sábado, 30 de dezembro de 2017



30 DE DEZEMBRO DE 2017
CARPINEJAR

O presépio da família

Não tiramos o presépio depois do Natal. Ele fica até janeiro.

Transformamos a churrasqueira em gruta de igreja - sem carne espetada no período de um mês. É nossa pia de água benta à espera de benzer a testa.

É assim desde criança. Os rituais mantêm a família unida.

Somos mais do presépio do que do Papai Noel. O Bom Velhinho de vermelho nunca desceu pela chaminé porque tem uma criança surgindo na manjedoura.

Minha mãe me ensinou a montar o teatro bíblico, a fazer uma maquete do solo com papel especial, a colocar algodão imitando nuvens, a recolher pinhas, palha e barba-de-pau das árvores para compor o cenário rural. Nossos Reis Magos - Melquior, Baltazar e Gaspar - perderam as mãos e colamos com bonder. O burro e as ovelhas estão amarelados pelo tempo, mas seguem zunindo e balindo. O anjo caiu algumas vezes do prego do portal e rejuntamos as suas asas.

É a mesma turma desde pequeno. Bonita porque quebrou e se refez, humana e falível como a gente, com a história explicada dezembro a dezembro aos filhos e netos. Deixaram de ser apenas esculturas, porém réplicas em miniatura da resiliência familiar. São pedras onde depositamos os nossos laços. Há a casa no sangue e a casa no espírito, que começa com o presépio.

Não valorizamos as luzes piscando, não esnobamos com decoração o pinheiro na sala, mantemos o costume de privilegiar as sombras e a simplicidade da reencenação de Cristo, criada por Francisco de Assis.

E as crianças desfrutam do direito de colocar no presépio os seus brinquedos prediletos. Já teve Barbie ladeando a Nossa Senhora, já teve Playmobil ajudando o carpinteiro José, já teve miniaturas de Kinder Ovo puxando conversa com os pastores.

As modas mudam, as épocas variam, e amadurecer talvez seja não evoluir no amor: preservar o olhar puro e pobre do nascimento para todo o sempre.

CARPINEJAR

sábado, 23 de dezembro de 2017


23 DE DEZEMBRO DE 2017
INFORME ESPECIAL

MBA E TERAPIA

Bem-humorada, a belga Esther Perel foi quem fez a primeira pergunta: O que tantos estudantes de Negócios estão fazendo aqui?. O mais correto seria trocar tantos por tantas, distinção que a língua inglesa não faz. Eram 80% mulheres, 20% homens. O evento promovido pela Wharton School trouxe à Filadélfia uma das mais famosas psicoterapeutas da atualidade. A autora de Sexo no Cativeiro está lançando um novo livro. O Estado dos Casos, Repensando a Infidelidade já era sucesso antes de ser lançado. No momento em que a revista Time escolheu como personalidade do ano o grupo de mulheres que denunciaram assédios sexuais, Esther não fugiu desse e de outros temas. Abaixo, um hiper-resumo das suas melhores ideias.

-Não são os homens poderosos que assediam as mulheres. São os homens inseguros. Homens seguros seduzem, conquistam.

-Confiar é a habilidade de conviver com o que a gente não sabe, não é saber tudo.

-O que define o sucesso de uma relação é o equilíbrio entre autonomia e dependência.

-O perdão em uma relação não deve ser focado apenas no impacto emocional do que um fez para o outro, mas também na compreensão dos motivos por trás do fazer.

-Trair não tem a ver com o outro, mas com quem trai. Trair não é objetivo. O objetivo é suprir a necessidade de se sentir amado, importante, jovem. Vale para homens e mulheres. A mentira também é o desejo de não machucar o outro.

-No amor moderno, o outro é o parceiro intelectual, a fonte única do prazer, o sócio, o que me faz sentir especial. O outro é "o único" para quem eu sou "a única". É aquele que me faz apagar os aplicativos do celular (risos). Por isso, a traição hoje dói mais do que doía quando o casamento era um contrato quase formal.

-O ser humano precisa de estabilidade, de segurança, de familiaridade. Mas também precisa da aventura, no novo, da transgressão. -Uma relação saudável deve ter espaço para ambos, dentro da própria relação.

-Temos várias vozes interiores que falam conosco. A voz crítica, a voz da pequena criança que diz "pô, e eu aqui?".Temos que conversar com essas vozes, fazê-las entender que precisamos trazer o conceito de felicidade das alturas para o chão. Felicidade numa relação também tem a ver com valores, não apenas com sentimentos.

-Uma boa relação não tem a ver com mais ou menos diferenças entre o casal, mas, sim, com conseguir lidar com essas diferenças.

-Uma relação é feita por partes interdependentes. Se quiser mudar o outro, mude você.

-Antes, as pessoas se separavam porque eram infelizes. Hoje, se separam para serem mais felizes.

Para celebrar o Natal, o Informe Especial ouviu instituições que têm como vocação ajudar o próximo, exercendo o espírito natalino o ano inteiro.

Que as pessoas sejam mais amorosas, compreensivas, deixem de lado as diferenças e sejam mais conscientes no dia a dia.

Ana Carolina Flor Silva

13 anos, paciente em atendimento de reabilitação física na AACD/RS.

Que nossas crianças tenham um lar, uma vida digna e uma família. Que nossas crianças tenham direito a educação de qualidade, que façam todas as refeições do dia, que possam brincar, praticar esportes, que tenham acesso à cultura e que tenham a oportunidade de viver no presente o amor e a fraternidade.

Padre Claudionir Ceron

Diretor do centro Social Pe. Pedro Leonardi

Somos o lar de 40 crianças e jovens invisíveis. Pouca gente os vê, muitos preferem fazer de conta que eles não existem. Neste Natal, esperamos que a luz abra os olhos de todos nós. Queremos que cada vez mais gente nos conheça e se junte a nós ou a qualquer outra iniciativa que tenha como missão ajudar o próximo.

Viturugo Rinaldi de Miranda

Voluntário da Casa do Menino Jesus de Praga

Que possamos viver num mundo onde todos se respeitem e sejam respeitados em suas individualidades, em que as evoluções sociais e tecnológicas possam garantir dignidade, saúde, segurança, acessibilidade, moradia e alimentação de qualidade a todos.

Rogéria Pazini

Assistente social do Asilo Padre Cacique

Um mundo com mais respeito, paciência, tolerância, solidariedade e amor entre as pessoas de todo o mundo, conforme os ensinamentos do Mestre Jesus.

Allex Manzônia

Voluntário do Instituto Espírita Dias da Cruz

Poder olhar o mundo com os olhos do coração e acreditar que é possível fazermos a diferença na vida das crianças que são atendidas por nós, despertando nelas o desejo de querer coisas boas para suas vidas.

