sábado, 4 de julho de 2026


04 de Julho de 2026
CARPINEJAR

Dos joelhos até os calcanhares

As meias foram diminuindo de tamanho de geração a geração. Meus pais na infância usavam três quartos; eu, a soquete; meus filhos, as invisíveis ou sapatilha. Meus pais usavam meias até os joelhos; eu, até os calcanhares; meus filhos preferem que não sejam vistas. Elas começaram a desaparecer. Cada época abocanhou um naco de sua medida.

É uma história silenciosa do estilismo, acompanhando o desejo de destapar o corpo. Pode ser efeito da superexposição da aparência nas redes sociais, da tendência fitness, das academias de musculação. Ou porque o tênis passou a ser protagonista, com a ostentação de marcas e modelos, e roubou a cena da sua fiel coadjuvante.

O vestuário encolheu junto com os costumes. As meias não sofreram redução somente de tecido, mas também de importância e influência. Antes faziam parte do visual; agora a intenção é camuflá-las, num minimalismo que apenas privilegia o indispensável.

O acessório não é nem enfeite. Mudou de função. Antigamente protegia do frio; nos tempos modernos, protege do atrito do calçado. A liberdade se tornou sinônimo de despojamento. Quanto menor a peça, maior seu consumo: fones sem fio, por exemplo.

Nas fotografias amareladas de meus pais, eles posavam com meias de algodão grosso, lã ou mistura de fios, porque aqueciam mais. Possuíam elástico firme ou ligas para evitar que escorregassem. As tonalidades revelavam discrição: cinza, marrom, azul-marinho, bege e preto.

Sua constância no período se explicava pela versatilidade: eram adotadas tanto com sapatos sociais quanto com calçados esportivos. Ninguém mostrava a canela, sinal de pouca elegância, status que migrou hoje para não mostrar as meias.

Na década de 50, crianças não abdicavam do seu emprego nos passeios e na escola, completando o dueto do uniforme com as bermudas. Tratava-se de um código que transmitia sobriedade, disciplina, decência, respeito à família.

Depois, conforme as barras das calças ficaram mais largas e a moda assumiu um caráter informal e casual, as meias três quartos deram lugar às de cano médio, coloridas, divertidas, com estampas. Participei desse momento em que sua extravagância indicava uma ideologia de insubordinação e independência.

Atualmente, olho para os pés de meus filhos e não enxergo meia nenhuma. Está por baixo, constrangida, sufocada. Não há sentido em falar "arregaçar as meias" ou "puxar as meias". Não há sentido em deixar uma gaveta unicamente para elas. Ocupam um espaço simbólico.

E, paradoxalmente, reivindicam cifras muito mais salgadas - vendidas de modo avulso, não em pacotes com uma dúzia. Gastamos o dobro para algo que não se percebe. Um par de meias virou um presente secreto. Você jamais testemunhará o presenteado se exibindo com o regalo.

São as novas roupas íntimas. 

CARPINEJAR

04 de Julho de 2026
EUGÊNIO ESBER

Michelle antes, Jair depois

No dia em que Michelle Bolsonaro irrompeu nas telas brasileiras para expor suas desavenças com o enteado Flávio Bolsonaro, pensei, entre tantas hipóteses razoavelmente plausíveis, que estava nascendo uma persona política de fisionomia própria - e ambições muito próprias, também. Se me enganei ou não, o tempo dirá. Mas um erro, desde já, assumo ter cometido em minha primeira e imediata avaliação, a mesma, aliás, de muitos observadores da cena política. 

Não foi a primeira aparição disruptiva de Michelle. "A posse. Lembra da posse?", alertou-me a Maira. Eu não lembrava. Mas não foi preciso muito esforço para concluir que a enigmática personalidade da ex-primeira-dama se delineou aos olhos do público, pela primeira vez, em 1º de janeiro de 2019.

Assim como a cuidadosa preparação do vídeo-bomba de 24 de junho de 2026, Michelle de Paula Firmo Reinaldo Bolsonaro construiu e esculpiu, no seu íntimo, um plano que a faria tornar-se notícia no Brasil e no mundo: discursar na posse do marido, Jair Messias Bolsonaro, feito inédito na história do Brasil.

