sábado, 17 de outubro de 2026


17 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Viver é se despedir

A partir de vídeo de Nanda Costa. 

Da mamadeira. Do bico. Do colo. Do berço. Do engatinhar. Do apoio nos corredores. Do travesseirinho. Do paninho. Das festas temáticas de aniversário. Dos balões. Dos livros com desenhos. Dos lápis coloridos. Dos presentes com papel infantil. Dos brinquedos. Da merendeira. Do uniforme da creche. Da toalha com capuz.

 Do banquinho para alcançar a pia. Das rodinhas da bicicleta. Do copo de requeijão com personagem. Do beijo de boa-noite antes de apagar a luz. Do dente de leite embrulhado num guardanapo. Do riso banguela. Da autorização com assinatura para a excursão. Do boletim amassado. Da bainha da calça desfeita. Da mão para atravessar a rua.

Do melhor amigo que se transferiu de escola. Da professora que não dava para repetir. Das lições na lousa. Dos materiais escolares. Dos cadernos pautados. Das espirais. Dos amores platônicos. Do nervosismo das provas-surpresa. Do telefone decorado dos responsáveis. Do recreio. Do sinal que mandava retornar para a sala. 

Da carteira com rabiscos e corações. Dos bilhetes escondidos. Da turma que prometeu nunca se separar. Das dedicatórias na camiseta no último dia de aula. Do portão de tantas idas e vindas. Das férias longas que produziam saudade de estudar. Do quarto dividido com os irmãos. Da mesada. Da carona. Do dinheiro contado para o cinema. Das viagens com a mochila nas costas. Dos doces dos avós. Da casa cheia.

Dos cartazes na parede e dos adesivos nas janelas. Do aparelho ortodôntico. Das espinhas. Da transformação do timbre. Dos pais esperando acordados no sofá. Da autoescola. Do cursinho pré-vestibular. Do nome na lista dos aprovados. 

Do trote com farinha no cabelo. Do troco destinado para o xerox. Dos calhamaços emprestados. Da carteirinha de estudante. Do passe no ônibus. Da foto de beca. Do currículo sem experiência. Do crachá pendurado no pescoço. Da roupa lavada no antigo lar. Das visitas demoradas. Do bairro da infância. 

Do colchão no chão. Da geladeira com dois ovos e uma garrafa de água. Do emprego que parecia para sempre. Da primeira vez que você morou com alguém. Do cobertor puxado no meio da madrugada. Da ilusão de romance eterno. Das caixas de mudança. Da marca da aliança no dedo. Do lado da cama vazio. Da volta por cima. Dos garçons que conheciam seu pedido. Das noites inteiras de sono até o meio-dia. Dos bares da sexta-feira. Do tempo de sobra.

Do teste de gravidez. Da mamadeira dele. Do bico dele. Do colo dele. Do berço. Do engatinhar. Do apoio nos corredores. Do travesseirinho. Do paninho. Das festas temáticas de aniversário. Dos balões. Dos livros com desenhos. Dos lápis coloridos. Dos presentes com papel infantil. Dos brinquedos. Da merendeira. 

Do uniforme da creche. Da toalha com capuz. Do banquinho para alcançar a pia. Das rodinhas da bicicleta. Do copo de requeijão com personagem. Do beijo de boa-noite que agora é você quem dá antes de apagar a luz. Do dente de leite embrulhado num guardanapo. Do riso banguela. Da autorização que agora é você quem assina para a excursão. Do boletim amassado. Da bainha da calça desfeita. Da mão solta na hora de atravessar a rua. _

CARPINEJAR

"O teu conhecimento a inteligência artificial nunca vai ter"

Antes de ser uma aclamada escritora, Martha Batalha, 53 anos, era repórter dos principais jornais do Rio de Janeiro. Seu romance de estreia, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (2016), foi adaptado para o cinema em 2019, rendendo prêmio da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes. Autora de outros livros, ela mora em Santa Mônica, na Califórnia, e atua como cronista de O Globo desde 2020. 

Dessa experiência surgiu O Algoritmo Sou Eu, que reúne 58 crônicas sobre temas como feminismo, maternidade, imigração, tecnologia, cotidiano familiar, cultura e política. Na obra, Martha faz um trato com o leitor, garantindo que, enquanto escrever, nenhuma linha de suas crônicas será gerada por inteligência artificial.

Carlos Redel

Como foi o processo de selecionar as 58 crônicas que foram parar no livro? Por que estas foram as escolhidas?

Acho que o principal critério foi escolher crônicas que permanecessem. Procurei ter crônicas que pudessem ser lidas hoje e daqui a 10 anos, que não envelhecessem. Mesmo que falassem de algo pontual - por exemplo, tem umas que falam da pandemia -, que fossem crônicas que pudessem ser lidas como referência a uma época, mas que não parecessem datadas. Penso muito nisso, evito os temas que estão na moda.

O que torna uma crônica interessante no seu ponto de vista?

Gosto muito de falar que crônica é voz. Quando você pensa em voz, você pensa em música, e quando alguém canta ou toca um instrumento, você sabe quando afina e desafina. A crônica é a mesma coisa: você tem que encontrar uma sintonia para poder contar essa história. A crônica vem de você estar aberta para o mundo, estar sempre procurando, tentando descobrir algo a mais. Imagina que você tem a sua visão de frente, mas tem outras coisas que estão acontecendo pelo lado também. 

Então, a crônica está, às vezes, pelo lado. Por exemplo, fui com meu marido a um restaurante romântico, com aquelas comidas todas elaboradinhas e ele não estava conseguindo enxergar o cardápio. Então, pediu meus óculos para ver. Comemos e fomos para casa. Esse é um fato. Só que a crônica tratou sobre a primeira vez que ele pegou meus óculos de vista cansada para ver o menu. E eu entendi que a gente estava envelhecendo juntos.

No material de divulgação de O Algoritmo Sou Eu, consta que você, como cronista, é herdeira de nomes como Luis Fernando Verissimo e Martha Medeiros. Como você enxerga o trabalho destes dois gênios gaúchos e como é ser comparada a eles?

Eu e todos os cronistas sempre tentamos fazer a nossa voz, o nosso texto, em cima do que a gente leu. Eu leio o Verissimo, o Rubem Braga, a Martha e falo: "Quem é agora a Martha Batalha? Qual é a voz que a Martha tem a partir dessas pessoas?". O que eu aprendi com a Martha é essa coisa da lucidez, tem muito afeto também nos textos dela. É uma mistura bastante interessante. 

Algo que aprendi com o Verissimo é que ele falava assim: "Cada crônica tem que ter pelo menos uma piada. Se você tem uma piada na crônica, você já fez o seu trabalho". Não é uma escolha muito consciente, mas quando estou escrevendo, sempre percebo que solto uma pitada de humor. E isso cria um mecanismo de aproximação com o leitor, porque ele está lendo e, em algum momento, vai ter aquela dose de dopamina e vai continuar lendo para ter outra. É uma mistura de consciência e intuição também. Você tem que saber quando você solta, o que você solta.

No primeiro texto do livro, você explica como nascem as crônicas e diz que uma escrita sua jamais vai ter uma linha sequer feita por inteligência artificial. Enquanto isso, a gente vê cada vez mais materiais feitos por IA. Como você enxerga o futuro para autores e qual o papel da criatividade humana?

Acho que é muito importante para nós, escritores, que a gente permaneça fiel ao que sabemos fazer, ao nosso ofício, e que é realmente feito de horas e mais horas em frente ao computador. Às vezes, ficamos todo esse tempo sem saber o que escrever, mas esperando que alguma coisa vá nascer de algum lugar e que, quando nascer, vai ser muito humano. 

