domingo, 20 de janeiro de 2019



19 DE JANEIRO DE 2019
ANA CARDOSO

Férias de sexo

Calor, praia, verão. Se você tem crianças pequenas e viaja em família, é melhor que pouca roupa, filmes picantes e drinks afrodisíacos não a deixem com vontade de fornicar. Férias são férias de sexo também.

Estamos há algumas semanas na casa da minha sogra, curtindo pernoites gratuitos em Floripa. Como bons turistas precarizados, dormimos todos no mesmo quarto. Ao contrário do que você pode pensar, existe, sim, um quarto para crianças, mas lá o ar-condicionado faz barulho, a cama range, entre outras queixas infantis.

No nosso, que já foi da sogra, da cunhada e hoje abriga os Cardoso-Piangers, o ar e o ventilador de teto funcionam. Resultado: eu nem lembro a última vez que vi o pingolim do meu marido.

Dormir em quatro numa cama para dois é jogar fora o investimento de pilates e yoga de um ano inteiro. Não tem uma noite em que eu não acorde com os braços amortecidos ou chutes infantis na cara. A gente evitava os colchões no chão. Achava tão excursão de adolescentes, 10 numa casa que era pra quatro. Colchões empilhados, gente acordando com outro pisando no seu travesseiro e a sensação crocante de areia nos dentes. Não éramos essas pessoas. Mas viramos!

Há dias, instalamos dois colchões nas laterais da nossa cama, o cafofo 1 e o cafofo 2, cada qual com a sua peculiaridade. Não sobrou muito espaço no chão do quarto, mas é o preço que pagamos por essa expansão na capacidade dos leitos.

O cafofo 1 fica à esquerda da cama, encostado na parede da janela. Tem privacidade, pode ficar no celular ou se mexer bastante que não atrapalha ninguém. O cafofo 2 é um luxo: o ar e o ventilador pegam direto nele. Uma delícia. A localização privilegiada, no entanto, cobra seu preço: próximo à porta e a uma parede interna da casa, capta cada sonzinho de fora. Ruídos do banheiro ou de louça na cozinha são amplificados no travesseiro.

Toda essa explicação é um prólogo para tratar do assunto principal: a falta de sexo. Minha geração - nós, bananas, que deixamos os filhos dormirem no nosso quarto - será responsável pela extinção dos librianos. Não se produzem mais filhos em janeiro para nascer em outubro. Comentei sobre o assunto com uma amiga que tem dois hóspedes permanentes no seu quarto - outrora uma masmorra da luxúria. 

Ela me contava sobre um casal de amigos superfogosos que adotaram duas crianças no ano passado quando minha filha maior apareceu e interrompeu o papo. Sexo na praia? Só serve mesmo pra nome de drink (Sex on the Beach). Se a gente não consegue nem falar sobre, que dirá fazer!

P.S.: este texto não é 100% verdadeiro e contém ironia.

ANA CARDOSO


19 DE JANEIRO DE 2019

LEANDRO KARNAL


O valor da vigilância


Os acontecimentos que irei descrever são verdadeiros, ainda que nem todos tenham ocorrido com os nomes e locais descritos adiante. Tendo em vista minha segurança individual e eventuais problemas jurídicos, fui aconselhado a mudar detalhes.

Todos entenderão o cuidado e o pudor. Os fatos são terríveis e eu próprio duvidei muito da propriedade de narrá-los aqui em espaço tão importante. Finalmente, entendi que era meu imperioso dever de colunista e homem público. Vamos às tragédias que vão eriçar todos os seus pelos e corar as faces mais incautas!

Vou começar narrando o recente caso de uma detenção no aeroporto de Guarulhos. Vindo da Dinamarca, um rapaz alto e loiro foi encaminhado pela Polícia Federal a um demorado interrogatório. Seu nome? Pouco importa, todavia muita gente o conhece como "o Príncipe da Bela Adormecida". O jovem está preso. Acusação? Assédio!

Todos sabem do caso. O nobre encontrou uma jovem dormindo. Tarado de quatro costados, aproveitou-se da situação da donzela drogada, tascou-lhe um beijo. À queima-roupa! Sem consentimento! Sem uma conversa antes. Considerando que a bela princesa tinha uns 118 anos mais do que ele, além do assédio é destruição da dignidade de uma idosa. Mais, antes de encontrar a senhora catalética, ainda matou a madrasta dizendo se tratar de um dragão (apenas uma sogra, no fundo). A opinião pública ficará ao lado do Brasil que cumpre mandato da zelosa Interpol.

Aguardando julgamento, o fauno de sangue azul encontrou um colega na prisão: o Príncipe da Branca de Neve. A acusação foi piorada pelo fato de que, estando em um caixão, a princesa era considerada morta pelos seus sete tutores legais. Assim, some-se a tara do meliante com hedionda necrofilia. Não respeitam vivos ou mortos! Todas as pessoas esperam que os sedutores apodreçam na cela mais funda e úmida da masmorra mais medonha. Nunca se deve descuidar do mal em suas múltiplas possibilidades. De todos os lados se erguem inimigos da moral e dos bons costumes.

Tranquilizem-se, queridas leitoras e estimados leitores. Há notícias de que o sistema jurídico fez uma limpeza mais profunda. Foi identificado um grupo que cantava, animado, em plena área de embarque do aeroporto, texto profano e agressivo que reproduzo a contragosto: "Atirei o pau no gato tô, mas o gato tô não morreu reu reu". Violência explícita contra os animais! Autoridades detiveram os cantantes, encaminhando-os ao órgão competente do Ibama! O peso da lei já cai também contra caçadores do lobo mau que estavam de olho no dote de uma menor de chapéu vermelho.

Pasmem: não chegamos ao fundo do poço. Um julgamento envolve toda uma família. Dois pais abandonaram os menores João e Maria na mata para morrerem! Sim, morreriam de fome, frio ou sob ataque de borrachudos canibais. Abandono de incapaz, premeditado e reincidente, pois voltaram a repetir o crime infame no dia seguinte. Os dois jovens, até aqui vítimas, invadiram uma propriedade e destruíram uma casa de doces de uma senhora excêntrica na Serra do Mar.

Depois, não bastasse todo o narrado, o menor meliante João empurrou a idosa (aos gritos agressivos de "bruxa") para um forno ardente. Queimaram viva a proprietária, roubaram seus bens obtidos em empréstimo consignado da aposentadoria e, triunfantes, voltaram aos pais relapsos! Quatro assassinos morando na mesma casa sob expensas da boa senhora. Desejamos que os quatro aproveitem as longas férias no xilindró.

O preço da nossa liberdade é a eterna vigilância. Pior, não bastassem os crimes imensos, as pessoas queriam narrá-los a crianças nas escolas. Já imaginaram a perversão que os fatos provocariam, mormente se destacados como histórias infantis leves e educativas. Assédio sexual, cenas de quase estupro, violação de propriedade, indivíduos queimados vivos, animais caçados ou abatidos a pauladas, pais abandonando menores e tudo isso seria usado como material educativo e lúdico! Já imaginaram a falta de limites dessa gente?

Foi necessária a intervenção de agentes preclaros para que todos aqui pudéssemos entender os riscos das narrativas lascivas que se apresentavam como ingênuas. Uma leitora enviou-nos o relato que mostra como devemos estar atentos a tudo. Ela estava na sua residência, tranquila e feliz. Em uma tarde quente de sábado, a laboriosa senhora ouviu um barulho junto ao rio próximo. Percebeu que eram jovens nus tomando banho, alegres e impudicos. Horrorizada, a reclamante foi ao delegado e exigiu providências.

A autoridade cumpriu o seu papel e mandou os nudistas para longe. Assustados pelas ameaças do encarregado da ordem pública, os rapazes passaram a se banhar bem abaixo, sem saber que, do terraço superior, a senhora ainda podia avistá-los. Nova intervenção da lei e os exibicionistas foram instados a irem muito, muito mais baixo no mesmo curso d?água, sob penas terríveis.

