sexta-feira, 9 de outubro de 2026

09 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Problemão

Visitei minha mãe. No corredor do seu edifício, encontrei um morador. - Ah, você é filho da Maria Carpi, a poeta? - Sim - respondi.

Eu já estava pronto para ouvir elogios e lustrar o brilhante orgulho pela minha mãe. Mas ele estava um pouco assustado. - Você pode falar com ela? Ela está causando um problemão.

Fiquei matutando: o que uma senhora de 87 anos, feliz da vida, é capaz gerar de incômodo na vizinhança? Música alta? Não escuta. Visitas tarde da noite? Acho que não vem fazendo festas. Infiltração? Tampouco fui informado de algum vazamento em seu banheiro.

Perguntei: - O que houve?  Ele coçou a cabeça como que procurando as melhores palavras. A coceira, de fato, ajuda a pensar. - Você precisa controlá-la. É que ela não para de plantar no jardim. Converteu a entrada do prédio numa floresta.

Eu ri. Pedi desculpas pela risada involuntária, que foi inevitável. - Isso não é bom? - questionei. - É - ele concordou. - Mas não sei onde vai parar. Eu disse que ele tinha razão.

- Realmente, tudo o que minha mãe toca jamais sei onde vai parar. Eu recebi um diagnóstico de retardo mental quando pequeno, ela me alfabetizou e me tornei escritor. Ela ultrapassa os limites do bom senso. Ele começou a rir comigo e comentou: - Então, vamos ver onde esse seu novo poema vai acabar!

É que Dona Maria, egressa da tradição de morar em casa, sem espaço no apartamento para as suas plantações costumeiras, apropriou-se do espaço comum do condomínio.

Com seus passinhos miúdos, sua pazinha, seu jeitinho de vovozinha, cheia de melenas grisalhas, como quem não quer nada, cultivou duas oliveiras e um limoeiro-siciliano. Afora um canteiro comunitário de temperos. Afora roseiras, orquídeas, manacás-da-serra e folhagens.

Baixou o paisagista Roberto Burle Marx nela. Investe sua aposentadoria em sementes e mudas em floriculturas. Aquele gramado básico se transformou numa mata com cores suntuosas e matizes fortes. Ela incentivou, inclusive, uma migração dos pássaros do bairro, com o frete dos seus ninhos de outros endereços para o local. Há uma orquestra de aves no alvorecer, como não existia antes.

O cheiro do lugar está diferente, absolutamente doce, com um difusor de aromas naturais infinito, dispensando os frascos com varetas. Não tem quem não se detenha na calçada para admirar. Cachorros puxam as coleiras, crianças se agarram às grades, pais perdem a noção do tempo, casais de namorados suspiram. É atração turística da rua Lageado.

Eu imagino o seu plano. Que as árvores cresçam até chegar às suas janelas. Assim ela voltará a ser menina e usará uma passagem secreta: descerá pelos galhos, naquilo que ela chamava na sua infância de "elevador de Deus". 

CARPINEJAR

09 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

A profissionalização do furto de fios

O furto de fios e cabos de cobre foi por muito tempo associado especialmente à ação de dependentes químicos, que arrancavam pequenas quantias da rede aérea e as revendiam no mercado clandestino local para sustentar o vício. 

Mas é crescente a percepção de que quadrilhas especializadas, com conhecimento técnico e equipamentos sofisticados, atuam cada vez mais nesse ramo do crime. A interrupção no fornecimento de energia elétrica que o delito acarreta traz transtornos à população, afeta o trânsito e impõe prejuízos a empresários, concessionárias e ao poder público.

Reportagem de Pâmela Rubin Matge, publicada ontem em Zero Hora, mostra essa transformação. Grupos com caminhões, guinchos, ferramentas profissionais e perfuradores de solo passaram a furtar cabos de energia e de telecomunicações nas redes subterrâneas. Para não chamarem atenção, usam uniformes e crachás falsos, como se fossem funcionários de concessionárias e de empresas terceirizadas da área. Também cresceu o número de ex-colaboradores dessas companhias detidos por esse crime.

Essa encenação cinematográfica e a maior organização da cadeia de furtos e de receptação exigem que as autoridades busquem novas formas de fechar o cerco a essa infração penal. Ao que parece, cresceu o volume de material levado para fora do Rio Grande do Sul, o que indica ganho de escala e ação interestadual. Um dos grandes desafios é elaborar estratégias para inibir essa ação dissimulada nas ruas e fazer com que sejam percebidas a tempo de serem flagradas.

O cobre passa por um momento de valorização no mercado internacional, com cotações recordes. É um dos chamados metais críticos. Tem demanda crescente pela transição energética, rumo à maior eletrificação, e também por ser indispensável para a infraestrutura da inteligência artificial (IA). A lucratividade crescente atiça a cobiça de criminosos, inclusive traficantes de drogas. Investigações já apontam o envolvimento das facções.

Como se trata de uma preocupação nacional, o Congresso aumentou, no ano passado, as penas para o furto e a receptação de fios. No caso da receptação, quando a fiação levada causar interrupção de serviços essenciais, pode chegar a 16 anos. Mas as maiores sanções parecem não ter sido suficientes. Na iluminação pública da Capital, a extensão de fios levados de janeiro a agosto foi 25% superior à registrada no mesmo período de 2025.

Uma pesquisa divulgada em maio pelo Sindilojas POA indica que 80% dos associados tiveram os negócios afetados pelo furto de fiação. As operações do poder público, com participação de forças policiais, são constantes. Uma CPI na Câmara de Vereadores da Capital apontou crescimento de 820% nas ocorrências entre 2021 e 2025 e sugeriu uma série de aperfeiçoamentos legislativos. 

Em julho, a prefeitura de Porto Alegre instituiu o Comitê Intersetorial de Combate ao Furto de Fios e Cabos. Composto por 30 órgãos públicos e entidades privadas, o colegiado deve traçar formas de prevenção e combate a esse crime. A iniciativa, que se espera consiga produzir resultados, mostra que, apesar dos múltiplos esforços, não foi encontrada ainda uma estratégia efetiva para o enfrentamento dessa verdadeira praga urbana. 

OPINIÃO RBS

09 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Proposta de Flávio para garantir mais um ano de mandato é indecente

Ainda nem disputou o segundo turno, para o qual é favorito por ter chegado à frente no primeiro, e o senador Flávio Bolsonaro (PL) já colocou as manguinhas de fora com sua proposta de reforma constitucional. Na campanha era apenas a promessa de não concorrer à reeleição, o que deixaria o caminho aberto para o governador de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas. Agora, com deputados e senadores de sua base em número suficiente para mudar a Constituição, Flávio flerta com a transformação do Congresso eleito em Assembleia Nacional Constituinte, pela força da maioria.

Primeiro, a reforma era apenas para reduzir a maioridade penal para 16 anos e mudar a forma de escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal, impondo idade mínima e limite do tempo no cargo. Agora, sem nenhum pudor, propõe aumentar em um ano o mandato que ainda não conquistou, como contrapartida ao fim da reeleição.

- Não tem que valer só para o futuro. Para mim, tem que valer já no meu mandato. Se serão quatro ou cinco anos, se também vai valer para governador e prefeito, isso o processo legislativo é que vai definir - afirmou, em coletiva de imprensa ontem.