A diferença da inteligência artificial para uma pessoa é o seguinte: a IA pensa em termos de probabilidades, é matemática. Os humanos pensam em termos de possibilidades: a gente tem esperança, tem criatividade, tem um passado que vai se associar cada vez de uma forma diferente para você poder criar um texto. O teu conhecimento a inteligência artificial nunca vai ter. Não posso dizer o que vai acontecer, mas tenho muita certeza de que a inteligência artificial nunca vai conseguir fazer um texto bem trabalhado como é um texto de um bom profissional da escrita, porque ela não é feita com um material humano para isso. 

Porque não é só o português perfeito, não são só as associações perfeitas, a lógica perfeita. Tem muitas outras pequenas particularidades do texto que são muito humanas e isso não pode ser reproduzido.

Você fala que os fracassos também são importantes para essa construção de bagagem que leva para os textos. Como você transforma frustrações em combustível?

O escritor tem que estar acostumado a fracassar porque é parte muito grande da nossa rotina. Às vezes, a gente está escrevendo um romance e joga capítulos fora. A gente tem que ter essa resiliência. Acho que a grande sabedoria é poder aprender com os seus erros, olhar um texto que escreveu e falar: "Isso aqui não está bom, eu vou jogar isso fora". É uma bênção você olhar uma coisa que não é boa que você escreveu e saber que não é bom e não se intimidar por isso, mas construir a partir daquele erro, a partir daquele fracasso e continuar tentando.

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão está completando uma década. Como você avalia a trajetória do livro?

Me sinto muito feliz. Ele ainda é muito lido e acho que é uma grande dádiva para um escritor fazer um livro que permaneça e que tenha mexido na vida de tantas pessoas. Ainda recebo cartas de pessoas dizendo que se emocionaram com o livro, que se identificam. Então, é muito bonito. O A Vida Invisível começou quando não existia ainda todo esse movimento de vozes feministas e femininas na literatura brasileira. Era uma coisa que estava começando ali, foi um dos primeiros livros dessa nova leva.

Uma década depois do lançamento do livro e mais de 70 anos da história que ele retrata, como você enxerga essa a questão do machismo presente no dia a dia, que transforma, muitas vezes, histórias de mulheres extraordinárias em invisíveis?

Acho que existe, ainda hoje, uma escala de violências contra a mulher dependendo de onde você nasce, do seu status, da sua cor, da sua condição social, da sua condição financeira. Existem mulheres que estão batalhando para ter o mesmo salário que os homens. Existem meninas que, se tiverem sorte, não vão engravidar com 14 anos. Existem mulheres que estão começando a ter voz agora, reivindicando os seus direitos e estão sendo mortas. Então, ainda tem muito para se mudar. São várias lutas dentro de uma escala que atinge mulheres de modos diferentes. 

 


17 de Outubro de 2026
MARCELO RECH

Vestibular para populista

As torcidas de Lula e Flávio Bolsonaro gostam de apresentá-los como antagônicos em tudo. Não são tanto assim. Quando se trata de usar as burras públicas para perguntar quem quer dinheiro, há pouca diferença entre eles.

Desde março, Lula já anunciou cerca de 25 benesses eleitoreiras. É a reciclagem sofisticada da velha prática coronelista em que um candidato prometia um pé de sapato agora e o outro para depois da eleição. Quem não votar nele perderá os benefícios, ameaça Lula. 

Já Flávio não só não desautorizou nenhuma das benesses como foi além: prometeu baixar a prestação do Minha Casa, Minha Vida e outros que tais, como um tesouraço nos impostos. É uma disputa cabeça a cabeça sobre quem gasta mais sem fazer as contas sobre a realidade fiscal do país, com forte cheiro de estelionato eleitoral no ar.

Apesar da epidemia de gastança que contagia as duas candidaturas, o mercado reagiu favoravelmente à vitória de Flávio no primeiro turno. A expectativa de um freio de mão no populismo não reflete os compromissos de Flávio e nem a gestão pregressa do bolsonarismo. Em busca da reeleição, Jair Bolsonaro lançou a PEC Kamikaze e empurrou o pagamento de precatórios e repasses aos Estados para o governo seguinte, a fim de assegurar um superávit de araque no fim de mandato.

Até agora, os afagos eleitorais de Lula já custam cerca de R$ 290 bilhões adicionais aos contribuintes. Os de Flávio, que promete não revogar nada e ir além, sabe-se lá. Quem vai pagar a fatura? Todos nós, seja por meio de mais impostos, mais dívidas, mais juros, mais inflação, menos serviços e menos investimentos públicos ou, como é provável, tudo isso junto. Dinheiro que compra apoio político hoje é dinheiro que vai faltar amanhã para obras, segurança, saúde e ciência.

Na prática, a disputa presidencial virou uma peleja de promessas inexequíveis para um país cuja explosiva e crescente dívida pública já consome 82,9% do PIB. Em nome da vitória a qualquer custo, arquivou-se o debate sobre reformas capazes de fazer uma imensa massa de vulneráveis trocar de patamar de vida. No lugar de mudanças estruturais, estimula-se que grande parte do eleitorado permaneça no curral da dependência do Estado.

Fosse o esbanjamento redirecionado a uma crucial revolução na educação, ainda haveria esperança de transformações estruturais e de não ficarmos eternamente no segundo pelotão, como ocorre na inteligência artificial, para citar um exemplo.

 A IA está virando o planeta de cabeça para baixo, incluindo o mercado de trabalho e a renda. Na campanha, nem chegamos a roçar essa discussão, porque o país se tornou refém de um mero campeonato sobre qual candidato usa mais anabolizantes populistas para estimular seu tônus eleitoral. 

MARCELO RECH

17 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

Supremas obscenidades

O colapso da credibilidade do Supremo Tribunal Federal (STF), obra de parte de seus membros, se agrava com a impassibilidade da instituição diante das revelações da revista Piauí sobre a orgia com garotas de programa do ministro Kassio Nunes Marques, organizada e patrocinada pelo ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro. 

A reportagem publicada na quinta-feira, construída a partir da troca de mensagens de celular entre Vorcaro e interlocutores que ajudaram a organizar a festa e estavam no local, é ilustrativa sobre como o ex-controlador do Banco Master agia para tentar garantir proteção e vantagens de altas figuras da República.

A noitada descrita em detalhes por vezes nauseantes é mais um episódio a fortalecer a sensação de que há togados do STF sem condições morais de permanecer na Corte. No mínimo, o ministro deveria ser formalmente investigado, como qualquer mortal. Não pelo que faz na vida privada, mas pelos indícios de ter recebido o agrado como retribuição por favores judiciais. 

A farra em que Nunes Marques foi a celebridade, em 28 de fevereiro de 2025, ocorreu cinco meses após o ministro desempatar um processo que interessava ao Master, relacionado a precatórios. O conjunto de situações obscuras de pagamentos mal explicados que envolvem o Master e o ministro, seu filho e pessoas próximas, conhecidas como "Turma do KN", exige apuração e esclarecimento.

Na terça-feira, o presidente do STF, Edson Fachin, recebeu o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, para tratar das menções a ministros no celular de Vorcaro. A PF enviará ao Supremo todas as citações e, após manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR), o plenário poderá deliberar sobre investigações.

Não poderá ser acusado de má-vontade quem suspeitar que todo esse protocolo, formalmente correto, não terá desdobramentos práticos. Já surgiram, afinal, elementos suficientes para investigações serem abertas sobre os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, ao menos. Ademais, o diretor-geral da PF e o PGR, Paulo Gonet, também foram envolvidos em situações no mínimo inadequadas com Vorcaro, como a degustação de charutos e uísque em Londres custeada pelo ex-banqueiro. 

Em fevereiro, em um acordo corporativista entre os ministros, Toffoli se afastou da relatoria do caso Master e as suspeitas sobre ele, relacionadas a negócios com o banco, foram varridas para debaixo do tapete. Um mês atrás, no momento mais vexaminoso na história da Corte, a sessão que deveria deliberar sobre instauração de um inquérito para apurar o vínculo de Moraes com Vorcaro terminou com muito bate-boca e nenhuma decisão.

