sábado, 11 de abril de 2020


11 DE ABRIL DE 2020
RODRIGO CONSTANTINO

Beautiful people

O coronavírus é um vírus igualitário, que ataca todas as classes sociais sem distinção, ao contrário de doenças mais associadas à pobreza. Com uma taxa de contágio elevada e uma grande necessidade de hospitalização, a pandemia colocou em xeque toda rede hospitalar, inclusive a privada. Os mais ricos, pela primeira vez, descobriram a realidade do SUS: falta leito para doentes.

Diante disso, a solução parece clara para alguns: fecha tudo, paralisa a economia, isola todos e lança a campanha "fiquem em casa". É bem mais fácil defender esse caminho quando se pertence à classe alta, num apartamento confortável, com reservas financeiras e razoável estabilidade de emprego. Para não soar muito desumano, prega-se o uso do Estado para distribuir recursos aos pobres, como se o Estado criasse riqueza.

Nesse clima, a turma da bolha faz diário da quarentena, bate panela contra o presidente, um "sociopata" que fala de economia numa hora dessas, e politiza até mesmo um remédio, só porque foi Bolsonaro quem defendeu seu uso, que parece eficaz. Artistas gravam vídeo para expor sua "consciência coletiva", que só não inclui no grupo os mais pobres. Veja como ensinar seu filho a pintar, diz aquele que pensa que dinheiro cai do céu.

Enquanto isso, os trabalhadores pobres entram em desespero. Ou ignoram as restrições legais. "Como pedir para deixar uma pessoa doente isolada, se a casa da família tem só um quarto, banheiro e cozinha?", pergunta um epidemiologista realista. E conclui: "A situação é delicada e um grande desafio". Um ativista da Rocinha, favela carioca, constata: "Tem uma avalanche de pessoas nas ruas. Acredito que de 60% a 70% das lojas abriram. O mercado popular está funcionando". O mundo fora da bolha não pode parar.

"Quando artistas começam a fazer #fiquememcasa, você sabe que há algo de podre no reino da Dinamarca", alfinetou o filósofo Pondé. O desespero do povo pobre nas favelas e periferias não parece sensibilizar a turma do lacre, a "beautiful people" hipócrita que vive só de aparências. Mas a realidade cedo ou tarde se impõe. O problema das bolhas é que eventualmente elas estouram.

RODRIGO CONSTANTINO

sábado, 4 de abril de 2020



04 DE ABRIL DE 2020
LIA LUFT

Uma sombra densa

Nestes tempos impressionantes, em que seguidamente acordo pensando se estou num filme de ficção científica, talvez a mais impressionante imagem – gravada em mim para sempre – seja a de um ancião alquebrado caminhando sozinho, sob uma chuva fina, num dos lugares mais vastos, mais belos e solenes do mundo: a Praça de São Pedro, em Roma.

Não faço apologia do Papa nem da Igreja, nem de religião nenhuma. A mim neste momento interessa a simbologia pungente desta realidade: a humanidade parada, desaparecida de ruas, avenidas, praças e estradas em quase todo o mundo, como se a vida tivesse cessado. De alguma forma cessou aquela que conhecíamos antes.

Depois, por um trecho, o ancião se apoiou no braço de outro padre, talvez secretário. Mas sua solidão foi impactante, naquele espaço enorme, habitualmente fervilhando de gente. Beleza, imponência, arquitetura extraordinária, tudo reduzido a minúscula figura de um velho homem caminhando com dificuldade. Carregava nos ombros não só o peso da idade e de alguns achaques, mas deste mundo enfermo. Fisicamente muito enfermo, dramaticamente, tragicamente doente, com centenas de milhares de mortos, e grandes médicos e cientistas ainda sem saber direito como resolver tudo isso. Além do mais, grande palavrório, grandes cifras, muito desconforto e desamparo. 

Não estou, hoje, a fim de panaceias, band-aids emocionais ou consolinhos. Pois estamos numa situação inédita, pior do que a Peste Negra da Idade Media, centrada na Europa, então ainda pouco populosa. 

Agora, esta densa sombra, espessa e maligna, se estende pelo mundo inteiro, e atinge grandes centros onde vicejam a melhor tecnologia, ciência e medicina possíveis: agora todos perplexos e aflitos. Não há remédio, não há vacina à vista, não há nem informação segura do motivo de tantos se curarem, e tantos morrerem. 

Podemos chorar, rezar, esbravejar: ela vai colhendo aqui e ali, com sua grande foice, desconhecidos, amados, pais, e filhos, e amantes, não apenas velhinhos como se pensava de início. Qualquer um de nós que estamos hirtos em nossas casas. Há semanas não abraço filhos e netos, sobrinhos, amigas queridas. Numa quarentena sem previsão de fim, por sorte minha quase toda num lugar bucólico que é nossa casinha na Serra, mas começando a querer minha vidinha normal de volta... sem ideia do tempo sem tempo deste grande mal. 

Há quem queira se confortar, e se conforta mesmo, prevendo que “logo vai passar”. Há quem faça ioga, oração, meditação, caridade, e tudo ajuda emocionalmente. 

Mas A Grande Peste, sem forma nem cor, ainda vai exigir muito de nós, do cidadão mais comum ao maior cientista e ao mais dedicado médico, eles, sim, médicos e enfermeiros, os heróis desta guerra por enquanto inglória. Vai exigir sacrifício, empobrecimento, fragilidade, sequelas para alguns, morte de muitos.

A única coisa que não ajuda é raiva, é procurar bodes expiatórios, é irritação e agressividade – sobretudo com pessoas que amamos e com quem agora somos forçados a conviver o dia todo: essa, ah sim, a grande prova do amor, ou da farsa de um amor banalizado pela pressa, pela pouca presença, pela mínima tolerância, em tempos ditos normais...

LYA LUFT


04 DE ABRIL DE 2020
MARTHA MEDEIROS

Em comum

O que você tem em comum com os indonésios que sobreviveram ao tsunami naquele trágico janeiro de 2004? O mesmo que eles têm com os capoeiristas da Bahia e também com a família do Joaquin Phoenix: todos estão em casa, esperando a pandemia passar.

Você nunca imaginou que sentiria um tédio igual ao dos pilotos de Fórmula-1, das modelos que saem na capa da Vogue, dos surfistas de ondas gigantes. Você e todos eles estão, neste momento, vivendo situação idêntica: lavam as mãos de meia em meia hora.

Os mangueirenses que desfilaram juntos no Sambódromo não tocam mais uns nos outros. O pessoal do Jota Quest, que canta Dentro de um Abraço, não tem abraçado ninguém. Sua mãe está longe, sozinha no apartamento dela, e no andar de baixo está o pai daquele seu colega que era apenas mais um na lista de chamada. Vocês nunca mais se viram, mas hoje ele está tão preocupado com os idosos dele quanto você está com os seus.

Angelina Jolie deve estar compartilhando, por WhatsApp, piadinhas sobre a longevidade de Keith Richards. E Jane Fonda está recebendo as compras do super por telentrega. É isso aí, garotas, estamos juntas.

Nunca estivemos tão próximos de quem está tiritando de frio num hemisfério e se abanando de calor em outro. Os operários que estavam reconstruindo a Notre-Dame, os bombeiros que ainda buscavam corpos de vítimas soterradas em Brumadinho (MG), as duas moças que gostam do mesmo rapaz, os dois estudantes que disputam a mesma vaga no vestibular - vida em suspenso. Só do que falam é sobre o coronavírus, é só no que pensam também.

Neste instante, os camelôs, os empresários, as prostitutas, as beatas, as dondocas e as manicures espiam a rua por trás de suas janelas. O baterista da sua banda preferida, o cara que acabou de cumprir pena e foi libertado, as crianças que nunca imaginaram sentir saudade da escola, palestinos, guias de turismo, psicanalistas, os que amam mocotó e os que detestam salada - todos do mesmo lado. O lado de dentro.

Você, eu, Bradley Cooper e Lady Gaga: quem de nós quatro está garantido? Budistas, terroristas, flautistas: qualquer um pode se contaminar. Sete bilhões entoando o mesmo refrão: fique em casa, fique em casa. Recolha-se, resguarde-se e permita que o planeta volte a respirar sem tanta poluição e sem tanta interferência humana. É guerra, mas a paz pode tirar proveito.

