quarta-feira, 6 de abril de 2011



06 de abril de 2011 | N° 16662
MARTHA MEDEIROS


Dinos

É um mundo estranho este. De repente, começaram a ser apresentados fósseis de animais pré-históricos descobertos recentemente no Estado. Parece até coisa de novela. Primeiro foram as ossadas encontradas em São Gabriel, agora as de Dona Francisca. E eu que achava que os nossos mais antigos ancestrais eram os açorianos. Pois soube agora que tivemos Tiarajudens e Decuriasuchus residentes. Tivemos, e ainda temos.

Estou só esperando tocarem a campainha aqui de casa. Posso imaginar os paleontólogos entrando com suas escovinhas e pás, buscando embaixo do meu porcelanato algum resíduo de esqueleto. “Soubemos que dinossauros habitaram esse pedaço de chão milhões de anos atrás, exatamente aqui, onde a senhora vive.” E eu responderei muito circunspecta: “Habitaram, não. Habita ainda. Muito prazer”.

Sou uma dinossaura gaúcha.

Outro dia, num encontro entre amigas, me xingaram por não estar no Facebook. Em vez de uma liberdade de escolha, consideraram minha ausência uma afronta. Não estar no Facebook significa que você é uma esnobe com mania de ser diferente.

Mas não é nada disso, tenho um bom argumento de defesa: é que me sinto obrigada a dar retorno a todos os contatos que recebo e, se entrar no Facebook, somando os e-mails que recebo (sim, e-mails – é condizente com minha espécie) não terei paz. Sou uma dinossaura. Relevem.

Eu ainda uso aparelho celular com teclas. Poderia ter um iPad, um tablet ou qualquer outro equipamento de última geração lançado dois minutos atrás, mas gosto do meu telefone simplificado, que só serve para fazer e receber chamadas e torpedos (eu ainda chamo de torpedo, e não de SMS). Não leio mensagens fora de casa. Dinossaura.

Lembram quando comentei outro dia sobre a entrevista que fiz com a Patrícia Pillar? A revista que me contratou me ofereceu um gravador. Aceitei. E pedi: não esqueçam de mandar as fitas! É um mistério terem mantido a missão que me confiaram. Gravador digital era coisa que eu ainda não tinha manuseado. Poderia ter gravado a conversa pelo celular também. Mas vocês sabem: não se extraem os resíduos paleolíticos do DNA assim no mais.

Outro dia contei pro Fabrício Carpinejar que, quando estou no escuro do cinema, durante a projeção, costumo anotar nas folhas do talão de cheque as frases que me tocam durante o filme. Ele ficou bege. “Tu usa cheque???”.

E ainda acredito no amor. Podem me empalhar.

terça-feira, 5 de abril de 2011



05 de abril de 2011 | N° 16661
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Reunião de família

Elas vieram de muitos lugares, alguns distantes como a Alemanha. Elas se parecem no modo de olhar, de sorrir, de dividir sua beleza, especialmente as moças. São todas pessoas que participam de um almoço, num dos restaurantes do Menino Deus, de celebração de sua irmandade. Castanhas, loiras, queimadas do sol de verão, compartilham de um dom em comum.

São todos, homens e mulheres, crianças e adolescentes, netos bisnetos ou trinetos de Angelina Salzano Vieira da Cunha – aliás fotografada em um quadro que a reproduz no auge de sua beleza.

Viemos todos das mesmas origens: Pedorido, no norte de Portugal, Nocera Superiore, na Itália, mais os vastos domínios do Duque de Medinacelli, na Espanha. Viemos todos por nossos caminhos, ao longo dos séculos, para formar uma família que se renova, como podia ser visto na festa, organizada por minha prima Paula.

O mais surpreendente foi o modo com que, apesar da maioria de nós viver distanciada, ao nos reencontrarmos foi como se nos víssemos todos os dias. Não havia separação alguma.

O convívio foi retomado como se nos encontrássemos a cada instante, com uma naturalidade e uma espontaneidade que desconheciam ausências. É claro que sentimos a falta dos que já partiram, mas o dia era de celebração e não das perdas do caminho. Para estas resta nossa lembrança e nosso afeto.

Poucas festas terão sido tão fotografadas. Como hoje cada pequeno telefone celular é uma máquina múltipla de imagens, restaram centenas de registros de uma convivência num sábado outonal e chuvoso, mas pleno de ternura.

Daqui a 10, 20 anos, reviveremos cada instante do reencontro, da reunião de família em um almoço que se prolongou muito além das quatro da tarde.

E nos reveremos com o jeito de ser e a idade que hoje temos, sem nostalgia, mas com infinita saudade.


05 de abril de 2011 | N° 16661
CLÁUDIO MORENO


La donna è mobile

Ninguém é sempre o mesmo – e disso ninguém duvida. Mudamos o corte de cabelo e a maneira de vestir, mudamos de hábitos e de apetites. Trocamos de ideias e de atitudes; nossa opinião de hoje, que contradiz a de ontem, poderá ser abandonada amanhã.

Como muito bem disse Montaigne, somos formados por peças e retalhos que se juntam num arranjo variável e mutante, em que cada elemento, simultaneamente, desempenha o seu papel – e há tanta diferença entre nós e nós mesmos quanto entre nós e os outros.

Embora essa descrição se aplique a toda a espécie humana, a tradição masculina atribui às mulheres uma vocação especial para a inconstância. La Donna è Mobile, a conhecida ária de Verdi, diz tudo isso cantando: a mulher é volúvel como uma pena ao vento, muda seu tom e seu pensamento – e vá o homem confiar num coração assim tão inquieto...

Para contrabalançar (e corrigir) essa visão exagerada, nada melhor, a meu ver, que a versão grega do mito de Selene, a deusa da Lua. Desiludida do gênero masculino, esta jovem deusa não se interessava por homem algum e parecia conformada em viver eternamente solitária, contentando-se em servir apenas de inspiração para músicos e poetas.

Uma noite, porém, durante sua melancólica trajetória pelo céu deserto, ela percebeu (pois não era mulher?) que estava sendo acompanhada por um olhar que não conhecia, mais intenso e emocionado.

Era Endímion, o tímido e belo pastor da Tessália, que levava o rebanho para o alto do monte, todas as noites, a fim de poder vê-la mais de perto. Seu olhar sonhador abalou a frieza de Selene e a fez descer do firmamento diretamente para seus braços. Como uma história feliz, casaram e tiveram filhos.

Pouco a pouco, do alto do monte, ele, que era homem sensível, tinha começado a compreender o caprichoso ciclo lunar, que era um mistério para todos, e soube, como ninguém, adivinhar o ritmo de seus delicados movimentos pelo céu noturno. Ao entender Selene, Endímion tinha entendido a mulher, pois é disso que trata este belo mito: a perplexidade do homem diante da misteriosa complexidade da alma feminina.

Por isso, só posso me alegrar ao saber que na semana que vem estreia na HBO a série Mulher de Fases, em que nossa talentosíssima e queridíssima Claudinha Tajes, transmitindo diretamente das hostes femininas, vai nos fornecer sua visão alegre e bem-humorada desta rica potencialidade que a mulher tem de ser uma e muitas ao mesmo tempo.

sábado, 2 de abril de 2011



02 de abril de 2011 | N° 16658
NILSON SOUZA


O casamento dos ogros

Que rolo deu o casamento dos fãs de Shrek em Garibaldi! Não era para tanto, certamente, mas como a gente dá um boi para não entrar numa discussão e todas as vaquinhas da Cow Parade para não sair, estamos debatendo até agora. Foi um desrespeito com a Santa Madre ou apenas uma brincadeira inocente dos noivos e de seus convidados?

E o padre mereceu aquela espargida pública do bispo? A propósito, um bispo paramentado com a sua Capa Magna e todos aqueles ornamentos medievais também não parece um personagem de conto de fadas?