Laura Moraes

Colaboradora da Sociedade Metodista de Amparo à Infância

CADU CALDAS

23 DE DEZEMBRO DE 2017
VITIVINICULTURA

Relação reforçada com a religião

Um ponto une a maioria dos fabricantes de vinhos de missa: a forte ligação dos produtores com a religião católica. Na Serra, muitos dos vitivinicultores que começaram no segmento eram próximos aos padres de suas comunidades ou do bispo de Caxias do Sul. Contudo, o caso da Frei Fabiano, de Vila Flores, é único. Na vinícola dos freis capuchinhos, os religiosos fazem a bebida.

O nome da vinícola é uma homenagem a Fabiano Cavalca, frei que começou a elaborar vinhos a partir da década de 1950. O rótulo para missa, porém, surgiu apenas nos anos 1970. Hoje, o volume é de 50 mil litros anuais e é um dos campeões de vendas da marca.

- O vinho de missa representa um quinto da produção total de 250 mil litros. Tem uma procura grande, inclusive por parte dos turistas que vêm até nossa pousada. Eles veem o vinho e ficam curiosos ao saber que é utilizado na missa - conta o frei Cleonir Dalbosco, administrador do complexo que, além da vinícola, conta com pousada e cantina.

Com 32 hectares de vinhedos, a Frei Fabiano utiliza entre 70 e 80 toneladas de uva para elaborar um lote do vinho litúrgico. As garrafas e os garrafões são comercializados principalmente na Serra, mas também há saída para outras regiões do Rio Grande do Sul e para os demais Estados da Região Sul.

Já a Don Affonso, de Caxias do Sul, há 40 anos passou a fabricar esse tipo de vinho para suprir demanda dentro da família. O fundador do negócio, Affonso Gasparin, tinha um filho sacerdote, que lhe encomendou a bebida para utilizá-la nas missas. O produto, entretanto, não está no portfólio comercial da empresa. Atualmente, a produção é destinada apenas para religiosos amigos dos Gasparin.

- O fundador sempre teve esse vinho e fazemos questão de manter a tradição. Às vezes, o pessoal de alguma igreja nos liga pedindo. Fornecemos para umas 10 igrejas em Caxias, Farroupilha e Flores da Cunha - diz André Gasparin, enólogo da empresa.

ENVELHECIMENTO EM BARRIS DE MADEIRA



Segundo Gasparin, o processo de produção segue o mesmo de décadas passadas. Um dos pontos mais emblemáticos é o envelhecimento nos tanques de madeira por sete anos antes do envase.

Além das vinícolas gaúchas, existem outros produtores de vinhos de missa espalhados pelo Brasil, como Adega Mazziero (São Paulo), Casa Geraldo (Minas Gerais) e La Dorni (Paraná).

23 DE DEZEMBRO DE 2017
NATAL

SHANA MÜLLER Música e apresentadora da RBS TV


Impossível fazer esse desejo sem olhar para trás. O ano de 2017 foi aquele em que eu disse alto a frase que comanda muito do meu dia a dia: "Não vim ao mundo a passeio!". Serviu para que eu mesma entendesse que tenho voz e que ela precisa ser ouvida. Expus minhas reflexões, correndo o risco do desagrado, da crítica, da piada. Afinal, que mulher se atreve a apontar o dedo para essa ou aquela canção, desse ou daquele consagrado artista? Afinal, "isso é tradição e ninguém deve se atrever a questionar", conforme pensaram e expressaram muitos.

Apesar de poder dizer, percebi o tanto que é preciso evoluir no compreender o outro por meio de nossas atitudes. Foi assim que entendi que há muito, muito mesmo, a evoluir como sociedade. Apesar de estarmos vivendo uma revolução social - e não tecnológica, como podemos achar em alguns momentos -, a sociedade parece caminhar para trás em alguns sentidos, principalmente ao olhar para o lado.

Portanto, em 2018, DESEJO MAIS EMPATIA DE MULHERES E HOMENS. HÁ MUITO A CAMINHAR NA CONVIVÊNCIA DOS GÊNEROS, NAS QUATRO PAREDES DE CADA UM, NO PALCO ABERTO DE TODOS. Um caminho de horas, dias, meses e um novo ano com menos violência (ou incitação a ela), com mais espaço para pensar e fazer o feminino, com menos preconceito e mais equidade, com amor entre todos, porque no fundo, do pó viemos e a ele voltaremos do mesmo jeito.

Enquanto mulher, desejo não apenas que tenhamos voz. Não apenas dizer, mas ter mais lugares para que ela seja ouvida e mais ouvidos abertos dispostos a escutar. QUE TODAS AS MULHERES POSSAM SER, VIVER E AMAR COMO OUTRO (A) QUALQUER NO PLANETA, COMO CANTOU MILTON NASCIMENTO.

23 DE DEZEMBRO DE 2017
CARPINEJAR

O cheiro da mãe

Logo que a criança nasce, nas primeiras semanas depois do parto, a mãe deve evitar o uso de perfume. Para não confundir o filho.

O cheiro do corpo materno será a maior ligação que o bebê terá com o mundo. Tanto que ele costuma chorar no colo de qualquer um, menos no colo da mãe, pois reconhecerá imediatamente o cheiro do pescoço. Só o olfato já o acalmará.

Pôr o pequeno no peito, ainda que não seja para mamar, trará o conforto da pele conhecida, o agrado de pertencer a um lugar definido depois do ventre.

É pela respiração que nos sentimos amados, antes das palavras, antes dos gestos.

O bebê mal pode enxergar, mas já sabe quem é quem pelo suor, pela química dos poros. É uma conexão primitiva, quase inexplicável, de animal com o seu ninho.

Quando ele inspira a pele da mãe, estabelece um endereço de proteção. Talvez represente o momento oficial de seu nascimento: quando ele liga o wi-fi da personalidade. Todo perigo se apresentará fora daquele corpo, daqueles quadrantes, daquela bússola.

A maior parte de suas lágrimas decorre de quando se vê distante do seu cheiro de existir, presente na mãe. É o seu primeiro cueiro, a sua primeira manta. É o seu esconderijo na luz, o seu ferrolho para entender o que está acontecendo e onde veio parar.

Suas lembranças primevas descendem do faro, o seu canal de comunicação com os outros.

Não é por menos que, adultos, nos comovemos com um olor, sem fixar a origem da atração. Surgiu certamente do berço, da nossa fulminante e arrebatadora estreia. Eu, por exemplo, sou apaixonado por hortelã. Numa conversa à toa com a mãe, descobri que era o seu chá predileto nas minhas semanas iniciais de vida.

