quarta-feira, 12 de agosto de 2026

12 de Agosto de 2026
CARPINEJAR

Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes

Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora de produção nacional. A adesão é instantânea, quase inexplicável, numa bariátrica da consciência coletiva.

A aquisição dos medicamentos cresceu 23,2% no primeiro semestre deste ano. Somente no mês de junho, foram comercializadas 368 mil unidades. A pílula azul desbravou o caminho mercadológico para essa onda de procura. Quem diria: o responsável por elevar a libido gerou o rascunho da aceitação pública dos inibidores de apetite. Um para mais, outro para menos.

As canetas de semaglutida e tirzepatida operam na plataforma financeira como o Viagra em 1998: uma explosão de vendas impulsionada por consumidores dispostos a pagar do próprio bolso pelo medicamento, sem nenhuma cobertura de planos de saúde ou subsídio do governo.

Surgiu até uma nova expressão para a magreza súbita: "rosto de Ozempic". Quando o rosto murcha rapidamente. É uma epidemia. Todo mundo possui um conhecido ou familiar que usa um dos remédios.

Eles ajudam a neutralizar a fome porque imitam hormônios do intestino que mandam sinais para o cérebro. Provocam menos vontade de comer, retardam o esvaziamento do estômago e intensificam a sensação de saciedade.

Minha apreensão não é em relação a eles, mas à perigosa automedicação. Não é possível aumentar as doses por bel-prazer, tentando acelerar o processo para fazer bonito em alguma festa ou durante uma viagem.

Tomar remédio por conta é uma temeridade. Pode causar dor abdominal, constipação, diarreia, vômitos, náusea e fadiga, além de consequências adversas que exigem acompanhamento médico.

Agora quem sofre com os efeitos colaterais da disseminação das canetas são os restaurantes. Não sei qual será a sina dos rodízios, em especial churrascarias, pizzarias e galeterias. Banquetes livres estão ameaçados pela contenção da gula.

Não haverá mais sentido para o trânsito de espetos, para a abundância de massas. Perde-se o folclore de abrir o cinto para insistir em mais uma fornada e caber mais um pouco.

Uma pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, realizada com 1.417 estabelecimentos em todo o país, revelou que 61% dos endereços perceberam mudanças no consumo. Caíram drasticamente os pedidos de pratos principais e sobremesas.

Diminuiu, e muito, a quantidade de comida. As taras destinadas a pesar a refeição nos buffets a quilo resultam absolutamente modestas. A porção correspondente a uma só pessoa passou a ser dividida. Existe uma tendência por uma alimentação mais leve.

Ocorreu, também, a debandada considerável de clientes que almoçavam ou jantavam fora. Numa enquete feita pelo banco UBS com pacientes que utilizam medicamentos análogos de GLP-1, constatou-se que um terço deles prefere comer em casa.

Proprietários do setor gastronômico começam a pensar em reduzir as guarnições do serviço à la carte. Para evitar o desperdício. Para frear os gastos.

Apenas espero que não se repita o que aconteceu nos supermercados, com a manutenção dos preços em embalagens menores. Sabão em pó, amaciante e papel higiênico frequentemente apresentam queda de volume por valores semelhantes aos de antigamente. Diversos produtos com 1 litro acabaram achatados para 900 ml, 800 ml ou menos, numa prática chamada de reduflação.

Não mereço que os pratos emagreçam junto. Não tenho culpa. Continuo com a ansiedade da infância. _

CARPINEJAR

12 de Agosto de 2026
MÁRIO CORSO

Expresso 2222

Nossa estimativa de voo é de três gerações. Verifique se seu passaporte intergaláctico está válido.

Em caso de colisão com microasteroides, máscaras de oxigênio cairão automaticamente na sua frente. Coloque primeiro a sua antes de colocar no seu pet. Trave bem seu capacete antes de sair da nave.

Desligue seus aparelhos eletrônicos até ultrapassarmos o cinturão de Kuiper. Último posto de combustível antes de Andrômeda. Aproveite a promoção de energético de íons de tório para pagamento à vista.

Nas dobras do espaço/tempo, evite acenar para seus eus do passado. Faça refeições leves antes de atravessar áreas de turbulência eletromagnética.

Não abra o cinto de segurança quando a nave estiver próxima da velocidade da luz. Use protetor de raios cósmicos. É vedada a entrada de não humanoides na cabine da espaçonave.

Em caso de pane do sistema de gravidade artificial, agarre-se às boas lembranças.

Nossos banheiros são equipados com detector de fumaça. Passageiro pego fumando ficará na estação órbital, ou no planeta mais próximo. Não use maquiagem dentro da cabine de hibernação.

Evite soluçar ou espirrar durante o teletransporte, você pode ser duplicado. Em caso de duplicação, deve ser adquirida uma nova passagem.

A bagagem despachada pode chegar antes de você ter nascido. A empresa não se responsabiliza por paradoxos de entrega. Em caso de colisão com buraco de minhoca, mantenha a calma, você chegará antes de ter saído.

Objetos de mais de três dimensões devem ser despachados. Se notar o comandante em pijamas é porque o piloto automático está ativado. Se notares o piloto automático em pijamas, favor acordar o piloto.

Em caso de morte de passageiro, a família não ganha estorno do bilhete, apenas das refeições não consumidas. É gratuita a ejeção do corpo, desde que preenchido o formulário da escolha: ser arremessado em direção à alguma estrela, ou buraco negro. Lembramos que é proibido enterro em asteroides.

É proibido circular com pets sem colar gravitacional. A companhia não se responsabiliza por danos causados por fraldas de hibernação mal ajustadas. Taxa de limpeza será cobrada à parte. O comboio parte hoje de Bonsucesso e chega depois do ano três mil. 

MÁRIO CORSO

12 DE AGOSTO DE 2026
OPINIÃO RBS

A desconfiança como alerta

A mais recente pesquisa Genial/Quaest sobre a confiança dos brasileiros nas instituições públicas e privadas do país, divulgada no último domingo pelo jornal O Globo, traz subsídios valiosos para os candidatos a cargos públicos na próxima eleição, mas também para os atuais integrantes da administração do país e até para lideranças de organizações privadas. 

Consideradas naturais limitações técnicas de um levantamento por amostragem (2.004 pessoas ouvidas), o resultado indica claramente que as principais instâncias dos três poderes - a Presidência da República, o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional - continuam sendo vistas com preocupante descrédito por parcela expressiva da população brasileira. É um sinal de alerta que precisa ser considerado: a desconfiança persistente nas instituições públicas corrói a democracia e abre espaço para o autoritarismo.