Regras do jogo

Isso nada mais é do que mudar as regras do jogo com a partida em andamento. Quem votou em 4 de outubro votou para escolher o presidente e os governadores dos próximos quatro anos, não de cinco. E quem garante que, se a proposta for adiante, não vai surgir uma proposta de emenda para estender para seis, coincidindo a eleição com a de prefeito?

Se você sentiu um cheiro de Venezuela no ar, não é cebola com tomate fritando na cozinha do vizinho. Flávio é contra a reeleição? Muito simples: basta não ser candidato, se vencer daqui a duas semanas. O que não faz sentido é alterar a Constituição em benefício próprio, ressuscitando um debate de 1987, quando José Sarney ganhou o mandato de cinco anos.

O instituto da reeleição pode ser bom ou ruim, dependendo da forma como quem está no poder usa a máquina para se eleger. Em 1998, foi a reeleição de Fernando Henrique Cardoso que salvou o Plano Real, porque nada impedia que a construção fosse implodida pelo vencedor. Lembremos que o PT era contra o real e quatro anos depois, quando Lula venceu, o plano estava consolidado. _

Três erros na campanha do PT

No momento em que o centrão avança na direção de Flávio Bolsonaro (PL), com os parlamentares migrando a passos largos para a banda de onde vem o cheiro de poder, o presidente Lula, os líderes do PT e os envolvidos na campanha eleitoral deveriam fazer um exercício de humildade. Três desses erros são visíveis a olho nu: incapacidade de mostrar ao eleitor que o escândalo do Banco Master não é do governo Lula e que os principais envolvidos estão ligados ao adversário, incluindo o próprio Flávio Bolsonaro; subaproveitamento do potencial do vice-presidente Geraldo Alckmin e o salto alto por conta das pesquisas que indicavam vantagem para o presidente.

O marketing da campanha partiu de um princípio equivocado, o de que Lula venceu a eleição de 2022 pela própria força e não pela rejeição de Jair Bolsonaro e pela captura dos eleitores de Simone Tebet, à época, no MDB. As primeiras pesquisas, com ampla vantagem para Lula, estimularam o salto alto na campanha. _

Juliana Brizola reforça apoio a Lula no segundo turno

Apesar de aparecer pouco e de mencionar raramente Lula no primeiro turno, Juliana Brizola (PDT) deve se engajar mais para reeleger o presidente no segundo turno. Foi a promessa dela em reunião com a coordenação do comitê petista no Estado, ontem. Juliana garantiu que está disposta a participar ativamente da campanha de Lula.

O encontro reuniu dirigentes das oito siglas que participaram da coligação em torno de Juliana no Estado e líderes do PT. Foi definido um plano de ação para que Lula amplie sua votação no Rio Grande do Sul - ele fez 35% dos votos para presidente.

O grupo será coordenado por Edegar Pretto (PT), candidato a vice na chapa com o PDT, e contará com o trabalho de Manuela D?Ávila (PSOL) e Paulo Pimenta (PT), candidatos derrotados na disputa pelo Senado. _

Com a adesão dos derrotados no Rio Grande do Sul ao governo de Luciano Zucco (PL) e à campanha de Flávio Bolsonaro (PL), os suplentes podem ter esperança de conquistar uma vaga na Câmara ou na Assembleia, com a ida de um titular para o governo, ou de arranjar algum cargo no segundo ou terceiro escalão.

Não tem outra alternativa a não ser apoiar o Flávio (Bolsonaro). O Lula, com esse Congresso que foi eleito, caminha para a ingovernabilidade."

Germano Rigotto - Ex-governador do RS e ex-candidato ao Senado pelo MDB

Bancadas do PSD gaúcho apoiam PL

Depois do MDB, ontem as bancadas estadual e federal do PSD anunciaram adesão à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). O assunto foi discutido em um almoço no Palácio Piratini, com o governador Eduardo Leite, os atuais deputados e os eleitos. Embora Leite tenha dito que tende a ficar neutro, os deputados se reuniram depois na Assembleia e assinaram uma nota de apoio incondicional à candidatura de Flávio.

A nota diz que os signatários trabalharam pela candidatura de Ronaldo Caiado (PSD), mas que, encerrada essa etapa da disputa, os parlamentares avaliam ser necessário mudar a condução dos rumos do país. 

Fecomércio quer ouvir os eleitos

Para começar a relação com o pé direito, a Fecomércio convidou todos os deputados estaduais e federais do RS eleitos, além dos dois senadores, para apresentar as pautas de interesse do comércio de bens, serviços e turismo. O presidente da entidade, Luiz Carlos Bohn, deve apresentar essas pautas em um café da manhã hoje.

A Fecomércio apresentará sua atuação institucional e prioridades para o desenvolvimento econômico, empreendedorismo e fortalecimento empresarial. Temas como a proibição das bets e o fim da escala 6x1 estarão entre as pautas. Reforma administrativa e ajuste fiscal também serão discutidos. _

POLÍTICA E PODER

09 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Entre uma Constituição flexível e resistente

A partir de fevereiro do ano que vem, o PL terá 28 senadores e 121 deputados, as duas maiores bancadas eleitas por um único partido desde a redemocratização. Isso significa que o senador e candidato Flávio Bolsonaro (PL), se eleito no segundo turno contra o presidente Lula, não terá votos suficientes, sozinho, para mudar a Constituição. Mas teria facilidade para atrair votos do centrão, que reúne, em sua maioria, políticos conservadores.

Então, sim, Flávio, se vencedor, terá um ambiente parlamentar favorável à aprovação de propostas de emenda à Constituição, as PECs. Para aprová-las, são necessários 308 votos dos 513 deputados e 49 dos 81 senadores, em dois turnos de votações em cada Casa.

Na terça-feira, Flávio afirmou que pretende "mudar a Constituição e redemocratizar esse país". Primeiro, sim, com a conformação do Congresso que emerge das urnas, ele consegue alterar a Carta Magna com facilidade, desde que obtidas as maiorias exigidas. Dispensemos o esforço retórico feito para a sua militância de "redemocratizar esse país". Sejamos honestos: o Brasil não precisa ser redemocratizado pelo simples fato de não haver dúvidas de que vivemos em uma democracia constitucional. O resto é desinformação.

As propostas

Mas voltemos ao tema principal deste texto: a Constituição. Ao menos publicamente, o candidato tem apresentado três bandeiras que exigem PEC: redução da maioridade penal de 18 para 16 anos; fim da reeleição para cargos no Executivo; e restrições ao Supremo Tribunal Federal (STF).

A Constituição de 1988 já foi "emendada" 139 vezes. Aliás, as emendas constitucionais existem justamente para que o texto constitucional acompanhe transformações políticas, sociais e institucionais sem a necessidade de se refundar a República.

O que não pode ser alterado são as "cláusulas pétreas": a forma federativa de Estado, o voto direto, secreto, universal e periódico; a separação dos poderes; os direitos e garantias individuais, o famoso artigo 5º. Ao menos não podem ser alteradas sem a convocação de uma Assembleia Constituinte para a redação de uma nova Constituição.

