segunda-feira, 6 de julho de 2026

06 de Julho de 2026
CARPINEJAR

Não aguento mais a palavra hexa

Brasil foi passivo. Brasil foi a passeio. Brasil foi preguiçoso. Brasil foi pachorrento. Não teve combatividade, garra, intensidade. Não se mostrou objetivo com a profusão de chances. Desperdiçou o que o destino ofereceu.

Completaremos mais um ciclo sem Copa do Mundo. Serão 28 anos, a maior abstinência de nossa história. Não aguento mais ouvir a palavra "hexa". É a pior campanha desde 1990, e tecnicamente muito similar ao time mediano de Sebastião Lazaroni, que caiu diante da Argentina de Maradona naquela vez.

Tornou-se a aposentadoria melancólica de Neymar, deixando um gol de honra nos acréscimos, que mais pareceu de comiseração. Ele se reduziu a um coadjuvante em quatro edições do torneio. Encarna uma geração consumida pelas sombras. Erramos um pênalti como na desclassificação de 1986. Erramos tudo como nas últimas duas décadas.

Quem nasceu depois de julho de 2002 nunca viu o Brasil levantar a taça. Não sabe como é isso. Desaprendemos a ganhar. A Noruega nem precisou de muito esforço para vencer por 2 a 1 no MetLife Stadium, em Nova Jersey, na tarde de ontem. A Seleção Brasileira terminou com 34% de posse de bola, seu menor índice de todos os tempos (medição desde 1966).

O plantel desacreditado antes da Copa superou as expectativas mais pessimistas. O italiano Carlo Ancelotti, com a bagagem de cinco Ligas dos Campeões, perdeu a mão. Apressou o epitáfio com substituições ofensivas. Bastava Endrick; não precisava de Danilo e Neymar no ápice do confronto.

Tampouco quebramos o tabu de jamais ter superado o oponente da Escandinávia. Somos fregueses. Em cinco jogos disputados entre as equipes, são três derrotas, duas em Copas do Mundo.

O fiorde nos apequenou. Enfrentamos gigantes: Nyland, goleiro, em grande atuação; Ajer e Heggem, zagueiros; Berge, volante; Sorloth e Haaland, atacantes, todos com mais de 1,90m, dominando o céu e a terra. Haaland assumiu a artilharia da competição, com sete gols. Quando tocou na bola, fez. Não existe um matador tão sangue-frio quanto ele. São 62 gols pela Noruega em 54 partidas, o que é inacreditável.

Ele cabeceou como se fosse fácil. Arrematou de fora da área como se fosse simples. Alisson se esticou ao máximo enquanto ele realizava o seu básico.

Não havia nenhuma expressão de cansaço, nenhum suor escorrendo de seu rosto, nenhum esgar de explosão. Era um semideus de rabo de cavalo no meio de meros mortais, um Thor com o martelo da testa e do chute.

Ele se vingou dos memes do filme As Branquelas, nos quais se curvava a Vinícius Júnior. No final, Vini é que desapareceu na decisão, com a sua gula vazia, com a sua tentativa desesperada e atrapalhada de resolver sozinho.

Logo após o triunfo, Erling Haaland postou uma foto no vestiário em seu perfil oficial, encerrando a paródia nas redes sociais: "Ora, ora, ora?". A remada agora será feita para as quartas de final, ecoando em intermináveis coreografias nas arquibancadas.

Os noruegueses mereceram. Exemplificaram em campo as cores da sua bandeira: o vermelho pelo sangue derramado; o branco pela postura gélida como a neve; e o azul por buscar, mais do que nós, a imensidão dos mares.

Existe uma lenda da tradição nórdica, a Saga dos Volsungos, preservada na Islândia medieval e oriunda do imaginário dos antigos povos escandinavos da Era Viking, em que o herói Sigurd mata o dragão Fafnir. Ao provar acidentalmente o sangue do dragão, passa a compreender a linguagem dos pássaros. O triunfo o transforma. O vencedor leva consigo parte da força e do destino do vencido.

Que a Noruega absorva em seu DNA a esperança do torcedor brasileiro, e siga encantando como uma improvável campeã. Pois praticou a imortalidade (Orðstírr) da reputação. Não lutou de qualquer jeito, mas sempre bravamente, com o queixo erguido, enxergando-nos do alto, esparramados e letárgicos no chão. 

CARPINEJAR

 

06 de Julho de 2026
CLÁUDIA LAITANO

Cría cuervos

Uma mulher que defende a submissão feminina pode ocupar uma posição de liderança sem perder a coerência? A conversa surgiu na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara, dias atrás, durante uma discussão sobre o projeto de criminalização da misoginia. A deputada Júlia Zanatta, do PL de Santa Catarina, invocou a Bíblia para defender a hierarquia dentro e fora de casa: marido manda, mulher obedece, Deus fiscaliza. Sâmia Bomfim, do PSOL de São Paulo, aproveitou a deixa para cutucar o antifeminismo performático das colegas da bancada conservadora: "Se realmente pensassem assim, não seriam deputadas, seriam mulheres submissas a seus maridos dentro das suas casas".

Quem assistiu Mrs. America (Disney) talvez lembre que a incoerência não é o único problema de quem escolhe militar contra os próprios interesses. A série retrata o embate travado entre mulheres de diferentes perfis ideológicos durante a campanha para a aprovação da Emenda dos Direitos Iguais, no início dos anos 1970. 

