sábado, 10 de outubro de 2026

07/10/2026 - 09h00min
J. J. Camargo

Quando o silêncio é um idioma

O contraste entre a agitação dos vivos e a serenidade de quem parte é um tema desafiador para o médico. "As palavras podem mentir, mas o silêncio guarda a verdade." (Sêneca)

Fui chamado para ver um paciente antigo. Quase não o reconheci, tão emagrecido estava. Ao lado dele, a filha descrevia a irritação do pai com as visitas: parentes bem-intencionados que chegavam munidos de anedotas e barulho, tentando desesperadamente "distraí-lo" da própria finitude. Mal sabiam eles que, para quem encara o fim, a distração é uma ofensa.

Quando lhe perguntei como poderia ser útil, ele não pediu uma nova terapia ou uma renovação de esperança. Pediu para compartilhar a proximidade física como um parceiro que no passado o ajudara num momento de medo e dor. Repartir a presença já lhe bastava: "Tome um chimarrão comigo e não se importe se eu decidir ficar quieto".

Sentamo-nos. O amargo da erva e o calor da cuia serviram de âncora para um tempo que já não tinha pressa. Ali, o silêncio não era ausência de assunto; era a densidade de uma presença. Naquela quietude, ele não estava sozinho; ele estava, talvez pela primeira vez no dia, acompanhado de si mesmo.

Após um longo tempo emudecido, ele revelou a origem de sua maior tristeza: a perda recente de um velho amigo. Não o descreveu pelas conversas que tiveram, mas pela qualidade do vazio que dividiam. 

"Foi a pessoa com quem mais dividi silêncios na vida", disse ele. "Ele ter morrido antes de mim foi meu maior azar, porque fiquei entregue aos barulhentos. São pessoas boas, que querem me animar, mas não entendem que é difícil rir no presente, quando não há do que rir no futuro".

Para quem encara o fim, a distração é uma ofensa.

Essa frase me derrubou, porque em geral acreditamos numa falácia: o diálogo pressupõe o uso de palavras, ignorando que o silêncio pode ser mais eloquente.

Muitas vezes, em condições de avassaladora tristeza seremos lembrados não pelo que dissemos, mas pelo que ouvimos em constrito silêncio. No leito da terminalidade, o silêncio é o oxigênio da alma. É o espaço onde a vida decanta o que valeu a pena e os sentidos encontram lugar e relembram o que foram ou deveriam ter sido.

Nesta situação, aqueles que amam e não suportam o silêncio do outro, na verdade, estão fugindo do próprio vazio. Tentam preencher o quarto com palavras inúteis para não ouvir o que o silêncio do doente grita: a aceitação da iminência da morte.

Aquele paciente me ensinou que a verdadeira amizade — e talvez a medicina mais profunda — se mede pela capacidade de estar junto sem a obrigação de impressionar. O amigo que se fora levara consigo a compreensão de que o silêncio é um idioma.

Terminamos o chimarrão. Saí daquele quarto convencido de que a alma, às vezes, só precisa de alguém que aceite o convite para, simplesmente, não dizer nada. O contraste entre a agitação dos vivos e a serenidade de quem parte é um tema desafiador para o médico que tenha a noção do seu papel na antessala da morte, e precisa ter assimilado esse papel, se quiser ser útil.

Afinal, todos nós precisamos aprender, mais cedo ou mais tarde, que tomar um chimarrão em silêncio pode ser a forma mais eloquente de dizer: "Estou aqui, me alcance a cuia!".

 


02/10/2026 - 14h37min
Martha Medeiros

Quem se acha superior aos demais não passa de um dinossauro 

Nosso saldo bancário ou posição no organograma não deveria fazer diferença. Braquiossauros. Velociraptors. Pterodáctilos. Hierárquicos. Sim, incluiria os hierárquicos nesta turma. Quem se acha superior aos demais e usa o poder para obter vantagens não passa de um dinossauro também.

A sociedade é ordenada por cargos e funções. Pessoas contratam outras para trabalhar com elas ou trabalhar para elas. A despeito da sutil diferença entre as duas preposições, vale a máxima: eu pago, você obedece.

Sempre tive dificuldade com essa concepção de mundo. Era uma pirralha e não entendia nem mesmo a razão de ter que abaixar a cabeça diante de pai e mãe. Muitas vezes, depois de ouvir um sermão, tentei me defender, mas fui interrompida com um “não me responda”. Ou era calada com a frase “Criança não tem querer”. 

Eu achava injusto colocar a situação nesses termos, mas nunca promovi nenhuma rebelião infantil. Ficava quieta. Acho um absurdo que hoje as crianças mandem e os pais obedeçam. Sempre respeitei meus pais, como respeitei meus professores e sigo respeitando a todos, mas não pela hierarquia, que para mim é um conceito obsoleto, e sim como um tributo a quem sabe mais do que eu.

E todos sempre saberão alguma coisa que eu não sei. Um Papa sendo operado por um cardiologista: quem é que merece ter as mãos beijadas na sala de cirurgia? Um milionário cujo carro quebra na estrada: qual o valor do mecânico que veio em seu socorro? Uma celebridade que acaba de dar à luz e tem baixa produção de leite: VIP não seria a mulher que amamentará o bebê em seu lugar?

É a dinâmica da vida. Precisamos uns dos outros, e nosso saldo bancário ou posição no organograma não deveria fazer diferença.

Ninguém é melhor que ninguém, apenas algumas têm mais dinheiro. Que entre logo em extinção aquele que circula de nariz em pé, achando que vale mais que o porteiro que lhe abre a porta ou que o garçom que lhe serve o vinho. Se pudesse observar a si mesmo à distância, desdenhando de quem lhe atende, teria vergonha da própria canastrice. O mundo avançou, se unificou, e é nosso dever acompanhar esse movimento, em vez de fazer carreira como fóssil. 

Falo sobre todos nós e nossas relações sociais, mas, hoje, cabe especificar: tiranos, ditadores, golpistas e todas as vossas majestades que desconhecem o diálogo são os dinossauros do século 21. E nosso voto, o asteroide que pode eliminá-los.


09/10/2026 - 14h58min
Martha Medeiros

O dia que o Brasil rachou

O precipício se abriu devido à ruptura do que é moralmente aceitável. 

Irmandade era aquilo. Lula disputava com Collor, com Brizola, com Fernando Henrique, com José Serra, perdia, ganhava, e o povo sempre esperando mais, equilibrando-se entre dias melhores e dias piores, a política decepcionando como era praxe. Mas ninguém jurava o outro de morte e todos gostavam de Chico Buarque.

Até que amanheceu o 17 de abril de 2016, e durante a transmissão do julgamento do impeachment da Dilma, um deputado até então desconhecido fez uma homenagem a um torturador, e não a qualquer um, e sim àquele que supliciou a presidente, que foi obrigada a escutar essa afronta presencialmente. Ali foi cruzada uma linha civilizatória.

Fosse um deputado com algum verniz, teria pedido desculpas no dia seguinte, alegado um excesso verbal no calor da hora, afinal, já tinha cumprido seu objetivo, ganhara os holofotes e as manchetes, não era mais um desconhecido. Em vez disso, ele fez de suas blasfêmias o símbolo de uma nova era e recebeu o apoio da metade da população, que logo o elegeria para o cargo máximo do Executivo.

Os analistas políticos acharam por bem divulgar a rachadura como sendo entre a esquerda e a direita, assim ficava mais fácil escrever editoriais e cada eleitor reconheceria o seu lado. Uma leviandade. A questão era – e é – mais profunda e mais incômoda. Tem nada a ver com economia em um canto do ringue, pautas sociais no outro. Tudo isso pode coexistir. 

