e maximizar os lucros do Estado. Em todos os casos, o Estado está usando os mercados para criar riquezas que possam ser dirigidas para onde os políticos desejarem.

The end of the free market
(O fim do livre mercado)

Editora Portfolio (EUA), 230 páginas,
US$ 18 (R$ 30)

Lançamento no Brasil: fevereiro de 2011, Editora Saraiva
Reprodução

Esse novo modelo atraiu imitadores em boa parte dos países emergentes. No Brasil, quando a população elegeu Luiz Inácio Lula da Silva como presidente, em 2002, muitos investidores estrangeiros temiam que ele seguisse o caminho do presidente venezuelano Hugo Chávez, dando uma guinada radical para a esquerda. Apesar das garantias de campanha de que Lula manteria a disciplinada política de livre mercado, alguns temiam que ele voltasse atrás.

Isso não aconteceu. Sua reputação de esquerda o ajudou a construir um consenso em favor do capitalismo de livre mercado – dentro de certos limites. Hoje, com seu mandato no fim, ele continua muito popular no Brasil.

Lula, porém, não é nenhuma Margaret Thatcher. Ele acredita que seu governo tem uma responsabilidade com os pobres e com o fortalecimento (e não com a privatização) da maior parte das estatais remanescentes. Elegeu campeões nacionais de controle privado, especialmente em setores como mineração e telecomunicações. Empresas como a Petrobras e a Eletrobrás desempenham um papel mais importante, embora o governo trabalhe para atrair mais investimento privado.

Essas intervenções não chegam perto das que ocorrem na Rússia ou na China. Ainda assim, dois fatos importantes ameaçam levar o governo brasileiro a desempenhar um papel mais ativo na economia. O primeiro é a descoberta das reservas de petróleo do pré-sal, anunciada em novembro de 2007.

O governo já propôs mudanças na lei de 1997, que permitiu às empresas estrangeiras desempenhar um importante papel na exploração e na produção de petróleo, e quer assegurar que a Petrobras não perderá seu papel de liderança no setor.

O segundo fator potencial de mudança foi o impacto da crise financeira de 2008 no mercado interno. Com a desaceleração do comércio e a redução do crédito, o governo usou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal para injetar recursos no setor privado, aumentando a participação governamental em algumas das maiores empresas do Brasil.

Lula trabalhou para ajudar a criar campeões privados de capital nacional em alguns setores, com o objetivo de torná-los mais competitivos no mercado internacional. Mas, como essas empresas têm financiamentos de outras fontes, o Estado não pode controlá-las totalmente.

Em dezembro de 2008, o governo Lula anunciou planos de criar um fundo soberano. A ideia original era usá-lo para ajudar a financiar as empresas brasileiras no exterior e a desvalorizar o real, para estimular as exportações. O governo tomaria empréstimos em reais e compraria dólares para financiar as empresas brasileiras a comprar ativos no exterior.

A retração econômica mudou os planos. Agora, o governo quer que o capital do fundo (pouco abaixo de US$ 7 bilhões) ajude a financiar investimentos do Estado no Brasil e garanta recursos às instituições financeiras estatais.

Em outubro de 2010, os eleitores brasileiros irão às urnas para eleger o sucessor de Lula e terão de tomar uma decisão difícil. O Brasil não é um país de capitalismo de Estado.

Sua democracia permite o controle do poder do Estado, a opinião pública apoia o comércio e o investimento estrangeiro (inclusive no setor de energia) e seu fundo soberano é pequeno, se comparado aos da China e do Golfo Pérsico.

Mas, ainda que os eleitores decidam o voto com base em outras questões, o próximo presidente terá uma influência considerável na forma como o país vai desenvolver uma das maiores reservas de petróleo do mundo, o grau de abertura da economia e o tipo de exemplo que dará a seus vizinhos.

A Grande Depressão dos anos 1930 não destruiu o capitalismo de livre mercado, mesmo que as alternativas do comunismo e do fascismo tenham capturado a imaginação mundo afora. O capitalismo de livre mercado destruiu o fascismo, ofuscou o colonialismo e teve uma longevidade maior que o comunismo. Também sobreviveu a diversas crises criadas por ele mesmo. Por que ele é tão resistente?

Porque praticamente todas as pessoas valorizam a oportunidade de criar prosperidade para si mesmas e suas famílias, e porque o livre mercado provou diversas vezes que pode dar poderes praticamente a qualquer um. À medida que centenas de milhões de pessoas conhecerem como os outros vivem – do outro lado da rua e do outro lado do planeta –, elas se darão conta de que uns têm muito mais que os outros. Mas muitos também verão que a riqueza, como quer que a definam, não está mais fora de seu alcance.

À medida que nações antes isoladas se unirem à economia global, criando novos mercados para os bens e serviços que produzem, elas verão que a prosperidade pode ser contagiosa. As três últimas décadas provaram que o acesso ao livre mercado – e não apenas a ajuda financeira – pode incluir imensos contingentes de pobres na economia global.

Os mercados livres oferecem àqueles que deles participam vantagens de longo prazo que o capitalismo de Estado não pode atender.

Extraído do livro O fim do livre mercado, por acordo com a Editora Saraiva.


10 de julho de 2010 | N° 16392
NILSON SOUZA


Onde está a manteiga?

Dia desses, deparei com um curioso texto sobre as diferenças entre os cérebros masculino e feminino.

Um artigo intitulado “Por que os homens não passam roupa” explica que as diferenças comportamentais entre homens e mulheres devem-se menos ao condicionamento social, como a psicologia defendeu durante muito tempo, e muito mais a distinções biológicas identificadas por modernas pesquisas científicas e pelo mapeamento computadorizado do cérebro humano.

A tese inclui um histórico da formação de áreas diferenciadas na chamada massa cinzenta: o homem pré-histórico saía da caverna para buscar o alimento da família, por isso especializou-se em enxergar longe, em concentrar-se na caça (até para não ser caçado) e em encontrar o caminho de volta.

Já a mulher desenvolveu habilidades para proteger a casa, para fazer várias coisas ao mesmo tempo e para se comunicar bem com as outras mulheres da tribo. Daí, por exemplo e simplificadamente, a razão pela qual os homens são melhores para se localizar no trânsito e as mulheres são muito melhores no uso das palavras, especialmente da linguagem oral.

Antes que me joguem pedras, esclareço que a tese não é minha e que, logicamente, admite todas as exceções possíveis. Tem homem que passa roupa, sim. Tem mulher que pilota avião e chega ao seu destino sem dificuldades. A pesquisa, obviamente, se refere às características predominantes nos dois gêneros.

Mas o que mais me impressionou na matéria é a parte que explica por que os homens não encontram as coisas dentro de casa. Essa me bateu forte: abro a porta da geladeira e não acho o pote de manteiga.

Peço ajuda para minha mulher, ela vem e pega o pote na minha frente. Diz a pesquisa que nossos ancestrais masculinos desenvolveram a visão de longa distância para localizar e identificar a caça, mas aprenderam a concentrar-se unicamente nela. Já as damas das cavernas apuraram a visão periférica e hoje suas descendentes são capazes de enxergar uma multiplicidade de coisas ao mesmo tempo, além de distingui-las com muito mais facilidade e exatidão do que os olhares masculinos.

Claro que sempre vai haver dúvidas de um e outro lado. Se um homem tentar explicar para a mulher que não pode ajudá-la em casa porque seu cérebro não está programado para as repetitivas tarefas domésticas, corre o risco de levar o ferro de passar na moleira. Também será inútil para uma mulher justificar que se perdeu no trânsito porque o cérebro paleolítico de suas ancestrais só aprendeu a conhecer o interior da caverna.

Mas, embora sejamos de Marte e elas de Vênus, com diálogo e tolerância a gente se entende aqui na Terra.

quinta-feira, 8 de julho de 2010



08 de julho de 2010 | N° 16390
L. F. VERISSIMO


Costureiros

A Espanha costurou, costurou, costurou. Passou o jogo inteiro costurando. O que costuravam Xavi e Iniesta? O que costurava a Espanha? No fim foi revelado: a Espanha costurava a mortalha da Alemanha.