Um aspecto extremamente significativo da sondagem é a aparição do Pix como instituição mais confiável dos brasileiros, com 80% de indicações. O sistema de pagamentos instantâneos instituído pelo Banco Central - e questionado pelo atual governo norte-americano como concorrência desleal às empresas de cartões de crédito - tem o apoio majoritário da população. 

Por quê? Por sua praticidade e eficiência e também por oferecer uma utilidade essencial para os usuários, como deveriam ser todos os serviços públicos. No detalhamento, a pesquisa demonstra também que o Pix detém a confiança de pessoas de todos os segmentos do espectro ideológico.

Depois dele, com alto índice de confiança na visão dos brasileiros entrevistados, aparecem a Igreja Católica (76%), a Polícia Militar (75%), os militares/Forças Armadas (70%) e os bancos (63%). Só então surgem instituições da estrutura administrativa: Presidência da República (57%), STF (50%) e Congresso Nacional (49%). 

A imprensa também é colocada nesta faixa pelos brasileiros consultados, com 50% de aprovação, indicativo de que precisa continuar investindo em precisão, transparência e credibilidade. Nas últimas posições do novo ranking aparecem os partidos políticos (44%) e as redes sociais (41%).

Cabe considerar que as instituições políticas, embora mal cotadas, apresentaram leve melhora em relação ao levantamento anterior do mesmo instituto, realizado em 2023. Mas o sistema político brasileiro carece de reformas estruturais aprofundadas para que os cidadãos passem a confiar mais nos seus representantes, com ações efetivas de aumento da transparência orçamentária, respeito às regras democráticas, combate à corrupção e prestação de serviços essenciais.

Aferições sistemáticas como o recente levantamento comprovam que todas as instituições nacionais - públicas e privadas - têm margem para aperfeiçoamento. Indicam, ainda, que os brasileiros precisam exercer melhor os seus direitos de cidadania, não apenas cobrando honestidade e eficiência dos entes políticos, mas também participando ativamente da vida do país - informando-se adequadamente, votando com consciência e acompanhando atentamente o trabalho dos seus representantes na administração pública. 

OPINIÃO RBS

12 de Agosto de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Não haverá vice decorativo nos próximos quatro anos no RS

Ganhe quem ganhar a eleição de outubro, o Rio Grande do Sul não terá o que Michel Temer chamou de "um vice decorativo". Pelo perfil dos companheiros de chapa de Gabriel Souza, Juliana Brizola, Luciano Zucco e Marcelo Maranata, nenhum é do tipo que se contenta em ganhar R$ 29,5 mil (brutos) para ficar em casa esperando o titular se afastar para assumir o cargo.

Ex-secretário do Desenvolvimento, Ernani Polo (PSD) já tem até missão definida para o caso de Gabriel se eleger governador. Será ele o interlocutor com os setores produtivos, como já vem ocorrendo na campanha, podendo retornar à secretaria, repetindo o que fez Ranolfo Vieira Júnior no primeiro governo de Eduardo Leite, quando foi secretário da Segurança. Outro exemplo é o do vice-presidente Geraldo Alckmin, que até março era ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.

O vice de Juliana, Edegar Pretto (PT), é mais experiente do que ela e estaria concorrendo a governador se não fosse o acordo pelo qual o PT abriu mão da candidatura própria para apoiar o PDT. De perfis diferentes, Pretto já vem representando a chapa em setores onde ele tem mais trânsito ou quando a candidata prefere não comparecer, como ocorreu na segunda-feira na Transposul. Caso Juliana seja eleita, Pretto terá papel central no governo, repetindo o que ocorreu com Miguel Rossetto, vice de Olívio Dutra, que tinha gabinete na ala residencial do Piratini.

A deputada estadual Silvana Covatti (PP) também é bem mais experiente do que Zucco, seu companheiro de chapa. Ex-presidente da Assembleia e ex-secretária da Agricultura, Silvana é uma mulher que precisará ter um papel no governo, pelo que o PP representa na composição da aliança. Zucco tem dito que vai montar um secretariado mais técnico, com pessoas capacitadas na área em que vão atuar. Não seria a Agricultura a área de Silvana, mas pela sua biografia também não pode ser um gabinete sem trabalho efetivo.

Com perfil de atuar na linha de frente

Maranata escolheu inicialmente uma vice acostumada a colocar a mão na massa, a produtora rural Betty Cirne Lima, mas ela acabou cedendo ao apelo do governador Eduardo Leite e dos diferentes setores do agro para continuar à frente do Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio, como uma espécie de prefeita da Expointer. Maranata então puxou Cláudio Diaz, que seria candidato ao Senado, e fez dele seu vice. Pelo perfil, Diaz é um homem da linha de frente e não aceitaria ser apenas o substituto eventual. _

"Uma pedra em cima" das divergências com o enteado

O interesse político falou mais alto do que as rusgas pessoais entre o candidato do PL a presidente, Flávio Bolsonaro, e a ex- primeira-dama Michelle Bolsonaro, sua madrasta.

Ontem, Michelle enfim se encontrou com Flávio, tirou fotos, gravou vídeos para as redes sociais e disse ter colocado "uma pedra em cima" das divergências com o enteado.

É cedo para falar em reconciliação plena. Ela diz que aceitou o pedido de desculpas de Flávio, mas não esqueceu a forma como foi tratada. O mais preciso é falar em trégua.

Esse foi o primeiro encontro entre os dois, depois de levantarem a bandeira branca.

Questionada sobre a campanha, disse que não deve viajar pelo Brasil com Flávio porque precisa cuidar do marido, Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar. _

Em busca de acesso a mais produtores

Na tentativa de ampliar o acesso dos produtores rurais às medidas de renegociação de dívidas anunciadas pelo governo federal, o governador Eduardo Leite expôs ontem ao ministro da Fazenda, Dario Durigan, em Brasília, sua preocupação com a regulamentação que, no formato sugerido, atenderia apenas cerca de 10% dos agricultores.

Leite aproveitou para avançar nas negociações para adesão ao Propag, e sinalizou que o Estado deve oferecer cerca de R$ 20 bilhões em créditos de receitas futuras como ativos para amortizar o total da dívida. A divergência entre os dois se dá a respeito do índice de correção. _

Campanha nas ruas

Será em Porto Alegre a largada da campanha eleitoral dos principais candidatos ao governo e ao Senado, domingo.

O roteiro de Luciano Zucco (PL) deve começar pelo comitê em Porto Alegre, na Rua Voluntários da Pátria, seguido de mobilização em algum ponto da Capital, e depois seguir em direção a algum município da Grande Porto Alegre.

Juliana Brizola (PDT) fará caminhada e ato no Brique da Redenção, acompanhada de Edegar Pretto e dos candidatos da aliança ao Senado, Manuela D?Ávila (PSOL) e Paulo Pimenta (PT).