De um lado, o movimento feminista, liderado por Gloria Steinem (Rose Byrne) e Betty Friedan (Tracey Ullman), defendendo a lei que dificultaria a discriminação baseada no sexo. Do outro, a ativista conservadora Phyllis Schlafly (Cate Blanchett) e sua turma colocando-se contra a possível perda de "privilégios" femininos, como o direito à pensão e a isenção do alistamento militar obrigatório. Spoiler: o movimento conservador ganhou a parada, muito graças à tenacidade de Phyllis Schlafly. Na cena final da série, a ativista recebe o telefonema que esperou a vida inteira. 

Do outro lado da linha está Ronald Reagan, o presidente que ela ajudou a eleger liderando um exército de donas de casa indignadas. Phyllis espera um cargo como prêmio pelos bons serviços prestados, mas ganha apenas um tapinha nas costas. Em termos políticos, o recado era claro: valeu, amiga, agora volte para a cozinha. (Anos mais tarde, Schlafly serviria de inspiração para Margaret Atwood criar outra campeã na modalidade tiro no próprio pé: Serena Joy, a mulher que acaba sendo vítima da teocracia misógina que ajudou a implantar, no livro O Conto da Aia.)

Mulheres de direita são uma população em expansão e se fazem ouvir nas redes sociais, nas igrejas, nos palanques políticos. Todas usufruem do bem-bom da autonomia conquistada a duras penas pelo feminismo para defenderem qualquer ideia que lhes pareça conveniente - inclusive a de que esposas devem obediência aos seus maridos. Quando seus supostos aliados masculinos decidem atacá-las ou diminuí-las, por excesso de iniciativa ou de protagonismo, ninguém deveria se surpreender, muito menos elas mesmas. Cría cuervos y te sacarán los ojos. 

CLÁUDIA LAITANO

06 de Julho de 2026
OPINIÃO RBS

Conscientização e proteção aos filhos

Intensificou-se nos últimos anos, de forma bem-vinda, o debate sobre os riscos do uso excessivo de telas e do acesso a redes sociais por crianças e adolescentes. As discussões buscam em especial alertar pais e responsáveis acerca dos perigos desse descontrole, mas também incentivar iniciativas legislativas que ajudem a prevenir danos, como a queda do desempenho escolar, e a proteger contra crimes cometidos no submundo virtual.

Os primeiros resultados dessa maior conscientização parecem começar a aparecer. Na quinta-feira, o IBGE divulgou a edição de 2025 da pesquisa sobre acesso à internet e posse de celular por pessoas com 10 anos ou mais, contida na PNAD Contínua. Entre os oito recortes etários, o grupo de 10 a 13 anos foi o único a registrar queda na utilização de smartphone em relação ao levantamento anterior, de 2024. O percentual caiu de 56,7% para 55,2%. 

O uso da internet também apresentou um leve recuo, de 84,9% para 84,4%. Igualmente, foi o único estrato de idade com queda. A preocupação com a segurança e a privacidade é um dos principais motivos. Mesmo que pareça ser uma redução pequena, pode indicar um momento de inflexão da curva de uso. É dever registrar que na faixa etária imediatamente seguinte, de 14 a 19 anos, os números seguem aumentando.

Os resultados coincidem com o início da vigência, no começo do ano passado, da legislação que restringe celulares no ambiente escolar. Foi ainda em 2025 que o youtuber Felipe Bressanim Pereira, o Felca, divulgou um vídeo impactante sobre a adultização de crianças e adolescentes na internet. Mostrou os riscos de exploração sexual e como pedófilos agem nas redes sociais. A denúncia deu impulso para a aprovação no Congresso do chamado ECA Digital, um marco para a proteção de menores de idade no ambiente virtual, que passou a vigorar em março deste ano.

Mas toda essa discussão, em primeiro lugar, fez pais e responsáveis ficarem mais atentos. Levou a decisões como retardar a idade em que os filhos ganham o primeiro celular, limitar o tempo de tela e aumentar o controle parental sobre o uso de redes sociais. Os malefícios do uso desmedido e sem orientação da tecnologia são conhecidos. Refletem-se em notas mais baixas, impactos na saúde mental e no desenvolvimento cognitivo, dificuldades para socializar e exposição a crimes virtuais, como os de cunho sexual. Como reação, a Austrália e países europeus vêm impondo limite de idade para o uso de redes sociais.

Na semana passada, o Ministério da Educação divulgou os resultados de uma pesquisa que mostra, pela ótica dos gestores escolares, os benefícios da lei que limita o celular nos colégios. Dos entrevistados, 97% avaliaram que a participação dos estudantes nas atividades educativas melhorou, 95% atestaram que a socialização e a concentração cresceram, 88% observaram redução de ciberbullying e 56% notaram maior engajamento nas tarefas pedagógicas fora da sala de aula.

O uso da tecnologia traz benefícios e é aliado da aprendizagem quando devidamente acompanhado por adultos responsáveis e orientado por professores em afazeres didáticos. O perigo é a combinação entre imaturidade e exposição precoce e excessiva a telas e redes sociais. É um debate que ainda pode evoluir no país. 

