domingo, 20 de setembro de 2026

19/09/2026 - 05h30min
Fabrício Carpinejar

Cair sete vezes, levantar oito: o ouro que pode reconstruir o Sakae's

Aquele endereço acompanhou quase toda a minha vida; agora, quero vê-lo renascer das cinzas pelas mãos de quem também guarda essa história. É rápido e você não perde nada importante. O restaurante era um ano mais novo do que eu – o restaurante japonês mais antigo de Porto Alegre, um dos mais antigos do país.

Aquele endereço – número 690 da rua Castro Alves – acompanhou diferentes fases da minha vida, de menino a adolescente, de adolescente a homem feito. Fui filho, fui marido, fui pai em suas mesas. Decorei degrau por degrau da escada para o segundo piso. As cortinas, as janelas coloridas, o vaivém dos garçons.

A proprietária Sakae Suzuki, hoje com 87 anos, a idade da minha mãe, abriu o Restaurante Sakae’s em 1973, quando ninguém tinha o hábito de comer sushi na capital. Seu pioneirismo nos ensinou a usar o hashi.

Tratava-se de um negócio familiar, mas, pela sua longevidade, transformou-se em um patrimônio da nossa cultura gastronômica.

Na tarde de terça-feira (15), por causas ainda desconhecidas, o Sakae’s acabou destruído por um incêndio. O incidente não deixou feridos, porém acarretou danos materiais que reduziram a cinzas o sonho de várias gerações.

“Vamos reerguer esse cantinho do Japão em Porto Alegre”: família do Sakae’s busca reconstruir restaurante após incêndio; veja como ficou  “Vamos reerguer esse cantinho do Japão em Porto Alegre”: família do Sakae’s busca reconstruir restaurante após incêndio; veja como ficou

O expediente não havia iniciado. Os funcionários se preparavam para o atendimento no turno da noite, previsto para as 19h.

Como o imóvel possuía boa parte de sua estrutura em madeira, o fogo se alastrou com voracidade, impedindo que os bombeiros controlassem as chamas em tempo hábil. Não arderam apenas o telhado, o interior e os móveis. Ardeu o legado irrecuperável de um lar. Todo objeto trazia uma história desprovida de cópias.

Praticamente tudo o que se encontrava dentro foi perdido. Salvaram-se algumas relíquias, recolhidas no desespero. Desapareceram os únicos registros do avô, as fotos nas paredes, as louças raras e a prataria.

O ponto exibia o status de uma embaixada japonesa informal. Fazia dueto, simbolicamente, com o Recanto Oriental do Parque da Redenção, caracterizado por pontes de pedra, bancos de jardim, um pequeno lago e uma estátua de Buda.

Sakae Suzuki veio ao Brasil ao lado do marido, com o qual teve três filhos. Sem falar português, ela se comunicava pelos sabores, pelas suas receitas ancestrais.

O comércio não contava com seguro. Diante da dimensão da avaria, a família criou uma vaquinha online para arrecadar recursos e tentar reconstruir o estabelecimento. A soma almejada é de R$ 800 mil. Até o momento, angariou-se 10% do valor.

Resta-nos buscar inspiração no kintsugi, a arte japonesa de reparar a cerâmica quebrada sem esconder suas cicatrizes, realçando-as com ouro. Cada contribuição será um pouco dessa liga: o ouro da empatia.

Existe um provérbio japonês sobre a resiliência: “nana korobi ya oki” – “cair sete vezes, levantar-se oito”. Perto dos noventa anos, Sakae Suzuki terá de recomeçar pela oitava vez. Mas algo mudou: ela também se tornou gaúcha.

Não está mais sozinha. Muitas mãos agradecidas irão reerguê-la.

19 de Setembro de 2026
COMPORTAMENTO - COMPORTAMENTO

Rotina de acordo com o ciclo menstrual

O "cycle syncing" viralizou nas redes sociais, mas especialistas alertam para evidências científicas sólidas

Uma tendência vem ganhando força nas redes sociais: mulheres recomendando a organização de vida de acordo com as fases do ciclo menstrual. A ideia de "não planejar o mês como um homem" é uma das bases do cycle syncing (sincronização do ciclo), prática que promete maior produtividade e bem-estar a partir de adaptações no dia a dia - desde o trabalho até o treino físico - conforme as etapas do ciclo menstrual.

A tendência tem adeptas em várias partes do mundo. No TikTok, por exemplo, são mais de 112 milhões de publicações fazendo menção à hashtag #cyclesyncing. A prática parte da premissa biológica de que as alterações hormonais ao longo do ciclo podem influenciar diferentes aspectos da vida. No entanto, de acordo com a ginecologista Maria Celeste Osório Wender, existe pouca evidência científica sobre cycle syncing, o que impossibilita a indicação profissional desta técnica.

A especialista também ressalta que as variações entre ciclos não são percebidas da mesma forma por todas as mulheres. Além disso, a mesma paciente pode apresentar flutuações entre ciclos, dificultando regras fixas.

Segundo Maria Celeste, estudos mostram que o tempo médio de diferença nas atividades entre as fases do ciclo é de apenas 12 minutos por dia, um impacto que pode ser influenciado por outros fatores como estresse, falta de sono e cuidado com os filhos.

Pesquisas indicam que a fase lútea tardia, nos dias que antecedem a menstruação, é a que mais aparece associada a maior cansaço e menor disposição, enquanto a fase folicular próxima à ovulação pode coincidir com maior disposição física. Também há sinais de pequenas variações na força e na capacidade aeróbica ao longo do ciclo.

No entanto, os efeitos variam de acordo com cada pessoa - e podem alternar em diferentes ciclos da mesma paciente -, o que impede a formulação de uma rotina padrão de como trabalhar ou qual exercício fazer em cada fase do ciclo menstrual, como é propagado pelo cycle syncing.

- Essas recomendações populares funcionam como sugestões úteis para algumas mulheres que percebem um padrão cíclico claro, mas não devem ser prescritas universalmente - ressalta a ginecologista. 

Fases do ciclo menstrual

Para pessoas que menstruam e que não usam contraceptivos hormonais, o ciclo envolve as etapas folicular, lútea e de ovulação, que podem variar em duração e efeitos em cada pessoa.

Fase folicular inicial (menstruação): começa com o sangramento menstrual, provocado pela queda de estrogênio e progesterona. A queda estimula a produção do hormônio folículo-estimulante (FSH), que estimula o crescimento de novos folículos nos ovários para o próximo ciclo

Fase folicular tardia: nesta etapa, um folículo se torna dominante e passa a secretar estrogênio. O pico deste hormônio prepara o corpo para a ovulação

Ovulação: é o momento da liberação do óvulo maduro, acompanhado por picos dos hormônios estradiol, LH e FSH

Fase lútea: após a ovulação, o que restou do folículo se transforma no chamado "corpo lúteo", que passa a produzir progesterona e um novo pico de estrogênio

Fase lútea tardia (pré-menstrual): caso não ocorra fecundação, o corpo lúteo regride e os níveis de estrogênio e progesterona caem, o que vai desencadear a menstruação e o novo ciclo

Autoconhecimento ou mais uma cobrança?

Para Cibele Cheron, professora de Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é preciso cautela para que esse método não se torne uma cobrança adicional na rotina das mulheres.

Existe um risco real de que o autocuidado vire uma quarta jornada. A mulher já trabalha fora, trabalha em casa, cuida de todo mundo, e agora precisa gerenciar o próprio ciclo como uma planilha de metas. Se o resultado da prática é a mulher extraindo mais de si mesma para caber no mesmo calendário, houve intensificação do trabalho - analisa a professora.