Mais do que uma quebra de protocolo, a primeira-dama protagonizou outro ineditismo: discursou em Libras, a linguagem brasileira de sinais, para homenagear pessoas com deficiência e, particularmente, a comunidade surda, na qual se inclui um tio dela. Postado atrás dela, com expressão séria, Jair acompanhava a leitura do texto de Michelle pela auxiliar Adriana Ramos. Ao final, a pedido do público, Jair e Michelle se beijaram.

A imprensa brasileira e internacional deixou de lado o viés de antipatia ao capitão que derrotara o petismo e adoçou a cobertura da posse com menções à suavidade e à empatia da jovem de 37 anos incompletos nascida em Ceilândia, Distrito Federal.

Depois de tudo, Michelle deu entrevista em que contestou insinuações de "marketing" em sua iniciativa. Contou, porém, que planejou o ato em segredo - inclusive do marido - durante 10 dias. Só comunicou Jair de seu plano duas horas antes da posse. "Olha, eu vou discursar, mas você fica tranquilo que deve ser menos de quatro minutos."

Faltando apenas meia hora para o início da cerimônia, marido e mulher combinaram como seria. A primeira-dama falaria antes do presidente.

E assim foi feito, como nunca antes no Brasil ou no mundo.

Posteriormente, frente às câmeras da TV Record, Michelle relataria, descontraída, e com certa euforia, o nervosismo do cerimonial na véspera da posse.

- Foi um momento cômico, porque uma pessoa do alto escalão ficou extremamente em pânico. "A senhora vai discursar... O presidente já sabe?" Falei: "Não". E ele: "Como assim ?o presidente não sabe??". Eu falei: "Qual o problema?". _

EUGÊNIO ESBER

04 de Julho de 2026
OPINIÃO RBS

OPINIÃO RBS

Investigação em defesa do interesse público

Três anos após o início das apurações policiais, o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS) denunciou 22 pessoas por suposto envolvimento em fraudes no âmbito da Secretaria Municipal da Educação (Smed) de Porto Alegre. É a primeira acusação do MP relacionada à Operação Capa Dura, realizada pela Polícia Civil para investigar irregularidades na compra de 544 mil livros, em 2022, a um custo de R$ 36,5 milhões. Ainda cabe à Justiça analisar se aceita a denúncia e, a partir disso, dar prosseguimento ao processo que pode resultar na responsabilização e na punição dos eventuais culpados. O andamento das averiguações, porém, já é um resultado emblemático da vigilância permanente que o jornalismo profissional deve exercer em uma sociedade democrática.

A atuação das autoridades teve início após a publicação de uma série de reportagens do Grupo de Investigação da RBS (GDI) sobre indícios de ilegalidades em compras da Smed. Os repórteres Adriana Irion e Carlos Rollsing relataram o abandono de milhares de livros e materiais didáticos adquiridos sob suspeita de direcionamento de licitação e esquecidos em depósitos sob condições inadequadas. Fiscalizar as ações do setor público e o uso dos recursos obtidos por meio do pagamento de impostos, com equilíbrio e responsabilidade, é justamente um dos pilares do jornalismo independente e plural.

Espera-se que as instituições competentes deem curso à análise das provas colhidas ao longo dos últimos anos de forma célere, técnica e livre de pressões partidárias. Embora todo e qualquer desvio de dinheiro público seja um delito de extrema gravidade, irregularidades envolvendo uma área tão importante como a educação se mostram especialmente repreensíveis, tanto pelo expressivo volume de verbas que essa pasta costuma concentrar quanto pelo caráter simbólico da malversação de recursos que deveriam ser destinados à formação de crianças e jovens.

Após a publicação das reportagens, a Polícia Civil abriu sete inquéritos. Em fevereiro, a conclusão das investigações resultou no indiciamento de 34 pessoas - entre as quais 22 foram agora denunciadas pelo Ministério Público. Nessa lista estão a ex-secretária da Educação da Capital Sônia da Rosa, o empresário Jailson Ferreira da Silva e os ex-vereadores Alexandre Bobadra (PL) e Pablo Melo (MDB). Enquanto a defesa da ex-secretária optou por se manifestar somente após ser citada formalmente, os demais negam participação em quaisquer irregularidades. Se as denúncias forem aceitas pela Justiça, terão a oportunidade de apresentar suas contraprovas no decorrer da ação judicial.