O precipício se abriu devido à ruptura do que é moralmente aceitável, a tal linha civilizatória que nos separa da barbárie. Ao rompê-la, destranca-se a porta que conduz ao caos. Deixa de existir acordo de cavalheiros, compostura básica, respeito constitucional. A nação fica fraturada e refém de bandidos.

A tortura é a falência da condição humana. Já lemos livros a respeito, vimos cenas no cinema, escutamos os depoimentos das vítimas, e o horror embrulha o estômago: só o que se quer é fugir do assunto.

No rol dos crimes hediondos, matar fica em segundo lugar. Provocar dor física dilacerante em outro ser humano, sem chance de defesa, é um ato animalesco que difere a besta do homem.

Eu seria louca se achasse que metade dos brasileiros relativiza a tortura. É óbvio que não. Mas somos seres psicológicos, manipuláveis, levados a sublimar. A ver coragem onde há covardia. A ver heroísmo onde há vileza.

Naquele fatídico dia, parte do Brasil fez uma opção funesta – fingir que aquilo não estava acontecendo dentro do Congresso Nacional. E assim chegamos ao hoje, em que fazemos de conta que estamos passando apenas por uma trivial briga de torcidas. Somos todos, essencialmente, pessoas boas. Porém, alguns tão “bons” que preferiram, diante daquele perigoso precedente, ignorar o que viram.

10 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Plantação de fantasias

Você já desencavou uma moeda antiga? Algum dobrão com a efígie da República? 1, 5, 10, 20 ou 50 centavos? Fui eu que enterrei.

Eu acreditava que depois viriam pés de moedas. Numa filosofia de sementes que se multiplicariam no fundo da terra. Não vingou meu investimen to. Não por falta de tentativa.

Não procurava um tesouro no quintal, eu mesmo produzia o segredo. Rabiscava um mapa com as coordenadas para permitir a localização.

Arrecadava os cruzeiros que achava pela casa, que sobravam na bolsa da mãe ou na carteira do pai, ou uma parcela do que recebia de mesada, para largar na horta. Posso garantir que as alfaces e as rúculas ficavam ricas.

Na época, não imaginava que o dinheiro vencia, que a inflação comia os zeros, que os valores em circulação caducavam com os planos financeiros. Seguia fábulas, não a realidade.

Mantive meu orçamento secreto até o momento em que Rodrigo, meu irmão mais velho, criou uma variação da teoria. Aconselhou-me a enterrar meus bonecos. Não sei em que livro leu a respeito da tradição funerária da cultura maia.

A morte não era o final, mas o começo de lutas emocionantes. Inventou de dizer que os playmobils iriam guerrear num submundo conhecido como Xibalbá.

É o que dá viver com mano nerd. Você se torna a cobaia de seus experimentos malucos. Com muito sacrifício, com choro reprimido, com birra, aceitei a aposta quando ele comentou que os cabelos deles cresceriam após três meses. Esse detalhe sobrenatural me conquistou.

Nem questionei o processo de transformação, sequer levei em consideração que eles usavam peruca, encaixada na cabeça. Admiti o absurdo da situação. Fé de criança flerta com o impossível. Cedi os meus brinquedos favoritos, que entraram numa cova paramentados com armadura, lança e escudo.

Contei os dias, guardei a folhinha com o lugar da desova. Suportei a paciência. Perdi o ânimo no contraturno da escola, sem ter com o que me divertir. Restou-me o castelo vazio e a saudade de seus habitantes minúsculos.

O que não esperava é que, transcorrido o tempo, o pai cimentasse de surpresa parte do pátio para jogarmos bola. Veio nos contar a novidade com orgulho, ansiando por nossa algazarra. Pois não mais nos sujaríamos com o barro vermelho.

Colocou concreto sobre meus homenzinhos que dormiam, aguardando meu resgate, agora arremessados de vez ao sono eterno.

Ainda arco com pesadelos, temendo os senhores de Xibalbá, as supostas vozes debaixo de meus pés, as rachaduras no piso. Minha esperança é que os playmobils tenham encontrado, por fim e ao menos, minhas moedas. 

CARPINEJAR

10 de Outubro de 2026
COM A PALAVRA

João Bosco - Cantor e compositor

"Vejo um dinamismo na música popular brasileira"

No mesmo ano em que entrou na faculdade de Engenharia, João Bosco conheceu Vinicius de Moraes, responsável por abrir caminhos no mundo da música a um então promissor compositor de Ponte Nova, Minas Gerais. Embora tenha levado os estudos adiante, a carreira de engenheiro não foi longe: dois dias depois de colar grau, em 1973, Bosco entrou em estúdio para gravar o primeiro disco. 

Agora, aos 80 anos, celebra em turnê e álbum batizado de Amigos Novos e Antigos uma trajetória que ajudou a moldar a identidade cultural brasileira. O artista traz o show à Capital no dia 15, no Teatro do Bourbon Country. Os ingressos estão à venda pela plataforma Uhuu.

O seu álbum novo, como diz o título, tem convidados que são parceiros de longa data, como Zeca Pagodinho e César Camargo Mariano, e artistas bem jovens. Como foi a escolha?

A ideia era fazer um álbum que pudesse se chamar Amigos Novos e Antigos, que é o título de uma música minha e de Aldir Blanc e que fala muito sobre amizade. Os primeiros versos dizem: "As frases e as manhãs são espontâneas/ Levantam do escuro e ninguém pode evitar". A escolha desses amigos tem essa espontaneidade também. À medida que a gente ia pensando sobre o álbum, eles iam se perfilando.

Os amigos novos eu não conhecia, quem foi me mostrando foi a produtora, Júlia Bosco, e eu fui me inteirando do trabalho de cada um. E eles mesmos foram escolhendo as canções.

Você é de uma geração que moldou a identidade musical do Brasil. Essa época é muitas vezes vista como inalcançável e há uma impressão de que a música brasileira perdeu potência e qualidade. Como você vê isso?

Vejo um dinamismo na música popular brasileira. Por exemplo, a faixa-título do disco eu gravei com o Mestrinho, que tocou acordeon maravilhosamente e é um músico extremamente criativo. E quem interpretou a canção comigo foi a cantora Bruna Black, que tem uma extensão e um conhecimento vocal surpreendentes. Ela tem um timbre e um alcance de voz quase de cantora lírica. O Jota.Pê também, em Jade tem uma frase que ele altera a melodia original e faz do jeito dele, e o resultado é simplesmente belíssimo.

Para quem conhece sua trajetória, soa curioso saber que você estudou Engenharia. Você vislumbrava nessa época uma vida que não fosse voltada à música?

Não. Fui estudar em Ouro Preto porque nasci em Ponte Nova, que é muito próximo, mas a música já era algo que eu exercitava diariamente. Passei 11 anos em Ouro Preto, que é uma cidade muito artística e me inspirava. Em 1967, ano em que eu entrei na faculdade de Engenharia, conheci o Vinicius de Moraes, que voltava lá todos os anos. E o Vinicius ouvia as minhas canções e me dizia: "Continue aqui, porque faz bem à sua música".

No verão de 1970, conheci o Aldir Blanc, que estudava Medicina no Rio. Nessa época, isso era muito comum. O Vinicius era diplomata, o Chico Buarque estudou Arquitetura. A universidade era um ambiente de muita informação, criatividade e cultura. E eu fui ficando em Ouro Preto porque conheci várias pessoas através do Vinicius.

