sábado, 11 de abril de 2020



11 DE ABRIL DE 2020
LEANDROKARNAL

CRIAR

Todo manual profissional e todo curso de aperfeiçoamento têm como bordão a criatividade. O motivo é simples: as funções repetitivas e mecânicas estão, cada vez mais, a cargo de algoritmos e robôs. O trabalho físico tende a ser cada vez menos atrativo e mais mal pago. A pressão aumentou. Se alguém não tiver ideias, será obrigado a trabalhar para quem apresentá-las. O futuro demanda, mais do que nunca, gente criativa. Resta a dupla dúvida: o que é ser criativo e podemos aumentar a capacidade de inventar?

Vamos pegar um exemplo de gênio das novas ideias: William Shakespeare. Ninguém duvida do talento do escritor inglês. Curiosidade: das 37 peças que restaram, 36 tiveram seu enredo copiado, isso mesmo, transcrito de alguma outra fonte. A propósito, a única peça não extraída de outro autor pode ser As Alegres Comadres de Windsor e, talvez, apenas porque ainda não se encontrou quem a inventou antes do Bardo. Um dia surgirá um obscuro texto que permitirá afirmar: 100% da obra teatral do filho de Stratford tem origem em terceiros. Então, tomando o exemplo do autor inglês, criatividade não é a ideia extraordinária surgida do nada ("out of the blue", como se diria na terra da rainha), porém uma capacidade de recriar partes parcialmente concebidas por outra pessoa.

O documentário A Mente Criativa (Netflix) trata da habilidade humana de dar respostas mais complexas do que aquelas dos animais. Nosso córtex pré-frontal permite um maior distanciamento entre estímulo e resposta ("input" e "output"). Assim, diante de percepções variadas, somos reativos de formas muito distintas. Há um drama prático. Tendo em média só 1,5 quilo, o cérebro humano demanda 20% de toda a energia do corpo. Como máquina eficaz, ele tende a repetir caminhos para poupar força. O documentário indica que, para sair da repetição e entrar na zona criativa, devo forçar essa "tendência" e buscar soluções e caminhos menos fáceis.

A criatividade não é, de fato, um dom natural que teria sido dado a alguns. Ela implica alguns fatos como atenção, estímulo, superação do medo de errar, informações variadas, práticas e aprendizado, especialmente com equívocos passados. Ela também não dispensa o caminho técnico e o aprofundamento na área de algum saber.

Leonardo da Vinci tentou misturar antimônio em algumas tintas para obter mais brilho. Foi um desastre. Há mais exemplos. A inovação que o mestre fez na pintura da Última Ceia em Milão (evitando a tradição usual do afresco) condenou a obra a um desgaste precoce. Os erros de Leonardo foram um ônus que suas experimentações despertaram. O resultado da sua coragem chama-se Leonardo da Vinci.

Algo bem além do comum e abaixo do inviável parece ser uma boa fórmula inicial. Ousadia sem insanidade, capacidade de quebrar barreiras pessoais, experimentação, busca de conhecimentos novos em áreas distintas e sólida formação: são ingredientes que podem ajudar na constituição de um caminho criativo.

A necessidade é a mãe da invenção. Precisamos de um problema para elaborar uma resposta nova. Domínio intelectual é a capacidade de um amplo repertório que eu identifico e reproduzo. Inovar é a faculdade de dar uma resposta além dos dados disponíveis na erudição. Repertório é a capacidade de identificar cada pedra (nome, origem geológica, fraturas e intrusões, propriedades). Ela representa o saber acumulado e organizado de milhares de pessoas antes de mim. Erudição é fundamental, porém não pode ser confundida com inteligência ou criatividade. Criatividade demanda, além do mais, reorganizar as pedras, dar sentido, repensar a possibilidade e, tendo conhecido muitas respostas anteriores sobre o uso das rochas, pensar em uma nova resposta a partir das soluções dadas. Nada é criado como absolutamente novo e pouco pode ser transformado sem saber o caminho feito até ali.

Um pequeno itinerário para estimular a sua criatividade, ou dos seus filhos/alunos, ou do seu ambiente de trabalho passaria por cinco conselhos gerais que podem ser ampliados ao infinito. 1) Realizar atividades de uma forma distinta do usual, buscando novas soluções. 2) Desafiar-se com um conhecimento novo ou um setor do saber que até então era evitado (música? matemática? dança?). 3) Pensar as coisas tradicionais combinadas em novas funções. 4) Aceitar o erro como o maior professor possível. 5) Conhecer a fundo alguns dados para pensar sua estrutura. Superficialidade é inimiga da criatividade.

Alguém poderá dizer: as ideias são boas, mas eu preciso de um roteiro mais pormenorizado com exemplos concretos para implementá-las. Bem, é provável que você ainda esteja carente de impulso criativo. Permita-se pensar, reagrupar o que sugeri, rejeitar alguns itens ou todos e, acima de tudo, aplicar princípios gerais a sua área específica. Bulas precisas com quantidades exatas de componentes para remédios previsíveis são coisas eficazes, jamais criativas. Bons criadores combinam muito conhecimento sólido com ousadia e rebeldia. Apenas a recusa do mundo com birra autocentrada o torna um adolescente mal resolvido. Criatividade rejeita autoridade dogmática, porém jamais ignora o caminho que levou aquela questão até o ponto e o impasse em que ela se encontra. Conhecer o "estado da arte" é saber muito sobre algo e, a partir disso, propor soluções distintas. Trata-se da clássica combinação de transpiração com inspiração. É preciso ter muita criatividade para o futuro, e alguma esperança.

LEANDROKARNAL

11 DE ABRIL DE 2020
FRANCISCO MARSHALL

RENASCIMENTO

Entre os séculos XV e XVI, a Europa viveu uma revolução cultural produzida por humanistas, artistas, cientistas e líderes de rara lucidez. O epicentro desse movimento foi Firenze, no coração da Toscana, terra de Leonardo, Botticelli e da família Medici, que, ao mesmo tempo em que se tornou uma das maiores fortunas do planeta, financiou a mudança cultural que fundou a modernidade. A Toscana foi severamente atingida pela peste do século XIV, a pior pandemia até os dias atuais. Com seu pico entre 1347 e 1351, dizimou um quarto da população global e algo entre 30 e 60% da população europeia, conforme a região; estamos falando de mais de 100 milhões de mortos. Estudiosos do Renascimento sabem que a peste foi uma de suas principais causas. Como pode o poder letal de uma doença promover a renovação da história?

A obra-prima de Giovanni Boccaccio (1313-1375), o Decamerão (1353), mostra as histórias picarescas que 10 jovens compartilharam para enlevar-se longe da cidade em sua quarentena de 10 dias (déka hémeros, em grego). Essa obra é sintoma da mudança que se construía desde a fundação das universidades (Bologna, 1088; Paris, 1150; Oxford, 1167; Salamanca, 1218; Coimbra, 1288), o crescimento das cidades e o florescimento de inteligências poéticas como as de Dante Alighieri (1295-1365) e Francesco Petrarca (1304-1374). A peste desmascarou as promessas fantasiosas da religião, pois pouco importava orar e sacrificar-se - todos morriam! - e abriu espaço para o ceticismo e o livre-pensar. Foi quando a moralidade anti-erótica imposta pela Igreja Católica foi questionada e iniciou-se a elaboração de novas sexualidades e atitudes, inspiradas pela imaginação de Afrodite, Dioniso, Hermes e demais deuses e autores pagãos. 

Durante e após a peste, muitos refugiaram-se em mosteiros desertificados, onde encontraram tesouros de manuscritos, que logo se tornaram talismãs cobiçados por almas inteligentes. Iniciava-se então novo ciclo de leituras e leitores, o qual tornou-se potência irresistível com a invenção da gráfica de tipos móveis, por Gutenberg, em 1450. O abalo ao domínio da fé prosperou com a redescoberta das letras e imagens da cultura clássica, e o consequente fenômeno de pensamento, liberdade, ousadia e criatividade. Depois daquela peste, a humanidade renasceu e mudou para melhor.

Temos hoje imensos poderes culturais e meios para fazer do mundo uma nova Firenze, pronto para florescer após a peste. Eis, agora, esta pandemia e a urgência da vida pondo em cheque as necropolíticas e seus agentes e armando o tabuleiro de nossa possível renascença no século XXI: mudaremos para melhor ou para pior? Tudo depende do vigor com que enfrentarmos os cúmplices do vírus, o insensato ignaro no poder, os charlatães da fé, as ideologias do egoísmo, pseudo-cientistas, homens ruins que agravam crise de difícil solução. Como renascer sem combater as tropas da morte?

Ora, juntemos as melhores energias e amizades. É com elas e com coragem, arte, ciência, amor e solidariedade que poderemos renascer logo mais, em uma nova era.