As três propostas de Flávio estão dentro dos limites constitucionais. O problema não é esse. É legítimo e até necessário que se debata mudanças no Supremo, como limites a decisões monocráticas, código de conduta e revisão do alcance do foro por prerrogativa de função. Mas qualquer reforma precisa ter como objetivo preservar a independência da Corte e sua capacidade de exercer o controle de constitucionalidade, uma das bases do sistema de freios e contrapesos.

Há muito tempo, processos de erosão democrática não começam por meio de quarteladas. A questão é como essas mudanças serão conduzidas, com que transparência, mediante qual negociação institucional e com quais garantias de preservação da independência do Judiciário.

Em países como a Hungria de Viktor Orbán, a Turquia de Recep Tayyip Erdogan e El Salvador de Nayib Bukele, o autoritarismo começou com políticos que venceram nas urnas, com ampla maioria do parlamento, e que usaram as próprias regras do jogo para subvertê-lo.

A Constituição deve ser suficientemente flexível para acompanhar a sociedade e suficientemente resistente para proteger a democracia. _

Jovens de Garibaldi estão na Itália

Uma parceria entre a prefeitura de Garibaldi, a Associação dos Vinicultores de Garibaldi (Aviga) e os Comuni di Conegliano e di Follina, na Itália, levou três jovens do município da Serra para conhecer os processos que envolvem a fabricação de vinhos espumantes no país europeu.

Ana Carolina Fernandes Morlin, Letícia Conzati Agostini e Pedro Henrique Coppi Lorenzini embarcaram no último dia 26 e permanecerão na Itália até novembro. Eles participam do Programa Internacional de Especialização em Tecnologia dos Vinhos Espumantes - Método Martinotti Italiano.

O grupo realizou a primeira visita a uma vinícola da região de Conegliano, no Vêneto, onde observaram a elaboração do prosecco e as características que diferenciam a produção italiana da brasileira. _

Drones "caçadores-assassinos" na América do Sul

Os Estados Unidos enviaram drones MQ-9 Reaper para a América do Sul. Conhecidos como "caçadores-assassinos", os equipamentos foram deslocados para a Colômbia e o Equador para atuar em operações de combate ao narcotráfico na região. A informação foi revelada pelo jornal The New York Times nesta terça-feira.

Segundo a publicação americana, drones do mesmo modelo foram utilizados pelos EUA para matar o general iraniano Qassim Suleimani em uma operação em 2020. Cada unidade do MQ-9 Reaper custa aproximadamente US$ 50 milhões (cerca de R$ 250 milhões).

O MQ-9 Reaper é um drone turboélice com motor de 900 cavalos de potência, 11 metros de comprimento e envergadura de 20 metros. A aeronave atinge velocidade máxima de 444 km/h, tem alcance de 1.850km, autonomia de 27 horas e pode operar a mais de 15km de altitude. Além do uso militar, o modelo também é empregado pela Nasa e pelas Forças Aéreas de Reino Unido, Itália, França e Espanha.

Sua função principal é a coleta de dados de inteligência em apoio a missões de ataque, coordenação e reconhecimento. Para isso, conta com um conjunto de sensores visuais que inclui infravermelho, câmera infravermelha de ondas curtas e marcadores a laser.

A aeronave tem capacidade para carregar até oito mísseis guiados por laser, oferecendo operação de alta precisão, baixo dano colateral e poder de ação antiblindagem e antipessoal.

O drone é controlado a distância a partir do solo por uma equipe composta por dois operadores: um piloto e um especialista responsável por operar os sensores e guiar os armamentos. _

OEA e a eleição brasileira

O relatório sobre o primeiro turno das eleições brasileiras produzido por observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA) detalhou que o pleito do último domingo transcorreu de forma pacífica e "sem incidentes de maior gravidade". Entretanto, de acordo com o documento divulgado pela entidade na terça-feira, houve um "ativismo político internacional" sobre o processo eleitoral brasileiro.

Segundo os observadores, atores políticos e da sociedade civil expressaram à missão preocupação com as manifestações e ações de atores internacionais sobre o processo eleitoral no Brasil, que poderiam ter impactado de alguma forma a campanha. O relatório da OEA não menciona nenhum caso específico.

Para o segundo turno, a OEA recomenda a busca pela máxima segurança jurídica e o incentivo aos debates programáticos entre os postulantes. _

INFORME ESPECIAL

sábado, 3 de outubro de 2026

01/10/2026 - 09h33min
J. J. Camargo

Existem gestos que resumem a biografia de um grande homem

Havia no evento uma aura invisível dos melhores sentimentos que orbitavam em torno da memória do cirurgião Marcos Moraes

"O essencial é invisível aos olhos." (Antoine de Saint-Exupéry)

Há um tipo raro de luz que só acende quando estamos determinados não apenas a olhar o sofrimento do outro, mas a ver com o coração a intensidade da sua dor. 

Uma energia mútua e calorosa, que quase se pode palpar, circula entre essas pessoas dispostas a enxergar a dor do próximo não como um fardo, mas como um pedido de socorro. 

Provei dessa sensação maravilhosa na semana passada, convidado para uma conferência durante a comemoração dos 35 anos da Fundação do Câncer, no Rio.

Entre o convívio afetuoso com o doutor Paulo Niemeyer, presidente do Conselho Curador; o doutor Luiz Augusto Maltoni, diretor médico da fundação; a atriz e embaixadora Isabel Fillardis e a doutora Vivian Rumjanek, com seu tom maternal de contar a história da entidade, havia uma aura invisível dos melhores sentimentos que orbitavam em torno da memória de um homem extraordinário: o cirurgião Marcos Moraes.

Foi ali que reencontrei uma história, que ouvi no passado do próprio Marcos, agora resgatada pela jornalista Claudia Jurberg, que traduz com precisão mágica a essência dessa energia boa:

"Marta era empregada doméstica. Apenas uma semana depois de conseguir um emprego pelo qual batalhara por dois longos anos, ela percebeu que tinha um nódulo na mama. Mas como desgraçadamente acontece com os despossuídos, a fome não fica esperando a saúde. Então, entre tratar de si ou assegurar o pão na mesa, Marta priorizou o que comer. Só buscou socorro médico muito tempo depois, quando o tumor já lhe rompera a pele em um anúncio desolador e irreversível.

Ao ser admitida no Instituto Nacional de Câncer (Inca), o destino colocou Marta no caminho de uma revolução silenciosa. Naquela época, o doutor Marcos Moraes havia criado um programa pioneiro de cuidados paliativos domiciliares — uma rede que mantinha centenas de pacientes nas suas próprias casas, amparados por dezenas de voluntários, responsáveis por garantir a dignidade que depende do controle efetivo da dor.

Quando soube que poderia ser incluída no programa, Marta exultou. Ir para casa no limiar da existência carrega um significado sagrado que só quem avista a finitude consegue compreender. O serviço social, contudo, hesitou. O perfil familiar era trágico: dos quatro filhos, apenas uma filha trabalhava; um filho deficiente, um dependente químico e uma filha prostituta na favela completavam o quarteto incapaz de oferecer o mínimo de suporte.

Mas a comoção e o brilho nos olhos de Marta falaram mais alto. Movido pela empatia e compaixão, o doutor Marcos Moraes não apenas autorizou sua ida, como tomou para si a missão de visitá-la diariamente. O Serviço Social havia identificado a tragédia familiar, mas Marcos conseguiu ver a urgência do resgaste de tanto amor negligenciado.