O ideal ainda é que o próprio STF promova o autossaneamento. É a instituição que deve ser preservada. Caso a omissão persista, é provável que o novo Senado, com grande presença de parlamentares pró-impeachment de ministros, parta para uma decisão drástica. 

Outra vez, cumpre ressaltar que o eventual impedimento deve ocorrer por crimes de responsabilidade comprovados, sem seletividade ou motivação de vingança política. E mais: independentemente do resultado da eleição presidencial, as investigações da PF precisam ser conduzidas de forma técnica e imparcial, sem margem para qualquer acordão que leve à impunidade. _

17 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Lula e Flávio fazem promessas que não terão como cumprir

Até o próximo domingo, há tempo para os candidatos que disputam o segundo turno acenarem com cadeiras numeradas no céu, se forem eleitos - se é que isso já não está sendo oferecido em algum templo deste Brasil continental.

Além dos pacotes de bondades lançados nas últimas semanas, o presidente Lula apresentou projeto para a passagem gratuita nos ônibus urbanos, aos sábados e domingos, para que os trabalhadores possam passear com a família aos fins de semana, aproveitando a folga dupla assegurada na Constituição com o fim da escala 6x1. De onde viria o dinheiro? Das emendas parlamentares, essa aberração que consome R$ 60 bilhões do orçamento anual e que os deputados e senadores usam para se perpetuar nos mandatos.

Lula não disse como estender o benefício aos que folgarão durante a semana, porque a emenda só garante dois dias de descanso, que não precisam ser em dias consecutivos. Faltou dizer que para dar esse destino a parte do valor das emendas será preciso a aprovação do Congresso, o que dificilmente os deputados e senadores farão.

Lula foi além. Disse que o sistema de transporte coletivo está falido e que, se for reeleito, vai buscar uma fonte de financiamento para a gratuidade do transporte coletivo em todo o Brasil. São palavras ao vento diante da situação fiscal do Brasil, cuja gravidade Lula insiste em negar. Defende a ampliação dos programas sociais e o aumento do consumo, sem reconhecer que quando se gasta mais do que se arrecada é preciso tomar dinheiro no mercado, e isso provoca inflação e impede a redução do juro.

Flávio Bolsonaro promete "SUS com padrão Einstein", coisa que talvez a maioria dos brasileiros não imagina o que seja, porque só conhece o SUS dos postos de saúde e dos hospitais filantrópicos, que salvam vidas, mas estão a anos-luz de distância do Albert Einstein, um dos hospitais mais renomados do Brasil. 

O Einstein está para São Paulo como Moinhos de Vento para Porto Alegre - só que inacessível a quem não tem dinheiro ou um bom plano de saúde. Como pagar? Flávio não explica. Acha que basta informar ao público que o seu ministro da Saúde será o médico Claudio Lottenberg, presidente do Conselho Deliberativo do Hospital Israelita Albert Einstein.

Flávio faz um discurso contraditório. Fala em tesouraço de R$ 250 bilhões nos gastos e nos impostos, sem qualquer conexão com a realidade fiscal. Promete corrigir as aposentadorias acima da inflação, diz que vai manter e aumentar o Bolsa Família (classificou como "merreca" o reajuste de R$ 90 dado por Lula e considerado eleitoreiro), que o programa Minha Casa, Minha Vida vai continuar. As duas coisas são incompatíveis. Não há como cortar R$ 250 bilhões em despesas sem passar a tesoura em investimentos e gastos sociais.

Esses são alguns dos exemplos do que se vê nos discursos de palanque e na propaganda eleitoral. Seja quem for o vencedor, boa parte das promessas irá para o armário dos esquecimentos, simplesmente porque não cabe no orçamento. 

Como será a atuação da futura primeira-dama do RS

Futura primeira-dama do RS, a advogada Joyce Zucco ainda não sabe se vai se instalar no Centro Administrativo Fernando Ferrari ou no Palácio Piratini, mas já escolheu as causas que vai defender na área social.

Nos primeiros meses, a ideia é trabalhar com uma estrutura enxuta, com o secretário ou secretária da área e com prefeituras, na proteção às mulheres, às crianças e às famílias atípicas.

Aos 43 anos, mãe da Antônia, de nove, Joyce trabalhava no Ministério Público, mas se afastou quando o marido, Luciano Zucco, assumiu a candidatura a governador. Na campanha, percorreu o Estado ao lado do marido. Acompanhou Zucco em entrevistas, debates, comícios e carreatas, sempre esbanjando energia.

Está decidido que Joyce não ocupará secretaria. Ela planeja ajudar na implementação de políticas públicas. Uma de suas maiores preocupações é com os feminicídios. _

Quebra de protocolo para homenagear Paim

Prestes a encerrar a carreira política, depois de três mandatos no Senado, o gaúcho Paulo Paim (PT) recebeu uma merecida homenagem na sessão solene de promulgação da emenda constitucional que acaba com a jornada de 6x1. Ao saudar as autoridades presentes, já com o presidente Lula e o deputado Hugo Motta acomodados a seu lado, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, avisou que quebraria o protocolo para homenagear um homem que está há mais de quatro décadas no Congresso e que muito trabalhou pela aprovação da proposta.

Alcolumbre pediu ao cerimonial que providenciasse uma cadeira extra para que o gaúcho pudesse ocupar um lugar à mesa principal. Paim foi aplaudido de pé. Desde que anunciou sua despedida da vida pública, Paim vem sendo homenageado por colegas que passam por cima das diferenças ideológicas para saudar sua coerência. 

Presidente vem a Porto Alegre

Na segunda-feira, o presidente Lula fará campanha em Porto Alegre. O roteiro foi definido na manhã de sexta-feira, em reunião com a participação de líderes do PT gaúcho.

A concentração se iniciará às 16h no Largo dos Açorianos, entre o Centro Histórico e a Cidade Baixa. Lula deve chegar em um carro de som por volta das 17h, onde fará discursos. Após as falas, seguirá com a militância em caminhada pela Avenida Borges de Medeiros até o Largo Glênio Peres, em frente ao Mercado Público, no Centro Histórico.

A primeira-dama Janja deve acompanhar o presidente.

No primeiro turno, Lula venceu a eleição em Porto Alegre com 377.252 votos (48,57% dos votos válidos), contra 325.139 (41,86%) de Flávio Bolsonaro. _

Impacto da 6x1 para prefeituras

Uma estimativa da Confederação Nacional de Municípios (CNM) prevê um impacto de R$ 6,6 bilhões nos cofres das prefeituras do Brasil com o fim da escala 6x1. A estimativa foi elaborada pela entidade a partir de uma pesquisa feita com prefeitos e gestores locais.

De acordo com os cálculos, R$ 1,49 bilhão terão de ser despendidos com contratações diretas. Mas o maior volume de gasto se dará com os custos com funcionários de empresas terceirizadas que prestam serviços aos municípios, estimado em R$ 5,14 bilhões por ano.

Na avaliação do presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, as administrações municipais terão de gastar mais se quiserem manter o mesmo nível de prestação dos serviços públicos:

- Sem uma previsão orçamentária devida, muitos serviços podem ser afetados, prejudicando a população - avalia, lembrando que o fim da 6x1 é válido também para servidores públicos. _

POLÍTICA E PODER

O agro brasileiro na COP31

Em um cenário internacional marcado por disputas comerciais, guerras e riscos às cadeias de suprimento de alimentos e insumos, o agronegócio brasileiro marcou posição que irá defender durante a COP31, a conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, que ocorrerá na Turquia, em novembro.

O documento foi apresentado na quinta-feira, em Brasília, durante reunião da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O principal desafio, na visão do setor, será transformar metas climáticas em instrumentos que funcionem na prática. Como vem alertando a coluna, o produtor gaúcho em particular é vítima tanto das estiagens quanto do excesso de chuvas, duas consequências aprofundadas pela crise climática. Em tempo de El Niño vitaminado e dívidas, a situação se torna ainda mais preocupante.