FRANCISCO MARSHALL


11 DE ABRIL DE 2020
COM A PALAVRA

O BRASIL FICOUFRAGILIZADO NA SUA RELAÇÃO BILATERAL COM A CHINA.

Um dos principais especialistas na relação bilateral entre Brasil e China, o professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Oliver Stuenkel acredita que o gigante oriental deve tirar proveito da tensão criada a partir das críticas recentes feitas pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, para garantir vantagens em negociações comerciais. Para o pesquisador, autor do livro O Mundo Pós-ocidental: Potências Emergentes e a Nova Ordem Global (Editora Zahar), o governo chinês projeta sua relação com parceiros a longo prazo. Nesse sentido, eventuais crises seriam passageiras diante do pragmatismo de Pequim, que prioriza uma estratégia de pelo menos uma década. Na entrevista a seguir, Stuenkel analisa o atual estágio das relações econômicas e políticas entre as duas nações, os riscos, perdas e ganhos da tensão política entre o Brasil e seu principal parceiro econômico e as perspectivas de um cenário pós-pandemia de coronavírus.

A CHINA É A PRINCIPAL PARCEIRA ECONÔMICA DO BRASIL E NOSSA MAIOR FORNECEDORA DE INSUMOS MÉDICOS. GOVERNADORES E AUTORIDADES DE SAÚDE ESTÃO PREOCUPADOS COM O NÍVEL INÉDITO DA RISPIDEZ DE FALAS COMO AS DE EDUARDO BOLSONARO E DE MEMBROS DO GOVERNO BRASILEIRO, COMO O MINISTRO ABRAHAM WEINTRAUB, COM RELAÇÃO AO PAÍS. ATÉ ONDE VAI O PRAGMATISMO E A PACIÊNCIA CHINESES?

A China tem uma diplomacia muito objetiva no sentido de não levar essas questões para o lado pessoal. O país pensa sobre todos os temas da atualidade sempre no contexto de longo prazo. Estrategistas chineses com os quais converso sempre analisam como será a relação bilateral daqui a 10, 20, 30 anos. É importante pensar que, diferentemente do Ocidente, onde essas questões podem ter um impacto eleitoral a curto prazo, na China não é bem assim. O Brasil, em função de sua relevância para a alimentação da população chinesa, é visto como parceiro de longo prazo. Logo depois da eleição de Jair Bolsonaro, estive em Pequim, e eles disseram: "Ele é claramente uma pessoa que abraçou um discurso anti-China, a gente enxerga um risco nisso". 

Mas também afirmaram: "Pode ser um governo com um discurso anti-China por quatro, oito anos, mas a nossa relação com o Brasil vai muito além disso". A tendência é de que a China sempre pense sobre essas questões num contexto histórico maior. O Brasil é visto como realmente importante, mais até do que alguns países europeus, porque a China buscará produzir produtos e competir diretamente com algumas nações europeias, uma vez que disputa um mercado de altíssimo valor agregado, algo que nunca poderá fazer com o Brasil. Com relação a essas agressões, há uma preocupação de que pode ser o início de uma sinofobia, algo que já existe em outros países. A China sabe que é inevitável que isso surja em função de sua própria ascensão nos últimos anos. 

É comum que, uma vez que uma grande potência inicie seu projeto de hegemonia global, isso gere respostas. Agora, a China sempre busca enxergar essa situação como uma oportunidade. O país está em uma posição de pedir descontos nas compras do Brasil, por exemplo. Saberá renegociar alguns aspectos da relação bilateral, pode endurecer os termos, porque o Brasil ficou em uma posição fragilizada. Pode obter garantias em relação à participação da Huawei (gigante de tecnologia do governo chinês) no mercado. Mais do que punir o Brasil, deixar de comprar produtos, a China saberá aproveitar essa situação para melhorar os termos da relação para si própria. Apesar de ser difícil de calcular, essa retórica anti-China tem um custo tangível para o Brasil.

A CHINA VAI GUARDAR NA MANGA ESSAS CRÍTICAS PARA USÁ-LAS A SEU FAVOR NO FUTURO?

Sim. Quando Bolsonaro ligou para o presidente Xi Jinping para pedir desculpas (após declarações de Eduardo Bolsonaro), a China certamente aceitou esse pedido, mas aproveitou para reiterar seu interesse, de maneira bem diplomática, em algum ponto específico que estava sendo negociado. Toda relação bilateral é uma negociação constante, da quantidade de produtos que vão ser comprados ao seu preço. A China certamente aproveitou esse momento de fragilidade em que o Brasil se colocou quando veio e disse "pedimos desculpas pelo que aconteceu". Pode ser o momento em que a China aproveite para trazer algum tema que queria há bastante tempo, inserindo-o na conversa. O Brasil não tem como dizer "a gente está pedindo desculpas, mas você está pedindo demais".

HOUVE ALGUM PEDIDO NESSE SENTIDO POR PARTE DOS CHINESES?

Três dias depois da conversa entre Bolsonaro e Xi, o Brasil anunciou que permitirá a participação da Huawei no leilão para a construção da rede 5G no país. Para mim, isso é uma grande vitória para a China e uma derrota para o governo Trump, porque, afinal, o governo Bolsonaro e o Brasil, pelo menos na retórica, são um dos países mais pró-Trump, e o 5G escancara a disputa entre EUA e China pela exportação de suas tecnologias para a rede.

OS CHINESES COSTUMAM SER MUITO DISCRETOS. SURPREENDERAM AS REAÇÕES ENFÁTICAS DA EMBAIXADA CHINESA DIANTE DAS PROVOCAÇÕES DE EDUARDO BOLSONARO E DO MINISTRO WEINTRAUB?

A reação forte dos diplomatas chineses mostra que o mundo mudou. A China, hoje, é um ator muito mais confiante no cenário da política internacional. Com a chegada de Xi Jinping ao poder, aquele ditado antigo de "aguardar seu tempo chegar" acabou. Podemos ver, ao redor do mundo, diplomatas chineses adotando posturas mais assertivas, e em alguns casos até arrogantes. A reação dos diplomatas chineses mostra essa confiança e, como tática de negociação, escalar esse conflito pode até trazer algumas vantagens para a China, porque fragiliza ainda mais o outro lado na negociação bilateral. 

Por exemplo, todos os governadores precisam chegar ao embaixador e dizer: "Mil desculpas, realmente foi péssimo etc.". E aí o chinês responde: "Claro, vamos só ajustar aquele detalhe aqui na nossa relação comercial, vamos baixar um pouquinho o preço da soja brasileira, tudo bem?". Tudo bem, sim. Não tem outro jeito. A China também percebeu a angústia que esses comentários causaram entre agricultores, governadores e saberá utilizar isso. O Brasil ficou fragilizado na sua relação bilateral com a China.

COMO A CHINA PROJETA A RELAÇÃO COM O BRASIL DAQUI A 10 OU 20 ANOS?

A China pensa sua relação com o mundo a partir de suas necessidades e vulnerabilidades. E as duas vulnerabilidades fundamentais são a falta de autossuficiência em energia e alimentação - algo que os EUA nunca encararam. A maneira como a China olha para o mundo é diferente, porque está numa situação muito mais frágil em função disso. As alianças de longo prazo são fundamentais, a diversificação de parcerias também. As pessoas perguntam: "Por que a China não condena o que acontece na Venezuela?". 

A China precisa sempre ter um grande portfólio de fornecedores de petróleo. Ela não é autossuficiente. Tem medo de ter uma má relação com a Venezuela porque isso, lá na frente, pode gerar uma situação difícil. Então, ela trata bem os países exportadores de petróleo: Angola, Sudão. Com medo de ficar desabastecida, opta por não criticar assuntos internos desses países. É o mesmo no caso dos alimentos. A soja é fundamental para alimentar animais chineses que, depois, são importantes para a alimentação da população. Soja é muito mais importante hoje do que minério de ferro, porque esse boom de infraestrutura acabou. A população chinesa está entrando na classe média, o que fez aumentar seu consumo de proteína. O Brasil, nesse esquema, é fundamental.

É POSSÍVEL IDENTIFICAR O GRAU DE INFLUÊNCIA E CONTROLE DO GOVERNO CHINÊS NAS EMPRESAS PRIVADAS DO PAÍS? QUAL A INTERFERÊNCIA?