Bah, gente, vamos nos divertir mais. Tudo bem que os noivinhos podiam ter deixado para realizar suas fantasias em casa, mas também não foi nenhum sacrilégio levar aquele bloco de falsos súditos para a igreja.

Não vejo muita diferença entre as túnicas de seda colorida dos trajes medievais e os nossos espartilhos modernos – ternos, gravatas, vestidos longos e salto alto. Acredito até que as primeiras eram mais confortáveis. O próprio vestido tradicional das noivas não deixa de ser uma bela fantasia.

O ser humano adora fantasiar. No fim do mês teremos o casamento do príncipe William, da Inglaterra, com sua namorada Kate Middleton, plebeia que, coincidentemente, trabalhava no negócio da família, uma empresa de acessórios para festas. Provavelmente ela já vendeu até fantasias de Shrek.

Pois bem, o príncipe e sua amada irão numa carruagem antiga até a Abadia de Westminster, uma catedral de estilo gótico que já foi palco de incontáveis casamentos e funerais, inclusive o da princesa Diana, mãe do noivo. Aposto que ninguém ficará escandalizado se, em meio ao espetáculo das bodas reais, aparecer algum convidado vestido com roupas medievais.

E o que isso tem a ver com os nossos príncipes de mentirinha? Tudo. O casamento é um momento de sonho para nobres e plebeus. Nem todos se sujeitam à formalidade, é verdade, mas aqueles que escolhem a cerimônia querem torná-la inesquecível, pois sabem que no dia seguinte – como na série cinematográfica do simpático ogro – o encanto pode acabar e a vida virar rotina.

Decididamente, estou ao lado dos imaginativos recém-casados de Garibaldi e do padre que admitiu a brincadeira.

E só posso desejar que o amor de Shrek e Fiona seja infinito enquanto dure.

Ruth de Aquino

Cinco motivos para sentir vergonha

Há um novo nome na lista dos fugitivos mais procurados do Estado de São Paulo: o pedreiro Ananias dos Santos, de 27 anos, principal suspeito de um dos crimes mais tenebrosos de que o país ouviu falar. As vítimas são as irmãs Josely e Juliana, de 16 e 15 anos.

No caminho entre o ônibus escolar e a casa, encontraram um monstro. Se tiver sido mesmo Ananias, era um monstro conhecido delas e da polícia. Tinha saído da prisão numa folga de Páscoa, em 2009, e não voltara. Todos sabiam onde morava. Já era foragido antes. Mas ainda não tinha ficado famoso.

A delegada Sandra Vergal diz com simplicidade que, “pelos antecedentes dele, Ananias não podia ser contrariado em nada”. Por que nenhuma autoridade policial até agora fez um mea culpa? O preso sai pela porta da frente, não volta para a cela e, por suposta rejeição de uma das meninas, persegue e mata as irmãs a tiros?

Dói demais ver as fotos das adolescentes. Além de muito bonitas, eram conhecidas como educadas, estudiosas e apegadas à família. Ananias era fugitivo com endereço certo. Quem afinal matou as meninas da aprazível Cunha, uma localidade pacata e verde, que fez passeata de 3 mil por justiça? Somos ou não também culpados pela negligência de nosso sistema penitenciário?

A semana passada foi pródiga em constrangimentos. Em dezembro, listei nesta coluna dez razões para se indignar. Nos últimos dias, além do crime bárbaro de Cunha, deparei com mais quatro razões para me decepcionar com o ser humano público e privado.

- O vice-presidente José Alencar, herói no combate ao câncer, afetuoso no trato com as pessoas, dizia “não temer a morte, mas a desonra”. E, mesmo assim, foi incapaz de sequer conhecer sua suposta filha com uma enfermeira. Recusou-se a fazer exame de paternidade e chamou publicamente a mãe de Rosemary de Morais de prostituta: “Todo mundo que foi à zona um dia pode ser pai.

São milhões de casos”. No caso de Alencar, a atitude não combina com a biografia. Onde estava sua coragem? Encarou o câncer e 17 cirurgias, mas Rosemary não. Ela ganhou na Justiça o sobrenome Alencar.
Além do crime bárbaro de Cunha, a semana ofereceu quatro outros motivos para nosso constrangimento

- A atriz Cibele Dorsa usou sua depressão e seu suicídio para protagonizar um circo deprimente. O Twitter, a carta para a revista Caras, o vídeo montado para homenagear o noivo que também se matara dois meses antes. Nesse inacreditável mundo novo, a regra é se expor e ser seguido por milhares, mesmo no Além. Uma moça bonita, mãe de um casal de filhos, desperdiça a vida e dirige um roteiro multimídia para conseguir finalmente a fama após a morte. O suicídio perde o que lhe restava de privacidade, discrição, gravidade e pudor.

- O deputado Jair Bolsonaro também aproveitou a mídia para ser mais Bolsonaro do que nunca. Ofendeu negros quando só queria, segundo ele, ofender gays. Já falou barbaridades piores. Desta vez, conseguiu a repercussão desejada porque difamou pela televisão uma celebridade,

Preta Gil. Reafirmou a uma rádio que Preta “é promíscua” e que o pai da cantora, Gilberto Gil, “é outro que vive dando bitoquinha em homens”. Como Bolsonaro defende sua liberdade de expressão, eu também poderia escrever que ele não passa de um ignorante. Mas, como isso não é novidade, só pergunto como o deputado foi parar na Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

- O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em visita a Buenos Aires, foi condecorado pela Faculdade de Jornalismo de La Plata por sua “defesa da comunicação popular”. Chávez tirou do ar uma TV e várias emissoras de rádio. Aprovou leis que tornaram crime as críticas pesadas ao governo.

Perseguiu oposicionistas. E ganhou um prêmio que é homenagem a um jornalista importante da Argentina, assassinado pelos militares, Rodolfo Walsh. O vexame internacional foi ainda maior pela coincidência: a anfitriã, a presidente Cristina Kirchner, é acusada de estar por trás dos sindicalistas que proibiram a circulação do jornal Clarín.

Como jornalista e ser humano, senti vergonha e impotência diante desses episódios e seus personagens. Nessas horas, a palavra não é suficiente.

quarta-feira, 30 de março de 2011



30 de março de 2011 | N° 16655AlertaVoltar para a edição de hoje
MARTHA MEDEIROS

A arte de perguntar

Parece simples entrevistar alguém: basta fazer algumas perguntas e torcer para que o entrevistado não seja uma gaveta emperrada. Só que de simples não tem nada. Acabo de passar por uma experiência devastadora e inédita em minha vida: com um gravador na mão e o coração na outra, fui entrevistar a atriz Patricia Pillar, a pedido de uma revista, que achou que uma escritora faria algo diferente. Ah, essa mania de inventar moda.

Uma mulher que já passou por um câncer de mama, que é casada com um presidenciável, que já protagonizou um filme que concorreu ao Oscar, que fez inúmeras novelas de sucesso e dirigiu um documentário sobre a carreira de um ídolo esquecido como Waldick Soriano, essa mulher – belíssima em seus 47 anos – deve ter muito para contar, presume-se.

Teria, claro, se ela duelasse com um jornalista de fato, um profissional astuto. Não é o meu caso. Jornalistas sabem fazer as perguntas certas, e fazem muitas. Já eu nasci acreditando que fazer muitas perguntas é bisbilhotice.

Não há nada mais contraproducente do que um entrevistador discreto, com receio de invadir a privacidade do entrevistado. Eu sabia que não estava em frente a uma mulher fruta: se estivesse, bastaria ligar o gravador e a intimidade me seria ofertada em doses generosas.