Qualquer que seja o desfecho do episódio, é fundamental que sirva de exemplo para o poder público redobrar o cuidado com o dispêndio de recursos e seus mecanismos de autocontrole. É inaceitável que, em sociedades com tantas demandas por saúde e educação, de um lado, e verbas tão escassas para atender aos anseios da população, de outro, qualquer centavo seja comprometido por má gestão ou ação deliberada. Quando a máquina governamental falhar na aplicação de seu orçamento, restará a permanente disposição do jornalismo profissional em representar e fazer valer os interesses da sociedade. _

04 de Julho de 2026
COOPERATIVISMO - Bruna Oliveira

"É mais que um trabalho, é um compromisso com a vida"

Há 30 anos, a Cooperativa Univens, situada no bairro Sarandi, na zona norte de Porto Alegre, gera renda, oportunidade e renovação para o seu entorno. Atualmente, grupo de mulheres costureiras produz roupas, uniformes escolares e de firmas, bolsas, sacolas ecobags e lençóis hospitalares

Na zona norte de Porto Alegre, o fio que ganha forma pelas mãos de mulheres costureiras tece uma trama que vai muito além da vestimenta e se traveste em mudança social. Há 30 anos, a Cooperativa Univens - Unidas Venceremos, gera renda, oportunidade e renovação para a comunidade do seu entorno.

O trabalho feito pelas mulheres da Vila Nossa Senhora Aparecida, no bairro Sarandi, é um caso emblemático da cooperação pelo trabalho. Juntas, as 24 costureiras cooperadas dividem as tarefas, os ganhos, o tempo, o espaço e os problemas.

Começou em 1996, quando a necessidade de gerar renda encontrou ocasião no ofício das mulheres da comunidade, recorda a diretora-presidente da cooperativa, Nelsa Fabian Nespolo, 63 anos. O sonho coletivo, naquela época, era costurar para o Hospital Conceição, centro de saúde referência para os moradores do bairro:

- Dois fatores se juntaram: precisávamos de renda e havia a vontade de costurar para o hospital. Mas, para isso, precisávamos ser uma cooperativa. E assim começamos. É mais que um trabalho, é um compromisso com a vida.

Como no bordado à mão livre, nem tudo saiu como o planejado, e outras tramas foram se mostrando possíveis ao longo do percurso. Enquanto a meta de atender a rede hospitalar não desenrolava, uma encomenda de 500 camisetas para vestir metalúrgicos deu o fôlego para avançar. Aos poucos, os equipamentos foram adquiridos, os clientes foram chegando e a rede feminina tramada pela costura foi ficando mais firme.

Plano de ir além

Foi só em 2024 que o sonho da Univens enfim alcançou o seu primeiro objetivo, com a seleção na primeira chamada pública promovida pelo GHC. Em seguida, os lençóis costurados na Vila Nossa Senhora Aparecida chegaram ao Hospital da Criança, referência no tratamento infantil no Rio Grande do Sul. Em 2025, as peças já cobriam adultos na hematologia e na oncologia, e atualmente estão em ampliação para a maternidade do Hospital Fêmina, também na Capital.

O plano é ir além. Outra disputa de compra pública está em aberto para atender ao Grupo Hospitalar Conceição, além de negociações em andamento com três hospitais privados do Interior. Por serem feitos de tecido orgânico, os lençóis da cooperativa irritam menos a pele dos pacientes, conferindo um ganho aos tratamentos de saúde.

- Queremos muito ampliar a entrega para outros hospitais, porque isso nos dá uma segurança de renda certa, e o restante buscamos com outros produtos que a gente faz. Ampliar a compra pública significa crescer a cooperativa. Muitas vezes, essa é a única renda da família - diz Nelsa.

Da costura das mulheres, produzem-se roupas, uniformes escolares e de firmas, produtos corporativos, bolsas, sacolas ecobags e os lençóis hospitalares. Mas nem sempre as mãos da comunidade souberam costurar. O grupo de cooperadas reúne desde as que já manuseavam a máquina àquelas que aprenderam na cooperativa.

Há seis anos entre elas, Vera Monticeli, 63 anos, diz ser grata pela oportunidade de trabalhar junto às mulheres. Tudo o que sabe de costura, diz, aprendeu ali.

- Fiz um curso básico na cooperativa e a Nelsa me convidou para trabalhar. Hoje eu digo que sei costurar. Tudo o que sei de costura eu aprendi aqui dentro. (Estar) onde todo mundo faz junto, onde todo mundo pega junto, é muito gratificante - conta.