06 de Julho de 2026
POLÍTICA E PODER - Carlos Rollsing

Novo embate na família Bolsonaro

Depois de ter publicado um vídeo dizendo ter sido apunhalada e maltratada pelo senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro se envolveu em nova polêmica com potencial de desgaste. Na sexta-feira, ela elogiou nas redes sociais uma iniciativa do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Michelle comentou o lançamento da Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos, do Ministério da Educação. "É um sonho realizado", postou a ex-primeira-dama, provocando irritação em Flávio e despertando críticas no bolsonarismo. A reação nas redes sociais foi dura, com montagens associando a ex-primeira-dama ao PT e contendo acusações de traição.

No sábado, Michelle publicou uma nova mensagem nas redes sociais para tentar conter a repercussão negativa causada por seu elogio à iniciativa do governo Lula. No novo post, ela afirma que a defesa das pessoas com deficiência é uma pauta que está "acima de qualquer ideologia ou partido". A ex-primeira-dama também alegou que a política de educação bilíngue para surdos foi elaborada ainda durante o governo Bolsonaro, mas teve a tramitação atrasada por uma ação judicial, o que teria impedido sua entrega antes do fim do mandato. Ela concluiu afirmando que o mais relevante não é a autoria da política, mas seus beneficiários, e parabenizou a comunidade surda.

O episódio do vídeo em que Michelle disse ter sido apunhalada por Flávio já causou a saída dela do comando do PL Mulher. O caso dos elogios à política do governo Lula aprofunda as rusgas dentro da família Bolsonaro e coloca mais dúvidas na manutenção da candidatura de Michelle ao Senado pelo Distrito Federal.

As brigas entre Michelle e os filhos de Bolsonaro, sobretudo Flávio, Eduardo e Carlos, não são novidade. O fato novo é que as rusgas se ampliam no momento em que Jair Bolsonaro, maior líder da direita brasileira, está em prisão domiciliar, inelegível e com a saúde fragilizada.

O que está acontecendo é uma luta pelo espólio de Bolsonaro, nome que simboliza o domínio de uma considerável fatia do eleitorado brasileiro. A querela e os rumores de que Michelle pode fazer novas revelações sobre o enteado têm potencial para causar danos na candidatura presidencial de Flávio, que já está chamuscada pela descoberta de que pediu R$ 61 milhões ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar a produção do filme Dark Horse, sobre a vida de Bolsonaro.

As avaliações de que a candidatura de Flávio pode sofrer mais abalos teriam, inclusive, motivado a indicação de Gilberto Kassab como candidato a vice na chapa presidencial de Ronaldo Caiado (PSD). Enquanto isso, Lula aposta nos programas populares a três meses da eleição em primeiro turno. _

Sem partido, Ricardo Gomes decide apoiar Zucco

Desfiliado do PL desde 2024, Ricardo Gomes, ex-vice-prefeito de Porto Alegre, levou sugestões para a área econômica do plano de governo do deputado federal Luciano Zucco (PL), candidato ao Palácio Piratini. O encontro aconteceu no sábado. Ricardo cogitou apoiar Gabriel Souza (MDB), mas optou por estar ao lado de Zucco pela identificação com a direita.

- O RS precisa mudar. Estamos avançando, mas em ritmo lento. O Estado precisa de um choque de liberdade econômica - afirmou Ricardo. _

Oposição vai ao MPC questionar licitação do governo Leite

A deputada estadual Laura Sito (PT) ingressa hoje no Ministério Público de Contas (MPC) e no Tribunal de Contas do Estado (TCE) com ofícios requerendo análise da licitação do Estado para a contratação de serviços de comunicação vencida pelas empresas Escala Comunicação e Marketing e House of Creativity (HOC). O caso está chamando atenção porque a HOC tem como CEO o publicitário Fábio Bernardi, marqueteiro da campanha do governador Eduardo Leite em 2022.

Experiente em comunicação política, Bernardi também está no núcleo de comunicação da candidatura do vice-governador Gabriel Souza ao Palácio Piratini em 2026. _

Indenização concedida

A 3ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) decidiu, por unanimidade, conceder indenização à filha menor de idade de uma médica que atuava em hospital de Passo Fundo à época da pandemia de coronavírus.

A profissional tinha controlado um câncer, mas, durante a emergência sanitária, contraiu o vírus em novembro de 2020. Depois, registrou retorno da doença e faleceu em setembro de 2021. O pedido de indenização foi negado no INSS e na primeira instância da Justiça Federal, que alegou não ter ficado comprovada a relação causal entre a covid e o óbito.

A decisão foi reformada no TRF-4. O desembargador-relator Rogério Favreto destacou que a lei 14.128/21, onde consta o direito à indenização aos profissionais de saúde incapacitados e herdeiros diretos em caso de morte, não exige relação exclusiva entre o vírus e o óbito. A norma menciona presunção legal de que a covid resultou no falecimento, mesmo que não tenha sido a causa única ou imediata, desde que preenchidas condições como diagnóstico do vírus, nexo temporal e laudo médico. A indenização ficou em R$ 180 mil, conforme valores previstos na lei. _

Atuação marcante

Foi inaugurada a fase de denúncias do Ministério Público à Justiça em razão dos supostos crimes em compras da Secretaria da Educação de Porto Alegre (Smed). Se a apuração chegou a tal ponto, papel fundamental foi desempenhado pela ex-vereadora Mari Pimentel, que denunciou irregularidades e não se intimidou com a base governista ao presidir a CPI da Educação na Câmara.

