domingo, 22 de julho de 2018


21 DE JULHO DE 2018
PIANGERS

Queremos crianças felizes?



Eu quero que você feche os olhos e imagine uma criança feliz. Faça isso, por favor, e volte aqui em cinco segundos. (Espero que você não esteja no escritório. Seus colegas vão achar que você caiu no sono.) Pois bem, você imaginou uma criança feliz. Ela estava fazendo o dever de casa? Ela estava sentada e quieta? Esta criança feliz estava prestando atenção na lição de matemática?

Adorei quando um amigo me contou sobre uma pesquisa informal que fez com alguns alunos de até 10 anos. Perguntadas como seria a escola ideal, as crianças responderam: um lugar onde pode correr e pode conversar. Ou seja, o oposto das escolas de hoje, onde você não pode correr e não pode conversar. Os escritórios das empresas mais modernas hoje em dia têm pista de corrida para os funcionários fazerem reuniões enquanto se exercitam. Pode correr e pode conversar. Steve Jobs, uma das mentes mais criativas da história, adorava fazer reuniões caminhando e defendia a ideia de que, em movimento, temos ideias melhores. Pode correr e pode conversar.

Quantos de vocês eram ótimos alunos, estudiosos e dedicados, tiravam notas boas mas a professora reclamava que eram "muito conversadeiros"? Como se conversar fosse uma habilidade ruim. Como se conversar não possibilitasse conexões, aprendizados, contato com outras opiniões, outras culturas. Conversar é uma habilidade fantástica, completamente demonizada na sala de aula. Algumas pesquisas mostram que as pessoas aprendem mais quando estão discutindo em grupo. Está provado que aprendemos mais quando ensinamos outras pessoas. Falar é melhor do que prestar atenção. Pode correr e pode conversar.

Os países com os melhores níveis de aprendizado do mundo estão diminuindo a quantidade de tempo dentro da sala de aula. "Eles precisam brincar mais", afirmam os pedagogos. Em países como a Finlândia e a Suécia as crianças não levam tarefas para casa. O tempo com a família deve ser aproveitado sem pressão ou estresse.

Me impressiona a quantidade de cursos de humanização e criatividade para adultos - sinal apenas de que o sistema educacional nos desumaniza e nos tira todo o potencial criativo. Temos que, depois de formados, buscar cursos de humanização. Você já presenciou um desses cursos? São cheios de adultos brincando de pega-pega e escravos de Jó. Passamos anos perdendo uma série de habilidades para depois tentar recuperá-las.

Eu quero que você imagine uma criança feliz. Ela provavelmente está fazendo barulho, dando risada, correndo e pulando, dançando e, talvez, abraçando os amigos ou familiares. Ela não está em uma sala fechada olhando para um quadro negro e copiando a lição em um caderno. Ela está viva, inspirada, desenvolvendo seu senso crítico. Queremos crianças felizes?

PIANGERS


21 DE JULHO DE 2018
CARPINEJAR

A dor nos transforma em crianças

Ninguém sofre com maturidade. Sofrer é se tornar novamente uma criança.

É ansiar pela ajuda de um adulto mesmo sendo um adulto. Você dependerá de colo e de um apoio, de alguém para ouvir e justificar as suas dificuldades, de alguém para inspirar e motivar a ter resistência. Alguém por perto para não se ver tão desamparado pela inércia. Alguém para acender e apagar as luzes da casa. Alguém para controlar os horários dos remédios. Alguém para espiar o seu sono e levantar as cobertas caídas pelo seu movimento.

Temos que pedir socorro quando sofremos - esse é o segredo da vida. Não achar que é necessário ser forte e invencível.

Resolver tudo isolado é se piorar, pois não existe como entender a gravidade do que está acontecendo e identificar os próprios avanços e recuos.

Não há independência penando, só cama e escuro. A debilidade é traiçoeira e mexe com o controle dos pensamentos.

Seremos mentalmente menores de idade. O cansaço assusta e traz angústia, fecha as portas das lembranças, cria labirintos, chama o Minotauro por engano. Os medos de pequeno vêm nos assombrar, os pesadelos vêm roubar o nosso suor de madrugada.

Estar solitário sofrendo é ser um menino trancado no apartamento sem nenhum responsável, é ser uma menina aguardando na janela o retorno da família.

A dor tem dentro de si a solidão da infância. É uma hipnose regressiva. Retornamos a uma fase em que não sabíamos nos proteger. Tanto faz a consternação física ou emocional, não importa que seja uma separação ou uma dor de dente ou uma doença ou a morte de um afeto.

Fica-se prostrado, saudoso dos carinhos e da vigília. O sofrimento não tem pai nem mãe. O sofrimento é órfão. Não queira ser maior do que ele, porque vai engoli-lo usando os seus traumas e fraquezas.

Telefone a um amigo ou parente e apenas diga "Não estou bem, pode me cuidar?". A humildade é saúde.

CARPINEJAR



21 DE JULHO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

O FUTURO daqui a 5 minutos


Era uma conversa trivial, falávamos sobre amenidades, e então ela me perguntou: Onde você vai passar o Réveillon?. Fiquei alguns segundos em silêncio, tentando processar o que havia escutado se é que havia escutado bem. Antes que eu abrisse a boca, ela insistiu no assunto: Você ainda não decidiu?. Eu só consegui balbuciar: Estamos em julho. Minha interlocutora olhou para mim como se eu fosse lesada da cabeça: Agosto, você quer dizer. Hello! A primeira metade do ano já foi.

Não, ainda estávamos em julho, eu tinha certeza. Aliás, ainda estamos em julho, ou não? Tudo bem, agosto é daqui a cinco minutos, mas, mesmo assim, não seria cedo demais para falar em Réveillon? 2018 começou ontem. Que dia é hoje? Que maluquice é essa? Por que estou suando fora de época? Alguém, por favor, me traga um copo d´água, não estou me sentindo muito bem.

Meu aniversário é daqui a um mês e já me vejo recolhendo os cálices com restos de vinho que ficaram em cima da mesa. Setembro é daqui a 10 minutos, o alarme já está programado para recepcionar a primavera. As eleições serão amanhã, e ainda não sei em que gaveta guardei o meu título. Aquelas nuvens negras que estão no horizonte despencarão daqui a pouco, em novembro. Toc, toc, toc. É dezembro batendo à porta. Feliz Ano Novo!

As atrizes de Hollywood já estão recebendo os vestidos e as joias que usarão na festa da entrega do Oscar. A polícia rodoviária já arma um esquema de segurança nas estradas para o feriadão de Páscoa. Daqui a uma hora é meu aniversário de novo. Onde é que você vai passar o Réveillon, querida? Capriche na escolha, 2020 será bissexto, ganharemos um dia a mais que passará correndo feito um rato na sala, como diz o Domingos Oliveira - aliás, 2020 foi o ano do rato no calendário chinês, lembra?

Você ainda não fez a lista de convidados para sua festa de 60 anos? Mas já decidiu onde passará o Réveillon, espero. Melhor se apressar, não tem vaga nos hotéis em parte alguma. O futuro é daqui a meia hora, honey, aguardando o quê? Num piscar de olhos a Copa do Mundo no Catar começa, e você ainda nem tomou seu café da manhã.