Dos 3 mil odores que um ser humano pode colecionar ao longo de sua trajetória, há um apenas que lhe dará segurança.

Quando abraçamos a nossa mãe, refazemos a mágica da fragrância fundadora. Não há melhor abrigo para nascer de novo.

CARPINEJAR

23 DE DEZEMBRO DE 2017
PIANGERS

A culpa é deles


A minha sogra é psicóloga especializada em crianças e, de vez em quando, vou até sua biblioteca descobrir algum livro que possa contribuir na educação das minhas filhas. Esses dias, achei um livrinho que na abertura tinha um desenho. Eram grupos de pais, professores e crianças, um grupo apontando para o outro e dizendo: A culpa é deles!. Pensei: Que desenho atual!. Mas, quando chequei a data do desenho, descobri que era de 1982.

Ou seja: nunca chegaremos a um ponto de satisfação plena com a escola. O aprendizado está em constante adaptação, essa é que é a verdade. E nunca chegaremos à escola ideal, precisamos reconhecer. Escolas são tentativas e, certamente, não será uma escola que vai formar seu filho. Serão seus exemplos. Da escola levamos amigos e, se tivermos sorte, professores inspiradores que nos deram caminhos para desenvolver nossas potencialidades. Mas, no final do dia, cada pai poderá ser esta inspiração.

Quando minha primeira filha nasceu e estava chorando nos meus braços pela primeira vez no hospital, fui até o corredor falar com a enfermeira pra que me ajudasse a cuidar do bebê. Ela então me disse, educadamente: "Agora é com você, papai". Fiquei assustado naquele momento, mas hoje entendo. Ela queria que eu aprendesse a ser pai sendo.

Agora é com você.

Não é com a escola, o tablet, o celular, o Peppa Pig, o YouTube ou a Netflix. Não é com a sua sogra ou com os vizinhos que seu filho vai aprender sobre as coisas da vida. Agora é com você. Falar sobre a importância de entender as coisas, sobre estudo, sexo, drogas, consequências do que fazemos, vício em tecnologia, bullying. Agora é com você! A gente precisa parar de ter medo e encarar as questões mais desafiadoras relacionadas à criação dos nossos filhos.

Se não, será para sempre como naquele desenho. Apontaremos para todos os lados dizendo, eternamente: "a culpa é deles".

PIANGERS


23 DE DEZEMBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Amiga oculta


Era 3 de dezembro de 2016, um sábado. Pra variar, eu estava diante do computador, quando entrou mais um e-mail em minha caixa postal. Era assinado por uma brasileira que eu não conhecia. Seu nome era Shayla Bittencourt, uma mulher que, educadamente, pediu meu endereço, pois gostaria de me presentear com um livro. Não costumo fornecer meu endereço assim, à toa, mas ela vivia em Londres (só de ouvir o nome da cidade, me derreto) e livro é coisa que não recuso, então dei a informação solicitada e depois os dias passaram em silêncio, o que me fez esquecer o assunto.

No dia 26 de dezembro, a campainha do meu apartamento tocou e do outro lado da porta havia um grande pacote. Quando percebi que vinha da Inglaterra, lembrei: é o tal livro. Quem será o autor da obra? A remetente estaria divulgando algum novo talento britânico? Ou estaria me oferecendo algum clássico de Jane Austen, de Edgar Allan Poe? Errado para ambas as suposições. Jamais imaginei que a autora do livro fosse eu mesma. Shayla havia traduzido minhas crônicas para o inglês e me enviava as cópias com um estupendo laço de fita vermelha e uma verve diabólica.

Por isso gosto tanto da vida: pelos imprevistos. Faz alguns anos que eu e minha família decidimos não mais trocar presentes no Natal, já que temos tudo o que precisamos e nos basta estar juntos. Mas, claro, sempre havia um ou outro que descumpria o trato. Porém, o Natal de 2016 havia sido o primeiro em que eu não havia recebido nenhum, nenhum, nenhum presente. Até que minha campainha tocou no dia 26 e descobri que Papai Noel existia.

Foi assim que Shayla entrou na sala da minha casa: não pela chaminé, mas pela via do afeto e da gentileza. Meus livros já foram traduzidos para o francês, o italiano e o espanhol, mas nunca para o inglês. Pois Shayla não só me traduziu, como conseguiu fechar contrato com uma editora independente, com sede em Londres e filiais em Nova York e Sidney, e, pra encurtar a história, o livro será lançado em 2018, mas isso nem é o presente maior.

O presente, de fato, é a própria Shayla, intérprete por profissão e dançarina de tango nas horas livres, a quem conheci pessoalmente, meses atrás, e descobri afinidades extraordinárias, do tipo que faz a gente se perguntar se não houve uma separação ainda no berço. Ela, catarinense; eu, gaúcha - pra quem não sabe, isso já configura um parentesco.

Mais do que a oportunidade de ter meu trabalho disponível nas livrarias espalhadas pela Charing Cross Road (não se impressione, edições estrangeiras dão charme aos nossos currículos, mas, na prática, não mudam a vida de ninguém, as vendas são pra lá de modestas - Paulo Coelho não confirmaria isso, claro), o que ganhei mesmo foi uma amiga secreta, uma amiga oculta, que se revelou de forma inesperada e com quem hoje troco longos e divertidos áudios pelo WhatsApp, além de fazer novos planos profissionais.

Presente é isso. A vida que a gente reza pra ter, mas que independe de orações - basta abrir a porta pra ela, sem medo.

MARTHA MEDEIROS


23 DE DEZEMBRO DE 2017
OPINIÃO DA RBS

PAÍS SEM FORMAÇÃO


Sem um projeto articulado envolvendo União, Estados e municípios num horizonte mais amplo, o país não conseguirá assegurar padrões mínimos de qualidade,

que são imprescindíveis para o desenvolvimento

Além de contar com 7,2% de analfabetos na faixa de 15 anos de idade ou mais, o Brasil tem nada menos de 51% da população de 25 anos ou mais com apenas o Ensino Fundamental completo. Os dados fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2016 (Pnad Contínua), divulgada agora pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e ajudam a explicar por que o Brasil vem perdendo produtividade e competitividade na comparação com outros países. Gestores públicos nas três instâncias da federação precisam fazer com que essas estatísticas sejam usadas para o país se livrar dessa condição. Isso significa que, depois de universalizar a matrícula no Ensino Fundamental, é preciso investir em qualidade.

O mesmo país que conseguiu levar todas as crianças para a escola está agora diante do desafio de mantê-las atraídas pelo aprendizado quando chegam à adolescência. Essa missão não depende de oferta de vagas, pois elas existem, mas de qualificação dos professores, de motivação dos alunos e de conscientização dos pais sobre a importância da educação. 

