sábado, 3 de outubro de 2026

01/10/2026 - 09h33min
J. J. Camargo

Existem gestos que resumem a biografia de um grande homem

Havia no evento uma aura invisível dos melhores sentimentos que orbitavam em torno da memória do cirurgião Marcos Moraes

"O essencial é invisível aos olhos." (Antoine de Saint-Exupéry)

Há um tipo raro de luz que só acende quando estamos determinados não apenas a olhar o sofrimento do outro, mas a ver com o coração a intensidade da sua dor. 

Uma energia mútua e calorosa, que quase se pode palpar, circula entre essas pessoas dispostas a enxergar a dor do próximo não como um fardo, mas como um pedido de socorro. 

Provei dessa sensação maravilhosa na semana passada, convidado para uma conferência durante a comemoração dos 35 anos da Fundação do Câncer, no Rio.

Entre o convívio afetuoso com o doutor Paulo Niemeyer, presidente do Conselho Curador; o doutor Luiz Augusto Maltoni, diretor médico da fundação; a atriz e embaixadora Isabel Fillardis e a doutora Vivian Rumjanek, com seu tom maternal de contar a história da entidade, havia uma aura invisível dos melhores sentimentos que orbitavam em torno da memória de um homem extraordinário: o cirurgião Marcos Moraes.

Foi ali que reencontrei uma história, que ouvi no passado do próprio Marcos, agora resgatada pela jornalista Claudia Jurberg, que traduz com precisão mágica a essência dessa energia boa:

"Marta era empregada doméstica. Apenas uma semana depois de conseguir um emprego pelo qual batalhara por dois longos anos, ela percebeu que tinha um nódulo na mama. Mas como desgraçadamente acontece com os despossuídos, a fome não fica esperando a saúde. Então, entre tratar de si ou assegurar o pão na mesa, Marta priorizou o que comer. Só buscou socorro médico muito tempo depois, quando o tumor já lhe rompera a pele em um anúncio desolador e irreversível.

Ao ser admitida no Instituto Nacional de Câncer (Inca), o destino colocou Marta no caminho de uma revolução silenciosa. Naquela época, o doutor Marcos Moraes havia criado um programa pioneiro de cuidados paliativos domiciliares — uma rede que mantinha centenas de pacientes nas suas próprias casas, amparados por dezenas de voluntários, responsáveis por garantir a dignidade que depende do controle efetivo da dor.

Quando soube que poderia ser incluída no programa, Marta exultou. Ir para casa no limiar da existência carrega um significado sagrado que só quem avista a finitude consegue compreender. O serviço social, contudo, hesitou. O perfil familiar era trágico: dos quatro filhos, apenas uma filha trabalhava; um filho deficiente, um dependente químico e uma filha prostituta na favela completavam o quarteto incapaz de oferecer o mínimo de suporte.

Mas a comoção e o brilho nos olhos de Marta falaram mais alto. Movido pela empatia e compaixão, o doutor Marcos Moraes não apenas autorizou sua ida, como tomou para si a missão de visitá-la diariamente. O Serviço Social havia identificado a tragédia familiar, mas Marcos conseguiu ver a urgência do resgaste de tanto amor negligenciado.

Marta viveu apenas 47 dias depois que deixou o hospital. Na véspera de sua partida, em sua última visita, de mãos dadas com Marcos ela usou palavras que mal cabiam na sua humildade para agradecer:

— Doutor Marcos, o senhor não sabe o que significou permitir que os meus filhos cuidassem do meu fim. A minha vida inteira eu senti muita vergonha desses dois... E agora, por sua bondade, eu vou morrer cheia de orgulho deles."

Naquele gesto, o médico não havia apenas aliviado a dor do corpo. Ele devolvera àquela mãe o amor de seus filhos e, aos filhos, a dignidade de terem sido o derradeiro refúgio de quem, lá atrás, lhes dera a vida, sem pedir nada em troca.

A cerimônia continuou, outros discursos vieram, mas o meu coração permaneceu preso àquele encontro sublime na casa de Marta. Voltei do Rio com a convicção renovada de que existem gestos que resumem a biografia de um homem, um grande homem. E que não importa quantas homenagens se prestem à memória de Marcos Moraes: para aqueles que tiveram a ventura do convívio, sempre restará a certeza de que ele merecia mais. Muito mais.


02/10/2026 - 14h37min
Martha Medeiros

Quem se acha superior aos demais não passa de um dinossauro. Nosso saldo bancário ou posição no organograma não deveria fazer diferença

Braquiossauros. Velociraptors. Pterodáctilos. Hierárquicos. Sim, incluiria os hierárquicos nesta turma. Quem se acha superior aos demais e usa o poder para obter vantagens não passa de um dinossauro também.

A sociedade é ordenada por cargos e funções. Pessoas contratam outras para trabalhar com elas ou trabalhar para elas. A despeito da sutil diferença entre as duas preposições, vale a máxima: eu pago, você obedece.

Sempre tive dificuldade com essa concepção de mundo. Era uma pirralha e não entendia nem mesmo a razão de ter que abaixar a cabeça diante de pai e mãe. Muitas vezes, depois de ouvir um sermão, tentei me defender, mas fui interrompida com um “não me responda”. Ou era calada com a frase “Criança não tem querer”. 

Eu achava injusto colocar a situação nesses termos, mas nunca promovi nenhuma rebelião infantil. Ficava quieta. Acho um absurdo que hoje as crianças mandem e os pais obedeçam. Sempre respeitei meus pais, como respeitei meus professores e sigo respeitando a todos, mas não pela hierarquia, que para mim é um conceito obsoleto, e sim como um tributo a quem sabe mais do que eu.

E todos sempre saberão alguma coisa que eu não sei.

Um Papa sendo operado por um cardiologista: quem é que merece ter as mãos beijadas na sala de cirurgia? Um milionário cujo carro quebra na estrada: qual o valor do mecânico que veio em seu socorro? Uma celebridade que acaba de dar à luz e tem baixa produção de leite: VIP não seria a mulher que amamentará o bebê em seu lugar?

É a dinâmica da vida. Precisamos uns dos outros, e nosso saldo bancário ou posição no organograma não deveria fazer diferença.

O cuidador que dá banho em um vencedor do prêmio Nobel, a ele se equivale. Remuneramos serviços, mas não compramos pessoas. A cada vez que falamos com elas sem enxergá-las, a cada vez que usamos um tom de voz afrontoso, a cada vez que não as escutamos, aumenta a fúria contida, que poderá retornar para nós em forma de violência. Se é paz que queremos, é bom lembrar que ela passa pela horizontalidade das relações. 

Ninguém é melhor que ninguém, apenas algumas têm mais dinheiro.

Que entre logo em extinção aquele que circula de nariz em pé, achando que vale mais que o porteiro que lhe abre a porta ou que o garçom que lhe serve o vinho. Se pudesse observar a si mesmo à distância, desdenhando de quem lhe atende, teria vergonha da própria canastrice. O mundo avançou, se unificou, e é nosso dever acompanhar esse movimento, em vez de fazer carreira como fóssil. 

Falo sobre todos nós e nossas relações sociais, mas, hoje, cabe especificar: tiranos, ditadores, golpistas e todas as vossas majestades que desconhecem o diálogo são os dinossauros do século 21. E nosso voto, o asteroide que pode eliminá-los.

03 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Amar é mediunidade

Não sei o que me faz escrever. Não sei quem murmura o assunto nos meus ouvidos. Todo dia é uma decisão. Eu me informo, eu leio as notícias, eu estudo os temas do momento, mas no fim escuto a minha intuição. Sou do sexto sentido. Amar é mediunidade: para mim, não há diferença.