É algo muito difícil de nós, na nossa cultura, compreendermos. Nas vezes em que converso com analistas ocidentais que estão há décadas morando na China, eles dizem que é uma frustração, porque não há algo escrito sobre essa relação. É mais informal. As empresas, obviamente, têm independência. Na prática, uma empresa chinesa pode competir contra outra e faz isso todo tempo no Exterior. Há um forte elemento capitalista, e muitas atuam e tomam decisões de maneira independente. Porém, grandes empresas têm um representante do Partido Comunista em seu conselho. Por exemplo, quando Bolsonaro foi eleito, nos primeiros meses, certamente aconteceu alguma comunicação do governo central às empresas em geral. 

Em todas as minhas conversas, os investidores chineses, os analistas, diziam que, por enquanto, talvez não fosse um bom momento para investir no Brasil, porque o investimento de uma empresa chinesa em um país pode ser uma maneira desse país se aproximar de Xi Jinping. Evidentemente, houve uma redução dos investimentos chineses. Uma percepção clara é a de que empresas brasileiras que tentavam obter permissões para produzir na China tenham tido esse processo travado. As empresas ficam acompanhando a qualidade da relação bilateral, que pode assim acabar tendo impacto real no dia a dia da relação bilateral.

O VICE-PRESIDENTE HAMILTON MOURÃO CONTINUA SENDO O ELO ENTRE OS DOIS GOVERNOS?

Na viagem do ano passado à China, ele deixou uma ótima impressão. Soube muito bem lidar com a situação. Foi recebido por Xi Jinping, algo raríssimo, que também prova a importância do Brasil. Xi não recebe qualquer vice-presidente. Não foi uma conversa curta, durou uns 40 minutos. Mourão é visto como espécie de garantia de que as coisas não vão degringolar completamente. Tereza Cristina (ministra da Agricultura) também. Mas os chineses que têm uma compreensão sofisticada da política brasileira percebem que Mourão, cada vez que faz essas intervenções, é atacado por um grupo mais radical do governo. Qualquer garantia também depende do contexto político. 

Os chineses acompanham a maneira como Mourão consegue controlar essas facções radicais. Manifestações tanto de Eduardo Bolsonaro quanto do ministro da Educação mostram que Mourão tem poder reativo, mas que ele não consegue evitar esse tipo de declaração. Não chegou e acho que não chegará o momento em que a China vai dizer "não vamos mais comprar soja de vocês", mas Mourão, pelo menos nesse momento, não foi capaz de evitar a escalada da crise. Ele é um ator importante, porém, só será visto como garantia da estabilidade da relação bilateral em função de sua capacidade de reduzir ao máximo a incidência de casos como esses que a gente viu nas últimas semanas.

AS FALAS DE EDUARDO BOLSONAR E DE WEINTRAUB SEGUEM A LÓGICA DO QUE A GENTE VÊ NOS EUA, INSUFLADAS PELA DIREITA RADICAL DE PERSONAGENS COMO STEVE BANNON, EX-ESTRATEGISTA DE TRUMP. TAMBÉM NOS EUA, HÁ FACÇÕES ANTI-CHINA DENTRO DO GOVERNO? ESSAS MANIFESTAÇÕES DE BRASILEIROS ESTÃO ARTICULADAS COM ELAS?

Nos EUA, também há essas facções. Há uma mais pró-livre comércio ligada ao setor agrícola que sabe da importância da parceria com a China, que foi contra a guerra comercial, e um grupo que tem uma postura mais dura em relação à China. Mas, nos EUA, há outro contexto, porque, realmente, a ascensão chinesa tem um grande impacto para os americanos e pode levar à erosão de sua liderança global. Em muitos aspectos, a China hoje tem uma influência em algumas regiões até maior do que os EUA. Com Barack Obama já havia muitas queixas de empresas de tecnologia americana com relação à espionagem industrial da China, questões de copyright e de quebra de patentes. Houve tensão. Obama foi o último presidente com uma visão mais otimista com relação à China. 

Isso já mudou no seu segundo mandato. Com Trump, há uma percepção clara de que a relação vai piorar, porque estamos entrando em uma fase mais conflituosa entre a liderança estabelecida e uma grande potência em ascensão, como ocorreu tantas vezes na História. Trump articulou, de maneira bastante tosca, esse novo consenso. Não acho que a relação com a China melhorará muito se Joe Biden (pré-candidato democrata) ganhar as eleições de novembro. Trump de certa maneira articulou uma ideia geral de que a China precisa ser contida de modo mais agressivo. No Brasil, essa lógica não se aplica. A posição global do Brasil não é ameaçada pela China. No caso brasileiro, o discurso anti-China é uma tentativa de provar aos americanos que a relação bilateral Brasil-EUA é importante.

UMA DEMONSTRAÇÃO DE FIDELIDADE BRASILEIRA AO GOVERNO DOS EUA?

Quando Bolsonaro foi eleito, os diplomatas americanos deixaram muito claro que, se o Brasil quiser ter uma parceria forte com os EUA, há duas coisas que eles querem. A primeira é resolver a crise na Venezuela, envolvendo a saída de Nicolás Maduro. Segundo: ajudar a reduzir a influência chinesa na América Latina. E ambas o Brasil não consegue fazer. 

Não tem capacidade de derrubar Maduro, não é do interesse do Brasil fazer isso, pioraria muito a relação com outros países do continente, e não há apoio entre os militares também. E o Brasil tem dificuldade em limitar a influência chinesa porque é seu principal parceiro comercial. Essas falas anti-China são uma espécie de compensação aos americanos: "Olha, tudo bem que a gente não pode limitar nossa relação comercial, nem limitar influência chinesa na América Latina, mas olha só, pelo menos estamos falando mal dos chineses". Obviamente, por razões internas políticas, é bom ter um inimigo externo, isso sobretudo para presidentes populistas. 

Historicamente, tem sido uma estratégia. Bolsonaro tentou isso na eleição, tentou demonizar os venezuelanos, a Argentina. É uma tática de buscar mobilizar seguidores. É preciso ter inimigos. E aí surge o comunismo. A ascensão chinesa pode trazer aspectos negativos, mas ela hoje não está propagando o comunismo. Essa retórica de facções do governo brasileiro lembra o sentimento da Guerra Fria, como se a China tivesse um projeto de apoiar partidos comunistas ao redor do mundo. O objetivo da China hoje não é a propagação do comunismo.

ATÉ A GUERRA COMERCIAL ENTRE EUA E CHINA FOI EM PARTE INTERROMPIDA QUANDO TRUMP E XI JINPING SE DISPUSERAM A COLABORAR NA LUTA CONTRA O CORONAVÍRUS. QUAL O RISCO DE O BRASIL SOBRAR SE INSISTIR NA RETÓRICA ANTI-CHINA?

A relação com a China sempre será muito mais importante para os americanos do que para o Brasil, mesmo se Bolsonaro falar mal da China todos os dias, mesmo se derrubar Maduro. É uma realidade econômica. A relação bilateral entre China e EUA é a mais importante do mundo. A relação com o Brasil sempre será vista em função dessas duas grandes potências.

A RELAÇÃO ENTRE O BRASIL E A CHINA ESTÁ NO SEU PIOR MOMENTO?

Há uma relação histórica e diplomática, mas de baixa relevância econômica. O Brasil e a China voltaram a ter relações diplomáticas em 1974, quando o então presidente militar Ernesto Geisel decidiu reestabelecer esse laço. Foi o chanceler Azeredo da Silveira que convenceu Geisel a reconhecer a República Popular da China. Foi um passo muito pragmático. Mas as relações comerciais só ganharam importância nos anos 1990. Por um bom tempo, ser removido como diplomata para Pequim era uma espécie de punição. Hoje, é bem diferente. Os jovens diplomatas brasileiros que vão a Pequim têm futuro, são os melhores. Houve essa mudança de percepção entre o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso e o primeiro de Lula. Foi quando o mundo percebeu a importância chinesa em função da alta dos preços de commodities. É algo muito recente. 

O número de especialistas em China no Brasil é muito baixo, assim como o de pessoas que falam mandarim. Esse é o grande obstáculo hoje. Há uma escassez enorme no mercado de jovens brasileiros que topam ir para a China, que possam cuidar dessa parceria. Apesar da importância econômica e diplomática, a relação Brasil-China ainda é marcada pela falta de conhecimento mútuo, o que oferece um campo fértil, infelizmente, para teorias da conspiração. Porque, quando uma pessoa viaja à China e conhece os chineses, fica muito menos vulnerável a histórias como a de que "os chineses exportaram o vírus para derrubar o capitalismo". A China é um país muito mais parecido com o Brasil do que com os EUA por estar ainda em desenvolvimento.

EM SEU LIVRO, O SENHOR DEFENDE QUE O MUNDO HOJE É CADA VEZ MAIS CHINOCÊNTRICO. QUANDO PENSAMOS NA ORDEM GLOBAL PÓS-PANDEMIA, QUAL DEVE SER A POSIÇÃO DO BRASIL EM RELAÇÃO A ESSE GIGANTE?

