Existem gestos que resumem a biografia de um grande homem
Havia no evento uma aura invisível dos melhores sentimentos que orbitavam em torno da memória do cirurgião Marcos Moraes
"O essencial é invisível aos olhos." (Antoine de Saint-Exupéry)
Há um tipo raro de luz que só acende quando estamos determinados não apenas a olhar o sofrimento do outro, mas a ver com o coração a intensidade da sua dor.
Uma energia mútua e calorosa, que quase se pode palpar, circula entre essas pessoas dispostas a enxergar a dor do próximo não como um fardo, mas como um pedido de socorro.
Provei dessa sensação maravilhosa na semana passada, convidado para uma conferência durante a comemoração dos 35 anos da Fundação do Câncer, no Rio.
Entre o convívio afetuoso com o doutor Paulo Niemeyer, presidente do Conselho Curador; o doutor Luiz Augusto Maltoni, diretor médico da fundação; a atriz e embaixadora Isabel Fillardis e a doutora Vivian Rumjanek, com seu tom maternal de contar a história da entidade, havia uma aura invisível dos melhores sentimentos que orbitavam em torno da memória de um homem extraordinário: o cirurgião Marcos Moraes.
Foi ali que reencontrei uma história, que ouvi no passado do próprio Marcos, agora resgatada pela jornalista Claudia Jurberg, que traduz com precisão mágica a essência dessa energia boa:
"Marta era empregada doméstica. Apenas uma semana depois de conseguir um emprego pelo qual batalhara por dois longos anos, ela percebeu que tinha um nódulo na mama. Mas como desgraçadamente acontece com os despossuídos, a fome não fica esperando a saúde. Então, entre tratar de si ou assegurar o pão na mesa, Marta priorizou o que comer. Só buscou socorro médico muito tempo depois, quando o tumor já lhe rompera a pele em um anúncio desolador e irreversível.
Ao ser admitida no Instituto Nacional de Câncer (Inca), o destino colocou Marta no caminho de uma revolução silenciosa. Naquela época, o doutor Marcos Moraes havia criado um programa pioneiro de cuidados paliativos domiciliares — uma rede que mantinha centenas de pacientes nas suas próprias casas, amparados por dezenas de voluntários, responsáveis por garantir a dignidade que depende do controle efetivo da dor.
Quando soube que poderia ser incluída no programa, Marta exultou. Ir para casa no limiar da existência carrega um significado sagrado que só quem avista a finitude consegue compreender. O serviço social, contudo, hesitou. O perfil familiar era trágico: dos quatro filhos, apenas uma filha trabalhava; um filho deficiente, um dependente químico e uma filha prostituta na favela completavam o quarteto incapaz de oferecer o mínimo de suporte.
Mas a comoção e o brilho nos olhos de Marta falaram mais alto. Movido pela empatia e compaixão, o doutor Marcos Moraes não apenas autorizou sua ida, como tomou para si a missão de visitá-la diariamente. O Serviço Social havia identificado a tragédia familiar, mas Marcos conseguiu ver a urgência do resgaste de tanto amor negligenciado.
Marta viveu apenas 47 dias depois que deixou o hospital. Na véspera de sua partida, em sua última visita, de mãos dadas com Marcos ela usou palavras que mal cabiam na sua humildade para agradecer:
— Doutor Marcos, o senhor não sabe o que significou permitir que os meus filhos cuidassem do meu fim. A minha vida inteira eu senti muita vergonha desses dois... E agora, por sua bondade, eu vou morrer cheia de orgulho deles."
Naquele gesto, o médico não havia apenas aliviado a dor do corpo. Ele devolvera àquela mãe o amor de seus filhos e, aos filhos, a dignidade de terem sido o derradeiro refúgio de quem, lá atrás, lhes dera a vida, sem pedir nada em troca.
A cerimônia continuou, outros discursos vieram, mas o meu coração permaneceu preso àquele encontro sublime na casa de Marta. Voltei do Rio com a convicção renovada de que existem gestos que resumem a biografia de um homem, um grande homem. E que não importa quantas homenagens se prestem à memória de Marcos Moraes: para aqueles que tiveram a ventura do convívio, sempre restará a certeza de que ele merecia mais. Muito mais.