Parabéns, já é seu aniversário de novo. Onde você vai passar a virada de 2025? Tem que ser mais ágil, doçura. Daqui a instantes, a vida passa. Em breve, a vida ficou pra trás. Não dou cinco minutos pra você estar em outro lugar. Falta um fiapo de tempo pra você não se reconhecer mais no espelho, pra você não caber mais no seu jeans, pra você perder a memória, pra você ver a vida girar uma, duas, 15 vezes: segure-se, não tonteie, não vacile, você sabe que ano é hoje? Feliz ano novo, feliz ano novo, feliz ano novo!!

Pronto, aqui está seu copo d´água. Relaxe, querida.

MARTHA MEDEIROS


21 DE JULHO DE 2018
LYA LUFT

Predadores de almas


Nunca entendi bem essa nossa avidez por julgamentos. Sobretudo por julgamentos que nós fazemos dos outros. Possivelmente, numa interpretação rápida que alguém chamaria "psicanálise de fundo de quintal", eu diria que, criticando os outros, estamos erguendo biombos entre nós mesmos. Como meninos de escola que, tendo feito alguma malandragem, ligeiro dizem "não fui eu, profe", e apontam o dedo para alguém do lado.

Quanto mais inseguros, mais julgamos. Quanto mais culpados - ainda que por nada ou por alguma bobagem -, mais sentenciamos: por que ela não corta esse cabelo? Por que ele não muda de emprego? Por que ela educa tão mal as crianças? Por que frequenta esse restaurante tão caro? Por que nunca tira férias? Por que fala tão mal dos outros? Por que está sempre com essa cara de velório?

Alguém também me disse, há anos, esta frase que nunca esqueci: "Lya, todos têm a sua dor". Sim. Ela pode não cortar o cabelo simplesmente porque gosta assim. Ele não muda de emprego pois tem família a sustentar e não está fácil encontrar outro. As crianças dela não são mal-educadas: são felizes e naturais. Ele frequenta esse restaurante caro porque pode!!! Ele nunca tira férias porque não quer!!! Ela fala mal dos outros porque você também fala, neste momento, aliás. Quem sabe ela está com cara de velório porque perdeu um filho e essa dor não tem cura?

Enfim, não somos grande coisa, o que de certa forma nos consola. Não precisamos ser heróis, nem santos, mas sempre podemos ser um pouco mais humanos, solidários, compreensivos, pelo menos aceitar os demais com suas diferenças, suas manias, suas ainda que ocultas dores. Mas muitos de nós cultivam e curtem jogar pesadas pedras sobre quem nem conhecemos direito, ou que secretamente invejamos. Olhamos e avaliamos o que nos parece serem defeitos dos outros para animar nossa vida tediosa, ou apenas satisfazer nosso caráter não tão bonito.

Grande passatempo, barato, a ser exercido a qualquer hora e em qualquer lugar. Já vi mulheres ridicularizando maridos: "Olhem como está careca! Que barriga de cerveja! Por isso ronca a noite toda!", e outras gracinhas mais pesadas ainda - mesmo diante de um ou dois amigos, é público, e machuca. Ou homens que (bem mais raramente do que mulheres, acreditem) sentenciam sobre sua mulher, namorada, algo como "está gorda, não se veste direito, a casa anda um lixo, sempre de mau humor, quando quero carinho está com dor de cabeça...". Fico imaginando como será o convívio em casa. Na intimidade. Filhos e filhas certamente também são alvos dessas "bondades", então acabam isolados, muito mais bem aceitos com amigos do que em casa, pais ainda se queixando de que não sabem por que perderam o contato com eles.

Difícil assunto esse de nos alçarmos em julgadores, juízes, críticos eternos. Muito mais difícil encontrar quem pouco, ou raramente, fale mal de alguém. Porque estamos infelizes? Porque não conhecemos (ou não aprendemos...) ternura e compreensão? Porque - generalizando eu sei que erro -, no fundo, sem saber, sem notar, somos predadores de almas?

LYA LUFT

sábado, 14 de julho de 2018


14 DE JULHO DE 2018
LYA LUFT

Pequena clareira na confusão


Nestes tempos de tanta loucura, confusão e agitação, as coisas pequenas e simples nos ajudam a pensar que afinal o mundo deve fazer sentido. Mesmo quando nos parece distorcido como um quadro de Dalí ou desfeito e mal remontado como alguns Picassos, a gente aqui e ali sente uma punhalada doce no coração: sim, é isso, sim, era isso.

Assim, nos incríveis dramáticos dias dos meninos tailandeses na sinistra caverna, me fez rir o desejo deles para quando chegassem em casa: arroz e frango frito ou arroz e porco frito. Comove-me o entusiasmo de torcedores com os jogos da Copa, e a tristeza dos que perdem, o delírio dos que ganham. Pois, diante de algumas tragédias, tudo isso nada significaria. Que bom que não sabemos.

E remexendo (tentando arrumar) algumas inacreditáveis gavetas e o armário de meu escritório, que é minúsculo, achei antiquíssimas crônicas minhas contando graças familiares. Minha filha tinha menos de dois anos e resolvemos que estava na hora de lhe dar um primeiro cachorro-quente. Era uma manhã de frio e sol no Joe?s da Ramiro, morávamos quase diante do Hospital Moinhos.

Ela teve de segurar com as duas mãozinhas, para ela era grande, mas era um cachorro absolutamente simples, pão com salsicha sem nenhum requinte. Segurou, parada firme nas duas perninhas, analisou muito séria, levantou os olhos querendo entender por que lhe dizíamos: "Come, filhinha, é um cachorro-quente!".

Ela acreditava nos adultos, então botou o dedinho numa ponta de salsicha que emergia do pão, e confirmou confiante: "Sim, aqui tá o rabinho dele!".

Continuando com essa crônica tão antiga e tão viva ainda: o gurizinho da mesma idade, sentado na piscina de plástico no pátio, de repente olhou para baixo e gritou arregalando aqueles incríveis olhos azuis: "Mãe, mãe, olha aqui, eu tenho um buraco na minha barriga!".

Corri para ver se era verdade: a criança tinha feito uma descoberta, o umbigo de um anjo.

O menorzinho da casa, também nessa idade absolutamente encantadora dos dois anos, brincando no mesmo pátio, responde quando chamo para que entre em casa porque está chovendo (chuva miúda):

"Mãe, só tá chovendinho!".

Não acho que éramos felizes sem saber: éramos, e sabíamos disso.

Como tenho plena consciência e sei da graça e do valor das conversas de meus netos e netas quando almoçam comigo: a escola, professores e colegas, amizades, descobertas, problemas e façanhas, decepções, passeios, festas, algumas preocupações adultas.

Tudo fascinante para mim que os vejo e escuto, descobrindo aqui e ali traços dos pais deles, ou meus mesmo. Que mágica corrente de genes lhes transmite esse modo de falar, de olhar e gesticular, de sorrir ou se zangar, às vezes até de pensar?

Atravessando o tempo da vida e da morte, essa permanência em coisas tão simples como um desenho de lábio ou sobrancelha, um jeito de virar a cabeça, me faz entender que viver é mistério, dádiva e milagre. E que vale a pena seguir em frente - mesmo em tempos de desarrumação, dúvidas e às vezes dor.

Alguém me escreve que falo muito em mistério nos meus livros. Sim. Acredito que estamos mergulhados nele, numa floresta intricada, abrindo caminhos, varando torrentes, procurando sol ou estrelas, arranhados, tropeçando, mas encontrando, inesperadas, as pequenas clareiras de fatos ou memórias como estas que aqui divido com meu leitor.