Não há dúvida de que a China terá papel chave na recuperação econômica de muitos países em desenvolvimento. O Brasil deve sempre ter uma boa relação com os EUA e com a China. Deve deixar claro que não são coisas excludentes, que ser parceiro importante político e econômico dos EUA não tem implicações para a relação com a China. Não fazer disso uma coisa A ou B. O Brasil tem longuíssima experiência diplomática em mostrar jogo de cintura. Se há um país do mundo que tem a flexibilidade e capacidade diplomática em articular e manter boa relação com os dois é o Brasil Esse será um desafio para todos os países: como manter amizade com os dois gigantes. Tudo indica que o estrago causado pela pandemia na economia chinesa será menor do que nos EUA, o que limitará a capacidade americana de liderar a recuperação, acelerando assim a chegada de um mundo cada vez mais sinocêntrico.

RODRIGO LOPES


11 DE ABRIL DE 2020
DRAUZIO VARELLA

CORONAVÍRUS

Nove coisas que já aprendemos sobre a doença covid-19. Apesar das incertezas, já aprendemos muito com a epidemia de coronavírus. O Medscape publicou um texto que tomo a liberdade de resumir:

1 O vírus é transmitido pelas gotículas expelidas ao falar, tossir e espirrar. Pode sobreviver em superfícies como as de plástico ou de metal por alguns dias (as estimativas são variáveis). No ar, sobrevive poucas horas, mas as partículas de secreção que formam aerossol são infectantes. A presença do vírus nas fezes está documentada.

2 Modelos matemáticos sugerem que pacientes assintomáticos ou com poucos sintomas sejam responsáveis por até 85% das transmissões, nas fases iniciais de um surto epidêmico. Individualmente, essas pessoas transmitem menos, mas como não ficam isoladas acabam por infectar mais gente.

3 Trabalhos chineses mostraram que a carga viral não difere significativamente entre os pacientes infectados, todos podem transmitir a doença, tenham muitos ou poucos sintomas. As últimas evidências da OMS mostram que cada paciente (Ro) infecta na média entre 2,0 e 2,5 contatuantes (no sarampo Ro, é 12 a 18; na gripe, pouco mais de 1).

4 A OMS calcula que a mortalidade global por covid-19 esteja na média de 3,4%. Nos primeiros 4,2 mil casos examinados pelo CDC americano, houve 508 internações hospitalares, 121 em UTIs e 44 óbitos.

5 Na China, dois terços dos doentes apresentaram tosse, cerca de 40% tiveram febre, sintoma que chegou a 89% entre os hospitalizados. Diarreia e vômito são raros: menos de 5%. Perda de olfato (anosmia) é queixa que aparece com certa frequência. Dispneia é sinal de agravamento do quadro e da necessidade de internação hospitalar.

6 O teste aplicado até aqui pela técnica de RT-PCR é realizado colhendo-se por "swab" material das fossas nasais e da garganta, para detectar a presença do RNA viral. Como a sensibilidade é relativamente baixa (ao redor de 63%) - ou seja, de cada 3 infectados 1 tem resultado negativo (falso negativo) -, há necessidade de repetição, nos casos suspeitos. No teste feito com amostra de sangue, o objetivo é detectar a presença de anticorpos contra o vírus.

7 Quase todos os pacientes que necessitam de internação apresentam dispneia, como consequência de um processo inflamatório pulmonar, traduzido por opacidades características na tomografia computadorizada, identificáveis em cerca de 60% dos casos. Geralmente, há necessidade de suplementação com oxigênio por cateter ou máscara. Os doentes mais graves precisam ser entubados e colocados nos aparelhos de ventilação mecânica, muitas vezes por duas ou três semanas.

8 A perspectiva do desenvolvimento de uma vacina a curto prazo é irreal. Os pesquisadores mais otimistas esperam que ela esteja disponível em pouco mais de um ano.

9 Várias medicações estão em fase de teste. A esperança é que os estudos encontrem atividade antiviral em medicamentos já existentes. Conseguimos drogas assim para a aids, por que não agora?

DRAUZIO VARELLA



11 DE ABRIL DE 2020
ENTREVISTA

"POR FAVOR, FIQUEM EM CASA. AJUDEM A SALVAR AS PESSOAS"

Uma das maiores autoridades nacionais em longevidade, o gaúcho Emilio Moriguchi recorre ao país de seus antepassados para fazer um alerta ao Brasil. Em fevereiro, por compromissos acadêmicos, o geriatra esteve no Japão. Era o início da curva de contaminação pelo coronavírus. As condições geográficas e sociais forçaram o governo a adotar algumas medidas rigorosas.

- O Japão é um país pequeno, uma ilha, então, se o vírus começa a se espalhar, pode atingir toda a população. Que é bastante envelhecida (em 2016, atingiu o recorde de 34,6 milhões de pessoas com mais de 65 anos, o que correspondia a 27,3% do total de habitantes). Além disso, é um lugar onde as pessoas vivem muito juntas, todo mundo anda de trem - aponta o geriatra e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), falando por telefone de sua sala no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, onde chefia o Serviço de Medicina Interna.

O governo japonês, então, fechou as escolas, determinou que as empresas fizessem home office, manteve aberto apenas os serviços essenciais. Assim, conseguiu achatar a curva, ou seja, freou a disseminação da covid-19. Os casos foram aumentando, mas em um volume que permitiu o atendimento nos hospitais.

- Esse é o lado bom da história - comenta Moriguchi. - Países em que os povos são muito disciplinados, como o Japão, Singapura e Taiwan, cumpriram o isolamento social. Só que, um mês depois, na metade de março, províncias japonesas que não tinham casos de coronavírus começaram a liberar as escolas, e algumas empresas e restaurantes voltaram a funcionar. Aí, literalmente, "explodiu". A gente tem de aprender a lição: o isolamento social é o único remédio comprovado contra a infecção pelo coronavírus.

O médico se diz "muito preocupado" com o avanço da doença no Brasil e, em especial, no Rio Grande do Sul, onde, segundo cálculos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e projeções da SeniorLab (uma consultoria de mercado voltada para o público mais maduro), o número de pessoas com 60 anos ou mais já é maior do que o de crianças e adolescentes de zero a 14 anos. O Estado, poderíamos dizer, é um grupo de risco, no qual se insere o próprio Moriguchi, 62 anos, além de seus pais - Yukio, considerado o fundador da Geriatria no Brasil, tem 94 anos, e Lia, 91.

- Faz um mês que não os visito - conta o geriatra na entrevista a seguir, em que elogia as restrições impostas pelo Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, pelo governador Eduardo Leite e pelo prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan, e faz um apelo: - Por favor, fiquem em casa.

Os idosos, a quem o senhor se dedica no trabalho e na pesquisa, são o principal grupo de risco em relação à letalidade da covid-19. Segundo o IBGE, no Rio Grande do Sul, 18,19% da população tem 60 anos ou mais, ante 13,9% da média nacional. Como o senhor está vendo o impacto do coronavírus sobre essa população gaúcha?

Acompanho casos aqui no Clínicas, junto à Secretaria de Estado da Saúde e pela imprensa. Estou muito preocupado. O número de casos está aumentando exponencialmente, é como multiplicação. Se as pessoas ficarem em casa, se cumprirem direitinho o que o governador (Eduardo Leite) e o prefeito (de Porto Alegre, Nelson Marchezan) determinaram, podemos sofrer menos. Isolamento social é o único remédio preventivo comprovado enquanto não se tem medicamento ou vacina. Ficar em casa é o único modo de salvar as pessoas e salvar o país. A ciência mostrou que a média de transmissão cai, para dois a três infectados por pessoa. Mas se as pessoas começam a sair para as ruas nos finais de semana, a lotar os supermercados, sobe para seis a oito. Não podemos ter uma curva parecida com a da Itália ou a da Espanha, pois não temos um sistema público de saúde tão eficiente quanto o de países europeus. Vamos sofrer muito se não nos cuidarmos, se afrouxarmos o isolamento por motivos econômicos ou políticos. O Brasil é um dos países que mais tem idosos no mundo, as pessoas não se dão conta (são quase 30 milhões, segundo o IBGE). Por favor, nos ajudem a salvar as pessoas. Fiquem em casa.

Estatísticas mostram que idosos não são as únicas vítimas. Há jovens e até crianças morrendo por causa do coronavírus.