Mas não foi seu ataque costureiro que matou e empacotou a Alemanha. Foi sua defesa, que segurou o ataque alemão na hora do desespero final, seu meio-campo (Busquets espetacular), que engoliu o meio-campo alemão com Schweinsteiger e tudo, e um zagueiro, Puyol, que foi lá fazer o gol mortal.

Joachim Löw, técnico da Alemanha, tem o cabelo e a cara de quem estaria melhor numa mesa de café em Paris, discutindo filosofia. Dava para imaginá-lo, ontem, bebendo vinho e discorrendo sobre o Ser e o Nada. Com ênfase no Nada.

O cenário do jogo de ontem, o Moses Mabhida, em Durban, é o mais bonito dos estádios construídos para esta Copa. Mas sua vizinhança com um grande estádio de rúgbi que já existia e que, imagina-se, poderia muito bem ser adaptado para o futebol, faz dele também o exemplo mais evidente do desperdício de dinheiro que foi esta Copa, segundo seus críticos.

Outros estádios novos, como o da Cidade do Cabo e o Soccer City, aqui de Joanesburgo, também são belos monumentos à imprevidência. Não haverá publico para justificar seu gigantismo, nem para o futebol, nem para espetáculos musicais. Na remota possibilidade de a África do Sul voltar a sediar uma Copa do Mundo, eles estarão velhos, justificando outros estádios e mais desperdício.

Quem defende o investimento feito nos estádios alega que eles atingiram seu objetivo. A África do Sul provou que podia fazer a festa e impressionou o mundo, tanto com sua organização quanto com sua audácia arquitetônica. E, se ficam esses monstros ociosos na sua paisagem, bom, são monstros bonitos. E é próprio das grandes festas deixar detritos.

Por falar em ócio. Com os finalistas definidos, temos dois dias para pensar no que vimos aqui, fazer sumas e retrospectivas e, por assim dizer, o rescaldo da Copa. Esta é a minha sétima e, olha, não foi das piores que vi.

Tivemos jogos emocionantes e jogos de cortar o coração (não vamos citar nomes), lances brilhantes, lances embaraçosos (inclusive de juízes e bandeirinhas), tivemos o Maradona e tivemos, acima e ao redor de tudo, as vuvuzelas. E também será lembrado o que não tivemos: não tivemos o Cristiano Ronaldo, nem o Wayne Rooney, nem o Gourcuff, nem o Ribéry e nem, pensando bem, o resto do time da França. E a Itália, teria perdido o avião?

Domingo, outro projeto de trabalhos manuais espera a Espanha: costurar um saco para laranjas.

quarta-feira, 7 de julho de 2010



07 de julho de 2010 | N° 16389
MARTHA MEDEIROS


Índio quer apito

Muitas coisas desmotivam o eleitor brasileiro, desde os subterfúgios para escapar de lei Ficha Limpa até a corrupção incessante, que nunca arrefece, não importa quem esteja no governo. Eu me desmotivo por isso tudo também, mas principalmente pelos critérios com que hoje se escolhem companheiros de chapa: vale quem trouxer benefícios até o dia da eleição, e não benefícios após ser eleito.

O caso do vice de José Serra não é único, mas é o mais recente. Lendo as matérias sobre a escolha de Indio da Costa como candidato a vice, não li uma única frase sobre seus atributos como cidadão e homem público.

“Pressionado, Serra aceita deputado do DEM como vice”. Esta manchete está longe de ser o anúncio de um parceiro escolhido por ser competente e capaz de substituir o presidente no caso de esse faltar.

“Diante do risco de desmonte da aliança que sustenta sua candidatura...”, Serra engole o fulano que mal conhece. O importante é agradar à cúpula e aos crápulas.

“O nome que valerá três minutos na propaganda na TV.” Esse é o principal argumento a favor da escolha de um político que, por enquanto, só o que se sabe é que foi namorado da filha de Salvatore Cacciola, o que não é mérito nem demérito, é informação irrelevante.

O que importa são os três minutos a mais de espaço para convencer o eleitor de que o PSDB merece voltar ao governo. Talvez mereça. Talvez não. Como saber, se os interesses políticos passam tão longe dos interesses da população?

Não há mais nem o pudor de disfarçar. A portas fechadas, alinhavam-se os toma lá dá cá e a última coisa a que os candidatos se dedicam é formatar um programa de gestão que solucione de vez os problemas até hoje irremediáveis da nação brasileira. Não há espaço para inocência: sem o apoio de um partido e de outro, não se constrói uma candidatura com chances de vitória.

E, vencendo, será a hora de retribuir esse apoio, de distribuir cargos, de pagar a aposta feita. Uma dívida que não se esgota, que se retroalimenta, e disso vive a política, de conchavos e vaidades, de vitórias e derrotas contabilizadas nos corredores dos ministérios e nas votações em plenário, como se o QG do poder reunisse em si mesmo um país à parte, onde reside o único povo a quem se olha e protege: o povo chamado classe política.

O povo de fora não apita.

Uma ótima quarta-feira para vc. Aproveite o dia

terça-feira, 6 de julho de 2010



06 de julho de 2010 | N° 16388
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Quem terá sido Maria?

“Telefonar para Maria” – leio em uma velha caderneta de notas descoberta entre guardados da adolescência.

Quem terá sido essa Maria? – me pergunto. As garotas do tempo em que eu era bem jovem não se chamavam Maria. Atendiam por Laura, Ana Lúcia, Stella e mais uma centena de nomes em que Maria só entrava combinado com outros, tipo Tânia Maria.

Mas o que leio em minha caderneta é apenas Maria. Seria uma homenagem à senhora mãe de Jesus Cristo? Não creio. Aliás, sou um incréu. Naquelas recuadas épocas, por exemplo, só acreditava na beleza das meninas em flor, e isso que sequer tinha lido Proust.

Reflexão que me devolve à mensagem da caderneta de recados. Por que teria eu de telefonar para Maria? Maria me convidava para uma reunião dançante, na qual colaríamos a face contra a face? Maria precisava me passar uns segredos sobre a prova de Filosofia do vestibular de Direito? Maria me avisava que eu deixara em sua casa os documentos do carro Rover 52, que foi o mais fascinante que dirigi?

As possibilidades são infinitas. E é exatamente isso que me leva a pensar que, como a curta mensagem a respeito de Maria, a vida é feita de pequenos acontecimentos, de breves instantes.

Você sabe o dia de sua formatura na universidade e até um ou dois trechos do discurso do orador da turma. Você é capaz de reproduzir a vez em que autografou seu primeiro livro e até o leve tremor da mão nos segundos em que escreveu sua assinatura. Você não tem a menor dificuldade de reviver horas de triunfo, na sua vida ou na sua carreira.

Mas você enfrenta problemas para ressuscitar as horas em que nada de importante sucedeu, a não ser, talvez, um beijo roubado nos terraços da Reitoria, em noite de baile. Sou um ser escrevinhador e, durante longo tempo, nunca deixei de gravar o que acontecia comigo, quer em grandes diários, quer em pequenas cadernetas.

O que me levou a fazer isso? Quem sabe a ideia de que sobreviveria a mim mesmo. Quem sabe a conclusão de que cada pequeno momento vivido deveria ser toscamente eternizado. Pois é desses mínimos fragmentos que se tece a existência humana.