Ela também ressalta que a possibilidade de adaptar a rotina não está disponível para todas as mulheres. Uma profissional com autonomia sobre os próprios horários, por exemplo, pode reorganizar compromissos de acordo com sintomas. Já quem trabalha em uma rotina rígida, com horários e tarefas determinados por terceiros, dificilmente terá a mesma liberdade.

Por isso, para Cibele, a discussão sobre o ciclo também deve servir para questionar as próprias condições de trabalho, em vez de buscar mais eficiência dentro delas.

Funciona?

Acompanhar o próprio ciclo pode ser útil para identificar padrões individuais e desenvolver autoconhecimento. O que não tem respaldo científico é transformar essas observações em um protocolo universal, determinando como se deve trabalhar, comer, treinar ou socializar em cada fase do ciclo.

A recomendação, portanto, é a individualização para evitar frustração com resultados ou sobrecarga. O ideal é observar o que acontece com o próprio corpo e não seguir uma tabela pronta encontrada nas redes sociais.

Segundo a cientista política Cibele Cheron, a ideia também pode inspirar discussões sobre a organização da sociedade e o lugar da mulher nela.

- O calendário que organiza escolas, empresas e órgãos públicos foi construído para um corpo universal, suposto sem variação interna, sem gestação e sem interrupção. A formulação mais precisa da sociedade seria: todo mundo planeja o tempo a partir do corpo, das crianças, do sono, da saúde. O que existe é uma hierarquia sobre quais corpos podem aparecer no planejamento coletivo, e o corpo que menstrua está entre os que foram obrigados ao silêncio e à invisibilidade - afirma.

Monitoramento saudável

Quem deseja acompanhar o próprio ciclo menstrual para identificar padrões individuais e desenvolver autoconhecimento, sem se prender em regras fixas, a ginecologista Maria Celeste recomenda acompanhar o ciclo por pelo menos dois ou três meses antes de tirar conclusões. Nesse período, anotar informações como humor, energia, dor, sono e data da menstruação. A partir desses registros, identificar padrões e fazer pequenas adaptações na rotina, conforme indicação médica.

A especialista ressalta, porém, que sintomas intensos ou incapacitantes não devem ser considerados parte normal do ciclo: cólicas fortes, alterações acentuadas de humor, sangramento anormal ou sintomas que prejudicam a qualidade de vida devem ser avaliados por um profissional de saúde. 

19 de Setembro de 2026
COM A PALAVRA - Mariana Enríquez

Escritora argentina

"O terror que me interessa fazer está relacionado com o social"

A escritora argentina Mariana Enríquez, 52 anos, se notabilizou por sua produção relacionada ao terror. Neste ano, dois títulos dela chegaram ao Brasil pela Editora Intrínseca. Alguém Caminha Sobre o Seu Túmulo, obra de não ficção, traz ensaios sobre cemitérios ao redor do mundo. Já Um Lugar Ensolarado Para Gente Sombria é uma coletânea de contos de terror que flertam com o realismo.

William Mansque

Em Um Lugar Ensolarado Para Gente Sombria, os personagens (humanos ou fantasmas) convivem com problemas muito concretos como pobreza, violência, desigualdade, medo e exclusão. O terror funciona para você como uma forma de falar daquilo que uma sociedade prefere não olhar?

Esses contos em particular são de gênero ou terror, mas o que uso é um material realista. O gênero como tal deve ser traduzido da mesma maneira que qualquer outro. Suponhamos o policial. Se pensar no romance policial nórdico, é um modelo que não podemos transferir como escritores para a América Latina porque seria absurdo. 

Sei que é terrível o que vou dizer, mas nós estamos acostumados a chacinas, a crimes políticos, ao crime do narcotráfico e a muita violência institucional. Esse modelo tão analítico e psicológico do crime não funciona para nós. O nosso crime é necessariamente político. Com o terror é um pouco igual. O terror sempre, de alguma maneira, falou dos medos da sociedade onde o escritor estava. No meu caso, me interessa o terror relacionado com as fobias de uma sociedade.

E aqueles que são pessoais?

Também. Em Um Lugar Ensolarado Para Gente Sombria, tem um conto de body horror (terror corporal) sobre uma mulher que faz uma operação ginecológica (Metamorfose). Se certas questões relacionadas ao corpo da mulher e ao envelhecimento da mulher não nos dessem tanto medo ou repúdio, se não fossem naturais como deveriam ser, esse medo de envelhecer seria talvez mais pessoal, não somente algo social. 

Então, o terror é o meu gênero. E o terror que me interessa fazer está relacionado com o social, com o real e com um diálogo com os medos que temos como sociedade. Se quisesse escrever realismo, eu o faria. Mas quero escrever no gênero, e o material para isso como escritora latino-americana, com os traumas da sociedade e a minha maneira de perceber a realidade, é este.

No conto Metamorfose, a protagonista começa a olhar para o seu corpo de outra maneira porque também muda a forma como o mundo a enxerga. Quanto da identidade, especialmente para as mulheres, é determinada pelo olhar dos outros?

Muito. É uma fraqueza terrível. Todas as mulheres passam por isso. Quanto mais rápido pudermos falar sinceramente a respeito, melhor. O que acontece com a mulher na menopausa e para além disso? Pensando nos nossos corpos no capitalismo, somos as mulheres que mais podem comprar cosméticos, tratamentos e roupas. 

Só que quase nada de roupas ou de cosméticos são feitos para nós. Parece uma futilidade, mas é uma questão muito reveladora, pois te aponta o que você não é o tempo todo. Quanto mais velha eu fico, mais vontade tenho de me ver melhor. Não importa se isso é uma insegurança ou uma futilidade social, é um fato. Existe uma ideia totalmente perversa de envelhecer com elegância, como se isso fosse algo que se pudesse se fazer no meio de hormônios, doenças, depressão, de montões de coisas.

Em Alguém Caminha Sobre o Seu Túmulo, você visita tumbas que revelam tragédias de povos originários e presos políticos. Você sente que os cemitérios funcionam como o arquivo de postergados e esquecidos pela história oficial?

Os cemitérios funcionam como um arquivo histórico material, mas acho que os esquecidos e os marginalizados da sociedade, de alguma maneira, também ocupam o lugar de esquecidos e marginalizados nos cemitérios. 

O túmulo do empresário e latifundiário José Menéndez (localizado no histórico Cemitério Municipal Sara Braun, em Punta Arenas), responsável por muitas chacinas na Patagônia, é um castelo. Há protestos, em muitas ocasiões, militantes entram e jogam tinta vermelha e tal, mas é um jazigo que simboliza um lembrete: uma família que ainda é poderosa. 

Nos cemitérios, as classes sociais e as condições de centralidade se mantêm. Inclusive, em qualquer cemitério grande, vemos na entrada os majestosos túmulos aristocráticos e, depois, isso se reduz. De alguma maneira, sim, é um arquivo e é uma reprodução quase da ordem.

Voltando ao Um Lugar Ensolarado para Gente Sombria. No conto Meus Mortos Tristes, que inspirou uma minissérie da Netflix, há uma tensão entre vizinhos que exigem segurança, mas, ao mesmo tempo, há a violência que eles mesmos estão dispostos a aplicar. Havia interesse em mostrar como uma sociedade pode se transformar naquilo que diz combater?

Acho que um dos grandes temas (do conto) é como nos relacionamos. O tema da segurança urbana é muito complexo. Muito mais do que quando escrevi aquele conto, pois ali se cruzam muitíssimas narrativas. O medo do outro, do pobre e do diferente. Enxergá-lo sempre como um criminoso por sua cor, por sua origem, etc. 