LYA LUFT

14 DE JULHO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

A FOME


É embaraçoso admitir, mas eu nunca tinha ouvido falar em Anthony Bourdain, prestigiado chef norte-americano que foi encontrado morto no início de junho em plena efervescência de seus 61 anos. Muitos ficaram perturbados diante do suicídio de um homem tão bem-sucedido, esquecendo que os bem-sucedidos também têm direito a uma alma atormentada. Quem era ele, afinal? Com atraso, resolvi conhecer Bourdain através da literatura e mergulhei em Cozinha Confidencial, o livro que o projetou em 2000, onde ele abre as tampas das panelas e revela os bastidores do universo gastronômico, além de servir ao leitor, como acompanhamento, sua apimentada biografia.


Devorei o livro. Encontrei todos os ingredientes que me satisfazem. Prosa ligeira, inteligente, sarcástica. Histórias interessantes, surpreendentes, divertidas. Um ser humano que erra, se confunde, arrisca. Doses possantes de entusiasmo, obstinação, bizarrices. O conhecido ritmo dos outsiders: 10 anos em um. Tudo muito vertiginoso, com finais felizes e infelizes se revezando, tal qual a vida, que não deve ser julgada apenas pelo o que acontece no salão principal, mas também pela bagunça dos fundos.


Comida é energia e sobrevivência. Vida, a mesma coisa: energia e sobrevivência. É o que nos faz pular da cama pela manhã com vontade de se superar, e não de se repetir. O que nos estimula a aprender, aprender, aprender, até chegar ao fim do dia e se dar conta do tanto que falta ainda. A fome nunca cessa.


Em meio à porra-louquice de Bourdain, há também muito pé no chão, como na parte do livro em que ele conta o que aprendeu com seu amigo Bigfoot, um cozinheiro que era uma lenda no West Village. "Ele me ensinou que um cara que aparece para trabalhar todos os dias, que nunca liga pra dizer que está com gripe, e que faz o que disse que ia fazer, tem muito menos probabilidade de estrepar com você no fim das contas do que um cara que tem um currículo incrível mas é menos confiável na questão do horário de chegada. Habilidade se ensina. Caráter, você tem ou não. Bigfoot sabia que existem dois tipos de pessoas no mundo, aqueles que fazem o que dizem que vão fazer, e todos os demais."


Entendida a lição, caráter passou a ser a prioridade deste chef alucinado, que quando garoto fez todas as besteiras a que tinha direito e mais algumas, até se tornar um homem respeitado em seu meio e conhecido em todo o mundo, a ponto de sua morte ter sido lamentada até por quem nunca chegou perto de um fogão. Aos 43 anos, quando escreveu Cozinha Confidencial, Bourdain era excitado, motivado, insaciável. Por que resolveu colocar fim à própria vida 18 anos depois? Por mais que se procurem razões, agora já era. Pra nosso espanto, um dia a fome pode cessar.


MARTHA MEDEIROS

14 DE JULHO DE 2018
CARPINEJAR

BEM-CASADO


Se num jantar em minha casa, uma visita, porventura, mexer no congelador, talvez para buscar uma cerveja gelada, jamais entenderá um pequeno embrulho na prateleira. Não são restos congelados de alcatra ou de frango, muito menos um queijo guardado.

É um doce, um doce de dois anos. Está lá há incríveis dois anos. Imóvel.

É um doce da sorte. Um doce talismã da família. Só vamos comê-lo em uma situação de extrema crise, quando realmente apagarmos da memória a importância do amor.

Foi o que combinei com Beatriz, minha esposa. Se um dia você esquecer o quanto a amo, se um dia eu esquecer o quanto você me ama, dividiremos a pequena e heroica sobremesa para nos lembrar da força de nossa história e rirmos de mais um breve desentendimento.

O doce é um bem-casado que sobrou da festa de nosso casamento. Sobrou é força de expressão, salvamos da boca dos convidados. Beatriz, astutamente, colocou em meu bolso.

- Vamos roubar a nossa própria festa?

E roubamos um pedaço de nossa eternidade para depois. Separamos um bolinho das centenas que havia nas bandejas, polvilhado do açúcar da nossa paixão, para a cerimônia nunca acabar, nunca encerrar de verdade, nunca virar passado.

É um biscoito da sorte que guarda, simbolicamente, em suas finas massas envolvidas em chocolate, os votos que fizemos um para o outro naquela noite.

Com aquele bem-casado na geladeira, estamos nos casando sempre.

CARPINEJAR

14 DE JULHO DE 2018
PIANGERS

Um novo mundo

Então, eu sugiro que a gente crie um lugar novo pra gente morar. Um lugar calculadamente equilibrado para que a vida floresça abundante. Que seja um lugar cheio de água e árvores e animais e que tudo se adapte às condições climáticas. Que em alguns lugares a água que cai do céu encha lagos e em outros a água despenque de montanhas. Que as árvores ofereçam alimento e abrigo e que os rios tragam peixes. Vamos espalhar animais de todas as cores, animais que voam, animais gigantescos que nadam e animais que produzem lã, animais que sirvam para locomoção.

E faremos uma bola de calor no céu, pra esquentar tudo, e de noite criaremos um escuro gostoso pra que tudo descanse. E todo nascer do dia a gente pinta um quadro diferente no céu, com as cores mais incríveis, misturando roxo e amarelo e laranja e rosa. E nunca, nunca uma pintura será igual a outra. E, se acharem pouco, no final do dia faremos outra pintura. Diferente da primeira, uma pintura deslumbrante todos os dias para que as pessoas olhem maravilhadas e se sintam inspiradas.

E vamos dar a capacidade para essas pessoas criarem máquinas, máquinas que as levem para qualquer lugar do mundo, máquinas que voam pelo céu. E elas se sentarão em poltronas, no céu, e olharão tudo lá de cima.

E que existam elementos químicos dentro das pessoas para que elas se abracem e se emocionem. E que as pessoas se apaixonem. Isso! Vamos criar um mundo em que as pessoas se apaixonem umas pelas outras e expressem seus sentimentos apaixonados. Que se sintam completas por outras pessoas, que sintam arrepios de emoção e que a respiração pare por alguns segundos quando as mãos se encostarem. E vamos dar para as pessoas a capacidade de se multiplicarem, para que experimentem o que é criar outra pessoa. Para que tenham a chance de serem melhores do que seus pais.

E que cada criança seja encantamento puro e diversão e risadas para adultos que pararam de se deslumbrar com este mundo.

E aí eu duvido, eu duvido que alguém vá reclamar desse mundo. Duvido que alguém reclame. Pode anotar.

PIANGERS

14 DE JULHO DE 2018
DRAUZIO VARELLA

TRUMP E AS CRIANÇAS ILEGAIS


As imagens das crianças separadas dos pais em abrigos do governo chocaram a sociedade americana e o mundo civilizado. Impossível não lembrar dos campos de concentração nazistas.

The New England Journal of Medicine é a revista de maior circulação entre os médicos. Em suas páginas são publicados os estudos com potencial para mudar o modo de compreender e tratar as doenças. Como é uma revista técnica, fiquei surpreso com o conteúdo de dois artigos sobre os filhos de imigrantes ilegais aprisionados nos Estados Unidos.

O primeiro foi escrito pela pediatra Fiana Danaher, do MassGeneral Pediatric Hospital, em Boston, sob o título "O sofrimento das crianças", no qual ressalta que a Academia Americana de Pediatria, a Associação Médica Americana e centenas de outras organizações repudiaram com veemência o isolamento forçado das crianças.