Essa é a real tessitura de nossa jornada sobre a terra. É como uma inesperada declaração de amor, apenas murmurada. É como o súbito canto de um pássaro desconhecido. Ou é como um simples nome, Maria, que jamais decifrarei de quem foi.

sábado, 3 de julho de 2010



04 de julho de 2010 | N° 16386
MARTHA MEDEIROS


Propaganda enganosa

Quando seus amigos perguntarem como é sua nova namorada, que é sósia da Alessandra Ambrósio, diga: “Dá pro gasto”

Passo dias olhando para o espelho, pensando: tenho que cortar meu cabelo. Não dá mais, não dá mais. Aí marco hora no salão do Hugo e, quando chega o dia, shazam: acordo com um cabelo de comercial de xampu. Tem sido assim desde que me conheço por gente: planejo tosá-lo (repica, Renê, repica!) e, no dia da chacina, ele amanhece sedoso, exuberante, e eu, que estava cheia de coragem, só aparo as pontinhas.

Situações inversas são ainda mais comuns. Você adora as roupas de uma loja, é cliente prefencial, faz sua visita a cada mudança de estação e nunca volta pra casa de mãos vazias, até que um dia resolve levar junto com você uma amiga que nunca esteve nesse antro de perdição, e chegando lá, não há um trapo que preste nas araras. Tudo sem graça, sem estilo, não é um azar que logo hoje a coleção estivesse tão desbotada?

Você fala maravilhas da sua cozinheira, guarda a moça a sete chaves como se fosse um bilhete premiado, não há quem faça um risoto melhor do que o dela, não há, nem em Milão, nem em Paris, e você vai demonstrar, convida um casal de amigos pra jantar na sua casa, eles chegam desconfiados e óbvio – óbvio, criatura! – que o risoto não vai sair do jeito que você anunciou, será mais um risoto entre todos os risotos, por que você não aprende?

Sua irmã retorna da praia uruguaia da qual você fez propaganda e, entortando o nariz, diz que não achou nada de mais. Sujeitinha implicante. No feriado seguinte você retorna ao local e não é que o paraíso perdeu mesmo o charme?

Você está nas alturas: “Gurias, estou saindo com um deus! Dá de goleada no Kaká e no Julio Cesar juntos. Vocês verão, ele está chegando aí, se comportem”. E o deus chega sem provocar suspiros em ninguém, e então você observa melhor e pensa: ele tinha que ter colocado essa camisa fúcsia e deixado esse bigodinho logo hoje?

E assim será com o sensacional médico que você recomendou e que irá perfurar o útero da sua prima numa cirurgia. Com o show de um grupo de jazz imperdível que colocará sua turma pra dormir. Com o hotel baratinho e limpíssimo em Nova York que você indicou pra sua cunhada, onde ela pegará sarna.

Tem jeito. Quando seus amigos perguntarem como é sua nova namorada, que é sósia da Alessandra Ambrosio, diga: “Dá pro gasto”. Quando voltar de Fernando de Noronha, comente: “Um lugarzinho simpático”. Quando levar amigos pra comer no restaurante do Claude Troisgros, faça muxoxo: “O peixe até que é razoável”. E não se fala mais nisso.

Lindo domingo para vc. Aproveite o dia.


O cidadão do mundo

Como obter cidadania de vários países e ter acesso aos melhores empregos
Edição: Luciana Vicária
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O valor da anuidade na universidade americana de Yale, uma das mais concorridas do mundo, depende da nacionalidade do aluno. O cidadão americano paga, em média, 50% menos que os estrangeiros. Vantagem parecida leva um europeu em uma disputa de emprego na Inglaterra.

Para se candidatar a uma vaga divulgada na última semana na empresa de energia inglesa BG Group, exigia-se – além de fluência em inglês, experiência internacional e boa formação acadêmica – cidadania europeia. Logo, a forma de concorrer em condições de igualdade é ter a segunda ou terceira cidadania. Saiba como obtê-la, assim como as vantagens e os riscos de ter vários passaportes.

A cidadania abre portas – e muitas – para os estrangeiros. Ao se tornar cidadão de algum membro da União Europeia, você poderá estudar, trabalhar e morar em qualquer um dos 27 países que dela fazem parte. Sem trâmites burocráticos. “As fronteiras ficam menores. As possibilidades se multiplicam”, diz a advogada Andrea Girello, especialista em obtenção de cidadanias europeias.

Para quem não tem a cidadania herdada de antepassados e tem um país como meta, a dica é começar pelo domínio do idioma. O publicitário Fernando Hudson sempre foi fascinado pela Alemanha. Visitou o país quatro vezes na adolescência e estudou a língua, que passou a dominar. Foi ela que facilitou seu acesso.

Fernando navegava por sites de emprego da Alemanha e se cadastrou em vários deles. Menos de um ano depois de se formar em publicidade, estava trabalhando no país com um visto provisório, que foi renovado até ele obter a cidadania. Hoje, mora em Berlim e compõe jingles em alemão.

Outra forma de encurtar o caminho da cidadania é oferecer ao país o que ele mais precisa. Joanna Magalhães é graduada em informática. Ela sonhava em se mudar para a Nova Zelândia, país que facilita a entrada de profissionais nessa área. Saiu do Brasil com emprego garantido e visto de residência permanente.

“É preciso estar atento à demanda por profissionais”, diz Joanna. “Muda o tempo todo. Em algum momento podem estar procurando alguém de sua área.” Mas Joanna avisa que o processo exige perseverança: “Eles quiseram ter certeza de que eu não estava interessada apenas no seguro-desemprego vitalício e nos excelentes serviços de saúde e educação do país”.

Pedidos de segunda cidadania aumentaram 30% nos últimos cinco anos, de acordo com um estudo feito por organizações que monitoram a imigração, entre elas o Escritório de Cidadania e Naturalização dos Estados Unidos. Mas muitos dos brasileiros que procuram outros passaportes não querem sair do país. A demanda por outras cidadanias não tem relação direta com imigração.

O chef Carlos Bertolazzi, por exemplo, pretende expandir seus negócios em São Paulo. Mas, para isso, ele diz que ajuda ter trânsito livre lá fora. O passaporte italiano de Bertolazzi foi decisivo para que conquistasse uma vaga em um trabalho na Espanha, ao lado do lendário chef espanhol Ferran Adrià. A cidadania europeia também deu acesso a cursos abertos apenas para cidadãos europeus.

Bertolazzi é descendente de italianos. O empresário e pastor Marcello Malizia também. Ele migrou para Londres com a família sem dificuldades. Como cidadão europeu, pode morar onde tiver as melhores condições de emprego. Ganha a vida com transporte de vans na Inglaterra, mas pode ir atrás de oportunidades melhores. “Estou sempre atento ao que acontece nos outros países da Europa”, afirma. “As fronteiras deixaram de ser obstáculos.”

A cidadania mais difícil de ser adquirida é a americana. Para conseguir o green card, o bancário paulista Alexandre Figueiredo fez graduação e trabalhou mais de dez anos nos EUA. Descendente de portugueses, hoje tem tripla cidadania. E transmitiu as três a suas duas filhas. “São americanas, brasileiras e portuguesas”, diz. “Poderão estudar e trabalhar onde quiserem.”

Autoridades americanas e europeias estão cada vez mais atentas a golpes imigratórios. No último ano, nos EUA, a polícia identificou mais de 200 estrangeiros com casamentos arranjados. Eles não só perderam o green card, como a chance de voltar ao país. Se a sorte não ajudou com um ascendente americano ou europeu, a melhor alternativa é tentar um intercâmbio de estudos e trabalho.


Arq. Pessoal e Rogério Cassimiro
MOBILIDADE

Malizia, com a família no Hyde Park, em Londres. A cidadania italiana permite que ele more em Londres. Ao lado, o chef brasileiro Bertolazzi, em seu restaurante, em São Paulo. Passaporte europeu deu acesso a um curso exclusivo na Espanha

O caminho do segundo passaporte

As principais regras para conquistar a cidadania em outros países e o que mais atrai os brasileiros



03 de julho de 2010 | N° 16385
NILSON SOUZA


Atrás da Jabulani

As vuvuzelas espantaram minha mulher do sofá. Tenho visto os jogos da Copa sozinho quando estou em casa. Não que ela seja uma excepcional companheira para o futebol: o normal é que fique lendo as propagandas colocadas à margem do gramado enquanto arregalo os olhos para não perder os lances de gol.