Derradeira reclamação da boa cidadã: nossa leitora informou que, subindo no telhado do sobrado e munida de poderoso binóculo, ela ainda conseguia ver os rapazes pelados. Viram? Nunca se pode descansar em busca da defesa da moralidade. A senhora já encomendou um telescópio porque ouviu falar que, em rio de outras regiões, havia mais rapazes despudorados exibindo suas vergonhas. Até onde teremos de esticar nossa visão impoluta para encontrar o mal? Sempre alerta! Sempre alerta! Eia, sus, à luta! É preciso ter esperança!

LEANDRO KARNAL


19 DE JANEIRO DE 2019
DRAUZIO VARELLA

ABUSO DE ÁLCOOL E DEMÊNCIA

As demências afetam 5% a 7% da população com mais de 60 anos. São síndromes resultantes de degenerações cerebrais, caracterizadas por deterioração progressiva das habilidades cognitivas, da independência e da capacidade de executar tarefas diárias.

Embora haja certa discordância na literatura médica a respeito do uso moderado de álcool, parece que até dois drinques por dia para homens e um para as mulheres trazem mais benefícios do que agravos à saúde (exceto um pequeno aumento na incidência de câncer de mama, mesmo nas mulheres que bebem essa quantidade).

Os estudiosos, no entanto, são unânimes em apontar os malefícios causados pelo consumo excessivo: quatro ou mais drinques diários para homens, dois ou mais para as mulheres. Vale lembrar que consideramos um drinque a quantidade aproximada de álcool existente numa latinha de cerveja, numa taça de 150ml de vinho ou numa dose de 40ml de destilado.

Em março de 2018, foi publicado um estudo na revista The Lancet Public Health sobre a relação entre abuso de álcool e a prevalência de quadros demenciais, na França. Os autores analisaram os prontuários de todos os adultos com mais de 20 anos internados nos hospitais metropolitanos do país, entre 2008 e 2013, em busca de dados sobre a exposição ao álcool e a outros fatores de risco que aumentam a incidência de demências.

Dos 31,6 milhões de adultos que receberam alta nesse período, 1,1 milhão foram enquadrados no diagnóstico de demência. O uso abusivo de álcool mais do que triplicou o risco de demências em mulheres e homens (3,34 vezes e 3,36 vezes, respectivamente).

Transtornos provocados pelo consumo excessivo de álcool aumentaram a prevalência de outros fatores de risco para demências: fumo, sedentarismo, hipertensão arterial, diabetes, hipotireoidismo, surdez, nível educacional baixo, traumatismos cranianos, etc.

Em todos os tipos de demências, o uso abusivo foi fator de risco isolado, independente dos demais. Como explicar?

1) O etanol e seu metabólito, acetaldeído, têm efeito neurotóxico por ação direta, capaz de causar danos estruturais e funcionais permanentes nos tecidos do cérebro.

2) O uso abusivo pode levar à deficiência de tiamina (vitamina do complexo B), que é a causa de distúrbios neurológicos bem conhecidos, como a síndrome de Wernick-Korsakoff.

3) O consumo excessivo aumenta a probabilidade de surgirem outras condições tóxicas para o cérebro: traumatismos de crânio, epilepsia, encefalopatia hepática, cirrose.

4) O uso abusivo está relacionado com a demência vascular, porque aumenta o risco de hipertensão arterial, acidentes vasculares cerebrais hemorrágicos, fibrilação atrial e insuficiência cardíaca. Além de tudo, ele está ligado ao fumo, à depressão e ao nível de escolaridade mais baixo, fatores que aumentam a probabilidade de demências.

Prezadíssimo leitor, se tiver pretensão de chegar aos cem anos sem confundir o filho mais velho com o cachorro da casa, é melhor pegar leve.

DRAUZIO VARELLA
19 DE JANEIRO DE 2019
JJ CAMARGO

O QUE FAZER COM UMA AMIZADE VIRTUAL?

Há uma incontrolável ânsia de usar todos os instrumentos de aproximação virtual para conectar pessoas que foram convivas em épocas tão remotas que o tempo se encarregou de borrar-lhes a lembrança.

O convite para que participasse de um grupo de WhatsApp que devia reunir todos os sobreviventes de um tempo de colégio me pareceu desde logo assustador. Não conseguia imaginar como recuperar uma intimidade necessária para justificar a reaproximação depois de, sei lá, 55 anos, só porque esta prática virou uma febre (passageira?) na internet. O desespero aumentou quando fomos comunicados de que todos os abaixo listados estavam automaticamente incluídos no grupo, e eu só lembrava bem de uns cinco de uma turma de 50.

O mal-estar se ampliou com a certeza de que aquele clique bendito, que resultaria no "saiu do grupo", e que seria a prova de que Deus existe para nos socorrer, provocaria uma reação de antipatia instantânea, seguramente enriquecida pela frase mais previsível: "Esse sempre se achou muito!".

E então, ainda meio atazanado, assisti pipocarem incríveis fotos com caras sempre sorridentes, aparentemente conservadas no formol da memória por algum colecionador de saudade, mostrando um bando de queridões que a vida dispersara, talvez com a intenção de mostrar que poderíamos sobreviver sem eles. O que, afinal, tínhamos conseguido.

A presença de fotos daquela época produziu uma sensação de nostalgia com algum desalento pelo confronto do que fomos e o que sobrou de nós, que invariavelmente foi menos do que gostaríamos. E algumas vezes tão menos que não conseguimos disfarçar o constrangimento de nem nos reconhecermos nas fotos desbotadas, por décadas de gavetas mofadas. Logo depois, um entusiasta aposentado sugeriu que a confraternização se materializasse num encontro formal, um desses em que as pessoas falam olhando no olho, e se tocam e, quando felizes, se abraçam, mas não deu certo.

Acabaram reunidos menos de 10% dos animados debatedores do WhatsApp, e não por acaso eram apenas aqueles que nunca desconectaram e que, por razões de proximidade e afeto, se encontram regularmente, à moda antiga.

Para mim, este movimento de fraternidade virtual tem sido um laboratório afetivo extremamente rico, deixando claro que temos muito a aprender com essas amizades que se anunciam eternas mas que soam surreais, sempre que a distância geográfica impedir a dependência afetiva, que só se preserva com o selo generoso de um abraço.

Voltando à pergunta inicial: se a lembrança da amizade virtual é confortável, deixe-a quieta. Materializá-la em muito se parecerá com o esforço pouco inteligente de reativar um amor antigo, o que inexoravelmente implicará em duas mortes. A da fantasia, alimentada durante o intervalo de solidão, e a da saudade. Dois sentimentos lindos demais para serem atropelados pela aspereza da realidade.

JJ CAMARGO



19 DE JANEIRO DE 2019
MÁRIO CORSO

Por que os ETs não nos visitam?

A chance de vida extraterrestre é numericamente enorme, mas então: onde estão? Por que não nos visitam? Chama-se Paradoxo de Fermi - em homenagem ao famoso físico italiano - a aparente contradição entre o extraordinário número de planetas habitáveis da vastidão do universo, portanto altíssimas chances de existirem lugares com vida inteligente, e a falta de evidências de tal possibilidade.

Um amigo, que sabe tudo sobre ETs, deu a melhor explicação sobre por que eles não dão as caras por aqui. É simples, ele diz: "Você visitaria aqueles parentes atrapalhados que vivem te achacando, que têm mãe no hospital, filho na cadeia e tudo é precário na vida deles? Claro que não. Eles vão pedir dinheiro emprestado mais uma vez...".

Em resumo, a tese do meu amigo é de que eles não querem treta com gentinha. Não teríamos nada a oferecer e iríamos pedir muito. Temos que encarar que, entre os povos das galáxias, talvez tenhamos péssima reputação.

Ele acrescenta: imagine quando surgir o "leve-nos ao seu líder", que é a primeira coisa que os ETs fazem quando chegam a um planeta. Eles teriam que, depois de dirigirem por zilhões de léguas cósmicas evitando asteroides, desviando de buracos negros, sem parada em lanchonete, sem nenhum restaurante decente no caminho, ter que aguentar o Trump, o Xi Jinping ou o Putin. Sinceramente, nenhum ET merece, nem mesmo um Vogon...