Mari não foi reeleita em 2024, mas segue filiada ao Republicanos, para onde foi depois de colher antipatia no Novo pela condução da CPI. Ela tomou a decisão de não concorrer na eleição de 2026, mas não fecha a porta para voltar no futuro. _

Perda de mandato

Está marcado para hoje, às 14h, na sede do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RS), o depoimento do secretário-geral de Governo do Palácio Piratini, Artur Lemos, na condição de testemunha do PSD na ação de perda de mandato por infidelidade partidária movida  pelo PSDB contra o deputado estadual Valdir Bonatto (PSD).

O parlamentar trocou o tucanato pelo PSD em janeiro de 2026, antes da abertura da janela em que a mudança de sigla é autorizada. Após o depoimento de Lemos, vice-presidente do PSD-RS, a ação deve avançar à fase de alegações finais, parecer do Ministério Público e julgamento. _

POLÍTICA E PODER

sábado, 4 de julho de 2026


04 de Julho de 2026
CARPINEJAR

Dos joelhos até os calcanhares

As meias foram diminuindo de tamanho de geração a geração. Meus pais na infância usavam três quartos; eu, a soquete; meus filhos, as invisíveis ou sapatilha. Meus pais usavam meias até os joelhos; eu, até os calcanhares; meus filhos preferem que não sejam vistas. Elas começaram a desaparecer. Cada época abocanhou um naco de sua medida.

É uma história silenciosa do estilismo, acompanhando o desejo de destapar o corpo. Pode ser efeito da superexposição da aparência nas redes sociais, da tendência fitness, das academias de musculação. Ou porque o tênis passou a ser protagonista, com a ostentação de marcas e modelos, e roubou a cena da sua fiel coadjuvante.

O vestuário encolheu junto com os costumes. As meias não sofreram redução somente de tecido, mas também de importância e influência. Antes faziam parte do visual; agora a intenção é camuflá-las, num minimalismo que apenas privilegia o indispensável.

O acessório não é nem enfeite. Mudou de função. Antigamente protegia do frio; nos tempos modernos, protege do atrito do calçado. A liberdade se tornou sinônimo de despojamento. Quanto menor a peça, maior seu consumo: fones sem fio, por exemplo.

Nas fotografias amareladas de meus pais, eles posavam com meias de algodão grosso, lã ou mistura de fios, porque aqueciam mais. Possuíam elástico firme ou ligas para evitar que escorregassem. As tonalidades revelavam discrição: cinza, marrom, azul-marinho, bege e preto.

Sua constância no período se explicava pela versatilidade: eram adotadas tanto com sapatos sociais quanto com calçados esportivos. Ninguém mostrava a canela, sinal de pouca elegância, status que migrou hoje para não mostrar as meias.

Na década de 50, crianças não abdicavam do seu emprego nos passeios e na escola, completando o dueto do uniforme com as bermudas. Tratava-se de um código que transmitia sobriedade, disciplina, decência, respeito à família.

Depois, conforme as barras das calças ficaram mais largas e a moda assumiu um caráter informal e casual, as meias três quartos deram lugar às de cano médio, coloridas, divertidas, com estampas. Participei desse momento em que sua extravagância indicava uma ideologia de insubordinação e independência.

Atualmente, olho para os pés de meus filhos e não enxergo meia nenhuma. Está por baixo, constrangida, sufocada. Não há sentido em falar "arregaçar as meias" ou "puxar as meias". Não há sentido em deixar uma gaveta unicamente para elas. Ocupam um espaço simbólico.

E, paradoxalmente, reivindicam cifras muito mais salgadas - vendidas de modo avulso, não em pacotes com uma dúzia. Gastamos o dobro para algo que não se percebe. Um par de meias virou um presente secreto. Você jamais testemunhará o presenteado se exibindo com o regalo.

São as novas roupas íntimas. 

CARPINEJAR

04 de Julho de 2026
EUGÊNIO ESBER

Michelle antes, Jair depois

No dia em que Michelle Bolsonaro irrompeu nas telas brasileiras para expor suas desavenças com o enteado Flávio Bolsonaro, pensei, entre tantas hipóteses razoavelmente plausíveis, que estava nascendo uma persona política de fisionomia própria - e ambições muito próprias, também. Se me enganei ou não, o tempo dirá. Mas um erro, desde já, assumo ter cometido em minha primeira e imediata avaliação, a mesma, aliás, de muitos observadores da cena política. 

Não foi a primeira aparição disruptiva de Michelle. "A posse. Lembra da posse?", alertou-me a Maira. Eu não lembrava. Mas não foi preciso muito esforço para concluir que a enigmática personalidade da ex-primeira-dama se delineou aos olhos do público, pela primeira vez, em 1º de janeiro de 2019.

Assim como a cuidadosa preparação do vídeo-bomba de 24 de junho de 2026, Michelle de Paula Firmo Reinaldo Bolsonaro construiu e esculpiu, no seu íntimo, um plano que a faria tornar-se notícia no Brasil e no mundo: discursar na posse do marido, Jair Messias Bolsonaro, feito inédito na história do Brasil.