A ideia de que é sempre uma ameaça. E nesse âmbito, digamos, especialmente as classes médias se tornam muito conservadoras e se aproximam de atitudes fascistas. Só que, ao mesmo tempo, essas classes médias também estão sendo corroídas pela falta de trabalho, pela brutalidade do neoliberalismo que já não lhes permite uma sensação de segurança. Rapidamente, passam a ver insegurança em toda parte. 

Há casos que é legítimo o medo de muita gente. Produz-se ali um momento muito tenso em que se enfrentam o ideológico, o narrativo e o político, onde os vulneráveis sempre ficam como alvo de acusações. Às vezes a gente sente que as pessoas se esquecem de que temos que viver todos juntos.

Quanto da Mariana escritora nasceu da cultura da música e do fanatismo?

Estudei jornalismo porque queria ser jornalista de rock. Eu lia muito jornalismo de rock naquela época, e era o que queria fazer: entrevistar bandas, fazer parte daquele mundo. Foi nessa fase que escrevi meu primeiro livro nos anos 1990, que é Bajar Es Lo Peor. Com o tempo, a literatura foi superando em muito o jornalismo. Esse lado obsessivo e fanático (com música) é muito importante na minha vida. É uma fonte de inspiração, é onde me sinto mais confortável. Gosto tanto quanto a literatura. 

O fenômeno do ídolo e da obsessão do fã são elementos que aparecem na minha escrita porque me interessa e vejo um certo paganismo ali. É uma coisa que se cruza um pouco com a minha ideia do sobrenatural, ou seja, vejo essa devoção como uma nova forma do panteão contemporâneo. 

 

Quando 2027 chegar

Seja quem for o próximo inquilino do Palácio do Planalto, a várzea a que se assistiu na sessão de terça-feira passada no STF terá sido apenas o prólogo de uma crise institucional que já está contratada para 2027. Não importa quem envergue a faixa presidencial, o próximo presidente terá de lidar com um choque de poderes ou com o desencadeamento de uma onda de protestos nas ruas, caso a vassoura do STF siga varrendo para debaixo do tapete favores que tisnam alguns de seus membros.

Na hipótese de Lula ser reeleito, é pouco provável que atue pela depuração da Corte, que deveria começar por Alexandre de Moraes, o mais encalacrado no escândalo do Master. Como se viu na terça-feira, Flávio Dino, ex-ministro da Justiça de Lula, é o líder do bloco da marmelada suprema, em jogral com Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula, e o hoje convertido antilavajatista Gilmar Mendes.

Com as blindagens na Corte, as atenções se voltarão para o Senado, o único com poder constitucional de destituir um membro do STF. Mas, para não deixar dúvidas sobre o acordão, o presidente Davi Alcolumbre, em nome da própria sobrevivência, acertou uma trégua com Lula em inacreditável jantar patrocinado por ninguém menos que Alexandre de Moraes. 

Se Alcolumbre for reconduzido em 1º de fevereiro, quando tomarão posse os senadores eleitos em outubro, os pedidos de impeachment de ministros do STF seguirão engavetados. Aí, como ocorreu nos afastamentos de Collor e Dilma, não será surpresa se eclodir nas ruas a indignação represada pela turma do abafa. É crise garantida.

Na hipótese de Flávio Bolsonaro ser eleito, diante de sua defesa do impeachment de Alexandre de Moraes, o choque deve começar antes mesmo da posse. Agarrado à tese da conspiração política - a única que lhe resta depois do flagra promíscuo com Daniel Vorcaro -, Moraes precisa seguir togado para não correr o risco de fazer companhia a quem mandou para a cadeia. 

Se continuar no cargo, Alexandre de Moraes deverá ser o próximo presidente do STF, com posse em setembro de 2027. Aí teríamos na Presidência da República um Flávio Bolsonaro, hoje investigado pelo apoio de Vorcaro ao filme Dark Horse, e na presidência do STF um ministro que se recusa a ser investigado, o que é uma contradição para quem jura inocência. A pororoca entre poderes e a crise são garantidas.

Há duas formas de o país ser pacificado, e o próximo presidente - seja quem for, mesmo uma improvável terceira via - poder governar com razoável tranquilidade. Seria a renúncia ou o afastamento pelo STF de pelo menos um ministro atrapalhado com o Master. Mas essa hipótese foi soterrada na terça-feira, quando metade da Corte decidiu arrastar o país para a crise de 2027. 

MARCELO RECH

Ministros, filhinhos de papai e esposas

A crise no Supremo Tribunal Federal subverteu o conceito de esposa-troféu, aquela mulher cuja principal função no relacionamento é servir como símbolo de status e atratividade física para o marido, geralmente mais velho e bem-sucedido financeiramente. Esposa-troféu de ministro do Supremo - ouro, prata e bronze - é advogada que consegue bons contratos por ser quem é. Viviane Barci de Moraes, até aqui troféu ouro, tinha um contrato de R$ 131 milhões com o Banco Master, valor que chocou advogados renomados pelo valor exorbitante - eram R$ 3,6 milhões por mês para atuar em órgãos de interesse de Daniel Vorcaro. Ninguém acredita que tenha sido seu notório saber jurídico a motivação de Vorcaro para contratar a esposa do ministro Alexandre de Moraes.

Roberta Rangel, agora ex-esposa de Dias Toffoli, também advogou para Vorcaro quando era associada ao escritório Warde Advogados. Relatório da Polícia Federal diz que a relação profissional remonta a dezembro de 2020. Roberta foi casada com Toffoli por 12 anos, mas o casal se desfez em 2025. Hoje separada do ministro Gilmar Mendes, a advogada Guiomar Feitosa foi procurada por Daniel Vorcaro em 2025. 

O banqueiro foi pessoalmente ao escritório Sérgio Bermudes, em Brasília, tentando contratar os serviços da banca da qual ela é sócia-dirigente, sem mencionar um processo específico. Guiomar desconfiou que ele só queria usá-la para se aproximar de Gilmar e a negociação não avançou. Parentes deveriam ser impedidos de advogar nos tribunais em que pais, mães, maridos ou esposas são juízes. Parece simples, mas quando a restrição foi discutida, não emplacou.

Herdeiros

No Judiciário, Vorcaro não investiu apenas nas esposas advogadas e nos maridos ministros, oferecendo mimos como noitadas de festa, bebida cara e charutos. Com seu faro de corruptor-geral da República, tratou de cortejar os "filhinhos de papai" - herdeiros de escritórios e de sobrenomes como Fux, Nunes Marques e Moraes. Os relatórios da Polícia Federal são reveladores desse método de cooptação, com contratos indiretos e tentativas de aproximação.

Aos 26 anos, recém-formado, Kevin Nunes Marques, filho do ministro Nunes Marques, virou um prodígio da advocacia, faturando mais do que muitos advogados de larga experiência. Essas relações familiares que abrem caminho explicam por que a ministra Cármen Lúcia se definiu como "uma velha avulsa". Sem marido e sem filhos, passou incólume pela lábia de Vorcaro, com quem dificilmente teria assunto em uma conversa de bar. Ou alguém consegue imaginar o banqueiro falando de Guimarães Rosa, Affonso Romano de Sant?Anna ou João Cabral de Melo Neto com a ministra? _

aliás

O ministro Gilmar Mendes se enquadra na definição do poeta José Hernádez, em La vuelta de Martín Fierro: "El diablo sabe por diablo, Pero más sabe por viejo". O decano recebeu Daniel Vorcaro a pedido de um ex-cunhado contratado pelo banqueiro e identificou nele um picareta engomadinho, tentando cooptá-lo para votar a favor dos seus interesses em uma ação milionária no STF. Gilmar disse que Vorcaro parecia mais um bicheiro do que um banqueiro.