Nunca imaginamos ter tanto em comum com quem se hospeda no George V, com quem sofre de asma, com artistas africanos, com lavadores de carro, com os que viajam na classe executiva: quando a distância física entre nós não for mais necessária, que a gente lembre que fomos todos parceiros de uma mesma luta e que considerar-se superior ou inferior aos outros sempre foi uma tremenda perda de tempo.

MARTHA MEDEIROS


04 DE ABRIL DE 2020
CLAUDIA TAJES

Vírus no bolso

O exílio forçado do coronavírus tem servido para uma retomada de hábitos e fatos que acabam se perdendo quando o vivente não acompanha o dia a dia da cidade, do Rio Grande. O chimarrão, claro, não está entre eles. Fique em casa e não compartilhe a bomba nem com os seus filhos. Muito menos com os seus pais velhinhos. Que fase.

Entre o que ficou para trás, as consequências da greve do funcionalismo de novembro de 2019, por exemplo. Em dezembro, os servidores que aderiram tiveram 25% dos seus vencimentos cortados. Justo em dezembro, mês de despesas que já não cabem em um salário cheio. Os funcionários saíram dos 25 dias de greve derrotados. O pacote de medidas que retirou uma série de direitos da categoria foi aprovado. Os salários continuaram atrasados, parcelados e congelados, causa de uma perda estimada de praticamente 30% do poder aquisitivo. Vá explicar para o supermercado, a CEEE, a farmácia, o IPTU, o colégio. Pior. Vá explicar para o filho que pede um brinquedo. A filha que quer ir ao cinema. O tratamento que precisa ser feito. Vá explicar.

Começou 2020 e, com ele, o inferno do coronavírus. O foco todo nos procedimentos para evitar a contaminação e as mortes que nos assombravam pelo mundo. O prefeito de Porto Alegre e o governador do Rio Grande do Sul, ao lado dos demais prefeitos e governadores do país, contra os desmandos federais. Briga de foice, e os dois compraram. Então, no início da semana passada, uma notícia chamou a atenção. Depois de driblar por dois meses a punição pela greve, os funcionários do Hospital Sanatório Partenon receberam 25% a menos nos seus vencimentos. A coluna de hoje, que parece específica para este fato, é na verdade extensiva à situação dos professores e de todos os servidores do Estado.

Puxa, governador Eduardo Leite. Todo mundo reconhecendo o senhor como uma liderança importante nesse que é um dos piores, mais tristes, mais difíceis períodos para o mundo, e o senhor toma uma atitude dessas? Cortar 25% dos vencimentos do pessoal em meio a esse caos? Bem quando os funcionários do Sanatório Partenon, e de toda a Saúde, estão na linha de frente contra a pandemia, trabalhando sem descanso e expostos à covid-19? O Hospital Sanatório Partenon é 100% SUS, referência para o tratamento da tuberculose. Alguns sintomas dessa doença são muito parecidos com os provocados pelo coronavírus. Agora imagine a luta, o estresse e a sobrecarga dos servidores nesse momento.

Enquanto alguns esforços são feitos, até mesmo no Brasil, para aliviar um pouco os trabalhadores da quebradeira geral, os funcionários do Estado vão passar pela pandemia com 25% dos salários cortados. Puxa, governador Eduardo Leite. Precisava disso agora?

Brincadeira do Facebook mistura um fato inventado a outros nove reais - mas que parecem mentira. Alguns que encontrei no FB do cineasta Jorge Furtado:

Resolvi atravessar uma lagoa por uma cerca de arame, sem considerar que o meu peso faria a cerca afundar.

Aos oito anos empreendi, com meus primos, a construção de um túnel sob um riacho para facilitar o acesso ao campinho de futebol.

Fui ver o jogo Grêmio e Esportivo, em Bento Gonçalves, no Estádio da Montanha. Estava lotado, assisti de pé, atrás do gol, choveu o tempo inteiro, o jogo foi zero a zero, e o Raquete, lateral do Esportivo, quebrou a perna do Zequinha, ponteiro direito do Grêmio (e da seleção), bem na minha frente.

No segundo turno da eleição presidencial de 2018, achei que eleger um ou outro dava no mesmo e votei em branco. Brincadeira boa em tempos de sobra. Hashtag fica a dica.

CLAUDIA TAJES

04 DE ABRIL DE 2020
CARPINEJAR

Sem príncipe encantado

Acho que já se chegou à conclusão de que príncipe encantado não existe. Nem estamos mais numa monarquia para acreditar no suserano do amor.

A verdade começa a aparecer depois dos 30 anos, quando você cansa de testemunhar a mentira, a deslealdade e a covardia em suas experiências. Ao encontrar alguém com química, falta literatura. Ao encontrar alguém com literatura, falta química. Sempre está faltando alguma coisa.

A ausência desse algo não pode trazer desespero, mas vontade de aprendizado. Temos que ensinar o outro como somos, como funcionamos, o que queremos.

Ficará junto quem tem mais humildade para aprender, apesar das enormes diferenças de temperamento.

Aceitar e acolher a imperfeição é a grande percepção para encontrar uma companhia fundamental. As relações não vêm prontas, restando apenas o nosso esforço de encaixar. As peças devem ser inventadas e manufaturadas na convivência. As pontas serão moldadas pelo prazer de nos explicar e facilitar o acesso.

Na hora de expor os defeitos, não se sentir cobrado, criticado e ameaçado, não gritar e muito menos acusar para se igualar na fraqueza. A pressa elimina candidatos honestos e sinceros. Só a paciência produz intimidade.

Ninguém tem a obrigação de saber o que pensa, ninguém está dentro de sua cabeça para aceitar as suas decisões - terá que rebobinar a história ao início para justificar as suas escolhas.

O amor é um jogo infantil feito para adultos. Ou seja, precisará conversar devagar, como se estivesse expondo as regras de seu corpo e de sua mente para uma criança: isso pode fazer, isso não pode fazer, ganha o meu coração quem avançar todas as casas sem trapacear.

Qualquer um, por mais louco que seja, possui regras. Estenderá o tabuleiro de sua personalidade e mostrará o conteúdo das cartas, longe da tentação do blefe e da telepatia. Ganhará a partida se o seu par ganhar. A vitória dele será a sua vitória: significa que conseguiu a façanha de se traduzir.

Não há como ser amado antes de ser compreendido. Príncipe encantado não existe, o que existe é a perseverança da amizade. Quando unimos, na mesma pessoa, o melhor amigo e o melhor amante.

CARPINEJAR


04 DE ABRIL DE 2020

LEANDRO KARNAL

RITA E GILDA

Rita Hayworth nasceu no Brooklyn, Nova York, em 1918. Seu nome de batismo denunciava a ascendência latina: Margarita Carmen Cansino. Mulher linda, treinada pelo pai em dança, começou cedo a carreira no cinema. Em 1946, aos 28 anos, fez o papel que a imortalizaria como uma deusa sexy, símbolo absoluto do feminino de sensualidade devastadora. No filme, quando ela tira sua longa luva, causa mais furor do que os strip-teases completos. Gilda fumando é uma cena única, em época de sedução associada ao cigarro e à ousadia.

Há uma frase associada à atriz Rita Hayworth após o sucesso de Gilda. Ela reclamava que os homens se apaixonavam por Gilda e acordavam ao lado de Rita. A atriz casou-se cinco vezes. As uniões foram, quase todas, muito infelizes. Seria isso? Bem, ela teve um casamento ruim aos 18 anos, bem antes do sucesso do filme. Talvez o mito Gilda não possa levar toda a conta da dor de Rita. Porém, com certeza, o abismo entre a personagem e a mulher real é algo que poderia ser interessante para pensar Marilyn Monroe, Maria Callas, Elizabeth Taylor e a própria Rita.