Representaram a Federação da Agricultura do Estado do RS (Farsul) em Brasília o diretor-vice-presidente da entidade, Gedeão Pereira, o diretor-vice-presidente Fernando Rechsteiner, a assessora de Desenvolvimento Sustentável, Paula Hofmeister, e o assessor de Relações Internacionais, Renan Santos.

Ex-presidente da Farsul, Gedeão destacou o papel do país como exportador líquido de alimentos para o mundo, a importância do agro brasileiro para garantir a segurança alimentar e a atuação da CNA nas COPs, mostrando ao mundo a sustentabilidade da agricultura brasileira.

O documento organiza o posicionamento em oito eixos: Agenda de Ação e Mapas do Caminho - reconhecer e valorizar quem conserva; Agricultura e segurança alimentar - garantir voz própria ao setor nas negociações; Balanço Global - medir corretamente as emissões da agropecuária; Financiamento climático - fazer o recurso chegar ao campo; Adaptação - preparar o campo para um clima cada vez mais desafiador; Transição justa; Comércio e clima - evitar que regras ambientais se transformem em barreiras; e Mitigação - reconhecer e remunerar resultados obtidos no campo.

Há uma preocupação em manter a relevância brasileira, depois que, em Belém, o agronegócio erigiu a AgriZone, um pavilhão paralelo à Blue Zone e à Green Zone, os dois espaços tradicionais das COPs. A experiência foi um sucesso ao mostrar como a atividade agropecuária é impactada diretamente pelos fatores climáticos e como, paralelamente, compõe soluções eficientes em mitigação e adaptação.

Principais pautas

Um dos pontos que deverão ser acompanhados na Turquia diz respeito à continuidade das negociações internacionais sobre o papel da agricultura no enfrentamento às mudanças climáticas. Durante muito tempo, o setor foi tratado nas COPs principalmente como fonte de emissões de gases de efeito estufa. Aos poucos conquistou espaço nas discussões sobre segurança alimentar, adaptação climática e soluções para a redução das emissões.

Um marco ocorreu em 2017, na COP23, em Bonn, na Alemanha, com a criação do Grupo de Koronivia sobre Agricultura, iniciativa que colocou o setor na agenda oficial dos debates. O fórum passou a discutir temas como conservação dos solos, manejo da água, pecuária, adaptação às mudanças climáticas e segurança alimentar. Cinco anos depois, na COP27, no Egito, a iniciativa deu lugar ao Trabalho Conjunto de Sharm el-Sheikh, que passou a buscar caminhos para transformar compromissos em ações concretas. _

Horas antes de o presidente Lula afirmar na quinta-feira à TV Globo que é favorável à diminuição da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicou nota com posicionamento contrário à medida. Segundo a entidade, "o simples endurecimento das penas não reduz a violência".

Vaticano divulga imagem do Papa após cirurgia

O Vaticano divulgou na sexta-feira a primeira imagem do papa Leão XIV após a cirurgia para a retirada de um tumor da parte inferior do pulmão direito. A foto mostra o Pontífice celebrando uma missa na Clínica Gemelli, em Roma, onde está internado.

Segundo a Santa Sé, Leão XIV celebrou a missa às 12h (no horário de Roma) em uma sala especialmente adaptada para a cerimônia no 10º andar do hospital. Estavam presentes membros das equipes médica e de enfermagem que estavam de folga no momento, além de integrantes da Santa Sé. Em sua homilia, o Papa agradeceu a todos os funcionários do hospital.

Mais cedo, o Vaticano informou, por meio de um boletim médico, que foram realizados exames de sangue e radiografias de tórax, os quais mostraram evolução positiva em sua recuperação. A nota também informa que o Papa segue em fisioterapia respiratória e que seu quadro clínico já permite que ele realize atividades cotidianas de forma autônoma.

Também na sexta-feira, Leão falou ao telefone com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, para discutir a guerra na Ucrânia. Há indicativos de que o Papa fará a Oração do Angelus no domingo. Futurista internacional no RS

O futurista de renome internacional Neil Redding virá, pela primeira vez, ao RS em novembro. Conhecido como "near futurist" ("futurista do agora"), o especialista participará, em Porto Alegre no dia 12 de novembro, do Fórum IEL de Inovação.

Esta será uma das três etapas do Fórum, que é promovido pelo Sistema Fiergs, por meio do Instituto Euvaldo Lodi (IEL-RS). Além da edição da Capital, com a participação de Redding, o evento contará com outras duas edições itinerantes, em Caxias do Sul no dia 18 e em Santa Maria no dia 26. 

17/10/2026 - 04h00min-
Anderson Aires

Mapa: quais cidades do RS têm maior potencial para novos empreendimentos imobiliários

Levantamento do sindicato das imobiliárias considera fatores econômicos e de desenvolvimento social e mostra atratividade distribuída entre várias regiões.

Porthus Junior / Grupo RBS - Caxias do Sul, na Serra, ocupa o topo da lista de atratividade imobiliária.

Porthus Junior / Grupo RBS

Em um cenário em que o mercado imobiliário enfrenta gargalos como juros altos, crédito restrito e endividamento da classe média, estudar o comportamento das economias locais ganha ainda mais peso na tomada de decisão do setor. Levantamento recém-lançado pelo Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis do Rio Grande do Sul (Secovi-RS) aponta que a atratividade imobiliária está espraiada pelo Estado. Entre os destaques estão a Serra, a Região Metropolitana, o Sul e a Região Central.

O estudo mostra que os municípios de Caxias do Sul, Canoas, Pelotas, Santa Maria e Passo Fundo ocupam o top 5 em atratividade imobiliária (veja no mapa). O levantamento do Secovi-RS leva em conta 15 variáveis divididas entre dimensões econômicas, demográficas, educacionais e habitacionais, além do Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (Idese). O raio X, que está em sua sexta edição, passa por 496 dos 497 municípios do Estado — a capital Porto Alegre ficou de fora por ser principal alvo de investimentos em todos os padrões.

O vice-presidente de Comercialização do Secovi-RS, Rafael Padoin Nenê, afirma que as cidades que lideram o ranking se destacam pela captação de recursos, conseguindo absorver ativos de outras regiões e reter profissionais qualificados, superando alguns dos principais gargalos do Estado. Com isso, a economia se torna mais pujante e atrativa para novos empreendimentos, seja voltados para moradia, seja para outros ramos, como shoppings, comércios e indústrias, gerando receita e empregos.

— Quando há uma região que tem uma organização no sentido de ter a iniciativa privada buscando empreender, atraindo investimentos, que tem um PIB mais relevante, onde a infraestrutura e a gestão pública conversam melhor, isso faz com que algumas regiões despontem nessa questão de desenvolvimento econômico. E a construção civil está intrinsecamente ligada nisso. Esse contexto movimenta uma cadeia — explica Padoin Nenê.

O executivo destaca a importância de as cidades terem planos diretores alinhados ao seu “DNA” e à lógica de negócios, em vez de pautas ideológicas, tornando o município mais competitivo, atraente a investimentos e com planejamento urbano equilibrado. Ainda reforça que um dos maiores gargalos atuais da construção civil no Estado é a perda de mão de obra qualificada para outras regiões, destacando mais uma vez que os municípios no topo do ranking têm protagonismo justamente por conseguir manter esses profissionais.

O professor da Faculdade de Arquitetura e da pós-graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Eber Pires Marzulo destaca que a atratividade imobiliária gaúcha é impulsionada por uma rede de infraestrutura, educação e outros serviços públicos essenciais.

Lançamentos de imóveis de médio e alto padrão crescem 18% em Porto Alegre no primeiro semestre; veja bairros que lideram

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Enquanto a Região Metropolitana e os polos regionais concentram a produção para moradia e investimento alavancada, outras regiões sofrem com o déficit de infraestrutura urbana consolidada e a ausência de grandes centros atratores. No caso das cidades com maior protagonismo na atração de empreendimentos, Marzulo cita o aquecimento gerado por redes de saúde e educação superior:

— A questão educacional, em geral, se articula muito com a questão da saúde. E essas grandes universidades, em geral, se articulam e acabam alimentando e melhorando as condições de hospitais ou mesmo criando hospitais para a atividade universitária.