Somos sensíveis para nos comunicar com os outros. Orquestro as palavras para despertar silêncios e corrigir omissões. Algo me toca e preciso colocar no papel. O tempo não prevalece. Não há fronteiras entre os mortos e os vivos. A inspiração vem de um eco do inconsciente coletivo. Apenas deixo entrar o sussurro do vento. Abro as cortinas dos olhos.

Na quarta-feira, resolvi falar sobre o meu medo de marquises, que guardo desde a tragédia das Lojas Arapuã, na ladeira da Doutor Flores: a cobertura veio abaixo enquanto o personagem-símbolo da rede, Arapinho, distribuía balas e chocolates para os clientes que circulavam naquela tarde de 6 de outubro de 1988. Nove pessoas morreram soterradas, sendo duas crianças.

Jamais me esqueci. Eu me encontrava no centro. O acidente mudou as regras de segurança urbana em Porto Alegre. O que me pôs a evocar, do nada, um fato de trinta e oito anos atrás, sem nenhum gancho aparente com a atualidade?

Nas minhas redes sociais, escolhi uma canção de Zé Ramalho como trilha da chamada para a coluna. Entre tantas melodias, foi a que senti necessidade de publicar. Mas nunca são só casualidades, existe uma sincronicidade secreta definindo nossas atitudes. Eu desconhecia os motivos que me levaram para a crônica e para a música até receber esta mensagem.

"Querido Carpinejar,

Foi com surpresa que recebi hoje, no grupo de WhatsApp da minha família, a tua coluna ?Medo de marquises?. Minha tia - que à época tinha apenas 28 anos - e minha prima, sua filha, de (é até difícil dizer) apenas 4 anos, estavam lá. Minha tia teria ido mostrar o Arapinho para minha prima.

Eu era muito pequena quando tudo aconteceu. A única lembrança que tenho é de meu pai chorando copiosamente ao telefone, no momento em que recebeu a notícia. Eu não entendi o que havia se passado. Não me explicaram, o que poderia até ser compreensível: uma tentativa de poupar uma criança de algo que lhe fugiria ao entendimento.

Ocorre que os anos se passaram e muito pouco eu ouvia falar sobre isso. O assombro diante dessa dor inominável acabou por gerar um silenciamento coletivo em minha família. Até mesmo meu pai, que era fortemente ligado a ela, evitava o assunto. Entendo que foi um movimento autoprotetivo da parte de todos, porém a consequência foi um apagamento da memória delas.

Recentemente, no caminho para o trabalho, tocou ?Avôhai?, do Zé Ramalho, enquanto eu via o sol nascer. Aquilo foi um soco no meu estômago. Lembrei de minha mãe contar que minha tia adorava essa música e que tinha colocado o nome do meu primo em homenagem à música (Juan Avohai). Juan morreu no ano anterior, em 87 (sim, ela havia perdido o filho no ano anterior).

Uma espécie de revolta me tomou: como uma família pôde ser dizimada assim? Minha tia era tão linda, tão única? A partir daí, algo passou a clamar dentro de mim: era a necessidade de senti-los, de sabê-los. Minha irmã uniu-se a mim e, desde então, temos tentado trazer de volta à tona a memória deles.

E foi em meio a isso que veio a tua coluna, como uma confirmação, uma sincronicidade, um sopro sobre a poeira do apagamento. E veio com a voz de Zé Ramalho também. Ele, que cantou ?Avôhai?.

Obrigada por isso. Procurarei, da forma que eu puder, honrá-los, porque sempre é tempo.

Carinhosamente,

Fernanda." 

CARPINEJAR

03 de Outubro de 2026
MARCELO RECH

Tudo pelo almoço grátis

Depois de acompanhar de perto eleições há 46 anos, me dei conta de que não entendo nada de aritmética primária. Deve ser por isso que não compreendo como muitos candidatos conseguirão, sem revelar o truque mágico, cumprir as promessas de não elevar impostos, reduzir voluntariamente receitas e aumentar despesas, tudo ao mesmo tempo.

Eu supunha que nem na Suíça seria recomendável engordar despesas e ceifar impostos simultaneamente. O que dizer então destes trópicos, onde a União caminha na borda do abismo fiscal e os Estados vivem uma penúria de dar dó? Na minha modesta compreensão, no Brasil de orçamentos públicos esgualepados só haveria duas formas de gastar mais sem contrapartida em mais impostos. A primeira seria uma insólita arrancada no crescimento econômico, uma hipótese que, diante da inércia sobre as causas do travamento, tem chance similar à de enriquecer com o jogo do tigrinho. 

A outra é colocar mais dívida na dívida, que, aliás, é o que vem ocorrendo. Como o governo gasta além da conta e deve cada vez mais, os juros ficam nas alturas, o que, por sua vez, represa o crescimento, em um círculo vicioso que só será quebrado quando houver consecutivos e robustos superávits fiscais.

À exceção de alguns poucos candidatos em andrajos nas pesquisas, ninguém arrisca falar em sacrifícios ou perda de benefícios e privilégios. Nada de novo. Sinceramente, a falta de sinceridade é compreensível. Desviar do assunto quando as candidaturas são cobradas sobre suas magias fiscais é uma demagogia aceita passivamente pela imensa maioria dos eleitores. Eleição após eleição, quer-se acreditar, no Brasil, que existe almoço grátis. O candidato que disser o contrário, bau-baus.

Como o eleitorado vai na linha do me engana que eu gosto, é sintomático que um singular governador a passar a navalha em ano eleitoral não seja político. Ocupante do Palácio Guanabara desde março, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Ricardo Couto de Castro, assumiu a função no vácuo criado pela renúncia do governador Cláudio Castro, da vacância do vice e do impedimento do presidente da Assembleia. 

Dedica-se, desde então, a cancelar contratos estapafúrdios, a fechar secretarias e a demitir funcionários fantasmas e milhares de comissionados inúteis. Com o freio na roubalheira e nos desperdícios, o governador interino pretende economizar R$ 5 bilhões até o fim do ano.

No primeiro semestre, a arrecadação de ICMS do Rio saltou 17,2%, de longe a melhor performance do país. O desembargador fez, sim, a mágica: cortou despesas e elevou receitas, combatendo principalmente a sonegação dos combustíveis. Sua sorte é que não precisa distribuir afagos e nem engabelar os eleitores. 

MARCELO RECH

03 de Outubro de 2026
PAULO GERMANO

O candidato ruim

Aceito ser governado por um idiota. A democracia me obriga a suportar esse risco - e, analisando a nossa história, convém reconhecer que ele existe. Aceito perder para quem considero pior. Aceito engolir quatro anos de decisões que me revoltam e aceito assistir a milhões de brasileiros comemorando exatamente o que eu lamento. Faz parte.

O que eu não aceito é entregar, junto com a derrota, o direito de tentar vencer da próxima vez. Disso eu não abro mão.

E esse é o motivo que me fará votar, no domingo, num candidato que considero ruim. Não vou fingir que os defeitos dele ficaram menores porque o adversário me parece pior. Mas existem defeitos que fazem parte da má política - demagogia, incompetência, irresponsabilidade, corrupção. E existem defeitos que destroem as condições que tornam a própria política possível. Essa diferença, para mim, é determinante.

Não saber perder é o pior dos defeitos. Porque quem aceita governar uma democracia aceita também ser demitido por ela. Não importa se você pensa que é ungido por Deus, se milhões de bajuladores o aplaudem, se o outro grupo que disputa o poder é um desastre. Você recebe a chave sabendo que a casa não é sua. E, se não for reeleito, entrega a chave para o próximo, enfia o rabinho entre as pernas e tchau.