Recebo muitas celebridades na minha casa. Noto, por vezes, que as pessoas menos conhecidas ficam um pouco fascinadas e incomodadas ao mesmo tempo ao lado delas. Talvez, imaginem que aquela atriz belíssima viva sendo linda e fascinante em todos os momentos. Diante do intelectual midiático, surge a vontade de manifestar algo inteligente sempre. Ao conversarem com um músico conhecido, muitos imaginam que o ouvido seja o único campo de interesse do convidado e ficam trazendo tudo o que conhecem do mundo das notas para a conversa. Poucas pessoas conseguem entender que a atriz é também mãe, que faz compras, que fica gripada, que tem insegurança em algum campo e que, acima de tudo, naquele instante festivo, provavelmente não deseje fazer o papel de diva. Rita quer ser Rita e não Gilda, e, mais incrível, existe a hipótese de ela desejar uma noite como Margarita, seu eu anterior a Gilda e Rita.

O mal é universal: personagem e ser humano concreto, rosto e máscara, cena e eu interior. Amigos médicos reclamam dos hipocondríacos de toda festa que querem uma endoscopia ali, com o copo de gim tônica na mão. Pediatras sofrem mais do que a média. Enunciado o nome reumatologista e o grupo elenca, em anamneses intermináveis, todas as suas dores ou as de familiares. Infectologistas devem preparar uma breve preleção sobre coronavírus entre o caldo e a carne principal. Penso em uma hipótese: apenas proctologistas ou especialistas em disfunção erétil estejam isentos do debate público em festas. Claro, é uma hipótese, porque a vontade de atenção está um pouco fora de controle hoje.

Vou ampliar o pensamento. Eu contemplo aquele político desagradável. Examino sua fala em público. Noto contrações do lábio, pequenos atos nervosos, mãos inquietas, deslizes gramaticais e um olhar incomodado com a situação da entrevista. Imagino Gilda atuando, sem a beleza ou o talento de Rita. Analiso a personagem na ribalta do poder e suponho o pai de família, o amigo, a pessoa fora daquele ambiente.

Não é um gesto de compaixão no sentido clássico, está mais para tentar entender algo mais complexo do que aquilo que aparece. Na verdade, sou fascinado pelas máscaras para entender o que ocultam. Funciona como a burca. Estou na rua de um lugar no Exterior (pode ser Londres ou Cairo) e passa ao meu lado uma mulher de burca completa. Nada denuncia quem está sob os panos escuros. Porém, ao passar do lado dela, um perfume intenso fica no ar. A sinestesia misteriosa faz supor como será aquela pessoa que eu não vejo, apenas sinto. Tenho a sensação de que a maioria dos políticos ostenta a burca para falar. O cargo, a timidez, a situação ou as más intenções jogam um pano pesado sobre ele. Sob a roupa ritual, um outro perfume (ou fedor) insinua-se.

Todos julgam o que podem ver, dizia Maquiavel no célebre capítulo 18 do Príncipe, poucos são capazes de perceber quem a pessoa de fato é. E, quando Gilda tira a maquiagem, quando despe as burcas de Hollywood, vira Rita. Etapa seguinte: quando Rita relaxa e não se sente observada, ela permite que a frágil Margarita tire a segunda máscara. A filha de espanhol com sangue cigano não precisa fumar como Gilda nem precisa ter o cabelo de Rita Hayworth. Todas as burcas podem ser retiradas. O que veríamos se todos os políticos pudessem ser eles mesmos? Seria, sob o horror aparente de Quasímodo, um espírito doce? Ou, pelo contrário, Dorian Gray mostraria o rosto escondido no sótão?

O mês de abril começa com o dia da mentira. O filósofo Epicteto dizia que, se ouvir alguém falar mal de você, deveria existir alegria, porque as pessoas só saberiam aquela maldade para lançar na sua cara. Imagine se soubessem de tudo? Imaginemos todos, políticos e médicos, jornalistas e esposas, funcionários e maridos, eu e você, despidos de todas as máscaras. Quem se deitaria com qualquer Gilda se soubesse de tudo? É preciso ter muita esperança e... não ter tanto conhecimento sobre os outros.

LEANDRO KARNAL


04 DE ABRIL DE 2020
COM A PALAVRA - Rualdo Menegat - geólogo, 58 anos

TEMOS MUITO A APRENDERCOM OS INCAS.

Professor da UFRGS, responsável pelo referencial Atlas Ambiental de Porto Alegre, desde o fim do ano passado tem sido celebrado no mundo todo por ter "solucionado o mistério sobre Machu Picchu", como anunciou a National Geographic

Em 1913, a revista da National Geographic Society revelou ao mundo as imagens impactantes de Machu Picchu, a cidade inca encontrada dois anos antes, no meio dos Andes, no Peru, pelo explorador norte-americano Hiran Bingham. Era um momento de orgulho para a organização, que financiou três expedições de Bingham ao local. Em dezembro de 2019, passados mais de cem anos, a National Geographic, em sua versão espanhola, voltou ao tema, em uma reportagem que anunciava: "Solucionado o mistério sobre a construção de Machu Picchu em local tão inacessível". 

Ao mesmo tempo, um número incalculável de publicações do mundo todo publicavam a mesma notícia: o geólogo Rualdo Menegat, professor da UFRGS, havia conseguido explicar o motivo de os incas terem erigido sua civilização nas encostas dos Andes. Com quase três décadas como docente da universidade, Menegat era, até então, reconhecido principalmente como o coordenador do impressionante Atlas Ambiental de Porto Alegre, inspirador de publicações similares mundo afora. Desde novembro, quando apresentou nos EUA seu trabalho sobre os incas, ele se tornou célebre pela tese de que a civilização inca viabilizou-se pela domesticação de falhas geológicas nas montanhas. Ele fala mais sobre essa pesquisa a seguir.

NÃO É COMUM UM PESQUISADOR BRASILEIRO ESTUDAR UM ASSUNTO RELACIONADO A OUTRO PAÍS. O QUE LEVOU O SENHOR A MACHU PICCHU?

É uma trajetória incomum, um cientista fazer uma grande descoberta em um país vizinho. Sempre tive interesse pela questão do tempo profundo. O presente é só a pontinha do iceberg de um longo desenvolvimento histórico humano, e também da Terra. Desvendar esse mistério me atraiu desde os oito anos de idade, quando decidi estudar geologia. Tinha interesse pelas civilizações antigas, por causa das rochas. Queria saber como elas faziam obras tão grandes como pirâmides ou cidades de pedra em cima de montanhas. Então cursei Geologia, fiz o Atlas Ambiental de Porto Alegre e, por conta desse atlas, ocorreu na capital gaúcha um simpósio promovido pela ONU, em 1999. Uma delegação que se interessou foi a peruana. Eles me convidaram a ir ao Peru para dar conferências e ajudá-los a fazer um atlas. Respondi: tudo bem, mas incluam Machu Picchu no roteiro.

ENTÃO O SENHOR ESTEVE LÁ PARA DAR UMA FORMAÇÃO?

E conhecer Machu Picchu, que sempre esteve na minha pauta de interesses, até como latino-americano, por ser um ponto de identidade de toda a América Latina. E fui a Machu Picchu como geólogo. O geólogo tem de caminhar, andar entre as montanhas, entrar em desfiladeiros, se embrenhar em sendas inexploradas. Comecei pelas montanhas mais altas, de 7 mil metros de altitude, e fui descendo até Machu Picchu, a 2,3 mil metros, cercada por grandes montanhas.

FORAM VÁRIOS DIAS PERCORRENDO O LOCAL?

Sim, até que por fim enxergo Machu Picchu do alto. Nesse momento, concluo que a única possibilidade daquele contexto eram as falhas geológicas. Pensei: nossa, Machu Picchu está em lugar muito desgastado pela erosão, um cruzamento de falhas geológicas. Mas a literatura não falava sobre isso.

O QUE É UMA FALHA GEOLÓGICA?

Vem a ser uma ruptura dos maciços rochosos. É como um saco de bolacha bem empacotado. Se tu apertares, as bolachas vão quebrar, mas mantêm a forma. Os maciços rochosos foram prensados, esmagados, por forças compressivas muito fortes das placas tectônicas. Onde aconteceu a ruptura, há uma falha. A ruptura é o ponto de uma massa que, ao ser pressionada, quebra. É uma fenda.

E SÓ DE OLHAR O SENHOR PERCEBEU QUE ESSE ERA O CASO EM MACHU PICCHU?

Sim. Onde há falha geológica, há dano na rocha, que fica toda fraturada na parte lateral dos dois blocos. Esse fraturamento faz com que o maciço rochoso se quebre naquela região, e essa quebradura de blocos menores facilita a erosão. Onde há falha, a erosão é maior.