Eu discordo do meu amigo. Acho que poderíamos explorar nosso potencial para turismo cômico. Os ETs poderiam pagar para vir nos conhecer melhor e dar boas risadas.

Como? Simples, ministrando-lhes aulas. Para os humanos, não existe nenhuma ideia, mesmo que escandalosamente idiota, que não possa angariar seguidores. Escolhemos algumas delas e chamamos seus defensores para ensiná-las aos ETs.

Acho que a melhor introdução seria o Terraplanismo. Risos espasmódicos na certa. Ou, nas variações recentes, aqueles que dizem não haver provas de que a Terra gira ao redor do Sol. No campo da saúde, traríamos gente para explicar-lhes que cigarro faz bem e vacina faz mal.

Acho que uma das boas histórias seria explicarmos o nosso Deus. Ele é todo- poderoso, onisciente, onipotente, mas por estranhas razões - embora assexuado - teria a mesma obsessão por sexo que nós, suas criaturas. O Criador de tudo, segundo alguns, ficaria imensamente ofendido se não fizéssemos sexo de acordo com suas regras.

E já que estamos no campo do divino: imagine explicar para os ETs que esse mesmo Deus teria nos feito a sua imagem e semelhança. Mas, sei lá, vai que acordou preguiçoso naquele fatídico dia, tanto que usou o mesmo material genético de um projeto anterior. Por isso temos um DNA quase idêntico ao dos grandes primatas, mas não seríamos parentes. Dá para entender?

Então, caríssimo leitor, consegues imaginar uma inteligência superior nos levando a sério?

MÁRIO CORSO


19 DE JANEIRO DE 2019
ARTIGO

O LIQUIDIFICADOR

O liquidificador revolucionou a cozinha, humanizou as cozinheiras e se igualou às grandes inovações do século 20, como a penicilina, a bomba atômica e a ida à Lua. Agora, no novo século, o governo Bolsonaro o regulamentou e incentivou por decreto.

Quem tenha mais de 25 anos e bons antecedentes pode ter até quatro liquidificadores e, assim, moer e cortar em mil pedacinhos até o mais duro osso de roer. Ainda não podemos levá-los à cintura pelas ruas ou no "shopping", mas esse tempo virá?

Sim, pois - como disse o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni - "arma é como liquidificador", coisa inocente que não pode ser culpada se cortar o dedo da criança que ali enfiar a mão.

Toda simplificação é um perigo e a comparação ou metáfora do ministro é um meta fora total. Liquidificador não tem bala nem mata. Se moer um dedo, é acidente, pois outra é sua função. Arma, porém, é instrumento de matar. Quem atira quer eliminar, até para não ser eliminado.

O decreto liberando a posse de armas foi escolha da ampla maioria que elegeu Jair Bolsonaro. Mas "as maiorias" também erram. Em 1933, a maioria levou o odioso Hitler ao poder, sem perceber que destruiria a Alemanha. Na Rússia de 1917, a violenta maioria "bolchevique" venceu os cultos "mencheviques" minoritários, e a utopia comunista virou sangue e horror.

Entre nós, será difícil ter o revólver como relíquia num cofre. Tê-lo à mão nos protege do ladrão ou assassino, mas leva, também, a disparar até na irritação das rusgas de casal. E a ideia de que cada qual deve atacar ou se defender dos violentos será uma caótica guerra civil oculta, mostrando a falência do poder do Estado, da Justiça e da polícia.

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Deter a violência à bala é como apagar incêndio tapando o fogo com palha seca, sem ir às causas.

Além da droga e dos "bandidos", hoje tudo induz à violência e à disputa, nunca à cordura e ao amor. A "nova música" é desbocada batucada. Os filmes-desenhos infantis não têm 10 segundos sem gritos, estrondos, empurrões e tiros. No final, "os bons" vencem, mas triunfam também pela violência. Que adultos surgem daí, dessa inconsciente fábrica de estultos?

Educa-se para o crime, mas ninguém vê.

Na última ceia, antevendo o fim, Cristo instituiu o novo mandamento: "Amai-vos uns aos outros, assim como vos amei". Agora, invocando "Deus acima de tudo", irão agregar um "r" e nos mistificar com o "armai-vos uns aos outros"?

Não se põe a História num liquidificador, menos ainda a História Sagrada.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

sábado, 12 de janeiro de 2019


12 DE JANEIRO DE 2019
LYA LUFT

Beleza ou paciência

Outro dia vi , talvez no meu Face, esta frase: "Quando tudo dá certo, a gente diz ´Beleza!?. Quando dá errado, se diz ´Paciência!`". Como tantas dessas frases soltas na rede social, essa me pareceu divertida e verdadeira. Outras, muitíssimas, são bem tolas, sem fundamento, preconceituosas ou ainda arrastando, depois de mais de um mês, as disputas e insultos políticos.

Sim, quando dá certo, a gente fica tranquilo, ou eufórico, dá graças a Deus (um amigo médico reclamou: "Agradecem a Deus, está certo, mas e nós, médicos, em geral só nos citam em participações fúnebres"). Há quem agradeça, mas enfim... Deus ajudou, quando nos salvamos, Deus quis quando alguém amado morre. Somos simplistas talvez para aguentar a montanha-russa da vida.

Sempre tive pouca paciência, sobretudo para aprender coisas. Fui uma estudante esquisita, eu acho, sabendo muita coisa, porque lia loucamente, e ignorando outras, básicas, por falta de capacidade ou paciência para me concentrar. O bom professor de matemática que me deu aulas particulares anos a fio certo dia disse a meu pai, constrangido: "Doutor Arthur, a sua filha é muito inteligente, mas comigo não aprende mesmo. Eu explico, explico, ela fica me olhando com aquele jeito meio distraído, e vejo que, de verdade... não entendeu nada".

Outro professor, já na faculdade, brincava dizendo que eu aprendia "pra trás", isto é, se não pegava logo pela intuição, já desistia do esforço de aprender. Sonhadora e preguiçosa, eu não queria saber quantos metros de trilhos tantos operários fariam em tantas horas, ou quantas maçãs caberiam num cesto se... Ali não valiam nem "beleza", nem "paciência".

Escrevi na coluna passada, mais uma vez, da minha paixão inata pelas palavras. Vai daí que também implico com algumas: por exemplo, atualmente, "empoderamento" e "feminicídio". Elas são ruins? Não valem? Até que são boas, até que valem porque todos entendem, mas sobretudo "feminicídio" é de matar e provoca minha maior impaciência. Dói nos ouvidos. "Homicídio" não bastaria porque se liga a homem? Que pobreza. Assim, no populismo atual por este grande mundo, não basta dizer "o homem às vezes sabe ser genial" porque isso não incluiria as mulheres? Não se atina com o fato bem simples da linguagem segundo o qual "homem" é agenérico, refere-se a criatura da raça humana... Como quando dizemos "presidente" de uma empresa, caso seja mulher, não precisamos criar o termo "presidenta" (ou "presidanta")...

Eu sei que língua é um ser vivo, que se modifica segundo fato social que é, e que isso independe, em geral, da atuação de uma ou mais pessoas. Possivelmente, nas gírias diversas, alguma celebridade usando um termo ou interjeição, ou mesmo gesto (que é linguagem), vai criar uma momentânea onda de imitadores. Logo passa. Mas a língua em si, essa fascinante criatura viva, bela e atroz, poética e cruel, ou inócua e obtusa, merecia ser dispensada dessa invasão de feminicídios e empoderamentos, e mais outros da sua turma. Implicância minha, impaciência? Provavelmente. Ainda bem que, como já disse e repito, sendo ela um ser vivo e livre, não precisa da minha simpatia ou implicância para continuar.