Mais do que uma quebra de protocolo, a primeira-dama protagonizou outro ineditismo: discursou em Libras, a linguagem brasileira de sinais, para homenagear pessoas com deficiência e, particularmente, a comunidade surda, na qual se inclui um tio dela. Postado atrás dela, com expressão séria, Jair acompanhava a leitura do texto de Michelle pela auxiliar Adriana Ramos. Ao final, a pedido do público, Jair e Michelle se beijaram.

A imprensa brasileira e internacional deixou de lado o viés de antipatia ao capitão que derrotara o petismo e adoçou a cobertura da posse com menções à suavidade e à empatia da jovem de 37 anos incompletos nascida em Ceilândia, Distrito Federal.

Depois de tudo, Michelle deu entrevista em que contestou insinuações de "marketing" em sua iniciativa. Contou, porém, que planejou o ato em segredo - inclusive do marido - durante 10 dias. Só comunicou Jair de seu plano duas horas antes da posse. "Olha, eu vou discursar, mas você fica tranquilo que deve ser menos de quatro minutos."

Faltando apenas meia hora para o início da cerimônia, marido e mulher combinaram como seria. A primeira-dama falaria antes do presidente.

E assim foi feito, como nunca antes no Brasil ou no mundo.

Posteriormente, frente às câmeras da TV Record, Michelle relataria, descontraída, e com certa euforia, o nervosismo do cerimonial na véspera da posse.

- Foi um momento cômico, porque uma pessoa do alto escalão ficou extremamente em pânico. "A senhora vai discursar... O presidente já sabe?" Falei: "Não". E ele: "Como assim ?o presidente não sabe??". Eu falei: "Qual o problema?". _

EUGÊNIO ESBER

04 de Julho de 2026
OPINIÃO RBS

OPINIÃO RBS

Investigação em defesa do interesse público

Três anos após o início das apurações policiais, o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS) denunciou 22 pessoas por suposto envolvimento em fraudes no âmbito da Secretaria Municipal da Educação (Smed) de Porto Alegre. É a primeira acusação do MP relacionada à Operação Capa Dura, realizada pela Polícia Civil para investigar irregularidades na compra de 544 mil livros, em 2022, a um custo de R$ 36,5 milhões. Ainda cabe à Justiça analisar se aceita a denúncia e, a partir disso, dar prosseguimento ao processo que pode resultar na responsabilização e na punição dos eventuais culpados. O andamento das averiguações, porém, já é um resultado emblemático da vigilância permanente que o jornalismo profissional deve exercer em uma sociedade democrática.

A atuação das autoridades teve início após a publicação de uma série de reportagens do Grupo de Investigação da RBS (GDI) sobre indícios de ilegalidades em compras da Smed. Os repórteres Adriana Irion e Carlos Rollsing relataram o abandono de milhares de livros e materiais didáticos adquiridos sob suspeita de direcionamento de licitação e esquecidos em depósitos sob condições inadequadas. Fiscalizar as ações do setor público e o uso dos recursos obtidos por meio do pagamento de impostos, com equilíbrio e responsabilidade, é justamente um dos pilares do jornalismo independente e plural.

Espera-se que as instituições competentes deem curso à análise das provas colhidas ao longo dos últimos anos de forma célere, técnica e livre de pressões partidárias. Embora todo e qualquer desvio de dinheiro público seja um delito de extrema gravidade, irregularidades envolvendo uma área tão importante como a educação se mostram especialmente repreensíveis, tanto pelo expressivo volume de verbas que essa pasta costuma concentrar quanto pelo caráter simbólico da malversação de recursos que deveriam ser destinados à formação de crianças e jovens.

Após a publicação das reportagens, a Polícia Civil abriu sete inquéritos. Em fevereiro, a conclusão das investigações resultou no indiciamento de 34 pessoas - entre as quais 22 foram agora denunciadas pelo Ministério Público. Nessa lista estão a ex-secretária da Educação da Capital Sônia da Rosa, o empresário Jailson Ferreira da Silva e os ex-vereadores Alexandre Bobadra (PL) e Pablo Melo (MDB). Enquanto a defesa da ex-secretária optou por se manifestar somente após ser citada formalmente, os demais negam participação em quaisquer irregularidades. Se as denúncias forem aceitas pela Justiça, terão a oportunidade de apresentar suas contraprovas no decorrer da ação judicial.

Qualquer que seja o desfecho do episódio, é fundamental que sirva de exemplo para o poder público redobrar o cuidado com o dispêndio de recursos e seus mecanismos de autocontrole. É inaceitável que, em sociedades com tantas demandas por saúde e educação, de um lado, e verbas tão escassas para atender aos anseios da população, de outro, qualquer centavo seja comprometido por má gestão ou ação deliberada. Quando a máquina governamental falhar na aplicação de seu orçamento, restará a permanente disposição do jornalismo profissional em representar e fazer valer os interesses da sociedade. _

04 de Julho de 2026
COOPERATIVISMO - Bruna Oliveira

"É mais que um trabalho, é um compromisso com a vida"

Há 30 anos, a Cooperativa Univens, situada no bairro Sarandi, na zona norte de Porto Alegre, gera renda, oportunidade e renovação para o seu entorno. Atualmente, grupo de mulheres costureiras produz roupas, uniformes escolares e de firmas, bolsas, sacolas ecobags e lençóis hospitalares

Na zona norte de Porto Alegre, o fio que ganha forma pelas mãos de mulheres costureiras tece uma trama que vai muito além da vestimenta e se traveste em mudança social. Há 30 anos, a Cooperativa Univens - Unidas Venceremos, gera renda, oportunidade e renovação para a comunidade do seu entorno.