NÃO EXISTIA LITERATURA SOBRE ESSA CARACTERÍSTICA DE MACHU PICCHU?

Nada. E achei fantástico, porque era uma explicação geológica e geomorfológica. A questão seguinte era saber se a cidade estar ali era um acaso ou era intencional. Voltei ao Peru já no ano 2000 para investigar a escolha dos locais de assentamento incaico. Fiz expedições em 2001, 2006, 2010 e 2012. Fui aprofundando e comprovando a tese.

O SENHOR CONCLUIU QUE A CONSTRUÇÃO DE MACHU PICCHU NAQUELE LOCAL FOI INTENCIONAL. QUE INTENCIONALIDADE É ESSA? O QUE OS INCAS BUSCAVAM AO ESCOLHER AQUELA ÁREA?

Minha tese foi que Machu Picchu não podia ser obra do acaso ou um capricho. Quem construiu a cidade o fez dentro de uma prática construtiva dos Andes. Você vê hoje o grande edifício de Abu Dhabi (Burj Khalifa) e diz: meu Deus, como é possível, construíram um edifício de 800 metros de altura. Mas, se for analisar a sociedade contemporânea, construir edifícios é uma prática. Não se construiu um edifício de 800 metros onde ninguém sabe construir edifícios, mas onde todos sabem. Machu Picchu é o mesmo. Por que construíram uma cidade tão alta, em um lugar de tão difícil acesso? Porque essa era a prática construtiva dos Andes à época.

COMO SURGE ESSA PRÁTICA?

A questão é entender porque ela é necessária. Nós, brasileiros, que vivemos em clima úmido, num país tropical, florestado, não fazemos ideia do que é uma cordilheira imensa como a andina, com altitudes de 2 mil a 7 mil metros, onde há condições climáticas extremas, desde a glacial, nos cumes nevados, até a muito seca, nos desertos. A dinâmica andina é inóspita. É um lugar muito difícil de habitar. Há dinâmicas geotectônicas e geológicas severas: terremotos, vulcões, derretimento de gelo. Há momentos de muita chuva. Se tu perguntares a um geólogo onde colocar uma cidade nos Andes, ele vai dizer: evite a qualquer custo os fundos dos vales. 

Tu poderias retrucar: mas esses são os melhores lugares, com terrenos planos e água corrente dos rios. Para a civilização ocidental, os vales são atrativos, porque é uma civilização do domínio fluvial, como os egípcios no Nilo e os sumérios no Tigre e no Eufrates. Nos Andes, os vales são proibitivos. Em um ano, tu poderás plantar nas margens do rio e ter uma bela colheita. No ano seguinte, poderás ter uma seca terrível. No outro, uma inundação, quando o rio carrega tudo embora. Em outro momento, uma encosta inteira da montanha desaba sobre o vale e soterra tudo. No Ocidente, nossa construção civilizatória consiste em domesticar os rios. A história antiga é a história das civilizações fluviais. Nos Andes, não. Percebi que a estratégia civilizatória andina devia ser outra.

E QUAL SERIA?

Tive de entender o que seriam as janelas de habitabilidade, onde a vida humana seria possível nos Andes. Se não é possível no fundo dos vales, então onde? Em locais elevados, mas os locais elevados são rochosos. Os Andes são o mundo das rochas. E, no mundo rochoso elevado, é possível construir onde ele está falhado, que é onde as rochas estão mais quebradas, e principalmente onde há cruzamento de falhas, porque ali os blocos ficam previamente cortados. Ali é possível assentar uma cidade, removendo bloco por bloco. O material de construção, que são os blocos rochosos, está previamente cortado, por causa da quebra e da erosão. Ao identificar um lugar com essas características, os construtores recolhem os blocos rochosos e fazem os terraços para plantio, nas encostas vertiginosas, com os próprios blocos. E podem ir removendo os blocos e encravando as edificações.

SE NÃO HOUVESSE A FALHA, NÃO HAVERIA ONDE ASSENTAR A CIDADE NO MACIÇO E NÃO HAVERIA ROCHAS SOLTAS PARA A CONSTRUÇÃO?

Exatamente. E há um terceiro fator importantíssimo. No reino fraturado, que é o reino das montanhas andinas, a água corre pelas falhas. As falhas são aquíferos. A água goteja permanentemente, com volumes mais ou menos contínuos. Não é em abundância, mas nunca é escassa. Se souberes canalizá-la, tens água corrente e podes estabelecer ritmos civilizatórios. Então eles constroem andenes, que são muros, terraços, escadarias que eles assentam nessa encosta rochosa falhada. E, com isso, conseguem uma coisa prodigiosa, que é transportar as pequenas faixas de solo que estão ao lado do rio, férteis. Transportam para essa escadaria na encosta rochosa estéril, para o cultivo.

ENTÃO OS INCAS DOMESTICAM A MONTANHA?

Sim. Para ser mais específico, domesticam a falha geológica. Essa estratégia civilizatória garante zonas de habitabilidade nos Andes, que é onde é possível construir esses terraços e encravar esses assentamentos. Os incas vivem em locais elevados, mais ou menos numa mesma faixa de altitude.

COMO O SENHOR FEZ PARA DEMONSTRAR SUA TESE?

O primeiro passo foi mostrar que, sim, há falhas. Fiz estudo por imagem de satélite, usando sete escalas de avaliação e análise. Estudei toda a região dos rios Apurimac e Urubamba-Vilcanota, que é onde estão as cidades incas mais famosas: Machu Picchu, Ollantaytambo, Pisac, Urubamba. Percebi que havia redes de falhas em toda essa região. São linhas paralelas e se cruzam também. Os rios correm paralelos, são todos encaixados nas grandes falhas. Os padrões são fractais. Tu os enxerga com a dimensão de 200 quilômetros, de 20 quilômetros, de dois quilômetros e podes ir até dois metros. 

As linhas que definem os setores de Machu Picchu coincidem com as direções das falhas, porque ali é onde tem facilidade de desmontar a rocha. O que tu tens no desenho de Machu Picchu é um mapa das falhas. Eles construíram procurando as falhas e removendo os blocos à medida que se deixavam desprender. Ao fazerem isso, revelaram as linhas de falha. Meus métodos foram análise de imagens de satélites em várias escalas, análise de campo e medição de fraturas. Depois, passei dias na própria cidade, medindo essas linhas de escadarias. Onde o arqueólogo via uma escadaria, eu, geólogo, via uma linha de falha.

E QUANTO ÀS OUTRAS CIDADES INCAICAS?

Depois do estudo em Machu Picchu, fui ver se era uma regra geral. Estudei Ollantaytambo, cidade vizinha no Vale Sagrado, depois Pisac e inclusive Cusco, que hoje está soterrada pela colonização espanhola e pela civilização atual. Pude ver que todas seguem o padrão, ou seja, são mapas de falhas geológicas. Isso é incrível. E me mostrou que eu estava diante de uma teoria geral sobre o modo de domesticação andina.

OS INCAS SABIAM QUE SE TRATAVA DE FALHAS GEOLÓGICAS?

O conceito de falha geológica é da ciência geológica. Os incas não vão ter uma teoria explicativa. O que eles têm é uma análise empírica de tentativa e erro. Mas também deviam ter uma espécie de conhecimento que se equivale ao nosso conhecimento geológico. Eu diria que é impossível estabelecer uma civilização das dimensões da civilização inca sem que eles conhecessem o mundo andino, e o mundo andino é o mundos das rochas. Eles deviam ter um conhecimento profundo das pedras, assim como nossos indígenas têm um conhecimento espetacular das florestas. Eles conheciam esse mundo das fraturas porque é o mundo deles. A identificação de falhas era uma questão fundamental. O pensamento deles não é científico. Mas é lógico. Pude mostrar, com meu estudo, que há um pensamento ali.

ELES ENXERGAM NA GEOGRAFIA DA MONTANHA ALGO QUE UM OCIDENTAL NÃO ENXERGARIA?

Não enxergaria e não enxergou. Por isso levou tanto tempo até alguém identificar isso. Por isso que meu estudo teve impacto.