Polos regionais

A análise de Marzulo é corroborada pelo levantamento do Secovi-RS. Santa Maria, por exemplo, que aparece na quarta colocação do ranking de atratividade, se destaca pelo número de domicílios alugados e pela quantidade de pessoas com Ensino Superior completo. A entidade destaca que essas características “ajudam a compreender seu perfil como polo regional de educação e serviços”.

O que explica a liderança dos municípios

O Secovi-RS destaca alguns dos pontos que justificam o top 5 do ranking de atratividade:

Caxias do Sul: no topo do ranking, o município demonstra força econômica, aparecendo em segundo lugar no número de empresas e de empregados formais entre os municípios analisados, e apresenta um dos maiores PIBs do Estado, como destaca o Secovi-RS

Canoas: a cidade da Região Metropolitana apresenta números expressivos, com destaque para o emprego formal, a atividade econômica e a população em idade ativa

Pelotas: tem destaque na estrutura habitacional, ocupando posições importantes tanto no número de domicílios próprios quitados quanto na população em idade ativa, segundo os responsáveis pelo levantamento

Passo Fundo: além da relevância no mercado de trabalho formal e na atividade econômica, tem uma base importante de empresas e domicílios, segundo os pesquisadores

Capacidade por padrão imobiliário

Um segundo indicador exposto na pesquisa do Secovi-RS é a capacidade e potencial dos municípios de receber empreendimentos por padrão construtivo (baixo, médio ou alto). Nessa análise, leva-se em conta o potencial de investimento de cada município, e a dimensão utilizada para essa classificação são as faixas de rendimento. Por exemplo, são classificados com potencial “forte” os municípios que apresentam resultados mais expressivos proporcionalmente nas faixas de rendimento correspondentes a esse padrão.

Nesse recorte, quando olhamos o segmento de alto padrão, o levantamento coloca no mesmo campo grandes cidades e municípios com número menor de habitantes. Por exemplo, estão no grupo de potencial forte para esse segmento cidades como Caxias do Sul, Pelotas e Santa Maria, mas também Nova Ramada e Ipiranga do Sul (veja no mapa).

— O investidor que queira focar em um perfil de imóvel de classe A, de alto padrão, também vai ser mais certeiro quando investir nessas regiões, que é uma coisa que já acontece no âmbito nacional. Então, é a mesma coisa que a gente tem que aplicar no âmbito regional — destaca o vice-presidente de Comercialização do Secovi-RS sobre como esse tipo de dado pode ser usado por empresários da construção civil.

Essa classificação não significa que o município necessariamente receberá imóveis de determinado padrão, mas, sim, que a cidade apresenta características de renda que podem favorecer a existência de público consumidor para esse tipo de imóvel.

O professor da UFRGS Eber Pires Marzulo afirma que, para converter a atratividade urbana em construção de novos empreendimentos, os municípios precisam dispor de uma boa base econômica e de infraestrutura:

— Quando o mercado imobiliário chega, ele não tende a ser ponta de lança no sentido de puxar os outros setores. Ele vai atrás do que já tem: é atraído para onde já existe uma economia mais pujante.

No ramo de baixo e médio padrão, são fundamentais a demanda demográfica e o potencial de geração de empregos, além de serviços básicos bem estabelecidos. Já no alto padrão, o perfil muda:

— O alto padrão é um imóvel basicamente voltado para o investimento. Por isso, depende da existência de estoque de terra, legislação urbana e conexões viárias consolidadas com os grandes centros. 

Na prática, o levantamento pode ajudar a identificar municípios com características favoráveis ao desenvolvimento imobiliário, mas não garante que novos empreendimentos serão viáveis. A conversão desse potencial em obras, segundo especialistas, depende de fatores como demanda, renda, infraestrutura, disponibilidade de terrenos e regras de ocupação urbana. 

Em um cenário de crédito caro e juro básico estacionado em dois dígitos, esses elementos são decisivos para que a atratividade apontada pelos indicadores se converta em investimentos efetivos.

sábado, 10 de outubro de 2026

07/10/2026 - 09h00min
J. J. Camargo

Quando o silêncio é um idioma

O contraste entre a agitação dos vivos e a serenidade de quem parte é um tema desafiador para o médico. "As palavras podem mentir, mas o silêncio guarda a verdade." (Sêneca)

Fui chamado para ver um paciente antigo. Quase não o reconheci, tão emagrecido estava. Ao lado dele, a filha descrevia a irritação do pai com as visitas: parentes bem-intencionados que chegavam munidos de anedotas e barulho, tentando desesperadamente "distraí-lo" da própria finitude. Mal sabiam eles que, para quem encara o fim, a distração é uma ofensa.

Quando lhe perguntei como poderia ser útil, ele não pediu uma nova terapia ou uma renovação de esperança. Pediu para compartilhar a proximidade física como um parceiro que no passado o ajudara num momento de medo e dor. Repartir a presença já lhe bastava: "Tome um chimarrão comigo e não se importe se eu decidir ficar quieto".

Sentamo-nos. O amargo da erva e o calor da cuia serviram de âncora para um tempo que já não tinha pressa. Ali, o silêncio não era ausência de assunto; era a densidade de uma presença. Naquela quietude, ele não estava sozinho; ele estava, talvez pela primeira vez no dia, acompanhado de si mesmo.

Após um longo tempo emudecido, ele revelou a origem de sua maior tristeza: a perda recente de um velho amigo. Não o descreveu pelas conversas que tiveram, mas pela qualidade do vazio que dividiam. 

"Foi a pessoa com quem mais dividi silêncios na vida", disse ele. "Ele ter morrido antes de mim foi meu maior azar, porque fiquei entregue aos barulhentos. São pessoas boas, que querem me animar, mas não entendem que é difícil rir no presente, quando não há do que rir no futuro".

Para quem encara o fim, a distração é uma ofensa.

Essa frase me derrubou, porque em geral acreditamos numa falácia: o diálogo pressupõe o uso de palavras, ignorando que o silêncio pode ser mais eloquente.

Muitas vezes, em condições de avassaladora tristeza seremos lembrados não pelo que dissemos, mas pelo que ouvimos em constrito silêncio. No leito da terminalidade, o silêncio é o oxigênio da alma. É o espaço onde a vida decanta o que valeu a pena e os sentidos encontram lugar e relembram o que foram ou deveriam ter sido.

Nesta situação, aqueles que amam e não suportam o silêncio do outro, na verdade, estão fugindo do próprio vazio. Tentam preencher o quarto com palavras inúteis para não ouvir o que o silêncio do doente grita: a aceitação da iminência da morte.

Aquele paciente me ensinou que a verdadeira amizade — e talvez a medicina mais profunda — se mede pela capacidade de estar junto sem a obrigação de impressionar. O amigo que se fora levara consigo a compreensão de que o silêncio é um idioma.

Terminamos o chimarrão. Saí daquele quarto convencido de que a alma, às vezes, só precisa de alguém que aceite o convite para, simplesmente, não dizer nada. O contraste entre a agitação dos vivos e a serenidade de quem parte é um tema desafiador para o médico que tenha a noção do seu papel na antessala da morte, e precisa ter assimilado esse papel, se quiser ser útil.

Afinal, todos nós precisamos aprender, mais cedo ou mais tarde, que tomar um chimarrão em silêncio pode ser a forma mais eloquente de dizer: "Estou aqui, me alcance a cuia!".