O alcance da meta vai depender da capacidade das três instâncias da federação de se unirem em favor de uma política continuada de melhorias nessa área, independentemente de quem esteja no poder. Essa é uma precondição para a redução das desigualdades sociais e para a retomada do crescimento em níveis sustentáveis.

Um brasileiro de família de baixa renda que chega aos 15 anos analfabeto vai esbarrar em dificuldades que começam no cotidiano e se estendem ao ambiente de trabalho, pela incapacidade de entender até mesmo instruções elementares de um manual. Em consequência, é improvável que possa ascender socialmente. Na prática, acaba contribuindo para a manutenção e até mesmo o recrudescimento de desigualdades sociais crônicas.

Especialistas identificam que uma das razões fortes para os elevados índices de adultos que não leem é o fato de o processo de alfabetização não ocorrer no 1º e no 2º ano do Ensino Fundamental, mas no 3º. Entre as explicações para o fato de os adolescentes deixarem a escola e não voltarem mais, está o desinteresse pelos conteúdos, que precisam ser revistos.

O fato concreto é que, mesmo diante de números semelhantes revelados em pesquisas anteriores, o Brasil tem demorado a reagir em relação às causas, que são conhecidas, e hoje segue atrás de muitos países da América do Sul nessa área. Sem um projeto articulado envolvendo União, Estados e municípios num horizonte mais amplo, o país não conseguirá assegurar padrões mínimos de qualidade, que são imprescindíveis para o desenvolvimento.


23 DE DEZEMBRO DE 2017
LYA LUFT

Pra quem acredita, Natal existe

Pois esta coluna vai aparecer exatamente na véspera de Natal. Ou nas vésperas, porque já sai no sábado. Muitos hão de pensar, ué, essa senhora, com tudo o que já viveu, experimentou, passou, leu, aprendeu, curtiu ou sofreu, ainda acredita nisso?

Pois esta senhora acredita em fadas e duendes que de noite cochicham entre as árvores do meu jardim no Bosque de Gramado, acredita em anjos da guarda, acredita em Deus, seja lá como o quiserem definir: força suprema, mistério que envolve o mundo, enigma que criou e observa o universo com ar de pai meio divertido, meio compadecido... não importa. Em deuses, desses bonitos e humanos, deuses da alegria e do consolo, da água doce, do mar, da floresta, dos tesouros, dos ventos.

Acreditei em Papai Noel e Cegonha até uma idade vergonhosa na minha infância. O Coelho da Páscoa se foi mais cedo, pois ninguém me explicava como esse bicho, mesmo grandão, botava ou fabricava tanto ovo.

Seja como for, acreditar é bom, se for em coisas boas. Também acredito que, apesar de todo o mal que vejo no mundo - mais aquele de que não quero nem ouvir falar -, existe bondade, amor, solidariedade, compaixão. Também existe amigo, e família, e em horas difíceis, ah como é bom que existam. Não só pra curtir férias, churrascos, festas, praia, não-fazer-nada, como pra segurar a mão, dizer alguma coisa boa ou nem dizer nada, quando a dor aperta.

Então, como eu não acreditaria em Natal? Não sei se nasceu mesmo aquele menino lindo, de mãe virgem, me dava uma certa peninha de José não ser o pai, mas essas coisas a gente respeita e crença alheia pra mim é sagrada.

Mas acredito sobretudo no Natal como dia, noite, hora, em que se reúnem família e amigos, ou amigos e amigos, ou dois amantes, ou colegas, ou vizinhos, ou até desconhecidos, e trocam abraços, e se desejam um bom Natal, muitas vezes já incluindo um bom novo ano. Melhor do que este que está acabando, porque este quase acabou com a gente.

Mais honesto, mais confiável, mais leve, machucando menos, enganando menos, explorando menos, mutilando menos - ajudando mais, empurrando um pouquinho mais pra cima e pra frente os que estão no desalento. Sim, eu acredito que o novo ano deve ser abraçado nas pessoas queridas, que Natal é possível: pra quem deseja, gosta, acredita em solidariedade, alegria, convívio bom, e tudo que é jeito de amor.

Que este Natal seja manso.

LYA LUFT


Livro usa economia para falar de amor, drogas e amizades

Divulgação/Santosfc
O jogador de futebol Jean Chera, que tem a trajetória analisada em "Pode Não Ser o que Parece", em imagem de 2011
O jogador Jean Chera, que tem a trajetória analisada em "Pode Não Ser o que Parece", em 2011

Quando um tema ganha projeção no noticiário, é comum surgirem obras tentando surfar na popularidade do assunto para capturar a atenção de leitores. Isso, de uma maneira geral, acaba dando origem a uma série de publicações com variações do mesmo tópico –algumas melhores, outras piores. A economia comportamental, que rendeu ao americano Richard Thaler o Nobel de Economia neste ano, é a bola da vez no que diz respeito ao universo financeiro.

Sua ideia principal é que decisões são pautadas mais por emoções e vivências pessoais do que pelo racionalismo que marca outras correntes econômicas. "Pode não ser o que parece", de Samy Dana, professor da FGV, e Sérgio Almeida, professor da USP, parte dessa concepção para abordar as razões econômicas que estariam por trás da escolha dos amigos, dos parceiros afetivos e até do número de filhos de um casal.

São dez capítulos que recorrem a pesquisas, estudos e teorias para destrinchar como o comportamento molda decisões econômicas e influencia a sociedade. Um exemplo envolve as atualizações das leis de divórcio nos Estados Unidos, que eliminaram a necessidade de que um dos parceiros tenha feito algo errado para que a Justiça aceite dissolver a união. 

Os autores citam pesquisa que indica que as regras explicam parte (17%) do aumento da taxa de separação nos 30 anos seguintes ao surgimento das normas. Em outros casos, porém, o comportamento do consumidor fica em segundo plano, como ocorre na discussão sobre tráfico de drogas. A concentração de mercado –são poucas facções– e a lei da oferta e demanda estão entre os fatores que influenciam a procura pelos entorpecentes.

Segundo estudos mencionados pelos autores, as forças de combate às drogas têm sido mais bem-sucedidas em coibir maconha –mais fácil de detectar por causa do volume e do cheiro– do que cocaína. O resultado é que o preço da maconha sobe e o da cocaína cai –o que leva ao aumento do consumo da segunda. Nem o amor escapa da lógica econômica. O casamento, dizem os autores, acontece quando cada um decide parar de procurar o par perfeito, em uma decisão emocional, com um fundo racional.