Marta viveu apenas 47 dias depois que deixou o hospital. Na véspera de sua partida, em sua última visita, de mãos dadas com Marcos ela usou palavras que mal cabiam na sua humildade para agradecer:

— Doutor Marcos, o senhor não sabe o que significou permitir que os meus filhos cuidassem do meu fim. A minha vida inteira eu senti muita vergonha desses dois... E agora, por sua bondade, eu vou morrer cheia de orgulho deles."

Naquele gesto, o médico não havia apenas aliviado a dor do corpo. Ele devolvera àquela mãe o amor de seus filhos e, aos filhos, a dignidade de terem sido o derradeiro refúgio de quem, lá atrás, lhes dera a vida, sem pedir nada em troca.

A cerimônia continuou, outros discursos vieram, mas o meu coração permaneceu preso àquele encontro sublime na casa de Marta. Voltei do Rio com a convicção renovada de que existem gestos que resumem a biografia de um homem, um grande homem. E que não importa quantas homenagens se prestem à memória de Marcos Moraes: para aqueles que tiveram a ventura do convívio, sempre restará a certeza de que ele merecia mais. Muito mais.


02/10/2026 - 14h37min
Martha Medeiros

Quem se acha superior aos demais não passa de um dinossauro. Nosso saldo bancário ou posição no organograma não deveria fazer diferença

Braquiossauros. Velociraptors. Pterodáctilos. Hierárquicos. Sim, incluiria os hierárquicos nesta turma. Quem se acha superior aos demais e usa o poder para obter vantagens não passa de um dinossauro também.

A sociedade é ordenada por cargos e funções. Pessoas contratam outras para trabalhar com elas ou trabalhar para elas. A despeito da sutil diferença entre as duas preposições, vale a máxima: eu pago, você obedece.

Sempre tive dificuldade com essa concepção de mundo. Era uma pirralha e não entendia nem mesmo a razão de ter que abaixar a cabeça diante de pai e mãe. Muitas vezes, depois de ouvir um sermão, tentei me defender, mas fui interrompida com um “não me responda”. Ou era calada com a frase “Criança não tem querer”. 

Eu achava injusto colocar a situação nesses termos, mas nunca promovi nenhuma rebelião infantil. Ficava quieta. Acho um absurdo que hoje as crianças mandem e os pais obedeçam. Sempre respeitei meus pais, como respeitei meus professores e sigo respeitando a todos, mas não pela hierarquia, que para mim é um conceito obsoleto, e sim como um tributo a quem sabe mais do que eu.

E todos sempre saberão alguma coisa que eu não sei.

Um Papa sendo operado por um cardiologista: quem é que merece ter as mãos beijadas na sala de cirurgia? Um milionário cujo carro quebra na estrada: qual o valor do mecânico que veio em seu socorro? Uma celebridade que acaba de dar à luz e tem baixa produção de leite: VIP não seria a mulher que amamentará o bebê em seu lugar?

É a dinâmica da vida. Precisamos uns dos outros, e nosso saldo bancário ou posição no organograma não deveria fazer diferença.

O cuidador que dá banho em um vencedor do prêmio Nobel, a ele se equivale. Remuneramos serviços, mas não compramos pessoas. A cada vez que falamos com elas sem enxergá-las, a cada vez que usamos um tom de voz afrontoso, a cada vez que não as escutamos, aumenta a fúria contida, que poderá retornar para nós em forma de violência. Se é paz que queremos, é bom lembrar que ela passa pela horizontalidade das relações. 

Ninguém é melhor que ninguém, apenas algumas têm mais dinheiro.

Que entre logo em extinção aquele que circula de nariz em pé, achando que vale mais que o porteiro que lhe abre a porta ou que o garçom que lhe serve o vinho. Se pudesse observar a si mesmo à distância, desdenhando de quem lhe atende, teria vergonha da própria canastrice. O mundo avançou, se unificou, e é nosso dever acompanhar esse movimento, em vez de fazer carreira como fóssil. 

Falo sobre todos nós e nossas relações sociais, mas, hoje, cabe especificar: tiranos, ditadores, golpistas e todas as vossas majestades que desconhecem o diálogo são os dinossauros do século 21. E nosso voto, o asteroide que pode eliminá-los.

03 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Amar é mediunidade

Não sei o que me faz escrever. Não sei quem murmura o assunto nos meus ouvidos. Todo dia é uma decisão. Eu me informo, eu leio as notícias, eu estudo os temas do momento, mas no fim escuto a minha intuição. Sou do sexto sentido. Amar é mediunidade: para mim, não há diferença.

Somos sensíveis para nos comunicar com os outros. Orquestro as palavras para despertar silêncios e corrigir omissões. Algo me toca e preciso colocar no papel. O tempo não prevalece. Não há fronteiras entre os mortos e os vivos. A inspiração vem de um eco do inconsciente coletivo. Apenas deixo entrar o sussurro do vento. Abro as cortinas dos olhos.

Na quarta-feira, resolvi falar sobre o meu medo de marquises, que guardo desde a tragédia das Lojas Arapuã, na ladeira da Doutor Flores: a cobertura veio abaixo enquanto o personagem-símbolo da rede, Arapinho, distribuía balas e chocolates para os clientes que circulavam naquela tarde de 6 de outubro de 1988. Nove pessoas morreram soterradas, sendo duas crianças.

Jamais me esqueci. Eu me encontrava no centro. O acidente mudou as regras de segurança urbana em Porto Alegre. O que me pôs a evocar, do nada, um fato de trinta e oito anos atrás, sem nenhum gancho aparente com a atualidade?

Nas minhas redes sociais, escolhi uma canção de Zé Ramalho como trilha da chamada para a coluna. Entre tantas melodias, foi a que senti necessidade de publicar. Mas nunca são só casualidades, existe uma sincronicidade secreta definindo nossas atitudes. Eu desconhecia os motivos que me levaram para a crônica e para a música até receber esta mensagem.

"Querido Carpinejar,

Foi com surpresa que recebi hoje, no grupo de WhatsApp da minha família, a tua coluna ?Medo de marquises?. Minha tia - que à época tinha apenas 28 anos - e minha prima, sua filha, de (é até difícil dizer) apenas 4 anos, estavam lá. Minha tia teria ido mostrar o Arapinho para minha prima.

Eu era muito pequena quando tudo aconteceu. A única lembrança que tenho é de meu pai chorando copiosamente ao telefone, no momento em que recebeu a notícia. Eu não entendi o que havia se passado. Não me explicaram, o que poderia até ser compreensível: uma tentativa de poupar uma criança de algo que lhe fugiria ao entendimento.

Ocorre que os anos se passaram e muito pouco eu ouvia falar sobre isso. O assombro diante dessa dor inominável acabou por gerar um silenciamento coletivo em minha família. Até mesmo meu pai, que era fortemente ligado a ela, evitava o assunto. Entendo que foi um movimento autoprotetivo da parte de todos, porém a consequência foi um apagamento da memória delas.