Exato. Também pega jovens. Um jogador de futebol americano faleceu em questão de dias. E crianças e jovens podem ter o vírus de forma assintomática, o que constitui um grave problema no Brasil, onde muitas casas têm idosos e jovens vivendo juntos (leia na página 5). Como vamos protegê-los? Outro dia, soube de um aniversário de 90 anos de uma senhora. A filha tomou cuidado de convidar apenas pessoas que pareciam saudáveis, que não tinham suspeita nenhuma de covid-19. Dois, três dias depois, seis pessoas que estavam na festa apresentaram sintomas da doença. Não dá para saber quem tem o coronavírus. Muitos jovens podem não apresentar sintomas mesmo estando infectados, essa é a questão que justifica o isolamento. Tem de ficar em casa, mas há pessoas que não entendem isso.

Em uma entrevista a ZH no ano passado, o senhor disse que o segredo para uma vida longa é multifatorial. Um estudo publicado na revista científica Nature apontou que 50% está associado ao estilo de vida (nutrição, atividade física, repouso, lazer etc), 20% ao ambiente, outros 20% à genética e 10% a avanços da tecnologia e da medicina. O ambiente, o senhor explicou, não é o lugar em si, mas as boas companhias, a interação social, as amizades e a família. Agora, os idosos, para sua própria saúde, estão sendo privados disso. E sabe-se lá por quanto tempo. Como podemos ajudar, como podemos contribuir para sua saúde mental e, por extensão, física?

A pergunta é fundamental. O Ministério da Saúde lançou uma cartilha para família que tem idosos. A Sociedade de Geriatria e Gerontologia participou da elaboração. Idosos vivem mais por causa do convívio social, isso é importante, mais até do que outras coisas como colesterol alto. Além do isolamento piorar doenças como diabetes, porque obriga o idoso a ficar mais parado, o maior impacto é sobre o emocional e a vontade de viver. É essencial que as famílias liguem todos os dias, façam videochamadas, estejam próximas em espírito e em coração. Faz um mês que não vejo meus pais. Ele tem 94 anos, e ela, 91. São pessoas muito sociáveis, iam à missa todos os dias. Ficaram chateados no início, mas entenderam. Eu ligo diariamente para que eles não fiquem deprimidos. Lá em casa, minha esposa e minhas duas filhas só saem para comprar comida e remédio, e de máscara. Quando vamos deixar mantimentos na casa dos meus pais, abanamos de longe. Se idosos pegam a covid-19, a probabilidade de morrerem é de uma em cinco, é muito alta.

E como o senhor tem feito em relação a seus pacientes, também impedidos de irem ao consultório?

Bem, o consultório eu fechei. Tenho estado muito no hospital. Quando chego em casa, vejo recados de pacientes e geralmente fico até meia-noite telefonando. Depois, gravo mensagens de vídeo e mando por WhatsApp. Estou trabalhando muito mais agora do que antes. A coisa mais importante para os idosos é saber que eles não estão sozinhos. A solidão mata. Muito são religiosos, então digo para eles rezarem por mim, e eu também rezo muito para Deus nos proteger na linha de frente. Quando me lembro, tiro uma foto em um momento que esteja de avental. É para mostrar que a gente está se importando. Ouvir uma voz, ver uma imagem, receber um carinho são coisas vitais.

O senhor conduz uma ampla pesquisa em Veranópolis, na Serra, onde no final de 2019 foi pré-inaugurado o Instituto Moriguchi - Centro de Estudos do Envelhecimento. Já se percebeu que, lá, os níveis de estresse são menores, a atividade física dos idosos é mais intensa, e eles participam frequentemente das atividades da comunidade. Como está o clima na chamada terra da longevidade?

Olha, eu posso falar não do ponto de vista prático, porque não viajo agora, mas minha equipe tem feito exatamente o que estamos falando aqui. A equipe de Veranópolis, que inclui profissionais de psicologia, fisioterapia, nutrição etc, dividiu os participantes do programa para telefonarem pelo menos uma vez por semana a todos eles. Estamos acompanhando mais de 700 idosos, é bastante gente, e muitos nem têm celular, é via telefone fixo mesmo. Vários desses idosos precisam de coisas como comida, remédios controlados e até leite. Daí, o pessoal da nossa equipe diz: "Nono, Nona, pode deixar que hoje de tarde eu levo aí". O próprio prefeito (Waldemar De Carli) é membro da equipe. É uma rede de solidariedade. Sei que isso não substitui a convivência com netos e bisnetos, mas pelo menos protege os idosos. Cada um faz o que pode e como pode.

TICIANO OSÓRIO


11 DE ABRIL DE 2020
J.J. CAMARGO

ISOLAMENTO SOCIAL

Um pouco de bom humor para mitigar o distanciamento. Se cada vez que "isolamento social" fosse citada na televisão uma pessoa resultasse imunizada da covid-19, a pandemia já teria sido controlada. E isso que ela, a expressão, só começou a ser usada depois que os interlocutores do Ministério da Saúde cansaram de traduzir para o povão o que queria dizer, o lockdown.

Aliás, os boletins iniciais eram mais sofisticados, porque estávamos empenhados em flatten the curve, mesmo que para isso fosse necessário o tal lockdown. E para reduzir as idas ao mercado para comprar comida, recomendava-se os pedidos on delivery.

Não durou uma semana e o nível despencou, segundo um técnico em saúde: - Vamo lá, gente, o álcool é pra passá na mão, não pode bebê, cada um deixe de frescura e prepare a sua comida, e se amontuá para fazê fofoca, a curva vai empiná, e aí ferrou, de vez!

Mas, falando sério, quando se vê o efeito na vida das pessoas de uma parada forçada de três semanas, se entende, melhor do que nunca, o quanto a nossa rotina, por nos tornar mais previsíveis, era acalentadora e generosa, permitindo-nos que nos queixássemos dela sem revide, quando nem sonhávamos que um dia tê-la de volta passaria a ser o apelo máximo de uma geração temerosa desse inimigo que, por ser invisível, assusta mais. Um veterano ianque confessou que a guerra, obrigando os soldados a usar uniforme, era um adversário mais digno, porque todos sabiam que cara ele tinha.

No momento em que ninguém suporta mais o abraço virtual, estamos tentando, sem nenhuma experiência prévia, construir uma nova rotina, que nos devolva a sensação de paz, e que esta pareça minimamente sincera.

Ninguém aguenta mais os nossos amigos, com suas caras deformadas no Skype ou no Facetime, com o áudio sempre dissociado da imagem por conta do tal delay, aquele que deixa os correspondentes com ar abobado enquanto não chega a pergunta do âncora do noticiário. Nem a promessa que daqui a pouco a gente se vê por aí!

Duas coisas têm contribuído para aumentar a ansiedade do confinado, que na primeira quinzena tem rosnado para o espelho com chance crescente de atacá-lo na segunda: a repetição de que o pior ainda está por vir (isso ajuda?) e o anúncio de que, neste momento, é impossível prever quando tudo vai terminar. Isso decorre de uma verdade bem conhecida: a esperança se alimenta de prazos. A prisão numa solitária sem direito a luz natural, durante um mês, como punição, seria uma barbada, porque contaríamos os dias, e a contagem regressiva nos manteria animados.

Mas como as pessoas, por santa ventura, são diferentes, sobrevivem os criativos, que, preservando o bom humor, mantêm a moral da tropa numa espécie de platô, simulando aquela curva que o ministro tem mostrado com a mão, como modelo de ambição para este abril despedaçado. Selecionei uns memes capazes de colocar algum riso na cara de quem perdeu o hábito, depois que até o botequim fechou:

"De tanto conversar com a minha mulher, descobri que ela é uma boa pessoa."

"Já fiz muita coisa escondido, mas trabalhar é a primeira vez."

"Se você achar que está começando a entender sua esposa, não se assuste. Isto é a Síndrome de Estocolmo."

"Quando isso terminar, quero ficar uns 15 dias sem aparecer em casa."

E a minha preferida: o maridão sentado, comendo, e a mulher pergunta: "Tá boa a comida, amor?" O precipitado: "Tá sem sal!". "Tá sem o quê?!?" E ele, no desespero: "Tá sensalcional!".

Que este senso de humor nos preserve na espera por novos velhos tempos em que poderemos, outra vez, recuperar as mãos como instrumentos de afeto, e não mais como conchas para o álcool gel.

J.J. CAMARGO


11 DE ABRIL DE 2020
MÁRIO CORSO

O ontem já foi

Casais que se separam fazem normalmente uma nova tentativa. Voltam por não querer acreditar que algo que foi tão grande e importante possa ter acabado. Voltam apostando que podem reacender a chama do amor. Querem que as boas memórias sobressaiam sobre o presente. Raramente dá certo.

Ninguém consegue viver do passado. Se algo acabou, tinha suas razões e elas voltam para encerrar de vez um ciclo. O casal terá que assumir que o romance já não funciona mais e se separar de vez. Terão, cada um por si, que enfrentar a dor da separação, porque o passado não move moinhos.