Manuela convoca militância em meio à crise no Supremo

A candidata ao Senado pelo PSOL, Manuela D?Ávila, convocou uma manifestação contra a extrema direita e reuniu dezenas de militantes no Largo Zumbi dos Palmares, em Porto Alegre, na sexta-feira. Manuela estava acompanhada do ex-governador Olívio Dutra, de Henrique Fontana, seu suplente, e de Tamyres Filgueira, suplente de Paulo Pimenta (PT), que também concorre ao Senado. A mobilização ocorre dias depois de o Supremo Tribunal Federal protagonizar um dos piores episódios da crise que enfrenta. A preocupação da candidata recai principalmente sobre a decisão das eleições para o Legislativo.

- Não existe eleição ganha. Construiremos a nossa vitória - afirmou Manuela. _

Marchezan tentou derrubar emendas parlamentares

Quando a Câmara de Porto Alegre inventou as emendas impositivas ao orçamento, em agosto de 2019, o então prefeito Nelson Marchezan estrilou. A tentação rimava com corrupção. A emenda à Lei Orgânica, de autoria do então vereador Cássio Trogildo (do antigo PTB) foi aprovada e promulgada pela própria Câmara. Marchezan ainda tentou o caminho da Justiça, mas perdeu.

Com a prisão do vereador Giovane Byl e de outras três pessoas, o ex-prefeito relembra os alertas que fez à época. Agora uma pergunta que precisa ser respondida pela prefeitura: como é feita a fiscalização da aplicação do dinheiro das emendas? A mesma pergunta vale para o governo estadual. As emendas foram instituídas na Assembleia pelo governador Eduardo Leite e não há, até aqui, denúncias de corrupção. Mas, diante da operação do Ministério Público que constatou desvio de quase R$ 2 milhões na Câmara, será preciso redobrar a atenção com o destino do dinheiro. _

Juliana esconde Lula na campanha e incomoda PT

Em público, a relação entre Juliana Brizola e seus parceiros do PT vai de vento em popa. Nos bastidores, há um desconforto crescente com a invisibilidade do presidente Lula na campanha de Juliana e mesmo dos candidatos do PDT. O mais recente motivo de incômodo é a não utilização das imagens do comício em Porto Alegre, realizado há uma semana, com a presença de Lula.

As imagens têm sido exploradas apenas pelos candidatos da coligação ao Senado, Manuela D?Ávila (PSOL) e Paulo Pimenta (PT). Juliana passou toda a campanha dizendo que a aliança com o PT é a prova da sua capacidade de dialogar, mas sempre ressalta que, se for eleita, a condução do governo será dela. Em painéis e encontros com setores que têm divergências históricas com o PT, Juliana faz questão de dizer que a aliança é estratégica.

O PT também resistiu, porque boa parte dos seus filiados preferia ter Edegar Pretto como candidato. Por pressão de Lula, que queria um palanque único no Rio Grande do Sul, Pretto aceitou ser vice, mas líderes petistas reclamam que ele está sendo deixado de lado e, na propaganda eleitoral apareceu em apenas dois programas até aqui.

Durante o comício, entretanto, Edegar acabou sendo escanteado em determinados momentos até por Lula, que tratou de exaltar Manuela, Pimenta e Juliana.

Outra fonte de reclamação tem a ver com os candidatos a deputado estadual e federal do PDT que não associam seus nomes a Lula nem a Pimenta e Manuela, numa tentativa de conquistar votos de eleitores de Flávio Bolsonaro e dos candidatos da direita ao Senado. _

Leite confirma pagamento de 14o salário a professores

O contracheque dos professores e servidores de escolas que atingiram as metas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) virá mais gordo no dia 30 de setembro. O governador Eduardo Leite confirmou que vai pagar na próxima folha o bônus do Programa de Reconhecimento da Educação Gaúcha, o 14o salário, para professores e servidores de todas as escolas que atingiram as metas.

A medida contempla mais de 65 mil professores e servidores da rede estadual de ensino, com um montante total de aproximadamente R$ 235 milhões. _

POLÍTICA E PODER 

19 de Setembro de 2026
EM FOCO - Leticia Mendes -  Andressa Xavier - Rosane de Oliveira

EM FOCO

Operação do MP investiga fraude de R$ 2 milhões em projetos financiados por emendas parlamentares na área da saúde. Além do parlamentar da Câmara de Porto Alegre Giovane Byl, do Podemos, outras três pessoas foram presas

Vereador é preso sob suspeita de desvio de verba

Além dele, foram detidos o assessor da bancada do Podemos Evaristo Mutti e dois ex-dirigentes de uma entidade investigada, Lissauer Ferreira Dias e Alan Silva da Costa, que é advogado. Foram cumpridos também nove mandados de busca e apreensão na Capital e em Imbé, no Litoral Norte.

O grupo formado pelos investigados teria esquema para desviar recursos que deveriam ser destinados para executar projetos financiados por nove emendas impositivas na área da saúde. Conforme a apuração, o valor soma R$ 2 milhões.

No esquema, segundo o MP, a entidade identificada como Instituto de Estudos e Incentivo a Novas Tecnologias da Saúde, Políticas Sociais e Soluções Ambientais e Digitais (Inovatech RS) receberia os valores. As quantias eram inicialmente depositadas pelo Fundo Municipal de Saúde nas contas bancárias específicas de cada parceria.

Em seguida, os recursos seriam retirados dessas contas e transferidos para outra, de livre movimentação, do Inovatech RS. Conforme o MP, por não estar vinculada a um termo de fomento específico, essa conta bancária não era submetida ao mesmo controle. A investigação apontou que, a partir dessa conta central do Inovatech RS, os recursos seriam distribuídos a pessoas físicas e jurídicas relacionadas aos investigados.

O MP destaca que o Inovatech RS mudou de direção em maio, está atuando de forma regular e colabora com a investigação. Segundo o MP, quando foram solicitados extratos bancários das contas, o grupo teria feito empréstimos em nome da entidade para que parte dos recursos retornasse às contas fiscalizadas. O objetivo seria aparentar a aplicação regular das verbas públicas.

A operação é coordenada pela promotora de Justiça Roberta Brenner de Moraes, da 8ª Promotoria de Defesa do Patrimônio Público de Porto Alegre, com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e da Brigada Militar. Por envolver um advogado, a Ordem dos Advogados do Brasil acompanhou a operação.

O Podemos afirmou que "respeita a atuação das autoridades responsáveis pela investigação", mas disse entender "ser fundamental preservar o devido processo legal, o direito à ampla defesa e a presunção de inocência, não cabendo conclusões sobre responsabilidades enquanto a investigação estiver em andamento". A assessoria de Byl informou que ele "é inocente das acusações atribuídas". _

Atuação discreta no parlamento e influência na prefeitura

Fábio Schaffner

O vereador Giovane Byl (Podemos) é uma das principais apostas do partido para deputado estadual. Atualmente no segundo mandato, Giovane Luiz de Lima Junior foi o sexto mais votado para a Câmara de Vereadores em 2024, com 12.115 votos.

Com forte atuação em comunidades da periferia, ele praticamente quadruplicou a votação, já que em 2020 havia conquistado 3.440 votos pelo então PTB. Sua estreia na política ocorreu em 2016, quando concorreu a vereador pelo Solidariedade. Na ocasião, ficou de segundo suplente e chegou a assumir o mandato em curtos períodos.