Ela explica que os imigrantes fogem de países como El Salvador e Honduras com índices de 81 e 59 homicídios por 100 mil habitantes, respectivamente (no Brasil, o índice é 30). Nas viagens com os coiotes, as famílias são assaltadas, raptadas e assassinadas por bandos armados, ocasiões em que cerca de 60% das meninas e mulheres sofrem violência sexual.

Com a política atual de tolerância zero, 20% a 25% dos ilegais já deportados deixam filhos nascidos em território americano. Segundo a pediatra, a perda dos cuidados paternos provoca mudanças na fisiologia do organismo infantil que causarão enfermidades físicas e mentais pelo resto da vida.

Como o custo médio de cada criança abrigada é de U$ 800 por dia, importância suficiente para hospedar a família em hotel de luxo, a doutora Colleen Kraft, presidente da Academia de Pediatria, afirma que "o governo Trump sancionou medidas para maltratar crianças, às custas dos impostos de milhões de americanos". Fiana Danaher encerra com a frase: "Se permitirmos que crianças já traumatizadas sofram tratamento tão brutal, estaremos todos com as mãos sujas".

O segundo artigo, de Charles Czeisler, especialista em fisiologia do sono, na Universidade Harvard, vem com o título "Abrigando crianças imigrantes - A desumanidade da iluminação permanente". Czeisler diz que, apesar de o presidente ter voltado atrás, ainda há 1,1 mil crianças mantidas em abrigos como o da cidade de McAllen, no Texas, no interior do qual passam 22 a 23 horas por dia trancadas em celas com cerca de 20 ocupantes. As janelas são escuras e as luzes ficam acesas dia e noite.

Segundo ele, maus tratos como esses terão repercussões duradouras, uma vez que é fundamental para a saúde e o desenvolvimento permitir que a criança durma no escuro da noite e tenha a retina exposta à luz do sol pela manhã.

A claridade no período noturno interfere na arquitetura do sono e rompe o ciclo circadiano, responsável pelo conjunto de reações fisiológicas que se alternam no organismo, em sincronia com as 24 horas do movimento de rotação da Terra. Estudos mostram que recém-nascidos mantidos em UTIs com luzes acesas permanecem internados 15 dias a mais.

Deficiências de sono durante duas semanas são suficientes para desregular o ritmo circadiano a ponto de induzir pré-diabetes, reflexo da incapacidade das células beta do pâncreas em produzir a insulina necessária para lidar com a glicose das refeições.

Durante o desenvolvimento, a exposição noturna à luz tem consequências ainda mais graves, porque a necessidade de sono é maior. O bebê de zero a três meses precisa dormir de 14 horas a 17 horas por dia; dos quatro aos 11 meses são necessárias de 12 a 15 horas; de um a dois anos, 11 a 14 horas; dos três aos cinco anos, 10 a 13 horas; dos seis aos 13 anos; nove a 11 horas; e dos 14 aos 17 anos, oito a 10 h.

Crianças de dois anos que dormem menos de 12 horas diárias duplicam o risco de chegar obesas na pré-escola. Adolescentes com menos de seis horas e meia de sono por dia aumentam em 150% o risco de hipertensão arterial e em 250% o de desenvolver transtornos do sono, além de apresentar agravamento dos quadros de asma e estatura mais baixa, resultado da redução dos níveis de hormônio do crescimento. O especialista termina dizendo: "Enquanto as crianças lutam com os estresses físico e psicológico do encarceramento e se recuperam do trauma da separação das famílias, o mínimo que podemos fazer é deixá-las dormir".

É inacreditável, leitor, que esses fatos ocorram num país de valores democráticos como os Estados Unidos. Olha o que dá entregar a Presidência da República a um boçal.

drauziovarella.com.br - DRAUZIO VARELLA


14 DE JULHO DE 2018
J.J. CAMARGO

NUNCA É DEMASIADO VIVER

Ninguém consegue animar o espírito de alguém cujo corpo esteja em decadência.Na minha experiência com doentes crônicos, se o paciente estiver se sentindo fisicamente melhor, a psicoterapia é desnecessária, mas se estiver pior, será inútil. Resta consolar e medicar os deprimidos, que apresentam um claro descompasso entre saúde e invalidez, pela deterioração da condição anímica, tão determinante no instinto da sobrevivência.

Claro que ânimo não depende apenas da saúde orgânica. Não por acaso, o conceito moderno de saúde foi ampliado e passou a contemplar o bem estar físico, emocional e social. Uma das lições mais chocantes que vivi quando comecei a trabalhar com transplantes foi o achado de um monte de gente que não mostrava nenhum entusiasmo em continuar vivendo porque a relação entre amar e ser amado estava quebrada, e, na opinião deles, os sacrifícios que teriam de enfrentar com o transplante eram absurdamente desproporcionais aos benefícios. Descobri, então, que o encanto de viver é um privilégio reservado, com exclusividade, aos bem amados.

Se houver alguma dúvida disso, tente animar um solitário e descobrirá que toda motivação para viver depende do quanto tenhamos alguém com quem contar e dividir. Não ter com quem começa a explicar a despreocupação com aparência, o descaso com não enxergar bem ou o desinteresse em ouvir o que dizem os circundantes.

Com certeza, estar vivo é buscar interação com o mundo exterior. A indiferença expressa pela alienação dos sentidos é o início da aceitação da morte, no princípio com condescendência branda e, adiante, nos limites do sofrimento, com desejo assumido.

Tentar consolar pacientes nesse estágio expõe um lado insuspeitado do fim da vida, quando imperam um conformismo e uma serenidade inimagináveis para aqueles que nunca se sentiram ameaçados e vivem esse deslumbramento meio mágico de quem jamais considerou que esta jornada talvez não seja para sempre.

Por outro lado, encanta a energia vital que promove verdadeiras ressurreições em pacientes idosos, para os quais os desavisados podem tolamente supor que longevidade seja sinônimo de aceitação.

Seu Ignácio tinha 89 anos quando foi internado na UTI com uma pneumonia grave e ficou 11 dias em respiração artificial, com prognóstico sombrio. Tendo sobrevivido o tempo necessário para a ação dos antibióticos, começou a melhorar rapidamente e o tubo foi retirado. Impressionava a todos a naturalidade e o interesse com que participava de todo o tratamento, incluindo a fisioterapia.

Uma manhã, ao visitá-lo, me fez um pedido revelador da sua intenção de não desistir: "Doutor, peça pra minha filha trazer meus óculos para a visita da tarde. Todo o pessoal aqui tem sido maravilhoso, mas tem uma menina da fisioterapia que é especialmente carinhosa comigo e acho que, além disso, ela é muito bonita. Imagina se eu morrer sem nem ter certeza disso!"

A vida estava de volta, não importava por quanto tempo. Óculos para apreciá-la, por favor.

jjcamargo.vida@gmail.com - J.J. CAMARGO

14 DE JULHO DE 2018
ARTIGO

PARA MEDITAR...

Apergunta se impõe: a vida é só um contínuo comprar e vender, como se fôssemos máquinas de troca de mercadorias? Ou o viver tem uma transcendência maior, em busca de valores de convivência e, por isto, surgiram as religiões, as filosofias e as ciências?

Indago em função de certas atividades e pseudoprofissões surgidas como mercadoria no dia a dia da sociedade de consumo. Já não bastam os "lobistas" pressionando em favor de quem pague mais. Agora surgem os "influenciadores", como este jornal mostrou dias atrás.