Mas Patricia não se entrega fácil e eu não seduzo o suficiente. Estávamos condenadas a comer biscoitinhos e falar trivialidades, como duas amigas de colégio. Foi o que fizemos e nos tornamos. Que tarde adorável. Que tarde perdida.

Patricia teve um câncer há 10 anos. Superou. Hoje esbanja saúde. Será que alguém tem vontade de lembrar maus momentos? Toquei no assunto muito rapidamente e ela rapidamente falou qualquer coisa, e logo estávamos comentando o dia lindo lá fora. Patricia vive há muitos anos com o deputado federal Ciro Gomes e jamais vi o casal no castelo de Caras.

Se eu não pergunto nem sobre o casamento das minhas amigas, como é que vou xeretar a relação preservadíssima de alguém que conheço há cinco minutos? Patricia queria ter tido filhos, mas o destino a fez adiar os planos até um ponto sem volta. Vou eu perguntar como ela se sente tendo desistido da maternidade? Eu? Eu que não pergunto pra namorado onde ele esteve sexta-feira à noite que não me ligou?

Passei duas horas na casa da Patricia Pillar e ainda ganhei uma carona de volta até o hotel. Atravessamos as ruas do Rio de Janeiro rindo à toa. Já estamos trocando e-mails. Amor à primeira vista.

Ganhei uma amiga e a revista ganhou uma matéria meia-boca. Que Patricia tenha mais sorte na próxima vez, que mereça a visita de um jornalista arrojado, que tenha desenvoltura, cara de pau, audácia. Pensei em sugerir o Luis Fernando Verissimo.

Well, São Paulo continua com temperatura de vinte graus, nesta manhã e nublado. Um lindo dia para você.

sábado, 26 de março de 2011



27 de março de 2011 | N° 16652
MARTHA MEDEIROS


Dois em um

Muito se falou sobre Cisne Negro, o filme que não venceu o Oscar mas que foi, de longe, o mais perturbador e perturbação é vital para o pensamento. Houve quem tenha prestado atenção na questão da esquizofrenia, outros ficaram atraídos pela angustiante busca da perfeição artística e outros viram ali apenas mais um filme de terror. Há outro aspecto ainda, que é o que mais me seduziu: a dificuldade de conviver com a dualidade que existe em nós.

Há na sociedade uma tendência de encaixotar as pessoas e selar uma etiqueta para defini-las. Se você é uma pessoa de cabeça aberta, não lhe perdoarão ser contra o aborto. Se é uma natureba, jamais deverá ser vista tomando uma coca-cola. Se é respeitada nos meios intelectuais como uma grande pensadora, nem se cogita ouvir de sua boca uma resposta parecida com “não sei”. Tem que saber. É obrigatório confirmar o que o seu rótulo induz a pensarem sobre você.

Ainda que tenhamos, todos, um estado de espírito predominante e um estilo de vida que dá pistas sobre o que nos é caro, a verdade é que nada nos define integralmente. Um homem pode ser conservador em suas aplicações financeiras e ao mesmo tempo um aventureiro que se arrisca em esportes radicais.

Uma mulher pode tomar seus pileques de vez em quando e ser extremamente responsável na educação dos filhos. Para a comissão julgadora, isso sugere leviandade: ou você é uma coisa, ou outra. Senão, como garantir a estabilidade que nos estrutura?

Podemos ser uma coisa, e outra, e mais outra, inclusive coisas que se contradizem (te amo, mas preciso ficar sozinho) e não há nada de frívolo nisso. Ao contrário, as pessoas verdadeiramente maduras são as que não se sentem inseguras com suas contradições e conseguem extrair delas uma sabedoria que lhes sustenta. A comissão julgadora fica meio perdida. Que nota essa criatura dual merece? Sugiro: zero em harmonia, 10 em evolução.

No filme, a dualidade se manifesta através do lado claro e escuro da bailarina que precisa interpretar dois personagens antagônicos num mesmo ballet. Ser virginal e erótica ao mesmo tempo lhe esgota e amedronta: como sobreviver a tamanha contradição?

Há muitas possibilidades de desfrutar de antagonismos sem que percamos nossa integridade, basta que a gente tenha um mínimo de bom senso para saber até onde o anjo e o demônio em nós pode se manifestar sem causar danos aos demais. Há espaço para ambos existirem, sem comprometer a nossa singularidade – ao contrário, é na ambivalência que nosso “eu” se firma e encontra a plenitude.

Se isso tudo não passar de conversa pra boi dormir, ao menos serve como argumento para justificar as inquietantes dúvidas que nunca nos abandonam.

Marcela Buscato

A guerra contra o relógio biológico

Se você é mulher, é bem provável que em algum momento da sua vida (lá pelos 10 anos de idade, no caso de neuróticas como eu), você tenha começado a pensar com quantos anos gostaria de ter um filho. Sim, porque a pergunta é com que idade e não SE você gostaria de ter um filho. É o que todo mundo, aparentemente, espera de você, mocinha de família que vai estudar, fazer faculdade, casar e engravidar. Tudo assim, necessariamente nessa ordem (porque a vida é assim, milimetricamente planejada, claro). Na época da minha avó, os planos eram lá pelos 19 ou 20 anos. Na da minha mãe, lá pelos 24 ou 25 anos.

Na minha, boa pergunta. Lá pelos 28 anos, para seguir a progressão? Mas eu já estou nos 28! Meio cedo, né? Até alguns meses atrás, eu ainda perguntava para a minha mãe se ela achava que eu tinha de dormir de cobertor ou se só de manta estava bom para o frio que estava fazendo. Como é que eu vou criar uma criança? Mas as pessoas acham que não, não é cedo. Para quando você quer o seu bebê? Não vai demorar muito, não é?

Tem gente que chama esse clamor de relógio biológico. Eu já acho que é pressão social mesmo. Sim, eu sei das estatísticas. Em uma aula de biologia nos remotos tempos do Ensino Médio, eu cometi uma das maiores gafes da minha vida, o que me impede de esquecer que as estatísticas existem. O professor discorria sobre todas as anormalidades genéticas que podem acontecer na gravidez, e cujas probabilidades aumentariam depois dos 30 anos.

Descobri síndromes que não sabia que existiam. Cutuquei o colega da frente. “Imagina, deve dar muito medo de ter um filho com uma dessas síndromes!” Ele sorriu amarelo, concordando. Dias depois, descobri que a namorada dele estava grávida. Ai, os 17 anos! A gente não sabe controlar os hormônios. E nem manter a boca fechada (acho que isso eu ainda não aprendi…).

Enfim, as estatísticas podem ser reais (e não significam que um filho com algum problema será menos amado). Mas são outra fonte de pressão social, não biológica. Será mesmo que o corpo manda sinais para o nosso inconsciente do tipo “Ei, seu óvulos estão acabando. Ei, os cromossomos estão ficando velhos. Eles podem ficar meio caducos. Vai que eles se dividem errado?”.

Nem precisa. As pessoas se encarregam disso. No fim, a gente passa muito tempo pensando quando ter filhos, mas pouco tempo analisando se os quer de verdade (pronto, frase para despertar a fúria de muitos leitores, em especial de avós em potencial. Avós em potencial nunca acham que ter filhos é uma questão de escolha, mas um desdobramento absolutamente normal da existência).

A escritora britânica Kasey Edwards teve que enfrentar o dilema em menos de um ano. Em seu livro “30-Something And The Clock Is Ticking” (Mais de 30 e o relógio continua marcando), a ser lançado no Reino Unido em abril, Kasey conta como descobriu que, em um ano, suas chances de engravidar seriam remotas. Em um belo dia, ela saiu do consultório da ginecologista com a sentença. Seus problemas de útero e ovário se agravariam em 12 meses a ponto de tornar uma gravidez inviável. Kasey se deu conta de que teria de decidir se queria ou não ter filhos.