Outra coisa: a maioria tem o direito de governar; não tem o direito de decidir quem merece direitos. Nenhum presidente escolhe qual família é família de verdade, que tipo de amor merece respeito, qual pronome você deveria usar, que religião é a mais correta. Aliás, um presidente pode entregar a própria vida a Nosso Senhor Jesus Cristo, claro, é uma escolha dele, mas não pode entregar o Brasil - porque talvez não seja a escolha de 200 milhões. Maioria manda nos rumos do país, não nos rumos da vida dos outros.

E não quero governante forte demais, pelo contrário: quero alguém fraco o bastante para não conseguir fazer tudo o que gostaria. É justamente para isso, para torná-lo mais fraco, que existem Congresso, Justiça, imprensa, oposição, órgãos de controle - todos podem ser imperfeitos, alguns até repugnantes, mas são a garantia de que o presidente não pode tudo. O mandatário é livre para discordar, recorrer, enfrentar, mas não para arrancar desses contrapesos o poder de contrariá-lo.

Quanto ao meu candidato, seus defeitos seguirão lá se ele vencer - e não esperem que eu me cale sobre eles. Não admito esse contrato maluco de lealdade total a quem recebe meu voto. Sinto pena de quem atravessa quatro anos violentando a própria consciência para defender cada desatino do sujeito que elegeu. É o contrário: se o ajudei a chegar lá, a dívida é dele comigo. A minha é com a próxima eleição. 

PAULO GERMANO

03 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

É hora de o povo falar nas urnas

Os brasileiros vão às urnas neste domingo sob o impacto de uma crise institucional e moral aguda que atinge a política e acerta em cheio a cúpula do Judiciário, o que torna o momento mais inquietante. O poder que deveria ser garantidor do equilíbrio e fiador do cumprimento da lei passou a ser a principal fonte de instabilidade. 

Quando nada mais parecia surpreender, uma sequência de decisões monocráticas de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) corrompeu a tal ponto a configuração do debate entre os candidatos à Presidência da República que seria realizado na quinta-feira à noite pela Rede Globo que acabou por inviabilizar o confronto às vésperas do primeiro turno. Foi um desserviço à democracia.

A culpa por o eleitor ver frustradas as expectativas de assistir ao embate de ideias e comparar as propostas dos postulantes ao mais importante cargo do país, no entanto, também é dos dois principais candidatos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Embora cada um de sua forma e em seu tempo, ambos fugiram do confronto. Lula oficializou a decisão um dia antes. 

Temia ser o alvo dos demais candidatos, de campos políticos opostos ao seu. Flávio desistiu a poucas horas do debate, tudo indica que pelo receio de ser fustigado por Renan Santos (Missão), incluído no encontro por uma decisão individual sem fundamento jurídico proferida pelo ministro do STF Gilmar Mendes.

A população já demonstrava cansaço da radicalização política. A sucessão de escândalos que envolvem altas figuras dos três poderes da República gera desencanto e revolta na base da sociedade. O episódio da quinta-feira, por certo, piora a sensação de mal-estar e de repulsa. Mas o desânimo não pode se transformar em abstenção e a raiva não deve ser convertida em voto guiado pela ojeriza. 

Neste momento, a responsabilidade do eleitor aumenta. É hora de uma profunda reflexão para escolhas cuidadosas e conscientes para cada um dos cargos em disputa - e de comparecer às seções eleitorais. O voto é o meio mais poderoso de expressão dos brasileiros.

A eleição para o Planalto tem ainda um aspecto de efeméride. Será a 10ª vez, após a redemocratização do país, que os brasileiros exercem o direito reconquistado de definir o presidente. Cabe ao próprio eleitor, como agente das transformações que espera para o país, valorizar o voto como instrumento de soberania popular e depositar nele a esperança de um futuro melhor.

A despeito de correções necessárias, a democracia brasileira é digna de orgulho. Em meio aos solavancos, as regras do jogo, ao cabo, se sobrepõem. No Executivo, o vencedor assume e governa. Os derrotados vão para a oposição. Reorganizam-se e se reapresentam como alternativa quatro anos depois. 

As eleições têm periodicidade regular, quando pode haver a continuidade ou a alternância de poder. Eis a beleza da democracia. Se um caminho traçado pelo eleitor não traz os resultados esperados, o novo pleito é a possibilidade de a maioria corrigir caminhos e de renovar seus representantes.

Nesse contexto, reforça-se a relevância das escolhas para o Congresso. São votos que pedem maior análise do eleitor devido ao desvirtuamento do papel do Legislativo na última década. A farra das emendas impositivas alterou a dinâmica política. Deputados e senadores ganharam mais peso na correlação de forças com o Executivo. Cabe ao eleitor buscar informações sobre os candidatos e analisá-las de maneira atenta, como forma de fazer escolhas lúcidas.

O voto para o Senado, pelas atribuições da Casa, adquire importância ainda maior em 2026. Neste domingo, cada eleitor poderá sufragar dois nomes. Senadores têm a prerrogativa de aprovar a indicação de ministros do STF e de impor punições previstas na Constituição em caso de condutas incompatíveis com o cargo . São tarefas que também exigem juízo e discernimento. 

O exame dos nomes designados pelo presidente da República precisa ser mais criterioso. A recuperação da confiança do STF passa pela despolitização dos membros da Corte. Eventuais penalizações de ministros não podem ter motivação ideológica. Devem ser baseadas em fatos e na lei.

A definição sobre quem estará no Palácio Piratini entre 2027 e 2030, pelo momento decisivo em que se encontra o Rio Grande do Sul, também requer exame apurado. Em um conjunto de oito reportagens publicadas nas últimas semanas, o Grupo RBS trouxe à discussão os grandes desafios do Estado e os possíveis caminhos para superá-los. 

Todo esse conteúdo de fôlego será reunido em um dossiê que, após a definição de todos os cargos em disputa, será entregue aos deputados estaduais e federais, aos senadores e ao governador ou à governadora eleitos pelos gaúchos. O propósito é contribuir para um plano de desenvolvimento do Estado que atravesse diferentes governos.

Este 4 de outubro é o momento de os brasileiros se expressarem, com a força invencível do voto, na defesa do fortalecimento da democracia. 

03 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Campanha presidencial termina de forma melancólica

Chegou ao fim uma das campanhas presidenciais mais dramáticas da história recente do Brasil. Os dois candidatos com possibilidade de chegar ao segundo turno ou até de vencer no primeiro são rejeitados por metade dos eleitores, de acordo com todas as pesquisas de intenção de voto. Quem ganhar terá de creditar a vitória à parcela do eleitorado que, por medo de um, votou no outro.

Esse país partido ao meio não foi capaz de produzir uma alternativa ao lulismo e ao bolsonarismo, duas correntes nascidas da adoração a uma personalidade e não aos princípios de um partido político.

As legendas, de um modo geral, vivem um processo de degeneração, com seus dirigentes mais preocupados em eleger bancadas numerosas para ganhar mais dinheiro dos fundos partidário e eleitoral, sem apresentar um projeto de país.

Faltou profundidade

O que mais se discutiu na campanha presidencial foram os escândalos nos quais os candidatos se envolveram e as intervenções indevidas do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral no processo. Isso explica a apatia do eleitor médio, aquele que não morre de paixão por Lula ou pela família Bolsonaro e que votará sem entusiasmo no que considera o menos pior.