O perfil na cooperativa é diverso. Muitas são viúvas, outras são mães solo, e há as que são chefe de família - da qual o único sustento vem da renda da cooperativa. Também há as que trabalham de casa, sem frequentar a sede, e as que se dedicam aos reparos.

- A cooperativa dá uma segurança financeira, e, portanto, de vida. Sobretudo, para as mulheres. É tão importante ter uma rede de proteção na nossa volta e um grupo onde se pode contar os problemas... Tem dias que a vida é mais difícil. E compartilhar as alegrias também. É o verdadeiro sentido de cooperar, num todo, na vida das mulheres - diz a diretora-presidente.

Circulação de dinheiro

O impacto econômico e social desde que o cooperativismo passou a fazer parte da comunidade vai além dos limites da Univens e se revela em mudança de realidades. O dinheiro que passou a circular a partir da venda das peças girou também o comércio, os serviços e as oportunidades para novos negócios no bairro. Mais do que isso, chegou à qualidade de vida das mulheres. Todas moram perto da cooperativa, algumas delas vão de bicicleta, e isso representa tempo a mais com as suas famílias. _

Polêmicas envolvem os 250 anos dos EUA

Neste sábado, os Estados Unidos comemoram o aniversário de 250 anos de sua independência. A série de celebrações propostas pelo governo americano começou há uma semana e deve se estender além da data oficial. O país já está em ritmo de festa: na sexta-feira, as ruas de diversas cidades foram tomadas por bandeiras, chapéus e souvenirs em vermelho, azul e branco.

Dois fatos têm chamado a atenção no pano de fundo da festividade: a forte polarização em torno das comemorações e a centralização da imagem do presidente Donald Trump nos eventos.

A polarização

Os preparativos para o quarto de milênio de independência americana começaram ainda em 2016, quando o Congresso criou o America250, um comitê bipartidário para organizar as festividades. No entanto, em seu segundo mandato, Trump criou o Freedom 250, uma parceria público-privada sob o guarda-chuva de sua própria administração.

A criação deste segundo grupo esteve no centro de uma forte discussão nos últimos dias envolvendo o Partido Democrata. A oposição divulgou um relatório acusando consultores ligados a Trump de envolvimento em fraude financeira para enganar doadores.

Segundo os democratas, apoiadores que pretendiam contribuir com o fundo America250 receberam, na verdade, os dados bancários do Freedom 250.

O relatório aponta que o Freedom 250 foi concebido sob os cuidados da ala republicana para servir como "um veículo para uma visão nacionalista cristã, partidária e centrada em Trump da identidade americana", e que os recursos arrecadados serviram para inflar "o ego, a ideologia política e os projetos pessoais do presidente".

A imagem de Trump

Trump anunciou que este será o aniversário "mais espetacular" da história americana. O primeiro indício da apropriação da data surgiu ainda em dezembro, quando o republicano enumerou, em um vídeo, uma lista de programas para o aniversário da nação.

De acordo com a CNN, Trump desfez planos que vinham sendo elaborados há anos para a festividade e direcionou verbas federais para sua visão, atraindo críticas de que o ato se tornou uma celebração mais voltada para o presidente do que para o país.

A abertura oficial das comemorações ocorreu na semana passada com a Grande Feira Estadual Americana, no National Mall, evento que se estende até dia 10. Segundo o The New York Times, diante da forte politização, diversos artistas cancelaram apresentações, alegando desconforto com o viés partidário.

O ápice das festividades ocorre neste fim de semana. O principal evento batizado de Saudação à América, com desfiles, demonstrações militares e um show de fogos de 40 minutos e 850 mil disparos. O presidente fará o discurso principal que, segundo suas próprias palavras, será longo - mesmo que a previsão indique máxima de 37ºC em Washington DC no sábado. Trump participará de praticamente todas as cerimônias, e o cronograma oficial da festa foi moldado para se adequar à agenda dele.

A principal crítica de analistas locais, como Jon Favreau, Jon Lovett, Dan Pfeiffer e Tommy Vietor, do podcast Pod Save America, é de que a celebração centralizou todas as atenções em Trump. O jornal Los Angeles Times seguiu na mesma linha, apontando: "O espetáculo que os americanos verão terá Trump como figura central". _

Lula parabenizou a presidente eleita do Peru, Keiko Fujimori, após a Justiça Eleitoral do país confirmar a vitória dela na eleição. "Conte com o Brasil para construirmos juntos uma América do Sul mais próspera, integrada, democrática e soberana", escreveu o brasileiro. Keiko será a nona presidente em 10 anos no Peru.