Assim, para ontem! Contou naquela mesma noite para o namorado, com quem estava há um ano. Ele amaria uma mulher infértil? Ele disse que sim, mas que não custava tentar encomendar um herdeiro (parece mais um não). Seis meses se passaram e os testes de gravidez não se manifestavam. Não positivamente, pelo menos. A médica de Kasey recomendou que eles partissem direto para a fertilização in-vitro, quando o óvulo é fecundado com o espermatozóide em laboratório e depois implantado no útero da mãe. O procedimento deu certo. Nove meses depois, Kasey e o marido deram boas-vindas à Violet, hoje com dois anos.

A alegria de ter uma filha não fez que Kasey se esquecesse dos sentimentos que viveu quando acreditava ser infértil. “Vazia”, “inadequada” e “culpada” são as palavras que ela usa para descrever seu estado de espírito na época. São as mesmas sensações relatadas com frequência por mulheres com dificuldades para engravidar. Não duvido que elas queiram um bebê mais do que tudo.

Mas as palavras usadas para descrever a angústia mostram que boa parte do sofrimento vem da impossibilidade de viver o papel esperado para a mulher e não pelo pesar de não ter um filho e acompanhar seu desenvolvimento, suas alegrias e conquistas pelo resto da vida. Nenhuma mulher pode se sentir menos valiosa do que outra por não engravidar. O papel de mãe pode ser um dos mais sublimes que recebemos na vida. Mas não é o único.

quinta-feira, 24 de março de 2011


24 de março de 2011 | N° 16649

MORRE UM MITO

Quem tem medo de Liz Taylor? A atriz inglesa foi estrela aos 12 anos, divorciada aos 18, viúva aos 26 e musa a vida inteira

Ao se apagar a luz dos olhos violetas de Elizabeth Taylor, boa parte do brilho da época de ouro de Hollywood também se extinguiu. A última grande diva do cinema americano despede-se deixando uma filmografia que comprova o casamento de beleza e talento da atriz. No escuro da sala de projeção, a aparição cintilante de Liz hipnotizava as plateias de um jeito mágico que o cinema não possui mais.

Até sua última participação no cinema em Os Flintstones (1994), Elizabeth Taylor atuou em 54 longas-metragens. Sua trajetória nas telas, iniciada aos 10 anos com There’s One Born Every Minute (1942), foi tão rumorosa quanto sua vida pessoal.

Os maridos e amantes, a dependência de bebida e drogas, os distúrbios alimentares que a fizeram engordar em excesso, a série de doenças, o apoio a atores amigos problemáticos, as causas humanitárias, a paixão pelos diamantes – o perfume de glamour e escândalo sempre brigou pelos holofotes na carreira de Liz com o sucesso ou o fracasso de seus filmes.

Nascida em Londres em 1932, filha de americanos, Elizabeth Rosemond Taylor mudou-se para os Estados Unidos aos sete anos, fugindo da iminente II Guerra.

Depois de uma discreta estreia no cinema, a jovem atriz despontou em Lassie – A Força do Coração (1943), conquistando o público nos anos seguintes em papéis que destacavam sua beleza excepcional e seu porte gracioso. As interpretações de Liz ganharam relevo em O Pai da Noiva (1950) e O Netinho do Papai (1951), filmes que marcaram a transição de adolescente a adulta. A namoradinha da América revelou-se então mulher de personalidade forte em dramas como Um Lugar ao Sol (1951),

No Caminho dos Elefantes (1954), A Última Vez que Vi Paris (1954) e A Árvore da Vida (1957). A década de 1950, no entanto, também marcou o início da infindável série de polêmicos relacionamentos da artista: Liz se casou pela primeira aos 18 anos, com o playboy Nicky Hilton, matrimônio que durou 203 dias e terminou com agressões físicas e verbais, depois uma lua de mel de três meses na Europa.

No enterro de seu terceiro marido, o produtor Michael Todd, ela foi acompanhada por Eddie Fisher, melhor amigo do falecido – e logo a viúva roubaria o cantor de sua esposa, a atriz Debbie Reynolds.

Ao mesmo tempo, Elizabeth Taylor tornava-se amiga e confidente de jovens astros em ascensão com problemas emocionais e sexuais: James Dean, Rock Hudson – com quem contracenou no clássico melodrama Assim Caminha a Humanidade (1958) – e, principalmente, Montgomery Clift, seu parceiro em filmes como Tarde Demais (1949) e De Repente, no Último Verão (1959).

Se alguns colegas enxergam Liz como uma figura materna, outros como Richard Burton viam uma linda e envolvente mulher: o ator galês conheceu a estrela durante a filmagem da superprodução Cleópatra (1963), casando-se no ano seguinte com a intérprete da sedutora rainha do Egito.

O saldo do tumultuado envolvimento com Burton foram dois matrimônios, duas separações e 11 longas – como Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1966) e A Megera Domada (1967), filmes em que ambos vivem relacionamentos violentos e passionais.

O desempenho impressionante de Liz como a neurótica esposa no excelente Quem Tem Medo... – dirigido por Mike Nichols a partir de uma peça de Edward Albee – rendeu o segundo Oscar da carreira da atriz. A primeira estatueta veio com o fraco Disque Butterfield 8 (1960) – a Academia teria premiado Liz por conta de sua saúde frágil, que quase a matou na época e a obrigou a fazer uma traqueostomia às vésperas da cerimônia.

Em 1993, ela ainda receberia um Oscar honorário por sua militância por causas humanitárias, como a luta contra a Aids.

A partir dos anos 1970, Elizabeth Taylor começou a aparecer na imprensa mais como celebridade do que como atriz em atividade. A artista enfrentou uma longa história de mais de 30 anos de abuso de álcool e drogas. Além de ter sido internada diversas vezes em clínicas de desintoxicação, sofreu com distúrbios alimentares e por algumas vezes tentou suicídio.

A atriz ainda tomava aspirinas e analgésicos para livrar-se das dores ocasionadas por uma queda de cavalo aos 12 anos – ela fraturou três vértebras e passou a depender de remédios desde então. Nos últimos anos de vida, Liz foi internada diversas vezes por problemas de saúde, que incluíram um tumor benigno no cérebro e complicações cardíacas.

A imagem de Elizabeth Taylor que vai ficar para a eternidade, porém, é a da jovem de sorriso encantador e olhar faiscante, da morena de corpo curvilíneo e voluptuoso, da musa de temperamento sanguíneo, da diva como não existe mais – na definição do cineasta italiano Franco Zeffirelli, que a dirigiu em A Megera Domada.
ROGER LERINA

terça-feira, 22 de março de 2011



22 de março de 2011 | N° 16647e
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Da arte de viajar

Solidamente ancorado em Porto Alegre por mais tempo do que julgo merecer, repasso na memória viagens que fiz em melhores épocas. A melhor de todas foi como um trecho de céu azul inaugurado sem aviso em meio a uma tormenta de inverno.

Em um telefonema, o adido de Imprensa da Embaixada da Alemanha perguntava se eu estava disposto a estudar Jornalismo Avançado por alguns meses em Berlim. Eu estava. Só lhe indaguei: quando embarco? Ao que ele esclareceu: ontem, se possível. Acabei chegando menos de uma semana depois, praticamente em cima do início das aulas e de um dos mais belos e fascinantes períodos de minha vida.

Não foi a única intimação do gênero. Voltei várias vezes a uma cidade então dividida contra si mesma, tornei a reencontrá-la depois da queda do Muro, percorri os Estados Unidos de Costa a Costa e de Norte a Sul, com direito a uma esticada no Canadá, andei pela França, a Inglaterra, a Espanha, a Bélgica, o Báltico, o Pacífico de norte a sul, a Áustria, a Suíça, a Itália, as ilhas gregas e a Turquia, a bordo de gentis convites que pousavam em minha sorte praticamente às vésperas da partida.