Como as eleições de presidente, governador e senador catalisam as atenções, milhões de eleitores chegam a 4 de outubro sem saber em quem votar para deputado estadual e federal. São eleições relegadas a segundo plano, mas que deveriam merecer mais atenção, pela importância de eleger uma bancada ativa, comprometida com as questões que dizem respeito ao presente e ao futuro do Estado e do país.

Com pouco espaço no rádio e na TV, as campanhas de deputado estadual e federal se limitaram às redes sociais, aos wind banners espalhados por quem tem dinheiro (em geral os que disputam a reeleição). No rádio e na TV, a lembrança que fica é de um desfile de rostos dizendo seu nome, número e palavras vazias. E são esses que farão as leis, fiscalizarão o Executivo, discutirão orçamentos - e distribuirão emendas, porque acabar com essa aberração não está nos planos de ninguém. _

Postulantes ao governo do RS miram indecisos a poucas horas do primeiro turno

Candidatos que mais arrecadaram

A despeito do resultado das pesquisas, que mostram Luciano Zucco (PL) e Juliana Brizola (PDT) à frente, é com cautela que os candidatos ao governo do RS chegam para o primeiro turno. Cientes de que um quarto do eleitorado gaúcho ainda está indeciso, segundo a última pesquisa Quaest, Zucco e Juliana usarão as últimas horas antes da votação para campanha nas ruas da Região Metropolitana - onde fica a maior concentração de eleitores do Estado.

A mesma estratégia será adotada por Gabriel Souza (MDB) e Marcelo Maranata (PSDB), ainda esperançosos com a possibilidade de uma surpresa de última hora.

Leite foi escalado e percorrerá ruas de Porto Alegre neste sábado em um caminhão de som ao lado de Gabriel, assim como o prefeito Sebastião Melo.

Juliana e Edegar Pretto (PT), seu vice, fizeram ato na Esquina Democrática na sexta, e no sábado se dividem em duas carreatas pela Região Metropolitana. As duas mobilizações se encontram no Largo Zumbi dos Palmares, no fim do dia, para o encerramento da campanha.

A Capital também será palco para a campanha de Zucco, que ainda dará um pulo em Viamão no sábado. No fim da tarde, o candidato do PL comanda ato de encerramento da campanha no Parcão.

Maranata concentra apoiadores em carreatas que vão percorrer Porto Alegre e Guaíba neste sábado, mesmo roteiro escolhido para a sexta. _

Além das pesquisas, Luciano Zucco e Juliana Brizola lideram também o ranking dos candidatos ao governo do RS que mais receberam recursos para a campanha.

Zucco recebeu R$ 11,57 milhões do PL, do PP e do Podemos, além de pessoas físicas. Juliana captou R$ 11,51 milhões, quase tudo do PDT.

Confira a lista de quanto entrou nas contas dos candidatos ao governo e ao Senado. _

Luciano Zucco (PL) R$ 11.570.005,00

Juliana Brizola (PDT) R$ 11.512.400,00

Gabriel Souza (MDB) R$ 8.167.550,00

Marcelo Maranata (PSDB) R$ 2.255.000,00

Senado

Ubiratan Sanderson (PL) R$ 4.718.497,00

Paulo Pimenta (PT) R$ 4.709.770,77

Manuela d?Ávila (PSOL) R$ 4.580.199,16

Marcel van Hattem (Novo) R$ 4.381.069,35

Germano Rigotto (MDB) R$ 3.873.000,00

Frederico Antunes (PSD) R$ 2.994.271,60

Renato Jaguarão (Cidadania) R$ 102.000,00

Milton Cardoso (PSDB) R$ 24.914,09

POLÍTICA E PODER

03 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Ameaça, risco à segurança ou teoria da conspiração?

Em um cenário de tensão pré-eleitoral, o fechamento dos consulados dos Estados Unidos no Brasil alimenta teorias da conspiração sobre uma eventual interferência americana nas eleições brasileiras ou até uma possível intervenção.

Tudo isso é reforçado pelo contexto: guerra comercial em torno do tarifaço, a aproximação entre a família Bolsonaro e Donald Trump e informações, nos últimos dias, sobre um suposto financiamento do governo dos EUA a ações contra o Supremo Tribunal Federal (STF), que levaram a Advocacia-Geral da União (AGU) a acionar a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) para investigar o tema.

As poucas explicações dadas pela própria embaixada dos EUA, em Brasília, sobre as razões da medida amplificam teorias conspiratórias.

No entanto, esse tipo de atitude faz parte dos protocolos adotados pelo Departamento de Estado ao redor do mundo, especialmente quando representações americanas podem se tornar alvo de protestos ou ameaças. Na eleição de 2022, a embaixada americana emitiu alertas, recomendando atenção a manifestações, protestos e possíveis bloqueios de vias. Na ocasião, porém, a própria representação dizia esperar que a votação transcorresse de maneira relativamente tranquila.

O que ocorre agora é mais forte, um grau a mais na escala do protocolo de segurança adotado em representações no Exterior: a missão dos EUA suspendeu o atendimento presencial na embaixada em Brasília e nos consulados de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre, orientando inclusive que americanos que necessitem de assistência emergencial não se dirijam às instalações.

A decisão ocorreu após uma ameaça contra a embaixada, que o Departamento de Estado levou a sério. Nesses casos, os EUA costumam "pecar pelo excesso".

A suspensão também ocorre em um ambiente de segurança mais sensível em Brasília. Na quinta-feira, uma suspeita de bomba nas proximidades do STF mobilizou a Polícia Militar e o Esquadrão Antibombas. Um homem de 28 anos foi detido depois de arremessar uma mochila nas proximidades da Corte. Após a inspeção, a presença de explosivos foi descartada.

Cenário de tensões

Além de ponderação, nesse cenário de tensões, é preciso separar as coisas. Não havia, até sexta-feira, informações que permitissem ligar o fechamento das representações diplomáticas com uma eventual tentativa de interferir na eleição. Mas também seria ingênuo analisar a decisão como se os EUA fossem um espectador distante deste processo eleitoral.

Washington sempre foi um ator presente no ambiente político brasileiro. Neste ano, ainda mais, seja pelas disputas comerciais e diplomáticas, seja por relações familiares, seja pelas acusações e suspeitas de interferência. Isso aumenta a exposição simbólica das representações americanas: para grupos descontentes com a atuação dos EUA, uma embaixada ou um consulado pode funcionar como representação física da Casa Branca no Brasil.

Quanto maior o envolvimento, concreto, real ou percebido pela população ou grupos de interesse, dos Estados Unidos no debate político brasileiro, maior tende a ser a preocupação americana com a segurança de suas próprias instalações.

Por terem se tornado um ator mais visível nesta eleição, é natural que os americanos se comportem também como um potencial alvo das tensões. _

Solicitantes de visto foram avisados

Quem tinha entrevistas marcadas na Capital foi avisado sobre a suspensão dos serviços. O Consulado dos EUA em Porto Alegre afirmou à coluna que as instruções sobre reagendamento do serviço serão enviadas aos solicitantes. _

Depois do anúncio dos EUA, a Austrália informou que sua embaixada em Brasília também ficaria fechada por questões de segurança. O governo do Canadá atualizou seu alerta de viagem para o Brasil e incluiu informações sobre a segurança no país durante o período eleitoral. O Reino Unido desaconselhou as viagens não essenciais durante as eleições.

Influência, interferência ou intervenção?