E assim é com tudo. Queremos voltar aos anos dourados da infância, aos bons tempos da juventude, da grande família reunida. Queremos viver outra vez dias perdidos. Os humanos são saudosistas na essência. Temos uma enorme dificuldade de admitir que o passado viverá apenas na lembrança.

Hoje partilhamos coletivamente uma sensação de perda. O mundo do verão e o ano de 2019 parecem ter sido em outra vida. A pandemia mudou tudo. Gostemos ou não, assim é que é.

Assisti a uma carreata no último fim de semana que pedia a volta da normalidade. A questão é: quem não iria querer? Estamos encerrados e aborrecidos em casa, quem não quer sair para trabalhar e depois tomar um chope com os amigos?

O drama dessas pessoas, que fazem essa exigência, é não se dar conta de que se tudo reabrir, além de ser um risco absurdo para a saúde, não voltará à antiga normalidade. Conseguem imaginar quem vai sair para comprar um sapato? Ou para trocar de carro? Ou ainda encher um restaurante? Quem vai gastar e fazer dívidas se não sabe como vai pagar? O futuro é incerto, as pessoas só vão gastar no essencial.

Mesmo se abrir, as pessoas estão com medo. Aliás, as pessoas da carreata estavam com máscaras e dentro dos seus carros, portanto, com medo também. Acreditaria mais em uma passeata a pé e sem as medidas preventivas. Embora não ache que deva ser feita.

A economia já sofreu o terremoto. A pandemia instalou uma catraca, para trás gira em falso. Não é no Brasil, é no mundo. Portanto, não adianta fazer a roda girar ao contrário, pois não teremos o cenário anterior. Não adianta fingir que o ontem está disponível.

Vai se sair melhor quem primeiro se der conta e fizer o luto. Quem entender que o momento é outro tem mais condições de inventar algo novo. O empresário brasileiro gosta de falar de empreendedorismo, de motivação e desafio, pois bem, é a hora. É momento de reinventar, de ser criativo e descobrir como produzir na e apesar da crise, como se adaptar aos novos tempos.

A história humana é assim, temos inúmeros momentos de ruptura. Guerras, revoluções, perseguições, pandemias e desastres naturais arruínam nossa vida e temos que reconstruí-la. Nos tocou esta crise, vamos pensar em como sair dela. Juntos conseguiremos.

MÁRIO CORSO

11 DE ABRIL DE 2020
CORONAVÍRUS


Idosos criam estratégias para viver o distanciamento

Longe dos familiares, pessoas da terceira idade desenvolvem atividades para contornar especialmente a saudade dos netos

Carmen Ambrozio, 65 anos, sente-se ansiosa, fica apreensiva, pensa muito nos cinco netos. Como milhões de idosos, está confinada, à espera do dia em que vai poder sair de casa outra vez. Faz quase um mês que se isolou com o marido, o empresário Rogério Ambrozio, 64 anos. Os dois passam o dia sozinhos na residência, em Canoas. Ela distrai o tédio com atividades domésticas (a empregada foi dispensada), leituras, crochê, trocas de mensagens no celular e conversas com o companheiro.

- São 42 anos de casados. Um completa o outro. A conversa ajuda a passar o tempo. Mas está difícil - admite a idosa.

O que mais faz falta, e nisso Carmen não tem originalidade nenhuma, é o contato com os netos. Ela anseia por chegar perto e tocar nas crianças. São a fraqueza dela, mas também a força.

As filhas se revezam nas idas diárias ao condomínio do casal de idosos, para entregar compras de supermercado e de farmácia. Nessas ocasiões, levam as crianças junto. Os pequenos não desembarcam do carro, mas Carmen e Rogério podem vê-los e conversar de uma distância segura.

A advogada Karina Ambrozio, 39 anos, filha do casal, conta que as visitas envolvem um ritual de higiene bem azeitado. Ela estaciona na frente da casa dos pais, deixa as sacolas diante da porta, toca na campainha e se afasta. Então, eles emergem de dentro do lar, limpam imediatamente a campainha com um pano embebido em álcool gel e recolhem os suprimentos. Depois, voltam até a varanda para falar com os netos João Guilherme, 10 anos, e Pedro Guilherme, um ano e meio. Conversam a pelo menos um metro e meio de distância, pela janela do automóvel. Carmen afirma que essas visitas são de suma importância para suportar as agruras do encarceramento.

- Ver os netos, ainda que pela janela do carro, ajuda bastante. É um momento que alivia a alma. A alma e o coração. Me dá muita força - explica.

Carmen tem diabetes, e Rogério é asmático. Essas condições deixam Karina em sobressalto, especialmente atenta à necessidade de eles manterem o isolamento. A festa de aniversário do pai, em 17 de março, com salão já reservado, foi cancelada em nome da saúde. A filha, que mora em Porto Alegre, considera essencial levar os filhos até os avós com frequência.

- Não sabemos o que vai acontecer. Os idosos estão inseguros. É um momento de dar atenção aos avós. Às vezes vamos até lá só para dar oi - diz Karina.

Reclusão

Os dramas e as válvulas de escape do isolamento forçado da população de terceira idade repetem-se em muitos lares do Rio Grande do Sul, Estado com maior proporção de pessoas com 60 anos ou mais: eles representam 18,77% dos gaúchos, quase um em cada cinco. Em Porto Alegre, o advogado José Ernesto Flesch Chaves, 77 anos, e Maria Elizabeth Petersen Chaves, 74 anos, também não saem mais de casa e limitam-se a ver os netos na calçada da frente, separados por uma grade. Com uma trena em mãos, o idoso marca os dois metros de distanciamento mínimo entre ele e as crianças.

A última saída do casal foi em 19 de março, para uma missa reservada. Era dia de São José, o padroeiro de José Ernesto, e ele fez questão de participar. Desde então, as missas são pela TV, todos os dias. No resto do tempo, ele trabalha no computador, realiza tarefas domésticas e faz listas de compras, que depois os filhos depositam junto ao portão. Sente falta das caminhadas diárias de uma hora (que substituiu por passeios no pátio, mas não é a mesma coisa), dos bate-papos com os amigos (que viraram amigos virtuais, o que também não é a mesma coisa) e, claro, dos netos.

- A maior perda é a convivência com os netos. A gente realmente sente falta - desabafa José Ernesto.

No dia 27, ele e Maria Elizabeth cantaram os parabéns para o neto Felipe, que completava oito anos naquele dia, por uma chamada de vídeo, participando de um link que envolveu parentes em seis diferentes smartphones. Mãe do menino, a advogada Mariana Chaves, 40 anos, faz questão de levar os filhos (ela tem também Dora, de dois anos e meio) até a calçada diante da casa dos pais, para o contato possível.

- Estou fazendo isso uma vez por semana. Minha irmã também. Eles ficam no jardim da casa, nós do lado de fora, e então conversamos um pouco. Minha filha pequena não entende muito, mas enxerga os avós. Pelo celular não é a mesma emoção - observa.

ITAMAR MELO

11 DE ABRIL DE 2020
OPINIÃO DA RBS

VACINA CONTRA INGERÊNCIAS


Foi correta e prudente a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de não permitir que o governo federal interfira e derrube decisões de Estados e municípios em relação a medidas destinadas a conter a disseminação do novo coronavírus. Foi acertada por pelo menos duas razões. A primeira porque, em um país de dimensões continentais como o Brasil, as realidades locais são distintas e se alteram rapidamente, para melhor ou para pior. Cabem ajustes finos às linhas gerais estabelecidas pelo saber para o combate à covid-19.

Desta forma, são as autoridades regionais que, com responsabilidade, surgem como as mais capacitadas para tomar as medidas apropriadas, caso a caso. Ou seja, em tese poderiam avançar ou recuar em ações relacionadas a isolamento social, quarentena, atividades comerciais e circulação de pessoas, dependendo da análise da evolução da pandemia. Óbvio que isso só será válido se forem observadas as orientações sanitárias baseadas no conhecimento científico, seguindo as diretrizes do Ministério da Saúde, que, por sua vez, tentam repetir as melhores práticas internacionais.

O segundo motivo do acerto de Moraes está no que disse e fez o presidente Jair Bolsonaro até agora. A liminar tem o efeito de uma vacina contra ingerências do Planalto. Tolhendo possíveis arroubos, como a ameaça de assinar decreto liberando atividades econômicas sem critérios claros, o STF age no sentido de evitar medidas inconsequentes que diminuam o distanciamento social, gerem aglomerações, um aumento descontrolado de casos e, por consequência, mais mortes. O número oficial de vítimas fatais, aliás, chegou na sexta-feira a mais de mil no Brasil.