Gabriel Souza (MDB) deverá começar a campanha com um "adesivaço" na Capital, com a participação dos candidatos ao Senado da aliança, Germano Rigotto (MDB) e Frederico Antunes (PSD).

Marcelo Maranata (PSDB) ainda não definiu a agenda. _

Médicos do IPE Saúde terão reajuste

A partir de 1º de setembro, os honorários médicos pagos pelo IPE Saúde serão reajustados para se aproximar das tabelas dos principais planos de saúde. Consultas médicas para quem se credenciou como pessoa jurídica, por exemplo, passam para R$ 121. Para os médicos cadastrados como pessoas físicas, são R$ 84. Visitas médicas hospitalares a pacientes internados vão para R$ 60. Os valores de coparticipação pagos pelos segurados permanecem os mesmos. _

Vereador terá de remover vídeo

O vereador de Porto Alegre Jessé Sangalli (PL) terá de remover vídeo publicado nas suas redes sociais onde acusa o governo estadual de fazer chantagem eleitoral.

Segundo o parlamentar, Eduardo Leite e Gabriel Souza estariam exigindo apoio à candidatura do emedebista em troca da liberação de recursos para obras de reconstrução. Como não apresentou provas, a Justiça Eleitoral determinou a exclusão do conteúdo. _

POLÍTICA E PODER

12 de Agosto de 2026
EM FOCO

EM FOCO

Participação de votantes entre 16 e 17 anos no processo eleitoral havia batido recorde em 2022, com mais de 80 mil pessoas. No pleito deste ano, só 54,7 mil estão aptos a ir às urnas. Movimento também foi observado no país

Número de eleitores adolescentes cai 30% no Estado

O número de adolescentes aptos a votar no Rio Grande do Sul em outubro caiu cerca de 30% em comparação com as eleições gerais de 2022. Conforme estatísticas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), são 54.702 eleitores de 16 e 17 anos no Estado. Em 2022, eram 80.044. Embora a população tenha encolhido nessa faixa etária no período, a queda no número de eleitores é maior.

De acordo com a Secretaria Estadual de Planejamento, Governança e Gestão (SPGG), a projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que o Estado tem 10% menos pessoas de 16 e 17 anos em 2026 do que tinha em 2022. O movimento também foi observado nacionalmente.

Nas eleições gerais passadas, eram cerca de 2,1 milhões de jovens aptos a votar em todo o país, número mais alto da história.

Já na deste ano, serão 1,6 milhão, retração em torno de 22%.

O voto só é obrigatório a partir dos 18 anos. Conforme a professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFRGS Jennifer Azambuja de Morais, que estuda a participação de jovens na política, a falta de interesse desse grupo pela política institucional é histórica.

Entre 2018 e 2022, houve um aumento após uma campanha da Justiça Eleitoral.

Outros fatores incluem a falta de representatividade entre os políticos, que são, em sua maioria, adultos mais velhos, e o desencanto com o sistema político.

Embora não seja nova, essa realidade é reforçada pelas ondas de polarização e pelo processo de informação e comunicação via redes sociais. O que no passado levou a protestos nas ruas, conforme Jennifer, hoje gera apatia.

- O engajamento online é diferente do presencial. O jovem é muito engajado nesses espaços, nas redes sociais, mas isso também é um fator que diminui (a participação nas eleições) - observa Jennifer.

A professora aponta ainda que jovens de famílias com rendas mais elevadas tendem a ter cerca de 10% a 15% mais participação:

- As escolas privadas trazem mais o debate político em sala de aula. E os pais, às vezes, também falam mais, colocam mais a política como algo central para a resolução de problemas. Adolescentes e jovens de classe mais baixa estão vivendo tantos problemas que a política acaba ficando mais afastada deles. _ Gabriela Plentz

Grupo acima dos 60 cresceu

Na direção oposta, o eleitorado acima de 60 anos vem aumentando. De acordo com o TSE, o número de eleitores nessa faixa etária aumentou 13% entre 2022 e 2026 no Estado, percentual ligeiramente superior ao crescimento da população nessa mesma fase da vida (11%).

A tendência é a mesma no plano nacional. Para o cientista político Rodrigo Gonzalez, o fenômeno do envelhecimento serve como elemento de mobilização das pessoas mais velhas, em questões como aposentadorias e saúde, levando a uma maior participação:

- Hoje, uma pessoa com 65 anos ou mais tende a ser muito mais ativa do que há 30 ou 40 anos, até mesmo por aumento do período de trabalho ativo e aposentadoria tardia. Em várias partes, como Reino Unido e Espanha, os mais velhos estão mais presentes em manifestações políticas do que os jovens.

A maior fatia do eleitorado gaúcho está na faixa entre 40 e 49 anos, assim como no nível nacional. As mulheres representam 53% e os homens, 47%.

No total, são 8,5 milhões de pessoas aptas a votar no RS. Ainda segundo o TSE, o Estado tem 21.022 eleitores com cem anos ou mais (veja gráfico). Mas o Censo de 2022 apontou 1.536 pessoas centenárias no RS. 

Em nota, o TSE afirmou que utiliza metodologia distinta do IBGE e que a divergência pode se relacionar a "eventuais inconsistências na data de nascimento registrada no cadastro eleitoral" ou a "situações em que o falecimento da pessoa ainda não tenha sido comunicado oficialmente à Justiça Eleitoral". 

sábado, 8 de agosto de 2026

Um ponto de equilíbrio no máximo de tensão

O que estimula pessoas ditas "normais" a escolher profissões eletrizantes e se tornarem viciadas em adrenalina? "Aprenda com os erros dos outros. Você não consegue viver tempo suficiente para cometer todos por si mesmo." (Eleanor Roosevelt)

Falando aos mais jovens sobre as barreiras que desafiam nosso progresso profissional, foi inevitável falar do medo de errar. Não daquele receio prudente que nos faz olhar para os dois lados antes de atravessar a rua, mas do medo que amordaça o projeto de ambição. Aquele que sussurra ao ouvido que é melhor nem tentar, porque a queda é pública e o julgamento é implacável. 

No entanto, quando olhamos para trás, percebemos que as médias e grandes conquistas que eventualmente acumulamos não representaram a ausência do medo, mas a nossa capacidade de administrá-lo.

Viver, afinal, é um exercício de observação. E claro que identificar o que significa a profilaxia do erro, a partir da experiência de quem só pretendia acertar, é um exercício de inteligência e principalmente de humildade, e há uma sabedoria serena nisso. Olhar o tombo alheio não para julgar, mas para ajustar a própria rota, é o que nos permite avançar sem pesadelos na madrugada.