Recentemente, no caminho para o trabalho, tocou ?Avôhai?, do Zé Ramalho, enquanto eu via o sol nascer. Aquilo foi um soco no meu estômago. Lembrei de minha mãe contar que minha tia adorava essa música e que tinha colocado o nome do meu primo em homenagem à música (Juan Avohai). Juan morreu no ano anterior, em 87 (sim, ela havia perdido o filho no ano anterior).

Uma espécie de revolta me tomou: como uma família pôde ser dizimada assim? Minha tia era tão linda, tão única? A partir daí, algo passou a clamar dentro de mim: era a necessidade de senti-los, de sabê-los. Minha irmã uniu-se a mim e, desde então, temos tentado trazer de volta à tona a memória deles.

E foi em meio a isso que veio a tua coluna, como uma confirmação, uma sincronicidade, um sopro sobre a poeira do apagamento. E veio com a voz de Zé Ramalho também. Ele, que cantou ?Avôhai?.

Obrigada por isso. Procurarei, da forma que eu puder, honrá-los, porque sempre é tempo.

Carinhosamente,

Fernanda." 

CARPINEJAR

03 de Outubro de 2026
MARCELO RECH

Tudo pelo almoço grátis

Depois de acompanhar de perto eleições há 46 anos, me dei conta de que não entendo nada de aritmética primária. Deve ser por isso que não compreendo como muitos candidatos conseguirão, sem revelar o truque mágico, cumprir as promessas de não elevar impostos, reduzir voluntariamente receitas e aumentar despesas, tudo ao mesmo tempo.

Eu supunha que nem na Suíça seria recomendável engordar despesas e ceifar impostos simultaneamente. O que dizer então destes trópicos, onde a União caminha na borda do abismo fiscal e os Estados vivem uma penúria de dar dó? Na minha modesta compreensão, no Brasil de orçamentos públicos esgualepados só haveria duas formas de gastar mais sem contrapartida em mais impostos. A primeira seria uma insólita arrancada no crescimento econômico, uma hipótese que, diante da inércia sobre as causas do travamento, tem chance similar à de enriquecer com o jogo do tigrinho. 

A outra é colocar mais dívida na dívida, que, aliás, é o que vem ocorrendo. Como o governo gasta além da conta e deve cada vez mais, os juros ficam nas alturas, o que, por sua vez, represa o crescimento, em um círculo vicioso que só será quebrado quando houver consecutivos e robustos superávits fiscais.

À exceção de alguns poucos candidatos em andrajos nas pesquisas, ninguém arrisca falar em sacrifícios ou perda de benefícios e privilégios. Nada de novo. Sinceramente, a falta de sinceridade é compreensível. Desviar do assunto quando as candidaturas são cobradas sobre suas magias fiscais é uma demagogia aceita passivamente pela imensa maioria dos eleitores. Eleição após eleição, quer-se acreditar, no Brasil, que existe almoço grátis. O candidato que disser o contrário, bau-baus.

Como o eleitorado vai na linha do me engana que eu gosto, é sintomático que um singular governador a passar a navalha em ano eleitoral não seja político. Ocupante do Palácio Guanabara desde março, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Ricardo Couto de Castro, assumiu a função no vácuo criado pela renúncia do governador Cláudio Castro, da vacância do vice e do impedimento do presidente da Assembleia. 

Dedica-se, desde então, a cancelar contratos estapafúrdios, a fechar secretarias e a demitir funcionários fantasmas e milhares de comissionados inúteis. Com o freio na roubalheira e nos desperdícios, o governador interino pretende economizar R$ 5 bilhões até o fim do ano.

No primeiro semestre, a arrecadação de ICMS do Rio saltou 17,2%, de longe a melhor performance do país. O desembargador fez, sim, a mágica: cortou despesas e elevou receitas, combatendo principalmente a sonegação dos combustíveis. Sua sorte é que não precisa distribuir afagos e nem engabelar os eleitores. 

MARCELO RECH

03 de Outubro de 2026
PAULO GERMANO

O candidato ruim

Aceito ser governado por um idiota. A democracia me obriga a suportar esse risco - e, analisando a nossa história, convém reconhecer que ele existe. Aceito perder para quem considero pior. Aceito engolir quatro anos de decisões que me revoltam e aceito assistir a milhões de brasileiros comemorando exatamente o que eu lamento. Faz parte.

O que eu não aceito é entregar, junto com a derrota, o direito de tentar vencer da próxima vez. Disso eu não abro mão.

E esse é o motivo que me fará votar, no domingo, num candidato que considero ruim. Não vou fingir que os defeitos dele ficaram menores porque o adversário me parece pior. Mas existem defeitos que fazem parte da má política - demagogia, incompetência, irresponsabilidade, corrupção. E existem defeitos que destroem as condições que tornam a própria política possível. Essa diferença, para mim, é determinante.

Não saber perder é o pior dos defeitos. Porque quem aceita governar uma democracia aceita também ser demitido por ela. Não importa se você pensa que é ungido por Deus, se milhões de bajuladores o aplaudem, se o outro grupo que disputa o poder é um desastre. Você recebe a chave sabendo que a casa não é sua. E, se não for reeleito, entrega a chave para o próximo, enfia o rabinho entre as pernas e tchau.

Outra coisa: a maioria tem o direito de governar; não tem o direito de decidir quem merece direitos. Nenhum presidente escolhe qual família é família de verdade, que tipo de amor merece respeito, qual pronome você deveria usar, que religião é a mais correta. Aliás, um presidente pode entregar a própria vida a Nosso Senhor Jesus Cristo, claro, é uma escolha dele, mas não pode entregar o Brasil - porque talvez não seja a escolha de 200 milhões. Maioria manda nos rumos do país, não nos rumos da vida dos outros.

E não quero governante forte demais, pelo contrário: quero alguém fraco o bastante para não conseguir fazer tudo o que gostaria. É justamente para isso, para torná-lo mais fraco, que existem Congresso, Justiça, imprensa, oposição, órgãos de controle - todos podem ser imperfeitos, alguns até repugnantes, mas são a garantia de que o presidente não pode tudo. O mandatário é livre para discordar, recorrer, enfrentar, mas não para arrancar desses contrapesos o poder de contrariá-lo.

Quanto ao meu candidato, seus defeitos seguirão lá se ele vencer - e não esperem que eu me cale sobre eles. Não admito esse contrato maluco de lealdade total a quem recebe meu voto. Sinto pena de quem atravessa quatro anos violentando a própria consciência para defender cada desatino do sujeito que elegeu. É o contrário: se o ajudei a chegar lá, a dívida é dele comigo. A minha é com a próxima eleição. 

PAULO GERMANO

03 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

É hora de o povo falar nas urnas

Os brasileiros vão às urnas neste domingo sob o impacto de uma crise institucional e moral aguda que atinge a política e acerta em cheio a cúpula do Judiciário, o que torna o momento mais inquietante. O poder que deveria ser garantidor do equilíbrio e fiador do cumprimento da lei passou a ser a principal fonte de instabilidade. 

Quando nada mais parecia surpreender, uma sequência de decisões monocráticas de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) corrompeu a tal ponto a configuração do debate entre os candidatos à Presidência da República que seria realizado na quinta-feira à noite pela Rede Globo que acabou por inviabilizar o confronto às vésperas do primeiro turno. Foi um desserviço à democracia.