Mas sempre é bom ter alguém para me ouvir quando discordo do árbitro ou aplaudo alguma jogada de habilidade – coisa rara neste Mundial em que inventaram uma bola com vontade própria.

Sou um veterano de Copas. Por obrigação profissional, mas também por gostar de esportes, estive presente nas competições da Argentina, da Espanha e da França. E acompanhei todas as outras com igual atenção, sempre em alguma Redação de jornal, atrás de uma máquina de escrever ou de um computador.

Nunca, porém, vi uma Copa com tantos detalhes como a atual: a tal supercâmera lenta é o grande gol deste Mundial. Os caras chutam torto, dão trombadas, erram em bola, mas a tecnologia maquia tudo e transforma o fiasco em espetáculo.

As imagens são incríveis: tufos de grama desprendem-se do chão, gotas de suor viram chuva depois de uma cabeçada, os rostos se contraem no esforço e resplandecem nas comemorações, o mínimo puxão de camisa ganha total visibilidade.

Nada escapa ao aguçado olhar eletrônico. Outro dia, as câmeras flagraram o treinador alemão colocando o dedo no nariz e protagonizando as cenas mais constrangedoras da Copa. Em compensação, as tomadas de público têm sido espetaculares. Mostram o colorido dos rostos pintados, as fantasias com as cores nacionais, as bandeiras, os torcedores exóticos e as torcedoras bem produzidas.

Aparecer no telão do estádio é a maior glória para qualquer torcedor. Há tanta coisa bonita e diferente para ver, que de vez em quando baixo o som e suplico a presença de minha companheira no sofá.

Esse jogo de concessões me faz lembrar uma anedota que circulou pela Redação outro dia, em plena Copa. Depois de 20 anos de matrimônio, casal vai ao psicólogo. Ele pergunta o que há e a mulher sai disparando: “Pouca atenção, falta de intimidade, vazio, solidão, não se sentir amada, ser relegada em função dos amigos, do futebol, não ser valorizada...”

O jovem e bem-apessoado terapeuta ergue-se, pede para a mulher ficar de pé, abraça-a e a beija apaixonadamente, diante do olhar desconfiado do marido. Em seguida, volta-se para ele e diz: “Isso é o que a sua esposa necessita pelo menos três vezes por semana. Pode continuar este tratamento?”.

O marido pensa um pouco e responde:

“Bem, posso trazê-la às segundas e quartas. Mas na sexta tenho futebol com o pessoal”.

quarta-feira, 30 de junho de 2010



30 de junho de 2010 | N° 16382
MARTHA MEDEIROS


Lady Gagá

Existe uma cantora com visual bizarro que, com apenas 24 anos, já vendeu 10 milhões de CDs e alcançou a marca impressionante de 180 milhões de visitas aos seus clipes no YouTube. Você sabe de quem estou falando, Lady Gaga, a original.

O que eu e ela temos em comum? Também ando ligeiramente bizarra, tanto que poderia adotar para mim o mesmo nome artístico, só que com acento agudo no último a. Lady Gagá.

Não saio por aí com uma lagosta na cabeça, como a referida popstar: minha única excentricidade é não saber mais quem é quem. Outro dia estava no súper, prosaicamente empurrando meu carrinho de compras, quando uma moça simpática passou por mim em sentido contrário e disse: “Bom dia, vizinha”.

Respondi com o melhor bom-dia que já ofereci a uma estranha, e não caí em prantos por uma questão de adequação, já que não convém chorar em supermercados, nem mesmo quando você não consegue mais ler os prazos de validade sem óculos. E tampouco com óculos.

Então ela morava no mesmo prédio que eu? Maravilha. Já devo tê-la encontrado uma dúzia de vezes no elevador, na garagem, na portaria, na reunião de condomínio, e não a reconheci. E ainda tenho a pretensão de que me julguem uma pessoa simpática.

Minhas amigas dizem que tenho que aceitar a realidade: sou considerada blasé por muitas pessoas, pois não as cumprimento na rua. E não adianta alegar que sou a pior fisionomista do globo terrestre, meus oponentes não querem saber de esclarecimentos. Só quem me conhece intimamente sabe que nasci com esse defeito de fabricação e me perdoa.

E quem me conhece superficialmente não percebe nada e por isso não me acusa – até que me encontre pela segunda vez e eu não o cumprimente.

Sim, já me sugeriram a mesma solução que você talvez tenha pensado agora: então por que essa criatura não cumprimenta todo mundo? Se eu estivesse interessada em me candidatar a presidente, quem sabe.

Já escrevi sobre esse assunto e volto a ele para tentar um habeas corpus, qualquer coisa que amplie meu prazo de soltura, antes que a Interpol me capture e me extradite para meu planeta de origem.

A verdade, nada além da verdade, é que eu tenho deficiência para reconhecer pessoas fora do ambiente em que as conheci, então se jantei num restaurante com um casal pela primeira vez, só irei lembrar deles no mesmo restaurante, e nunca na saída do Beira-Rio, e se fui apresentada a algum editor durante um evento literário, a chance de eu reconhecê-lo num ponto de táxi é menos que zero, e, querida vizinha, fora do nosso elevador social, eu estava em franca desvantagem, compreenda.

Sabedores disso, sigam confiando na minha educação e simpatia, mesmo que eu aparente ser uma ratazana insensível.

Tenham piedade dessa lady que já mal reconhece a si própria no espelho.

Lindo dia para vc. Aproveite a quarta-feira

terça-feira, 29 de junho de 2010



29 de junho de 2010 | N° 16381
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Receita de inverno

Neste inverno que está começando, não gostaria de desejar a mulher do próximo, por mais sedutora que ela me parecesse.

Não gostaria de invejar os amores felizes, por mais secretos que eles se mantivessem.

Não me agradaria cometer o pecado do arrependimento, porque no fundo sou um homem absolvido.

Não ousaria pedir um olhar da deusa que amo em silêncio.

Não projetaria nenhum grande plano, porque me servem os minúsculos com que se distrai meu coração.

Não abandonaria a leitura dos muitos livros que percorro, pois todos eles têm segredos a contar-me.

Não calaria a música que escuto ao entardecer, já que ela é a protofonia dos sonhos que virão com a noite.

Não deixaria de assistir ao filme em que se resumem todos os caminhos da imaginação.

Não esqueceria de telefonar à amiga que autossentenciou-se à solidão em seu branco apartamento indevassável.

Não me isentaria de escutar o concerto de todos os pássaros a cada manhã.

Não me cansaria de contemplar a magia plástica deste quadro que me dá a honra de sua companhia.

Não faltaria à peça de teatro em que o enredo e os personagens espelham a própria vida.

Não perderia a noção de que a existência é um caminho oculto, de que só nós temos a chave.

Não esqueceria os amigos, pois eles são a senha de nossa trajetória sobre a Terra.

Não olvidaria o passado, já que é o prumo de tudo o que somos e do que seremos.

Não desdenharia o presente, posto que é a singradura do que vivemos.

Não me inquietaria o futuro, porto seguro do amanhã que construo hoje.

Não me dariam saudades os idos amores, eis que se completaram em si mesmos em seus círculos perfeitos.

Não me inquietariam os amores de agora, ecos de sua suave irrealidade.

Não me preocupariam os amores de amanhã, reflexos de momentos ainda por desvendar.

Assim gostaria que fosse este inverno que está começando, íntegro e perfeito tanto quanto pode a circunstância humana.


9 de junho de 2010 | N° 16381
CLÁUDIO MORENO


Moral e civismo

Um juramento – Na Grécia antiga, a passagem para a idade adulta era marcada por várias cerimônias formais. Para se tornar cidadão, todo ateniense que completasse dezoito anos se obrigava, entre outras coisas, a fazer um juramento solene, diante dos deuses e dos homens.