Só o fato de o presidente ter limitadas suas possibilidades de atrapalhar o combate à doença já é uma notícia alvissareira para os brasileiros. Com o poder de sua caneta esvaziado, Bolsonaro segue apenas como uma espécie de agitador-geral da República. Na sua nova aparição em cadeia de rádio e TV, na quarta-feira, o presidente exibiu um tom um pouco mas moderado, mas, mesmo assim, de forma lamentável mostrou que continua abdicando do dever de apoiar governadores e prefeitos em decisões difíceis. Ficam inclusive mais à mercê de pressões para flexibilizar medidas, sem amparo no conhecimento. A busca pela união de esforços na luta contra o coronavírus permanece distante quando a principal figura pública anda na contramão do consenso.

Governadores e prefeitos têm agora as suas responsabilidades elevadas com a decisão de Moraes ao analisar uma ação da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Precisarão medir as ações que poderão gerar impactos positivos ou negativos em suas comunidades. Em pouco tempo responderão à sociedade sobre os reflexos de seus atos. É preciso lembrar que os efeitos são retardados. Sempre que uma auto- ridade decidir alterar uma posição, os resultados aparecerão nas semanas seguintes. Há inclusive o risco de uma decisão açodada levar à necessidade de retornar à estaca zero, com custos muito maiores.

11 DE ABRIL DE 2020
CORONAVÍRUS

Brasil ultrapassa a marca de mil mortes

Levantamento diário do Ministério da Saúde mostra que o Brasil superou, na sexta-feira, a marca de mil mortes provocadas pelo coronavírus, totalizando 1.056 óbitos. São também 19.638 casos confirmados da covid-19, segundo o governo federal. Em apenas 24 horas, 115 óbitos e 1.781 novos casos foram registrados no país.

Apenas o Estado de Tocantins não registra óbito em decorrência do coronavírus. Já a região Sudeste concentra mais da metade das mortes. A taxa de letalidade brasileira voltou a subir e agora é de 5,4%. O país registrou 36.905 hospitalizações por síndrome respiratória aguda, o que representa alta de 305% em relação ao mesmo período de 2019.

Na sexta, o Ministério da Saúde começou a distribuir um conjunto de 60 respiradores para atendimento de pacientes com quadro grave da doença em três capitais: Fortaleza, Manaus e Macapá.

Os equipamentos devem ser distribuídos pela Força Aérea Brasileira, e a distribuição leva em conta a situação de "espiral" da epidemia, ou seja, um cenário de aumento acelerado de casos.

Até quinta-feira, 920,2 mil testes para diagnosticar a covid-19 foram enviados para os Estados. No Rio Grande do Sul, foram 16,5 mil entregues ao Lacen-RS e outros 28,9 mil testes rápidos distribuídos conforme planejamento da Secretaria Estadual da Saúde.

Uma segunda remessa com um milhão de testes rápidos doados pela Vale chegou ao Brasil nesta quinta-feira e, a partir de segunda-feira, serão distribuídos 570 mil testes aos Estados.

No Rio Grande do Sul, o número de casos de covid-19 chega a 640, de acordo com a Secretaria Estadual da Saúde (SES). O Estado teve ainda mais cinco casos confirmados nesta sexta-feira: dois em Capão da Canoa, um em Passo Fundo, um em Sarandi e um em Sananduva.

Ao todo, são 15 mortes pela covid-19 no Rio Grande do Sul, em oito cidades diferentes. A última foi confirmada na sexta-feira, em Canoas, um homem de 78 anos. Já houve registros em Porto Alegre (6), Passo Fundo (2), Novo Hamburgo (2), Canoas (1), Marau (1), Alvorada (1), Ivoti (1) e São Leopoldo (1).

DÉBORA CADEMARTORI


11 DE ABRIL DE 2020
+ ECONOMIA

"Empresas mesquinhas, sem visão do coletivo, vão acabar"

Daniel Castanho é presidente do conselho de administração da Ânima Educação, grupo com 8 mil funcionários, 12 instituições de ensino superior em sete Estados, nenhuma no Rio Grande do Sul. Propôs a criação do #nãodemita (naodemita.com) há pouco mais de uma semana. Já tem mais de 3 mil adesões de empresas que se comprometem a manter todos os funcionários durante uma crise que piora à medida que o desemprego aumenta. Avalia que a pandemia acelera uma mudança já em curso:

- Empresas mesquinhas, sem visão do coletivo, vão acabar.

Como surgiu a ideia?

Faço parte da ONG Gerando Falcões. O Edu (Lyra, fundador do grupo) ia dar entrevista à TV e sugeri que, além de pedir doação de cestas básicas, apelasse aos empresários para não demitir. Ele não falou, e resolvi escrever um manifesto. Mas pensei: ?com uma pessoa, será revolta, não manifesto?. Liguei para alguns empresários e, em 24 horas, haviam embarcado Santander, Magalu, MRV, Localiza, BRF, Cyrela, Suzano, Alpargatas. Não era mais uma revolta, nem um manifesto, era um movimento.

Como o compromisso de não demitir será monitorado?

Para verificar se as empresas estão cumprindo o combinado, não tem melhor forma do que as redes sociais. Se houver demissões, vão aparecer no LinkedIn, no Twitter, no Instagram.

A adesão surpreendeu?

Tem mais de 3 mil empresas, está crescendo. Vivemos um momento que exige que empresários assumam sua principal responsabilidade social, cuidar das pessoas que ajudam a construir a empresa todos os dias, seus funcionários diretos. Mas também estou provocando para que cuidem dos indiretos, honrando os contratos com terceiros. Se você sabe que uma pessoa que pode pagar demitiu a faxineira e diz que, quando a crise passar, vai ter mão de obra sobrando, você vai achar que é sacanagem de alguém que só pensa nele mesmo. Empresas que tiverem essa atitude com seus funcionários serão julgadas da mesma forma.

O que mudou para permitir o surgimento do #nãodemita?

Está mudando há alguns anos, mas se intensificou com o coronavírus. Não é coincidência que um filme como Parasita tenha ganho o Oscar neste ano. A obra retrata como somos parasitas uns dos outros, mostra a parte pior, mais míope, do ser humano. Se você tem condição melhor, tem de tomar conta de quem não tem. Não adianta dizer que seu dedinho está com uma inflamação, mas o resto do corpo vai bem. Se o dedinho não for cuidado, pode levar à morte.

É uma reação de momento ou uma mudança mais profunda?

É um processo, e a crise é um catalisador desse processo em todo o mundo. Esse movimento surgiu enquanto eu estava em casa. Preso, mas em uma gaiola de ouro. A preocupação maior é ver o que está acontecendo extramuros. Há muitas empresas paradas e podem quebrar. Isso tira o sono. Mas está fazendo o mundo mudar. Há pessoas da empresa trabalhando em hospitais de campanha, fazendo máscaras, fazendo o que for possível. Todos estão pensando em fazer algo a mais do que deve ser feito. Empresas mesquinhas, sem visão do coletivo, vão acabar.

Empresas que participam são mais protegidas, têm caixa?

Tem de tudo, inclusive bem pequenas. O dono de uma, com oito funcionários, disse que teve de tirar dinheiro do bolso depois de assinar o #nãodemita. Tem, inclusive, empresa com problema de caixa. Não há repreensão ou discriminação a quem demite. Ao contrário, há um chamamento a quem pode garantir empregos. Há empresas que vão demitir para sobreviver. É legítimo, se não houver opção e não fizer isso pelo fato de que não tem consciência social. No site, é possível trocar experiências, uma empresa ajuda a outra. As maiores assessoram as menores a se tornar mais online. Estamos fazendo com que se torne um portal, uma curadoria.

MARTA SFREDO


11 DE ABRIL DE 2020
CARTA DO EDITOR

A reportagem e o distanciamento

Olhar nos olhos e captar as emoções de um entrevistado, observando o ambiente e o contexto nos quais ele está inserido, são recursos utilizados por repórteres habituados a exercitar parte de suas atividades fora da Redação Integrada.

Há três semanas, porém, a quase totalidade dos repórteres de ZH e GaúchaZH faz apurações sem sair de casa, sem aferir a "pressão arterial" das ruas. Trabalham em seus escritórios domésticos. Continuam extraindo o melhor de suas fontes, mas, agora, através de telefonemas, de mensagens de WhatsApp, de videochamadas ou pela troca de e-mails. Nesta Carta, conto desafios da reportagem em tempos de distanciamento social.

Em ZH há 22 anos, Larissa Roso gosta de conviver com fontes durante longos períodos. E assim garimpa preciosidades escondidas no cotidiano humano. Sem sair de casa, Larissa tem usado sua sensibilidade e perspicácia de outra forma.

- São muitos telefonemas, muitas tratativas, muitas trocas de mensagens, muitas explicações - conta Larissa, que é formada em Jornalismo pela PUCRS e mestre em Medicina pela UFRGS.