Não foi diverso nas incursões acima e abaixo da linha do Equador bancadas por minha própria conta e risco: sempre me decidi por impulso, o combustível perfeito para vencer largas milhagens.

Conheço pessoas que planejam demoradamente suas decolagens para terras distantes. Ouso supor no entanto que minhas experiências são mais intensas.

Segundo uma receita que observo há bem mais de 30 anos, no primeiro dia de uma viagem interpreto o papel do turista clássico: empreendo um city tour. É o momento em que elejo cinco ou seis lugares que me falaram direto ao coração ou à fantasia.

Todo o mais é acidental. É o andar ao acaso, sem compromisso nem hora, como se fosse um homem perdido na multidão. Foi assim que descobri em Paris um quiosque dotado de sucessivas camadas que imergiam até uma adega do século 13; a verdadeira gruta em que São João escreveu o Apocalipse, em Patmos; o pub londrino em que um tal de William Shakespeare empurrava umas que outras.

Nada contra os que armam uma viagem como quem desvenda um teorema. Já eu acho que a verdadeira sedução, em longínquas latitudes, é o encontro com o inesperado.

segunda-feira, 21 de março de 2011



21 de março de 2011 | N° 16646
FABRÍCIO CARPINEJAR


O mais extremo ódio com o mais extremo amor

A vingança encharca a literatura e a música, mas seus mistérios jamais serão esgotados.

Vingança é uma arte, o refinamento da carência. Quem procura se vingar do ex ou da ex, na verdade, não cansou de brigar. Não terminou de argumentar. Vingança é discutir o relacionamento sozinho, é discutir o relacionamento à distância, é dedicar o dia inteiro, às vezes a vida inteira, a arquitetar uma forma de chamar a atenção do amante que negou o ouvido.

O luto é destinado aos que amam amar. Vinga-se a pessoa que odeia amar, odeia continuar amando. É o encontro do mais extremo ódio com o mais extremo amor. A união de dois terrorismos.

Vinga-se aquele que acredita que deu mais do que recebeu e que se enxerga ludibriado. Aquele que, durante a relação, cobrava em segredo tudo o que oferecia, listava presentes e gestos. A vingança é o juízo final do avarento amoroso.

Indica também prepotência. O vingador se enxerga superior ao vingado, mais experiente e sábio. Acha que está ensinando seu antigo par. Encarna a figura de professor repreendendo o erro do aluno. Assim como não sofre em vão, somente se humilha para humilhar o outro. Todo sofrimento é arrogante, debitado na conta do desafeto.

O vingador cobiça a última palavra pois não aceita que alguém pense o pior dele. Planeja castigar as supostas distorções e intimidar as possíveis confissões de sua intimidade. O vingador vive por hipóteses. Não entendeu que a última palavra não existe, é uma desculpa para mandar.

A vingança é o mais paradoxal dos atos: um sentimento inteligente em mãos burras e desgovernadas; uma pressa que exige longa paciência e dissimulação. Requer as mais contraditórias atitudes: sangue frio de alguém com sangue quente; calar-se apesar da exagerada vontade de falar.

A vingança fracassa pela ânsia de fama do seu autor. Quem busca se vingar pretende que o outro saiba que foi ele, que não tenha nenhuma dúvida. Deseja dar o troco beijando a boca, olhando nos olhos. Conclui que não adianta nada uma vingança sem remetente.

E peca pela ambição, erra ao se expor, porque a represália aguda e exitosa esconde o criminoso para a perfeição do crime; deve ser anônima, gerando a desconfiança, mas não entregando totalmente o seu mentor.

Não conheço vingança perfeita. Não se vingar talvez seja a melhor vingança. Fazer esperar uma resposta que nunca virá.

sábado, 19 de março de 2011



20 de março de 2011 | N° 16645
MARTHA MEDEIROS


Diversão de adulto

A vida mundana, ela mesma, tem que ser uma farra diária

Uma leitora que assistiu à entrevista que dei recentemente para Marilia Gabriela diz não ter entendido eu ter sido enfática sobre a importância de se valorizar a diversão num relacionamento, já que no primeiro bloco eu afirmei que não era de balada e preferia encontros mais privados. A ela, isso soou como uma contradição.

A leitora, que vou chamar de Carmem, não disse a idade, mas deduzi que ainda estivesse naquela fase em que diversão é sinônimo de festa – uns 19 anos, no máximo. Em tempo: eu gosto de festa. Um aniversário, um casamento, uma comemoração especial. Uma aqui, outra acolá, com algum espaçamento entre elas. Gosto.

Só que, quando falei em diversão, Carmem, falei antes de tudo num estado de espírito. Existe uma frase ótima, que não lembro de quem é, que diz que rir não é uma forma de desprezar a vida, e sim de homenageá-la. Mas atenção pra sutileza: isso não significa passar os dias feito uma boba alegre, dando bom dia pra poste. Trata-se de rir por dentro. De achar graça nas coisas. Mesmo as que não dão muito certo. A essa altura você já deve ter descoberto que nem tudo dá certo.

Parece um insulto falar de diversão com quem, aos 19 anos, deve ser expert no assunto, mas minha tese de mestrado, se eu tivesse que defender uma, seria: gente madura é que sabe se divertir. A verdadeira liberdade está em já ter feito vestibular, já ter terminado a faculdade, já ter casado, já ter tido filhos, já ter conquistado estabilidade profissional, já ter separado (é facultativo) e, surpreendentemente, ainda não ter virado um fóssil.

Com o resto de vida que se tem pela frente, sem precisar provar mais nada pra ninguém, muito menos pra si mesmo, é hora de arrumar a mochila e conhecer lugares que você sempre sonhou conhecer (Fernando de Noronha, quem sabe) e alguns que você nunca imaginou colocar os pés (Mongólia, digamos).

Aprender um idioma só pela paixão por sua sonoridade: italiano, claro. Aprender a jogar pôquer ou ter umas aulas de sinuca. Aprender a cozinhar. Caso já saiba, aprender a cozinhar com intenção de abrir um restaurante um dia.

Você deve estar se perguntando: isso diverte um relacionamento? Ô.

Óbvio que é preciso trabalhar feito um escravo para custear toda essa programação, mas nada melhor para um casal do que se manter ocupado em seus ofícios e depois realizar juntos atividades desestressantes e hiperprazerosas, que deixarão ambos mais leves e, não duvide, mais jovens.

Carmem, se divertir é dormir cedo, acordar cedo, trabalhar, suar e arriscar. Pareço louca? Se divertir é isso também, enlouquecer. Festa é bom de vez em quando. E festa toda noite é coisa de gente triste. A vida mundana, ela mesma, é que tem que ser uma farra diária.

Ruth de Aquino

Militantes, “go home”

Qualquer um tem o direito de ser contra os EUA, mas não há nada mais ridículo que o ato anti-Obama

Nada mais ridículo que a convocação de uma manifestação na Cinelândia, centro do Rio de Janeiro, “em repúdio” à primeira visita de Barack Obama ao Brasil. Quem convocou foram os “movimentos sociais”. Leia-se CUT, MST, UNE e vários outros grupos com complexo de minoria colonizada.

“Obama é persona non grata”, dizia o texto, endossado por líderes do PT. A presidente Dilma Rousseff se irritou e enquadrou a militância petista. O governador do Rio, Sérgio Cabral, perguntou: “O que é isso? Piraram?”.

Não é o protesto em si que incomoda. Qualquer um tem direito de ser contra os Estados Unidos e seu presidente, mesmo que ele não seja mais George W. Bush. Mas o texto dos sindicalistas petistas é pretensioso e ultrapassado: “Os movimentos sociais brasileiros rechaçam a presença de Obama em nosso país”. Com que autoridade essas organizações se intitulam representantes do povo brasileiro?