Ainda assim, não importa a atividade ou a exigência de treinamento para exercê-la com competência, a nuvem negra do erro sempre nos perseguirá. Ela é a nossa sombra mais fiel e uma régua implacável na identificação de perfis humanos.

Há os que erram e, assumindo o erro, se diferenciam; os que não se dão conta que erraram e se candidatam a repetir indefinidamente; e os que anunciam que nunca erraram, e todos entendem a mensagem: eles nunca fizeram nada.

O preço assustador desta sina, evidentemente, se multiplica em atividades de risco. Submete o piloto, o motociclista e o cirurgião a níveis de concentração e estresse que o bibliotecário, o alfaiate ou o jardineiro nem imaginam. Enquanto uns buscam o silêncio das páginas ou a precisão mansa da tesoura, outros precisam domar o caos em frações de segundo. 

O que estimula pessoas ditas "normais" a escolher profissões eletrizantes e se tornarem viciados em adrenalina - o thrill seeking, como lembrou o professor Nardi - ainda carece de entendimento da psicologia e da neurobiologia. Mas a verdade é que os protagonistas desse estilo de vida preferem não polemizar. Para eles, e talvez só para eles, isso - e apenas isso - significa VIVER.

Eles buscam para chamar de felicidade, algum tempo de sossego para calibrar a gana de fazer e juram que pode existir alguma calmaria no olho do furacão. Não se incomodam com aqueles, também considerados normais, que se sentem genuinamente realizados na inércia que abomina sobressaltos. Claro que há espaço no mundo para o lago calmo e o mar revolto.

Entretanto, a grande tragédia pessoal não é escolher a segurança do lago, mas desejar o oceano e deixar-se amordaçar pelo medo de naufragar. O erro não é o oposto do sucesso: é o pedágio inevitável para quem se recusa a passar pela vida como um mero espectador e define a felicidade como um ponto de equilíbrio no máximo de tensão. 

Quem convive com a alta tensão sabe que o erro está espreitando, mas sabe também que a paralisia dói muito mais do que a queda. No final das contas, a audácia não é a falta de medo; é a certeza de que a ambição de se sentir vivo é maior do que o temor de errar, e nesse desassossego saem de casa todos os dias, cedo da manhã, cantarolando. 

J.J. CAMARGO 

 

08 de Agosto de 2026
MARTHA MEDEIROS

Gente grande

Não importa a idade que temos, há sempre um momento em que é preciso chamar um adulto. Publiquei essa frase em alguma crônica do passado, inspirada por uma conversa que tive, há muito tempo, com uma amiga. 

Ela me contou que estava no quarto do hospital onde o pai estava internado. De repente, o quadro dele piorou. Ela tinha cerca de 35 anos, na época. Virou-se para a prima que a acompanhava e disse: "precisamos chamar um adulto". O episódio havia transcorrido meses antes e, ao me descrever a cena, rimos como se fosse um esquete de comédia.

Comédia é coisa séria.

Quando é que nos tornamos um adulto? Convenções etárias determinam a idade em que se pode votar, dirigir um carro, concorrer a um cargo público, mas não há uma idade que indique que ficamos aptos a arcar com as consequências de viver em um mundo onde tudo é impermanente. Hoje você está segura em um casamento, amanhã descobre que seu marido se envolveu com outra. 

Hoje você está planejando uma viagem com as amigas, amanhã cai em um golpe que raspa as suas economias. Hoje você está em Paraty, celebrando a literatura com colegas escritores, na noite seguinte está dentro de uma ambulância acompanhando sua mãe que está sendo levada ao hospital com urgência.

Diante do desespero, dá mesmo vontade de chamar um adulto, que em nossa imaginação é alguém com sangue frio para tomar as decisões certas, aquelas que reverterão o pesadelo. O medo nos devolve a um estado infantil, em que só queremos segurar a mão de alguém que cuidará de tudo.

Etarismo contra nós mesmos: acreditar que não somos capazes de lidar sozinhos com as rasteiras que a vida nos dá. E de rasteira a vida entende.

Quando você chama alguém para dividir um problema, não está sendo fraco, e sim, adulto: não precisamos decidir tudo pela nossa cabeça ou sofrer sem um ombro por perto. Pedir ajuda revela saúde mental. Bem diferente de quando se "chama um adulto" a fim de passar adiante o impasse, declarando-se inábil para assumir a responsabilidade das próprias ações. 

Quando não há maturidade emocional, você pode ter 35, 52, 64, 88: não cresceu. A infantilidade vitalícia é um local confortável e ilusoriamente seguro, onde todos atendem suas necessidades sem que você precise arriscar seu pescoço, mas é uma existência de muletas, que nunca conhecerá o prazer de andar com as próprias pernas e evoluir através de seus erros e acertos.

Nos últimos meses, foram incontáveis as vezes em que eu gostaria de ter chamado um adulto para resolver questões de gente grande. Nas horas mais difíceis, chamei. E, para meu secreto orgulho, veio eu mesma em meu socorro. Que vitória histórica é descobrir que sempre se pode crescer um pouco mais. 

MARTHA MEDEIROS


08 de Agosto de 2026
SARA BODOWSKY

O conteúdo desta coluna reflete a opinião da autora

Nova fase - Um clássico paulistano renasceu

Estive em São Paulo na última semana com um olhar muito atento ao que pudesse interessar a vocês, meus leitores - e também a quem consome meu conteúdo em outras mídias. Vou dividir bastante com vocês aqui na coluna durante o mês de agosto.

Mas já adianto que um dos lugares que visitei foi a Galeria Metrópole (Av. São Luís, 187), no centro da cidade, junto ao icônico Copan (que merece uma página dedicada, inclusive!). Apesar de sofrer ainda com a insegurança típica dos grandes centros, especialmente com o roubo e furto de celulares, a região central de São Paulo está revivendo de maneira muito interessante.

A Galeria Metrópole é um exemplo desse renascimento. Inaugurada nos anos 1960, na Praça Dom José Gaspar, na República, ela já foi um dos endereços mais elegantes da capital paulista: tinha cinema para mais de mil pessoas, boate e bares frequentados por universitários, intelectuais e nomes como Chico Buarque.

O prédio, ícone da arquitetura modernista projetado por Gian Carlo Gasperini e Salvador Candia, abriga hoje lojinhas de design, ateliês, brechós e muito verde no paisagismo interno. Tem comida peruana de verdade no Rinconcito Peruano - provei um ceviche e um arroz chaufa incríveis - e sorvete de sabores nordestinos, na Cangote, além de uma gastronomia super diversa. Aos domingos, uma feirinha com arte, brechó e comidinhas lota os corredores, reunindo de forma democrática vários públicos paulistanos.