O amor também tem influência sobre as desigualdades sociais, argumentam. Basta unir um parceiro mais endinheirado a um menos favorecido. É uma forma de distribuir melhor a renda. Rico casando com rico e pobre se unindo a pobre é uma equação que só perpetua a concentração de renda, de acordo com as teses econômicas. Se algumas comparações e analogias fazem sentido, outras acabam ficando deslocadas –e sem muita relação com a economia. Exemplo é o capítulo sobre boas intenções, que aborda como o comportamento de pais pode prejudicar os filhos.

NOVO NEYMAR



O livro exemplifica com a história do jogador de futebol Jean Chera, apontado como o novo Neymar. Aos 15, ganhava R$ 30 mil no Santos e passou a ser disputado por clubes estrangeiros.


As brigas que o pai tinha com a direção do clube santista fizeram o rendimento do atleta cair. Em 2011, ele deixou o Santos sem jogar uma partida oficial pelo clube e a sua carreira só foi decaindo desde então. É difícil entender o ponto dos autores com o relato.

Em outros capítulos, no entanto, fica mais fácil acompanhar o raciocínio. Isso acontece, por exemplo, na discussão sobre dinheiro e felicidade, que traz dados de um estudo que indica que a riqueza de um país não tem relação direta com a satisfação dos habitantes. E também a teoria do retorno marginal decrescente, simples de entender: R$ 1.000 fazem mais diferença para um morador de rua do que para o Bill Gates.

De maneira geral, o livro consegue mostrar como o comportamento influencia as decisões econômicas. Mas, em alguns casos, a relação direta não é tão trivial. 


Pode Não Ser o que Parece 
QUANTO: R$ 39,90 (176 PÁGS.)
AUTOR: SAMY DANA E SÉRGIO ALMEIDA
EDITORA: OBJETIVA

Um símbolo que cai

Leonardo Benassatto/Reuters
Member of Brazil's Lower House of Congress Paulo Maluf (2nd R) is escorted by Federal Police as he leaves the Medical Legal Institute in Sao Paulo, Brazil December 20, 2017. REUTERS/Leonardo Benassatto ORG XMIT: SAO100
O deputado Paulo Maluf (PP-SP), após exame de corpo de delito nesta quarta (20)


Há muito de patético, sem dúvida, na imagem de um Paulo Maluf curvado, de bengala, sendo conduzido pela Polícia Federal para cumprir uma pena de prisão. Aos 86 anos, o deputado federal pelo PP de São Paulo não mais aparenta aquela indestrutível autoconfiança que, desde seu primeiro cargo na política, em 1969, surgia como afronta aos olhos de seus adversários e como sinal de determinação e empenho construtivo aos adeptos que nunca deixou de ter.

A avançada idade em que a sentença de sete anos, nove meses e dez dias de prisão atingiu o ex-prefeito, ex-governador e ex-candidato à presidência da República termina por configurar um símbolo das muitas ambiguidades em que se debate o atual estado do combate à corrupção no país. Escancara-se o conhecido problema da lentidão judicial. O desvio de verbas de que Maluf é acusado remonta a sua segunda gestão como prefeito de São Paulo, entre 1993 e 1996.

Contra o engenho de sofisticados defensores a argumentação proverbialmente tosca do próprio réu (que desafiava as câmeras e o bom senso ao negar a existência de contas em seu nome da Suíça), o Supremo Tribunal Federal só conseguiu condenar Paulo Maluf graças ao extremo rigor da lei contra a lavagem de dinheiro.

Era de todo modo irônico, e o próprio Maluf cuidava de explorar a circunstância, que em meio à onda de escândalos e prisões que atingia tantos adversários —do PT, do PSDB, do PMDB—, um ícone dos desmandos desde o regime militar permanecesse impune.

Em 2005, após um período de detenção de 40 dias, interrompido por um habeas corpus, o político paulista disse ser vítima de pura perseguição —ostentando bom humor, tomando cerveja e comendo no estabelecimento que recebeu o nome de Pastelão do Maluf, em Campos do Jordão (SP).

Em março deste ano, gabou-se de não constar do rol de investigados na Lava Jato e no mensalão. As muitas suspeitas contra ele levantadas ao longo de décadas tendem, de fato, a se diluir na memória coletiva nacional. Que não se minimize, entretanto, a corrupção dos tempos da ditadura, facilitada pela prosperidade econômica, pela censura à imprensa e pelo controle da Justiça.

Se a democracia restaurada herdou os vícios do patrimonialismo, da megalomania estatal e da irresponsabilidade orçamentária, ao menos proporciona as vias para denunciá-los e corrigi-los.

sábado, 16 de dezembro de 2017



16 DE DEZEMBRO DE 2017

PIANGERS

Período de férias

O período de férias escolares pode ser uma alegria para a criançada, mas é um momento tenso para pais. Apesar de as crianças estarem agora com todo tempo livre do mundo, continuamos com nossos trabalhos, nossas reuniões, nossos relatórios para entregar. Por isso, criamos colônias de férias e cinemas 3D no shopping e condomínios em que as crianças possam brincar entre elas. E sogras. Sogras são uma ajuda divina na época de férias escolares. Nunca mais reclame de sogras que moram perto.

Inventamos também pacotes de bolacha e Netflix. Essa combinação possibilita horas de tranquilidade: a Galinha Pintadinha ou Ben 10 em fluxo contínuo na televisão e um pacote de bolachas para uma criança permite que você tenha um dia tranquilo de trabalho. Ou uma semana, talvez um mês. Um casal de amigos viajou para a Europa por 20 dias e deixou os filhos em casa, graças à Netflix com bolacha de chocolate. (É ficção, gente. Por favor, não tentem fazer isso. Não com esse euro altíssimo.)

E, claro: há, também, as férias conjuntas. A família toda combina de tirar férias ao mesmo tempo. Aí, é como naquela piada daquele comediante americano. Você arruma as malas com as crianças pulando ao seu redor, arruma as crianças, arruma as mamadeiras, ajuda a mulher com a tralha. Coloca as malas no carro, a bola de praia, a cadeira e o guarda-sol, a criança menor na cadeirinha, a filha adolescente reclamando de tudo. 

Você fecha o porta-malas. Ajuda sua mulher a entrar pela porta do carona. A família toda está dentro do carro. Lá dentro conversam e choram e gritam. Você dá a volta no carro para entrar pela porta do motorista. E aquela volta no carro é o que pode se chamar de férias!

Voltaremos depois do verão mais cansados do que saímos. Costas vermelhas, carro sujo e contas pra pagar. A filha mais nova quis comprar picolé, milho verde, churros, sorvete e crepe suíço. A filha mais velha ficou só no celular reclamando que queria estar com as amigas (quando as amigas vieram passar uma semana reclamou que estavam muito irritantes). As férias foram o período mais estressante do ano. 