As 11 entidades que assinam a convocação acusam Obama de “manter a orientação belicista de ocupar países e agredir povos em nome da ‘luta ao terrorismo’”. Trata-se de uma defesa velada da autonomia da Líbia e de seu ditador, Muammar Khadafi, há 42 anos no poder.

Continua assim a convocação: “Obama chega ao Brasil num momento em que os EUA e seus aliados, principalmente os europeus, preparam-se, sob falsos pretextos, para perpetrar novas intervenções militares... e assegurar o domínio sobre o petróleo”.

Esta é a primeira visita do presidente Obama à América Latina. Vem acompanhado da mulher, Michelle, e das filhas, Sasha e Malia. Não perceber as diferenças entre Obama e Bush e continuar com o discurso anti-imperialista é aprisionar-se ao passado e ir contra os interesses do país. No almoço previsto para este sábado no Itamaraty, em homenagem ao convidado, dificilmente alguém sentirá a ausência da Central de Trabalhadores do Brasil, ligada ao PCdoB. Eles alegaram “incompatibilidade ideológica” para recusar o convite ao almoço.

O Brasil pode não conseguir nada com a visita de Obama. Nem acordos comerciais vantajosos nem um gesto de boa vontade dos Estados Unidos à pretensão brasileira de um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Mas Dilma está empenhada numa reaproximação Norte-Sul.

E Obama sabe que vai encontrar uma líder que não posará rindo e aos abraços com o apedrejador de direitos humanos Mahmoud Ahmadinejad.
Qualquer um tem o direito de ser contra os EUA, mas não há nada mais ridículo que o ato anti-Obama

Os militantes enraivecidos com Obama devem ser os mesmos que aplaudiram a aproximação entre o Brasil “do cara” e a ditadura do Irã, sob o argumento do pragmatismo. Não irão jamais às ruas protestar contra Khadafi, que massacra quem discorda. São os mesmos que idolatram o fanfarrão do Chávez e defendem qualquer regime autocrático e populista latino-americano, desde que seja contra os ianques.

Entre eles está o secretário de Movimentos Populares do PT-RJ, Indalécio Wanderley Silva. Ele enviou e-mails convocando para o protesto anti-Obama, e foi a uma reunião no Sindicato dos Petroleiros do Rio. Indalécio é filiado a um diretório presidido até o ano passado pelo ministro de Relações Institucionais, Luiz Sérgio, articulador político de Dilma.

Aí começa o constrangimento da presidente, comandante máxima do país e integrante do Partido dos Trabalhadores. Imediatamente, o PT do Rio desautorizou qualquer protesto, “em nome de toda a Executiva Partidária”.

O mundo das patrulhas ideológicas é muito chato. Convicções se tornam dogmas. Há um ranço nesses grupos que cheira a mofo e não tem mais lugar em nosso país. Militante de esquerda se parece demais com militante de direita. Na Europa, especialmente na França, comunistas desiludidos acabam aderindo a candidatos de extrema direita, racistas, moralistas e xenófobos. Entoam palavras de ordem nacionalistas. Temem por seus empregos e por isso odeiam imigrantes.

O mesmo pode-se dizer dos radicais sociais: são chatos os militantes gays, as militantes feministas, os militantes afrodescendentes, os militantes religiosos, os militantes intelectuais. Não escutam nem debatem, só protestam ou aclamam. Please, go home.


19 de março de 2011 | N° 16644
NILSON SOUZA


Grizotti e o gordinho

Utilizando o seu próprio pardal (uma câmera oculta), o repórter Giovani Grizotti flagrou tenebrosas transações entre representantes de empresas fornecedoras de controladores de trânsito para prefeituras e servidores públicos que desservem ao país. O escândalo, potencializado pelo Fantástico, está provocando o afastamento de funcionários suspeitos, a suspensão de licitações e a mobilização das autoridades.

Um dos vídeos que fez mais sucesso esta semana no mundo virtual mostra um estudante gordinho sendo provocado e agredido por um menino menor, estimulado pela sua turminha, num evidente caso de bullying. Em determinado momento, porém, o garoto pacífico reage, ergue o agressor nos braços e o lança com violência no chão, acabando abruptamente com a provocação.

Esses episódios, diferentes e distantes, têm muitos pontos em comum. Nos dois casos, os observadores aplaudem os protagonistas travestidos de justiceiros, porque o público está cansado de ser ludibriado e de conviver com a impunidade. Grizotti, numa legítima ação jornalística, fez o que os órgãos públicos encarregados de proteger a sociedade raramente fazem: investigar, denunciar os abusos, identificar fraudes, expor corruptores e corruptos, e puni-los na forma da lei.

O estudante com sobrepeso redimiu os oprimidos, usando a própria força para se livrar da opressão. Talvez tenha exagerado, pois o outro menino deve ter dado trabalho para o posto médico depois da contenda, mas como não considerar legítima defesa a reação de alguém que está quieto e passa a ser agredido gratuitamente?

É compreensível, portanto, que as pessoas decentes se sintam representadas por quem age e reage na busca de justiça. As imagens dos dois episódios não deixam dúvidas e invariavelmente arrancam dos espectadores o mesmo pensamento:

– Bem feito!

Este é outro ponto comum: hoje tem as imagens para tudo. O tsunami não ocorre mais apenas do outro lado do mundo, passa ao vivo na nossa sala. O deputado que pega dinheiro ilícito o faz diante dos nossos olhos. O propineiro sugere os 10% de sacanagem na nossa cara. Todas as maldades do mundo estão gravadas para quem quiser ver, a qualquer hora e em qualquer lugar.

E como este filme de horrores passa a todo momento na tevê e na tela do computador, fica difícil de conter a indignação. Pena que tanta safadeza documentada nem sempre resulta na devida punição. Mesmo para os pacíficos, como este escriba sabático, às vezes dá vontade de incorporar o espírito do gordinho.

terça-feira, 15 de março de 2011



15 de março de 2011 | N° 16640
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Luz de março

E de repente o ar da manhã de verão é rasgado pelos sinos da Catedral. Convivo há tantos anos com sua música que não deveria mais me impressionar com ela. E contudo me surpreeendo em cada nota, como se fosse a primeira vez que a ouvisse.

O sino chama para a missa em meio à luz de março, e eu fico imaginando que pessoas atendem ao seu chamado. O pecador que vai se aliviar de suas culpas no confessionário? A menina que se prepara para a primeira comunhão? A dama que participa da cerimônia apenas porque este é o seu hábito?

Conheci a Catedral quando menino. Não estava ainda completa. As paredes eram expostas por tijolos rústicos. Não havia ainda as tumbas de bispos e arcebispos. No lugar onde hoje está a cúpula, uma cobertura branca e provisória atraía pássaros – e sua música se confundia com a do coral.

Outra lembrança inesquecível é a das solenidades da Semana Santa. A liturgia era cantada em latim – o bom e velho latim que eu aprendia no Colégio Anchieta. Mas havia algo mais do que um idioma. Havia o aroma do incenso, a litania entoada a capricho, o diálogo sagrado que se estabelecia entre os cantores.

Singularmente, no entanto, a maior sensação de paz que eu vivia, na missa de domingo das 9h, a minha preferida, era a da tranquilidade emanada do dever cumprido. Era obrigatório ir à missa? Era. Era se provável participar dos cantos e orações coletivos? Era. E tudo isso me transmitia um sentimento de serenidade e de dever cumprido que não tinha preço.

Não pensem que eu não me distraía com as comemorações eventuais. Não creiam que não me chamava a atenção um palminho de rosto bonito. Não acreditem que eu me postasse alheio a um belo corpo de mulher.