No @SaraBodowsky tem um vídeo com o que registrei na Galeria Metrópole. _

SARA BODOWSKY

COM A PALAVRA

Ativista cujo nome se transformou na lei mais importante de prevenção à violência contra as mulheres no Brasil

"Avançamos muito na punição, mas ainda pecamos na prevenção"

Poucas pessoas têm o próprio nome associado a uma transformação social tão profunda. Ao se completarem, nesta sexta-feira, 20 anos da sanção da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340), a farmacêutica cearense Maria da Penha Maia Fernandes, 81 anos, avalia os resultados da medida. Ela sobreviveu a duas tentativas de feminicídio, recorreu a instâncias internacionais para buscar justiça e ajudou a mudar a forma como o país enxerga e combate a agressão contra as mulheres. Contudo, apesar dos avanços legais, os índices de violência doméstica e de feminicídio seguem alarmantes no Brasil. Nesta entrevista, Maria da Penha faz um balanço sobre duas décadas da legislação, destaca o papel crucial das medidas protetivas de urgência e alerta para a necessidade urgente de fortalecer a prevenção, a capacitação dos agentes públicos e a rede de atendimento.

Pâmela Rubin Matge

Transcorridos 20 anos, como é ter o nome associado à mais importante legislação de proteção às mulheres do país?

Neste aniversário de 20 anos da lei batizada com meu nome, o que mais me chama a atenção é que houve uma mudança na mentalidade da sociedade brasileira. Conseguimos tirar a violência doméstica de dentro de casa e mostrar que esse não é um assunto restrito à família, mas um problema de todas as pessoas. Antes de 2006, quando um casal brigava ou havia uma agressão, o caso, muitas vezes, era resolvido no juizado com a doação de uma cesta básica, e pronto.

É que violência doméstica deixou de ser um problema privado, mas do Estado...

Sim. A Lei 11.340/2006 quebrou essa lógica, e este é o seu maior legado. A sociedade e o Estado passaram a entender que agredir uma mulher em casa é um crime tão grave quanto agredi-la na rua.

A partir do texto original da lei, outras iniciativas e atualizações legislativas foram surgindo. Como a senhora avalia essa evolução?

Não posso deixar de destacar a medida protetiva de urgência (MPU). Ela é o principal mecanismo para afastar o agressor da vítima e proibi-lo de se aproximar ou manter qualquer tipo de contato. Ao longo desses 20 anos, tem sido a ferramenta mais concreta ao alcance de uma mulher em situação de risco. E a legislação não parou no tempo, continua sendo atualizada. Tivemos avanços cruciais, como o reconhecimento formal do crime de violência psicológica e de outros tipos de abusos, a tipificação da Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104/2015) como qualificadora do homicídio, e o uso de tornozeleiras eletrônicas para o monitoramento de agressores. Tudo isso demonstra que a Lei Maria da Penha é uma legislação viva, que vai se ajustando às novas dinâmicas da realidade.

Existe um consenso sobre a necessidade de integrar políticas públicas, investimentos e redes de proteção. O que mais pode frear a escalada da violência?

O ponto que mais me preocupa é saber que a lei é muito boa no papel, mas ainda demonstra, na prática, não ser efetiva em todos os casos. Os números ainda assustam, porque a maioria das mulheres mortas por companheiros ou ex-companheiros nem sequer conseguiu chegar à Justiça a tempo. Isso é um problema seríssimo. A lei foi estruturada para funcionar como uma teia: delegacias especializadas, assistência social, Poder Judiciário e políticas públicas de prevenção, atuando em conjunto. O Estado precisa aprender a identificar o risco precocemente e intervir antes que o pior aconteça. Precisamos interiorizar e expandir a rede de proteção.

E o que ainda precisa mudar? Onde estão as maiores falhas no atendimento às vítimas?

Avançamos muito na punição, mas ainda pecamos na prevenção. O fator racial e social também pesa de forma decisiva nesse cenário. Mulheres negras, indígenas e moradoras da periferia morrem proporcionalmente mais, o que escancara a necessidade de a lei proteger, de fato, todas as mulheres. Isso exige olhar além do gênero, considerando raça e contexto regional. Além disso, é fundamental capacitar continuamente os agentes do Estado. Ainda testemunhamos operadores do Direito - incluindo policiais, promotores e juízes - questionando o comportamento da vítima ou relativizando violências que não deixam marcas físicas, como a psicológica e a patrimonial.

Qual é o seu maior desejo para os próximos anos quanto à aplicação e evolução da lei?

A lei é um marco histórico, mas marco não é ponto de chegada. Os próximos 20 anos precisam ser focados em transformar essa legislação avançada em proteção real e diária para toda e qualquer mulher brasileira, independentemente de onde ela more ou da cor da sua pele.  

08 de Agosto de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Candidatos precisam reconhecer avanços na educação

Recomenda-se aos candidatos e candidatas ao governo do Rio Grande do Sul a fineza de estudar os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2025 antes de colocar em risco um trabalho consistente, mas ainda incompreendido. Não basta semear clichês sobre o ensino, dizer que é prioridade absoluta, como dizem todos os concorrentes a cada eleição, e não ter um projeto de longo prazo.

Foi pela continuidade das políticas públicas que o Ceará e depois outros Estados nordestinos atingiram resultados melhores do que os ricos do Sudeste.

O que se vê nos debates iniciais sobre educação é uma mistura de desinformação, preconceito, discurso fácil e generalização. É verdade que ainda estamos muito distantes do resultado necessário para chegar próximos dos países desenvolvidos. O Brasil está. As escolas públicas precisam evoluir, sem dúvida, as escolas privadas também. Não há sociedade desenvolvida sem educação pública de qualidade.

Feita essa ressalva, é preciso reconhecer que o trabalho da secretária Raquel Teixeira, muitas vezes criticado até por seus pares pela demora em apresentar resultados, aparece no Ideb de 2025 como sinal de que existe um caminho. Os resultados não são maquiados, como disse Luciano Zucco (PL) no debate da Gaúcha, nem mostram que somos os piores, como insiste Juliana Brizola (PDT), comparando os dados de hoje a um tempo em que só a elite ia para a escola e, portanto, nossos letrados brilhavam no céu do Brasil.

Há muito para ser feito no Rio Grande do Sul, mas quem for eleito não pode querer começar do zero. As medidas adotadas por Raquel e sua equipe, que podem e devem ser aperfeiçoadas, produziram um salto no ranking do Ideb, muito menos pela possibilidade de passar de ano com dependência em quatro matérias e mais pela melhora da aprendizagem mesmo. Está bom assim? Não. Bom seria uma nota acima de 8 nas três fases, mas isso nenhum Estado tem.