Não se exige deles formação ética, científica ou filosófica para serem "influentes", nem mesmo poder político. Sabem, porém, manejar as modernidades eletrônicas e, apertando botões, entram em nossas casas com um ar "superior". Se parecem a estranhos pulando a janela, mas os recebemos como anfitriões.

O telefone celular desfez as distâncias e nos leva a todos os lugares, mas não educa nem é instrumento para nos influenciar e apontar caminhos. Que sabedoria, curriculum ou comprovada aptidão têm os "influenciadores" para se autoproclamarem nossos conselheiros?

Toda atividade exige formação específica. Quem consultará um exímio mecânico de automóvel sobre o pulsar do coração? Ou vice-versa. Agora, porém, qualquer um vira "rede social" e espalha fantasias, invencionices ou mentiras. Sobrando espaço, pode até contar verdades...

Os "influenciadores" vão além: tal qual aliciadores sob contrato, adotam qualquer postura - "sim" ou "não" - dependendo de quem pague. Assim, novos mercenários do novo século indicarão nossos caminhos. E nossa vida pode se resumir à contínua barafunda da vulgaridade de um imenso Big Brother da TV...

Meditemos sobre isto, antes que a esperteza domine a Justiça e a vergonha nos cegue, como agora.

O plantonista de fim de semana do TRF-4 que mandou soltar Lula da Silva pode continuar fazendo das leis um brinquedo que a fantasia infantil torce e distorce em busca de uma forma inexistente?

Se o juiz arma o próprio erro, quem o controla? E quando o erro vem de uma provocação preparada por três deputados para anarquizar e desmoralizar a Justiça?

Perdoai-me pela observação, mas o horror nos ronda a cada passo. Ou não foi vergonhoso que o presidente da Câmara de Vereadores da Capital usasse gás lacrimogêneo contra o público que externava opiniões?

Meditemos. Com meditação, os guris da Tailândia sobreviveram sem alimentos nos nove dias iniciais na gruta escura e úmida!

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES


14 DE JULHO DE 2018
MARTA GLEICH

Parafraseando o Pedro: foi demóóóissss!!!

Neste fim de semana, termina a Copa do Mundo. Com a ajuda de colegas, listei alguns números sobre a nossa cobertura.

Também pedi depoimentos a alguns dos comunicadores que viram o Mundial mais de pertinho. Confira!

DAVID COIMBRA

Das cinco Copas que cobri, foi a primeira realmente digital e multimídia. Além de falar na rádio, gravar para a TV e escrever para o jornal, entramos nos meios digitais com muito mais força do que na Copa no Brasil. Fiz Stories no Instagram, um negócio que dura 15 segundos e desaparece depois de 24 horas. E que, mesmo assim, tem uma enorme repercussão! Sabe o que é conseguir te expressar em 15 segundos para quem está acostumado a escrever uma página?

MAURÍCIO SARAIVA

A Copa da Rússia foi, para quem cobriu pela RBS, um delicioso coquetel de trabalho bem divertido e diversão bem trabalhada. Viciei, quero mais!

LUCIANO PÉRICO

Apesar de não termos contado a conquista do hexa, o maior legado da Rússia foi trabalhar com imenso prazer para entregar ao público gaúcho a Copa do Mundo com o nosso jeito. Chegamos lá! Pena que passou tão rápido. Formamos uma família, em que um cuida do outro. Termina o Mundial e fica a saudade de tantos momentos especiais que vivemos juntos. No trabalho, nas andanças, nas descobertas... Parceria pura!

DIOGO OLIVIER

Sabe o filme Se Beber, não Case, em que a solução de um absurdo te põe em outro, até se instalar o estado de pânico com tendência a motim? Viajando por seis cidades na Rússia, no encalço da Seleção, vivi cenas assim. Mas, desta vez, o que ficará desta cobertura não é uma história ou imagem fixada na retina, e sim uma sensação mágica: a de segurança. Caminhei por quatro horas, sozinho, de madrugada, na noite branca de São Petersburgo, cruzando parques e dobrando esquinas ermas, sem problema algum. Perdemos esse direito no Brasil.

POTTER

O La Copa nasceu em 2014. Está em 2018 e é bom de fazer, porque estamos entre amigos e contando a Copa como contamos para nossos amigos. No caso, uma enorme audiência!

PEDRO ERNESTO

Foi a primeira Copa do Mundo que vivi com os diversos veículos da RBS integrados. Multiplicamos informações, atendemos a todos os públicos. Foi diferente e muito melhor, uma cobertura muito mais ampla. Vivi 10 Copas do Mundo sem esta grande integração. Foi demmmmóóóiiiisssss!!!

DUDA GARBI

Eu podia contar inúmeras coisas sobre esta cobertura, mas o que mais fica, de verdade, é a amizade e a solidariedade que todos tiveram. Várias vezes vi colegas se oferecendo para ajudar o outro em qualquer das mídias que trabalhamos. Se formou um clima muito bom, e isso facilitou a convivência de mais de 30 dias.

ALICE BASTOS NEVES

Na festa da seleção anfitriã classificada para as quartas de final, andando na Praça Vermelha, encontrei um menino negro com a bandeira do país na mão gritando "Rússia, Rússia". Parei e gravei. No celular e na memória. Significativo. A Rússia de grande maioria branca. A Rússia que não gosta de futebol. A Rússia nos surpreendeu. Espero que a Copa do Mundo tenha sido um marco de abertura para eles. Para nós, foi. 

A eliminação do Brasil, bem antes do que prevíamos, só deixou mais claro o quanto uma Copa vai além do que acontece no campo. É um movimento social que pode aproximar povos, fazer conhecer novas culturas, gerar reflexões. E, na minha visão, foi isso que fizemos: mostramos a Copa de um país tão diferente pelo nosso olhar, aproximando e entendendo que, no grande jogo, para além da bola, basta estar atento e disposto a olhar para o outro que o resultado é sempre vitorioso. 
MARTA GLEICH

sábado, 7 de julho de 2018


07 DE JULHO DE 2018
PIANGERS

Deixe seu filho lavar a louça


Acontece até hoje lá na casa da minha mãe. Ela faz o almoço (parêntese: ela faz sempre a mesma comida, arroz, batata cozida e carne assada no forno; não estou reclamando, mãe; apenas acho engraçado e estou aqui contando para os leitores, me desculpe por esta indelicadeza) e, quando todo mundo termina de comer, eu começo a recolher os pratos. Minha mãe grita: Deixa que eu lavo!. 

Eu digo, calma, relaxa, acaba de tomar o vinho (parênteses dois: minha mãe sempre compra dezenas de garrafas do mesmo vinho chileno Santa Ana e estoca como se fôssemos um dia encarar o apocalipse zumbi e só fossem sobreviver as pessoas que estivessem completamente bêbadas gosto desta distopia e terei muita alegria em me esconder na casa de minha mãe frente a esta eventualidade. Fecha parêntese), deixa que eu cuido da louça. E daí então começa aquele não, de jeito nenhum e deixa que eu lavo e não se preocupa, mãe, pode deixar, e eu gosto de lavar louça! e mas eu gosto mais, olha, já estou lavando!. Aquela coisa que deve acontecer na sua casa também, amigo(a) leitor(a).

É irônico porque, desde muito pequeno, minha mãe me obrigava a lavar a louça e a fazer serviços domésticos. E cozinhar arroz, batata e carne assada no forno. Porém agora, 30 anos depois, não permite que eu me levante para cuidar dos pratos. Onde já se viu? Sinto que ela está indo contra tudo aquilo que me ensinou, que foi importante para a minha construção pessoal. Na época eu reclamava, é verdade, mas hoje percebo o valor.