Aos 37 anos, casado e com dois filhos, Byl nasceu no bairro Bom Jesus, na zona leste da Capital, e cresceu no bairro Mario Quintana, na Zona Norte, suas maiores bases eleitorais.

A infância em bairros violentos marcou sua trajetória. Skatista, Byl investiu no esporte como plataforma de inclusão social, à frente da ONG Seja Livre Skate. Cantor e compositor, também é ligado ao movimento hip hop. Giovane não possui formação de Ensino Superior, apenas concluiu o Ensino Médio. Influente na prefeitura, Byl controla a subprefeitura do bairro Bom Jesus, onde coordenou pessoalmente ações durante a pandemia e na enchente de 2024.

Na Câmara, é considerado um parlamentar discreto. Não participa dos debates mais intensos e raramente usa a tribuna. Entre os 54 projetos de lei propostos nos dois mandatos, a maioria dá nome a ruas e logradouros.

Alinhado à cúpula do Podemos, Byl é considerado herdeiro político do secretário de Governança de Porto Alegre, Cássio Trogildo. O gabinete de Byl, onde o Ministério Público cumpriu mandado de busca e apreensão nesta sexta-feira, pertencia anteriormente a Trogildo, de quem ele também herdou os cabos eleitorais e a estrutura partidária. Na atual campanha, recebeu até agora R$ 226 mil do Podemos para o financiamento da candidatura. 

19 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Vitor Netto

A ofensiva de Donald Trump para renomear territórios

Fumaça de churrasco é vista de longe

Em novembro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, completará dois anos à frente da Casa Branca. Neste ínterim, o republicano já rebatizou, com o próprio nome, diversos órgãos, departamentos, prédios e programas governamentais. Outro alvo do americano tem sido renomear espaços geográficos - o movimento mais recente envolve a proposta de trocar o nome do Estado do Novo México para "Nova América".

A medida, contudo, não é nova. Em janeiro de 2025, Trump assinou uma ordem executiva para que o governo dos EUA passasse a chamar o Golfo do México de "Golfo da América". Na justificativa, alegou razões de justiça, afirmando que o novo nome seria mais "bonito".

A mudança teve efeito prático apenas em território americano, sem adesão obrigatória de outros países. Aplicativos de navegação e GPS, como Google Maps e Apple Maps, passaram a exibir a nova denominação para usuários nos EUA.

Mais recentemente, em agosto de 2026, em meio a uma crise diplomática e tarifária com o Canadá, Trump assinou outro decreto estabelecendo que o Lago Ontário passe a se chamar "Lago América" nos EUA. A medida seguiu a mesma lógica restrita ao público interno: nos mapas e aplicativos americanos, o nome mudou; no Brasil, por exemplo, o local continuou aparecendo com a grafia dupla ou original.

Em setembro, Trump sugeriu renomear o Estreito de Ormuz para "Estreito de Trump". A declaração ocorreu no contexto do conflito entre Washington e Teerã, no qual os dois países disputam a navegação e a segurança da passagem estratégica pelo Oriente Médio.

Além do estreito, o presidente voltou a defender a alteração do Estado do Novo México para "Nova América" durante discurso no feriado do Dia do Trabalho (Labor Day), associando a ideia às tensões nas negociações comerciais com o México. Na ocasião, ele ainda sinalizou que pode mirar oceanos:

- Se você parar para pensar, já temos um golfo e temos um lago. Agora, tudo de que precisamos é de um oceano. Talvez tenhamos de mudar o nome do Atlântico e do Pacífico. Talvez nós os mudemos - declarou a jornalistas. _

Uma das tradições do gaúcho é o churrasco, e em setembro não seria diferente. Agora, pense nos 236 piquetes instalados no Acampamento Farroupilha em Porto Alegre: é natural que toda essa quantidade de carne sendo assada e consumida gerasse uma "nuvem" de fumaça que poderia ser vista ao longe.

Na imagem acima, vista de um edifício da Cidade Baixa, é possível observar a névoa formada em cima do evento. O odor de carne assada também pode ser sentido nas zonas centrais da cidade.

Mas você já parou para pensar em quanto churrasco é assado durante o mês no Acampamento Farroupilha, em Porto Alegre?

De acordo com a GAM3 Parks, responsável pela administração da concessão do Parque Harmonia, no Mercado Farroupilha - estabelecimento dentro do acampamento -, durante a semana (segunda a quinta-feira), são vendidos cerca de 700 quilos de costela por dia.

Aos fins de semana (sexta-feira, sábado e domingo), o número aumenta para 1,1 tonelada. O índice não considera outros cortes de carne bovina nem o que é levado de fora para o parque.

Somando outros itens de churrasco, como salsichão, linguiça, pão de alho e outros cortes de carne, o número durante a semana aumenta para 1,2 tonelada e, aos fins de semana, para 1,6 tonelada. Cacetinhos? O número varia de 2,5 mil a 3 mil por dia. _

Republicano já rebatizou, com o próprio nome, diversos órgãos, departamentos, prédios e programas

Centro integrado no Mario Quintana

PUCRS recebe líderes de 19 países

O espaço vai integrar três frentes hoje inexistentes ou insuficientes na região: saúde; um Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, com oficinas continuadas para crianças e adolescentes de seis a 17 anos; e um estudo científico que acompanhará por até 15 anos os indicadores de qualidade de vida e desenvolvimento socioeconômico da comunidade.

Serão 300 vagas distribuídas em 12 oficinas e workshops, entre elas contação de histórias, robótica e programação, judô, teatro, dança clássica, hip-hop, orientação vocacional e preparação para o mundo do trabalho, cidadania e direitos humanos.

A programação inclui ainda rodas de conversa sobre saúde mental, nutrição, sexualidade e cuidados parentais, com participação das famílias nas atividades de fortalecimento de vínculos. _

A PUCRS recebeu, nos últimos 10 dias, 64 lideranças maristas de 19 países. O evento, que se encerrou na sexta-feira, foi a etapa presencial da terceira edição do Programa de Formação de Liderança Servidora e Profética.

Realizada pelo Instituto Marista em parceria com a universidade, a formação reúne gestores de diferentes frentes de missão em duas semanas de atividades presenciais, após uma etapa online com 11 disciplinas.

Durante a imersão, que se iniciou no dia 8 de setembro, os participantes aprofundam os conhecimentos e conhecem diferentes realidades de atuação da Rede Marista nas áreas de educação, saúde e assistência social, além de participarem de atividades sobre gestão, espiritualidade e missão. 

INFORME ESPECIAL

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

16 de Setembro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Supremo escreve página infeliz da sua história

Quem assistiu à sessão histórica do Supremo Tribunal Federal neste 15 de setembro saiu com a sensação de que a instituição encolheu durante as oito horas da sessão que deveria decidir se autorizaria ou não a investigação do ministro Alexandre de Moraes. Parafraseando Chico Buarque e Francis Hime, na icônica Vai passar, os ministros escreveram uma "página infeliz" da história da Suprema Corte.

A imagem do STF está sendo queimada na fogueira das vaidades acesa por homens que ignoram a voz das ruas e, do alto da sua arrogância, não percebem que estão abrindo uma cratera.

Os ministros aliados de Alexandre de Moraes foram para a sessão pintados para a guerra com André Mendonça. Gilmar Mendes e Flávio Dino deram o tom da ópera bufa, valendo-se da fragilidade e da falta de pulso do presidente do STF, ministro Edson Fachin. Desde o início, deixaram claro que a estratégia era "melar a investigação".

O dia todo foi gasto nas chamadas preliminares, uma questão de ordem sobre a conveniência de tratar o caso Moraes na sessão desta terça-feira e a suspeição de Mendonça na próxima semana.