A culpa por o eleitor ver frustradas as expectativas de assistir ao embate de ideias e comparar as propostas dos postulantes ao mais importante cargo do país, no entanto, também é dos dois principais candidatos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Embora cada um de sua forma e em seu tempo, ambos fugiram do confronto. Lula oficializou a decisão um dia antes. 

Temia ser o alvo dos demais candidatos, de campos políticos opostos ao seu. Flávio desistiu a poucas horas do debate, tudo indica que pelo receio de ser fustigado por Renan Santos (Missão), incluído no encontro por uma decisão individual sem fundamento jurídico proferida pelo ministro do STF Gilmar Mendes.

A população já demonstrava cansaço da radicalização política. A sucessão de escândalos que envolvem altas figuras dos três poderes da República gera desencanto e revolta na base da sociedade. O episódio da quinta-feira, por certo, piora a sensação de mal-estar e de repulsa. Mas o desânimo não pode se transformar em abstenção e a raiva não deve ser convertida em voto guiado pela ojeriza. 

Neste momento, a responsabilidade do eleitor aumenta. É hora de uma profunda reflexão para escolhas cuidadosas e conscientes para cada um dos cargos em disputa - e de comparecer às seções eleitorais. O voto é o meio mais poderoso de expressão dos brasileiros.

A eleição para o Planalto tem ainda um aspecto de efeméride. Será a 10ª vez, após a redemocratização do país, que os brasileiros exercem o direito reconquistado de definir o presidente. Cabe ao próprio eleitor, como agente das transformações que espera para o país, valorizar o voto como instrumento de soberania popular e depositar nele a esperança de um futuro melhor.

A despeito de correções necessárias, a democracia brasileira é digna de orgulho. Em meio aos solavancos, as regras do jogo, ao cabo, se sobrepõem. No Executivo, o vencedor assume e governa. Os derrotados vão para a oposição. Reorganizam-se e se reapresentam como alternativa quatro anos depois. 

As eleições têm periodicidade regular, quando pode haver a continuidade ou a alternância de poder. Eis a beleza da democracia. Se um caminho traçado pelo eleitor não traz os resultados esperados, o novo pleito é a possibilidade de a maioria corrigir caminhos e de renovar seus representantes.

Nesse contexto, reforça-se a relevância das escolhas para o Congresso. São votos que pedem maior análise do eleitor devido ao desvirtuamento do papel do Legislativo na última década. A farra das emendas impositivas alterou a dinâmica política. Deputados e senadores ganharam mais peso na correlação de forças com o Executivo. Cabe ao eleitor buscar informações sobre os candidatos e analisá-las de maneira atenta, como forma de fazer escolhas lúcidas.

O voto para o Senado, pelas atribuições da Casa, adquire importância ainda maior em 2026. Neste domingo, cada eleitor poderá sufragar dois nomes. Senadores têm a prerrogativa de aprovar a indicação de ministros do STF e de impor punições previstas na Constituição em caso de condutas incompatíveis com o cargo . São tarefas que também exigem juízo e discernimento. 

O exame dos nomes designados pelo presidente da República precisa ser mais criterioso. A recuperação da confiança do STF passa pela despolitização dos membros da Corte. Eventuais penalizações de ministros não podem ter motivação ideológica. Devem ser baseadas em fatos e na lei.

A definição sobre quem estará no Palácio Piratini entre 2027 e 2030, pelo momento decisivo em que se encontra o Rio Grande do Sul, também requer exame apurado. Em um conjunto de oito reportagens publicadas nas últimas semanas, o Grupo RBS trouxe à discussão os grandes desafios do Estado e os possíveis caminhos para superá-los. 

Todo esse conteúdo de fôlego será reunido em um dossiê que, após a definição de todos os cargos em disputa, será entregue aos deputados estaduais e federais, aos senadores e ao governador ou à governadora eleitos pelos gaúchos. O propósito é contribuir para um plano de desenvolvimento do Estado que atravesse diferentes governos.

Este 4 de outubro é o momento de os brasileiros se expressarem, com a força invencível do voto, na defesa do fortalecimento da democracia. 

03 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Campanha presidencial termina de forma melancólica

Chegou ao fim uma das campanhas presidenciais mais dramáticas da história recente do Brasil. Os dois candidatos com possibilidade de chegar ao segundo turno ou até de vencer no primeiro são rejeitados por metade dos eleitores, de acordo com todas as pesquisas de intenção de voto. Quem ganhar terá de creditar a vitória à parcela do eleitorado que, por medo de um, votou no outro.

Esse país partido ao meio não foi capaz de produzir uma alternativa ao lulismo e ao bolsonarismo, duas correntes nascidas da adoração a uma personalidade e não aos princípios de um partido político.

As legendas, de um modo geral, vivem um processo de degeneração, com seus dirigentes mais preocupados em eleger bancadas numerosas para ganhar mais dinheiro dos fundos partidário e eleitoral, sem apresentar um projeto de país.

Faltou profundidade

O que mais se discutiu na campanha presidencial foram os escândalos nos quais os candidatos se envolveram e as intervenções indevidas do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral no processo. Isso explica a apatia do eleitor médio, aquele que não morre de paixão por Lula ou pela família Bolsonaro e que votará sem entusiasmo no que considera o menos pior.

Como as eleições de presidente, governador e senador catalisam as atenções, milhões de eleitores chegam a 4 de outubro sem saber em quem votar para deputado estadual e federal. São eleições relegadas a segundo plano, mas que deveriam merecer mais atenção, pela importância de eleger uma bancada ativa, comprometida com as questões que dizem respeito ao presente e ao futuro do Estado e do país.

Com pouco espaço no rádio e na TV, as campanhas de deputado estadual e federal se limitaram às redes sociais, aos wind banners espalhados por quem tem dinheiro (em geral os que disputam a reeleição). No rádio e na TV, a lembrança que fica é de um desfile de rostos dizendo seu nome, número e palavras vazias. E são esses que farão as leis, fiscalizarão o Executivo, discutirão orçamentos - e distribuirão emendas, porque acabar com essa aberração não está nos planos de ninguém. _

Postulantes ao governo do RS miram indecisos a poucas horas do primeiro turno

Candidatos que mais arrecadaram

A despeito do resultado das pesquisas, que mostram Luciano Zucco (PL) e Juliana Brizola (PDT) à frente, é com cautela que os candidatos ao governo do RS chegam para o primeiro turno. Cientes de que um quarto do eleitorado gaúcho ainda está indeciso, segundo a última pesquisa Quaest, Zucco e Juliana usarão as últimas horas antes da votação para campanha nas ruas da Região Metropolitana - onde fica a maior concentração de eleitores do Estado.

A mesma estratégia será adotada por Gabriel Souza (MDB) e Marcelo Maranata (PSDB), ainda esperançosos com a possibilidade de uma surpresa de última hora.

Leite foi escalado e percorrerá ruas de Porto Alegre neste sábado em um caminhão de som ao lado de Gabriel, assim como o prefeito Sebastião Melo.

Juliana e Edegar Pretto (PT), seu vice, fizeram ato na Esquina Democrática na sexta, e no sábado se dividem em duas carreatas pela Região Metropolitana. As duas mobilizações se encontram no Largo Zumbi dos Palmares, no fim do dia, para o encerramento da campanha.