Fazer tarefas domésticas me ensinou a importância do trabalho diário, a enxergar o serviço invisível, a entender que, se ninguém fizer sua parte, alguém vai ter que fazer a parte de todo mundo. E claro, me ensinou que essa história de que cuidar da casa é coisa de mulher é uma bobagem. Hoje em dia, tudo o que eu não quero ser é um desses adultos mimados a quem nunca foi permitido lavar uma louça. "Filho meu não lava louça!", já ouvi mães dizerem. Uma frase tão deseducadora quanto "Filha minha não sai de casa de vestido curto!" ou "Ai da nora que não tratar bem meu filho!".

Lavar louça é contribuir com uma etapa da refeição, é ter um tempo de digestão antes da sobremesa e também, preciso dizer, é uma forma de fugir das conversas que nos aborrecem. Mães deveriam ter orgulho de ver seus filhos lavando a louça. Deveriam pensar: "Fiz um ótimo trabalho". Parem com essa história de "Deixa que eu lavo". Vocês já fizeram demais por nós. Deixem que a gente lave e seque. E, se possível, cozinhe. Talvez algo diferente de arroz, batata cozida e carne assada. (Brincadeira, mãe)

PIANGERS

07 DE JULHO DE 2018
CARPINEJAR

Não sabemos nos despedir

Guardamos a sensação de que não nos despedimos direito daqueles que amamos e que se foram. É como se não tivéssemos dito tudo, ou que precisávamos nos preparar melhor para o desenlace. O abraço deveria ter sido mais apertado; as frases de efeito, mais contundentes; o olhar, mais banhado de lágrimas.

A impressão é de que faltou um maior tempo, uma maior disposição, mas é natural se atrapalhar mesmo. Não estamos diante de um espelho e, sim, de um rosto de verdade. Existe carência e incompetência em ambos os lados, no lado que fica morrendo de saudade e no lado que vai, morrendo de medo do desconhecido.

Amar é enfrentar a insuficiência no leito do hospital do parente ou do afeto. Significa a pior provação de nossa frágil condição: estabelecer um diálogo com sentido quando nada tem sentido.

A esperança nos faz engasgar. Como achar normal não mais enxergar aquela pessoa? Nenhum exercício mental é capaz de conter o tumulto do coração. O coração sai da boca, sai correndo do quarto para não sofrer, e o corpo permanece ali, na aparência, embasbacado, sentado na cadeira, não entendendo nada, não respeitando os limites e a mortalidade injusta de cada um.

Estamos tão assustados com a morte iminente que todo murmúrio parece ser insignificante. É uma impotência emocional difícil de se superar. Como reduzir uma amizade em brevíssimos instantes? Como elaborar um epíteto?

E mais dói o fim quando, em vez de ampararmos quem está sofrendo, o doente é que nos consola dizendo para não nos entristecermos. Neste instante é que desabamos: com a surpreendente generosidade do nosso ente, mais preocupado conosco do que com ele.

Eu perdi a minha avó Elisa quando eu tinha sete anos. Muito cedo para uma criança formular o desaparecimento físico. Nenhuma história dos pais me satisfazia. Eu só consegui entregar um desenho para ela. E ela me perguntou quem era ela na ilustração: eu apontei para a árvore, para a casa, para os pássaros, para o chão, para as nuvens, para o sol, menos para ela desenhada ao lado de minha mãe. Porque ela era tudo para mim. Estaria sempre dentro de tudo para mim.

CARPINEJAR

07 DE JULHO DE 2018
THAMIRES TANCREDI

Já se sentiu bonita hoje?


Você já parou para pensar como seria sua vida se você não tivesse nenhum problema de autoestima? Assim, nada mesmo: achasse que está maravilhosa com qualquer roupa, não encanasse com aquela marquinha de espinha jamais e nunca, jamais, tivesse um bad hair day? Pois é exatamente essa a reflexão que o filme Sexy por Acidente propõe. Estrelado pela incrível comediante e atriz Amy Schumer, o longa apresenta uma mulher que poderia ser qualquer uma de nós. Renée Bennett passa horas em frente ao espelho, examinando cada parte do próprio corpo e sempre de cara feia. Revira o YouTube em busca de tutoriais de cabelo que não têm a ver com ela. 

Não é gorda nem magra, mas não está satisfeita com o peso e se mata na academia com o único propósito de conquistar o abdômen durinho das colegas. Faz o que a gente, mesmo inconscientemente, repete todo dia: se compara com outras mulheres. E sempre com uma lente de aumento, que escancara os próprios defeitos e coloca em um pedestal características inatingíveis que considera perfeitas nos outros.

Tudo vai mais ou menos até que, em mais um belo dia na academia, Renée sofre um acidente na aula de spinning e bate a cabeça. Ali, sua vida muda. Depois da pancada, ela começa a se achar bonita de verdade. Aqui, uma escorregada do roteiro: a personagem passa a ver beleza em si mesma porque pensa que sua barriga agora é de tanquinho e que a bunda é perfeita. Não é uma desconstrução de pensamento, e sim um feitiço dos mais bobinhos, à la Quero Ser Grande. Mas vale perceber como o comportamento da guria muda depois que ganha confiança com a própria imagem. 

Finalmente, ela conquista coragem para se candidatar a uma vaga de recepcionista em uma empresa de cosméticos, função sempre desempenhada por modeletes. Na fila da lavanderia, paquera um cara, sem vergonha alguma - e dá seu telefone para o boy sem pensar duas vezes. Para de andar olhando para baixo, com medo de ser notada, sabe? Todos os aspectos da vida dela ganham um novo gás, impulsionados simplesmente por fazer as pazes com a própria imagem - que, no caso dela, faziam com que ela não enxergasse a mulher inteligente, divertida e, sim, bonita, que é.

Sexy por Acidente é um misto de autoajuda com comédia que passa longe de ter sacadas inéditas e geniais - e dá umas resvaladas feministas, não custa dizer -, mas vale pela mensagem. Ajuda a perceber o quanto confiar em nós mesmas pode ser uma injeção de força para que a gente tenha coragem de desenvolver todo o nosso potencial. 

E lembra o quanto podemos ser nossa pior inimiga também. Pode soar piegas e até óbvio, mas foi bem bacana ouvir de novo o quanto é importante que sejamos generosas com nós mesmas, sabe? E não só se tratando de aparência: embora a reviravolta de Renée tenha a ver com beleza física, ela entende que confiança vai bem além do espelho. Dica bacana para assistir no fíndi!

THAMIRES TANCREDI


07 DE JULHO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

ZABIKAVA


Zabikava, você sabe, não é nenhum centroavante russo. É o mascote desta Copa, um lobo siberiano que substituiu o Fuleco, aquele tatu-bola meio pé-frio que foi o mascote da Copa de 2014. Mascotes, hoje, não passam disso: bonecos que dão graça e ajudam a divulgar competições esportivas. Antigamente, a palavra mascote designava bichinhos de estimação de verdade, geralmente cachorros e gatos que dormiam no pátio. Lembro que, quando eu estava no colégio, havia o famoso questionário, um caderno com perguntas pessoais: cor preferida, de quem você gosta, quantos irmãos, qual o seu mascote. 