Mas também foi o momento em que dormimos juntos assistindo a filmes, bebemos e dançamos na chuva com as crianças, pulamos ondas em um pôr do sol rosado até nossos dedos ficarem murchos. Passeamos de mãos dadas sem preocupações no meio de uma terça-feira. Valeu tudo a pena. Ano que vem tem mais.

PIANGERS


16 DE DEZEMBRO DE 2017
CARPINEJAR

Beijo diário de despedida

Conservo um costume com a minha esposa: o primeiro a trabalhar não pode sair de casa sem dar um beijo de despedida. Mesmo que acorde o outro. Mesmo que derrube um objeto no escuro. Mesmo que sacrifique o seu mundo onírico.

Dói entrar no quarto e ter que informar a minha partida. Talvez esteja quebrando o sono leve de minha mulher, rompendo a casca fina do inconsciente. Nem sempre ela pode dormir mais. Nem sempre ela tem uma folguinha nos horários. Mas é o nosso pacto. E acordos entre nós dois são inquebrantáveis - nos lixamos se os demais compreenderão a nossa rotina como dependência e submissão.

Chego de leve e arrisco um toque manso de boca. Seguro a respiração ofegante do café tomado, tento me conter, não quebrar os cristais do descanso, só que é ela me perceber partindo, com o perfume da loção na barba feita, que logo fica espalhafatosa: já me abraça forte e troca juras. Depois se amansa e vira ao seu lado, com o prazer do romance renovado.

Ela diz que a minha aparição não a atrapalha, até gosta. Confessa que dorme melhor sabendo que a amo. Espia a minha roupa, faz um check-in em meu terno e gravata e fecha os olhos docemente. Eu sou uma espécie de despertador de celular, um alarme do amor. Ela já se habitou a ativar o tempo da soneca a partir da minha entrada para o tchau.

Ela acredita que a despedida diária mantém o casal unido. Quem não avisa que está saindo se desapega e pode não voltar. O hábito constrói o respeito e mantém acesa a paixão.

É a grande diferença entre o casamento e colegas dividindo a casa: a intimidade declarada. Quando avisamos da partida com os olhos dos lábios não deixaremos de nos procurar e nos enxergar durante a distância dos empregos.

Nossos bilhetinhos são feitos de pele, com a tinta da saliva. São dois anos invictos, com as datas presas ao calendário do ritual.

Não cumprir o nosso combinado me deixaria mal durante o resto da jornada. Não quero nem pensar viver diferente. Eu sussurro histórias de nosso romance em seus ouvidos, de manhã cedo, para ela adormecer e sonhar comigo.

CARPINEJAR


16 DE DEZEMBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

VERSUS O FANTASMA

Viver é melhor que sonhar, mas que se dê crédito ao onírico: nenhum ser vivo é páreo para um fantasma. Uma história construída e patrocinada pela mais febril imaginação não tem como ser esquecida.

Ela era uma mulher que por oito anos recebeu cartas de um homem que nunca se apresentou diante dela, nunca disse quem era, mas que ofertou as mais arrebatadoras declarações de amor, aquelas que confirmam que o ponto G fica mesmo no ouvido, como disse certa vez Isabel Allende. Por oito anos, ela manteve uma relação epistolar que sobreviveu graças à expectativa, mas que nunca evoluiu para abraços e convivência. Os outros homens que dela se aproximavam recebiam a atenção da moça e promessas de enamoramento, mas eram previamente avisados sobre as tais cartas anônimas. Os pretendentes mais espertos logo intuíam: seria impossível disputar com um amante idealizado.

Esse é um resumo acanhado do livro Minotauro, do israelense Benjamim Tammuz, mais um golaço da editora Rádio Londres, que só publica fera. O livro vai além, vai mais longe, mas aqui eu me retenho: o que é mais poderoso, um desejo consumado ou um desejo que jamais se realizou?

Volto algumas dezenas de anos atrás, quando eu, uma jovem garota inexperiente, vivi uma longa paixão por um tenista que nunca havia dedicado nem cinco segundos a me olhar. Muitos anos mais tarde, eu descobri que era correspondida, e, então, adultos, acabamos tendo um affair que teve a velocidade de um voleio. Iniciou, acabou. E passei o resto da vida com saudade daquilo que eu havia experimentado antes de termos nos relacionado: do meu desconhecimento ingênuo e de todas as situações românticas que passei bons anos da minha adolescência imaginando. Maldita ansiedade que me fez querer conferir se a vida poderia reproduzir o sonho. Não, ela nunca consegue.

A idealização é um acontecimento em si. Mesmo por alguém que nunca vimos, ou especialmente nesse caso. Sem um rosto e sem uma voz que nos faça cair na real, alimentamos um sentimento que ignora a atração física, que resiste na mais absoluta e pura invenção. Paixão lúdica, anárquica, espetacular. A cada manhã, você conversa em silêncio com alguém que parece ocupar um lugar à mesa da cozinha, à tarde você passeia ao lado de alguém que pega sua mão mesmo não estando ali, e à noite os travesseiros testemunham seu corpo solitário ocupar a cama inteira e torná-la pequena para tanta fantasia.

O fantasma atende suas súplicas. Ele responde às suas inquietações. Ele sabe o que você pensa e só aguarda o seu chamado para entrar em cena. Com ele não há mal-entendido, não tem ausência por motivo de força maior, não tem a passagem do tempo trivializando suas ilusões cinematográficas.

Ele a quer do jeito que você sempre quis. Ele não fala sobre política, Lava-Jato, violência - tem coisa mais empolgante pra tratar. O assunto preferido dele é você, olhar pra você, adorar você. E ele não atrasa, não mente, não desaparece. O irreal é seu amor para sempre e você é o amor perfeito que ele não sabe que possui.

Por mais que tente, nenhum ser humano é capaz de igualar essa proeza. A não ser os psicopatas, lógico.

MARTHA MEDEIROS

16 DE DEZEMBRO DE 2017
LYA LUFT

Três poemas


Quando me mataram,


meu lado não verteu água nem sangue:

eu me verti de mim por essa fenda,

escorri para a terra, debaixo das lajes,

me fingindo ausente.

(Quem me ama sabe que estou ali,

e com paciência me aguarda;

isso é uma luz na noite.)

Quando chegar o tempo de retorno,

eu volto.

Subirei devagar,

empurrando a alma com meu sangue

por labirintos e paradoxos,

descrença e esperança,

até inundar novamente o coração.

(Não será o coração de antigamente.)

Quando eu era menina,

minha mãe tocava piano

e a árvore de Natal girava

em sua pinha de ferro batido.

Eu cochilava no colo de meu pai:

dentro do peito dele pulsava

a máquina da vida que nunca se cala.