É importante diferenciar influência, interferência e intervenção quando se fala sobre até onde um país pode tentar alterar decisões que deveriam pertencer autonomamente a outra nação. Os termos ganharam destaque a partir de rumores sobre eventuais ações dos EUA para influenciar a eleição do Brasil. _

Influência

É o nível mais normal das relações. Um país tenta moldar comportamentos de outro por meio de diplomacia, comércio, declarações públicas ou aproximação com determinados grupos. Um presidente estrangeiro declarar preferência política, por exemplo, é influência. Pode ser controverso ou pouco diplomático, mas não é interferência. Países sempre tentam se influenciar entre si. O Brasil, por estar na zona geográfica dos EUA, sempre sofreu algum nível de influência.

Interferência

É quando outro país ultrapassa a persuasão e atua deliberadamente dentro de um processo doméstico para alterar seu funcionamento, como uma eleição, por exemplo. Pode ocorrer por meio de financiamento clandestino de grupos políticos, campanhas de desinformação, operações de inteligência, ataques cibernéticos ou utilização secreta de recursos estatais para favorecer ou prejudicar determinado campo político. Não há comprovações, até o momento, de interferência americana. Mas a AGU pediu à PF e à PGR que investiguem possível uso de dinheiro público dos EUA no financiamento de organizações e grupos que operam em território brasileiro.

Intervenção

É quando ocorre coerção, ou seja, uso da força: obrigar outro Estado a modificar uma decisão que pertence à sua soberania.

Não precisa necessariamente haver tropas. Pressões econômicas ou políticas podem entrar nessa discussão. No caso dos EUA, seria intervenção se Donald Trump condicionasse explicitamente a retirada de tarifas ou sanções à adoção pelo Brasil de determinada decisão política interna.

O voto como instrumento

No RS, tivemos uma campanha ponderada, muito menos tensa do que em nível nacional, em que praticamente não foram debatidas ideias, em meio a disputas jurídicas e de ego no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e no Supremo Tribunal Federal (STF).

No Estado, o clima foi tranquilo, sem agressões ou outros tipos de violência. É esse o espírito que devemos perseguir até este domingo e no eventual segundo turno.

Fica, no entanto, o sentimento de que o eleitor merecia mais: um debate de ideias com propostas claras e concretas e menos cortes para as redes.

O Rio Grande do Sul tem desafios enormes em vários setores: continuidade de obras estruturais, reforço dos sistemas contra enchentes, melhorias na educação, valorização dos professores, apoio a produtores endividados, estratégias para qualificação de mão de obra, infraestrutura, inovação e cultura. Na segurança pública, os índices estão melhores, mas o feminicídio é uma chaga aberta na sociedade.

Há muito tempo, o RS perdeu força em Brasília. Por isso, uma recomendação ao eleitor: preste atenção não só em quem você vota para governador e presidente. Deputados federais e senadores definem alguns dos temas que mais dizem respeito às nossas vidas.

Entendo a descrença de muitos eleitores na política. Mas o voto é ainda o instrumento mais forte para mudar a realidade. _

INFORME ESPECIAL

sábado, 26 de setembro de 2026

Grande sertão: veredas, os primeiros 70 anos

Jaime Cimenti

Italo Calvino escreveu um livro intitulado Por que ler os clássicos e ensinou: por que eles nunca terminam, deixam marcas profundas na memória e se tornam inesquecíveis, são livros de descoberta e autoconhecimento, dão prazer e saber e funcionam como bússolas . Tudo isso e mais se aplica a Grande sertão: veredas , setentão lépido e faceiro, de 1956, de João Guimarães Rosa(1908-67) que foi publicado em edição especial da Companhia das Letras (544 p., R$ 209), com novo projeto gráfico , entrevista do autor e ensaio de Érico Melo sobre os rascunhos e a forma final do romance .

Clássico definitivo, recriador da língua portuguesa mesclando fala de jagunços com erudição latina e grega , pleno de imaginação poética sem limites, com oralidade sintética, universalidade no regional e poesia em prosa inigualável, a narrativa contínua traz Riobaldo, Diadorim (Reinaldo) , Hermógenes, Joca Ramiro , Zé Bebeto, Medeiro Vaz, Otacília, e Nhorinhá envoltos no bem e no mal, liberdade e destino, violência e vida, amor, identidade e a transformação do indivíduo e o sertão, que “é dentro da gente” .

Romance de aventura, história de amor, narrativa de formação e grande reflexão sobre bem, mal, destino e liberdade,tudo isso e mais o infinito que os leitores imaginarem , criarem, sentirem, duvidarem e filosofarem estão no livrão, no sertão, nas veredas , nas árvores, animais, pessoas, luzes, sombras, silêncios e sons , revelações e mistérios de ontem, hoje e sempre.

Depoimentos inéditos dos leitores ilustres Mia Couto, Alison Entrekin, Caetano W. Galindo, Eduardo Gianetti, Milton Hatoum, Bia Lessa, Ana Martins Marques, Geovani Martins, Amara Moira, Silviano Santiago, Heloísa Murgel Starling e Itamar Vieira Junior estão nesta edição de um dos maiores romances brasileiros e mundiais.

O homem que colocou o Brasil no divã

Eu o conheci como professor da memória e prometi guardar o cara que nunca deixou a admiração ceder à inveja É rápido e você não perde nada importante.

Zuenir Ventura morreu aos 95 anos, no Rio de Janeiro, após décadas dedicadas ao jornalismo e à literatura brasileira.

Acusamos o golpe da ausência de Luis Fernando Verissimo há um ano. Agora Zuenir Ventura, um dos maiores jornalistas de nossa história, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, acaba de nos dar adeus, aos 95 anos. Encontrava-se em sua residência, no Rio de Janeiro, e não resistiu a uma pneumonia na terça-feira (22).

Verissimo se encarregará de receber seu amigo no paraíso das enciclopédias. Eles passam a ser encantados, como vaticinava Guimarães Rosa, e afetivamente eternos para sua legião de leitores.

Corajoso, resoluto, convicto de reportagens empáticas, com o arco grisalho das sobrancelhas protegendo seus olhos fundos, Zuenir mexia nos vespeiros. Escancarou a exploração da Amazônia, com sua cobertura do caso Chico Mendes, na década de 1980, e os meandros da violência em Vigário Geral com o livro Cidade Partida, nos meses que se seguiram à chacina de 29 de agosto de 1993.

Não abdicou da simplicidade de sua caligrafia desenhada no papel. Filho de um pintor de paredes e de uma dona de casa, mais do que criar sua biblioteca do nada, tornou-se a própria biblioteca. Foi office boy, faxineiro e balconista antes de conseguir cursar Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro, numa graduação que contava com Manuel Bandeira e Alceu Amoroso Lima entre seus docentes.

Nunca parou de escrever sua coluna, tendo a encomenda como musa inspiradora. Nunca deixou de engraxar as unhas na tinta do impresso e nos conceder a luz do entendimento, numa longevidade sábia. Colaborou com a Tribuna da Imprensa, o Correio da Manhã, o Jornal do Brasil, O Globo e as revistas O Cruzeiro, Fatos e Fotos, Visão, Veja e IstoÉ.

O jornalismo e a literatura entrelaçavam as mãos como irmãos gêmeos da verdade. Apesar dos temas difíceis que abordava, o mestre Zu era um otimista incorrigível. Seu riso mineiro discreto melhorava o silêncio em qualquer ambiente.

Os autores que cruzavam seu caminho se transformavam em personagens, num feitiço às avessas. Na obra Minhas Histórias dos Outros, ele celebra a saudade, resgatando fatos, anedotas e curiosidades sobre personalidades com as quais conviveu, como Glauber Rocha e Carlos Drummond de Andrade.

Zuenir psicanalisou o Brasil, colocou o país no divã para encarar suas contradições. Sua tarefa se centrou em nos ajudar a perdoar, mas sem apagar o pior.