Ciclovia vai unir pedal e cerveja

Farroupilha entregou na sexta-feira a Ciclovia Desvio da Cerveja. A obra, com mais de 8 quilômetros de extensão, fica às margens da rodovia VRS-813, entre Farroupilha e Garibaldi. O projeto recebeu um investimento de R$ 3 milhões do Estado e de quase R$ 5 milhões do município.

Ao longo do percurso, a pista integra diversas cervejarias artesanais da região, consolidando um roteiro que une pedal, gastronomia, cultura e paisagem.

Além da pavimentação, a estrutura conta com sinalização horizontal e vertical, além de balizadores flexíveis ao longo de todo o trecho. Para a prefeitura, a via pode potencializar um novo polo de cicloturismo. _

Semana italiana em Porto Alegre

Se você aprecia massas, vinhos e, principalmente, a cultura italiana, Porto Alegre viverá, entre segunda e sábado, o legado da imigração no RS.

Trata-se da 20ª Settimana Italiana di Porto Alegre, uma homenagem à trajetória dos imigrantes que cruzaram o oceano para construir a vida no Estado. O tema desta edição será Dall?Italia all?America (Da Itália para a América).

Destaca-se da programação a exposição Dall?Italia all?America, que resgata cenas da saga italiana no RS; a apresentação La notte del canto lírico, com o musical Il Barbiere di Siviglia; lançamentos literários; gravação do programa de televisão; entre outras atividades. _

A pedido do Papa, reitores debatem IA

O reitor da PUCRS, Ir. Manuir José Mentges, participou na sexta-feira de um encontro em Curitiba com os demais reitores das PUCs de todo o Brasil. A reunião atendeu a um pedido do papa Leão XIV e teve como objetivo debater as transformações tecnológicas, em especial os impactos da inteligência artificial.

A conferência vai ao encontro das diretrizes da encíclica Magnifica Humanitas, lançada pelo Pontífice em maio. O documento trata justamente sobre o avanço da IA na sociedade e detalha as preocupações e orientações da Igreja Católica a respeito do tema.

Além do reitor da PUCRS, participaram da reunião padre Anderson Antonio Pedroso (PUC-Rio), Olga Izilda Ronchi (PUC Goiás), irmão Rogério Mateucci (PUCPR) e Victor de Barros Deantoni (PUC-Campinas). _