Precisa de profundidade

O que os candidatos precisam dizer aos eleitores é o que farão de diferente para a rede toda e não para as laranjas de amostra. Como será a prometida "valorização dos professores", em um cenário de orçamento apertado? De que forma acompanharão os resultados, escola por escola, e valorizarão aquelas que melhorarem em comparação com seus próprios resultados? Vão manter programas de retenção dos jovens no colégio por meio de recompensa financeira ou adotarão a máxima de que ninguém deve ganhar para fazer o que é obrigação? _

Juliana Brizola busca aproximação com empresariado

Disposta a dialogar com empresários, normalmente críticos aos candidatos e governantes da esquerda, Juliana Brizola (PDT) foi a Teutônia na sexta-feira para uma reunião com representantes da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços (CIC) e com o prefeito Renato Airton Altmann (PSD).

Representantes dos setores apresentaram à candidata não só os desafios enfrentados pelo município e do Vale do Taquari, como também as perspectivas de crescimento da região.

Segunda maior economia do Vale do Taquari, Teutônia está entre os municípios do Estado que mais aumentaram sua população nos últimos anos. Hoje, são cerca de 32 mil habitantes, parte deles recém-chegada à cidade, que recebeu novos moradores e empresas da região principalmente após as enchentes de 2023 e 2024.

Na conversa entre Juliana e representantes empresariais, foram abordados temas ligados ao desenvolvimento regional, dentre eles infraestrutura, fortalecimento do setor produtivo, qualificação profissional e prevenção diante dos eventos climáticos extremos. _

Satisfação e futuro

Satisfeita com os resultados do Ideb, depois de cinco anos à frente da Secretaria da Educação, Raquel Teixeira atribui o salto a um conjunto de iniciativas que têm como ponto de partida o trabalho baseado em dados. Ela destaca o sistema de governança, que começa nas escolas e termina no governador, passando pelas coordenadorias regionais de Educação e pela Seduc, todos acompanhando os mesmos indicadores, a começar por frequência e desempenho:

- Hoje, nossas escolas trabalham não apenas com a base curricular comum, mas com protocolos, informações climáticas e habilidades socioemocionais.

Raquel também se orgulha do projeto de educação antirracista, focado na aprendizagem. Outro projeto ao qual ela se dedicou, mas que está mais atrasado, é o da educação indígena - as crianças serão avaliadas no seu idioma materno e na língua portuguesa. _

Com presença pela metade

Apesar das quatro cadeiras dispostas no palco do confronto organizado pela Famurs, com transmissão da TV Pampa, somente duas foram ocupadas, por Gabriel Souza (MDB) e Marcelo Maranata (PSDB).

Diante de uma plateia de prefeitos e gestores municipais, os dois responderam a perguntas sobre a relação do governo estadual com os municípios e expuseram suas ideias para infraestrutura, saúde, municipalismo e desenvolvimento regional.

Juliana Brizola (PDT) e Luciano Zucco (PL) alegaram impossibilidade de participar em razão de outras agendas. Juliana esteve em Teutônia, onde participou de reunião com a CIC, e Zucco ficou em Porto Alegre para reuniões internas da campanha. _

Um exemplo para se inspirar

Em vez de viajar para o Ceará ou para a Finlândia em busca de inspiração, prefeitos que não conseguem bons resultados na educação podem subir a Serra e conhecer um exemplo que dá certo. A cidade é Farroupilha, referência em educação pública. Lá fica a Escola de Ensino Fundamental Santa Cruz, que conquistou de novo o primeiro lugar no Ideb nas duas etapas avaliadas - anos iniciais e anos finais do Ensino Fundamental.

Atenção para as notas obtidas pela Santa Cruz: 9,2 nos anos iniciais e 8,2 nos anos finais.

A título de comparação, a média do RS, somando as redes estadual, municipal e federal e as escolas privadas, é de 6,3 nos anos iniciais e 5,4 nos anos finais. A instituição também é a primeira colocada nas séries iniciais e finais da Região Sul do país.

O que a escola de Farroupilha tem que outras não têm? Em 2024, a diretora da escola deu entrevista à Rádio Gaúcha para explicar o bom desempenho. Em 2023, a Santa Cruz também estava em primeiro lugar no ranking. Não havia nada de milagroso: professores comprometidos, pais envolvidos na educação dos filhos, disciplina e compromisso com aulas interessantes. Antes de virar lei, a escola já tinha proibido o celular em sala de aula.

Nos anos iniciais, três das 10 melhores escolas do Estado são de Farroupilha. _

POLÍTICA E PODER

sábado, 1 de agosto de 2026

01 de Agosto de 2026
MARTHA MEDEIROS

Caos calmo

Quando li o título Caos Calmo destacado na capa, logo entendi que não era apenas o nome de mais um livro brilhante de Sandro Veronesi, e sim a definição de uma era.

Até uma matéria de jornal sobre a final da Copa ganhou a manchete "Caos x Calma". Pegou. Reflexo do jogo que estamos todos jogando, desde a primeira hora da manhã até a noite, inclusive dormindo. A paz do sono tenta neutralizar a bagunça da mente, mas pergunte aos insones quem está vencendo.

Viramos administradores do caos. Tentamos não entrar em desespero diante do evidente descontrole climático, que tem potencial para nos enlouquecer. Morrer de causa natural, agora, significa morrer de ventania, de alagamento. Além disso, governos continuam a confirmar seu poder através de guerras. Afetam a economia mundial e desconsideram a perda de vidas humanas, o que influencia nossas perspectivas.

As pessoas estão escolhendo sexo em cardápios virtuais, encontros rápidos para alívio da tensão. Quase ninguém quer investir tempo na construção de uma relação. Os desejos mudaram: em vez de amor e felicidade para sempre, dinheiro para gastar hoje ainda. O futuro já não entusiasma. Das coisas mais tristes que li outro dia: depois da eficiente campanha antitabagista, jovens estão voltando a fumar. E o motivo dói na alma: a longevidade começa a deixar de ser atrativa. Olha a profundidade disso.

Se tudo será destruído - cidades, amores, sonhos, florestas - o quanto importa viver?

O próprio luto perdeu significado. Difícil honrar um sofrimento pessoal em um mundo onde a dor passou a ser uma banalidade. Nosso cotidiano está tão embrutecido e trepidante que, curiosamente, o lugar onde menos encontramos turbulência é dentro de aviões.