LYA LUFT

12 DE JANEIRO DE 2019
MARTHA MEDEIROS

O ronco


O título deste texto entrega: rapazes, o assunto é com vocês, pois mulher, quando ronca, é em baixo volume, sem perturbar as relações conjugais (ok, em tese). O ronco masculino é de outra categoria: a dos rugidos aterrorizantes que fazem a gente ter certeza de que dorme ao lado de uma fera que foi esfaqueada na jugular e está nos estertores da sobrevivência, berrando sua ancestralidade primitiva. Passados muitos anos após o fim do meu casamento, admito que adoro meu ex-marido, mas já o desejei matar inúmeras vezes enquanto dividíamos os lençóis, e o assassinato só não foi efetivado graças a um dispositivo chamado divórcio, que não dá cadeia.

Essa alternativa pacífica - o divórcio - ainda traz uma vantagem, mesmo que pouco honrosa: a vingança. O ex terá uma nova namorada, é evidente. E ele se apaixonará por ela e esquecerá a anterior, que agonizou por anos a seu lado na cama. Pois. Enquanto os amigos desejam felicidade eterna ao novo casal, é uma satisfação secreta imaginar que, após algumas madrugadas juntos, a felicidade eterna dos pombinhos estará por um fio. Quá quá quá.

Porém, mistério: a fera esfaqueada na jugular começa um novo relacionamento e simplesmente deixa de roncar. Ao menos deixa de roncar daquela forma vulcânica e perversa que impedia que se pregasse o olho a noite inteira. Não é justo. Depois que meu ex-marido e eu nos separamos, ele disse que nenhuma outra namorada se queixou do ronco dele. Nenhuma. Que elas até achavam bonitinho o ronronar dele. Ronronar!!! Quando estava comigo, o querido virava um ogro selvagem assim que pegava no sono, e agora as namoradas dele dizem que nunca escutaram nada que justificasse estrangulá-lo. Eu pergunto a ele: e sua apneia? O que elas dizem a respeito? Nunca comentaram nada, ele responde. COMO ASSIM, NADA? Você quer me deixar louca? Era desesperador. Era infernal.

Aí me ocorre que, depois de separar, eu também tive namorados. E, pensando bem, nenhum deles roncava. No máximo um ronronar - pois é, um ronronar. Quando eles reclamavam que suas ex-mulheres enchiam a paciência por causa de seu ronco, eu, a santa, tomava o partido deles, lógico: era implicância, amor, você dorme feito um anjo.

Por favor, especialistas, ajudem a decifrar esse enigma. Estou prestes a declarar que os homens começam a roncar só depois de um ano de relação, por aí. Talvez exista algum mecanismo que os impeça de soltar aquele som cavernoso no comecinho do romance. As vias respiratórias dos homens apaixonados talvez não fiquem obstruídas. Ou, sei lá, toda mulher em fase de encantamento é ligeiramente surda. Depois se acumulam os anos de convívio, vem a rotina, o hábito, o tédio e o ronco, nessa ordem. Será?

Estou preocupadíssima. Em início de namoro. Ele ronrona, apenas.

MARTHA MEDEIROS

12 DE JANEIRO DE 2019
PIANGERS

Ninguém precisa trabalhar segunda-feira


Não estou com pressa de começar o ano e acredito que todos deveriam ainda estar de férias. Me incomoda imaginar que, hoje, não deu nem 15 dias em 2019, já tem gente trabalhando, pegando carro, ônibus, trem, chegando no escritório, tomando café, almoçando no bandejão da firma. Não está certo isso. 

Os que estão trabalhando sabem que está errado, eles deveriam estar na praia descansando, tomando cerveja e falando bobagem até a madrugada. Quem está trabalhando agora está fingindo que está trabalhando - fingindo que responde e-mails, que fecha contratos, que prospecta clientes - porque no fundo ninguém está mesmo trabalhando. Estão só fingindo. Quem está trabalhando nesta semana sabe que é verdade.

Se você é o chefe de uma pessoa que está trabalhando neste janeiro calorento, este janeiro ensolarado, este janeiro que pede a brisa do mar, sorvete para crianças e chopes para adultos, se você é o chefe de uma pessoa que está trabalhando neste janeiro, deveria rever esta posição agora mesmo. Libere seus funcionários. Diga: "Estão liberados. Voltem quando o tempo nublar". Ou apenas mostre aos seus subalternos esta coluna. Encaminhe pelo WhatsApp. Ninguém precisa trabalhar na segunda-feira. Vamos ser um pouco mais realistas.

Quem trabalha na primeira quinzena de janeiro, me desculpem, está apenas atrapalhando o descanso dos outros. Não há um cliente que se regozije com um ligação no começo do ano, não há um contrato que seja fechado com alegria. Nenhuma reunião terá júbilo, nenhum elogio será sincero. Serão todos hipócritas em um escritório neste janeiro, fingindo prazer em horários rígidos, deleite em metas para cumprir, agrado em conversas ao bebedouro.

Ninguém precisa trabalhar na segunda-feira. Pode ficar tranquilo. Eu conversei com seu chefe e está tudo acertado. Você, pegue sua família, leve as crianças para praia, arrume uma piscina de um amigo, coloque um chinelo e compre carvão. É inaceitável alguém trabalhar neste verão. Você faça uma caipira, coloque o celular em modo avião, ignore a ansiedade alheia. O ano ainda não começou. Ainda está quente e faz sol e todos estão na praia. Não seja indelicado de pensar em trabalho.

PIANGERS


12 DE JANEIRO DE 2019
CARPINEJAR

Lápis-borracha

Lápis é lápis, borracha é borracha. Quando a borracha está na cabeça do lápis, ela não costuma funcionar. Só borra, só piora o remendo. Parece uma lixa rasgando a folha. É como se fosse mais decorativa do que prática.

Quando preciso apagar algo, uso borracha, avulsa, branca, guardo a certeza de que não fará carnaval com a minha letra.

O mesmo devemos pensar no relacionamento amoroso. Não transforme a sua esposa ou marido no único amigo, no único confidente. Não converta o seu par em lápis-borracha. Vai gerar estragos no papel.

Sem contar que, praticando o dois em um, ao se separar, perde tudo e não tem uma vivalma em seus contatos frequentes para se socorrer.

Amor é amor, amizade é amizade, cada um com a sua função.

É saudável manter um conselho de amigos antigos à parte, inclusive para preservar o distanciamento crítico e serenar as discussões com humor e leveza.

Centralizar todas as expectativas numa pessoa é anular a sua presença. Ninguém aguenta ser o foco das crises, a fonte das dúvidas. As responsabilidades de um relacionamento já são pesadas. Inventar de unificar as tarefas termina por agravar desentendimentos.

Até porque, no calor da disputa amorosa, é comum perder a lucidez e o discernimento e atalhar ofensas. Nem sempre os desabafos são entendidos, podem soar como cobranças. Dizer qualquer coisa avoadamente costuma ser enquadrado em grosseira.

Com a amizade, fala-se bobagem sem segundas intenções. No romance, as bobagens entram no território perigoso e interpretativo do ato falho.

O amigo por perto desafoga mágoas e descongestiona reclamações. É uma peneira, um filtro. O que é ruim fica no escudo dele, o que é relevante ganha impulso e assume uma maior clareza em nossa mente.

Ele é o nosso dublê nas quedas e nos tombos. Realiza ensaios das lamúrias em telefonemas e encontros e, muitas vezes, evita brigas dispensáveis e confrontos inúteis.

A esposa ou o marido estão dentro de casa defendendo o seu ponto de vista. O amigo não tem nenhum interesse evidente e vem com o seu corretivo - a verdadeira borracha - cortar o que não se quer ouvir.

Além de nos conhecer há mais tempo, tem o jeitinho certo para nos amansar e nos convencer a pedir desculpa.

CARPINEJAR


12 DE JANEIRO DE 2019
CLAUDIA TAJES

Coisas de menina

Para muito além do rosa, lembrei de algumas "coisas de menina" mais significativas do que a cor da roupa. Isso por conta, claro, do vídeo da ministra aquela. Aí vão alguns exemplos narrados sem rigor histórico, mas com total respeito aos fatos. E tem muito mais de onde saíram esses.