O trabalho feito pelas mulheres da Vila Nossa Senhora Aparecida, no bairro Sarandi, é um caso emblemático da cooperação pelo trabalho. Juntas, as 24 costureiras cooperadas dividem as tarefas, os ganhos, o tempo, o espaço e os problemas.

Começou em 1996, quando a necessidade de gerar renda encontrou ocasião no ofício das mulheres da comunidade, recorda a diretora-presidente da cooperativa, Nelsa Fabian Nespolo, 63 anos. O sonho coletivo, naquela época, era costurar para o Hospital Conceição, centro de saúde referência para os moradores do bairro:

- Dois fatores se juntaram: precisávamos de renda e havia a vontade de costurar para o hospital. Mas, para isso, precisávamos ser uma cooperativa. E assim começamos. É mais que um trabalho, é um compromisso com a vida.

Como no bordado à mão livre, nem tudo saiu como o planejado, e outras tramas foram se mostrando possíveis ao longo do percurso. Enquanto a meta de atender a rede hospitalar não desenrolava, uma encomenda de 500 camisetas para vestir metalúrgicos deu o fôlego para avançar. Aos poucos, os equipamentos foram adquiridos, os clientes foram chegando e a rede feminina tramada pela costura foi ficando mais firme.

Plano de ir além

Foi só em 2024 que o sonho da Univens enfim alcançou o seu primeiro objetivo, com a seleção na primeira chamada pública promovida pelo GHC. Em seguida, os lençóis costurados na Vila Nossa Senhora Aparecida chegaram ao Hospital da Criança, referência no tratamento infantil no Rio Grande do Sul. Em 2025, as peças já cobriam adultos na hematologia e na oncologia, e atualmente estão em ampliação para a maternidade do Hospital Fêmina, também na Capital.

O plano é ir além. Outra disputa de compra pública está em aberto para atender ao Grupo Hospitalar Conceição, além de negociações em andamento com três hospitais privados do Interior. Por serem feitos de tecido orgânico, os lençóis da cooperativa irritam menos a pele dos pacientes, conferindo um ganho aos tratamentos de saúde.

- Queremos muito ampliar a entrega para outros hospitais, porque isso nos dá uma segurança de renda certa, e o restante buscamos com outros produtos que a gente faz. Ampliar a compra pública significa crescer a cooperativa. Muitas vezes, essa é a única renda da família - diz Nelsa.

Da costura das mulheres, produzem-se roupas, uniformes escolares e de firmas, produtos corporativos, bolsas, sacolas ecobags e os lençóis hospitalares. Mas nem sempre as mãos da comunidade souberam costurar. O grupo de cooperadas reúne desde as que já manuseavam a máquina àquelas que aprenderam na cooperativa.

Há seis anos entre elas, Vera Monticeli, 63 anos, diz ser grata pela oportunidade de trabalhar junto às mulheres. Tudo o que sabe de costura, diz, aprendeu ali.

- Fiz um curso básico na cooperativa e a Nelsa me convidou para trabalhar. Hoje eu digo que sei costurar. Tudo o que sei de costura eu aprendi aqui dentro. (Estar) onde todo mundo faz junto, onde todo mundo pega junto, é muito gratificante - conta.

O perfil na cooperativa é diverso. Muitas são viúvas, outras são mães solo, e há as que são chefe de família - da qual o único sustento vem da renda da cooperativa. Também há as que trabalham de casa, sem frequentar a sede, e as que se dedicam aos reparos.

- A cooperativa dá uma segurança financeira, e, portanto, de vida. Sobretudo, para as mulheres. É tão importante ter uma rede de proteção na nossa volta e um grupo onde se pode contar os problemas... Tem dias que a vida é mais difícil. E compartilhar as alegrias também. É o verdadeiro sentido de cooperar, num todo, na vida das mulheres - diz a diretora-presidente.

Circulação de dinheiro

O impacto econômico e social desde que o cooperativismo passou a fazer parte da comunidade vai além dos limites da Univens e se revela em mudança de realidades. O dinheiro que passou a circular a partir da venda das peças girou também o comércio, os serviços e as oportunidades para novos negócios no bairro. Mais do que isso, chegou à qualidade de vida das mulheres. Todas moram perto da cooperativa, algumas delas vão de bicicleta, e isso representa tempo a mais com as suas famílias. _

Polêmicas envolvem os 250 anos dos EUA

Neste sábado, os Estados Unidos comemoram o aniversário de 250 anos de sua independência. A série de celebrações propostas pelo governo americano começou há uma semana e deve se estender além da data oficial. O país já está em ritmo de festa: na sexta-feira, as ruas de diversas cidades foram tomadas por bandeiras, chapéus e souvenirs em vermelho, azul e branco.

Dois fatos têm chamado a atenção no pano de fundo da festividade: a forte polarização em torno das comemorações e a centralização da imagem do presidente Donald Trump nos eventos.

A polarização

Os preparativos para o quarto de milênio de independência americana começaram ainda em 2016, quando o Congresso criou o America250, um comitê bipartidário para organizar as festividades. No entanto, em seu segundo mandato, Trump criou o Freedom 250, uma parceria público-privada sob o guarda-chuva de sua própria administração.