 


02/10/2026 - 14h37min
Martha Medeiros

Quem se acha superior aos demais não passa de um dinossauro 

Nosso saldo bancário ou posição no organograma não deveria fazer diferença. Braquiossauros. Velociraptors. Pterodáctilos. Hierárquicos. Sim, incluiria os hierárquicos nesta turma. Quem se acha superior aos demais e usa o poder para obter vantagens não passa de um dinossauro também.

A sociedade é ordenada por cargos e funções. Pessoas contratam outras para trabalhar com elas ou trabalhar para elas. A despeito da sutil diferença entre as duas preposições, vale a máxima: eu pago, você obedece.

Sempre tive dificuldade com essa concepção de mundo. Era uma pirralha e não entendia nem mesmo a razão de ter que abaixar a cabeça diante de pai e mãe. Muitas vezes, depois de ouvir um sermão, tentei me defender, mas fui interrompida com um “não me responda”. Ou era calada com a frase “Criança não tem querer”. 

Eu achava injusto colocar a situação nesses termos, mas nunca promovi nenhuma rebelião infantil. Ficava quieta. Acho um absurdo que hoje as crianças mandem e os pais obedeçam. Sempre respeitei meus pais, como respeitei meus professores e sigo respeitando a todos, mas não pela hierarquia, que para mim é um conceito obsoleto, e sim como um tributo a quem sabe mais do que eu.

E todos sempre saberão alguma coisa que eu não sei. Um Papa sendo operado por um cardiologista: quem é que merece ter as mãos beijadas na sala de cirurgia? Um milionário cujo carro quebra na estrada: qual o valor do mecânico que veio em seu socorro? Uma celebridade que acaba de dar à luz e tem baixa produção de leite: VIP não seria a mulher que amamentará o bebê em seu lugar?

É a dinâmica da vida. Precisamos uns dos outros, e nosso saldo bancário ou posição no organograma não deveria fazer diferença.

Ninguém é melhor que ninguém, apenas algumas têm mais dinheiro. Que entre logo em extinção aquele que circula de nariz em pé, achando que vale mais que o porteiro que lhe abre a porta ou que o garçom que lhe serve o vinho. Se pudesse observar a si mesmo à distância, desdenhando de quem lhe atende, teria vergonha da própria canastrice. O mundo avançou, se unificou, e é nosso dever acompanhar esse movimento, em vez de fazer carreira como fóssil. 

Falo sobre todos nós e nossas relações sociais, mas, hoje, cabe especificar: tiranos, ditadores, golpistas e todas as vossas majestades que desconhecem o diálogo são os dinossauros do século 21. E nosso voto, o asteroide que pode eliminá-los.


09/10/2026 - 14h58min
Martha Medeiros

O dia que o Brasil rachou

O precipício se abriu devido à ruptura do que é moralmente aceitável. 

Irmandade era aquilo. Lula disputava com Collor, com Brizola, com Fernando Henrique, com José Serra, perdia, ganhava, e o povo sempre esperando mais, equilibrando-se entre dias melhores e dias piores, a política decepcionando como era praxe. Mas ninguém jurava o outro de morte e todos gostavam de Chico Buarque.

Até que amanheceu o 17 de abril de 2016, e durante a transmissão do julgamento do impeachment da Dilma, um deputado até então desconhecido fez uma homenagem a um torturador, e não a qualquer um, e sim àquele que supliciou a presidente, que foi obrigada a escutar essa afronta presencialmente. Ali foi cruzada uma linha civilizatória.

Fosse um deputado com algum verniz, teria pedido desculpas no dia seguinte, alegado um excesso verbal no calor da hora, afinal, já tinha cumprido seu objetivo, ganhara os holofotes e as manchetes, não era mais um desconhecido. Em vez disso, ele fez de suas blasfêmias o símbolo de uma nova era e recebeu o apoio da metade da população, que logo o elegeria para o cargo máximo do Executivo.

Os analistas políticos acharam por bem divulgar a rachadura como sendo entre a esquerda e a direita, assim ficava mais fácil escrever editoriais e cada eleitor reconheceria o seu lado. Uma leviandade. A questão era – e é – mais profunda e mais incômoda. Tem nada a ver com economia em um canto do ringue, pautas sociais no outro. Tudo isso pode coexistir. 

O precipício se abriu devido à ruptura do que é moralmente aceitável, a tal linha civilizatória que nos separa da barbárie. Ao rompê-la, destranca-se a porta que conduz ao caos. Deixa de existir acordo de cavalheiros, compostura básica, respeito constitucional. A nação fica fraturada e refém de bandidos.

A tortura é a falência da condição humana. Já lemos livros a respeito, vimos cenas no cinema, escutamos os depoimentos das vítimas, e o horror embrulha o estômago: só o que se quer é fugir do assunto.

No rol dos crimes hediondos, matar fica em segundo lugar. Provocar dor física dilacerante em outro ser humano, sem chance de defesa, é um ato animalesco que difere a besta do homem.

Eu seria louca se achasse que metade dos brasileiros relativiza a tortura. É óbvio que não. Mas somos seres psicológicos, manipuláveis, levados a sublimar. A ver coragem onde há covardia. A ver heroísmo onde há vileza.

Naquele fatídico dia, parte do Brasil fez uma opção funesta – fingir que aquilo não estava acontecendo dentro do Congresso Nacional. E assim chegamos ao hoje, em que fazemos de conta que estamos passando apenas por uma trivial briga de torcidas. Somos todos, essencialmente, pessoas boas. Porém, alguns tão “bons” que preferiram, diante daquele perigoso precedente, ignorar o que viram.

10 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Plantação de fantasias

Você já desencavou uma moeda antiga? Algum dobrão com a efígie da República? 1, 5, 10, 20 ou 50 centavos? Fui eu que enterrei.

Eu acreditava que depois viriam pés de moedas. Numa filosofia de sementes que se multiplicariam no fundo da terra. Não vingou meu investimen to. Não por falta de tentativa.

Não procurava um tesouro no quintal, eu mesmo produzia o segredo. Rabiscava um mapa com as coordenadas para permitir a localização.

Arrecadava os cruzeiros que achava pela casa, que sobravam na bolsa da mãe ou na carteira do pai, ou uma parcela do que recebia de mesada, para largar na horta. Posso garantir que as alfaces e as rúculas ficavam ricas.

Na época, não imaginava que o dinheiro vencia, que a inflação comia os zeros, que os valores em circulação caducavam com os planos financeiros. Seguia fábulas, não a realidade.

Mantive meu orçamento secreto até o momento em que Rodrigo, meu irmão mais velho, criou uma variação da teoria. Aconselhou-me a enterrar meus bonecos. Não sei em que livro leu a respeito da tradição funerária da cultura maia.

A morte não era o final, mas o começo de lutas emocionantes. Inventou de dizer que os playmobils iriam guerrear num submundo conhecido como Xibalbá.

É o que dá viver com mano nerd. Você se torna a cobaia de seus experimentos malucos. Com muito sacrifício, com choro reprimido, com birra, aceitei a aposta quando ele comentou que os cabelos deles cresceriam após três meses. Esse detalhe sobrenatural me conquistou.

Nem questionei o processo de transformação, sequer levei em consideração que eles usavam peruca, encaixada na cabeça. Admiti o absurdo da situação. Fé de criança flerta com o impossível. Cedi os meus brinquedos favoritos, que entraram numa cova paramentados com armadura, lança e escudo.

Contei os dias, guardei a folhinha com o lugar da desova. Suportei a paciência. Perdi o ânimo no contraturno da escola, sem ter com o que me divertir. Restou-me o castelo vazio e a saudade de seus habitantes minúsculos.

O que não esperava é que, transcorrido o tempo, o pai cimentasse de surpresa parte do pátio para jogarmos bola. Veio nos contar a novidade com orgulho, ansiando por nossa algazarra. Pois não mais nos sujaríamos com o barro vermelho.

Colocou concreto sobre meus homenzinhos que dormiam, aguardando meu resgate, agora arremessados de vez ao sono eterno.