No clássico 1968: O Ano que Não Terminou, sobre a ditadura militar, ele afirma que o nosso passado não deveria nos servir de exemplo, e sim de lição. Para não mais repeti-lo. Ele, inclusive, teve a sua solar liberdade confiscada pelas trevas do AI-5, permanecendo preso durante três meses.

Em Mal Secreto: Inveja, põe-se a desentocar nossa síndrome de caranguejo, de puxar para baixo quem faz sucesso: “A inveja é um vírus que se caracteriza pela ausência de sintomas aparentes. O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde”. 

Eu chamei Zuenir para ser professor da graduação de Formação de Escritores da Unisinos. Ficou responsável pela disciplina de memória. Suas lembranças cintilavam como testemunhos. Ele havia vivido o século XX por dentro dos principais acontecimentos culturais, da Bossa Nova ao Cinema Novo.

Ao se despedir de mim, ele costumava soltar um paradoxo: “Não esqueça de lembrar de mim”. Eu prometo que jamais o esquecerei. Zuenir: quando a inveja perdeu para a admiração.

26 de Setembro de 2026
MARCELO RECH

Cobiça sem fim

É bom ter um pé atrás sempre que se ouve que determinada categoria ou função precisa ser bem remunerada para evitar que o ocupante do cargo se corrompa. O argumento soa como ofensa a quem não desfruta de contracheques rechonchudos - a bem da verdade, a imensa maioria dos brasileiros, que, segundo essa falácia, estaria fadada à corrupção porque ganha mal.

Se há alguma coisa a aprender do escândalo do Master, é que corrupção não distingue contas bancárias. O propinoduto de Daniel Vorcaro foi pródigo em abastecer membros de algumas das categorias de servidores mais bem pagas do Brasil - de políticos a funcionários do Banco Central - e de representantes da elite econômica e social, como gestores financeiros e familiares de ministros do STF.

Vida modesta não é dobradiça para os encantos de um banqueiro armado com Pix sem limites nas cifras e na ética. A cobiça infinita é que é. Alexandre de Moraes, por exemplo, tinha muito mais que qualquer mortal poderia sonhar: um gabinete do tamanho de um apartamento, estabilidade no bom emprego, um séquito de assessores a servir-lhe, prestígio entre os pares, poder que não acaba mais e uma conta bancária já alentada por direitos autorais de livros de direito. De que mais precisava, levando-se em conta que há muito já não viajava em classe econômica e nem se hospedava em hotéis três estrelas?

A cobiça desmesurada atrai favores suspeitos porque ela diz para o servidor que ele sempre pode ter mais. Não basta voar pelo mundo em classe executiva. O sujeito passa a evitar filas em aeroportos e, como Moraes e Flávio Bolsonaro, viajar no jatinho de amigos complicados. Não acaba nunca. Um relógio que mostra as horas não é suficiente. O ministro precisa ostentar um de grife avaliado em R$ 720 mil. Para que e por quê? Uma festa com Wesley Safadão, bancado por uma advogada com interesses no STF, no aniversário da filha de Kassio Nunes Marques não dispara o desconfiômetro?

Quando a fortuna é obtida dentro da lei, bom proveito. O problema é quando um funcionário público quer usufruir de um mundo que não é dele, como ocorreu com tantos seduzidos por Daniel Vorcaro, que torrou biografias públicas com a assustadora facilidade de quem serve um Macallan 25 anos.

Para acabar com a corrupção em larga escala, é preciso prevenção e punição, mas sobretudo consciência individual sobre o certo e o errado. Há incontáveis casos diários de servidores humildes e empreendedores que, mesmo diante de uma oportunidade de ganho fácil, não se deixam levar pelo canto da sereia. Eles colocam a formação familiar, os valores espirituais, a ética e, não menos importante, a paz de dormir sem sobressaltos acima de tudo. E isso não tem Master que pague. _

MARCELO RECH

26 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS

OPINIÃO RBS

O que resta dizer ao eleitor

A pesquisa Quaest divulgada na quinta-feira sobre a eleição para o Palácio Piratini indica que o percentual de indecisos ainda é alto. Mesmo quando são estimulados a apontar um nome diante da lista de candidatos, um quarto dos entrevistados ainda não sabe em quem votará no primeiro turno, no domingo, dia 4 de outubro. É um contingente significativo, à espera de ser convencido sobre qual postulante ao governo gaúcho merece a sua confiança para liderar o Rio Grande do Sul pelos próximos quatro anos.

É natural que, com a aproximação do pleito, os eleitores prestem mais atenção ao que as candidaturas propõem para os temas que os afligem. Ganham maior peso os debates na reta final da campanha, como o realizado na sexta-feira pela Rádio Gaúcha. O encontro reuniu Gabriel Souza (MDB), Juliana Brizola (PDT), Luciano Zucco (PL) e Marcelo Maranata (PSDB), postulantes cujos partidos têm representantes no Congresso. Debates são a oportunidade para que os candidatos exponham suas ideias e promovam o embate direto de propostas, para que os votantes possam compará-las e decidir o número a ser apertado na urna.

Uma das formas de o Grupo RBS contribuir para uma escolha consciente dos gaúchos é abrir amplos espaços para a discussão e a apresentação de projetos. A RBS TV realiza debate na terça-feira, às 22h50min, e entre segunda-feira e quinta, os quatro aspirantes ao Piratini serão sabatinados na Rádio Gaúcha, no espaço do Atualidade, das 9h às 10h.

O debate de sexta-feira, com maior aprofundamento dos temas em relação ao realizado no dia 6 de agosto, também pela Gaúcha, deve ser enaltecido pela civilidade, a despeito de momentos de confrontação mais incisiva, o que é próprio de uma democracia vibrante. É usual que os candidatos critiquem adversários e apontem contradições dos oponentes. O embate eleitoral, em toda a campanha até aqui, manteve-se em regra em bom nível. A troca de farpas permaneceu centrada no eixo político, sem acusações de cunho pessoal ou de desvios éticos. É bem diferente, diga-se, do que se nota na corrida ao Planalto. Os dois principais concorrentes à Presidência, aliás, nem sequer se dignaram a comparecer a debates, um desrespeito aos eleitores.

O reconhecimento ao tom respeitoso, no entanto, não pode encobrir uma preocupação central. Ainda faltam respostas factíveis e didáticas dos candidatos sobre como enfrentar os principais desafios do Estado, como a situação das finanças gaúchas a partir de 2027. O debate de sexta-feira priorizou assuntos como quadro fiscal, saúde, infraestrutura, concessões e feminicídios. Parte considerável das respostas tangenciou as questões, foi pelo caminho das generalidades, das ideias inexequíveis e de objetivos meritórios, mas que soam como promessas vagas demais.

Depositar esperanças excessivas em recursos federais é temerário. O próximo presidente também será forçado a um ajuste duro nas contas. O orçamento da União será alvo de disputa renhida. É relevante ter capacidade de articulação com Brasília, mas o que os eleitores querem saber é o que o futuro governador ou governadora fará com a força da sua caneta. Aguarda-se que os concorrentes ao Piratini aproveitem melhor as oportunidades que terão - como no debate da RBS TV e nas sabatinas da Gaúcha - para serem mais claros com os gaúchos. 

26 de Setembro de 2026
POLÍTICA E PODER

Medidas para acabar com as bets chegam na hora errada

Nasceu prematura a medida provisória em que o presidente Lula tenta acabar com as bets no Brasil. É preciso dizer que a providência é eleitoreira, apesar de necessária. Por trás da precipitação está a proximidade de uma eleição em que os candidatos precisam conquistar o voto das mulheres. São elas que clamam por uma barreira aos jogos que sugam parte importante do orçamento familiar.