Colei grau no dia 8 de março, vim para o Rio, eu e a Ângela (Mucci Bosco, esposa do artista) nos casamos no dia 9, e no dia 10 fomos para São Paulo, onde eu fui gravar meu primeiro disco.

Nessa mesma época havia outro grande acontecimento musical se formando em Minas Gerais, mas em Belo Horizonte, que era o Clube da Esquina. Você teve contato com eles?

Tive, sim. Sou muito amigo do Nelson Ângelo, que é um dos compositores do Clube da Esquina, porque ele tinha parentes em Ouro Preto. E foi ele quem me apresentou o Milton Nascimento, por volta de 1968, e fiquei amigo dele também. Às vezes eu ia para Belo Horizonte no final de semana, encontrava o Nelson e íamos visitar pessoas que estavam tocando na noite, como o próprio Milton. No intervalo ficávamos conversando, e assim foi com a maioria dos compositores do Clube da Esquina.

Mas embora eu conhecesse eles e a música que estavam fazendo, o que eu fazia ia por outro caminho, mais de negritude, mais ligado ao Moacir Santos, ao Baden Powell, ao Dave Brubeck Quartet. O Clube da Esquina estava mais ligado à música que se fazia na Inglaterra, e quando eu ouvi o disco deles fiquei deslumbrado.

É muito visível nas canções dessa época que vocês tinham uma preocupação em refletir sobre a formação do Brasil e suas contradições. A canção Nação é um grande exemplo disso. Isso era consciente, ainda mais considerando o momento que o país vivia?

Naturalmente, era uma preocupação nossa e a gente fazia as canções com essas ideias na cabeça. Mas tinha coisas que eram conscientes e coisas que eram naturais. Tanto que, assim como tinha o Nação, tinha o Siri Recheado e o Cacete, que era uma crônica, mas também muito brasileira. Tem uma canção que eu fiz com Aldir chamada Me Dá a Penúltima, em que falamos sobre colocar no mesmo barco realidade e poesia. E acho que isso é a síntese, as canções falavam da realidade, mas poeticamente.

E não te angustia ver que canções que tratam sobre mazelas do Brasil - como Ronco da Cuíca, De Frente pro Crime, Tiro de Misericórdia, Rancho da Goiabada - seguem atuais?

Você tem toda a razão. Essas canções tratam de violência e, na época, algumas pessoas achavam que havia exagero da nossa parte, mas o tempo demonstrou que não. Vivemos em um mundo muito cruel e violento.

Você chegou aos 80 anos muito ativo. A idade pesa? Parar está no seu horizonte?

Ainda não penso em parar, não. Mas a questão física realmente existe. Você deixa de fazer aquela caminhada que gostava no calçadão, do Leblon até o Arpoador, às vezes até duas vezes ao dia. Eu faço aquele mínimo possível, pra poder continuar tocando. Mas acho que o desejo de fazer música é maior do que essas dificuldades. É mais trabalhoso, mas eu continuo com esse empenho de procurar uma música que ainda faça jus a esse desejo. 

10 de Outubro de 2026
PAULO GERMANO

Maldita mídia

Há uma estupenda vantagem em perder uma eleição por culpa da imprensa: você não precisa aprender nada. Seu candidato continua ótimo. Suas ideias, corretíssimas. Sua leitura de país, impecável. Porque a explicação para o fracasso repousa numa força maior: jornalistas sem escrúpulos manipularam a frágil cabeça dos brasileiros.

É o que ocorre agora, segundo a esquerda, com a ascensão eleitoral de Flávio Bolsonaro. Foi o que ocorreu em 2022, segundo a direita, com a eleição de Lula. Dois campos que divergem até sobre a tabuada encontram aqui um terreno compartilhado: quando as urnas desobedecem, e velha mídia vira ré de novo.

Ou seja, o eleitor é sábio quando concorda comigo. Quando não concorda, alguém o enganou. Defendemos apaixonadamente a soberania popular, mas retiramos do povo a soberania intelectual assim que ela contraria a nossa. Aliás, é curioso que o enganado seja sempre o outro, jamais eu. A sociologia da comunicação chama isso de efeito de terceira pessoa.

Em resumo, o sujeito enxerga em si próprio um bastião da lucidez: "Eu sou crítico, sei ler as entrelinhas, estou vacinado contra a influência do mal". E enxerga no outro - sobre o qual sabe muito pouco - apenas um voto ridículo. Como não reconhece inteligência naquela escolha, seu impulso é procurar algum agente externo para explicá-la. Ou seja: o voto dele tem razões; o do outro tem explicações. Ele votou porque ponderou. O outro votou porque a midialixo induziu.

É uma bela ressurreição, por sinal. Passamos anos enterrando a imprensa - esse dinossauro tantas vezes tachado de obsoleto e decadente. Aí o nosso candidato começa a despencar e o defunto levanta do caixão para hipnotizar milhões de eleitores. Não é difícil de entender: no emaranhado de vozes que hoje disputam nossa atenção, a mídia tradicional é uma das poucas que ainda tem nome, rosto e endereço. Um culpado fácil, portanto.

Também não estou reivindicando inocência plena. A imprensa com frequência derrapa no tom, compra versões oficiais, distorce manchetes atrás de cliques, confunde vigilância com ativismo, enxerga o país pela bolha da redação. É cheia de vícios e vaidades - e tem poder suficiente para produzir estragos. Mas achar que uma conspiração midiática elege um presidente, no ecossistema de hoje, diz muito menos sobre o jornalismo do que sobre o pavor de se olhar no espelho.

Porque a derrota impõe uma pergunta: como é possível milhões de pessoas terem visto o que eu vi e concluído outra coisa? Posso tentar entendê-las. Ou constatar que alguém pensou por elas. A segunda hipótese, claro, me dispensa de considerar um cenário realmente perturbador: talvez ninguém tenha sido enganado. 

PAULO GERMANO

10 de Outubro de 2026
EM FOCO - Marcelo Gonzatto

Curtidas, comentários e compartilhamentos parecem cada vez mais antecipar o desempenho nas eleições. Levantamento mostra que 81% dos integrantes da elite digital que disputaram cargos conseguiram se eleger ou avançar ao segundo turno - entre eles, quatro do Estado

O elo entre influência digital e sucesso nas urnas

Uma fatia crescente dos políticos brasileiros está concentrando esforços em acumular seguidores em redes sociais como estratégia para vencer eleições. O resultado apurado no domingo comprova que a tática rende frutos: um levantamento revela que, dos cem políticos mais influentes do país no Instagram, 81% dos que disputaram mandatos foram eleitos ou estão no segundo turno. Além disso, 14 deles se consagraram como os mais votados em seus Estados para o cargo de deputado estadual, federal ou senador. Entre os gaúchos, todos os quatro integrantes da elite digital saíram vitoriosos.

Um estudo da plataforma de análise de dados Zeeng demonstra que a maioria dos principais influencers da política nacional se filia a partidos de direita, com 55% dos nomes, seguidos pela centro-direita, com 21% (veja dados completos no infográfico ao lado).

A avaliação feita pela startup toma como critério a média de interações por publicação feita de janeiro a junho deste ano para estabelecer o ranking de influenciadores da política. A empresa usa o Instagram como referência por considerá-lo a rede mais representativa dos brasileiros hoje, e contabiliza a média de interações por post em vez do número de seguidores por entender que é uma medida mais fiel da capacidade daquele perfil de fato influenciar a sociedade ao pautar discussões relevantes.