O SENHOR DEFENDEU SEU DOUTORADO, COM ESSAS CONCLUSÕES, EM 2006. RECEBEU VÁRIAS DISTINÇÕES, COMO UM TÍTULO DE DOUTOR HONORIS CAUSA, NO PERU, EM 2014. NA OCASIÃO, ZH PUBLICOU REPORTAGEM SOBRE O ASSUNTO. MAS SÓ AGORA VEIO A REPERCUSSÃO INTERNACIONAL. POR QUÊ?

Depois dessa descoberta, que é minha tese de doutorado, fiz um conjunto de conferências para eles, para a comunidade andina, para os brasileiros, porque era uma revelação importante, que retirava a ideia de que os incas são só o mundo da magia e do místico. Eu queria mostrar que, para além do mistério inca, da magia, há uma questão importante que é o pensamento. Ninguém vive nos Andes só com magia. É preciso ter um conhecimento profundo daquele mundo. Fui ver o quanto essa minha descoberta tinha significado para os peruanos, para que eles não vissem isso como uma descoberta de um estrangeiro. Estamos falando da imagem que os peruanos têm de si e da pepita de ouro que é Machu Picchu. É algo muito delicado para eles. Só em 2019 concluí que esse processo já estava maduro.

E O QUE O SENHOR FEZ?

Resolvi participar do congresso da Geological Society of America, nos EUA, e submeter meu trabalho a provas maiores, aos geólogos norte-americanos. Para minha surpresa, isso causou um enorme impacto na comunidade geológica norte-americana. Eu sabia que tinha em mãos um tema relevante, uma descoberta nteressante. Mas que podia ser rejeitada. Sou brasileiro, sul-americano, a UFRGS é uma universidade maravilhosa, mas se uma pesquisa é revelada por Cambridge, o impacto é diferente.

UMA PROVA É QUE, EMBORA PUBLICADO EM 2006, SEU TRABALHOU PERMANECEU POUCO CONHECIDO ATÉ ESSA APRESENTAÇÃO NO ANO PASSADO?

Sim. Porque não é fácil. Acho que nós, brasileiros, devemos ter muito mais confiança na nossa capacidade tecnológica e científica. Não precisamos dos anais internacionais para saber que somos prodigiosos, criativos, inteligentes. Sempre que apresentei esse tema no Peru, as plateias ficavam boquiabertas.

COMO FOI A REPERCUSSÃO INTERNACIONAL, A PARTIR DESSA APRESENTAÇÃO DO ANO PASSADO?

Foi o coroamento de um longo trabalho. O nome da UFRGS saiu grafado em mais de 30 países, em mais de 15 línguas, em canais científicos e também em veículos muito populares, como a mídia de massa, Le Monde, Times, BBC, Daily Mail... Na imprensa especializada também, como as revistas Archeology e Science... A National Geographic anunciou: "Está resolvido o mistério de Machu Picchu".

O SENHOR AINDA CONTINUA ENVOLVIDO COM O TEMA?

Sim, porque o estudo permite desenvolver questões importantes. Uma delas é como resolver os problemas urbanos atuais em zonas montanhosas ou zonas declivosas. Se os incas desenvolveram uma civilização prodigiosa com 10 milhões de pessoas em encostas muito mais íngremes e perigosas do que as nossas, por que nós não poderemos conseguir? Temos coisas a aprender do ponto de vista técnico, dos processos de construção e da habitabilidade das encostas brasileiras, evitando tragédias. Estou tentando aplicar isso na nossa realidade. Em geral, a solução mais imediata que temos é remover as pessoas, mas isso é impraticável diante do problema social que é remover e diante dos custos econômicos, sociais e culturais. Precisamos ter outras abordagens técnicas, customizáveis, possíveis de serem implantadas pelos próprios moradores, mais resilientes e mais adaptadas às situações em que eles se encontram. E foi isso que vi nos incas. Eles respeitam o lugar onde vão construir. Temos muito a aprender com eles.

ITAMAR MELO


04 DE ABRIL DE 2020
INFÂNCIA

SEJAMOS FORTES

COMO LIDAR COM O MEDO INFANTIL DURANTE A PANDEMIA.

No dia 16 de março, Beatriz chegou em casa e sentiu seus pais diferentes. Ela era pequena, mas suas sensações, acuradas. Viu o medo nos olhos deles, e sua cabecinha infantil não era capaz de decifrar o que havia. A casa se fechou. Ninguém mais vinha lhe ver e eles não saiam para mais nada. Seu mundo parou.

Esse tal bichinho podia fazer mal aos seus pais? Ficaria sozinha? Não teria mais escola? Não podia descer na pracinha. Mas por quê? Os pais estavam sem palavras. Havia um frio no ar, uma dura sensação de que a esperança havia sido congelada.

A atual conjuntura de enfrentamento ao coronavírus tem sido um grande desafio para todos nós. Não há quem tenha respostas para solucionar a dificuldade e mesmo os adultos estão se vendo pequenos, em muitos momentos. Desta forma, as crianças tendem a deparar com sentimentos difíceis de lidar.

Na infância, é muito comum o aparecimento de medos. A condição do infante de dependência o remete a diversos temores. A assimetria do mundo adulto com o infantil gera impacto, o desconhecimento de muitas situações, a impossibilidade de decidir por si, o medo do desamparo e a necessidade de ser cuidado são aspectos que estão no cerne dos terrores infantis.

A situação que estamos vivenciando ainda exacerba qualquer possibilidade de compreensão que lançamos frente ao apavoramento cotidiano. Muitos estudiosos da psicanálise compreendem situações "sem nome", quando as palavras somem para nomear os sentimentos, como a base dos traumas emocionais. Como então poderíamos auxiliar nossas crianças neste período de crise?

Muito material está circulando na internet para auxiliar pais a conversarem sobre a pandemia com seus filhos. A conversa, ainda que difícil, faz com que os pequenos possam representar o terror em suas mentes. Há de se ter atenção para não sobrecarregá-los. No entanto, como dizia a psicanalista Françoise Dolto, "as crianças suportam a verdade melhor do que os adultos". Não devemos mentir para nossos filhos como forma de proteção, isso causa mais confusão mental. Informações claras e precisas não geram pânico ou a sensação de estarmos sem saída.

A melhor forma de falarmos sobre a situação que estamos vivendo é informar o básico e, então, aguardar as perguntas. Certamente, não poderemos solucionar as questões em um único diálogo. A cada dia que não pudermos retomar a rotina habitual, surgirão novas dúvidas e sentimentos. A possibilidade de acolhimento é sempre a melhor saída!

Para respaldar os filhos, é necessário que os pais estejam com seu emocional em dia. Claro que isso não quer dizer ausência de ansiedade, tristeza ou temor, mas sim capacidade de se ater aos cuidados oficiais e científicos (orientados por OMS e Ministério da Saúde), vivendo um dia de cada vez. O excesso de informações e pensar no incerto certamente agravará os estados de ânimo. Caso esteja muito difícil, há muitos profissionais qualificados dispondo de atendimento solidário. Cuide de si e de sua família! Já é um belo trabalho.

Beatriz, disse mamãe, logo mais poderemos descer e brincar na praça. O mundo está se unindo em busca de uma cura. Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe. Sejamos fortes!

*Psicóloga - DÉBORA LAKS*


04 DE ABRIL DE 2020

DRAUZIO VARELA

O SUS E A EPIDEMIA

Estamos pagando hoje o preço de termos minguado recursos da saúde pública para sediar a Copa. Sem o SUS, é a barbárie. Essa frase do sanitarista Gonçalo Vecina resume tudo o que penso. O SUS é a mais injustiçada das instituições brasileiras. O povo se queixa dos pronto-socorros lotados, das filas para cirurgia, das dificuldades para conseguir internações e consultas com especialistas.

Ninguém mais lembra de que antes da criação dele, em 1988, só recebiam assistência médica aqueles com carteira assinada, beneficiários do antigo INPS. Os que trabalhavam no campo e na economia informal eram rotulados de indigentes, portanto dependentes da caridade pública, nas Santas Casas e outras instituições de beneficência.

Pouquíssimos reconhecem que somos o único país com mais de 100 milhões de habitantes que ousou garantir assistência médica para todos, como direito do cidadão. E que, em apenas 32 anos, o SUS desenvolveu o maior programa mundial de vacinações, de transplantes de órgãos, de hemodiálises, de tratamento dos que convivem com o HIV e de distribuição de medicamentos para diversas doenças crônicas. Hoje, o SUS controla a qualidade de nossos bancos de sangue, o Resgate nas cidades e realiza 90% do total de cirurgias do país, entre outros serviços essenciais.