INFORME ESPECIAL 

sábado, 27 de junho de 2026

Ferramenta eletrônica revela R$ 1 bilhão em renúncias fiscais no RS

Eduardo Jaeger, presidente da Afisvec, destaca o valor

Eduardo Jaeger, presidente da Afisvec, destaca o valor

/Afisvec/Divulgação/JC
Osni Machado
Osni MachadoColunistaAs renúncias fiscais concedidas pelo governo gaúcho por meio do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) alcançam atualmente cerca de R$ 1 bilhão por mês, montante equivalente a aproximadamente 25% da arrecadação do tributo. Os números são acompanhados pelo Incentivômetro, ferramenta eletrônica desenvolvida pela Associação dos Auditores-Fiscais da Receita Estadual do Rio Grande do Sul (Afisvec), que contabiliza, em tempo real, os valores que o Estado deixa de arrecadar em razão dos benefícios fiscais concedidos à iniciativa privada.
Criado para ampliar a transparência sobre os investimentos indiretos realizados pelo poder público, o sistema passou por aperfeiçoamentos metodológicos ao longo dos anos. O presidente da Afisvec, Eduardo Jaeger, auditor-fiscal da Receita Estadual e dirigente da entidade, afirma que a divulgação desses dados permite à sociedade compreender a dimensão dos recursos destinados ao setor privado e avaliar as políticas de desoneração tributária. Jaeger detalha um pouco mais o assunto em entrevista ao Jornal do Comércio.
JC Contabilidade – O que é o Incentivômetro e qual foi a motivação para a sua criação?
Eduardo Jaeger – A motivação principal da criação do Incentivômetro foi contrapor a informação que circulava à época de que o Estado investia muito pouco, referindo-se apenas aos valores destinados no orçamento estadual. Na realidade, esses montantes deveriam considerar também as renúncias fiscais. Foi assim que nasceu a ideia do Incentivômetro e os vultosos valores dispensados indicam que a Afisvec estava correta ao realizar essa contabilização.
Contab – Por que a Afisvec classifica o Incentivômetro como um instrumento de transparência pública?
Jaeger – Porque mostra para a sociedade os valores investidos na iniciativa privada por meio dos benefícios fiscais e tributários.
Contab – Como funciona o cálculo apresentado pelo contador eletrônico?
Jaeger – O cálculo é feito de acordo com os valores de isenção, redução de base de cálculo, créditos presumidos e outros mecanismos de redução do recolhimento do ICMS divulgados pela Receita Estadual do Rio Grande do Sul em seu relatório de desonerações tributárias.
Contab – O que representa, na prática, a renúncia fiscal em ICMS?
Jaeger – Na prática, ela se traduz na redução ou exclusão dos valores que os contribuintes do ICMS beneficiados pelas políticas de desoneração deveriam recolher do imposto.
Contab – Por que o Incentivômetro passou por diversas revisões metodológicas desde o seu lançamento?
Jaeger – Porque, ao longo dos anos, a Receita Estadual foi refinando e melhorando as informações sobre as renúncias fiscais.
Contab – O que mudou nas metodologias adotadas ao longo dos anos?
Jaeger – A mudança ocorreu basicamente nos valores de isenção, que antes eram calculados por estimativa e hoje correspondem aos valores efetivamente abdicados em favor dos contribuintes beneficiados por esse instrumento tributário.
Contab – Qual é a importância de divulgar os valores das renúncias fiscais para a sociedade?
Jaeger – Para que os cidadãos possam ter uma dimensão correta de quanto o Estado investe na iniciativa privada, muito além dos meros recursos orçamentários regularmente destinados com esse fim específico.
Contab – A transparência sobre os incentivos fiscais contribui para a avaliação das políticas públicas?
Jaeger – Sim. Ao sabermos quanto o Estado abre mão em favor da iniciativa privada, podemos aferir, inicialmente, a grandeza desses benefícios e, posteriormente, avaliar o mérito dos mesmos.
Contab – Qual é a relevância dessas informações para profissionais da contabilidade e do setor empresarial?
Jaeger – Saber quanto de ICMS está sendo dispensado de ser recolhido nos diversos segmentos empresariais.
Contab – As projeções mais recentes indicam que as renúncias fiscais continuarão crescendo?
Jaeger – As renúncias atualmente estão na casa de R$ 1 bilhão por mês, o que representa algo ao redor de 25% da arrecadação do ICMS. Esse percentual vem sendo observado ao longo do tempo. O crescimento das renúncias praticamente acompanha o crescimento do imposto.
Contab – O Incentivômetro pode contribuir para qualificar o debate sobre reforma tributária e responsabilidade fiscal?
Jaeger – Todo instrumento que mede as renúncias é extremamente importante, tanto em tempos normais quanto em períodos de reforma. Contudo, com a entrada do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e a mudança da tributação para o destino, esses benefícios tendem a ser reduzidos ou passarão a ser concedidos por via orçamentária, afetando de forma mais direta o orçamento estadual.
Contab – Quais são os próximos passos para ampliar o alcance do projeto?
Jaeger – Por ora, o projeto segue como está, mas o ideal seria que houvesse um contador físico, nos moldes do Impostômetro, exibido em algum local público de destaque. O Impostômetro é uma ferramenta que calcula e exibe, em tempo real, o valor total pago em impostos, taxas e contribuições pelos contribuintes do Rio Grande do Sul aos cofres públicos.
Contab – Quais são as suas considerações finais?
Jaeger – Acompanhar onde são aplicados os recursos públicos, seja pelas renúncias fiscais, seja pela despesa pública, deveria ser algo natural para uma sociedade madura, que tem consciência de como são utilizados os recursos arrecadados pelo poder público por meio da cobrança de impostos.

Construir sistema de alertas de terremotos na Venezuela seria missão de décadas, diz especialista

Até sexta-feira (26), as autoridades haviam confirmado 920 mortos e 4.300 feridos após o terremoto

Até sexta-feira (26), as autoridades haviam confirmado 920 mortos e 4.300 feridos após o terremoto