Ainda arco com pesadelos, temendo os senhores de Xibalbá, as supostas vozes debaixo de meus pés, as rachaduras no piso. Minha esperança é que os playmobils tenham encontrado, por fim e ao menos, minhas moedas. 

CARPINEJAR

10 de Outubro de 2026
COM A PALAVRA

João Bosco - Cantor e compositor

"Vejo um dinamismo na música popular brasileira"

No mesmo ano em que entrou na faculdade de Engenharia, João Bosco conheceu Vinicius de Moraes, responsável por abrir caminhos no mundo da música a um então promissor compositor de Ponte Nova, Minas Gerais. Embora tenha levado os estudos adiante, a carreira de engenheiro não foi longe: dois dias depois de colar grau, em 1973, Bosco entrou em estúdio para gravar o primeiro disco. 

Agora, aos 80 anos, celebra em turnê e álbum batizado de Amigos Novos e Antigos uma trajetória que ajudou a moldar a identidade cultural brasileira. O artista traz o show à Capital no dia 15, no Teatro do Bourbon Country. Os ingressos estão à venda pela plataforma Uhuu.

O seu álbum novo, como diz o título, tem convidados que são parceiros de longa data, como Zeca Pagodinho e César Camargo Mariano, e artistas bem jovens. Como foi a escolha?

A ideia era fazer um álbum que pudesse se chamar Amigos Novos e Antigos, que é o título de uma música minha e de Aldir Blanc e que fala muito sobre amizade. Os primeiros versos dizem: "As frases e as manhãs são espontâneas/ Levantam do escuro e ninguém pode evitar". A escolha desses amigos tem essa espontaneidade também. À medida que a gente ia pensando sobre o álbum, eles iam se perfilando.

Os amigos novos eu não conhecia, quem foi me mostrando foi a produtora, Júlia Bosco, e eu fui me inteirando do trabalho de cada um. E eles mesmos foram escolhendo as canções.

Você é de uma geração que moldou a identidade musical do Brasil. Essa época é muitas vezes vista como inalcançável e há uma impressão de que a música brasileira perdeu potência e qualidade. Como você vê isso?

Vejo um dinamismo na música popular brasileira. Por exemplo, a faixa-título do disco eu gravei com o Mestrinho, que tocou acordeon maravilhosamente e é um músico extremamente criativo. E quem interpretou a canção comigo foi a cantora Bruna Black, que tem uma extensão e um conhecimento vocal surpreendentes. Ela tem um timbre e um alcance de voz quase de cantora lírica. O Jota.Pê também, em Jade tem uma frase que ele altera a melodia original e faz do jeito dele, e o resultado é simplesmente belíssimo.

Para quem conhece sua trajetória, soa curioso saber que você estudou Engenharia. Você vislumbrava nessa época uma vida que não fosse voltada à música?

Não. Fui estudar em Ouro Preto porque nasci em Ponte Nova, que é muito próximo, mas a música já era algo que eu exercitava diariamente. Passei 11 anos em Ouro Preto, que é uma cidade muito artística e me inspirava. Em 1967, ano em que eu entrei na faculdade de Engenharia, conheci o Vinicius de Moraes, que voltava lá todos os anos. E o Vinicius ouvia as minhas canções e me dizia: "Continue aqui, porque faz bem à sua música".

No verão de 1970, conheci o Aldir Blanc, que estudava Medicina no Rio. Nessa época, isso era muito comum. O Vinicius era diplomata, o Chico Buarque estudou Arquitetura. A universidade era um ambiente de muita informação, criatividade e cultura. E eu fui ficando em Ouro Preto porque conheci várias pessoas através do Vinicius.

Colei grau no dia 8 de março, vim para o Rio, eu e a Ângela (Mucci Bosco, esposa do artista) nos casamos no dia 9, e no dia 10 fomos para São Paulo, onde eu fui gravar meu primeiro disco.

Nessa mesma época havia outro grande acontecimento musical se formando em Minas Gerais, mas em Belo Horizonte, que era o Clube da Esquina. Você teve contato com eles?

Tive, sim. Sou muito amigo do Nelson Ângelo, que é um dos compositores do Clube da Esquina, porque ele tinha parentes em Ouro Preto. E foi ele quem me apresentou o Milton Nascimento, por volta de 1968, e fiquei amigo dele também. Às vezes eu ia para Belo Horizonte no final de semana, encontrava o Nelson e íamos visitar pessoas que estavam tocando na noite, como o próprio Milton. No intervalo ficávamos conversando, e assim foi com a maioria dos compositores do Clube da Esquina.

Mas embora eu conhecesse eles e a música que estavam fazendo, o que eu fazia ia por outro caminho, mais de negritude, mais ligado ao Moacir Santos, ao Baden Powell, ao Dave Brubeck Quartet. O Clube da Esquina estava mais ligado à música que se fazia na Inglaterra, e quando eu ouvi o disco deles fiquei deslumbrado.

É muito visível nas canções dessa época que vocês tinham uma preocupação em refletir sobre a formação do Brasil e suas contradições. A canção Nação é um grande exemplo disso. Isso era consciente, ainda mais considerando o momento que o país vivia?

Naturalmente, era uma preocupação nossa e a gente fazia as canções com essas ideias na cabeça. Mas tinha coisas que eram conscientes e coisas que eram naturais. Tanto que, assim como tinha o Nação, tinha o Siri Recheado e o Cacete, que era uma crônica, mas também muito brasileira. Tem uma canção que eu fiz com Aldir chamada Me Dá a Penúltima, em que falamos sobre colocar no mesmo barco realidade e poesia. E acho que isso é a síntese, as canções falavam da realidade, mas poeticamente.

E não te angustia ver que canções que tratam sobre mazelas do Brasil - como Ronco da Cuíca, De Frente pro Crime, Tiro de Misericórdia, Rancho da Goiabada - seguem atuais?

Você tem toda a razão. Essas canções tratam de violência e, na época, algumas pessoas achavam que havia exagero da nossa parte, mas o tempo demonstrou que não. Vivemos em um mundo muito cruel e violento.

Você chegou aos 80 anos muito ativo. A idade pesa? Parar está no seu horizonte?

Ainda não penso em parar, não. Mas a questão física realmente existe. Você deixa de fazer aquela caminhada que gostava no calçadão, do Leblon até o Arpoador, às vezes até duas vezes ao dia. Eu faço aquele mínimo possível, pra poder continuar tocando. Mas acho que o desejo de fazer música é maior do que essas dificuldades. É mais trabalhoso, mas eu continuo com esse empenho de procurar uma música que ainda faça jus a esse desejo. 

10 de Outubro de 2026
PAULO GERMANO

Maldita mídia

Há uma estupenda vantagem em perder uma eleição por culpa da imprensa: você não precisa aprender nada. Seu candidato continua ótimo. Suas ideias, corretíssimas. Sua leitura de país, impecável. Porque a explicação para o fracasso repousa numa força maior: jornalistas sem escrúpulos manipularam a frágil cabeça dos brasileiros.

É o que ocorre agora, segundo a esquerda, com a ascensão eleitoral de Flávio Bolsonaro. Foi o que ocorreu em 2022, segundo a direita, com a eleição de Lula. Dois campos que divergem até sobre a tabuada encontram aqui um terreno compartilhado: quando as urnas desobedecem, e velha mídia vira ré de novo.

Ou seja, o eleitor é sábio quando concorda comigo. Quando não concorda, alguém o enganou. Defendemos apaixonadamente a soberania popular, mas retiramos do povo a soberania intelectual assim que ela contraria a nossa. Aliás, é curioso que o enganado seja sempre o outro, jamais eu. A sociologia da comunicação chama isso de efeito de terceira pessoa.

Em resumo, o sujeito enxerga em si próprio um bastião da lucidez: "Eu sou crítico, sei ler as entrelinhas, estou vacinado contra a influência do mal". E enxerga no outro - sobre o qual sabe muito pouco - apenas um voto ridículo. Como não reconhece inteligência naquela escolha, seu impulso é procurar algum agente externo para explicá-la. Ou seja: o voto dele tem razões; o do outro tem explicações. Ele votou porque ponderou. O outro votou porque a midialixo induziu.