- Vivemos num país que é heavy user (usuário constante) de redes sociais, cada vez mais conectado. A evidência é de que a performance digital, especialmente no Instagram, está totalmente colada à performance eleitoral - analisa o CEO da Zeeng, Eduardo Prange.

Performances interligadas

Essa evidência, que ganhou força a partir da eleição de 2018, se consolida cada vez mais. Dos 10 candidatos a deputado federal mais votados do país, nove estão na listagem dos top 100. Os dois primeiros nas urnas, Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP), somaram mais de 3 milhões de votos cada um e ocupam, respectivamente, o primeiro e o terceiro lugar no ranking de influência virtual - a segunda colocada é Michelle Bolsonaro (PL), senadora eleita pelo Distrito Federal também com a maior votação local.

Outra constatação é de que a direita e a centro-direita vêm obtendo resultados muito melhores nos palanques digitais do que os partidos de centro, esquerda ou centro-esquerda (veja detalhes no infográfico). O PL, sozinho, representa 40% do ranking de popularidade na rede social. Depois vêm Novo (9%), Podemos (8%), PSOL e União Brasil (6% ambos). O PT tem 5%.

- A direita despertou há tempos para isso. Os perfis de direita costumam ser mais jovens do que os de esquerda, e fazem um trabalho mais estruturado. Se destaca mais quem atua como produtor de conteúdo, promove interação. A esquerda ainda usa muito o formato de monólogo, como mais um canal para discursar. Não gera estímulo para a interação - analisa Prange, que também atua como pesquisador na área de economia da atenção. _

Diferenças de abordagem ajudam a explicar desnível

O cientista político Marcos Paulo dos Reis Quadros, autor do livro O que Há de Novo na Nova Direita?, acredita que o tipo de tema abordado pelos diferentes espectros políticos também ajuda a explicar o desnível no desempenho digital:

- Uma parte significativa da esquerda brasileira mergulhou na pauta diversitária, centrando seu discurso na chamada agenda woke. A verdade é que apenas nichos da sociedade realmente se mobilizam a partir dessa pauta. Enquanto isso, o grosso da população está preocupado em pagar boletos, aumentar renda, cuidar da família, ter segurança, escola para os filhos, ir à igreja, pagar menos impostos... A direita percebeu isso, e seus representantes se valeram do meio digital para criar uma conexão com as massas que a esquerda perdeu ao se alienar em suas próprias pautas.

Prange observa ainda que os perfis campeões de interação, como o de Nikolas Ferreira, produzem conteúdo que interessa aos seguidores o tempo inteiro. Candidatos que intensificam o uso das redes sociais apenas em períodos eleitorais ou buscam mudar de estilo de uma hora para outra em busca de engajamento emergencial são percebidos como oportunistas ou pouco autênticos.

Em entrevista concedida na quinta-feira ao programa Timeline, da Rádio Gaúcha, o candidato que disputou a Presidência pelo partido Missão, Renan Santos, reafirmou a relevância da disputa digital que antecede o confronto eleitoral. Ele sustenta que representantes tradicionais de bancadas como as de pastores, do agro ou mesmo do Centrão vêm perdendo espaço para esse novo tipo de candidato.

- O eleitor está votando em um candidato-espetáculo (...). Todo mundo foi devastado por essa onda do político influencer - afirmou Santos. 

Gaúchos com destaque nas redes garantiram vagas

A lista dos cem políticos mais influentes no Instagram conta com quatro representantes do RS: Rony Gabriel (Podemos), Marcel van Hattem (Novo), Maurício Marcon (PL) e Gustavo Victorino (Republicanos). Não por coincidência, todos saíram vitoriosos das urnas. Van Hattem conquistou uma cadeira no senado ao lado de Ubiratan Sanderson (PL). Os demais venceram como deputados federais.

Marcon chegará ao seu segundo mandato consecutivo na Câmara, respaldado por 379 mil votos e um séquito de 856 mil seguidores no Instagram, que lhe garantem uma média de 34 mil interações em cada post publicado na rede. O melhor colocado do Estado no ranking nacional de políticos influenciadores, porém, é Rony Gabriel. Natural de Vitória, no Espírito Santo, é atualmente vereador em Erechim e fez 223 mil votos. Tem 2,1 milhões de seguidores no Instagram e uma média de 95,7 mil interações por publicação.

- As redes permitiram que os candidatos e mandatários desenvolvam canais diretos de comunicação com o eleitorado. Isso gera a sensação de proximidade e de que há ação contínua e prestação de contas constante. A linguagem coloquial e o formato fluido, com tom de improviso, muitas vezes deliberado, que se nota nas mensagens e vídeos dos candidatos, também constrói identidades com o eleitor - explica o cientista político Marcos Paulo dos Reis Quadros.

Quem consegue incorporar essa linguagem e construir uma comunidade de inscritos tem cada vez mais chance de transformar seguidores em eleitores. 

10 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Geopolítica, clima e IA nunca caminharam tão juntos

A COP31, que começa dentro de um mês, em Antália, balneário turco no Mar Mediterrâneo, irá unir nós cada vez mais indissociáveis: geopolítica, sustentabilidade, emergência climática e inteligência artificial.

Primeiro porque o conflito entre EUA e Irã, que fechou o Estreito de Ormuz, expondo a economia global às oscilações do petróleo, elevou ao topo da agenda o tema da segurança energética.

Segundo porque, a despeito de governos negacionistas do clima, já está muito claro que a transição energética é puxada pelo setor produtivo. São as empresas que apostam em combustíveis de transição, como o gás natural, ou fontes completamente limpas, como a elétrica, eólica, solar e biomassa. Não apenas como uma expectativa de futuro (já presente), por responsabilidades e propósito. Também por isso, mas principalmente porque se trata de um negócio. E é possível lucrar com isso.

A discussão climática está cada vez mais conectada com a economia. Não que corte de emissões de gases de efeito estufa, preservação da Amazônia e outros biomas e políticas de adaptação diante dos eventos extremos cada vez mais presentes e mitigação sejam temas do passado. Mas as COPs se tornaram cada vez mais business.

Até porque é preciso pagar a conta de um mundo mais sustentável. Como se dará o financiamento climático está no cerne da questão. Ondas de calor, períodos de estiagem, tempestades e enchentes estão levando a perdas econômicas cada vez mais difíceis. O RS que o diga.

O crescimento da demanda elétrica, em razão da IA, dos data centers, de frotas elétricas e eletrificação industrial, exige mais geração, redes e armazenamento. Isso também é geopolítica.

Modelo de liderança

Um dos aspectos mais distintos da COP31 será o modelo de liderança compartilhada entre Turquia e Austrália. Com a passagem da presidência da COP30 pelo Brasil, a Turquia será o país-sede e terá a presidência formal, enquanto a Austrália assumirá a função de presidente das negociações.

Essa divisão de funções é inédita na história das COPs e vai desafiar a capacidade de articulação entre os dois países. A Turquia é um dos atores geopolíticos em ascensão no Oriente Médio e tem a capacidade, por sua posição geográfica, de conectar Oriente (leia-se China) e Ocidente (leia-se Europa). A Austrália tem a missão de dar voz aos países ameaçados de desaparecer com a elevação do nível do mar e representa os interesses do Pacífico, uma região de crescente competição estratégica entre China e EUA.

O novo modelo será colocado à prova justamente no momento em que a agenda climática precisa conciliar interesses econômicos, segurança energética, financiamento e diferentes velocidades de transição entre países.

Sobre o Brasil, a experiência da COP30 coloca sobre o país a responsabilidade de ajudar a dar continuidade a uma agenda voltada à implementação. A capacidade de seguir como articulador vai depender do resultado das eleições. 