Seria importante conversarmos sobre essas questões durante o jantar, não estivéssemos com os olhos e ouvidos ocupados com nossos celulares. A tecnologia raptou a humanidade. Viramos dependentes do que desconhecidos ostentam, vendem e ensinam em tutoriais e podcasts. Todos têm algo definitivo a dizer, uma dica imperdível de filme, livro, padaria. Todos sabem tudo: psicanalistas, escritores, cozinheiros, deputados. Tagarelas sortidos. Lá estou eu, lá está você, nós e nossas boas intenções, dentro do mesmo caldeirão de opiniões, imagens falsas, violências verbais, tentando manter a cabeça fora d´água com medicamento, meditação ou optando por uma saída mais radical: se mudar para o mato, fugir dessa loucura para manter nossa autenticidade, nosso "eu" original. Mas está sabendo, né? Ser quem você é se tornou obsoleto.

Costumo ser mais calma do que caótica, você me conhece. Mas não sei o que me deu. Precisando viajar. De avião. Algumas horas sem turbulência, paquerando o céu. _

MARTHA MEDEIROS

01 de Agosto de 2026
DRAUZIO VARELLA - Médico, cientista e escritor

A síndrome do coração partido

Existente desde a Grécia Antiga, metáfora literária só encontrou em 1990 amparo na fisiologia humana

Conheci dona Cândida muitos anos atrás. Era a matriarca de uma família com oito filhos. O marido, coronel nordestino à moda antiga, acostumado a dar ordens ríspidas aos empregados da fazenda, ficava na miúda nas querelas com esposa.

A dedicação da mãe aos filhos era a razão de seu viver. Ai de quem os tratasse mal, chegou a ir às vias de fato com uma professora que ousou dar uma reguada na mão do mais velho. Quando todos cresceram, ela não ia para a cama nem deixava os empregados jantar enquanto o último não voltasse para casa.

Embora jurasse amar todos com a mesma intensidade, seu xodó por Francisquinho, um dos mais novos, era indisfarçável. Quando ele entrou na faculdade de Medicina, na capital, então, a dona Cândida não coube em si de tanto orgulho. Para provocá-la, uma das filhas dizia que se o irmão se afogasse no açude, a mãe gritaria: "Socorro! Meu filho que é quase médico está se afogando".

Quando o rapaz cursava o quarto ano, a mãe recebeu um telefonema, da faculdade. Em uma briga de trânsito, Francisquinho fora baleado.

O comércio da cidadezinha encerrou as portas para que todos acompanhassem o féretro. Eram tantas as flores que foi preciso uma caminhonete para acomodá-las.

Dona Cândida guardou luto em silêncio sepulcral, até a missa de sétimo dia. Sentada no banco em frente ao altar, queixou-se de tontura. Levada às pressas, faleceu no caminho do hospital. Na cidade, não houve quem não atribuísse o desfecho à perda do filho.

Histórias de alguém que caiu morto ao receber uma notícia terrível como essa povoam a literatura e o teatro desde os gregos.

O que talvez você não saiba é que somente em 1990 essa metáfora literária encontrou amparo na fisiologia humana. Aconteceu quando o médico japonês Hikaru Sato descreveu o quadro que ficaria conhecido como "síndrome do coração partido".

Trata-se de uma miocardiopatia induzida pelo estresse intenso, também chamada de síndrome de Takotsubo, nome dado pela semelhança entre o formato que o ventrículo esquerdo adquire na sístole, e um takotsubo, armadilha que os pescadores japoneses usam para capturar polvos.

Mais frequente em mulheres

A síndrome do coração partido costuma ocorrer em pessoas que, sem evidência de obstrução coronariana, quadro infeccioso ou outra agressão cardiológica que a justifique, sofrem uma perda seguida de descontrole, desespero e colapso emocional. Ela mostra que emoções intensas disparam uma cascata de mediadores que podem afetar o funcionamento do coração, a ponto de levá-lo à parada. Em oposição à morte súbita dos dramas teatrais, no entanto, o óbito ocorre dias ou semanas depois do acontecimento que o desencadeou.

Está longe de ser a condição benigna e transitória que se imaginava no passado. Ocorre com maior frequência em mulheres mais velhas que apresentam comorbidades, enlutadas pelo desaparecimento de um ente querido. O quadro evolui com insuficiência cardíaca e redução da contratilidade do ápice do ventrículo esquerdo que, muitas vezes, simula infarto do miocárdio.

Um estudo dinamarquês publicado na revista Frontiers, em 2025, avaliou 1,7 mil pessoas que viveram situações de luto. Sintomas intensos por meses persistiram em 6% delas; a demanda por visitas aos serviços de saúde cresceu; o uso de antidepressivos e de sedativos foi 5,6 vezes superior ao daqueles com sintomas leves; e o de ansiolíticos, 2,6 vezes maior. O risco de morte aumentou 88%, especialmente nas primeiras fases do luto, época em que a carga de estresse costuma ser mais elevada.

O papel do cérebro

A mortalidade a médio e longo prazo é semelhante à dos infartos do miocárdio.

A descrição da síndrome deu origem a diversos estudos sobre os mecanismos envolvidos nas conexões entre circuitos cerebrais e o funcionamento cardíaco: o eixo cérebro-coração.

Estresses emocionais intensos são capazes de ativar circuitos de neurônios envolvidos na regulação da resposta às emoções e no funcionamento do sistema nervoso simpático, com liberação de catecolaminas, entre as quais a adrenalina. Como consequência, a frequência cardíaca e a pressão arterial aumentam, acompanhadas de alterações dos marcadores inflamatórios em circulação e da resposta imunológica.

Exames de neuroimagem revelam desarranjo funcional na conectividade dos circuitos autonômicos/emocionais. A origem da síndrome não está no coração, mas no cérebro. _

DRAUZIO VARELLA

J.J. Camargo é cirurgião torácico, diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre e membro titular da Academia Nacional de Medicina

Existe alguém do lado de lá

Ao formular certa pergunta, o médico não está apenas interrogando o paciente: está auditando a própria consciência

"Quando o outro sofre, a última coisa de que ele precisa é uma explicação teórica para a sua dor. Ele precisa de uma presença que suporte o mistério do seu sofrimento."

(Viktor Frankl)

No consultório ou no hospital, sob o brilho frio do monitor e a exatidão dos exames, priorizamos com todo o rigor a técnica, porque disso dependerá o controle daquela doença que nos trouxe o paciente em busca de uma solução. Tudo o que for tecnicamente insuficiente implicará em perda para quem apostou na nossa competência. Ali, com toda precisão medimos a função pulmonar, reconstruímos imagens em 3D, calculamos volumes e nos socorremos da ajuda da tecnologia que nossos antecessores não dispuseram.