É uma bela ressurreição, por sinal. Passamos anos enterrando a imprensa - esse dinossauro tantas vezes tachado de obsoleto e decadente. Aí o nosso candidato começa a despencar e o defunto levanta do caixão para hipnotizar milhões de eleitores. Não é difícil de entender: no emaranhado de vozes que hoje disputam nossa atenção, a mídia tradicional é uma das poucas que ainda tem nome, rosto e endereço. Um culpado fácil, portanto.

Também não estou reivindicando inocência plena. A imprensa com frequência derrapa no tom, compra versões oficiais, distorce manchetes atrás de cliques, confunde vigilância com ativismo, enxerga o país pela bolha da redação. É cheia de vícios e vaidades - e tem poder suficiente para produzir estragos. Mas achar que uma conspiração midiática elege um presidente, no ecossistema de hoje, diz muito menos sobre o jornalismo do que sobre o pavor de se olhar no espelho.

Porque a derrota impõe uma pergunta: como é possível milhões de pessoas terem visto o que eu vi e concluído outra coisa? Posso tentar entendê-las. Ou constatar que alguém pensou por elas. A segunda hipótese, claro, me dispensa de considerar um cenário realmente perturbador: talvez ninguém tenha sido enganado. 

PAULO GERMANO

10 de Outubro de 2026
EM FOCO - Marcelo Gonzatto

Curtidas, comentários e compartilhamentos parecem cada vez mais antecipar o desempenho nas eleições. Levantamento mostra que 81% dos integrantes da elite digital que disputaram cargos conseguiram se eleger ou avançar ao segundo turno - entre eles, quatro do Estado

O elo entre influência digital e sucesso nas urnas

Uma fatia crescente dos políticos brasileiros está concentrando esforços em acumular seguidores em redes sociais como estratégia para vencer eleições. O resultado apurado no domingo comprova que a tática rende frutos: um levantamento revela que, dos cem políticos mais influentes do país no Instagram, 81% dos que disputaram mandatos foram eleitos ou estão no segundo turno. Além disso, 14 deles se consagraram como os mais votados em seus Estados para o cargo de deputado estadual, federal ou senador. Entre os gaúchos, todos os quatro integrantes da elite digital saíram vitoriosos.

Um estudo da plataforma de análise de dados Zeeng demonstra que a maioria dos principais influencers da política nacional se filia a partidos de direita, com 55% dos nomes, seguidos pela centro-direita, com 21% (veja dados completos no infográfico ao lado).

A avaliação feita pela startup toma como critério a média de interações por publicação feita de janeiro a junho deste ano para estabelecer o ranking de influenciadores da política. A empresa usa o Instagram como referência por considerá-lo a rede mais representativa dos brasileiros hoje, e contabiliza a média de interações por post em vez do número de seguidores por entender que é uma medida mais fiel da capacidade daquele perfil de fato influenciar a sociedade ao pautar discussões relevantes.

- Vivemos num país que é heavy user (usuário constante) de redes sociais, cada vez mais conectado. A evidência é de que a performance digital, especialmente no Instagram, está totalmente colada à performance eleitoral - analisa o CEO da Zeeng, Eduardo Prange.

Performances interligadas

Essa evidência, que ganhou força a partir da eleição de 2018, se consolida cada vez mais. Dos 10 candidatos a deputado federal mais votados do país, nove estão na listagem dos top 100. Os dois primeiros nas urnas, Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP), somaram mais de 3 milhões de votos cada um e ocupam, respectivamente, o primeiro e o terceiro lugar no ranking de influência virtual - a segunda colocada é Michelle Bolsonaro (PL), senadora eleita pelo Distrito Federal também com a maior votação local.

Outra constatação é de que a direita e a centro-direita vêm obtendo resultados muito melhores nos palanques digitais do que os partidos de centro, esquerda ou centro-esquerda (veja detalhes no infográfico). O PL, sozinho, representa 40% do ranking de popularidade na rede social. Depois vêm Novo (9%), Podemos (8%), PSOL e União Brasil (6% ambos). O PT tem 5%.

- A direita despertou há tempos para isso. Os perfis de direita costumam ser mais jovens do que os de esquerda, e fazem um trabalho mais estruturado. Se destaca mais quem atua como produtor de conteúdo, promove interação. A esquerda ainda usa muito o formato de monólogo, como mais um canal para discursar. Não gera estímulo para a interação - analisa Prange, que também atua como pesquisador na área de economia da atenção. _

Diferenças de abordagem ajudam a explicar desnível

O cientista político Marcos Paulo dos Reis Quadros, autor do livro O que Há de Novo na Nova Direita?, acredita que o tipo de tema abordado pelos diferentes espectros políticos também ajuda a explicar o desnível no desempenho digital:

- Uma parte significativa da esquerda brasileira mergulhou na pauta diversitária, centrando seu discurso na chamada agenda woke. A verdade é que apenas nichos da sociedade realmente se mobilizam a partir dessa pauta. Enquanto isso, o grosso da população está preocupado em pagar boletos, aumentar renda, cuidar da família, ter segurança, escola para os filhos, ir à igreja, pagar menos impostos... A direita percebeu isso, e seus representantes se valeram do meio digital para criar uma conexão com as massas que a esquerda perdeu ao se alienar em suas próprias pautas.

Prange observa ainda que os perfis campeões de interação, como o de Nikolas Ferreira, produzem conteúdo que interessa aos seguidores o tempo inteiro. Candidatos que intensificam o uso das redes sociais apenas em períodos eleitorais ou buscam mudar de estilo de uma hora para outra em busca de engajamento emergencial são percebidos como oportunistas ou pouco autênticos.

Em entrevista concedida na quinta-feira ao programa Timeline, da Rádio Gaúcha, o candidato que disputou a Presidência pelo partido Missão, Renan Santos, reafirmou a relevância da disputa digital que antecede o confronto eleitoral. Ele sustenta que representantes tradicionais de bancadas como as de pastores, do agro ou mesmo do Centrão vêm perdendo espaço para esse novo tipo de candidato.

- O eleitor está votando em um candidato-espetáculo (...). Todo mundo foi devastado por essa onda do político influencer - afirmou Santos. 

Gaúchos com destaque nas redes garantiram vagas

A lista dos cem políticos mais influentes no Instagram conta com quatro representantes do RS: Rony Gabriel (Podemos), Marcel van Hattem (Novo), Maurício Marcon (PL) e Gustavo Victorino (Republicanos). Não por coincidência, todos saíram vitoriosos das urnas. Van Hattem conquistou uma cadeira no senado ao lado de Ubiratan Sanderson (PL). Os demais venceram como deputados federais.

Marcon chegará ao seu segundo mandato consecutivo na Câmara, respaldado por 379 mil votos e um séquito de 856 mil seguidores no Instagram, que lhe garantem uma média de 34 mil interações em cada post publicado na rede. O melhor colocado do Estado no ranking nacional de políticos influenciadores, porém, é Rony Gabriel. Natural de Vitória, no Espírito Santo, é atualmente vereador em Erechim e fez 223 mil votos. Tem 2,1 milhões de seguidores no Instagram e uma média de 95,7 mil interações por publicação.

- As redes permitiram que os candidatos e mandatários desenvolvam canais diretos de comunicação com o eleitorado. Isso gera a sensação de proximidade e de que há ação contínua e prestação de contas constante. A linguagem coloquial e o formato fluido, com tom de improviso, muitas vezes deliberado, que se nota nas mensagens e vídeos dos candidatos, também constrói identidades com o eleitor - explica o cientista político Marcos Paulo dos Reis Quadros.

Quem consegue incorporar essa linguagem e construir uma comunidade de inscritos tem cada vez mais chance de transformar seguidores em eleitores.