O programa Estratégia da Família, com agentes de saúde que batem às portas de dois terços dos brasileiros, é considerado pelos técnicos da Organização Mundial da Saúde como um dos melhores do mundo.

Quando pergunto qual é o maior programa brasileiro de distribuição de renda, todos lembram do Bolsa Família, iniciativa importantíssima, mas que não passa de uma pequena ajuda quando comparada ao SUS.

Infelizmente, nos últimos anos, os recursos federais que deveriam ser destinados ao sistema único diminuíram gradativamente, sobrecarregando Estados e municípios, com dificuldades orçamentárias para atender a população.

O desinteresse dos governantes pela saúde pública brasileira foi tão grande que fizemos o diabo para sediar a Copa do Mundo, decisão que nos obrigou a construir estádios para satisfazer os caprichos da Fifa. Gastamos bilhões para atender as solicitações de governadores empenhados em construir arenas modernas em suas capitais.

Na época, quem considerava absurdo desperdiçar recursos que poderiam ser investidos em saúde e educação era acusado de pertencer à elite que negava aos mais pobres as alegrias do futebol.

O tempo mostrou que a maioria desses estádios se tornaram elefantes brancos de manutenção insustentável. Não é vergonhoso que alguns desses monumentos ao desperdício e à corrupção tenham que ser transformados em hospitais a toque de caixa, para enfrentar a epidemia do coronavírus?

A verdade é que o Brasil não chegou a ter uma política pública de saúde digna desse nome. O ministério sempre foi usado como moeda de troca para arranjos políticos, haja vista que, nos últimos 10 anos, 13 ministros ocuparam a cadeira. A média de tempo de permanência no cargo foi de 10 meses. É possível?

O descaso e os desmandos com o SUS não indignaram os 50 milhões de brasileiros que puderam pagar planos de saúde. Quem adquiriu um desses planos imaginou que nunca mais colocaria os pés numa unidade do SUS.

A realidade agora é impiedosa. O que adianta ter um plano maravilhoso com direito aos melhores hospitais de São Paulo se eles estiverem superlotados, sem vagas na UTI?

Neste momento de tantas incertezas, o sistema único enfrentará as maiores dificuldades de sua existência. Há enormes diferenças regionais, o número de leitos nas UTIs de São Paulo é muito maior do que os disponíveis no Maranhão, no Rio de Janeiro ou em Alagoas. Faltam médicos, enfermeiros e demais profissionais nas cidades menores. É preciso entender que a epidemia só será contida quando a transmissão for controlada no Brasil inteiro. Enquanto houver bolsões em que o vírus transita com liberdade, todos continuarão a correr risco.

Por isso, há necessidade de uma coordenação central com técnicos competentes e autonomia para reduzir ao máximo as disparidades.

É fundamental que nos convençamos da necessidade de criar uma forma de recolher doações para auxiliar na compra de equipamentos e na prestação de serviços médicos. Não há tempo para discussões políticas nem entraves burocráticos, agora tudo é urgente. Vamos ter que reparar em semanas os erros que cometemos no decorrer de anos. Mas temos o SUS, felizmente.


DRAUZIO VARELA


04 DE ABRIL DE 2020
BRUNA LOMBARDI

ERA DAS TREVAS, ERA DA LUZ

Desde os tempos ancestrais, nas Escrituras Sagradas, livros épicos, em toda a mitologia, nos fundamentos de religiões mais remotas, a maioria de livros escritos por mestres cita uma passagem que parece retratar o momento complexo que vivemos hoje. Todos falam de um terrível período de confrontos, antagonismos, caos e pragas que inevitavelmente o mundo iria atravessar.

Segundo os Vedas, por exemplo, estamos na última das quatro etapas da Idade das Trevas. Na fase final de uma era dominada por Kali Yuga, um demônio mítico. Ele semeia ódio, conflito, discórdia, desarmonia, disputa, enfrentamento, confronto, vingança, maldade, vício, epidemias e cataclismos. A história é cíclica e se repete. A Terra, mais uma vez, passa por uma etapa de degradação humana, um período apocalíptico.

Os Puranas, antigos textos hindus, que narram a história do mundo desde a Criação, trazem também uma boa notícia: vamos chegar a uma trégua. Ao invés do fim do mundo, virá o advento de Kalki e uma grande transformação. Kalki é o décimo e último avatar de Vishu, deus do Hinduísmo, protetor do Universo. Ele é descrito como aquele que recupera a existência, encerrando um período escuro e destrutivo da humanidade para iniciar a Era de Ouro, a era da justiça para os homens.

Esse mesmo conceito se encontra em quase todas as religiões e mitologias, com a ideia de um Salvador, uma força invisível e indestrutível, que virá acabar com todo o mal e trazer paz para o mundo. O significado dessa esperança nesse momento é uma luz que aponta uma direção quando todos parecem perdidos.

Mas o que seria essa grande transformação? Estamos todos enfrentando uma sucessão de desastres de proporções incalculáveis. Como indivíduos, estamos fazendo o possível para cuidar de nós mesmos, de todos e tudo ao nosso alcance. Ver as coisas numa dimensão maior vai nos ajudar a superar tudo isso com novos valores. Repensar como estamos vivendo, rever hábitos, ideias e sentimentos e buscar serenidade.

Será que nos distanciamos da sensatez, do ponto de equilíbrio? Trocamos o bom senso por convicções extremas, que nos colocam uns contra os outros?

Defender o que acreditamos é importante, mas não pode nos separar criando muralhas. Trabalhar é muito bom, mas em excesso provoca burnout. Comer é uma delícia, mas em excesso prejudica a saúde, cautela é necessária mas em excesso cria pânico. Atravessar crises mundiais, pandemias e a disrupção da economia e suas consequências é alarmante.

Mas os valores a preservar são internos. Esse é o momento de rever como vivemos e acima de tudo, como sentimos. De compreender que o nosso tempo é sagrado, que a nossa passagem por esse lindo planeta precisa de um propósito e a cada dia temos uma chance de melhorar.

Uma das grandes fortalezas do espírito é alinhar o que pensamos, o que sentimos, o que dizemos, o que somos e o que fazemos. E assim criar um fluxo coerente que nos conecte com as pessoas e com um poder maior, nossa fé, nosso Deus. E é isso que vai nos ajudar a passar da era das Trevas para a da Luz.

Bruna Lombardi escreve a cada 15 dias neste espaço. Na próxima semana, leia a coluna de Monja Coen. -BRUNA LOMBARDI

04 DE ABRIL DE 2020
J. J. CAMARGO

A SALVAGUARDADO MEDO

Uma pessoa desprovida desse sentimento terá menos tempo para curtir sua valentia, pois vai viver pouco
Ainda que o medo faça parte da natureza humana, de modo que todos cultivam a sua cota, há os especialistas em disfarçá-lo e, por se sentirem superiores, atribuem o medo dos outros à fraqueza ou covardia. Na verdade, o medo, expresso como uma reação de luta ou fuga, é um sentimento indispensável porque está associado ao mais elementar dos instintos humanos, o da sobrevivência. Uma pessoa desprovida de medo (e existe?) pela incapacidade de valorizar o perigo vai viver pouco, ou seja, terá menos tempo para aproveitar sua valentia.

Quando o cérebro é ativado involuntariamente por estímulos estressantes, libera substâncias neurotransmissoras como serotonina e adrenalina que participam de uma reação em cascata, fazendo disparar o coração, tornando a respiração ofegante e contraindo os músculos. Apesar da semelhança farmacológica na deflagração, a reação ao medo é muito individual, impedindo que se possa estabelecer uma atitude padronizada, porque alguns ativam os reflexos e se revelam capazes de tomar decisões rápidas e precisas, enquanto outros ficam literalmente paralisados.

O ser humano, frágil por natureza, se tornou gregário mais por necessidade do que por opção, assumindo a rotina de buscar no outro o amparo imprescindível para suportar a vida e seus sustos inevitáveis.