OBSTINAÇÃO. Quando uma menina bota uma ideia na cabeça, dificilmente ela desiste. E, se não conseguir o que quer de primeira, vai continuar insistindo até chegar lá. O estudo, por exemplo. Nem faz tanto assim, os pais achavam que era uma perda de tempo as filhas estudarem. Para que se logo estariam cuidando da casa e do marido? Havia as que não aceitavam e terminavam seus dias em um convento ou no hospício, dois destinos consagrados para as filhas rebeldes. 

Depois de muita briga, olha nós aqui ainda que a luta continue em diversos lugares pelo mundo. E o voto? No começo do século 20, o voto era uma exclusividade dos homens abonados. Os mais humildes não tinham vez, e as mulheres, muito menos. O movimento das sufragistas foi abrindo caminho para que, em 1928, uma professora do Rio Grande do Norte se transformasse na primeira eleitora brasileira. Nada cai do céu para as mulheres o que nos fez assim, obstinadas. E dispostas a não entregar a rapadura jamais.

MAIS OBSTINAÇÃO. E quando mulher não podia trabalhar? Quer dizer, trabalhava quase em regime de escravidão, limpando, cuidando e administrando a casa em troca da satisfação do marido e dos filhos. Até que a Revolução Industrial precisou de mais braços para explorar, depois os homens foram para suas estúpidas guerras mundiais, e aqui estamos nós. No Brasil, o processo começou com mais força nos anos 1970, com a deteriorização dos salários e a necessidade de complementar a renda das famílias. Mas essas foram apenas as razões econômicas, porque o que sempre moveu a gente foi a necessidade de acabar com os limites que insistiam em nos impor. Quem torce a cara para o feminismo acaba por esquecer que todas nós nos beneficiamos com as conquistas do movimento.

CAPACIDADE. Ao contrário do que os antigos acreditavam, as mulheres não eram boas apenas no lado de dentro das casas. Aliás, uma função doméstica como a cozinha, por exemplo, hoje é atividade que garante não só o sustento, mas o reconhecimento de muitas. Ninguém mais discute a capacidade das mulheres em todas as áreas, em todos os lugares, em todos os escalões, mas isso não se traduz em igualdade de oportunidades. Na média, os salários delas também continuam menores do que o dos homens o que nos lembra que a equiparação é uma causa muito urgente e muito séria. Isso nem é feminismo, é só justiça mesmo.

MAIS CAPACIDADE. Ao receber seu prêmio de Melhor Coadjuvante no Globo de Ouro, a atriz Patricia Clarkson agradeceu assim ao diretor da série: Você exigiu tudo de mim, exceto sexo, que é exatamente como deve ser na nossa profissão. Como deve ser em todas as profissões. Exijam tudo o que for relativo ao trabalho que a gente dá. Fora isso, só se dá para quem se quiser.

PROTEÇÃO. Até bem pouco tempo, diziam que mulher não sabia ser amiga de mulher. Que a característica principal das nossas relações era a competição, factóide caricaturalmente reproduzido em filmes, programas de TV, novelas e romances para moças. Só que o mundo tem visto exatamente o contrário disso. Unidas, as mulheres se protegem e têm dado os maiores exemplos de resistência dos nossos dias, seja contra todas as formas de violência, seja nas questões políticas. Proteção é uma coisa de menina que se mistura com empatia, com generosidade e, óbvio, com amor. Sutilezas e delicadezas dos cromossomos XX. Já a cor da roupa, bom, cada uma usa o que bem quiser, assim como faz da sua vida o que bem entender. Decisão é coisa de menina. E dela ninguém abre mão.

CLAUDIA TAJES


12 DE JANEIRO DE 2019
DRAUZIO VARELLA

ESTRATÉGIA SINISTRA

Eles foram lançados com o pretexto de ajudar fumantes a livrar-se da dependência de nicotina. Por alegarem não conter as substâncias cancerígenas e a fuligem resultantes da combustão do fumo, evitariam riscos de câncer, doenças cardiovasculares e pulmonares obstrutivo-crônicas.

Numa demonstração inequívoca das intenções da indústria mais criminosa da história do capitalismo ocidental, a Altria - o maior fabricante de cigarros nos Estados Unidos, detentora das marcas Marlboro e Parliament, entre outras - acaba de investir 12,8 bilhões de dólares na compra de 35% da Juul Labs, empresa que domina um terço do florescente mercado de cigarros eletrônicos do país.

Perspicaz leitor, não lhe soa estranho uma multinacional aplicar tal soma no fabricante de um produto destinado a combater aquele que ela mesmo comercializa? Veja o que está por trás desse negócio.

1) A Juul manterá a independência, mas poderá usar "infraestrutura e serviços", pontos de venda e marketing direto aos consumidores de cigarros combustíveis por meio de propagandas inseridas nos maços, além de ganhar acesso ao mailing e à rede de vendas da Altria e de sua subsidiária, a Philip Morris.

2) Da mesma forma que os cigarros comuns, os eletrônicos são preparados para atrair crianças e adolescentes. Não é por acaso que muitos têm o formato de pendrives que podem receber carga em USB de computadores e contém aditivos químicos com gosto de chocolate, morango, crème brûlée e outros sabores agradáveis ao paladar infanto-juvenil.

3) Graças a essas artimanhas, eles se tornaram sucesso de vendas entre adolescentes americanos. Inquérito conduzido em 2017 pelo National Institute on Drug Abuse entre 45 mil alunos do curso equivalente ao nosso Ensino Médio mostrou que 28% haviam fumado cigarros eletrônicos no ano anterior. Em 2018, esse número aumentou para 37%.

4) O mesmo inquérito revelou que, em 2018, o número de alunos fumantes de cigarros comuns foi de 3,6%, queda expressiva em relação aos 22% de 20 anos atrás.

Como vários estudos demonstraram que, comparados aos não-usuários de eletrônicos, os que fazem uso deles se tornam fumantes convencionais com maior frequência, não é necessário pós-graduação em Harvard para entender a estratégia sinistra: a indústria que vende nicotina empacotada em dispositivos para queimar tabaco sente que os lucros caem nos países de renda per capita mais alta, e decide investir numa forma mais palatável de administrá-la às crianças, que seja considerada inofensiva pela sociedade.

A manobra nada mais é do que um golpe inescrupuloso para recapturar um mercado de dependentes de nicotina ameaçado pelas campanhas educativas e as estatísticas que identificam o cigarro como fonte inesgotável de sofrimento e principal causa de morte evitável.

A eficácia da indicação dos cigarros eletrônicos no tratamento da dependência de nicotina é altamente questionável. Um estudo retrospectivo, publicado em 2017 no British Medical Journal, mostrou que eles elevaram a taxa de sucesso de 4,8% para 8,2%.

No entanto, em junho de 2018, foi publicado no The New England Journal of Medicine um estudo prospectivo conduzido com metodologia bem mais rígida, no qual apenas 1% dos fumantes de eletrônicos permaneciam livres do cigarro comum depois de seis meses de acompanhamento.

Em maio de 2018, um estudo publicado no Annals of Internal Medicine revelou que, seis meses depois de receber alta hospitalar, 10,1% dos que fumaram eletrônicos conseguiram parar de fumar, contra 26,6% dos que o fizeram sem usá-los.

Mesmo a pretensa justificativa de que eles evitariam os males do cigarro comum tem sido questionada. Evidências preliminares sugerem que também estejam associados ao risco de infarto do miocárdio, de enfisema e outras doenças pulmonares.

O Brasil tem feito muito esforço para reduzir o número de fumantes: proibição do fumo em ambientes fechados, aumento de impostos, advertências nos maços, restrições à propaganda, matérias educativas nas escolas e nos meios de comunicação de massa. Os resultados não são desprezíveis. Segundo o Vigitel, em 2017, a prevalência do fumo entre nós era de 10,7%. Hoje, fumamos menos do que nos Estados Unidos e nos países europeus.