Trump irá se igualar ao Talibã

Durante séculos, enforcamentos, decapitações e fuzilamentos públicos serviram para punir crimes e para exibir o poder de um rei ou ditador.

É isso que Donald Trump, em pleno século 21, quer voltar a fazer ao autorizar a execução por fuzilamento de Nidal Hasan.

Por recomendação de seu secretário da Guerra, Pete Hegseth, o ato deve ser transmitido ao vivo.

Não vou entrar no mérito dos crimes cometidos por Hasan, um assassino fanático que tirou a vida de 13 pessoas na base de Fort Hood, no Texas, em 2009. Tampouco discutirei pena de morte.

Meu ponto aqui é a transformação da punição em espetáculo.

O Estado não deve reproduzir a lógica da violência para demonstrar que a lei foi cumprida. Trump o que quer é transformar o ato em uma mensagem política.

Se for mantida a decisão de transmissão ao vivo, os EUA, a pátria da liberdade e da democracia, irão se igualar às ditaduras da Coreia do Norte e do Irã dos aiatolás. Pior: jogarão segundo as mesmas regras do Talibã, da Al-Qaeda e do Estado Islâmico.

Sabe-se que Trump é errático - morde e assopra e, no pior estilo "falem mal, mas falem de mim", costuma só ameaçar sem cumprir suas promessas. É bem provável que recue até o dia 3 de dezembro. Até lá, não há outra palavra para caracterizar a decisão que não seja repugnante. _

Cordialidade na transição

Cordialidade é a palavra que resume o início de transição de governo no Estado.

Aliás, isso não deveria surpreender. Em um regime democrático, é assim: quem sai coloca os dados do governo e toda a estrutura de Estado à disposição de quem está entrando. Deveria ser algo normal. Mas, no atual estado das coisas, da política brasileira, nem sempre é assim.

Por isso, a cordialidade entre o atual governador Eduardo Leite e o eleito, Luciano Zucco, deve ser exaltada. O RS dá exemplo de civilidade.

Um dos símbolos da disposição em colaborar é a determinação de Leite de que cada secretaria elabore um relatório com dados sobre orçamentos, contratos e projetos em andamento. Esses dossiês, que estão sendo chamados informalmente de "cadernos" serão entregues a partir do dia 26.

Os nomes à frente da transição são de políticos experientes. Representando o atual governo, o secretário-chefe da Casa Civil, Ranolfo Vieira Jr., que traz na bagagem o cargo de governador, após a saída de Leite para concorrer em 2022, e de vice no primeiro mandato, quando acumulou o comando da Secretaria da Segurança Pública. À época, ele implementou o programa RS Seguro, que Zucco promete manter.

A vitória no primeiro turno joga a favor das equipes - são três semanas a mais para a transição. E uma boa maneira de começar as conversas seria, justamente, pelas convergências. A Segurança, pasta em que o atual governo apresenta os melhores dados, é também prioridade do futuro ocupante do Piratini.

Da equipe do governador eleito, o comando nas mãos de Leonardo Pascoal, secretário municipal de Educação da Capital, é garantia de diálogo e técnica, além do fato de ter sido o coordenador do plano de governo de Zucco.

Embora a transição técnica ocorra no Edifício Guaíba, um outro símbolo dessa transição que se pretende cordial, é a escolha de um espaço no Instituto Caldeira, que está sendo chamado de Casa do Diálogo.

O clima de cavalheirismo, entretanto, não impede divergências. Um dos temas que gerou rusgas na campanha é o das concessões de rodovias. Nesta sexta-feira, ficou claro que o assunto ficará em suspenso. Leite recuou no bloco 1 e irá submeter o projeto do bloco 2 ao eleito. Ou seja, tudo vai ficar para depois.

Zucco disse que irá participar, nas próximas semanas, da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) ao Planalto. Então, embora a transição técnica comece na semana que vem, a participação mais efetiva do eleito ficará, mesmo, para depois do segundo turno. _

Sua Excelência, o Mate

No Palácio Piratini, o chimarrão é transportado com a honra que merece: na bandeja oficial. O registro foi feito pelo repórter Gabriel Jacobsen, durante a reunião de transição de governo, na sexta-feira pela manhã.

INFORME ESPECIAL

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

09 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Problemão

Visitei minha mãe. No corredor do seu edifício, encontrei um morador. - Ah, você é filho da Maria Carpi, a poeta? - Sim - respondi.

Eu já estava pronto para ouvir elogios e lustrar o brilhante orgulho pela minha mãe. Mas ele estava um pouco assustado. - Você pode falar com ela? Ela está causando um problemão.

Fiquei matutando: o que uma senhora de 87 anos, feliz da vida, é capaz gerar de incômodo na vizinhança? Música alta? Não escuta. Visitas tarde da noite? Acho que não vem fazendo festas. Infiltração? Tampouco fui informado de algum vazamento em seu banheiro.

Perguntei: - O que houve?  Ele coçou a cabeça como que procurando as melhores palavras. A coceira, de fato, ajuda a pensar. - Você precisa controlá-la. É que ela não para de plantar no jardim. Converteu a entrada do prédio numa floresta.

Eu ri. Pedi desculpas pela risada involuntária, que foi inevitável. - Isso não é bom? - questionei. - É - ele concordou. - Mas não sei onde vai parar. Eu disse que ele tinha razão.

- Realmente, tudo o que minha mãe toca jamais sei onde vai parar. Eu recebi um diagnóstico de retardo mental quando pequeno, ela me alfabetizou e me tornei escritor. Ela ultrapassa os limites do bom senso. Ele começou a rir comigo e comentou: - Então, vamos ver onde esse seu novo poema vai acabar!

É que Dona Maria, egressa da tradição de morar em casa, sem espaço no apartamento para as suas plantações costumeiras, apropriou-se do espaço comum do condomínio.

Com seus passinhos miúdos, sua pazinha, seu jeitinho de vovozinha, cheia de melenas grisalhas, como quem não quer nada, cultivou duas oliveiras e um limoeiro-siciliano. Afora um canteiro comunitário de temperos. Afora roseiras, orquídeas, manacás-da-serra e folhagens.

Baixou o paisagista Roberto Burle Marx nela. Investe sua aposentadoria em sementes e mudas em floriculturas. Aquele gramado básico se transformou numa mata com cores suntuosas e matizes fortes. Ela incentivou, inclusive, uma migração dos pássaros do bairro, com o frete dos seus ninhos de outros endereços para o local. Há uma orquestra de aves no alvorecer, como não existia antes.

O cheiro do lugar está diferente, absolutamente doce, com um difusor de aromas naturais infinito, dispensando os frascos com varetas. Não tem quem não se detenha na calçada para admirar. Cachorros puxam as coleiras, crianças se agarram às grades, pais perdem a noção do tempo, casais de namorados suspiram. É atração turística da rua Lageado.

Eu imagino o seu plano. Que as árvores cresçam até chegar às suas janelas. Assim ela voltará a ser menina e usará uma passagem secreta: descerá pelos galhos, naquilo que ela chamava na sua infância de "elevador de Deus". 

CARPINEJAR

09 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

A profissionalização do furto de fios

O furto de fios e cabos de cobre foi por muito tempo associado especialmente à ação de dependentes químicos, que arrancavam pequenas quantias da rede aérea e as revendiam no mercado clandestino local para sustentar o vício. 