Mas tudo isso fazia parte do espetáculo – a ópera sagrada que se desenrolava à minha frente. Era uma ópera, com seus rituais e seus dogmas – e era preciso apreciá-la com unção.

Hoje já não vou à missa. O fim do rito latino subjugou minha fé. Como disse um filósofo, foi como se revestissem de fórmica a Catedral de Chartres. Mas não esqueço da época em que a Catedral de Porto Alegre era como a luz de março.

sábado, 12 de março de 2011



13 de março de 2011 | N° 16638
MARTHA MEDEIROS


A camareira

O que me desconcerta em hotel é a visita da camareira quando se está fora do quarto. É a evidência da nossa completa vulnerabilidade diante de uma desconhecida

Como mantenho um ritmo intenso de viagens a trabalho e também de lazer, quarto de hotel passou a ser um item frequente da minha rotina. Por um lado, um ambiente estranho ajuda a escapar da mesmice, nos presenteia com aquela sensação de estrangeirismo que sempre renova as nossas fantasias, mas faz falta a familiaridade do dia a dia, aquilo tudo que faz do nosso lar um porto permanente e não provisório. No fundo, acho que sinto falta do presunto vencido na geladeira.

Entre alguns prós (vista pro mar) e contras (o Club Sandwich raramente é saboroso), o que me desconcerta em hotel é a visita da camareira quando se está fora do quarto. Tenho por hábito deixar tudo meio ajeitado para que ela não faça mau juízo de mim, mas sei que a danada não terá complacência nenhuma com minha boa vontade. Invadirá meu universo íntimo, abrirá armários e gavetas, saberá que remédios tomo, o que estou lendo, se transei na noite passada.

Tudo isso sem saber meu nome nem eu o dela. Em princípio, não parece diferente da relação que mantemos com nossas funcionárias domésticas, mas nem se compara. É a evidência da nossa completa vulnerabilidade diante de uma desconhecida.

Não é assunto que me tire o sono, apenas fiz essa tergiversação por causa de um livro excelente que li dias atrás, cujo título é, adivinhe, A Camareira, do alemão Markus Orths.

Mais uma obra de arte que trata da esquizofrenia, essa musa inspiradora do novo século: a personagem do livro é uma compulsiva por limpeza que vive em extrema solidão e que tenta desenvolver emoções próprias pegando emprestadas as emoções dos hóspedes do hotel para o qual trabalha. Seu método: ao terminar o serviço, ela adota o estranho hábito de deitar-se embaixo da cama deles, aguardando-os.

Quando eles voltam para o quarto, ela mantém-se ali quieta durante a noite inteirinha. Lembra de quando a gente era criança e temia que houvesse um monstro respirando bem embaixo do nosso colchão? Pois o bicho-papão do livro é a moça.

O texto é curto, enxuto e envolvente, meu número. Uma prosa rápida, mas com tamanho suficiente para desvendar o amplo universo de perturbações, fetiches e manias dos seres humanos.

Na próxima vez que eu me hospedar em hotel, e não deve demorar, olharei para as camareiras com um misto de perplexidade e fascínio. Aquelas criaturas que circulam de uniforme pelos corredores saberão um pouco de mim – se levo meu próprio secador de cabelos, se deixo a calcinha pendurada no chuveiro, se trago pra casa a caneta promocional que fica sobre a mesa de cabeceira, quantos cremes eu uso – mas o que saberei eu da intimidade delas? Melhor não espiar embaixo da cama.

Ruth de Aquino

Cisne negro, uma fantasia de Carnaval

Se tivéssemos de adivinhar qual fantasia faria mais sucesso nos blocos de rua neste ano, apostaríamos no cisne branco ou no cisne negro? Nenhum dos dois, provavelmente. O filme que deu o Oscar a Natalie Portman remete muito mais ao terror e à dor que à alegria e à leveza do Carnaval.

Mas muitas moças – e rapazes – se travestiram de cisne. O preferido não foi o bonzinho. E sim o cisne maquiavélico, lascivo, misterioso. Isso quer dizer alguma coisa. O cisne negro foi escolhido por ser mais sedutor.

Acho que só eu ainda não tinha visto o filme de Darren Aronofsky que dividiu a crítica entre os que amaram, odiaram e não entenderam. Não estava preparada para o impacto que Cisne negro me causou. Dancei balé clássico sete anos.

Os dedos dos pés ficavam feridos com a sapatilha de ponta, por mais esparadrapos, plumas e truques a que eu apelasse. A música, os ensaios, a coreografia, tudo era paixão e valia a pena. Mas o Cisne negro não me sequestrou por aí.

O som hipnotizante de Tchaikovsky. A fotografia, os efeitos especiais, os closes e o uso excepcional de dublês. As exigências do coreógrafo. Os labirintos mentais de Nina (Natalie). Tudo me pareceu verossímil por retratar a dualidade de todos nós e a busca da plenitude. Por que se preocupar com o que é ou não fantasia?

O filme é genial por ser um turbilhão, belo, forte e sensual. O diretor não separa o simbólico do real. E não tem a menor importância. No fim, eu via os créditos sem enxergar, com a respiração ofegante. Não pelo sangue ou pela pergunta estéril – morreu ou não morreu? Mas pela força transformadora do roteiro, pela sombra fictícia das asas negras no palco.

Conversei com nossa prima ballerina Ana Botafogo, que assistiu ao filme duas vezes: “O diretor usou o universo do balé como apoio por ter disciplina rigorosa, egos e emoção à flor da pele. Só receio que o filme leve pais e crianças a achar que os exageros são reais, as drogas, a bissexualidade. Como em toda profissão desafiadora, no balé há cisnes brancos, há cisnes negros e há os que surtam”. O desempenho de Natalie como bailarina foi elogiado por Ana: “Ela fez eximiamente as tomadas da cintura para cima.

No conjunto de braços, colo e pescoço, conseguiu uma harmonia impossível numa bailarina não profissional, mesmo tendo estudado dois anos para o papel. A trucagem com os dublês, para o trabalho de pés e piruetas, é muito caprichada. Cheguei a me confundir na primeira vez em que vi o filme”. O filme “Cisne negro” incomoda, não é para todos. Tem a ver com delírio, transgressão e liberdade

Só depois de assistir a Cisne negro, li sobre ele. Valorizou-se demais a rivalidade entre mãe e filha – comum em quase todo divã. Cada um vê o que lhe toca mais: a competição, a automutilação, a ânsia de perfeição.

Há o time dos implicantes com Natalie. Acham que “a expressão dela é sempre a mesma no filme”. Ela estava arrebatadora no papel de uma jovem confusa, sozinha, virgem e imatura que quer ser perfeita a todo custo. E surta.

Cisne negro incomoda. É um thriller psicológico sadomasoquista, um gênero que não é para todos. Não dá para levar a sério quem diz: “Não gostei do filme porque é exagerado”. É como não gostar de uma ópera “por ser dramática”. Ou não gostar de A single man (título patético no Brasil: Direito de amar), de Tom Ford, porque só percebeu no cinema, tarde demais, que o protagonista era homossexual e o roteiro era sobre gays.

Veludo azul e Cidade dos sonhos, ambos de David Lynch, são ruins por serem confusos, doentios? Esses filmes são alucinações. Não se exige compromisso com a lógica ou o comedimento. Quem deseja mergulhar num cristalino Lago dos Cisnes deve evitar a turbulência de Cisne negro, porque se sentirá ludibriado.

A frase que mais me marcou foi a do coreógrafo para a bailarina: “Perfeição não é só sobre controle; é também saber abandonar-se” . Técnica irrepreensível sem emoção deixa a desejar em qualquer profissão. É preciso deixar rolar, entregar-se, ser flexível e até imperfeito. Rir de si mesmo e de tudo.