Se não adotarmos medidas preventivas enérgicas, andaremos para trás. Sem controle, os cigarros eletrônicos tornarão dependentes de nicotina milhões de crianças brasileiras.

DRAUZIO VARELLA



12 DE JANEIRO DE 2019
CHRISTIAN DUNKER

PAULO FREIRE

Jamais me esquecerei da conferência de Paulo Freire na Faculdade de Educação da USP em 1987. Tempos de redemocratização do país, para a qual ele trazia a experiência da África que tinha adotado sua concepção de alfabetização. Ele tinha ido receber um prêmio em um destes países, talvez fosse o Zimbábue, e o dignitário local foi buscá-lo no hotel. Como parte dos costumes locais, em sinal de reverência e acolhimento, o tal sujeito tomou a mão de Paulo Freire e saíram assim, de mãos dadas, caminhando pela rua. Um exemplo prático e impactante de sua tese mais importante, discutida em Pedagogia do Oprimido: reconhecer o saber e o modo de vida do aprendente. 

Cada um aprende a partir de sua própria posição e história, seja ela de riqueza ou pobreza, de mulher ou homem, de negro ou branco. A ideia é tão forte quanto simples. Fazer valer a leitura que cada um já tem do mundo, para em seguida expandir ou tirar para fora, no sentido literal e latino de educere, torna cada um sujeito de sua própria viagem de conhecimento, o que antigamente chamava-se formação. Ideologia, ao contrário, é achar que a criança ou o adulto analfabeto é uma página em branco, que a gente preenche como uma conta bancária.

A ideia pareceu-me incrivelmente psicanalítica, ou pelo menos lacaniana, no sentido de que aprendíamos a não inserir palavras ou intenções na boca de nossos pacientes. Nunca, jamais em tempo algum, querer impor o seu saber de modo a sugestionar o analisante em um sentido específico e consequentemente destituí-lo como agente de seu próprio processo. 

Por outro lado a imagem da vergonha relativa que o grande mestre tinha sentido, e compartilhara conosco, era uma segunda lição imensa. Não é um problema possuir valores e preconceitos se você está disposto a enfrentá-los, expondo-os à experiência que transformará os envolvidos. Reconhecer o ponto de vista do outro, na contradição produtiva que ele traz com o seu, exprimia-se na cena de dois homens andando de braços dados em público.

Quando cheguei à Inglaterra, por volta de 2001, para fazer meu pós-doutorado, perguntei o que eles sabiam sobre o Brasil. A reposta foi clara e repetitiva: em termos intelectuais? Paulo Freire. Visto como uma espécie de Franz Fanon da educação, um dos pais da teoria pós-colonial, ele é o que temos de mais próximo de Pelé no futebol acadêmico. 

Ainda que fosse um Tarciso ou Valdomiro, ele é o cara que todo mundo conhece. Se você duvida, consulte um site chamado Google Scholar. Pelo mundo afora acostumei-me com essa resposta, até que pude conhecer sua filha, Madalena Freire, também educadora. Ela tinha colocado em prática um modelo de formação de professores nas comunidades dos morros do Rio de Janeiro, baseado na apropriação e na escrita da história de si. Tornar-se autor. Estava ali a mesma ideia novamente.

Portanto, quando vejo nosso novo governo declarar uma limpeza étnica do lixo marxista nas universidades, começando por Paulo Freire na educação, não consigo deixar de pensar como suas ideias deram certo. Foi graças a essa valorização cultural do ponto de vista do outro que os discursos mais ignorantes, como os que Olavo de Carvalho, mentor desta barbárie que se anuncia, puderam se apresentar como uma opinião entre outras. 

Terra plana, conspiração gay-comunista, Darwin e Newton, esta dupla de idiotas, tudo vale como um ponto de vista digno de respeito e consideração, ainda mais quando enunciado do alto das goiabeiras em flor. A culpa é mesmo de Paulo Freire. Se não tivéssemos levado tão a sério o que ele disse, jamais teríamos permitido que pessoas sem formação acadêmica formal ou instrução credenciada pudessem externar tais opiniões sem vergonha (no duplo sentido). O que ele não podia prever é que, depois de tudo, em sua própria terra, ele não teria vergonha, mas medo, de andar de braços dados com outro homem.

CHRISTIAN DUNKER


12 DE JANEIRO DE 2019
J.J.CAMARGO

OS QUE NUNCA ERRAM

Se não houvesse tantos incapazes de admitir o erro, seríamos poupados do tempo desperdiçado ouvindo desculpas esfarrapadas e explicações fajutas que chateiam porque não convencem e irritam porque subestimam a nossa inteligência mediana.

Acho que já requintei minha atitude diante da tentativa sempre frustrada dos narcisistas que, muitas vezes sendo inteligentes, devem perceber que não convencem, mas isso não arrefece o ímpeto de ostentar uma convicção até fazê-la parecer verdadeira, exatamente por se considerarem assim, inteligentes.

Numa fase mais imatura, minha reação, em geral, era de indignação, geralmente mal contida. Depois, me convenci de que há do lado de lá um grande sofrimento pela certeza de algum grau de deboche no olho de quem ouve. E imagino que essa já é uma punição suficiente.

Os juízes, os policiais e, muito antes deles, os padres e rabinos sabem o quanto a confissão de um erro ou pecado retira de peso das costas do confessado. É como um salvo conduto generoso que liberta a vítima para voltar a viver na plenitude, mesmo que, no meio do caminho, haja uma penitência a ser cumprida.

Quem trabalha em grupo aprende desde cedo o que significa ter de dar explicação: numa cadeia de responsabilidades e tarefas, alguém não cumpriu a sua parte. Porque é fácil admitir que, se todos fizessem tudo o que foi previsto ou determinado, nunca mais teríamos de conviver com o constrangimento de suportar alguém tentando explicar o inexplicável.

Na atividade médica, suscetível ao erro como poucas, dada a quantidade absurda de variáveis em jogo, há uma enorme dificuldade de admitir que erramos, mesmo quando é óbvio que sim.

Há uma crença ingênua de que a confissão do erro pelo médico vai enfraquecer a relação com o paciente, mas acontece exatamente o contrário, pelo menos entre pessoas de boa fé, o que naturalmente exclui a escória desconfiada que interroga o médico com o gravador escondido.

Não há nada que aproxime mais o paciente do seu doutor do que ele sentir-se tratado com igualdade. E, acreditem, a confissão sincera do erro oferece uma aproximação emocional inigualável.

Os que se comportam como se fosse proibido errar, além de negarem a condição humana que nos faz falíveis, serão obrigados a conviver com o repúdio manifesto por impulso ou contido por educação de quem estará pensando: "Que pena que o nosso doutor pensa que eu sou tão idiota que não consigo perceber o que, de fato, aconteceu!".

Independentemente de quais desdobramentos o erro possa ter, a percepção inconfundível no olho do interlocutor de que não estamos convencendo é o maior desconforto possível numa conversa entre um assustado buscando ajuda e um pretensioso negligenciando esperança.

J.J.CAMARGO


12 DE JANEIRO DE 2019
DAVID COIMBRA

Será que é muito pequeno?

Hemingway adorava matar bichos e pessoas. Mais pessoas. Há várias fotos dele sorrindo atrás do corpo de algum grande animal abatido por seu rifle. Lá estão o velho Ernest e um melancólico leão morto, ou o velho Ernest e o cadáver de um leopardo. Não há, que eu saiba, nenhuma imagem do velho Ernest junto ao corpo de um ser humano que ele executou, mas, bem, ele executou.

Esse fato não é muito conhecido, embora seja um fato. Hemingway chegou a ser julgado por crimes de guerra nos anos 40. Acabou absolvido. Depois, contou a amigos que, pelos seus cálculos, havia assassinado 122 soldados alemães. Escrevi "assassinado" porque era isso mesmo que Hemingway fazia: ele matava sem que suas vítimas sequer tivessem possibilidade de defesa. E, a dois ou três interlocutores, confessou que o prazer de caçar um homem era infinitamente maior do que o de caçar um animal.