Mas é crescente a percepção de que quadrilhas especializadas, com conhecimento técnico e equipamentos sofisticados, atuam cada vez mais nesse ramo do crime. A interrupção no fornecimento de energia elétrica que o delito acarreta traz transtornos à população, afeta o trânsito e impõe prejuízos a empresários, concessionárias e ao poder público.

Reportagem de Pâmela Rubin Matge, publicada ontem em Zero Hora, mostra essa transformação. Grupos com caminhões, guinchos, ferramentas profissionais e perfuradores de solo passaram a furtar cabos de energia e de telecomunicações nas redes subterrâneas. Para não chamarem atenção, usam uniformes e crachás falsos, como se fossem funcionários de concessionárias e de empresas terceirizadas da área. Também cresceu o número de ex-colaboradores dessas companhias detidos por esse crime.

Essa encenação cinematográfica e a maior organização da cadeia de furtos e de receptação exigem que as autoridades busquem novas formas de fechar o cerco a essa infração penal. Ao que parece, cresceu o volume de material levado para fora do Rio Grande do Sul, o que indica ganho de escala e ação interestadual. Um dos grandes desafios é elaborar estratégias para inibir essa ação dissimulada nas ruas e fazer com que sejam percebidas a tempo de serem flagradas.

O cobre passa por um momento de valorização no mercado internacional, com cotações recordes. É um dos chamados metais críticos. Tem demanda crescente pela transição energética, rumo à maior eletrificação, e também por ser indispensável para a infraestrutura da inteligência artificial (IA). A lucratividade crescente atiça a cobiça de criminosos, inclusive traficantes de drogas. Investigações já apontam o envolvimento das facções.

Como se trata de uma preocupação nacional, o Congresso aumentou, no ano passado, as penas para o furto e a receptação de fios. No caso da receptação, quando a fiação levada causar interrupção de serviços essenciais, pode chegar a 16 anos. Mas as maiores sanções parecem não ter sido suficientes. Na iluminação pública da Capital, a extensão de fios levados de janeiro a agosto foi 25% superior à registrada no mesmo período de 2025.

Uma pesquisa divulgada em maio pelo Sindilojas POA indica que 80% dos associados tiveram os negócios afetados pelo furto de fiação. As operações do poder público, com participação de forças policiais, são constantes. Uma CPI na Câmara de Vereadores da Capital apontou crescimento de 820% nas ocorrências entre 2021 e 2025 e sugeriu uma série de aperfeiçoamentos legislativos. 

Em julho, a prefeitura de Porto Alegre instituiu o Comitê Intersetorial de Combate ao Furto de Fios e Cabos. Composto por 30 órgãos públicos e entidades privadas, o colegiado deve traçar formas de prevenção e combate a esse crime. A iniciativa, que se espera consiga produzir resultados, mostra que, apesar dos múltiplos esforços, não foi encontrada ainda uma estratégia efetiva para o enfrentamento dessa verdadeira praga urbana. 

OPINIÃO RBS

09 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Proposta de Flávio para garantir mais um ano de mandato é indecente

Ainda nem disputou o segundo turno, para o qual é favorito por ter chegado à frente no primeiro, e o senador Flávio Bolsonaro (PL) já colocou as manguinhas de fora com sua proposta de reforma constitucional. Na campanha era apenas a promessa de não concorrer à reeleição, o que deixaria o caminho aberto para o governador de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas. Agora, com deputados e senadores de sua base em número suficiente para mudar a Constituição, Flávio flerta com a transformação do Congresso eleito em Assembleia Nacional Constituinte, pela força da maioria.

Primeiro, a reforma era apenas para reduzir a maioridade penal para 16 anos e mudar a forma de escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal, impondo idade mínima e limite do tempo no cargo. Agora, sem nenhum pudor, propõe aumentar em um ano o mandato que ainda não conquistou, como contrapartida ao fim da reeleição.

- Não tem que valer só para o futuro. Para mim, tem que valer já no meu mandato. Se serão quatro ou cinco anos, se também vai valer para governador e prefeito, isso o processo legislativo é que vai definir - afirmou, em coletiva de imprensa ontem.

Regras do jogo

Isso nada mais é do que mudar as regras do jogo com a partida em andamento. Quem votou em 4 de outubro votou para escolher o presidente e os governadores dos próximos quatro anos, não de cinco. E quem garante que, se a proposta for adiante, não vai surgir uma proposta de emenda para estender para seis, coincidindo a eleição com a de prefeito?

Se você sentiu um cheiro de Venezuela no ar, não é cebola com tomate fritando na cozinha do vizinho. Flávio é contra a reeleição? Muito simples: basta não ser candidato, se vencer daqui a duas semanas. O que não faz sentido é alterar a Constituição em benefício próprio, ressuscitando um debate de 1987, quando José Sarney ganhou o mandato de cinco anos.

O instituto da reeleição pode ser bom ou ruim, dependendo da forma como quem está no poder usa a máquina para se eleger. Em 1998, foi a reeleição de Fernando Henrique Cardoso que salvou o Plano Real, porque nada impedia que a construção fosse implodida pelo vencedor. Lembremos que o PT era contra o real e quatro anos depois, quando Lula venceu, o plano estava consolidado. _

Três erros na campanha do PT

No momento em que o centrão avança na direção de Flávio Bolsonaro (PL), com os parlamentares migrando a passos largos para a banda de onde vem o cheiro de poder, o presidente Lula, os líderes do PT e os envolvidos na campanha eleitoral deveriam fazer um exercício de humildade. Três desses erros são visíveis a olho nu: incapacidade de mostrar ao eleitor que o escândalo do Banco Master não é do governo Lula e que os principais envolvidos estão ligados ao adversário, incluindo o próprio Flávio Bolsonaro; subaproveitamento do potencial do vice-presidente Geraldo Alckmin e o salto alto por conta das pesquisas que indicavam vantagem para o presidente.

O marketing da campanha partiu de um princípio equivocado, o de que Lula venceu a eleição de 2022 pela própria força e não pela rejeição de Jair Bolsonaro e pela captura dos eleitores de Simone Tebet, à época, no MDB. As primeiras pesquisas, com ampla vantagem para Lula, estimularam o salto alto na campanha. _

Juliana Brizola reforça apoio a Lula no segundo turno

Apesar de aparecer pouco e de mencionar raramente Lula no primeiro turno, Juliana Brizola (PDT) deve se engajar mais para reeleger o presidente no segundo turno. Foi a promessa dela em reunião com a coordenação do comitê petista no Estado, ontem. Juliana garantiu que está disposta a participar ativamente da campanha de Lula.

O encontro reuniu dirigentes das oito siglas que participaram da coligação em torno de Juliana no Estado e líderes do PT. Foi definido um plano de ação para que Lula amplie sua votação no Rio Grande do Sul - ele fez 35% dos votos para presidente.

O grupo será coordenado por Edegar Pretto (PT), candidato a vice na chapa com o PDT, e contará com o trabalho de Manuela D?Ávila (PSOL) e Paulo Pimenta (PT), candidatos derrotados na disputa pelo Senado. _

Com a adesão dos derrotados no Rio Grande do Sul ao governo de Luciano Zucco (PL) e à campanha de Flávio Bolsonaro (PL), os suplentes podem ter esperança de conquistar uma vaga na Câmara ou na Assembleia, com a ida de um titular para o governo, ou de arranjar algum cargo no segundo ou terceiro escalão.

Não tem outra alternativa a não ser apoiar o Flávio (Bolsonaro). O Lula, com esse Congresso que foi eleito, caminha para a ingovernabilidade."