Quando chegava nessa questão, eu engasgava: moradora de apartamento, era a única criança do colégio, e possivelmente do universo, que não tinha mascote. Na tenra infância, meus pais fizeram duas tentativas malsucedidas: autorizaram a presença de um pintinho amarelo que alguém distribuía de graça na rua (e que depois de meia hora foi devolvido com um muito obrigada, adeus), e certa vez meu irmão apareceu em casa com uma tartaruguinha que morreu no dia seguinte, provavelmente por maus-tratos. Veredito: não éramos uma família compatível com o mundo animal e ninguém mais falou no assunto.

As pessoas tiveram mascotes até os anos 1970, anos 1980 no máximo, quando ainda havia o hábito de visitarmos uns aos outros em suas casas, quando as pessoas ainda se encontravam com os parentes regularmente, quando cadeiras eram colocadas nas calçadas para as conversas com os vizinhos, quando as pessoas namoravam e casavam, em vez de ficarem buscando o amor ideal sem se acomodar em nenhum. Tinha-se mascote quando os bichos eram tratados como bichos, criados soltos no quintal, enquanto as pessoas ocupavam-se convivendo com outros seres humanos.

Mas o tempo passou, as cidades cresceram, a violência nos tirou da rua, os lares foram equipados com home theaters, a internet substituiu o encontro presencial e a solidão ganhou um imenso território. A cada ano, mais e mais pessoas moram sozinhas - em locais sem quintal, sem jardim. 

Logo, mascote deixou de ser um animalzinho para brincar depois de fazer os deveres da escola: agora as pessoas têm um labrador que dorme na cama, um collie que almoça na mesa, um basset que é carregado na mochila, um yorkshire que viaja de avião, um vira-lata cujos cuidados consomem parte do orçamento. Os gatos, ainda que mais arredios, foram promovidos também, passaram a ser tão essenciais quanto enfermeiros, cuidadores, namorados. Bicho agora é gente.

Mascote tem quem comprou um Zabikava de pelúcia ou guardou seu Fuleco de plástico. Hoje, temos filhos de quatro patas, parceiros amorosos de quatro patas, melhores amigos de quatro patas - todos ocupando o melhor lugar do sofá.

MARTHA MEDEIROS

07 DE JULHO DE 2018
LYA LUFT


Pais-helicóptero

Uma das coisas novas para mim, certamente não para pais jovens, educadores, médicos e psicólogos: os chamados pais ou mães-helicóptero. "Por quê?", perguntei interessada. Tive uma resposta breve mas clara, e, curiosa, fui pesquisar mais no Google. Pois são aqueles pais que, ao contrário dos que esquecem ou não aprenderam que quem ama cuida, e deixam os filhos largados, esses os sobrevoam como helicópteros fanáticos, vigiando, determinando, limitando, pesquisando e pensando em aplicar as regras mais esdrúxulas que nada têm a ver com o essencial: bom senso na educação. 


Só querem que os filhos não sofram, não se sujem nem brincando na terra, nunca tomem banho de chuva, não brinquem com os vizinhos, de preferência nem brinquem, com sua agenda de miniexecutivos ocupadíssima. Nunca tomem suas decisões, possivelmente mal-educados, pois não deviam ser frustrados, punidos, impedidos de se desenvolver de forma natural.



Todo mundo conhece a mãe que corta o bife do filho de 15 anos, ou limpa o traseirinho do mangolão aos oito, o pai que nem pensa em deixar o filho escolher uma carreira, os pais que não liberam os filhos para nenhum passeio da escola, nada de dormir em casa de colegas, como se a menor brisa os pudesse matar.



Lembro-me de minha mãe, que tinha perdido um primeiro filhinho ainda bebê: meus pais eram preocupados em que eu não ficasse longe de casa, não andasse descalça nas lajes (podia ter febre, e quase sempre eu à noite tinha quase 40ºC se desobedecesse - ah, o poder da mente). Havia muitos cuidados, que mais tarde, já adulta, compreendi perfeitamente bem, e estavam longe da neurótica limitação dos helicópteros. Mesmo assim, me irritavam, e talvez subsistam em mim nessa minha dificuldade com qualquer autoridade que eu não respeite.



Pais exagerados, além de criarem filhos fragilizados, indecisos e nervosos (estou generalizando, claro), podem também criar pequenos terroristas. Escutei uma jovem mãe comentando com outra que seu filho de quatro anos adorava "causar terror", e divertida mostrou um vídeo no iPhone: o pequeno, lindo e encantador, numa loja de roupas com a mãe. Jogava-se no chão, pendurava-se nas araras, berrava, dava pontapés, por fim, cuspiu na mãe, diante do assombro de clientes e vendedoras.



Décadas atrás, falava-se em crianças "com muita personalidade" quando eram apenas mal-educadas. Ainda não havia essa espalhada imbecilização de crianças e adolescentes: nunca traumatizar, nunca negar, nunca punir, imagine falar e reprovação na escola. Nunca deixar que se frustrem; aprender, só brincando. Nem os adolescentes infratores podem ser chamados de criminosos, ainda que tenham estuprado e degolado uma velhinha; nem são presos, mas "conduzidos".



O que houve conosco, que nos queremos civilizados, que amamos os nossos filhos? Talvez seja útil um videozinho que peguei no Face: a mãe alimentando um bebezão de mais de um ano. Deitado no carrinho (em vez de comer sentado), recebia tudo na boca, e sem olhar a mãe. Fitava um pequena tela que a própria tinha presa na testa, para que a criança comesse automaticamente vendo um desenho animado: sem reclamar, sem saborear, sem nenhuma interação com a mãe, coisa essencial. Comia como um pequeno autômato, e certamente começava a viver pelo resto da vida um isolamento difícil de romper. Pois filhos de helicópteros não formam laços: estão sempre na sombra dessa desastrada excessiva vigilância.


LYA LUFT

sábado, 30 de junho de 2018


30 DE JUNHO DE 2018
LYA LUFT

Pão & circo


Não falo apenas no pão e circo do velho Nero, que, diante da insatisfação dos explorados romanos, mandou que lhes dessem mais pão e circo. Essa verdade abrange séculos, quem sabe milênios. Gladiadores se mutilando, inocentes devorados vivos por feras, sangue e entranhas, miséria grassando lá fora, tiranos loucos, e a gente aplaudindo enquanto comia pão seco e torcia, berrava, aplaudia. Nas nossas vidas pessoais, pode acontecer algo parecido, sem feras sanguinárias nem tiranos loucos. 

Está tudo confuso, preocupante, assustador, então vamos às compras, uma camiseta de R$ 10 ou uma bolsa de vários milhares, uma ida ao shopping só pra olhar ou uma fugidinha pra Miami ou Nova York. Pode ser uma amante, um namoradinho, uma balada, um bom livro, um bom uísque, um bom papo com amigas ou amigos, um passeio de carro vendo o rio e as nuvens, ou simplesmente uma tarde no quarto chorando.

Mas, de preferência, uma das distrações acima, porque chorar dá medo de não conseguir parar nunca mais, sobretudo se for uma perda trágica que nos estraçalha apesar dos esforços e do tempo amigo, que nem sempre cura (abranda). Então também pessoas têm seus dias de pão e circo pra não desanimar, não enlouquecer, não fugir correndo, não se matar.