Hemingway realmente apreciava a violência. Na época em que vivia em Paris, tornou-se amigo de vários escritores famosos, um deles o inescrutável James Joyce, que era muito provocador, mas muito fraco fisicamente. Essas características tornavam a simbiose entre eles perfeita, porque Joyce arrumava brigas nos bares, durante as esquinas dobradas das madrugadas, e Hemingway lutava por ele. Joyce discutia, Hemingway socava. Cada um na sua.

Scott Fitzgerald foi outro grande escritor da turma de Hemingway, naquele tempo em que Paris era uma festa. Os dois tinham em comum o gosto por bebidas e mulheres. Quanto às bebidas, ambos as ingeriam na mesma (vasta, enorme, oceânica) quantidade, já em relação às mulheres Hemingway tinha mais experiência. Ele vivia substituindo uma mulher por outra e escrevendo sobre elas. A ponto de Fitzgerald avisar:

- Você precisará ter uma mulher para cada livro que escrever.

De fato, os personagens femininos dos romances de Hemingway eram baseados em mulheres que ele havia conhecido na vida real, e aí o verbo "conhecer" tem acepção bíblica.

A vida de Fitzgerald, em contraponto, girou em torno de uma mesma mulher, a também escritora Zelda, bonita, charmosa e esquizofrênica. Hemingway não gostava nada dela e ela não gostava nada dele. Talvez ambos tivessem razão.

Uma noite, ainda em Paris, Fitzgerald chamou Hemingway ao banheiro do restaurante em que estavam - tinha de lhe falar em particular. Hemingway achou estranho, mas o acompanhou. No banheiro, Fitzgerald revelou que, dias antes, Zelda havia se queixado do tamanho de seu pênis.

- Com essa coisinha você nunca vai satisfazer mulher alguma - dissera ela.

Fitzgerald queria que Hemingway olhasse para o pênis dele e fizesse uma avaliação honesta. Hemingway continuou achando muito estranho, mas topou auxiliar o amigo. Fitzgerald baixou as calças, Hemingway olhou, olhou bem, olhou com cuidado e sentenciou:

- Você é completamente normal.

- Mas parece pequeno!

- É o ângulo de onde você está olhando. De cima parece pequeno. Mire-se de perfil, no espelho, e verá que seu pênis é normal.

Fitzgerald saiu do banheiro mais aliviado.

Os padrões de Zelda deviam ser muito elevados, mas, ainda que fossem, ainda que ela não se sentisse contemplada pelas medidas do marido, aquilo não era algo a se dizer, não é? Ela deve ter feito essa observação para diminuir (mesmo) o seu homem.

Ou seja: Zelda, a cruel, e Hemingway, o assassino, não eram boas pessoas. Zelda também não era boa escritora. Hemingway, sim. Era um mestre. Seu estilo direto, preciso, jornalístico, mudou um pedaço da literatura. Quando leio um livro de Hemingway, pouco me importa quem ele foi ou o que ele fez. Importa-me a sua obra. É o exercício que tento fazer hoje, com os artistas brasileiros. Eles estão sempre se manifestando, a respeito de tudo e de todos. Estão sempre falando. Eu? Eu não ouço. Não quero saber o que pensam. Não quero julgar a arte pelo artista. Não quero me desiludir. Não me venha com Hemingway. Venha-me com O Velho e o Mar.

DAVID COIMBRA

12 DE JANEIRO DE 2019
MÁRIO CORSO

Cortes autoinfligidos

Ainda não encontrei um livro que dê conta do novo protagonismo que o corpo vem assumindo nas últimas décadas. Esse corpo mimado por dietas e academias, esculpido a bisturi, decorado com tatuagens e pier- cings, que dá trabalho e do qual tanto se espera.

Sempre fomos através de um corpo, é óbvio, mas nunca precisamos tanto de um para ser alguém. Está fora de moda apenas ter sucesso, ser admirado, é preciso que o biótipo demonstre isso. O corpo faz parte do triunfo, ou ele não é total.

Em resumo: o valor que damos à nossa compleição física cresceu. Sem saudosismos, talvez seja porque descobrimos que não temos um corpo, e sim somos um corpo. Seria uma mudança e tanto. Historicamente nos concebemos como uma alma presa à matéria, e não como um organismo em que brota uma subjetividade. Talvez em ato estejamos à frente da ideia que temos de nós mesmos, já vivendo um pensamento que virá.

Mas a divagação é para situar um problema que preo- cupa pais e professores: muitos jovens estão secretamente se cortando. Primeiro acalmem-se, o mundo não piorou, não é mais desesperador do que era, apenas os sintomas transmutam-se. Tanto como antes não nos tatuávamos tanto - escolhendo um dos exemplos de fenômenos da nova ordem corporal -, não nos cortávamos tanto. Portanto, é preciso inserir o gesto nesse novo momento no qual "falamos" mais desde o corpo. Os mais velhos se assustam por não conhecerem esses mecanismos do dialeto corporal recente, por isso lhes parecem tão pungentes.

O que temos é um sofrimento agudo que não encontra outra forma de se expressar. É preciso que esse sujeito seja escutado, que entenda sua dor, para que possa ser dita de outra maneira. Acompanhado de alguém que entenda sua dor, ela talvez não precise ser corporalmente encenada.

Geralmente os cortes são uma tentativa desesperada de estancar uma angústia, transformando-a em dor física, e dar visibilidade ao sofrimento psíquico. Também possibilitam parar para retomar depois, pois, restando a marca, não será esquecida. É uma dor que não pode ser deixada de lado, tampouco é possível suportá-la o tempo todo. É um corte na carne e na cena. Por isso nos relatos o corte é dito como um alívio momentâneo.

Machucados cicatrizam e tornam-se memórias inesquecíveis, que deixaram de sangrar e doer, mas como se o sofrimento tivesse deixado uma assinatura. Porém, se a dor de uma ferida psíquica fechar suturando um lamento que não se transformou em palavras, ela voltará iniciando novos apelos, que podem ser vistos mas não escutados. Ao invés de calar as dores com analgésicos para a alma, convém lembrar: esses machucados só cicatrizam de verdade se for de dentro para fora, é preciso deixar sangrar as palavras até que as dores sequem.

MÁRIO CORSO


12 DE JANEIRO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

ESPERANÇAS E ANSEIOS NO PIRATINI

O sucesso da gestão de Eduardo Leite está condicionado principalmente à apresentação de um plano sólido para o futuro do Estado

Nos primeiros 10 dias no co-mando do Palácio Piratini, Eduardo Leite concentrou esforços em duas grandes frentes: a edição de decretos de contenção de gastos, a fim de garantir fôlego financeiro para o Estado, e a reestruturação de secretarias e órgãos de governo. Embora sejam ações fundamentais para trazer racionalidade à gestão pública, o trabalho do recém-empossado governador do Rio Grande do Sul só começará de verdade e aí poderá ser avaliado quando as primeiras medidas estruturantes, prometidas durante a campanha eleitoral, forem concretizadas.

Passado o entusiasmo da vitória nas urnas, apresenta-se agora ao governador a vida real. Alta taxa de homicídios, folha de pagamentos atrasada, dívidas com hospitais e baixos índices de qualidade no ensino são apenas alguns dos desafios que já estão batendo às portas do Piratini.

O sucesso da gestão de Eduardo Leite está condicionado principalmente à apresentação de um plano sólido para o futuro do Estado. Os detalhes ainda não foram anunciados, mas entrevistas concedidas por secretários ao longo das duas primeiras semanas de trabalho indicam que o governo, apesar do aumento do número de secretarias, pode estar no caminho certo, preocupado em modernizar a estrutura, enxugar gastos supérfluos e acelerar a venda de imóveis ociosos.

O projeto em estudo pela Secretaria de Educação para reduzir de 30 para 12 o número de coordenadorias regionais é um bom exemplo. Trata-se de uma medida racional, considerando-se que, com a digitalização de processos, a necessidade de atendimento presencial caiu drasticamente na última década. Não há razão para 1,3 mil professores, que poderiam estar em sala de aula, estarem envolvidos em trabalhos burocráticos que, em grande parte, poderiam ser automatizados, sem a extinção de qualquer emprego. A atividade-meio não pode ser mais importante do que a atividade-fim.