A Capital também será palco para a campanha de Zucco, que ainda dará um pulo em Viamão no sábado. No fim da tarde, o candidato do PL comanda ato de encerramento da campanha no Parcão.

Maranata concentra apoiadores em carreatas que vão percorrer Porto Alegre e Guaíba neste sábado, mesmo roteiro escolhido para a sexta. _

Além das pesquisas, Luciano Zucco e Juliana Brizola lideram também o ranking dos candidatos ao governo do RS que mais receberam recursos para a campanha.

Zucco recebeu R$ 11,57 milhões do PL, do PP e do Podemos, além de pessoas físicas. Juliana captou R$ 11,51 milhões, quase tudo do PDT.

Confira a lista de quanto entrou nas contas dos candidatos ao governo e ao Senado. _

Luciano Zucco (PL) R$ 11.570.005,00

Juliana Brizola (PDT) R$ 11.512.400,00

Gabriel Souza (MDB) R$ 8.167.550,00

Marcelo Maranata (PSDB) R$ 2.255.000,00

Senado

Ubiratan Sanderson (PL) R$ 4.718.497,00

Paulo Pimenta (PT) R$ 4.709.770,77

Manuela d?Ávila (PSOL) R$ 4.580.199,16

Marcel van Hattem (Novo) R$ 4.381.069,35

Germano Rigotto (MDB) R$ 3.873.000,00

Frederico Antunes (PSD) R$ 2.994.271,60

Renato Jaguarão (Cidadania) R$ 102.000,00

Milton Cardoso (PSDB) R$ 24.914,09

POLÍTICA E PODER

03 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Ameaça, risco à segurança ou teoria da conspiração?

Em um cenário de tensão pré-eleitoral, o fechamento dos consulados dos Estados Unidos no Brasil alimenta teorias da conspiração sobre uma eventual interferência americana nas eleições brasileiras ou até uma possível intervenção.

Tudo isso é reforçado pelo contexto: guerra comercial em torno do tarifaço, a aproximação entre a família Bolsonaro e Donald Trump e informações, nos últimos dias, sobre um suposto financiamento do governo dos EUA a ações contra o Supremo Tribunal Federal (STF), que levaram a Advocacia-Geral da União (AGU) a acionar a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) para investigar o tema.

As poucas explicações dadas pela própria embaixada dos EUA, em Brasília, sobre as razões da medida amplificam teorias conspiratórias.

No entanto, esse tipo de atitude faz parte dos protocolos adotados pelo Departamento de Estado ao redor do mundo, especialmente quando representações americanas podem se tornar alvo de protestos ou ameaças. Na eleição de 2022, a embaixada americana emitiu alertas, recomendando atenção a manifestações, protestos e possíveis bloqueios de vias. Na ocasião, porém, a própria representação dizia esperar que a votação transcorresse de maneira relativamente tranquila.

O que ocorre agora é mais forte, um grau a mais na escala do protocolo de segurança adotado em representações no Exterior: a missão dos EUA suspendeu o atendimento presencial na embaixada em Brasília e nos consulados de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre, orientando inclusive que americanos que necessitem de assistência emergencial não se dirijam às instalações.

A decisão ocorreu após uma ameaça contra a embaixada, que o Departamento de Estado levou a sério. Nesses casos, os EUA costumam "pecar pelo excesso".

A suspensão também ocorre em um ambiente de segurança mais sensível em Brasília. Na quinta-feira, uma suspeita de bomba nas proximidades do STF mobilizou a Polícia Militar e o Esquadrão Antibombas. Um homem de 28 anos foi detido depois de arremessar uma mochila nas proximidades da Corte. Após a inspeção, a presença de explosivos foi descartada.

Cenário de tensões

Além de ponderação, nesse cenário de tensões, é preciso separar as coisas. Não havia, até sexta-feira, informações que permitissem ligar o fechamento das representações diplomáticas com uma eventual tentativa de interferir na eleição. Mas também seria ingênuo analisar a decisão como se os EUA fossem um espectador distante deste processo eleitoral.

Washington sempre foi um ator presente no ambiente político brasileiro. Neste ano, ainda mais, seja pelas disputas comerciais e diplomáticas, seja por relações familiares, seja pelas acusações e suspeitas de interferência. Isso aumenta a exposição simbólica das representações americanas: para grupos descontentes com a atuação dos EUA, uma embaixada ou um consulado pode funcionar como representação física da Casa Branca no Brasil.

Quanto maior o envolvimento, concreto, real ou percebido pela população ou grupos de interesse, dos Estados Unidos no debate político brasileiro, maior tende a ser a preocupação americana com a segurança de suas próprias instalações.

Por terem se tornado um ator mais visível nesta eleição, é natural que os americanos se comportem também como um potencial alvo das tensões. _

Solicitantes de visto foram avisados

Quem tinha entrevistas marcadas na Capital foi avisado sobre a suspensão dos serviços. O Consulado dos EUA em Porto Alegre afirmou à coluna que as instruções sobre reagendamento do serviço serão enviadas aos solicitantes. _

Depois do anúncio dos EUA, a Austrália informou que sua embaixada em Brasília também ficaria fechada por questões de segurança. O governo do Canadá atualizou seu alerta de viagem para o Brasil e incluiu informações sobre a segurança no país durante o período eleitoral. O Reino Unido desaconselhou as viagens não essenciais durante as eleições.

Influência, interferência ou intervenção?

É importante diferenciar influência, interferência e intervenção quando se fala sobre até onde um país pode tentar alterar decisões que deveriam pertencer autonomamente a outra nação. Os termos ganharam destaque a partir de rumores sobre eventuais ações dos EUA para influenciar a eleição do Brasil. _

Influência

É o nível mais normal das relações. Um país tenta moldar comportamentos de outro por meio de diplomacia, comércio, declarações públicas ou aproximação com determinados grupos. Um presidente estrangeiro declarar preferência política, por exemplo, é influência. Pode ser controverso ou pouco diplomático, mas não é interferência. Países sempre tentam se influenciar entre si. O Brasil, por estar na zona geográfica dos EUA, sempre sofreu algum nível de influência.

Interferência

É quando outro país ultrapassa a persuasão e atua deliberadamente dentro de um processo doméstico para alterar seu funcionamento, como uma eleição, por exemplo. Pode ocorrer por meio de financiamento clandestino de grupos políticos, campanhas de desinformação, operações de inteligência, ataques cibernéticos ou utilização secreta de recursos estatais para favorecer ou prejudicar determinado campo político. Não há comprovações, até o momento, de interferência americana. Mas a AGU pediu à PF e à PGR que investiguem possível uso de dinheiro público dos EUA no financiamento de organizações e grupos que operam em território brasileiro.

Intervenção

É quando ocorre coerção, ou seja, uso da força: obrigar outro Estado a modificar uma decisão que pertence à sua soberania.

Não precisa necessariamente haver tropas. Pressões econômicas ou políticas podem entrar nessa discussão. No caso dos EUA, seria intervenção se Donald Trump condicionasse explicitamente a retirada de tarifas ou sanções à adoção pelo Brasil de determinada decisão política interna.