O decano Gilmar Mendes foi grosseiro com André Mendonça, acusou o ministro de direcionar a investigação do caso Master para favorecer um grupo político - o de Flávio Bolsonaro (PL), no caso. Moraes, em vez de se defender das acusações, ateve-se a questões formais, e votou como se não fosse parte interessada. Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques se declararam impedidos, usando subterfúgios para não dizer dos verdadeiros motivos da suspeição.

No momento em que o caldo entornou, com gritaria entre os ministros, Dino pediu vista, empurrando o caso para um tempo que pode chegar a 90 dias. E fez declarações gravíssimas sobre o Judiciário e sobre os colegas. Disse que nunca se viu tanta corrupção no Judiciário e que, com o levantamento do sigilo do telefone de Vorcaro, vão surgir acusações graves contra outros ministros, citando Luiz Fux e Kassio Nunes Marques, como os próximos a integrar o grupo que já tem Moraes, Toffoli e Mendonça. _

Cármen Lúcia dá lição de decência aos colegas da Corte

Mais uma vez, veio dela, a ministra Cármen Lúcia, um dos raros momentos elevados na sessão do Supremo Tribunal Federal em que predominou a baixaria. Última a votar na sessão em que se discutia a abertura da investigação do ministro Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia deu uma lição de civilidade aos colegas que em alguns momentos se comportaram como colegiais mal-educados.

A ministra teve a dignidade de pedir desculpas ao povo brasileiro por não ter conseguido evitar que o Supremo provocasse o que ela chamou de "mal-estar cívico". Com voz calma, disse que estava vivendo um momento de profunda consternação.

- Sinto-me envergonhada. A menos de 20 dias da eleição estão todos voltados para o STF. É disso que se fala nas farmácias, nas padarias, nos telejornais. Não é um quadro bonito. Se eu, como juíza desta Casa, fui omissa para ter ajudado mais, estou pedindo desculpas aos colegas e ao povo brasileiro. Houve uma espetacularização desses casos, desta sessão mesmo, que faz mal ao país. O país espera de nós uma tranquilidade que não conseguimos dar.

Compromisso com a Justiça

Em outro ponto de sua fala, Cármen Lúcia se definiu como "uma velha avulsa", que não está em um grupo ou outro. Disse que não sofreu pressões internas nem externas. E disse que ministros não podem votar com base no clamor público.

- Eu cumprirei meu dever como juíza - disse Cármen Lúcia, antecipando seu voto pela apreciação em separado das petições contra Alexandre de Moraes e André Mendonça. _

Alta nas receitas não evita previsão de déficit em 2027

Com previsão de alta nas receitas e mais de R$ 6 bilhões para investimentos e inversões financeiras no ano de 2027, o projeto da lei orçamentária anual (LOA) foi enviado pelo governo do Estado na tarde de ontem. Pela última vez, o governador Eduardo Leite foi à Assembleia Legislativa para entregar uma cópia do documento, dessa vez ao deputado Cláudio Tatsch (PL), que representou o presidente Sergio Peres (Republicanos) no ato.

Os deputados devem votar a lei até o final de novembro. A LOA passa pela Comissão de Finanças antes de ser analisada em plenário.

Apesar do aumento na arrecadação em relação a este ano, o orçamento do governo do Estado tem previsão de encerrar 2027 com um déficit primário de R$ 4,8 bilhões. Leite minimizou a estimativa, lembrando que os cálculos para 2024 e 2025 também previam as contas no vermelho, mas o governo encerrou os dois anos com superávit. O cálculo pessimista, que leva em conta possíveis gastos extraordinários, vem sendo adotado nos últimos anos pela Fazenda.

- Não há passivos escondidos, mas um desafio conhecido - enfatizou Leite.

O orçamento prevê R$ 15 bilhões para a educação, R$ 9,36 bilhões para a saúde e R$ 12,29 bilhões para a segurança pública. Para ações relacionadas a eventos climáticos extremos, R$ 1,98 bilhão. _

Com críticas ao STF, Gabriel Souza e Rigotto fazem ato no "dia do 15"

Caminhadas, carreatas, bandeiraços e adesivaços do MDB ao redor do Estado marcaram o "dia do 15", ontem, em alusão ao número do partido. Em Porto Alegre, no Largo dos Açorianos, o candidato a governador Gabriel Souza conduziu um ato ao lado de Germano Rigotto, que concorre ao Senado, e aliados do PSD, como seu vice, Ernani Polo, Frederico Antunes, que também disputa o Senado, e o governador Eduardo Leite.

Gabriel enalteceu a presença das centenas de militantes e o trabalho corpo a corpo que vêm realizando na campanha. O vice-governador falou sobre os investimentos do governo estadual e, ao pedir votos para os candidatos da chapa a senador, criticou o STF.

- Aqui estamos trabalhando, mas lá em Brasília está uma vergonha - disparou.

Rigotto convocou os militantes para uma vaia coletiva, direcionada ao Supremo, e classificou como uma "vergonha" a crise envolvendo os ministros da Corte. 

POLÍTICA E PODER

16 de Setembro de 2026
EM FOCO

EM FOCO

Crise no STF se prolonga com ofensas, pedido de vista e impasse

São quatro votos a três para manter separadas as investigações a respeito de Moraes e Mendonça. Dino pediu vista e adiou a análise da questão. Não houve avaliação de mérito sobre pedido para autorizar inquérito baseado em relatório da Polícia Federal sobre mensagens de Vorcaro

Diante de sua maior crise, o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) acabou se mostrando dividido. Não conseguiu decidir ontem se investiga o ministro Alexandre de Moraes por suposta ligação com Daniel Vorcaro, do Banco Master, preso por fraudes financeiras. Foi uma sessão marcada por vários bate-bocas no colegiado a respeito de procedimentos judiciais e que terminou em um pedido de vista (maior prazo de análise) por parte do ministro Flávio Dino.

Na prática, o plenário se limitou a avaliar questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes, que propôs adiar o julgamento para o próximo dia 23 e analisar em conjunto os relatórios com informações da Polícia Federal (PF) sobre Moraes e também a petição contra Mendonça. As duas investigações tramitam sob relatorias e ritos diferentes.

Para Gilmar, as ações de forma separada poderiam gerar "tumulto processual" e decisões contraditórias sobre fatos correlacionados, decorrentes do caso Master. Seguiram esse argumento os ministros Cristiano Zanin e o próprio Alexandre de Moraes. Já Fachin, Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia votaram contra a unificação. Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli haviam se declarado, no início do julgamento, impedidos de participar da votação.

A sessão extraordinária do STF, que começou com um pedido de "sensatez, decoro e serenidade" feito pelo presidente da Corte, Edson Fachin, foi marcada ao longo do dia por confrontos entre ministros, questionamentos à condução dos trabalhos e manifestações acaloradas no plenário.

Antes de discutir se uma investigação contra Moraes deveria ou não ser aberta, os ministros precisavam decidir se os procedimentos relacionados às condutas dele e de André Mendonça no caso Master seriam analisados de forma conjunta ou separada. A questão, inicialmente processual, acabou se misturando aos próprios fatos dos casos e às versões apresentadas pelos ministros envolvidos ao longo da sessão.

A votação sobre a junção dos procedimentos chegou a quatro a quatro, com Gilmar Mendes, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes pela análise conjunta, e Edson Fachin, André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia pela separação dos casos.

Ao final, Dino pediu vista, e seu voto deixou de ser considerado na contagem. O placar, portanto, ficou em quatro a três, e a análise foi interrompida antes que o STF chegasse ao mérito de uma eventual investigação contra Moraes.