A presença de um vírus, pra lá de inconveniente, a exigir confinamento, retira essas âncoras que só valorizamos ao perdê-las e torna previsíveis crises emocionais decorrentes do somatório de dois sentimentos dilacerantes: a tragédia da doença (ou o medo dela) e a tristeza da solidão.

Como saúde sempre foi considerada um item obrigatório de qualquer esboço de felicidade, é curiosa a reação contrastante de pessoas aparentemente iguais diante de uma doença. O que estamos assistindo é ainda maior: não tínhamos nenhuma experiência com o fantasma de uma doença coletiva e seus desdobramentos, com exigência de coragem, serenidade, resiliência e empatia, e nos flagramos numa situação em que há uma indisfarçável tendência ao medo, ao alarmismo, ao egoísmo e à indiferença, comprometendo o que a espécie humana tem de mais nobre: a solidariedade.

Quem tem uma visão mais holística, ou seja, aquela capaz de ultrapassar o umbral da porta higienizada com álcool gel, e se permite pensar nos pobres que ganham para comer e não têm nenhuma reserva para sobreviver com o trabalho interrompido deve sentir um estranho aperto no peito. Se isso não estimular algum tipo de voluntariado, precisará requisitar, ao que eventualmente sobrou da sua consciência, um atestado definitivo de inutilidade social. A situação atual, pela gravidade e pelo ineditismo, uniformizou o medo, e a pergunta recorrente, "Quando isso vai terminar, doutor?", une a todos pelo mesmo sentimento: estamos assustados.

Lendo o relato comovido do doutor Ricardo Kroef (um cara emotivo), tentando tranquilizar um velhinho de visão embaçada por catarata, que aguardou dois anos pela cirurgia e no dia que foi chamado para agendar a internação recebeu a informação, cruel mas necessária, de que as cirurgias eletivas da Santa Casa estavam temporariamente suspensas, fiquei pensando: como sofrem as pessoas sensíveis ao descobrir que envelhecer é ruim, envelhecer pobre é horrível e, para piorar, só falta adoecer.

J. J. CAMARGO


04 DE ABRIL DE 2020
VARIANDO

O vírus chinês

Nosso cérebro suporta muita coisa, mas é frágil para o vazio de sentido. Ele procura padrões, busca a lógica, quer ordenar o acaso. Ao caos e pavor que estamos vivendo com a covid-19 na saúde, com seus sérios reflexos políticos e catastróficos problemas econômicos, não poderia faltar uma explicação objetiva.

Surge então a ideia de que alguém o criou e estaria ganhando com isso, ou que existiria um propósito oculto que nos escapa. Como admitir que algo dessa magnitude, que afeta todas as vidas do planeta, não teria um vetor claro, uma razão de ser?

Aqui entra o pensamento mítico. Ele é a cola universal para o caos, qualquer cenário confuso e/ou contraditório pode ser amarrado em um todo de aparente coerência. O mito pode nos orientar, dentro da neblina de indeterminação, inventando uma trama que ligue os pontos soltos.

Usando desse nosso arcaico, mas sempre à mão, modelo de pensar, que guarda semelhanças com a paranoia, lançou-se a tese do vírus chinês. Abre-se um arco de insinuações que desemboca na suspeita de que a China teria artificialmente desenhado o vírus para desestabilizar a economia do Ocidente. Para não despertar suspeitas, sacrificou alguns dos seus.

A tese pega fácil por costurar preconceitos com medos. O mais óbvio é o racismo, mas temos uma dose de xenofobia temperada com o temor do poderio econômico chinês. Junte na poção o vírus ser originário de um país comunista. Na verdade, a China é um sistema híbrido: centralismo econômico, com ilhas de capitalismo, costurado com uma ditadura política.

Seja como for, quando nos distanciamos no olhar histórico, se o século 20 foi americano, há boa chance de o século 21 ser chinês. Quem lida com números na economia já se deu conta de que o dragão acordou. Um país enorme, com a maior população da Terra e uma cultura milenar, tornou-se uma potência. Falta-lhe o soft power, o poder de influenciar comportamentos, que aos americanos sobra. Podemos admirá-los, mas ninguém quer ser chinês nem viver lá.

O pensamento mítico criou essa tese esdrúxula, que ajuda a lidar com o medo do novo papel da China no mundo. E ainda devolve uma lógica onde só existe aleatoriedade. A história humana tem leis, a China não está aonde chegou por acaso. Porém há o imponderável, que pode dar as cartas e levar o mundo para uma rota impensada.

Biólogos e epidemiologistas alertavam para essa possibilidade. Quem os leu, como Bill Gates, alertou. Mas como, quando seria e qual desastre não tinham resposta. Sabem que vírus pulam de espécie e que tanto criações em cativeiro quanto mercados de espécies vivas aumentam exponencialmente esse risco, que também acontece naturalmente.

O pensamento mítico devolve a crença em um universo previsível. Mas, de fato, um simples vírus mostra como o destino humano está longe de ser controlado.

MÁRIO CORSO


04 DE ABRIL DE 2020
FLAVIO TAVARES

O INVISÍVEL

O detalhe terrível da pandemia não é a força mortífera do novo vírus. A história da humanidade está cheia de exemplos em que os mais frágeis derrotaram os fortes. Já a Bíblia mostrou como o pequeno David venceu o gigantesco Golias.

O apavorante, agora, é que a nova peste é invisível. O coronavírus ataca, mas não sabemos de onde agride. Esquiva e silenciosa, a peste tem distintas formas de atacar. O contágio pode vir de quem seja assintomático e não exteriorize sequer coriza ou tosse, mas já transmita o vírus. A guerra atual envolve o planeta inteiro (combate-se até em terra indígena), mas não sabemos, com exatidão, onde está o inimigo nem como ele é.

O desenho do vírus é apenas uma caricatura molecular, que não mostra como se move ou agride do seu esconderijo. E tudo que se esconde é sórdido, seja o que for. É como dormir abraçado a quem quer nos matar e, assim, jamais despertar.

Até aqui, só a radiação nuclear mostrava esse poder destrutivo invisível - sem odor nem cor ou qualquer aparência, nem líquida sólida ou gasosa, matando de chofre ou lentamente. No contágio nuclear, porém, há um centro gerador que podemos identificar, seja bomba atômica ou um aparelho de raios X avariado.

O novo coronavírus é solerte e perigoso por não ter nada identificável. Pode estar em qualquer lugar e se expandir. Por isso, nunca pode ser visto como "gripezinha", a não ser por míopes de alma e consciência. Ou por quem pense que vê, quando, de fato, inventa fantasmas que nos desviam do perigo concreto.

O horror, porém, permanece, sem pedir licença a quem diz que não existe. E só aguarda o invisível momento do novo ataque a esmo, seja a quem for, príncipe ou mendigo.

Toda experiência de horror leva a aprender com o horror em si. E nos traz aquilo que a alegria miúda do dia a dia não nos ensina.

Hoje, o "fica em casa" faz a família conviver de novo, com pais e filhos voltando a conhecer-se. Ou com casais se amando de novo ou entendendo porque se desentendem. Essa volta ao lar pode significar o retorno a uma convivência amorosa que a balbúrdia da sociedade de consumo apagou ou diluiu.

Mas isto é restrito a faixas ínfimas da população. A grande maioria não pode ficar em casa, mesmo sabendo que isto seria eficaz contra o vírus. Abençoados sejam, portanto, os que têm de seguir trabalhando seja onde for - hospitais, farmácias, lavouras, mercados, indústrias e comércios essenciais ou na segurança pública e prisões, pois a vida continua no ritmo de subsistir e vencer.

Só a união solidária, em que cada um zele pelo outro, pode derrotar o invisível que nos espreita até numa folha de papel? se não lavarmos as mãos.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES, JORNALISTA E ESCRITOR

04 DE ABRIL DE 2020
OPINIÃO DA RBS

O PRESIDENTE ERRÁTICO

A transfiguração do presidente Jair Bolsonaro em um líder ponderado e moderado, como o que apareceu em rede nacional de TV na noite de terça- feira, não resistiu a um dia de realidade. A imagem de governante capaz de unir o país para vencer uma guerra epidêmica se esfarelou na primeira entrevista de Bolsonaro pós-moderação de tom. Ao ser questionado na Rádio Jovem Pan na noite de quinta-feira, o chefe da nação partiu para o confronto de sempre, mas com um agravante: praticamente desautorizou a gestão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, na condução do combate ao coronavírus.