Lula identificou nas bets o inimigo que precisa ser combatido a qualquer custo, até porque se tornou um dos principais temas da campanha. O custo deveria ter sido levado em conta antes de qualquer medida drástica.

Não há dúvida de que os jogos na palma da mão estão na raiz do endividamento das famílias. Causam dependência, depressão, empobrecimento. O problema é que, quando regulamentou as bets, o governo exigiu que as empresas se enquadrassem para operar e agora prepara um corte radical, que coloca no mesmo balaio as legalizadas e as ilegais.

Organização do setor

O governo regulamentou os jogos com o argumento de que as pessoas apostavam de qualquer jeito em plataformas instaladas fora do país, que não pagavam impostos. A preocupação era organizar um setor que havia sido liberado no final do governo Michel Temer. Pesou na decisão do governo Lula a necessidade de aumentar a receita, mas o Congresso afrouxou as medidas mais duras, a começar pelo imposto, que seria de 18% e os parlamentares reduziram para 12%.

Há meses os comerciantes, os bancos e uma parcela significativa da população alertam para a epidemia de vício em jogos, mas só agora, às vésperas da eleição, Lula resolveu agir.

Como as empresas pagaram valores significativos ao governo a título de outorga para se legalizar, a devolução desse dinheiro será cobrada. De onde sairá? Dos cofres públicos. Pode-se dizer que o custo da existência das bets é maior, mas resta uma dúvida. Será possível acabar com o jogo ilegal, num país que nunca conseguiu impedir o jogo do bicho? _

A proposta de orçamento de 2027 terá de ser reescrita para retirar a previsão de receita do imposto sobre os jogos. O mercado de bets movimentou R$ 410,85 bilhões no primeiro semestre de 2026 e arrecadou R$ 8,75 bilhões em impostos federais até julho.

Flávio tenta atribuir a Lula a liberação das apostas

Se o presidente Lula (PT) assinou a medida provisória para acabar com as bets no Brasil de olho na eleição, cujo primeiro turno será realizado em nove dias, a campanha do oponente Flávio Bolsonaro (PL) também aproveita a situação para tentar atrair pontos eleitorais. Minutos antes do anúncio do governo, o senador divulgou vídeo nas redes sociais em que chama a medida de "eleitoreira" e Lula de "oportunista".

No vídeo e também em peças da campanha em rádio e televisão, o candidato do PL tenta atribuir ao presidente a autoria da liberação das bets no Brasil, dizendo que "Lula é o pai do tigrinho".

- Podemos dizer que Lula é o pai do tigrinho - disse Flávio, no vídeo que antecedeu o anúncio da medida provisória.

Foi Michel Temer, entretanto, quem sancionou a lei 13.756/2018 que criou o sistema de apostas de quota fixa (quando o apostador já sabe quanto vai receber se acertar o palpite) no Brasil, nos últimos dias de mandato, permitindo a operação das casas de apostas esportivas. A legislação estabeleceu prazo de dois anos, prorrogável por mais dois, para que o Ministério da Fazenda regulamentasse a atividade das empresas, o que não foi feito por Jair Bolsonaro durante o seu governo.

Até a regulamentação, em dezembro de 2023, as bets operaram no Brasil sem fiscalização e sem pagar impostos. A partir de então, as casas de apostas online passaram a operar em um mercado registrado, com diretrizes e regras de tributação, mediante autorização do Ministério da Fazenda com pagamento de outorga ao governo. _

Debate expõe excesso de dependência de recursos federais

Depois de duas horas de debate na Rádio Gaúcha, restou a impressão de que as promessas dos candidatos só serão cumpridas se o governo federal aportar mais dinheiro no Estado. Afora a incerta prorrogação do Funrigs, que significa suspensão do pagamento da dívida por mais um ano, a ideia de criação de um fundo constitucional para o desenvolvimento do Sul e do Sudeste é uma miragem.

Nada disso se resolve automaticamente com diálogo e articulação em Brasília, com o Congresso ou com outros governadores. Quem for eleito terá de governar tendo como referência um orçamento apertado e deficitário.

É preciso levar em conta que o presidente que se eleger neste ano terá de promover um ajuste fiscal rigoroso, sob pena de não conseguir reduzir os juros, questão que impacta toda a sociedade, especialmente no setor produtivo.

Como todos os candidatos se comprometem a não aumentar impostos, resta aumentar a receita pelo crescimento econômico, sonho de consumo de qualquer cidadão. Só que isso não depende da vontade do governo. Ou pode ser freado por falta de investimentos em infraestrutura. Como crescer sem ter estradas de qualidade, ferrovias e hidrovias?

Aqui entra outro tema que os candidatos abordam de forma superficial ou demagógica: as concessões de rodovias. Sem dinheiro no orçamento para conservar as rodovias estaduais e muito menos para fazer as obras necessárias, a opção seria recorrer às concessões, defendidas por Gabriel Souza na condição de candidato do governo. Luciano Zucco e Juliana Brizola são a favor, mas não apresentam um modelo viável.

Fila do SUS

Outra promessa mal explicada é a de zerar a fila do SUS. Funciona aos ouvidos dos eleitores, mas falta explicar como. O dinheiro disponível não é suficiente e boa parte da solução vem do Ministério da Saúde, que já tem programas em andamento, mas não dá conta da demanda. Corrigir a tabela do SUS também depende do governo federal e está atrelada às dificuldades orçamentárias da União. _

O que foi mais repetido pelos candidatos ao Piratini

Assim como no primeiro debate da Rádio Gaúcha, a saúde foi tema central dos candidatos ao governo do Estado no segundo enfrentamento, na sexta-feira. Os discursos estão alinhados, em parte, com um dos principais temores dos gaúchos, segundo revelado pela última pesquisa Quaest: 25% dos eleitores gaúchos veem a saúde como o principal problema do RS. Outros 25% entendem que são as enchentes - tema que passou longe dos quatro concorrentes.

Termos como "hospitais", "fila", "SUS gaúcho" e "saúde" foram repetidos pelos quatro candidatos entre as 12.865 palavras proferidas ao longo de uma hora e meia do debate. Com auxílio de inteligência artificial, sob revisão de jornalistas, a coluna elencou as expressões mais ditas pelos postulantes.

Gabriel Souza (MDB), por exemplo, falou "Estado" 35 vezes, expressão que também aparece no topo das listas de Juliana Brizola (PDT), Luciano Zucco (PL) e Marcelo Maranata (PSDB). Juliana e Maranata focaram o discurso nas "pessoas". Como no primeiro debate, Maranata falou diversas vezes sobre a trajetória como "prefeito" e em ser o único com experiência de Executivo municipal.

Zucco falou oito vezes a palavra "concessão", além de sete citações a "bloco", quatro vezes "ferrovia" e quatro vezes "apontamento", referindo-se aos questionamentos do TCE à proposta do bloco 2, cuja gestão o governo de Eduardo Leite tentou entregar à iniciativa privada. _

POLÍTICA E PODER

Temas fundamentais foram ignorados

Nos dias que antecederam o segundo debate da Rádio Gaúcha neste primeiro turno, o RS chegou a seis mortes em decorrência dos temporais. A chuvarada elevou o nível dos rios, provocou alertas da Defesa Civil e obrigou 170 pessoas a deixarem suas casas diante do risco de rompimento de barragem em São Marcos. Estamos às vésperas de um El Niño vitaminado e, pouco mais de dois anos atrás, vivemos a maior tragédia climática da história do Estado.