Como os profissionais da saúde são demandados em todas as frentes, entrevistas, que antes eram combinadas sem burocracia, demoram um dia inteiro para serem marcadas. "É angustiante", confidencia. Para controlar a ansiedade, ela usa um "remédio" poderoso:

- Subo e desço os 10 andares do meu prédio. Faço isso 10 vezes, em 43 minutos. É o meu ansiolítico.

Para compensar a distância, Larissa busca detalhes. Às vezes, avisa: "Tu podes achar essa pergunta maluca ou irrelevante, mas vais ver que, no texto, vai fazer sentido". Durante a conversa, tenta imaginar cenários e faz questionamentos de acordo com a narrativa que desenvolve mentalmente em sua cabeça.

- Quando uma enfermeira com suspeita de covid-19 me disse que estava em isolamento, no quarto do casal, e que o filho ficava pedindo para ela abrir a porta, perguntei de que forma ela olhava para o filho. "Abrindo uma fresta na porta, quando me trazem a comida", ela disse. "De máscara?", prossegui. "De máscara", ela respondeu. São dúvidas minhas, cujas respostas vão satisfazer a curiosidade de leitores - complementa Larissa, apaixonada pela escola americana de jornalismo, que preza detalhes à exaustão, apurações pormenorizadas e descrições minuciosas.

O repórter Marcelo Gonzatto, outro especialista em cavar boas histórias, especializou-se em "entrevistar" números da pandemia. Quase todas as reportagens baseadas em estatísticas e banco de dados públicos sobre o coronavírus, em ZH e GaúchaZH, são feitas por ele.

- Felizmente, sempre gostei de estatísticas, de séries temporais, de tentar entender o que os números dizem. Prestar atenção aos números se torna ainda mais importante porque são as fontes de informação mais confiáveis, seja para tomar decisões pessoais de como se proteger ou para subsidiar políticas públicas.

Em casa, Gonzatto pactuou uma nova rotina com os dois filhos: - O meu compromisso é terminar tudo até as 18h para liberar o computador para os guris poderem jogar e fazer as tarefas do colégio. Principalmente para jogar - diz o bem-humorado Gonzatto. 

Como a maioria dos nossos repórteres, evite sair na Páscoa. E fique bem.

CARLOS ETCHICHURY


11 DE ABRIL DE 2020
INFORME ESPECIAL

E rir, pode?

Sabe a última do coronavírus? Acaba de ser divulgado o número de mortos do dia. E as mais novas piadas e memes, que já devem estar chegando ao seu celular. O escritor americano Mark Twain cunhou a definição: "Humor = tragédia + tempo". Só que agora, somada a parcela "internet", todos correm de mãos dadas, em velocidade frenética. Instigado pela relação tão íntima entre dor e riso, me propus a refletir sobre o tema. Pedi ajuda a pessoas que vivem e pensam por ângulos diferentes, no Rio Grande do Sul e fora dele.

A Dra. Patt Schwab é um bom ponto de partida. Ela estabelece categorias diferentes para o humor. O "mórbido" é o primeiro a emergir em tempos de comoção e catástrofe. Identifica as vítimas e joga toda a carga, sem dó, sobre elas. Serve, de acordo com a pesquisadora, para delimitar a separação entre o eu e a tragédia e, assim, iniciar o processo de contato com a realidade. Os memes dos animadores ganeses de enterros, os mais vistos e compartilhados nos últimos dias, são um exemplo atual. Quem morre é o outro, mas consigo, só assim, falar sobre a morte.

O ator e empreendedor cultural Zé Victor Castiel concorda que o riso ajuda a digerir situações difíceis. Acrescenta uma característica ao momento atual:

- Em geral, o humor se constrói com as dificuldades do outro, mas agora não há o outro. Estamos no mesmo barco.

De certa forma, a ideia endossa a ênfase da morbidez nas piadas sobre o coronavírus: é preciso inventar um espaço distante do risco, até para compreendê-lo.

Para a psiquiatra e psicanalista gaúcha Idete Zimerman Bizzi, quando a experiência adversa excede a capacidade de assimilação mental de indivíduos ou grupos, o humor pode ser uma forma saudável de elaboração psicológica, "mantida a dignidade e o respeito humano", completa. Famoso no Brasil inteiro como Magro do Bonfa, André Damasceno é um crítico agudo do politicamente correto. Mesmo assim, ressalta a importância dos limites.

- Dá para brincar com vírus, mas temos que respeitar o sofrimento de quem morreu. O riso é resultado de um desequilíbrio e uma tentativa de reequilíbrio - explica, erguendo uma ponte entre a dor e a comédia.

O corpo humano gosta da gargalhada. O endocrinologista Alex Cioffi trabalha na linha de frente do combate à covid-19 na emergência do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Procurado por mim, sintetizou uma série de estudos científicos e enumerou efeitos positivos do riso: exercita e relaxa os músculos, melhora a respiração, estimula a circulação, diminui os hormônios do estresse, aumenta as defesas do sistema imunológico, melhora a tolerância à dor e a auxilia a função mental.

Entre minhas pesquisas, li textos produzidos depois do 11 de Setembro. Muitos profetizavam a "morte definitiva do riso". Engano. Mesmo nos momentos mais agudos, os humanos usam a piada como defesa e auxiliar digestivo.

O humor comunitário, compartilhado com plateias ou multidões heterogêneas, vive agora uma crise. Mas os grupos de WhatsApp e as comunicações entre amigos e familiares fervilham com estímulos ao riso. É a dimensão necessária de uma certa hipocrisia social, na qual público e privado obedecem a lógicas não apenas diferentes, mas contraditórias. Seria, para muitos, um mecanismo legítimo, uma válvula de escape profilático em tempos de pandemia. Depois de conversar com tanta gente e muito ler, compreendi que não há culpa no riso, mas que ele tem lugar e hora para acontecer.

Navegando por arquivos pessoais em busca de respostas para o aparente dilema entre dor e gargalhada, deparei com a foto, tirada em 2006, de uma parede de Lisboa. Nela jazia, estampada em letras escuras sobre lajotas claras, uma frase do poeta João Patrício, de quem localizei escassas e imprecisas informações. Mas a frase estava lá, a unir o que nosso julgamento moral insiste em separar: "A comédia e a tragédia são alma do mesmo ser. A primeira faz-nos rir. A segunda, entristecer".

TULIO MILMAN

11 DE ABRIL DE 2020
RODRIGO CONSTANTINO

Beautiful people

O coronavírus é um vírus igualitário, que ataca todas as classes sociais sem distinção, ao contrário de doenças mais associadas à pobreza. Com uma taxa de contágio elevada e uma grande necessidade de hospitalização, a pandemia colocou em xeque toda rede hospitalar, inclusive a privada. Os mais ricos, pela primeira vez, descobriram a realidade do SUS: falta leito para doentes.

Diante disso, a solução parece clara para alguns: fecha tudo, paralisa a economia, isola todos e lança a campanha "fiquem em casa". É bem mais fácil defender esse caminho quando se pertence à classe alta, num apartamento confortável, com reservas financeiras e razoável estabilidade de emprego. Para não soar muito desumano, prega-se o uso do Estado para distribuir recursos aos pobres, como se o Estado criasse riqueza.

Nesse clima, a turma da bolha faz diário da quarentena, bate panela contra o presidente, um "sociopata" que fala de economia numa hora dessas, e politiza até mesmo um remédio, só porque foi Bolsonaro quem defendeu seu uso, que parece eficaz. Artistas gravam vídeo para expor sua "consciência coletiva", que só não inclui no grupo os mais pobres. Veja como ensinar seu filho a pintar, diz aquele que pensa que dinheiro cai do céu.

Enquanto isso, os trabalhadores pobres entram em desespero. Ou ignoram as restrições legais. "Como pedir para deixar uma pessoa doente isolada, se a casa da família tem só um quarto, banheiro e cozinha?", pergunta um epidemiologista realista. E conclui: "A situação é delicada e um grande desafio". Um ativista da Rocinha, favela carioca, constata: "Tem uma avalanche de pessoas nas ruas. Acredito que de 60% a 70% das lojas abriram. O mercado popular está funcionando". O mundo fora da bolha não pode parar.

"Quando artistas começam a fazer #fiquememcasa, você sabe que há algo de podre no reino da Dinamarca", alfinetou o filósofo Pondé. O desespero do povo pobre nas favelas e periferias não parece sensibilizar a turma do lacre, a "beautiful people" hipócrita que vive só de aparências. Mas a realidade cedo ou tarde se impõe. O problema das bolhas é que eventualmente elas estouram.

RODRIGO CONSTANTINO