Na parte da tarde, a discussão sobre o rito dos procedimentos envolvendo Moraes e Mendonça avançou para os próprios fatos e para as versões apresentadas pelos ministros. Gilmar Mendes havia defendido que as petições fossem analisadas em conjunto, enquanto Fachin mantinha o entendimento de que os casos deveriam tramitar separadamente.

Flávio Dino, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes seguiram a posição de Gilmar Mendes, enquanto André Mendonça ficou ao lado de Fachin. A discussão ganhou outro tom quando Moraes passou a questionar diretamente a condução dada por Mendonça ao procedimento que envolvia seu nome. Ainda durante a manhã, Moraes havia afirmado que apresentaria delegados, advogados e testemunhas que, segundo ele, poderiam esclarecer a atuação do ministro na apuração. Mendonça rebateu uma das afirmações com um "É mentira!".

"Miscelânea procedimental"

À tarde, os ministros passaram a discutir também os fatos que estavam na origem dos procedimentos. Moraes questionou a existência de pedidos da Polícia Federal ou da Procuradoria-Geral da República (PGR) para a abertura de investigação contra ele e criticou os prazos e a forma como as informações haviam sido encaminhadas aos ministros:

- Não há pedido. E se houvesse pedido, o que diz aqui: o interessado deve ser intimado do pedido com cópia da imputação com indicação de todas as provas e deve ter 15 dias para se manifestar.

Em outro momento, afirmou que o processo havia se transformado em uma "miscelânea procedimental" e voltou a defender que os casos fossem analisados conjuntamente.

Mendonça, por sua vez, defendeu a separação dos procedimentos. Disse que os casos tinham bases fáticas diferentes e que, no procedimento de Moraes sobre sua relatoria, há um suposto relatório de inteligência que a imprensa havia chamado de falso e que, segundo ele, poderia ter origem ilegal.

Moraes voltou a contestar a versão. Disse que Mendonça havia determinado a preservação e a busca de arquivos identificados como "Moraes.pdf" e "Toffoli.pdf" e que, segundo ele, o material fazia parte de um suposto dossiê ilegal. Também afirmou que o procedimento permaneceu parado por cerca de três meses e que, em 24 de agosto, Mendonça determinou de ofício uma investigação contra ele, sem pedido da PF ou da PGR.

A PGR também entrou no debate. Paulo Gonet negou ter relação de proximidade com Vorcaro e afirmou que o único encontro que teve com o banqueiro foi em abril de 2024, com a presença de outras autoridades. Ontem, o Conselho Superior do Ministério Público Federal marcou para o dia 25 a análise sobre o procedimento que aponta menções de Vorcaro a Gonet. Na sessão, Gonet defendeu a atuação do Ministério Público Federal na apuração.

Na sequência, Mendonça pediu para responder. Nessa hora, Gilmar interrompeu a manifestação.

- É impressionante a desfaçatez desse sujeito - esbravejou.

Diante da reação de Mendonça, disse que ele poderia chorar.

- Impressionante a desfaçatez de Vossa Excelência! Me respeite! Aqui não tem choro, não - rebateu Mendonça

Diante do bate-boca, Dino pediu vista. Ao justificar a interrupção, afirmou que o ambiente havia se tornado incompatível com a continuidade da deliberação.

- Tenho de interromper esta situação porque temos uma questão de ordem. Não temos condições de deliberar. O clima é daí para pior, e a sociedade está assistindo a algo diferente do rito que a lei manda - afirmou.

Fachin aceitou a solicitação e interrompeu a análise. Após o pedido de vista, Luiz Fux e Cármen Lúcia seguiram as posições de Fachin e Mendonça, pela separação dos processos. Em seu voto, Cármen Lúcia criticou a "espetacularização" dos casos e da própria sessão, apontando que faz mal ao Supremo, ao Judiciário e ao Brasil.

- O país espera de nós uma tranquilidade que eu acho que nós não conseguimos dar. _

O que significa o pedido de vista de Dino e seu efeito

Caue Fonseca

caue.fonseca@zerohora.com.br

Conforme o entendimento de especialistas em Direito Constitucional, o pedido de vista do ministro Flávio Dino na sessão de ontem se refere a uma etapa preliminar ao julgamento do mérito da petição em pauta, que analisaria os fatos levantados por relatório da Polícia Federal em relação a Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro.

Dino pediu vista quando a Corte deliberava sobre uma questão de ordem proposta por Gilmar Mendes - cujo ponto central é a unificação das duas petições envolvendo Moraes e André Mendonça.

- Penso que o pedido de vista abrange só a questão de ordem. Ninguém avançou na segunda parte do julgamento, não houve nenhum voto dizendo se o ministro Alexandre deveria ser acusado ou não, se ele poderia ser investigado ou não. É exclusivamente sobre o tema "questão de ordem". A deliberação sobre o fato de Moraes poder ser investigado ou não ficou totalmente fora do julgamento - avalia Marcelo Schenk Duque, professor de Direito Constitucional da UFRGS.

Professor de Direito Constitucional da Atitus Educação, Fausto Morais tem entendimento similar:

- O julgamento é feito em etapas. Antes do assunto principal, assuntos preliminares precisam ser decididos. A questão de ordem é um assunto preliminar para análise da principal, a petição 16.662. O pedido de vista está na petição 16.662, mas para apreciação dessa questão preliminar.

De qualquer forma, Dino tem 90 dias para análise. Embora tenha adiantado seu voto favorável à unificação, o ministro voltou atrás para pedir vista. Seu entendimento acompanharia Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin. Edson Fachin, Cármen Lúcia, André Mendonça e Luiz Fux votaram por manter a separação dos casos.

Na prática, o pedido de vista também impede que a Corte delibere em como se daria o desempate.

Embora haja divergências entre juristas sobre como isso se daria, o entendimento mais comum é de que Fachin, como presidente da Corte, daria um "voto de qualidade", na prática um voto de minerva desempatando a votação. _

Embates no tribunal

O clima entre os ministros esquentou diversas vezes no plenário

Alexandre de Moraes e André Mendonça

Moraes defendeu a análise conjunta dos casos envolvendo a si próprio e André Mendonça

Moraes - (...) Não há como julgar hoje (ontem) sem julgar (próxima) terça (analisar as suspeitas e questionamentos levantados por Alexandre de Moraes contra a conduta de André Mendonça na condução dos casos envolvendo o Banco Master e o INSS), porque eu pergunto, quem tem medo da Polícia Federal? Presidente, quem tem medo da Polícia Federal?

Mendonça - Não, não é questão de medo, não.

Moraes - Eu não estou perguntando a Vossa Excelência.

Mendonça - Não, mas eu estou lhe respondendo.

Moraes - Quem tem medo da Polícia Federal? Quem chamou a Polícia Federal? E exigiu que a Polícia Federal colocasse um colega na colaboração premiada. E vamos trazer aqui, presidente, vamos trazer aqui e chamar aqui testemunhas que eu vou indicar, não só policiais. Advogados, testemunhas, eu tenho testemunhas que o ministro André em reunião disse, "peçam isso".

Mendonça - Isso é mentira.

Moraes - Então, vamos chamar a testemunha?

Mendonça - Mentira.

Moraes - Vamos chamar?

Mendonça - Mentira.

Moraes - Vamos chamar?

Moraes - Não há como julgar hoje sem julgar terça-feira.

Mendonça - Pode chamar quem quiser, vão mentir.

Moraes - O ministro André chamou: incluam o ministro Alexandre. Por quê? Porque está a serviço de um grupo político que quis dar um golpe neste país.

Mendonça - Eu não vou responder. É isso. No meu momento de fala.