Ainda assim, ambiente, adaptação climática e contenção de cheias praticamente não apareceram no duelo de sexta-feira.

Também não faltavam razões para falar dos desafios do agronegócio.Nos últimos cinco anos, o Rio Grande do Sul deixou de colher 48,6 milhões de toneladas de grãos em razão de intempéries, sobretudo estiagens. Segundo levantamento da Farsul, R$ 126,3 bilhões deixaram de ser gerados diretamente.

O produtor rural está endividado e precisa conviver com uma atividade cada vez mais vulnerável aos extremos climáticos. Mesmo assim, o agronegócio não mereceu, por parte dos candidatos, atenção no duelo da Gaúcha.

Essencial para o desenvolvimento de qualquer sociedade, a educação também foi ignorada. Ampliar vagas na educação infantil, melhorar os indicadores de alfabetização, aumentar o acesso ao ensino em tempo integral e fortalecer o ensino profissionalizante são desafios que estarão sobre a mesa de quem assumir o Piratini em janeiro.

Nada disso apareceu.

Segurança pública também não foi discutida de forma abrangente - exceção à resposta provocada pela colega Kelly Matos sobre violência contra a mulher.

E pouco se falou sobre indústria, setor que enfrenta dificuldades para encontrar mão de obra qualificada, segundo pesquisa da Fiergs. A escassez já restringe a capacidade de ampliar a produção. É um problema que conecta educação, produtividade, crescimento econômico e retenção de talentos.

Inovação, outro caminho fundamental para aumentar a competitividade do Estado, também passou ao largo.

Não há desenvolvimento econômico sem infraestrutura, outro grande tema ausente. O sucateamento da malha ferroviária gaúcha dificulta e encarece o escoamento da produção, como mostrou reportagem de Mathias Boni na série do Grupo RBS sobre os desafios do Estado. Falou-se de rodovias, mas nada sobre ferrovias, portos, aeroportos, logística e infraestrutura, que deveriam estar no centro de qualquer projeto que pretenda discutir o Rio Grande do Sul das próximas décadas.

E, novamente, a exemplo do primeiro debate da Gaúcha, nada sobre cultura.

O encontro acabou concentrado principalmente em três grandes assuntos: saúde, sobretudo as filas de espera do SUS; concessões de serviços básicos e infraestrutura concedida, como energia e pedágios; e contas públicas, com destaque para a dívida do Estado. Mas é lamentável que temas fundamentais para o desenvolvimento tenham passado ao largo de quase duas horas de programa.

A saudar, foi um encontro um pouco mais profundo do que o primeiro, com mais propostas, em um ambiente de relativa cordialidade. _

Advocacia pública

Ao comemorar os 60 anos, a Associação dos Procuradores do Estado do RS (Apergs) está lançando um livro que resgata a história da instituição.

A publicação reúne fatos, personagens e bastidores que marcaram a consolidação da advocacia pública no RS. Intitulada Apergs - Memória, História e Inovação, traz documentos, fotografias e depoimentos. Entre os fatos, está a consolidação da carreira e da própria Procuradoria-Geral do Estado (PGE).

- A advocacia pública hoje tem um papel que vai muito além da representação judicial: está na construção de soluções jurídicas, na segurança dos investimentos, na proteção do patrimônio público e na viabilização de políticas que impactam diretamente a vida dos gaúchos - destaca a presidente Patrícia Bernardi Dall?Acqua. _

Quem irá ocupar o cargo na ONU

Dos sete candidatos para substituir António Guterres na Secretaria-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), quatro são mulheres. Aliás, há grande chance de o cargo ser ocupado por uma mulher pela primeira vez. A terceira votação secreta informal realizada pelo Conselho de Segurança apontou duas candidatas preferidas: Rebeca Grynspan e Carolyn Rodrigues Birkett. _

O Sul é a região com os maiores índices de consumo frequente de álcool e cigarro, além de liderar a ingestão de alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas. As informações fazem parte de uma pesquisa recente do A.C.Camargo Cancer Center com o instituto Nexus.

INFORME ESPECIAL 

domingo, 20 de setembro de 2026

19/09/2026 - 05h30min
Fabrício Carpinejar

Cair sete vezes, levantar oito: o ouro que pode reconstruir o Sakae's

Aquele endereço acompanhou quase toda a minha vida; agora, quero vê-lo renascer das cinzas pelas mãos de quem também guarda essa história. É rápido e você não perde nada importante. O restaurante era um ano mais novo do que eu – o restaurante japonês mais antigo de Porto Alegre, um dos mais antigos do país.

Aquele endereço – número 690 da rua Castro Alves – acompanhou diferentes fases da minha vida, de menino a adolescente, de adolescente a homem feito. Fui filho, fui marido, fui pai em suas mesas. Decorei degrau por degrau da escada para o segundo piso. As cortinas, as janelas coloridas, o vaivém dos garçons.

A proprietária Sakae Suzuki, hoje com 87 anos, a idade da minha mãe, abriu o Restaurante Sakae’s em 1973, quando ninguém tinha o hábito de comer sushi na capital. Seu pioneirismo nos ensinou a usar o hashi.

Tratava-se de um negócio familiar, mas, pela sua longevidade, transformou-se em um patrimônio da nossa cultura gastronômica.

Na tarde de terça-feira (15), por causas ainda desconhecidas, o Sakae’s acabou destruído por um incêndio. O incidente não deixou feridos, porém acarretou danos materiais que reduziram a cinzas o sonho de várias gerações.

“Vamos reerguer esse cantinho do Japão em Porto Alegre”: família do Sakae’s busca reconstruir restaurante após incêndio; veja como ficou  “Vamos reerguer esse cantinho do Japão em Porto Alegre”: família do Sakae’s busca reconstruir restaurante após incêndio; veja como ficou

O expediente não havia iniciado. Os funcionários se preparavam para o atendimento no turno da noite, previsto para as 19h.

Como o imóvel possuía boa parte de sua estrutura em madeira, o fogo se alastrou com voracidade, impedindo que os bombeiros controlassem as chamas em tempo hábil. Não arderam apenas o telhado, o interior e os móveis. Ardeu o legado irrecuperável de um lar. Todo objeto trazia uma história desprovida de cópias.

Praticamente tudo o que se encontrava dentro foi perdido. Salvaram-se algumas relíquias, recolhidas no desespero. Desapareceram os únicos registros do avô, as fotos nas paredes, as louças raras e a prataria.

O ponto exibia o status de uma embaixada japonesa informal. Fazia dueto, simbolicamente, com o Recanto Oriental do Parque da Redenção, caracterizado por pontes de pedra, bancos de jardim, um pequeno lago e uma estátua de Buda.

Sakae Suzuki veio ao Brasil ao lado do marido, com o qual teve três filhos. Sem falar português, ela se comunicava pelos sabores, pelas suas receitas ancestrais.

O comércio não contava com seguro. Diante da dimensão da avaria, a família criou uma vaquinha online para arrecadar recursos e tentar reconstruir o estabelecimento. A soma almejada é de R$ 800 mil. Até o momento, angariou-se 10% do valor.

Resta-nos buscar inspiração no kintsugi, a arte japonesa de reparar a cerâmica quebrada sem esconder suas cicatrizes, realçando-as com ouro. Cada contribuição será um pouco dessa liga: o ouro da empatia.

Existe um provérbio japonês sobre a resiliência: “nana korobi ya oki” – “cair sete vezes, levantar-se oito”. Perto dos noventa anos, Sakae Suzuki terá de recomeçar pela oitava vez. Mas algo mudou: ela também se tornou gaúcha.

Não está mais sozinha. Muitas mãos agradecidas irão reerguê-la.