Germano Rigotto - Ex-governador do RS e ex-candidato ao Senado pelo MDB

Bancadas do PSD gaúcho apoiam PL

Depois do MDB, ontem as bancadas estadual e federal do PSD anunciaram adesão à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). O assunto foi discutido em um almoço no Palácio Piratini, com o governador Eduardo Leite, os atuais deputados e os eleitos. Embora Leite tenha dito que tende a ficar neutro, os deputados se reuniram depois na Assembleia e assinaram uma nota de apoio incondicional à candidatura de Flávio.

A nota diz que os signatários trabalharam pela candidatura de Ronaldo Caiado (PSD), mas que, encerrada essa etapa da disputa, os parlamentares avaliam ser necessário mudar a condução dos rumos do país. 

Fecomércio quer ouvir os eleitos

Para começar a relação com o pé direito, a Fecomércio convidou todos os deputados estaduais e federais do RS eleitos, além dos dois senadores, para apresentar as pautas de interesse do comércio de bens, serviços e turismo. O presidente da entidade, Luiz Carlos Bohn, deve apresentar essas pautas em um café da manhã hoje.

A Fecomércio apresentará sua atuação institucional e prioridades para o desenvolvimento econômico, empreendedorismo e fortalecimento empresarial. Temas como a proibição das bets e o fim da escala 6x1 estarão entre as pautas. Reforma administrativa e ajuste fiscal também serão discutidos. _

POLÍTICA E PODER

09 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Entre uma Constituição flexível e resistente

A partir de fevereiro do ano que vem, o PL terá 28 senadores e 121 deputados, as duas maiores bancadas eleitas por um único partido desde a redemocratização. Isso significa que o senador e candidato Flávio Bolsonaro (PL), se eleito no segundo turno contra o presidente Lula, não terá votos suficientes, sozinho, para mudar a Constituição. Mas teria facilidade para atrair votos do centrão, que reúne, em sua maioria, políticos conservadores.

Então, sim, Flávio, se vencedor, terá um ambiente parlamentar favorável à aprovação de propostas de emenda à Constituição, as PECs. Para aprová-las, são necessários 308 votos dos 513 deputados e 49 dos 81 senadores, em dois turnos de votações em cada Casa.

Na terça-feira, Flávio afirmou que pretende "mudar a Constituição e redemocratizar esse país". Primeiro, sim, com a conformação do Congresso que emerge das urnas, ele consegue alterar a Carta Magna com facilidade, desde que obtidas as maiorias exigidas. Dispensemos o esforço retórico feito para a sua militância de "redemocratizar esse país". Sejamos honestos: o Brasil não precisa ser redemocratizado pelo simples fato de não haver dúvidas de que vivemos em uma democracia constitucional. O resto é desinformação.

As propostas

Mas voltemos ao tema principal deste texto: a Constituição. Ao menos publicamente, o candidato tem apresentado três bandeiras que exigem PEC: redução da maioridade penal de 18 para 16 anos; fim da reeleição para cargos no Executivo; e restrições ao Supremo Tribunal Federal (STF).

A Constituição de 1988 já foi "emendada" 139 vezes. Aliás, as emendas constitucionais existem justamente para que o texto constitucional acompanhe transformações políticas, sociais e institucionais sem a necessidade de se refundar a República.

O que não pode ser alterado são as "cláusulas pétreas": a forma federativa de Estado, o voto direto, secreto, universal e periódico; a separação dos poderes; os direitos e garantias individuais, o famoso artigo 5º. Ao menos não podem ser alteradas sem a convocação de uma Assembleia Constituinte para a redação de uma nova Constituição.

As três propostas de Flávio estão dentro dos limites constitucionais. O problema não é esse. É legítimo e até necessário que se debata mudanças no Supremo, como limites a decisões monocráticas, código de conduta e revisão do alcance do foro por prerrogativa de função. Mas qualquer reforma precisa ter como objetivo preservar a independência da Corte e sua capacidade de exercer o controle de constitucionalidade, uma das bases do sistema de freios e contrapesos.

Há muito tempo, processos de erosão democrática não começam por meio de quarteladas. A questão é como essas mudanças serão conduzidas, com que transparência, mediante qual negociação institucional e com quais garantias de preservação da independência do Judiciário.

Em países como a Hungria de Viktor Orbán, a Turquia de Recep Tayyip Erdogan e El Salvador de Nayib Bukele, o autoritarismo começou com políticos que venceram nas urnas, com ampla maioria do parlamento, e que usaram as próprias regras do jogo para subvertê-lo.

A Constituição deve ser suficientemente flexível para acompanhar a sociedade e suficientemente resistente para proteger a democracia. _

Jovens de Garibaldi estão na Itália

Uma parceria entre a prefeitura de Garibaldi, a Associação dos Vinicultores de Garibaldi (Aviga) e os Comuni di Conegliano e di Follina, na Itália, levou três jovens do município da Serra para conhecer os processos que envolvem a fabricação de vinhos espumantes no país europeu.

Ana Carolina Fernandes Morlin, Letícia Conzati Agostini e Pedro Henrique Coppi Lorenzini embarcaram no último dia 26 e permanecerão na Itália até novembro. Eles participam do Programa Internacional de Especialização em Tecnologia dos Vinhos Espumantes - Método Martinotti Italiano.

O grupo realizou a primeira visita a uma vinícola da região de Conegliano, no Vêneto, onde observaram a elaboração do prosecco e as características que diferenciam a produção italiana da brasileira. _

Drones "caçadores-assassinos" na América do Sul

Os Estados Unidos enviaram drones MQ-9 Reaper para a América do Sul. Conhecidos como "caçadores-assassinos", os equipamentos foram deslocados para a Colômbia e o Equador para atuar em operações de combate ao narcotráfico na região. A informação foi revelada pelo jornal The New York Times nesta terça-feira.

Segundo a publicação americana, drones do mesmo modelo foram utilizados pelos EUA para matar o general iraniano Qassim Suleimani em uma operação em 2020. Cada unidade do MQ-9 Reaper custa aproximadamente US$ 50 milhões (cerca de R$ 250 milhões).

O MQ-9 Reaper é um drone turboélice com motor de 900 cavalos de potência, 11 metros de comprimento e envergadura de 20 metros. A aeronave atinge velocidade máxima de 444 km/h, tem alcance de 1.850km, autonomia de 27 horas e pode operar a mais de 15km de altitude. Além do uso militar, o modelo também é empregado pela Nasa e pelas Forças Aéreas de Reino Unido, Itália, França e Espanha.

Sua função principal é a coleta de dados de inteligência em apoio a missões de ataque, coordenação e reconhecimento. Para isso, conta com um conjunto de sensores visuais que inclui infravermelho, câmera infravermelha de ondas curtas e marcadores a laser.

A aeronave tem capacidade para carregar até oito mísseis guiados por laser, oferecendo operação de alta precisão, baixo dano colateral e poder de ação antiblindagem e antipessoal.

O drone é controlado a distância a partir do solo por uma equipe composta por dois operadores: um piloto e um especialista responsável por operar os sensores e guiar os armamentos. _

OEA e a eleição brasileira

O relatório sobre o primeiro turno das eleições brasileiras produzido por observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA) detalhou que o pleito do último domingo transcorreu de forma pacífica e "sem incidentes de maior gravidade". Entretanto, de acordo com o documento divulgado pela entidade na terça-feira, houve um "ativismo político internacional" sobre o processo eleitoral brasileiro.

Segundo os observadores, atores políticos e da sociedade civil expressaram à missão preocupação com as manifestações e ações de atores internacionais sobre o processo eleitoral no Brasil, que poderiam ter impactado de alguma forma a campanha. O relatório da OEA não menciona nenhum caso específico.