A criação deste segundo grupo esteve no centro de uma forte discussão nos últimos dias envolvendo o Partido Democrata. A oposição divulgou um relatório acusando consultores ligados a Trump de envolvimento em fraude financeira para enganar doadores.

Segundo os democratas, apoiadores que pretendiam contribuir com o fundo America250 receberam, na verdade, os dados bancários do Freedom 250.

O relatório aponta que o Freedom 250 foi concebido sob os cuidados da ala republicana para servir como "um veículo para uma visão nacionalista cristã, partidária e centrada em Trump da identidade americana", e que os recursos arrecadados serviram para inflar "o ego, a ideologia política e os projetos pessoais do presidente".

A imagem de Trump

Trump anunciou que este será o aniversário "mais espetacular" da história americana. O primeiro indício da apropriação da data surgiu ainda em dezembro, quando o republicano enumerou, em um vídeo, uma lista de programas para o aniversário da nação.

De acordo com a CNN, Trump desfez planos que vinham sendo elaborados há anos para a festividade e direcionou verbas federais para sua visão, atraindo críticas de que o ato se tornou uma celebração mais voltada para o presidente do que para o país.

A abertura oficial das comemorações ocorreu na semana passada com a Grande Feira Estadual Americana, no National Mall, evento que se estende até dia 10. Segundo o The New York Times, diante da forte politização, diversos artistas cancelaram apresentações, alegando desconforto com o viés partidário.

O ápice das festividades ocorre neste fim de semana. O principal evento batizado de Saudação à América, com desfiles, demonstrações militares e um show de fogos de 40 minutos e 850 mil disparos. O presidente fará o discurso principal que, segundo suas próprias palavras, será longo - mesmo que a previsão indique máxima de 37ºC em Washington DC no sábado. Trump participará de praticamente todas as cerimônias, e o cronograma oficial da festa foi moldado para se adequar à agenda dele.

A principal crítica de analistas locais, como Jon Favreau, Jon Lovett, Dan Pfeiffer e Tommy Vietor, do podcast Pod Save America, é de que a celebração centralizou todas as atenções em Trump. O jornal Los Angeles Times seguiu na mesma linha, apontando: "O espetáculo que os americanos verão terá Trump como figura central". _

Lula parabenizou a presidente eleita do Peru, Keiko Fujimori, após a Justiça Eleitoral do país confirmar a vitória dela na eleição. "Conte com o Brasil para construirmos juntos uma América do Sul mais próspera, integrada, democrática e soberana", escreveu o brasileiro. Keiko será a nona presidente em 10 anos no Peru.

Ciclovia vai unir pedal e cerveja

Farroupilha entregou na sexta-feira a Ciclovia Desvio da Cerveja. A obra, com mais de 8 quilômetros de extensão, fica às margens da rodovia VRS-813, entre Farroupilha e Garibaldi. O projeto recebeu um investimento de R$ 3 milhões do Estado e de quase R$ 5 milhões do município.

Ao longo do percurso, a pista integra diversas cervejarias artesanais da região, consolidando um roteiro que une pedal, gastronomia, cultura e paisagem.

Além da pavimentação, a estrutura conta com sinalização horizontal e vertical, além de balizadores flexíveis ao longo de todo o trecho. Para a prefeitura, a via pode potencializar um novo polo de cicloturismo. _

Semana italiana em Porto Alegre

Se você aprecia massas, vinhos e, principalmente, a cultura italiana, Porto Alegre viverá, entre segunda e sábado, o legado da imigração no RS.

Trata-se da 20ª Settimana Italiana di Porto Alegre, uma homenagem à trajetória dos imigrantes que cruzaram o oceano para construir a vida no Estado. O tema desta edição será Dall?Italia all?America (Da Itália para a América).

Destaca-se da programação a exposição Dall?Italia all?America, que resgata cenas da saga italiana no RS; a apresentação La notte del canto lírico, com o musical Il Barbiere di Siviglia; lançamentos literários; gravação do programa de televisão; entre outras atividades. _

A pedido do Papa, reitores debatem IA

O reitor da PUCRS, Ir. Manuir José Mentges, participou na sexta-feira de um encontro em Curitiba com os demais reitores das PUCs de todo o Brasil. A reunião atendeu a um pedido do papa Leão XIV e teve como objetivo debater as transformações tecnológicas, em especial os impactos da inteligência artificial.

A conferência vai ao encontro das diretrizes da encíclica Magnifica Humanitas, lançada pelo Pontífice em maio. O documento trata justamente sobre o avanço da IA na sociedade e detalha as preocupações e orientações da Igreja Católica a respeito do tema.