(Mas uma coisa escura e sorrateira

fazia rumor fora da casa:

era o destino chegando

passo a passo, e eu não sabia.)

Junto ao coração de meu pai,

ao ritmo da música do sangue,

meu coração também estremecia:

a faca cortando a minha alma

era pressentir que as águas do mundo

inundariam o tempo e o espaço,

e haveria perdas no caminho.

(Seríamos um dia pálidos rostos

em retratos, e rastros de perfumes numa mala.)

Dorme filho meu,

que eu te contemplo.

Sobre tua cabeça de sonho e névoa

a moldura da janela se abre

para uma vida só tua

que não conhecerei inteiramente.

Dorme fragilidade entregue,

seda de cílios sobre esse olhar azul,

espelho onde me renovo a cada hora.

Ser do meu ser, pétala a pétala tramado,

mãos tecidas da minha carne obscura, riso

da minha alegria, olhos

da minha infância, sombra

dos meus passos na tua sombra pelo chão.

Dorme filho meu, que eu te protegerei

enquanto couberes nos meus braços

- mas vou chorar por mim quando te afastares

para conquistar o teu futuro.

Nada sei de ti além do peso

do teu abandono no meu colo,

nada além do som do teu nome

que escolhemos,

e do teu destino impalpável.

Dorme, filho meu. Um dia serás um homem

com pedaços de vida de que não farei parte;

mas serás sempre, em qualquer dia e hora,

esse, de olhos azuis, o meu menino. (1966)

LYA LUFT

sábado, 9 de dezembro de 2017


09 DE DEZEMBRO DE 2017
PIANGERS

Você não precisa


Era um desses eventos em que as perguntas da plateia vêm em papeizinhos dobrados e, quando disseram que era uma pergunta anônima, já pensei que era injusto porque minha resposta não seria. Estou passando a maior dificuldade financeira porque preciso fazer a festa de dois anos de aniversário do meu filho e não tenho dinheiro algum, leu a mediadora, óculos meio caídos no nariz e ar de preferia estar em casa.

"Ora", respondi, "Você não PRECISA fazer uma festa de aniversário de dois anos pro seu filho". Alguns pais fizeram "Ohhhh", como se, na verdade, precisassem, sim, como se eu estivesse dizendo algo como você não precisa escovar os dentes ou você não precisa dar seta quando vai virar à direita. "Precisa, sim!", imaginei um pai gritando, uma mãe se levantando para ir embora, um copo com o logotipo do evento voando na minha cabeça, uma imensa vaia. Em um canto do auditório apenas um proprietário de uma casa de festas, estas que cobram milhares de reais por uma festa de dois anos de idade, sorrindo escondido nas sombras e por trás de seu chapéu de aniversário e língua de sogra.

Não sei em que momento a gente acreditou que PRECISA das coisas. Eu preciso de uma televisão nova, esta é uma frase real que, por alguma razão, convencionou-se considerar natural. Eu preciso reformar minha casa de praia. Eu preciso trocar os móveis lá de casa. Eu preciso trocar de celular, meu celular não está mais tirando foto - e o que fazia esta pessoa antes de 2005 quando os celulares não tiravam fotos ou quando as máquinas tinham 25 poses e demoravam uma semana para serem impressas?

Alguns de nós dormiram em duas cadeiras de restaurante durante boa parte da infância. Nossas festas de aniversário tinham apenas pão com salsicha feito em casa, um pra cada convidado, e brigadeiro de panela. Nossos cachorros não tinham raça nem ração, nem roupinha pra esquentar no inverno. Não sabíamos o que era internet de fibra ótica e voar de avião era um sonho distante. Mesmo assim, éramos felizes.

Me preocupa que, ao naturalizar nossas (ditas) necessidades, a gente se obrigue a outras coisas também. Você não precisa comprar nada na Black Friday. Você não precisa dar presentes de Natal. Você não precisa ser mais rico que o seu irmão advogado. Você não precisa trocar de carro só nesse final de semana de plantão de vendas com preços imbatíveis. Você não precisa viajar para fora do país. Se você quiser, você pode, mas você não precisa. Você não precisa. Só não me joguem tomates por estar falando isso, por favor. Que isso daria uma ótima salada.

PIANGERS

09 DE DEZEMBRO DE 2017
CARPINEJAR

Cartas musicadas

Quando adolescente, eu sempre andava com uma caneta Bic no bolso da camisa. Não era para escrever, mas para desenrolar a fita-cassete de 10cm por 7cm. O rolo às vezes escapava das duas bobinas e precisava rebobinar.

Não havia CDs, streaming, aplicativos nem celular, o único jeito de montar trilhas sonoras consistia em gravar a programação direto das rádios.

Custava muito esforço. Significava noites em claro para localizar as músicas favoritas. Não existia a possibilidade de cochilo e distração. Fazia-se plantão na frente do som 2 em 1. Com xícaras obsessivas de café, a tarefa exigia concentração absoluta. A habilidade estava em apertar e soltar rapidamente os botões REC e PLAY, eliminar os comerciais e organizar uma coletânea parecida com a continuidade de um LP.

A voz do locutor complicava o trabalho. Aparecia do nada para identificar a estação. Já no finalzinho da canção, despontava o reclame, como relâmpago impossível de conter. A propaganda inesperada no meio do refrão arruinava o trabalho.

Obrigava-me a treinar a telepatia. Adivinhar quando iria surgir o apresentador, para suspender por alguns segundos a gravação e retomar o fio da meada em seguida. Emendava lacunas, sem nenhuma ilha de edição, no dedo mesmo, num artesanato puro, suando frio. Tinha que ocupar 30 minutos do primeiro lado e mais 30 do segundo. O espaço comportava uma seleta de duas dezenas, sendo que cada uma das composições passava pelo corte e costura das teclas.

Na época, não nos declarávamos com flores e cartão, caixa de bombons e ursinho de pelúcia. Preparávamos fita-cassete para quem amávamos. Ninguém queria sofrer o vexame de receber um fora pessoalmente das meninas, ainda mais diante dos colegas e da turma. Assim, o recurso romântico utilizado era montar uma trilha para expressar a atração. As baladas traduziam os nossas emoções mais secretas. As letras demonstravam o que não conseguíamos falar cara a cara. Você conquistava alguém com cartas musicadas. Vinha a ser o jeito daquele tempo para vencer a timidez e declarar o amor.

Ninguém ousava dizer eu te amo, o que se dizia:

- Fiz uma fita para você.

E se esperava, com ansiedade, o telefonema na semana seguinte, a voz do outro lado que valia as nossas 20 canções prediletas.