O cisne branco, com sua rigidez, parecia incapaz de relaxar e se divertir. O cisne negro era passional, imprevisível, com a centelha da loucura, e por isso tão sedutor. Os foliões escolheram a fantasia certa.

Carnaval é uma festa pagã. Tem a ver com delírio, transgressão, máscaras e liberdade.


12 de março de 2011 | N° 16637
NILSON SOUZA


Duas rodas

No meu tempo de garoto, as bicicletas tinham duas características básicas: ou eram torpedo ou catraca. Torpedo, não sei se ainda é assim hoje, é aquela que tem freio contra pedal. Basta a gente empurrar o pedal para trás que a roda de trás bloqueia. Era o modelo ideal para fazer cavalo-de-pau em pista de terra.

A gente embalava e, no ponto escolhido, largava todo o peso do corpo no pedal, girando levemente a roda da frente. Os mais habilidosos nem colocavam o pé no chão, saíam do meio da poeira pedalando. Modéstia à parte, cansei de fazer isso.

Já as chamadas catracas tinham freio no guidom, o da esquerda para a roda da frente, o da direita para a roda de trás. Também não sei se ainda é assim, pois agora as bikes têm várias marchas, algumas são tão sofisticadas que o condutor pedala deitado. E a garotada faz cada coisa em cima de duas rodas que os circos só podiam mesmo ir à falência. Antigamente andar com a roda da frente no ar já era uma proeza. Agora tem menino dando mortal triplo sem descer do selim.

Por tudo isso – e também por absoluta incompatibilidade com o nosso trânsito – doei a última bicicleta que tive para o entregador de jornais, desejando que o homem fizesse bom uso do equipamento na sua tarefa de todas as madrugadas. Não durou uma semana nas suas mãos: ele encostou a bicicleta num poste para fazer a sua entrega e, quando voltou, ela já estava longe.

Os ladrões de bicicleta também se sofisticaram. Em tempos pretéritos, o máximo que eles faziam era raspar a pintura para evitar que ela fosse reconhecida pelo dono. Agora, me contou um especialista, trocam o quadro e as rodas, colocam acessórios coloridos, mudam tanto que ninguém mais consegue identificar.

Nunca tive esses equipamentos modernos que hoje fazem do ciclista quase um jogador de futebol americano: luvas, capacete, sapatilhas especiais, camisas antitranspiração e calças colantes. O máximo que contei como equipamento, na juventude, foi uma presilha de lata, que evitava que a calça comprida fosse mordida pela correia. Na maioria das vezes, porém, apenas colocava a calça dentro da meia.

Apesar de tanto amadorismo, fui um ciclista assíduo. Na época em que prestei serviço militar na base aérea de Canoas, saía pedalando da zona norte da Capital, atravessava um pedaço de Cachoeirinha e entrava, mediante permissão especial do comando, pelo portão dos fundos da área militar.

Poupava a passagem do ônibus, ganhava músculos nas pernas e ainda chegava em tempo de pegar o café da manhã, que era uma das melhores refeições do dia.

Mas o melhor deste brinquedo/transporte que me traz tantas boas recordações é que ele só obedece a quem aprende a inesquecível lição do equilíbrio. É o que parece estar faltando nesta batalha cada vez mais radical entre os condutores de bicicletas e de automóveis em nossa cidade.

quarta-feira, 9 de março de 2011



09 de março de 2011 | N° 16634
MARTHA MEDEIROS


A perca

Da série “só acontece comigo”: estava parada num sinal da Avenida Ipiranga quando um carro encostou ao lado do meu. A motorista abriu a janela e pediu para eu abrir a minha. Era uma moça simpática que me perguntou: “Martha, o certo é dizer perda ou perca?”.

“Hãn?”

“É perda de tempo ou perca de tempo? Como se diz?”

A pergunta era tão inusitada para a hora e o local, tão surpreendente, vinda de alguém que eu não conhecia, que me deu um branco: por um milésimo de segundo eu não soube o que responder. Perca de tempo, isso existe? Então o sinal abriu, os carros da frente começaram a engatar a primeira, eu olhei para ela e disse: “É perda de tempo”.

Ela sorriu em agradecimento e foi em frente. Meu carro ainda ficou um tempo parado. Eu parada no tempo. Perca de tempo.

Dei uma risada e segui meu rumo também.

Se alguém te diz “não perca tempo”, e todos te dizem isso o tempo todo, como não confundir? Tantos confundem. São coagidos a tal.

E, cá entre nós, a “perca” parece mais amena do que a perda.

A perca de um amor é quase tão corriqueira como a perca do capítulo da novela. A perca é feira livre. A perca é festiva. A perca é música popular.

Já a perda é sinfonia de Beethoven.

A perca acontece no verão. A perca de uma cadeirinha de praia, a perca de um palito premiado de picolé.

As perdas acontecem no inverno.

A perca é simplória, a perca é distraída, a perca é provisória, logo, logo reencontrarão o que está faltando.

A perda é para sempre.

As percas reinventam o vocabulário e seu sentido, não são graves, as percas são imperfeições perdoáveis, as percas são inocentes.

As perdas são catastróficas, nada têm de folclóricas.

A perca é um erro gramatical, e apenas esse erro ela contém. De resto, não faz mal a ninguém.

A perda é um acerto gramatical, mas só esse acerto ela contém. De resto, é brutal.

Se eu pudesse voltar no tempo, reconstituiria a cena de outra forma:

“Martha, é perda de tempo ou perca de tempo? Como é que se diz?”

“O correto é dizer perda, mas é muito solene. Perca dói menos por ser mais trivial”.

terça-feira, 8 de março de 2011



08 de março de 2011 | N° 16633
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Retrato de família

Até onde vai a memória? Esta é uma pergunta para a qual nunca obterei resposta, embora se ofereça para um jogo de tentativa e erro.

Tenho, bem aqui na minha frente, duas fotos em que apareço com meus pais. Sou uma criança de poucos meses, o tempo é o inverno de 1945. mas não guardo a mínima lembrança do dia em que foram tiradas. Para onde olho? Para uma nuvem, um gato, uma andorinha?

Depois vem outra foto, posada no Studio Aurora, de Cachoeira. Nela tenho um ano, informação que sei porque ela foi publicada no Jornal do Povo, até hoje sob o controle da família.

Mas nem tudo são fotos. Minha memória alcança muito mais cenas e momentos que se tornaram inapagáveis.

Aqui estou eu, na enorme cozinha da casa da Rua Sete, nos ombros de meu tio Nilson, que canta uma melodia espanhola. Aqui estou eu, olhando assombrado para um ser maravilhoso e estranho, que depois me contariam ser uma cigana. Aqui estou eu contemplando encantado umas tias lindas e crescidas, pois já eram então – eu saberia depois – meninas adolescentes.

É infinito esse universo de lembranças. De volta às fotos, surpreendo-me aqui, com minha irmã Miriam, junto ao Chevrolet 46 de nosso avô. E aqui num lugar chamado Granja da Penha, ao lado do poço que era uma reserva de mistérios insondáveis. E mais além, na porta da casa que abrigaria nossa infância por muitos verões.

Quem é esse casal abraçado que me olha do fundo da eternidade? São de novo meus pais, no esplendor de sua mocidade.

Que árvore é esta, que se ergue sobre todas as demais? É a figueira que sobrevive até hoje, como testemunha de um passado que não volta mais.

E quem são todas essas pessoas que sorriem para a câmera do fotógrafo, olhando para o futuro?

Somos nós, que nos amávamos tanto.

Bem amigos, desculpem pelo atraso dos post. a NET uma vez já foi boa, hoje sofre de uma instabilidade a toda prova. O bom é não contar com ela, e podendo trocar aconselho.

Parabéns a todas as mulheres leitoras deste Blogger, pelo seu dia.