Talvez por isso tendemos a acreditar que somos os protagonistas absolutos daquele enredo. Uma pena que precisamos demorar um tempo para entender que há um outro lado, atento e angustiado, que será exposto com uma pergunta simples que desestabiliza essa pompa: "O que, dessa experiência sofrida, o senhor considerará inesquecível?".

Ao formulá-la, o médico não está apenas interrogando o paciente; está, no fundo, promovendo uma auditoria na própria consciência. E o choque que se segue, a descoberta de que o inesquecível para quem sofre habita uma sombra que a clínica não enxergou, é a prova cabal de que a medicina acontece em dois planos paralelos.

Para quem opera, o "inesquecível" é o sucesso da manobra ousada, o milagre da fisiologia restabelecida, a complexidade vencida na solidão do bloco cirúrgico. Para o paciente, o inesquecível é quase sempre algo ínfimo, invisível ao olhar puramente técnico: a mão que hesitou antes de tocar o ombro, aquela travada antes de responder uma pergunta, o tom com que uma notícia foi dada ou, dolorosamente, como ela foi omitida.

O paciente não habita o mesmo mapa que nós. Enquanto mapeamos a patologia, ele mapeia o medo, o desespero, a ameaça da morte tornada real. A autovigilância do cuidado médico é a expressão mais alta da Medicina da Pessoa: o reconhecimento de que, embora a técnica trate a doença, é a humanidade - essa coisa fugidia que só floresce no detalhe - que acolhe o espírito. O uso dessa estratégia manterá o médico alerta. Mas mesmo assim muitas vezes ele se surpreenderá ao descobrir que nem tinha percebido o que o paciente valorizou tanto a ponto de considerar inesquecível.

Impossível esquecer a lição de um paciente que, ao receber alta depois de um transplante fantástico que tinha sido contraindicado por alto risco, em outro centro, respondeu que inesquecível tinha sido o carinho da menina da portaria que, no meio da madrugada, foi capaz de perceber o seu medo e a sua solidão e que, depois de ajudá-lo com o carrinho do oxigênio até o elevador, lhe deu um beijo e prometeu rezar por ele.

Paradoxalmente, esse choque de percepção é a melhor notícia que um médico pode receber. Significa que ele não se tornou um autômato. Significa que, entre a tomografia e o bisturi, entre o protocolo e o transplante, existe um homem que entende que a competência técnica é apenas o palco; a peça real, aquela que ficará gravada na memória de quem sofre, é o encontro.

Se um dia formos esquecidos por tudo o que curamos, por todas as mortes que evitamos, seremos lembrados por aquilo que, sem notar, oferecemos sem medir: o olhar que viu, além do pulmão, a biografia de quem respira. Validar essa vivência é a maior lição de Medicina Narrativa que se pode dar a um médico jovem. É dizer ao paciente, sem palavras, que a dor dele tem o mesmo peso que a nossa ciência. 

J.J. CAMARGO 

01 de Agosto de 2026
SARA BODOWSKI

Costa Doce - Uma história de sabores em Pelotas

O Bistrô Pelotense já é tradicional em Pelotas: são 27 anos de história e sabores na Costa Doce gaúcha. O ambiente te acolhe já na chegada, com muita arte e objetos que criam uma identidade visual única. E a cozinha do chef Márcio Ávila parte da tradição gaúcha para renovar a gastronomia local, usando quase todos os insumos da região.

Se você for no almoço, se prepare para um buffet incrível. À noite, um à la carte delicioso te espera. E dois pratos, pelo menos, me conquistaram: o filé alto e o mil-folhas de matambre - que são camadas de matambre assadas de forma lenta, com carne da região. E a dica: os vinhos são todos rótulos gaúchos, escolhidos direto na estante do restaurante. Dá até pra comprar e levar pra casa. São todos de ótima qualidade.

O Bistrô Pelotense fica na Rua Rafael Pinto Bandeira, 2.120, e funciona de segunda a sábado, das 11h30min às 14h e das 19h às 23h. Contato pelo (53) 3229-2029 e no Instagram @BistroPelotense. No @RoteirodaSara tem um vídeo da minha visita há duas semanas! _

Familiar - Café rural em Estância Velha

A Sabores do Rancho é uma daquelas agroindústrias familiares que são exemplos da rica produção gaúcha de laticínios. Já visitei a propriedade, que fica em Estância Velha, e gostei muito dos queijos, dos iogurtes e dos sorvetes. Tudo é feito de forma artesanal, com o leite das vacas Jersey criadas ali mesmo. O trabalho da família já rendeu prêmios, como o bronze no Concurso de Queijos e Doces de Leite Artesanais do RS, e é presença garantida há anos na Expointer. Eles inclusive estão no vídeo fixado no meu Instagram @SaraBodowsky, onde estão três queijarias gaúchas para conhecer.

E, agora, vem a novidade: a partir do dia 8, um café rural passa a ser servido todos os sábados, das 15h às 18h. A mesa é farta, com pães, cucas, bolos, tortas, pastéis, pão de queijo, linguiça fervida, tábua de frios, além dos queijos, iogurtes e sorvetes da casa, acompanhados de café, leite, chá e suco natural. Tudo por R$ 60 por pessoa, sempre com reserva pelo WhatsApp (51) 99696-1066.

A Sabores do Rancho fica no Rincão da Saudade, em Estância Velha. Mais informações no Instagram @saboresdorancho_laticinio. _

Gastronomia - Jantar harmonizado no Catherine

O Catherine é, sem dúvida, um dos meus restaurantes preferidos em Gramado. A começar pelo fondue, um dos atrativos tradicionais da região, que é diferente, fora da curva. O à la carte é ótimo e o ambiente acolhe como uma tradicional casa de família - que era o prédio, originalmente.

E no dia 6 de agosto o restaurante recebe a Zanotto Vinhos e Espumantes, marca do Grupo Vinícola Campestre, com vinhos muito interessantes produzidos nos Campos de Cima da Serra, para uma noite especial de gastronomia e vinhos.

A partir das 18h, o chef residente Nícolas Heckel apresenta um menu harmonizado em cinco etapas (R$ 400 por pessoa), criado para valorizar ingredientes regionais. A viagem começa com um amuse bouche acompanhado de Brut Branco e passa por pratos como a polenta taragna com queijo serrano e tutano, harmonizada com Sauvignon Blanc, e a carne de sol com arroz cateto e pinhões, combinada com Malbec. Para encerrar, tartelette de pequenos frutos com Brut Rosé Champenoise. Quem preferir, também pode pedir o cardápio regular da casa na mesma noite.

O Catherine fica na Rua Emílio Sorgetz, 200, no Centro de Gramado, em frente à Praça das Rosas. Reservas pelo (54) 2136-5252 e mais informações no Instagram @catherinegramado. _

SARA BODOWSKI