Uma das raras boas novidades surgidas no governo em razão da eclosão da pandemia, Mandetta só não foi demitido ainda porque se transformou em uma figura popular, ainda que a máquina de propaganda do Planalto tente agora ofuscar a luz própria conquistada pelo ministro ao mimetizá-lo com outros colegas de Esplanada nas entrevistas diárias. Era de fato previsível que, para um presidente errático diante da crise e única voz dissonante sobre as medidas de contenção entre os países membros do G20, os elogios ao ministro e as comparações de postura desembocariam em sabotagem aos esforços de Mandetta e equipe.

A questão de fundo, porém, não é mais a permanência ou não do ministro, que seguirá no governo na melhor das hipóteses até a pandemia ser controlada. Os problemas mais agudos são o grau de desacerto interno do governo em um momento crítico da História, e o fato de o país depender do tênue fio de ligação com a sensatez de ministros para não vir à mente as cenas de corpos depositados nas calçadas, como as registradas durante a semana em Guayaquil, no Equador. A responsabilidade por essa situação de desintegração, inusitada no Brasil em tempos de emergência, cabe unicamente a Bolsonaro, um político que tem suas carreiras militar e eleitoral sob inspiração do confronto - nunca na comunhão de esforços tão necessária no momento.

Como todos os governantes que vão se vendo isolados, o presidente passa a crer cada vez mais em seguidores radicais e a confundir o povo com o grupo de fanáticos apoiadores que, cuidadosamente selecionados e filtrados por sua assessoria, são colocados à saída do Palácio da Alvorada todas as manhãs. No ritual, em que se misturam rezas, louvações ao presidente, ataques à imprensa e conclamações variadas, monta-se diariamente a pantomima que alimenta as redes sociais do clã Bolsonaro. Neste aspecto, o presidente se move na direção de seu colega de tuítes apagados Nicolás Maduro, que vislumbra nas boinas vermelhas bolivarianas que o cercam a única representação do povo venezuelano - todos os demais são inimigos a serem combatidos.

Felizmente, porém, e apenas graças a suas instituições democráticas sólidas e sensatas, o Brasil está muito distante da tragédia social e política do vizinho ao Norte ou da conversão para o desprezo à democracia na Hungria de Viktor Orbán, um representante do arco político do qual Bolsonaro faz parte. Ainda assim, é preciso que as instituições se mantenham alerta. O vírus, como se vê, também demonstra poder de corrosão da racionalidade, do bom senso e de instrumentos que asseguram a democracia.

04 DE ABRIL DE 2020
RODRIGO CONSTANTINO

A bolha da mídia

As redes sociais despertam o que há de melhor e de pior nas pessoas e têm vantagens como desvantagens. Mas para uma coisa elas serviram: estourar a bolha ideológica de uma imprensa dominada de forma quase hegemônica pelo pensamento “progressista”. Se não fosse a internet, Chico Buarque ainda acharia que é uma unanimidade, e os tucanos seriam considerados de direita!

Diante de um viés escancarado para quem está lá fora, muitos levantam teses conspiratórias e acham que os jornalistas são todos uns vendidos, que atacam Bolsonaro porque este fechou as torneiras e secou a fonte. Discordo. Duas décadas atrás, o então âncora da CBS, Bernie Goldberg, publicou um livro sobre esse viés e encontrou explicação mais simples para o fenômeno:

“Esse é um dos maiores problemas no grande jornalismo: as elites estão irremediavelmente fora de contato com os americanos comuns. Seus amigos são esquerdistas, assim como eles são. Eles compartilham os mesmos valores. Quase todos pensam da mesma forma sobre as grandes questões sociais do nosso tempo: o aborto, o controle de armas, o feminismo, os direitos dos homossexuais, o meio ambiente, a oração na escola. Depois de um tempo eles começam a acreditar que todas as pessoas civilizadas pensam da mesma maneira que eles e seus amigos. É por isso que eles não simplesmente discordam dos conservadores. Eles os veem como moralmente deficientes”.

Em outras palavras, trata-se de uma patota na qual “ninguém solta a mão de ninguém”. É a opinião de Kimberley Strassell também, do board editorial do WSJ. Em novo livro, ela argumenta que a “resistência” a Trump tem causado mais estrago nas instituições do que qualquer ato do presidente. E ela mostra como a mídia tem sido parte do problema, ao deixar seu ódio falar mais alto do que o compromisso com os fatos.

Ela aponta uma pesquisa com quase 500 jornalistas de finanças, área mais técnica, que mostra como quase 60% se considerava esquerdista, enquanto menos de 5% se declarava de direita. Para Strassell, o ambiente insular do jornalismo explica o viés. A profissão atrai basicamente pessoas de um mesmo perfil, que compartilham de uma visão de mundo similar. Falta diversidade, apesar de tanto se falar em seu nome.

RODRIGO CONSTANTINO

04 DE ABRIL DE 2020
INFORME ESPECIAL

O ministro que respondeu a Bolsonaro com um silêncio gritante

Ouvir bronca do chefe nunca é bom. Ainda mais quando o chefe é o presidente da República. Nos últimos dias, só cresce a minha admiração pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Depois de ouvir Jair Bolsonaro atacá-lo, dizendo que lhe falta humildade, o principal gestor público da crise no Brasil respondeu com o silêncio. Se fosse mesmo vaidoso, teria pedido as contas, criado uma baita instabilidade no governo e enfraquecido ainda mais o presidente. Mas não. Mandetta parece ter a consciência exata de que não pode desperdiçar energia com o chefe destrambelhado. Há missões mais importantes nas quais investir energia agora.

Paulo Guedes, muitas vezes, adota a mesma postura. Deixa o presidente falar e faz o que tem de fazer. Assim, o governo brasileiro vai se defendendo. Do próprio presidente, cada vez mais desconectado da realidade e, com isso, gerando críticas fora do círculo delimitado pela paranoia palaciana: petistas, comunistas, mídia, ateus e todos os que discordam dele, qualificados randomicamente de petistas, comunistas, mídia ou ateus, mesmo que não sejam. O mundo está assombrado com o destempero do presidente do Brasil.

O ministro Mandetta é a grande surpresa positiva do governo. Une conhecimento científico a uma grande habilidade política. Se comunica bem, mostra empatia e tem liderança. Mais do que isso, demonstra uma elogiável capacidade de calar.

A história da empresa do RS que renasceu depois de ser quebrada pela pandemia

Essa é a história de uma virada histórica - o jogo perdido se transformou em vitória quando quase ninguém mais acreditava. No sábado, Milton Roberto Petry estava quebrado. Decidira demitir, na primeira onda, metade dos seus funcionários. Todos já haviam sido colocados em férias. Na quarta-feira, tinha mais de 200 mil peças encomendadas. A Para Evento, empresa situada na zona norte de Porto Alegre, fabrica pastas e mochilas para congressos e eventos. Fabricava, porque a pandemia interrompeu completamente os negócios.

Há 15 dias, no fim de semana, Petry entrou sozinho na sua indústria vazia. Olhou em volta, ouviu o silêncio e teve a ideia: reconverter a produção. Projetou uma máscara simples de tecido e também as modificações que teria de fazer nos equipamentos. Precisaria de duas novas navalhas de aço.

A corrente do bem se formou. Amigos de duas indústrias de Novo Hamburgo abriram suas fábricas especialmente para atender ao pedido. Na quarta-feira, a Para Evento trabalhava com força máxima, alimentando uma rede de mais de 200 colaboradores - cerca de 50 diretos e de 150 indiretos.

Além das vendas, Roberto tem destinado uma parte considerável da produção de máscaras para doações. Hoje, ele chega às 6h da manhã na fábrica e só sai à noite, sete dias por semana. É certo que nem todas as indústrias têm condições, pela natureza das suas configurações, de fazer o mesmo. Apesar disso, a velocidade das decisões, o uso da rede de contatos, o sentido social e o senso de oportunidade são inspirações que nos servem de farol. Petry cita uma frase do tenista norte-americano Arthur Ashe para explicar o seu sucesso: "Comece onde você está, use o que você tem e faça o que você pode".

TULIO MILMAN