Este belíssimo texto, do qual nos chegaram várias versões, rezava mais ou menos o seguinte: “Não desonrarei as armas de meus antepassados, nem abandonarei meu companheiro na batalha. Lutarei na defesa de nossos deuses e de nosso povo, até mesmo sozinho, se necessário.

Transmitirei a meus filhos uma pátria melhor e mais próspera que esta que agora recebo. Respeitarei as ordens dos magistrados e as leis que o povo decidir de comum acordo; se alguém ameaçar essas leis ou a elas desobedecer, eu as defenderei...” – e por aí afora. Sempre que leio essas linhas, sinto ao longe o raro perfume de flores já quase extintas.

Função dos governantes – Quando Demétrio conquistou a Macedônia, ninguém gostava dele. O povo não se queixava de suas roupas extravagantes nem do luxo supérfluo que mantinha no palácio, mas sim da extrema dificuldade em ter acesso ao novo rei para, como era o costume, apresentar-lhe seus pedidos de justiça. Certa feita, andando pelas ruas com sua comitiva, deixou-se cercar por populares entusiasmados, que aproveitaram a ocasião para lhe entregar suas petições.

Com ar alegre, o rei ia recolhendo todos aqueles pergaminhos na aba levantada de seu manto, e a multidão, encantada com a mudança, começou a segui-lo, entre risos e aplausos – até que ele chegou à ponte sobre o rio Axius e ostensivamente jogou todos aqueles rolos na correnteza.

Um dia, porém, teve o passo atalhado, na rua, por uma resoluta mãe de família que se pôs a implorar, insistentemente, que ele a ouvisse. “Não tenho tempo para isso”, declarou, desdenhoso – ao que ela retrucou, furiosa: “Pois então não seja rei!”. Essas palavras tocaram Demétrio de tal maneira que passou vários dias a receber, no palácio, todo cidadão que desejasse falar com ele – a começar, é claro, pela indignada cidadã que soube reivindicar seu direito.

O nome na lista – Alexis de Tocqueville, nas suas Recordações da Revolução de 1848, fez questão de incluir um incidente menor, mas extremamente significativo para quem estuda o caráter dos homens:

em meio àquela grande confusão social, os revolucionários, para anunciar ao povo a lista dos cidadãos que comporiam o Governo Provisório, foram pedir a um dos líderes, Lamartine, que lesse os nomes em voz alta, do topo da escadaria.

“Não posso”, disse ele. “Meu nome consta nela”. Procuraram então um tal Crémieux, a quem fizeram o mesmo pedido. “Vocês estão malucos”, respondeu, “se pensam que eu vou ler uma lista em que não aparece meu nome!”.

quarta-feira, 23 de junho de 2010



23 de junho de 2010 | N° 16375
MARTHA MEDEIROS


Parece, mas não é

Creio que já contei essa história umas sete vezes, mas vamos para a oitava: quando guria, participei de uma gincana escolar em que uma das tarefas era levar ao colégio um jogador de futebol de seleção.

Não me pergunte como, mas quando vi estava na casa do Figueroa, zagueiro do Inter, que na época defendia a seleção do seu país, o Chile. Ele combinou comigo que dali a uma hora estaria no Bom Conselho assinando sua presença para minha equipe.

Dei umas voltas e, quando cheguei ao colégio, soube que ele já havia estado lá e ido embora, mas garantiram que havia assinado para a equipe da Martha Medeiros – foi quando eu descobri que havia outra Martha Medeiros no colégio, que ficou com os pontos que eram nossos.

Minha primeira homônima não me deixou boas lembranças, mas agora tenho uma outra que rende histórias divertidas. Aliás, o verbo render está bem empregado aqui, pois ela é uma estilista de Maceió que usa renda na maioria das suas belas roupas, e ela está cada dia mais famosa, tem loja em São Paulo e suas criações já estamparam editoriais da Elle, Vogue e outras revistas de moda. Se eu a conheço? Ainda não pessoalmente.

É uma frase que nunca imaginei escrever: eu só conheço a Martha Medeiros por telefone. E a gente ri muito com as confusões que são geradas por termos o mesmo nome. Eu não possuo site oficial, ela sim: www.marthamedeiros.com.br. Já cansei de receber e-mails de leitores que entram no site e, distraídos, se surpreendem por eu, além de escrever, ser uma stylish reconhecida e prestigiada. Logo eu, que mal sei pregar um botão.

Por outro lado, ela me contou que uma vez se hospedou num hotel em Brasília. Chegou à recepção e teve uma surpresa: o gerente havia trocado o apartamento standard que ela reservara por uma suíte master. Ao entrar no quarto, flores e uma cesta de frutas a aguardavam, com um singelo cartão: “Seja bem-vinda ao nosso hotel. Gostamos muito do que a senhora escreve”.

Ela, educadíssima, desfez a confusão, e o gerente do hotel, igualmente educado, a manteve na suíte master, óbvio. Quando ela me contou, às gargalhadas, sobre as mordomias que estava desfrutando em meu nome, não acreditei: “Já estive em tudo quanto é hotel do Brasil e nunca me transferiram para uma suíte master, é injusto!”. E ela tripudia: “Comigo já aconteceu duas vezes por sua causa”.

Ela está no extremo norte e eu no extremo sul do país, eu costurando minha carreira de escritora, ela escrevendo sua história como estilista. Um programa de TV já tentou nos reunir para uma entrevista, mas acabou não rolando. Pena. Será que tenho afinidades com a Martha Medeiros?

Quase todas as pessoas com nomes simples possuem homônimos espalhados pelo Brasil. Não duvido que haja quem pense que foi nosso vice-presidente quem escreveu Iracema.

Isso pode ser divertido e pode ser um incômodo, no caso de seu homônimo ser um assassino procurado pela polícia. No caso da Martha e do meu, é apenas uma graça que a vida nos concedeu. Mas ai dela se fizer alguma besteira. E ai de mim. Agora temos um nome a zelar por nós duas.

terça-feira, 22 de junho de 2010



22 de junho de 2010 | N° 16374
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Muito mais amadas

Amar tem algo a ver com o tom da pele, a cor dos olhos, a textura dos cabelos? Mais uma vez me convenci que não, no último domingo.

Eu estava num dos restaurantes mais frequentados de Porto Alegre quando de repente notei que diante de mim se desenrolavam duas cenas de puro afeto.

À minha frente, na mesa da esquerda, um menino interrompia o que quer que estivesse fazendo para abraçar e beijar, sem motivo ou razão, seus pais adotivos. Na mesa da direita, uma menina fazia a mãe sorrir com seus modos serelepes.

Como sei que eram filhos de adoção? Ora, isso se nota. O menino era de um moreno acentuado, e seus pais muito louros. A menina era negra, e sua mãe muito clara.

Mas havia algo que os irmanava, pouco importam todos os matizes do universo. Era o amor. Era o modo com que o menino abraçava e beijava seus pais. Era a maneira com que a menina exorcizava todos os fantasmas íntimos de sua mãe, provocando-lhe um sorriso.

Sei que há um enorme debate sobre a adoção, e que as posições em torno do tema são não raro radicais. Não sou ninguém para pôr a minha colher em uma discussão em que estão envolvidas altas autoridades na matéria.

Ainda assim, como um simples cronista, gostaria de dizer duas ou três palavras sobre um embate ao qual não fui chamado.

A primeira delas é que os casais sem filhos têm, mais que o direito, o dever de adotar crianças largadas ao mundo.

Mais do que isso, que esses casais têm uma missão. Mais do que proporcionar uma vida confortável a seus filhos, livre da fome, da penúria e das humilhações, de garantir-lhes algo além do conforto. Falo do amor que não exige resposta.

Mas ainda há algo além do além. Quando não tiverem olhos azuis e cabelos claros, seus filhos devem sentir-se à mesma altura de seus amigos e colegas, pois todos são seres humanos.

E não é só. Jamais, em momento algum, os filhos adotivos devem se dar por inferiores àqueles que nasceram de uma gestação há muito projetada.