FEDERICO PARRA/AFP/JC
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Agências
Mesmo localizada no encontro de duas placas tectônicas, a Venezuela não conta com um sistema robusto de alerta de terremotos, como outras nações que também estão em áreas instáveis, e grande parte da população foi avisada dos tremores de quarta-feira (24) por um sistema do Google.
Para Robert-Michael de Groot, cientista físico do USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos), a alternativa da big tech é uma boa solução para nações que não contam com outras ferramentas para avisar seus habitantes de sismos, mas a construção de um sistema próprio é um investimento que vale a pena porque salva vidas.
O problema, diz, é a complexidade desse tipo de infraestrutura. "Construir um sistema completo, como nos EUA, levou décadas", afirma ele à Folha. O cientista é o líder da equipe de operações do ShakeAlert, o Sistema de Alerta Antecipado de Terremotos gerenciado pelo USGS.
"Nos EUA, os alertas vão para celulares, mas também para infraestrutura, reduzindo a velocidade de trens e abrindo portas de quartéis de bombeiros", diz. "É um desafio de infraestrutura muito amplo."
Em uma realidade como a da Venezuela, em crise econômica há mais de uma década e com outros problemas estruturais sérios na fila, como o que sujeita a sua população a constantes apagões e falta de água, a perspectiva pode ser ainda mais pessimista.
O desafio, no entanto, é generalizado, segundo ele. "São necessários muitos recursos. Não vejo isso como um problema específico da América Latina ou do Caribe", afirma. "No México, por exemplo, depois do terremoto de 1985, eles construíram um sistema de alerta, mas levou muito tempo e muitos recursos."
O tremor ao qual se refere alcançou magnitude 8 e matou milhares de pessoas – a cifra varia de 5.000, segundo o governo, a 45 mil, segundo o Serviço Sismológico Nacional do México. Fato é que o desastre impulsionou o país a construir uma rede de alertas.
Logo no ano seguinte, foi criado o Cires (Centro de Instrumentação e Registro Sísmico), e, em 1991, o sistema já estava operando. Apenas nos anos 2000, porém, após um tremor atingir Oaxaca, a ferramenta passou por ampliações que a deixariam mais eficiente.
"Para ter um sistema robusto de alerta precoce de terremotos, você precisa de muitas estações sísmicas detectando o movimento do solo e uma rede de comunicação eficiente para levar essa informação do ponto onde o tremor é detectado até onde ela será processada e distribuída", explica Groot.
Os desafios incluem também instruir a população sobre o que fazer. Em geral, esses alertas dão algumas orientações, como "abaixe-se e segure-se", por exemplo, e o cidadão precisa ter alguma noção de como se proteger. "Mesmo com o melhor sistema do mundo, se as pessoas não souberem como agir, ele não ajuda muito", afirma o cientista.
Até alcançar esse sistema, é positivo que se possa contar com a alternativa do Google. Às 18h04 locais de quarta (19h04 no Brasil), milhões de celulares Android receberam a seguinte mensagem na Venezuela: "É possível que você sinta tremores. Magnitude estimada inicial de 6,2 a aproximadamente 356 quilômetros de distância".
De acordo com Groot, a companhia usa os sensores de aceleração e localização dos celulares para detectar o terremoto, e então calcula quem deve receber os alertas. "Esses alertas têm sucesso limitado, mas ainda não sabemos os detalhes exatos porque precisamos falar com nossos colegas do Google", afirma.
Ele acrescenta, ainda, que há outros problemas na região. "Se você está em um prédio mal construído, pode não haver tempo suficiente para reagir antes do colapso", diz. Na quarta, o serviço americano afirmou que "de modo geral", a área atingida tinha "estruturas vulneráveis a tremores sísmicos."
Um estudo de 2017 que analisou mais de 600 casas populares em Caracas, Guarenas e Guatire, justamente os locais que sofreram os maiores impactos nos terremotos de quarta, indicou um grau de vulnerabilidade sísmica "alta a muito alta" nas construções, os mesmos observados em edifícios que desabaram no terremoto de Caracas, em 1967, e de Cariaco, em 1997.
Até esta sexta-feira (26), as autoridades haviam confirmado 920 mortos e 4.300 feridos, mas a expectativa é de que o número cresça nos próximos dias. O USGS calcula que há 42% de chances de que a cifra total de óbitos fique entre 10 mil e 100 mil, e a ONU estima mais de 50 mil desaparecidos.
"Em terremotos como esse, intensos e com muitos prédios colapsados, vai levar tempo para chegar aos números reais de afetados", afirma, comparando o desastre ao do Haiti, em 2010, e ao da Indonésia, de 2004. "O que se vê imediatamente após o evento é só uma parte. O número vai crescer consideravelmente nos próximos dias e semanas."