O voto como instrumento

No RS, tivemos uma campanha ponderada, muito menos tensa do que em nível nacional, em que praticamente não foram debatidas ideias, em meio a disputas jurídicas e de ego no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e no Supremo Tribunal Federal (STF).

No Estado, o clima foi tranquilo, sem agressões ou outros tipos de violência. É esse o espírito que devemos perseguir até este domingo e no eventual segundo turno.

Fica, no entanto, o sentimento de que o eleitor merecia mais: um debate de ideias com propostas claras e concretas e menos cortes para as redes.

O Rio Grande do Sul tem desafios enormes em vários setores: continuidade de obras estruturais, reforço dos sistemas contra enchentes, melhorias na educação, valorização dos professores, apoio a produtores endividados, estratégias para qualificação de mão de obra, infraestrutura, inovação e cultura. Na segurança pública, os índices estão melhores, mas o feminicídio é uma chaga aberta na sociedade.

Há muito tempo, o RS perdeu força em Brasília. Por isso, uma recomendação ao eleitor: preste atenção não só em quem você vota para governador e presidente. Deputados federais e senadores definem alguns dos temas que mais dizem respeito às nossas vidas.

Entendo a descrença de muitos eleitores na política. Mas o voto é ainda o instrumento mais forte para mudar a realidade. _

INFORME ESPECIAL

sábado, 26 de setembro de 2026

Grande sertão: veredas, os primeiros 70 anos

Jaime Cimenti

Italo Calvino escreveu um livro intitulado Por que ler os clássicos e ensinou: por que eles nunca terminam, deixam marcas profundas na memória e se tornam inesquecíveis, são livros de descoberta e autoconhecimento, dão prazer e saber e funcionam como bússolas . Tudo isso e mais se aplica a Grande sertão: veredas , setentão lépido e faceiro, de 1956, de João Guimarães Rosa(1908-67) que foi publicado em edição especial da Companhia das Letras (544 p., R$ 209), com novo projeto gráfico , entrevista do autor e ensaio de Érico Melo sobre os rascunhos e a forma final do romance .

Clássico definitivo, recriador da língua portuguesa mesclando fala de jagunços com erudição latina e grega , pleno de imaginação poética sem limites, com oralidade sintética, universalidade no regional e poesia em prosa inigualável, a narrativa contínua traz Riobaldo, Diadorim (Reinaldo) , Hermógenes, Joca Ramiro , Zé Bebeto, Medeiro Vaz, Otacília, e Nhorinhá envoltos no bem e no mal, liberdade e destino, violência e vida, amor, identidade e a transformação do indivíduo e o sertão, que “é dentro da gente” .

Romance de aventura, história de amor, narrativa de formação e grande reflexão sobre bem, mal, destino e liberdade,tudo isso e mais o infinito que os leitores imaginarem , criarem, sentirem, duvidarem e filosofarem estão no livrão, no sertão, nas veredas , nas árvores, animais, pessoas, luzes, sombras, silêncios e sons , revelações e mistérios de ontem, hoje e sempre.

Depoimentos inéditos dos leitores ilustres Mia Couto, Alison Entrekin, Caetano W. Galindo, Eduardo Gianetti, Milton Hatoum, Bia Lessa, Ana Martins Marques, Geovani Martins, Amara Moira, Silviano Santiago, Heloísa Murgel Starling e Itamar Vieira Junior estão nesta edição de um dos maiores romances brasileiros e mundiais.

O homem que colocou o Brasil no divã

Eu o conheci como professor da memória e prometi guardar o cara que nunca deixou a admiração ceder à inveja É rápido e você não perde nada importante.

Zuenir Ventura morreu aos 95 anos, no Rio de Janeiro, após décadas dedicadas ao jornalismo e à literatura brasileira.

Acusamos o golpe da ausência de Luis Fernando Verissimo há um ano. Agora Zuenir Ventura, um dos maiores jornalistas de nossa história, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, acaba de nos dar adeus, aos 95 anos. Encontrava-se em sua residência, no Rio de Janeiro, e não resistiu a uma pneumonia na terça-feira (22).

Verissimo se encarregará de receber seu amigo no paraíso das enciclopédias. Eles passam a ser encantados, como vaticinava Guimarães Rosa, e afetivamente eternos para sua legião de leitores.

Corajoso, resoluto, convicto de reportagens empáticas, com o arco grisalho das sobrancelhas protegendo seus olhos fundos, Zuenir mexia nos vespeiros. Escancarou a exploração da Amazônia, com sua cobertura do caso Chico Mendes, na década de 1980, e os meandros da violência em Vigário Geral com o livro Cidade Partida, nos meses que se seguiram à chacina de 29 de agosto de 1993.

Não abdicou da simplicidade de sua caligrafia desenhada no papel. Filho de um pintor de paredes e de uma dona de casa, mais do que criar sua biblioteca do nada, tornou-se a própria biblioteca. Foi office boy, faxineiro e balconista antes de conseguir cursar Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro, numa graduação que contava com Manuel Bandeira e Alceu Amoroso Lima entre seus docentes.

Nunca parou de escrever sua coluna, tendo a encomenda como musa inspiradora. Nunca deixou de engraxar as unhas na tinta do impresso e nos conceder a luz do entendimento, numa longevidade sábia. Colaborou com a Tribuna da Imprensa, o Correio da Manhã, o Jornal do Brasil, O Globo e as revistas O Cruzeiro, Fatos e Fotos, Visão, Veja e IstoÉ.

O jornalismo e a literatura entrelaçavam as mãos como irmãos gêmeos da verdade. Apesar dos temas difíceis que abordava, o mestre Zu era um otimista incorrigível. Seu riso mineiro discreto melhorava o silêncio em qualquer ambiente.

Os autores que cruzavam seu caminho se transformavam em personagens, num feitiço às avessas. Na obra Minhas Histórias dos Outros, ele celebra a saudade, resgatando fatos, anedotas e curiosidades sobre personalidades com as quais conviveu, como Glauber Rocha e Carlos Drummond de Andrade.

Zuenir psicanalisou o Brasil, colocou o país no divã para encarar suas contradições. Sua tarefa se centrou em nos ajudar a perdoar, mas sem apagar o pior.

No clássico 1968: O Ano que Não Terminou, sobre a ditadura militar, ele afirma que o nosso passado não deveria nos servir de exemplo, e sim de lição. Para não mais repeti-lo. Ele, inclusive, teve a sua solar liberdade confiscada pelas trevas do AI-5, permanecendo preso durante três meses.

Em Mal Secreto: Inveja, põe-se a desentocar nossa síndrome de caranguejo, de puxar para baixo quem faz sucesso: “A inveja é um vírus que se caracteriza pela ausência de sintomas aparentes. O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde”. 

Eu chamei Zuenir para ser professor da graduação de Formação de Escritores da Unisinos. Ficou responsável pela disciplina de memória. Suas lembranças cintilavam como testemunhos. Ele havia vivido o século XX por dentro dos principais acontecimentos culturais, da Bossa Nova ao Cinema Novo.

Ao se despedir de mim, ele costumava soltar um paradoxo: “Não esqueça de lembrar de mim”. Eu prometo que jamais o esquecerei. Zuenir: quando a inveja perdeu para a admiração.