E por fim, mas não menos relevante, as crianças escolhidas não porque foram planejadas, mas porque foram desde sempre queridas, devem ter consciência de que são muito mais amadas.

Neste segundo dia de inverno um lindo dia para você e para quem está de aniversário hoje, os Parabéns com carinho.

sábado, 19 de junho de 2010



20 de junho de 2010 | N° 16372
MARTHA MEDEIROS


A vida sem rodinhas

Quando é que sabemos que estamos aptos a andar por nossa conta?

Lembro que nos momentos importantes da infância, e também nos desimportantes, meu pai estava sempre a postos empunhando uma máquina fotográfica. A consequência disso? A cada gaveta que eu abro aqui em casa, jorram fotos diversas, sem contar as que estão confinadas em álbuns e porta-retratos. Dessas tantas, há uma pela qual tenho um carinho especial: é uma foto em que estou andando de bicicleta, aos 5 ou 6 anos de idade.

Naquele dia eu andei sem rodinhas pela primeira vez. Dei várias voltas sem cair, até que meu pai clicou o flagrante: a pirralha com a maior cara de vencedora, dona do campinho, se achando. Eu realmente estava degustando aquela vitória. Se a foto tivesse legenda, seria: Viu?.

As rodinhas são uma base protetora para iniciantes, uma segurança para quem ainda não tem domínio da coisa. Que coisa? Qualquer coisa. Me corrija se eu estiver errada: a gente usa rodinhas até hoje.

Quando se escreve um livro, por exemplo, as rodinhas são a parte não ficional, o sentimento de verdade, vivido, com o qual a gente ampara a ficção.

Quando se tem um filho, as rodinhas são a herança da educação que nossos pais nos deram, a parte hereditária que, mesmo questionada, sustenta nossas primeiras decisões.

Quando nos apaixonamos, as rodinhas são a repetição de certos clichês, a apresentação dos nossos ideais e certezas, mesmo sabendo que em breve entraremos em terreno movediço, desconhecido.

Quando se aceita um emprego, as rodinhas são a nossa experiência anterior, o que facilita a arrancada, mas depois é preciso andar sozinho.

Sempre chega a hora de tirar as rodinhas. Medo e êxtase.

Viver sem elas torna tudo mais perigoso, vulnerável, e ao mesmo tempo, emocionante. Nos faz voltar a ser crianças: será que estou agindo certo, será que não estou indo rápido demais, ou lento demais? Atenção: lento demais, cai.

É preciso saber viver sem um suporte contínuo, para que se possa firmar o próprio caráter. Quem não sai da barra da saia da mãe, nunca consegue se equilibrar sozinho. Quem não solta a mão do pai, não vira homem.

Não se trata de dispensar amor. Estamos falando de rodinhas, lembre. Apoio.

Quando é que sabemos que estamos aptos a andar por nossa conta? Se o assunto é bicicleta, aos 5, aos 6, aos 7, até aos 10 anos, dependendo do ritmo e da estabilidade de cada um.

Quando se trata da vida, também depende. Mas usá-las para sempre te impedem de sentir o gostinho de conseguir, de vencer, de atingir suas metas por si só.

Te impedem de perguntar: “Viu?”.

Permita que os outros vejam o quanto você pode.


O pássaro que ruge

O locutor esportivo mais conhecido do Brasil foi alvo da campanha "Cala boca Galvão" no Twitter, que mostrou até onde a rede de 140 caracteres pode levar um assunto: o mundo

Jadyr Pavão Júnior e Rafael Sbarai - Joel Silva/Folhapress
"SALVEM O GALVÃO"



Imagem do vídeo que se seguiu à frase do Twitter: grandes jornais e sites de notícias se interessaram pelo assunto

Ferir com palavras, pondo para circular histórias falsas com o objetivo de irritar ou destruir alguém, é uma prática tão antiga quanto a história humana. A humanidade viajava ainda à velocidade de 16 quilômetros por hora das carroças, mas as notícias ruins e fofocas já pareciam ter asas. As línguas de trapo mal esperavam o conquistador romano Júlio César, talvez o mais celebrado general e estadista de todos os tempos, sair de Roma para começar seu trabalho de intriga e destruição.

Conforme registrou o historiador Gaius Suetonius Tranquillus, morto por volta do ano 122 da era cristã, o patriciado "punha para circular histórias" dando conta de que César arrancava todos os pelos do corpo com pinças e era chamado de "marido de todas as esposas e esposa de todos os maridos". Foi assim antes com gregos, macedônios e egípcios. As maledicências continuaram viajando mais rápido na Idade Média, durante e depois da Revolução Industrial. O que há de novo nesse campo?

A internet. Se já voavam de ouvido em ouvido, as fofocas e falsidades ganharam o dom da instantaneidade com os milhões de computadores, celulares e tablets de todo o planeta interconectados por uma rede em que, pela primeira vez na história, todas as máquinas se comunicam na mesma linguagem, sem incompatibilidades nem fronteiras.

A fofoca digital pode criar verdadeiros tsunamis que chicoteiam o globo jogando as opiniões de milhões de pessoas de um lado para o outro. Antes que alguém possa verificar a verdade de um fato, sua versão ou versões já se tornaram o fenômeno. O caso que engolfou o locutor Galvão Bueno, a voz oficial das Copas do Mundo e das Olimpíadas nas transmissões da Rede Globo, é uma amostra do poder dessas novas correntes de pensamento criadas na internet. "Cala a boca, Galvão" era uma tirada que já circulava por aí fazia anos. Há pouco mais de uma semana, contudo, ela ganhou o mundo.

Postada por usuários no Twitter, a rede social de troca de mensagens de até 140 caracteres, a frase CALA BOCA GALVAO - assim mesmo, em letras maiúsculas, sem vírgula e sem acento - virou hit e se manteve entre os dez assuntos mais comentados do serviço da internet durante toda a semana. Os brasileiros aumentaram a fervura, atribuindo sentidos absurdos à frase: segundo uma das versões, em português, cala boca significaria salve, e galvão, o nome de um pássaro em extinção. Alguns dos maiores sites e jornais do mundo, como o The New York Times, tentaram decifrar a brincadeira, e assim a difundiram ainda mais.

Justin Sullivan/Getty Images
O CONCORRENTE


Mark Zuckerberg, do Facebook: empate com o Twitter no Brasil em número de visitantes únicos

Nascido em 2006 como ferramenta para facilitar a troca de mensagens de trabalho via celular, o Twitter teve uma vida discreta por aproximadamente um ano, até que, durante um festival de música americano, percebeu-se que ele não precisava ficar restrito às empresas. Durante o evento, o número de posts diários saltou de 20 000, em média, para 60 000. Uma luz se acendeu na cabeça de seus criadores - jovens empreendedores do Vale do Silício, na Califórnia, com o programador Biz Stone à frente.

A ideia das mensagens curtas não era propriamente uma novidade: os torpedos de celular (SMS) já permitiam apenas 160 caracteres. Mas ao adotar o slogan "O que você está fazendo?" o Twitter se apresentou como uma ferramenta que oferecia algo diferente: um canal para as pessoas dizerem ao mundo o que sentem, pensam ou fazem no exato momento em que teclam.

A outra característica crucial do Twitter era permitir que aqueles que de outra forma jamais se aproximariam se ligassem numa rede de seguidos e seguidores. Inicialmente, o esforço para acumular seguidores tinha ares de brincadeira. Ostentar um grande número de fãs era um galardão vazio.

Mas, no começo de 2009, quando o ator Ashton Kutcher e a rede de TV CNN disputaram tweet a tweet quem atingiria antes a marca de 1 milhão de seguidores (ele venceu), já estava claro que o Twitter não precisava ser apenas um amplificador de vaidades e irrelevâncias.