Também é promissor que estejam no horizonte de curto prazo do governador a revisão do plano de carreira dos servidores, um robusto programa de parcerias público- privadas, além de uma proposta alternativa para adesão ao regime de recuperação fiscal, que não inclua a venda do Banrisul.

Olhadas individualmente, muitas das medidas representam um pequeno impacto nos cofres públicos, mas são fundamentais para tornar a máquina mais eficiente e evitar sobreposição de funções em um Estado que não consegue sequer quitar a folha de pagamento do funcionalismo em dia.

Peça-chave para levar adiante as mudanças, é bem-vindo ainda o esforço de Eduardo Leite para manter boas relações do Executivo com a Assembleia Legislativa. A aprovação de medidas que contrariam interesses e privilégios incompatíveis com a situação de penúria do setor público não é fácil. Outros governadores de reconhecidos talentos políticos tentaram e não conseguiram.

O grande desafio do jovem governador gaúcho é não se deixar engolir pelas questões da rotina da gestão. Para isso, montou sua equipe de governo. Os focos de incêndio são e serão muitos, mas Leite precisa dedicar boa parte da sua energia ao longo prazo. Sem pensar no Rio Grande de amanhã, o hoje fica ainda mais difícil.


12 DE JANEIRO DE 2019
MARTA GLEICH

Raízes centenárias


Uma das nossas grandes missões, como jornalistas, é estar próximos das pessoas. Proximidade é uma palavra que levamos a sério desde o planejamento da pauta até o conteúdo ser veiculado em jornal, digital e rádio. Por isso, adoramos o Gauchão. É um campeonato da nossa terra, com a nossa gente e a nossa cara. Nos aproxima, especialmente, do Interior.

Falta uma semana para o Gauchão 2019 começar, numa edição que será especial: são os 100 anos da competição. Para lembrar momentos desse símbolo do Estado, alguns craques do nosso time atuaram, nas últimas semanas, no caderno 100 Fatos nos 100 Anos do Gauchão, que você pode ler nesta edição e em versão digital de GaúchaZH.

O editor Cristiel Gasparetto, o repórter Rafael Diverio e o comunicador Gustavo Manhago mandaram ver na pesquisa sobre os fatos que deveriam ser destacados. Acessando fontes como os livros citados na última página do caderno, encontraram de tudo.

Tem de comentarista de TV desmaiando ao vivo por causa do calor a jogos disputados debaixo de neve. Ou tragédias que cancelaram rodadas e um lamentável caso de racismo. Grandes façanhas, como a do primeiro campeão, Brasil-PEL, do Guarany-BA, único bi do interior, do histórico Renner, da dupla Ca-Ju derrubando a dupla Gre-Nal e do Novo Hamburgo levando a taça para o Vale do Sinos.

E tem uma galeria de personagens, como o torcedor-símbolo Vicente Rao, o atacante Tesourinha, os Irmãos Pontes e, claro, Tite - não podemos esquecer que o Gauchão é berço de grandes treinadores.

Vale conferir, ainda, imagens bem curiosas. Com a ajuda da Letícia Coimbra, integrante da turma do nosso CDI (Centro de Documentação e Informação), garimpamos algumas pérolas, como o Paulo Sant?Ana vestido de Papai Noel azul e a célebre foto do Figueroa nu, que adiou uma rodada inteira. Também foi escalado o pessoal de diagramação e arte: Douglas Menezes, Gilmar Fraga, Anna Fernandes, Leandro Maciel, Hermes Wiederkehr e Brunno Lorenzoni. Eles transformaram o conteúdo em páginas e ilustrações no jornal e no site.

O resgate do centenário do Gauchão - não é a centésima edição e, sim, o centésimo ano, já que começou em 1919, mas não foi disputado em dois anos na década de 1920 - é um abre-alas para o conceito de "Campeonato Raiz", com que os veículos do Grupo RBS vão trabalhar em 2019 na cobertura da competição. Teremos quadros especiais, noticiário completo, histórias contadas por personagens de dentro e de fora dos gramados. Aguarde novidades no próximo fim de semana, quando os 12 clubes entram em campo para mais uma disputa repleta de emoções do jeito que os gaúchos gostam.

MARTA GLEICH

sábado, 5 de janeiro de 2019


05 DE JANEIRO DE 2019
LYA LUFT

Palavras como caramelos

Quem me lê sabe que desde sempre fui apaixonada por palavras. Para mim, encantamento, magia, pedrinhas coloridas, cristais translúcidos, caramelos, murmúrio de riacho ou chamado de mar, não importa.

Por isso, eu uso algumas como enfeites, anéis ou brincos, colares com que me sinto bem: glicínia, abside, murmúrio, lágrima, magnólia, marinha... Tantas. Tive esperança, quando muito pequena, de acordar um dia me chamando Magnólia, ou Virgínia, ou Margarida. Qualquer coisa menos as três letras sem graça do meu nome real. Quis me chamar Esperança, não lembro por quê. Açucena, para horror de minha mãe: eu mal começava a ler e numa página encontrei esta beleza: "As gotas de orvalho brilhavam nas pétalas das açucenas".

Então, hoje me fixo na esperança, que tem lá o sibilo do sss mas o conteúdo solar. Minhas esperanças foram mudando dramaticamente (não no sentido negativo) em todos esses anos. Quando pequena, esperava que minha mãe não visse que eu tinha quebrado o copo; que eu tinha sujado o vestidinho sentada na terra; que meu pai me trouxesse aquele livro; que chovesse de noite para eu dormir sentindo aquele incrível aconchego; que chegasse logo Natal e nada de Papai Noel com varas no saco...

Que chegasse a hora de irmos para a praia nas férias de verão, quando não se faziam, como hoje, fins de semana e feriados na beira do mar - a viagem era penosa, demorada, às vezes arriscada. Mas bem antes já se manifestava aquela esperança da temporada em Torres, ainda uma ruazinha com poucas casas e aquele mar esplendoroso, sonoro, belo e às vezes sinistro, que, para mim, era a voz dos afogados chamando de noite no escuro... Essa esperança de praia começava lá por outubro, novembro, com os primeiros calores e noites mais estreladas. A gente inventava: "Estou sentindo cheiro de praia".

Depois havia as esperanças mais melancólicas, como quando, lá pelos sete anos, por acaso descobri que meu pai, adorado acima de tudo, tinha problemas cardíacos. E, quando perguntei, ele, com toda a naturalidade, sem imaginar o buraco que se abria na minha alma, explicou com simplicidade que o coração era uma espécie de bomba, que bombeava sangue, e um dia podia parar. E aí? (O meu, apertado, subindo pela garganta.) Aí, a gente morre.

Quando ele morreu, eu tinha 35 anos, mas era como se quase diariamente cutucasse a esperança: por favor, por favor, que em meu pai aquele coração bondoso, sábio, amoroso, protetor, não parasse.

Fui tendo esperança de virar adulta; de fazer faculdade, aprender mil coisas; de me casar, ter filhos; de ver todos saudáveis e felizes; de ter meu primeiro livro lido... de escrever outros... esperança de mais beleza e amor e harmonia nas casas, no mundo. Esperança como uma primavera meio doida que faz milagres porque é linda, firme, obstinada e feliz.

Muitas esperanças foram abatidas pelos chamados golpes do destino. Muitas, talvez até mais do que eu merecesse, se cumpriram. Hoje, nesta fase de virada do Brasil, a esperança de sermos éticos, decentes, justos, abertos, altivos, parceiros para o mundo, cresce no coração - como aquele pão cheiroso saído das mãos generosas e hábeis das mães ou das avós crescia magicamente debaixo de um pano alvo e limpíssimo, antes de ir para o forno. E dali sair com aquele aroma de segurança, de renovação e de confiança que começa a se espalhar por aqui.

LYA LUFT