Para o segundo turno, a OEA recomenda a busca pela máxima segurança jurídica e o incentivo aos debates programáticos entre os postulantes. _

INFORME ESPECIAL

sábado, 3 de outubro de 2026

01/10/2026 - 09h33min
J. J. Camargo

Existem gestos que resumem a biografia de um grande homem

Havia no evento uma aura invisível dos melhores sentimentos que orbitavam em torno da memória do cirurgião Marcos Moraes

"O essencial é invisível aos olhos." (Antoine de Saint-Exupéry)

Há um tipo raro de luz que só acende quando estamos determinados não apenas a olhar o sofrimento do outro, mas a ver com o coração a intensidade da sua dor. 

Uma energia mútua e calorosa, que quase se pode palpar, circula entre essas pessoas dispostas a enxergar a dor do próximo não como um fardo, mas como um pedido de socorro. 

Provei dessa sensação maravilhosa na semana passada, convidado para uma conferência durante a comemoração dos 35 anos da Fundação do Câncer, no Rio.

Entre o convívio afetuoso com o doutor Paulo Niemeyer, presidente do Conselho Curador; o doutor Luiz Augusto Maltoni, diretor médico da fundação; a atriz e embaixadora Isabel Fillardis e a doutora Vivian Rumjanek, com seu tom maternal de contar a história da entidade, havia uma aura invisível dos melhores sentimentos que orbitavam em torno da memória de um homem extraordinário: o cirurgião Marcos Moraes.

Foi ali que reencontrei uma história, que ouvi no passado do próprio Marcos, agora resgatada pela jornalista Claudia Jurberg, que traduz com precisão mágica a essência dessa energia boa:

"Marta era empregada doméstica. Apenas uma semana depois de conseguir um emprego pelo qual batalhara por dois longos anos, ela percebeu que tinha um nódulo na mama. Mas como desgraçadamente acontece com os despossuídos, a fome não fica esperando a saúde. Então, entre tratar de si ou assegurar o pão na mesa, Marta priorizou o que comer. Só buscou socorro médico muito tempo depois, quando o tumor já lhe rompera a pele em um anúncio desolador e irreversível.

Ao ser admitida no Instituto Nacional de Câncer (Inca), o destino colocou Marta no caminho de uma revolução silenciosa. Naquela época, o doutor Marcos Moraes havia criado um programa pioneiro de cuidados paliativos domiciliares — uma rede que mantinha centenas de pacientes nas suas próprias casas, amparados por dezenas de voluntários, responsáveis por garantir a dignidade que depende do controle efetivo da dor.

Quando soube que poderia ser incluída no programa, Marta exultou. Ir para casa no limiar da existência carrega um significado sagrado que só quem avista a finitude consegue compreender. O serviço social, contudo, hesitou. O perfil familiar era trágico: dos quatro filhos, apenas uma filha trabalhava; um filho deficiente, um dependente químico e uma filha prostituta na favela completavam o quarteto incapaz de oferecer o mínimo de suporte.

Mas a comoção e o brilho nos olhos de Marta falaram mais alto. Movido pela empatia e compaixão, o doutor Marcos Moraes não apenas autorizou sua ida, como tomou para si a missão de visitá-la diariamente. O Serviço Social havia identificado a tragédia familiar, mas Marcos conseguiu ver a urgência do resgaste de tanto amor negligenciado.

Marta viveu apenas 47 dias depois que deixou o hospital. Na véspera de sua partida, em sua última visita, de mãos dadas com Marcos ela usou palavras que mal cabiam na sua humildade para agradecer:

— Doutor Marcos, o senhor não sabe o que significou permitir que os meus filhos cuidassem do meu fim. A minha vida inteira eu senti muita vergonha desses dois... E agora, por sua bondade, eu vou morrer cheia de orgulho deles."

Naquele gesto, o médico não havia apenas aliviado a dor do corpo. Ele devolvera àquela mãe o amor de seus filhos e, aos filhos, a dignidade de terem sido o derradeiro refúgio de quem, lá atrás, lhes dera a vida, sem pedir nada em troca.

A cerimônia continuou, outros discursos vieram, mas o meu coração permaneceu preso àquele encontro sublime na casa de Marta. Voltei do Rio com a convicção renovada de que existem gestos que resumem a biografia de um homem, um grande homem. E que não importa quantas homenagens se prestem à memória de Marcos Moraes: para aqueles que tiveram a ventura do convívio, sempre restará a certeza de que ele merecia mais. Muito mais.


02/10/2026 - 14h37min
Martha Medeiros

Quem se acha superior aos demais não passa de um dinossauro. Nosso saldo bancário ou posição no organograma não deveria fazer diferença

Braquiossauros. Velociraptors. Pterodáctilos. Hierárquicos. Sim, incluiria os hierárquicos nesta turma. Quem se acha superior aos demais e usa o poder para obter vantagens não passa de um dinossauro também.

A sociedade é ordenada por cargos e funções. Pessoas contratam outras para trabalhar com elas ou trabalhar para elas. A despeito da sutil diferença entre as duas preposições, vale a máxima: eu pago, você obedece.

Sempre tive dificuldade com essa concepção de mundo. Era uma pirralha e não entendia nem mesmo a razão de ter que abaixar a cabeça diante de pai e mãe. Muitas vezes, depois de ouvir um sermão, tentei me defender, mas fui interrompida com um “não me responda”. Ou era calada com a frase “Criança não tem querer”. 

Eu achava injusto colocar a situação nesses termos, mas nunca promovi nenhuma rebelião infantil. Ficava quieta. Acho um absurdo que hoje as crianças mandem e os pais obedeçam. Sempre respeitei meus pais, como respeitei meus professores e sigo respeitando a todos, mas não pela hierarquia, que para mim é um conceito obsoleto, e sim como um tributo a quem sabe mais do que eu.

E todos sempre saberão alguma coisa que eu não sei.

Um Papa sendo operado por um cardiologista: quem é que merece ter as mãos beijadas na sala de cirurgia? Um milionário cujo carro quebra na estrada: qual o valor do mecânico que veio em seu socorro? Uma celebridade que acaba de dar à luz e tem baixa produção de leite: VIP não seria a mulher que amamentará o bebê em seu lugar?

É a dinâmica da vida. Precisamos uns dos outros, e nosso saldo bancário ou posição no organograma não deveria fazer diferença.

O cuidador que dá banho em um vencedor do prêmio Nobel, a ele se equivale. Remuneramos serviços, mas não compramos pessoas. A cada vez que falamos com elas sem enxergá-las, a cada vez que usamos um tom de voz afrontoso, a cada vez que não as escutamos, aumenta a fúria contida, que poderá retornar para nós em forma de violência. Se é paz que queremos, é bom lembrar que ela passa pela horizontalidade das relações. 

Ninguém é melhor que ninguém, apenas algumas têm mais dinheiro.

Que entre logo em extinção aquele que circula de nariz em pé, achando que vale mais que o porteiro que lhe abre a porta ou que o garçom que lhe serve o vinho. Se pudesse observar a si mesmo à distância, desdenhando de quem lhe atende, teria vergonha da própria canastrice. O mundo avançou, se unificou, e é nosso dever acompanhar esse movimento, em vez de fazer carreira como fóssil. 

Falo sobre todos nós e nossas relações sociais, mas, hoje, cabe especificar: tiranos, ditadores, golpistas e todas as vossas majestades que desconhecem o diálogo são os dinossauros do século 21. E nosso voto, o asteroide que pode eliminá-los.