Atualmente, há 105 milhões de usuários do Twitter espalhados pelo mundo. Todos os dias, 600 milhões de buscas e 65 milhões de mensagens movimentam a rede. Por mês, são 190 milhões de visitas únicas. Esses números fazem do Twitter a segunda maior rede social do planeta, atrás do Facebook, com mais de 400 milhões de pessoas (a rede Qzone tem 310 milhões de usuários, mas só na China, em mandarim). No Brasil, a ferramenta é vice-campeã em número de acessos, ao lado do Facebook, com 10,7 milhões de visitantes únicos ao mês, atrás do Orkut, com 26,9 milhões.

A sede do Twitter, em São Francisco, reúne um pequeno corpo de funcionários: 175. Como tantas iniciativas revolucionárias da internet, o modelo de negócio da empresa ainda não está claro. Gigantes da web já tentaram "abocanhar o passarinho", símbolo do Twitter. Em 2008, o Facebook teria posto sobre a mesa de seus donos uma oferta de meio bilhão de dólares. Um ano depois, foi a vez do Google.

Biz Stone explicou por que as ofertas foram recusadas: "O Twitter está focado em desenvolver novas funcionalidades e em permanecer independente". Em 2009, a empresa fechou as contas no azul graças a uma parceria com Microsoft e Google. Pelo acordo, avaliado em 25 milhões de dólares, as gigantes passaram a incluir tweets nos seus resultados de buscas na web.
AFP

DESAFIO AOS AIATOLÁS

A iraniana Neda Agha-Soltan é baleada durante protesto em Teerã: o Twitter ajudou os manifestantes a expor a repressão


Em quatro anos, o Twitter já provocou impactos na política, nos negócios, na cultura do entretenimento. O exemplo mais extraordinário de suas potencialidades deu-se há um ano, nas eleições iranianas. Em repúdio à reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, alinhado com o regime ditatorial dos aiatolás, uma fatia da população recorreu à rede para denunciar fraudes na apuração, organizar protestos nas ruas de Teerã e divulgar imagens da repressão policial.

O movimento chegou a ser saudado como "revolução do Twitter". "Numa rede como essa, a voz das pessoas comuns ganha enfim dimensão pública", diz Tim Hwang, do Web Ecology Project, centro de estudos sobre a internet da Universidade Harvard.

O Twitter também se mostrou eficaz num contexto político democrático. Nas eleições americanas de 2008, o então candidato democrata Barack Obama fez uso da ferramenta para mobilizar a militância, arrecadar fundos e conquistar novos eleitores. No Brasil, os três principais candidados à Presidência - José Serra, Dilma Rousseff e Marina Silva - tuítam.

"Todos os políticos brasileiros vão querer ser o Obama da eleição deste ano", vaticina Alex Primo, pesquisador de redes sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Com base nos dados do IBGE e do Comitê Gestor da Internet no Brasil, o consultor em marketing digital Cláudio Torres calcula que 18% do eleitorado é formado por jovens entre 18 e 24 anos com acesso à internet - e, portanto, expostos às campanhas on-line.

O mundo empresarial já abraça o Twitter, uma ferramenta poderosa para anunciar e interagir com os consumidores. Uma pesquisa realizada em fevereiro com companhias americanas reflete a tendência. Segundo a Society for New Communications Research, mais de um terço das 500 maiores empresas listadas pela revista Fortune usa o Twitter de forma consistente.

Companhias de diversos segmentos utilizam a rede para se relacionar com o seu público de forma mais íntima e instantânea, além de oferecer promoções exclusivas aos seus seguidores. O ator Ashton Kutcher, que, antes de bater a CNN, era mais conhecido como o namorado bonitão da atriz Demi Moore, foi outro que aprendeu a fazer negócios no Twitter. Ele dominou tão bem a arte de falar com seguidores em 140 caracteres que se tornou uma espécie de guru. Abriu uma consultoria, a Katalyst, voltada às novas mídias.

No campo do entretenimento, o Twitter transforma anônimos em famosos e abre novos horizontes para os célebres. No Brasil, quem despontou graças aos microposts foi Tessália Serighelli de Castro, que até adotou o apelido Twittess em homenagem à mãozinha recebida do Twitter.

Colecionadora de 60 000 fãs quando ainda era anônima, ela foi convidada pela Globo para participar do Big Brother Brasil 10. O âncora do Jornal Nacional, William Bonner, está no segundo time, dos usuários que, já célebres, abriram uma nova seara na rede.

Ele aumentou sua claque de seguidores à base de comentários fortuitos sobre o noticiário, recados para a mulher, Fátima Bernardes, e consultas como: "Que gravata usar na próxima edição do Jornal Nacional?". As mensagens curtas se mostraram propícias a bate-bocas inusitados.

Na semana passada, em um de seus monólogos radiofônicos, o ditador venezuelano Hugo Chávez jurou que Ricky Martin era um chavista. O cantor acionou imediatamente seu 1,2 milhão de seguidores para desmentir o coronel. O ex-menudo ainda emendou, usando uma hashtag, marcação típica do Twitter: "# free Venezuela". ("Libertem a Venezuela").

Em boa parte do tempo, o Twitter é uma espécie de vuvuzela da internet, que apenas amplifica o nada. Mas, por sua velocidade, mobilidade e alcance, é uma plataforma que, em certas circunstâncias, parece "dar poder ao homem comum", como gostam de dizer alguns teóricos. "É como se cada indivíduo tivesse seu próprio meio de comunicação", diz o sociólogo francês Michel Maffesoli. Empresas e celebridades já se viram em apuros por causa do Twitter. Formou-se um certo conhecimento sobre como agir nessas situações.

No episódio do CALA BOCA, a Globo mobilizou artistas de seu elenco acostumados a usar a rede para que defendessem Galvão Bueno. Na terça-feira, dia da estreia do Brasil na Copa, a emissora fez com que Galvão falasse do episódio numa entrevista. Ele disse aceitar tudo como brincadeira, e isso minimizou os danos à sua imagem. Mas o passarinho do Twitter deixou sua marca no ombro do locutor.

Bem, amigos...
Divulgação
A VOZ DO BRASIL

Com façanhas marcantes e gafes inesquecíveis, Galvão Bueno é, há mais de trinta anos, o narrador esportivo número 1 do país

Desde 1978, quase todas as glórias e tristezas do esporte brasileiro chegaram aos olhos, ouvidos e corações dos telespectadores pela narração rascante, emocionada e ufanista do locutor carioca Carlos Eduardo dos Santos Galvão Bueno, que está às vésperas de completar 60 anos.

Fosse a conquista do pentacampeonato mundial de futebol de 2002 - quando transmitia os gols de Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo multiplicando os erres até não poder mais, uma de suas marcas registradas -, a morte na pista, em 1994, de seu amigo Ayrton Senna, cujos 41 triunfos ele anunciava ao som do Tema da Vitória, ou as medalhas olímpicas do vôlei, lá estava no ar a voz mais ouvida do país.

Dono de uma audiência cativa, Galvão Bueno é tão admirado que em qualquer estádio em que esteja presente são desfraldadas faixas nas arquibancadas com seu nome. E ao mesmo tempo tão achincalhado - nos jogos, na imprensa, nos programas humorísticos, na internet - que teria todos os motivos do mundo para andar de mau humor. Ele acha graça de tudo, sempre sorridente, falando sem parar, cheio de si, dono da verdade, a começar pelo episódio da campanha "Cala boca Galvão".

Capaz de narrar com precisão qualquer esporte, dono de timbre impecável e raciocínio rápido, Galvão é autor de façanhas como a de pedir aos telespectadores que piscassem as luzes de casa durante os jogos que passavam de madrugada na Copa de 2002, realizada na Coreia do Sul e no Japão.

O país inteiro virava um vaga-lume. Só um personagem com seu poder, em uma emissora como a Globo, poderia provocar uma reação desse tamanho. Mas, da mesma forma que se orgulha disso, ele lamenta alguns momentos constrangedores que protagonizou.