Além do reitor da PUCRS, participaram da reunião padre Anderson Antonio Pedroso (PUC-Rio), Olga Izilda Ronchi (PUC Goiás), irmão Rogério Mateucci (PUCPR) e Victor de Barros Deantoni (PUC-Campinas). _

INFORME ESPECIAL 

sábado, 27 de junho de 2026

Ferramenta eletrônica revela R$ 1 bilhão em renúncias fiscais no RS

Eduardo Jaeger, presidente da Afisvec, destaca o valor

Eduardo Jaeger, presidente da Afisvec, destaca o valor

/Afisvec/Divulgação/JC
Osni Machado
Osni MachadoColunistaAs renúncias fiscais concedidas pelo governo gaúcho por meio do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) alcançam atualmente cerca de R$ 1 bilhão por mês, montante equivalente a aproximadamente 25% da arrecadação do tributo. Os números são acompanhados pelo Incentivômetro, ferramenta eletrônica desenvolvida pela Associação dos Auditores-Fiscais da Receita Estadual do Rio Grande do Sul (Afisvec), que contabiliza, em tempo real, os valores que o Estado deixa de arrecadar em razão dos benefícios fiscais concedidos à iniciativa privada.
Criado para ampliar a transparência sobre os investimentos indiretos realizados pelo poder público, o sistema passou por aperfeiçoamentos metodológicos ao longo dos anos. O presidente da Afisvec, Eduardo Jaeger, auditor-fiscal da Receita Estadual e dirigente da entidade, afirma que a divulgação desses dados permite à sociedade compreender a dimensão dos recursos destinados ao setor privado e avaliar as políticas de desoneração tributária. Jaeger detalha um pouco mais o assunto em entrevista ao Jornal do Comércio.
JC Contabilidade – O que é o Incentivômetro e qual foi a motivação para a sua criação?
Eduardo Jaeger – A motivação principal da criação do Incentivômetro foi contrapor a informação que circulava à época de que o Estado investia muito pouco, referindo-se apenas aos valores destinados no orçamento estadual. Na realidade, esses montantes deveriam considerar também as renúncias fiscais. Foi assim que nasceu a ideia do Incentivômetro e os vultosos valores dispensados indicam que a Afisvec estava correta ao realizar essa contabilização.
Contab – Por que a Afisvec classifica o Incentivômetro como um instrumento de transparência pública?
Jaeger – Porque mostra para a sociedade os valores investidos na iniciativa privada por meio dos benefícios fiscais e tributários.
Contab – Como funciona o cálculo apresentado pelo contador eletrônico?
Jaeger – O cálculo é feito de acordo com os valores de isenção, redução de base de cálculo, créditos presumidos e outros mecanismos de redução do recolhimento do ICMS divulgados pela Receita Estadual do Rio Grande do Sul em seu relatório de desonerações tributárias.
Contab – O que representa, na prática, a renúncia fiscal em ICMS?
Jaeger – Na prática, ela se traduz na redução ou exclusão dos valores que os contribuintes do ICMS beneficiados pelas políticas de desoneração deveriam recolher do imposto.
Contab – Por que o Incentivômetro passou por diversas revisões metodológicas desde o seu lançamento?
Jaeger – Porque, ao longo dos anos, a Receita Estadual foi refinando e melhorando as informações sobre as renúncias fiscais.
Contab – O que mudou nas metodologias adotadas ao longo dos anos?
Jaeger – A mudança ocorreu basicamente nos valores de isenção, que antes eram calculados por estimativa e hoje correspondem aos valores efetivamente abdicados em favor dos contribuintes beneficiados por esse instrumento tributário.
Contab – Qual é a importância de divulgar os valores das renúncias fiscais para a sociedade?
Jaeger – Para que os cidadãos possam ter uma dimensão correta de quanto o Estado investe na iniciativa privada, muito além dos meros recursos orçamentários regularmente destinados com esse fim específico.
Contab – A transparência sobre os incentivos fiscais contribui para a avaliação das políticas públicas?
Jaeger – Sim. Ao sabermos quanto o Estado abre mão em favor da iniciativa privada, podemos aferir, inicialmente, a grandeza desses benefícios e, posteriormente, avaliar o mérito dos mesmos.
Contab – Qual é a relevância dessas informações para profissionais da contabilidade e do setor empresarial?
Jaeger – Saber quanto de ICMS está sendo dispensado de ser recolhido nos diversos segmentos empresariais.
Contab – As projeções mais recentes indicam que as renúncias fiscais continuarão crescendo?
Jaeger – As renúncias atualmente estão na casa de R$ 1 bilhão por mês, o que representa algo ao redor de 25% da arrecadação do ICMS. Esse percentual vem sendo observado ao longo do tempo. O crescimento das renúncias praticamente acompanha o crescimento do imposto.
Contab – O Incentivômetro pode contribuir para qualificar o debate sobre reforma tributária e responsabilidade fiscal?
Jaeger – Todo instrumento que mede as renúncias é extremamente importante, tanto em tempos normais quanto em períodos de reforma. Contudo, com a entrada do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e a mudança da tributação para o destino, esses benefícios tendem a ser reduzidos ou passarão a ser concedidos por via orçamentária, afetando de forma mais direta o orçamento estadual.
Contab – Quais são os próximos passos para ampliar o alcance do projeto?
Jaeger – Por ora, o projeto segue como está, mas o ideal seria que houvesse um contador físico, nos moldes do Impostômetro, exibido em algum local público de destaque. O Impostômetro é uma ferramenta que calcula e exibe, em tempo real, o valor total pago em impostos, taxas e contribuições pelos contribuintes do Rio Grande do Sul aos cofres públicos.
Contab – Quais são as suas considerações finais?
Jaeger – Acompanhar onde são aplicados os recursos públicos, seja pelas renúncias fiscais, seja pela despesa pública, deveria ser algo natural para uma sociedade madura, que tem consciência de como são utilizados os recursos arrecadados pelo poder público por meio da cobrança de impostos.