CARPINEJAR


09 DE DEZEMBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Os outsiders, alguém lembra?

Sempre gostei da literatura de estilhaços, aquelas publicações meio guerrilheiras feitas pelos chamados outsiders, se é que ainda se usa essa palavra. Livros contendo versos soltos, confissões durante ressacas, palavras com gosto de álcool e fumaça, súplicas desesperadas para amores que não deram certo, tudo misturado com fotos, ilustrações, manuscritos, enfim, um álbum de figurinhas da solidão do autor, e da nossa também.

No início dos anos 1980, havia fartura desses desabafos poéticos e mergulhos na alma, uma espécie de panfletagem da liberdade que me fazia sentir representada e compreendida. Caio Fernando Abreu, Charles Bukowski, Roberto Freire (o de Sem Tesão Não Há Solução), Luciano Alabarse (que na época publicava uns livrinhos bacanas de forma independente) e poetas como Cacaso, Ledusha, Chacal, Leminsky, Alice Ruiz e Ana Cristina Cesar eram a minha turma da porta do quarto pra dentro. Com eles eu embarcava num tour pelas entranhas, as minhas e as deles.

Não tenho visto muito disso. A rebeldia anda mais asséptica, os sentimentos menos intensos. Tudo vira uma postagem rápida e nem dá tempo de pensar sobre o que acontece dentro da gente.

Acho que é por isso que eu sempre gostei do trabalho da Clara Averbuck. Porque, mesmo sendo uma mulher do aqui e agora (ativista, empoderada, com presença forte nas redes), ela mantém vivo o espírito outsider, é uma Rê Bordosa clássica, atemporal. Acabei de ler Toureando o Diabo, seu livro de 2015, mas que poderia ser de 1979 ou de 2036, já que ela escreve sobre uma sensação de abandono que, vitalícia, nunca nos abandona. 

Clara faz uma mixagem de seus superpoderes com seus supervacilos - um tributo à ambiguidade. E lá vamos nós, com ela, embarcar na viagem alucinante das emoções e reconhecer a potência do sexo, do desejo, de tudo que é ilógico, que subverte, enlouquece, desestabiliza, de tudo que seduz, que nos encanta, que faz sofrer, que nos arrebata, enfim, desse caos que atende também pelo nome de amor.

Neste mundo de bilhões de seres conectados, eu espicho o olho para quem, sem medo, escancara sua perdição, sua atrapalhação, sua indefinição. Adoro bilhetes de S.O.S., mensagens dentro de garrafas, confidências literárias que parecem conversas de fim de festa, que provocam o mesmo calafrio de quando a gente se apaixona à primeira vista. A paixão é sempre um ato de sobrevivência. Clara é uma apaixonada pelas buscas - quem não? Alguém já encontrou a resposta definitiva para o que está fazendo aqui?

Enquanto a gente tenta levar uma vida organizada e a salvo de espantos, os outsiders se jogam, toureiam o diabo e nos ajudam a pensar sobre o que nos acontece dentro. Um olé para essas mulheres perfeitamente imperfeitas e meio kamikases, que não perdem a coragem e brigam pela sua voz.

MARTHA MEDEIROS


09 DE DEZEMBRO DE 2017
LYA LUFT

Quem sou eu


Não foi a primeira vez que, em tantos anos, me perguntaram isso assim diretamente. "D. Lya, quem é a senhora?" ou: "Afinal, quem é Lya Luft?".

Ah, eu queria saber. Ou não quero correr esse perigo? Desde menina, essa curiosidade: quem sou eu, quem somos nós, a família, os amigos, essas pessoas todas, o que faz o vento soprar, as nuvens ficarem vermelhas, a chuva cair, alguém adoecer? (Muito pequena, eu só sabia que morriam passarinhos e borboletas.)

Quero saber, isso me interessa? O que sei, ou penso, é que sou cada dia, cada hora, cada riso, cada pranto, cada golpe, cada perda, cada carinho. Talvez nem queira descobrir, eu que tanto escrevi sobre esse mistério que somos todos nós, mergulhados num enigma infinito, e de vez em quando nos afogando nele. Não sei, de verdade.

Mas, em geral, fui o que chamam uma pessoa legal. Nada de mais: péssima aluna, teimosa, pouco ambiciosa, que diferença fazia tirar o primeiro lugar na turma (isso naqueles tempos aparecia no boletim), ou a mais conversadeira, a que ria fora de hora, a que não prestava atenção? O bom mesmo era ser a mais divertida, e talvez aquela com alguns segredos. Por exemplo, as coisas que eu lia em casa, além das castíssimas revistas de amor, como Cinderela e outras. 

Pegava livros à vontade da biblioteca do pai, ou a da mãe, esta na sala. Romances na sala, teatro grego, filosofia, naturalmente Direito, no escritório do pai. Alguns, considerados "fortes", ficavam bem em cima, onde sem escada eu não alcançaria. Curiosidade e medo. Ao rés do chão, uma fileira longa de livrinhos amarelos, finos, capa mole, a série de histórias de detetive que meu pai dividia comigo e me fizeram gostar até hoje de séries como Criminal Minds ou SVU (não vivo só de Goethe ou Machado!).

Colegas não tinham ideia dessas minhas leituras bizarras, que em geral eu nem entendia bem, mas achava - especialmente teatro grego - lindo todo aquele sofrimento. Volumes e volumes de história, que eu adorava, enquanto na escola não conseguia decorar as datas mais simples. Um velho professor certa vez disse que eu "aprendia pra trás", isto é, ou intuía na hora, ou, quanto mais me explicavam, menos entendia. Era verdade, e continua assim.

Uma coisa eu sabia que era e sempre serei: amadora de livros. Quero ficar em paz acomodada na poltrona ou no sofá, pés em cima da mesinha (Melanie, minha mimadíssima spitz encolhida ao lado), lendo, lendo, lendo. Descobrindo que não há muitas respostas - mas o desejo de saber me mantém viva, apesar do assalto que arrancou sem anestesia um pedaço do meu coração recentemente. 

Primeiro, porque há toda essa família que eu amo, e eles a mim. Algumas amizades essenciais, que seguram minha mão ainda que pelo whats. O parceiro aguenta com delicadeza meu silêncio, a falta das bobagens e palhaçadas habituais, mas quem sabe elas retornam. E esse filho que se foi, para não sei onde, e que - isso eu acredito - ainda nos enxerga, nos ama, e não quereria ver sua mãe feito um trapo que mal sai da cama e passa o dia enrolada num velho robe.

Por todos eles e, sim, pelo leitor que lê isto, e quem sabe vai ler este novo livro, meio órfão, A Casa Inventada - que acaba de nascer, eu devo ser alguma pessoa. Esta pessoa.

LYA LUFT