Dois ficaram para a história. Um foi seu grito esganiçado, quase histérico, "é tetra, é tetra!" em 1994, ao lado de Pelé e do comentarista de arbitragem Arnaldo Cézar Coelho. O outro aconteceu na Copa de 1974, quando narrou por um pool de três emissoras paulistas, diretamente de um estúdio brasileiro, a partida entre Alemanha Oriental e Austrália pensando que estivessem jogando Bulgária e Sué-cia.

Só percebeu o desastre depois que as imagens transmitidas da Alemanha mostraram no placar do estádio quais seleções de fato estavam em campo. Apreciador de vinhos de qualidade, lançará em agosto um tinto e um espumante gaúchos com seu nome.

Com um salário estimado em 1 milhão de reais por mês, Galvão mora a maior parte do tempo em Mônaco, mas tem também endereços no Rio de Janeiro e em Londrina (PR), cidade de sua segunda mulher. Acusado de ufanismo, tira a referência de letra, como fez no caso do Twitter. "Sou um torcedor-narrador, e daí?", responde. "Meu trabalho é passar emoção a quem está em casa." Bem, amigos, o homem é mesmo um prodígio.

Lya Luft

Separação, o drama de todos

"Se a separação dos pais pode resultar em crescimento e multiplicação de afetos, com boas lições de vida, pode também causar muita desagregação e infelicidade, muita solidão"

Sempre fui favorável a não se curtir sofrimento inútil em longos casamentos nos quais em lugar de carinho e parceria imperam frieza e hostilidade – e se acumula o rancor que envenena sobretudo os filhos. Nem em nome deles, pensei muitas vezes, casais assim deveriam ficar juntos, pelo mal que causam. De certa forma continuo pensando isso, tanto tempo depois de minhas primeiras e precoces reflexões sobre o assunto, eu que vivi numa família de cuidados, afeto e alegria, apesar das naturais diferenças.

Porém, a realidade da vida, numa sociedade em que as separações se banalizaram como se as emoções humanas tivessem deixado de vigorar, me ensinou que toda separação abre em pais e filhos feridas que podem não se fechar nunca mais, e que não precisaria ser assim.

Já disse e escrevi que, quando é uma solução inevitável e melhor em conflitos graves, a separação dos pais – com todas as mudanças impostas na vida dos filhos, que não estão se separando, não querem se separar de nenhum dos pais nem mudar de casa, quem sabe de cidade – pode não ser unicamente um mal.

Propicia um exercício de novos afetos, de compreensão e tolerância, também de parte dos filhos de qualquer idade com relação aos adultos. Costumamos bater na tecla de cuidar dos filhos, mas raramente nos lembramos de que há uma parte nessa relação, nem sempre fácil, que cabe aos filhos diante de seus pais. Já na pré-adolescência podemos exercitar nosso amor, respeito e tentativa de entender alguns dramas adultos, se não formos criados como pequenos príncipes mimados e birrentos, que batem pé diante do sofrimento alheio e não se importam com os outros.
Ilustração Atômica Studio

É verdade que aceitar que os pais já não moram juntos, que temos de nos separar de um deles, a quem veremos, talvez, em dias marcados e enfrentando, cara a cara ou de maneira surda e insidiosa, a raiva e os rancores do casal que se separa, há de ser muito duro. Há de ser triste, e marcante na alma dos filhos, sobretudo se a separação for acompanhada de violência, perseguição, desejo de vingança.

Existem os casos brandos, eu sei, e conheço vários, esses em que apesar das dificuldades o casal procura se separar com civilidade e compreensão, não fechando para os filhos, pequenos ou adolescentes, a porta do amor ao pai ou à mãe. Ensinando a aceitar e respeitar o novo parceiro ou parceira deles: essa parte talvez mais difícil de todas em qualquer separação.

Pois as escolhas são sempre dos pais, não dos filhos: separar-se, assumir novo parceiro ou parceira, que possivelmente trazem seus próprios filhos, tentando criar um novo tipo de relacionamento e forçado convívio, há de ser uma difícil e dolorosa gangorra emocional. Se pode resultar em crescimento e multiplicação de afetos, com boas lições de vida, pode também causar muita desagregação e infelicidade, muita solidão.

Como agir para não prejudicar os mais importantes laços de qualquer pessoa, no caso de separação e novos casamentos? Não há receita nem espaço para julgamento. Mas lembro a velha fórmula das estradas de ferro: parar, olhar, escutar... a alma do outro também.

Novas pessoas estarão envolvidas, novos feixes de emoção, novas tendências genéticas e conflitos psíquicos por vezes antigos, velhos costumes que agora se envolvem ou enfrentam estreitamente. É preciso conviver, e não machucar pessoas amadas.

Culpas infundadas crescem como cogumelos, buracos traiçoeiros podem se abrir no chão fundamental sobre o qual caminhamos: o convívio natural, a família. As responsabilidades são enormes, e as tempestades do momento podem nos fazer esquecer isso, em casos que envolvem tantos problemas e dilemas.

Tudo é um tatear no escuro da floresta das humanas necessidades e aflições. Num contexto de convívio e ruptura, no meio dessa tempestade por vezes longa, esperam-se posturas evidentes, mas nada fáceis: bom senso, bondade, capacidade de entender e observar, e desejo real de, apesar dos fatais desacertos, buscar para si e para os outros envolvidos o sofrimento menor.

Lya Luft é escritora


IBGE: setor de construção ocupou 1,8 milhão de pessoas em 2008

Programas de financiamento e apoio a projetos de infraestrutura nas áreas de energia elétrica, energia renovável, petróleo e gás natural, logística e telecomunicações são os principais responsáveis pelo aumento
REDAÇÃO ÉPOCA

Pesquisa Anual da Indústria da Construção (PAIC) divulgada nesta sexta-feira (18) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que aumentou o número de pessoas empregadas no setor de construção. Segundo o IBGE, 56,6 mil empresas ativas do setor da construção ocuparam aproximadamente 1,8 milhão de pessoas em 2008; em 2007, cerca de 52 mil empresas ocuparam aproximadamente 1,6 milhão de pessoas.

O gasto total com o pessoal em 2008 foi R$ 38,2 bilhões, dos quais R$ 25,5 bilhões foram em salários, retiradas e outras remunerações, o que significou uma média mensal de 2,6 salários mínimos. Em 2007, o gasto total com o pessoal foi 29,3 bilhões; desse valor, 19,6 bilhões foram em salários, retiradas e outras remunerações.

A pesquisa ainda aponta que houve crescimento em todos os grupos de produtos e serviços da construção nas empresas com 30 ou mais pessoas ocupadas em 2008. Em relação a 2007, obras de infraestrutura cresceram 27,1%, edificações industriais, comerciais e outras edificações não residenciais, 28,8% e o grupo de serviços especializados para construção, 21,1%. O valor do segmento de edificações residenciais avançou 20,7%, principalmente por causa do aumento observado em edifícios residenciais (21,2%).

Em 2008, o valor das incorporações, obras e serviços foi de R$ 159 bilhões, o que representa um aumento de 12,3% em termos reais em relação a 2007. A receita líquida das empresas foi de R$ 149,6 bilhões, um crescimento nominal de 19,8% em relação ao valor de 2007, R$ 124,9 bilhões.

As empresas realizaram obras e serviços no valor de R$ 154,1 bilhões, dos quais R$ 67,6 bilhões foram construções para entidades públicas, que representaram 43,9% do total das construções, participação maior do que a observada em 2007 (40,3%).

Vários fatores atuaram a favor do avanço da Indústria de Construção no período entre 2007 e 2008. De acordo com o IBGE, os programas de financiamento e apoio a projetos de infraestrutura nas áreas de energia elétrica, energia renovável, petróleo e gás natural, logística e telecomunicações são os principais responsáveis pelo aumento.

Outros pontos favoráveis foram: crescimento da renda familiar e do emprego; aumento nas operações de crédito direcionadas à habitação; a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados de diversos insumos da construção, entre outros. Além disso, a economia cresceu mais de 5% ao ano pela segunda vez consecutiva.