Moraes - (...) Então, eu repito, presidente, tudo o que foi feito, essa investigação fraudulenta contra mim, já começou lá atrás. Não dá para julgar uma coisa sem outra.

Gilmar Mendes e André Mendonça

Gilmar Mendes apontou motivação política e eleitoral na condução do caso Master

Gilmar - É evidente e até as pedras sabem que há um inequívoco viés eleitoral na forma como o tema foi conduzido nos autos dessa PET. Escolha de data, 7 de Setembro, todo esse cenário envolvendo essa Corte em campanha eleitoral.

Mendonça - O senhor está sendo leviano.

Gilmar - Isto não se faz. Pessoas decentes não fazem isso. Vossa Excelência não tem a palavra. Vai escutar com tranquilidade. Houve evidente condução político-eleitoral na escolha do 7 de Setembro. Isso não se faz. Pessoas decentes não fazem isso.

Mendonça - Não aponte o dedo para mim, ministro Gilmar. Não está falando com qualquer um. Respeite esse tribunal.

Gilmar - Quem não se dá respeito não merece respeito.

Gilmar também afirmou que a condução do caso submeteu integrantes da Corte a situações que classificou como indevidas.

Gilmar - É uma atitude covarde, vil. Já disse isso antes: até a máfia tem ética. É preciso ter decência. Não se comporta assim.

Flávio Dino e Edson Fachin

Os dois ministros se estranharam no plenário a respeito do uso da palavra

No momento em que Dias Toffoli se declarava suspeito para participar do julgamento, Dino pediu aparte.

Presidente da Corte, Fachin interviu, afirmando que a concessão de palavra seria dada pela presidência. Dino rebateu que a palavra é concedida por quem está falando.

Fachin elevou a voz e insistiu: "Vossa Excelência precisa pedir a palavra à Presidência".

"Vou seguir o regimento da Corte", reagiu Dino, e seguiu falando.

Mais tarde, quando Gilmar Mendes falava, Dino pediu licença para interrompê-lo. Em seguida, questionou Fachin se ele permitia que Gilmar o autorizasse.

"A ironia está nas entrelinhas. Sem dúvida, Vossa Excelência tem a palavra", respondeu Fachin.

"A ironia serve para descontrair o ambiente, Vossa Excelência sabe disso. É Aristóteles", revidou Dino.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

 

Bolinhas pula-pula

Os pais criam obsessões com os filhos, e depois não sabem mais como parar. Pode ser com Kinder Ovo, figurinhas, bonecos de pelúcia, brindes do McDonald?s.

É uma coleção que surge de um agrado circunstancial e vira um vínculo permanente de afeto. Eu consumia parte do meu salário com bolinhas pula-pula para contentar os meus dois filhos.

Elas quicavam - cada uma de modo diferente - e saltavam para longe. Lembravam ginastas de roupas coloridas, com saltos ornamentais bem ousados. Chegavam ao telhado com um impulso forte.

Jogadas contra o chão, disparavam imprevisivelmente. Tanto que eu não permitia seu uso na rua, só em casa, para evitar que causassem acidentes, ou que fossem para o meio dos carros, ou que atingissem pessoas na calçada.

Minhas crianças gostavam do efeito, curiosas para descobrir o ponto mais alto que a bolinha alcançaria. Ela batia na parede, no teto, nas quinas das mesas.

Quanto menor e mais elástica, maior a impressão de que contava com vontade própria. Caçar o paradeiro de uma bolinha era a graça, pois ela desaparecia no fliperama dos móveis. As máquinas costumavam ficar na porta de padarias, lojas de conveniência, armazéns, supermercados, lanchonetes, farmácias.

Apresentavam uma vitrine abarrotada de bolinhas de borracha: lisas, transparentes, rajadas, multicoloridas, com desenhos geométricos, manchas e espirais. Algumas se assemelhavam a olhos, outras a bolas de vôlei, futebol, basquete.

Você enxergava todas e, naturalmente, queria uma específica. O problema é que não havia como escolher. Tudo dependia da sorte. Colocava-se a moeda na abertura e girava-se uma manopla metálica.

Ouvia-se o barulho seco das engrenagens e uma bolinha descia para a portinhola. Você enfiava a mão para retirar o presente aleatório. Os gastos começavam por esse impasse. Nunca vinha a bolinha desejada, cobiçada, naquele amor à primeira vista com um dos itens da redoma de vidro. E se repetia o processo para obtê-la.

Os pequenos namoravam logo a mais difícil, a mais vistosa, no topo do montinho, algo como uma circunferência marmorizada, que parecia conter uma galáxia por dentro, mas a geringonça disponibilizava a que estava no fundo, soterrada, anônima e secreta.

Minha niqueleira se esvaziava rapidamente. Eu jamais me detinha nos 50 centavos. Dediquei uma módica fortuna para a nossa vã insistência. Os irmãozinhos perdiam horas comparando as bolinhas, trocando, elegendo a preferida. Antes de dormir, guardavam os brinquedos num pote no quarto e sonhavam com peripécias dos seus planetas saltitantes.

Iniciei os meus filhos numa loteria infantil. Talvez sejam até hoje viciados no acaso, no suspense do incerto, na adrenalina do desconhecido, sem antever o prêmio, atentos para o que a vida oferece, gulosos por novidades.

No fim, quem colecionou a infância deles fui eu. 

CARPINEJAR

 

15 de Setembro de 2026
NÍLSON SOUZA

Visualização única

Zap para aquele ET que está chegando agora: o Corruptor-Geral da República está na cadeia e, desde a semana passada, o Brasil vem sendo passado a limpo com a exposição pública de mazelas praticadas por integrantes dos altos poderes da Nação e por outros agentes públicos e privados. 

Olhando-se para o copo meio vazio, pode-se dizer que nunca se viu tanta ganância, roubalheira e corrupção. Mas, com o copo meio cheio, pode-se fazer um brinde à transparência.

O aspecto animador dessa verdadeira orgia de imoralidades é que talvez não seja preciso destruir Sodoma e Gomorra para o país sair melhor desse lamaçal. Embora ainda estejamos no olho do furacão e muitas outras tempestades paralelas possam se formar, já se pode vislumbrar com alguma nitidez quem mente, quem tenta se esconder atrás de biombos erguidos em causa própria e quem não teme mostrar a cara.

Os malfeitores da República acabaram fazendo um bem para o país: sem querer, obviamente, reativaram um princípio Constitucional frequentemente negligenciado, pelo qual fica estabelecido que a regra é a publicidade; o sigilo, a exceção. Não sei quanto tempo vai durar isso, nem mesmo se o que ficou combinado na semana passada continua valendo nesta terça, dia D para a sessão de exorcismo do Supremo Tribunal Federal. 

Mas fiquei um pouco aliviado com a revelação dos mandos e desmandos apurados nas investigações da Polícia Federal. São subsídios valiosos para os cidadãos bem informados tomarem posição na hora de escolher seus representantes. E também para o país reavaliar sua governança e buscar novos mecanismos que limitem o excesso de poder.

Talvez essa exposição de feridas seja apenas um flash de visualização única, como as tais mensagens digitais que desaparecem depois de lidas, utilizadas prioritariamente por quem tem alguma coisa a esconder. 

Mas, pelo menos, possibilita que os brasileiros vejam os poderes e os poderosos sem o véu da hipocrisia com que costumam se apresentar, recurso, aliás, ainda utilizado fartamente nas atuais propagandas eleitorais em que os próprios partidos políticos usam voz acelerada para esconder sua identidade e, por consequência, seus verdadeiros propósitos. 

NÍLSON SOUZA