Nestes tempos de Copa do Mundo, eu, que não entendo de futebol, mas gosto e assisto, ouço comentar que o tempo pode ter sido escolhido para acontecerem alguns golpes baixos enquanto estamos distraídos torcendo ou secando. Alguém me diz: "Poxa vida, você gostar de futebol?". Bem, sinto muito, mas sou gente. Gosto de seriados como Criminal Minds, leio romances do gênero e, de momento, para descarregar minha agressividade (em geral moderada) com a situação aqui fora, entro no meu iPhone e releio o Ascensão e Queda do Terceiro Reich, de William Shirer. 

Em inglês, pra não perder o costume e não exercer o feio vício profissional de encontrar esquisitices na tradução (sim, eu às vezes também leio no iPhone, levando comigo para toda parte um livrão de mil e muitas páginas. Novos tempos, sem abdicar dos velhos hábitos).

Então, aqui, vejo futebol com Vicente, lembrando meu pai há tantas décadas ouvindo futebol no rádio nas tardes de domingo, entretido e fascinado, berrando a cada gol do seu time, enquanto minha mãe rondava, mal-humorada, reclamando baixinho que domingos à tarde ela não tinha marido.

Nestes dias difíceis que nos enchem de preocupação, é bom entrar nessa do pão e circo? Por que não? Pular, gritar, vestir a camiseta, botar chapéu ou óculos bizarros, vender a alma para poder viajar para a Rússia, tudo isso nos alivia. Quem sabe a gente tenha mais energia, mais lucidez, depois de um breve tempo esquecendo a pobreza, as dívidas, o emprego ameaçado, a mulher trabalhando em três turnos... a incerteza. 

Atualmente, nem bebo, nem danço, nem viajo, nem visto camiseta, mas aqui e ali vejo jogos, torcendo, sem entender nada das regras, mas encantada com as coisas humanas: a violência de alguns, a solidariedade de outros, o desânimo, a esperança, a glória, o abatimento, as manhas e tramas, e o marido de vez em quando me iluminando com algum bem-vindo comentário (ou eu ficaria demais nas nuvens).

Merecemos muito mais momentos bons e leves no dia, na vida, sem circo nem espetáculo, sem inocentes despedaçados enquanto nos distraímos com a arena.

LYA LUFT

30 DE JUNHO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

Marciana


Apaixonar-se é ganhar um visto para entrar em outro planeta. A gente descobre cheiros e sabores desconhecidos, um vocabulário diferente, histórias novas, lugares em que nunca estivemos, enfim, lidamos com o deslumbramento de estar em outro mundo o mundo do outro.

Há quem permaneça neste novo planeta por pouco tempo e logo retorne para o seu, e há quem se instale em definitivo: pede asilo e se naturaliza. Amar é sempre uma viagem. De ida e volta, ou só de ida.

Afora a aventura amorosa de explorar um universo diferente, não costumo me distanciar muito do meu território, pois não acho agradável me sentir uma marciana - e o fato é que me sinto, às vezes. Acontece quando leio o noticiário político, quando estou entre pessoas pedantes, quando testemunho preconceitos ou pieguices, e até em situações bem triviais, como quando alguém puxa um Parabéns a Você. Pois é, coitado do Parabéns a Você, tão inocente, mas é inevitável: a canção começa, e na mesma hora brotam duas antenas verdes na minha cabeça e um terceiro olho no meio da testa.

Cultos religiosos também têm esse poder de me transformar num ET. Oração, pra mim, é algo privativo e silencioso. Já em grupo, não consigo me encaixar. Gosto de igrejas vazias - e de teatros lotados. No entanto, até mesmo num teatro posso vir a me sentir estrangeira, nos casos em que a plateia ri por nada, como se rir fosse obrigatório. Uma vez, estava assistindo a uma peça trágica sobre um casal que havia perdido o filho, e, mesmo assim, algumas pessoas achavam graça. Refletir não basta? Se comover não basta? No meu planeta, basta.

Frequento desde churrasco na laje até festa em castelo, mas, se eu perceber que estou longe demais da minha turma e da minha essência, a marciana surge e me ordena: embarque logo na nave e vamos pra casa. Deve ser consequência da passagem do tempo, maturidade não é período para desperdícios. Tem sido cada vez mais fundamental me sentir inteira onde estou, e não uma turista.

E aqui dou um salto para falar de inclusão. Pessoas que sofrem de alguma deficiência costumam viver à parte da sociedade, em um planeta com o qual não interagimos. É por isso que o Clube Social Pertence está inaugurando uma ONG com a missão de promover a socialização e a independência de jovens que podem fazer tudo o que fazemos, bastando dar a eles uma oportunidade. 

No próximo dia 9 de julho, às 19h30min, na pizzaria Fratello Sole do Shopping Iguatemi, em Porto Alegre, isso será demonstrado na prática, com a garotada colaborando na cozinha e no serviço do jantar. Quem quiser conhecer melhor o projeto desta importante ONG, compareça. Ser portador de uma deficiência não deve impedir ninguém de se sentir inteiro onde está, e eles estão aqui, ao nosso lado, no mesmo mundo que a gente.

MARTHA MEDEIROS


30 DE JUNHO DE 2018
CARPINEJAR

Quando caía a luz

Era fundamental, há duas décadas, ter uma gaveta em casa com velas e lanterna. Todo mundo conhecia o paradeiro de emergência na hora em que faltava luz. E faltava luz com muita regularidade.

Não contávamos com as luzinhas do celular e recursos tecnológicos. Tratava-se de artigos necessários para manter a segurança. Quase como uma malinha de primeiros-socorros.

Aprendíamos a apalpar os móveis. Treinávamos os movimentos no escuro. Dançávamos de olhos fechados pelos corredores. Driblávamos as quinas das mesas e as pernas das cadeiras.

O mais encantador da queda de energia vinha a ser o silêncio. Somos tão olhos que não reparamos no barulheira que nos cerca e que não nos permite em nos fixar em quem está próximo.

Os aparelhos desapareciam e nos reencontrávamos com a quietude. Começávamos uma busca pelo outro pela respiração. Significava uma trégua de grande intimidade com os pais. Sem a visão, queríamos estar perto deles, não desejávamos fugir para outros lugares e tarefas.

- Onde está? Fique aí que vou lhe resgatar.

Sentávamos no sofá, abraçados, amontoados, com as velas bruxuleando ao redor. Precisávamos nos ocupar com histórias. Não sofríamos com a concorrência de passatempos e distrações.

Predominava uma imprevisível exclusividade. Realmente prestávamos atenção no pai e na mãe, nas nossas lembranças de pequeno, nos causos e nas brigas engraçadas, nos nossos pequenos poderes. A mãe recordava que a Carla já sabia ler com três anos, de que o Miguel acreditava que poderia voar de super-homem segurando-se nos varais, de que o Rodrigo devorava a enciclopédia como se fosse uma história com início-meio-fim e que eu, um dia, me escondi numa cova aberta de cemitério de Caxias e me fingi de morto para dar susto nos outros como se estivesse ressuscitando.

E nos sentíamos especiais, amados, admirados, guardados. Eu me orgulhava de meus irmãos: havia esquecido de como eles eram legais.

Gritávamos de felicidade: - Contem mais!

Ríamos alto, batíamos palmas, enquanto os pais nos devolviam as nossas vidas, testemunhas privilegiadas de nosso crescimento.

Na hora em que voltava a luz, estranhamente, parecia que saíamos de um transe de ternura e cada um retornava para a sua solidão. Mas ainda guardo a certeza de que o apagão nos ressarcia a luz própria. Iluminávamo-nos pelas nossas vozes. E esperávamos, ansiosamente, pelo próximo escuro para nos dar as mãos de novo.

CARPINEJAR