sábado, 13 de fevereiro de 2021


13 DE FEVEREIRO DE 2021
COM A PALAVRA

MEDIDAS RADICAIS (DE COMBATE À PANDEMIA) POTENCIALIZARAM OS PROBLEMAS ECONÔMICOS

Cristiano Aguiar de Oliveira

Economista, 44 anos

Docente na Universidade Federal do Rio Grande (Furg), professor convidado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é um crítico do fechamento das atividades de serviços e comércio no período inicial da pandemia

A relação entre a crise sanitária, as medidas de combate ao vírus e seus reflexos na saúde econômica do país tem sido debatida conforme a pandemia se estende - e seu fim ainda parece distante. Professor da Furg, o economista Cristiano Aguiar de Oliveira é uma das vozes a lamentar decisões como o fechamento de atividades diversas na fase inicial da atual crise. Estudioso de novas tecnologias, de Análise Econômica do Direito e da chamada Economia do Crime, que relaciona os índices econômicos à segurança pública, ele reconhece que a covid-19 espalhou dúvidas e desafiou decisões políticas. Avalia que a vacinação traz "perspectivas boas" para 2021. Contudo, alerta, a tarefa de recompor as perdas não será fácil. Segundo ele, depois da imunização em massa, o Brasil e também o Rio Grande do Sul ainda dependerão do avanço da agenda de reformas. Leia os principais trechos da conversa a seguir.

A ECONOMIA FOI ATINGIDA EM CHEIO PELO CORONAVÍRUS NO ANO PASSADO. QUAL É O CENÁRIO DE 2021 PARA A ATIVIDADE NO BRASIL E, ESPECIFICAMENTE, NO RIO GRANDE DO SUL?

Temos algumas perspectivas boas com o início da vacinação. Mas ainda estamos cercados por incertezas geradas pelo vírus. Entre elas, o surgimento de novas cepas ou eventuais impactos na eficácia das vacinas. É a pandemia que vai nortear a economia neste ano. Então, permanecemos em um cenário de incertezas. Em um período de crise sanitária como o atual, é assim que as coisas funcionam. O vírus é novo. A cada dia, temos novidades, notícias diferentes. Todas as outras possibilidades de mudança na economia exigem alterações de médio e longo prazos. Por exemplo, se reformas forem aprovadas, incluindo a administrativa e a tributária, teremos uma série de ganhos no país. Mas esses ganhos não seriam para este ano. Seriam para o médio e o longo prazos. Já experimentamos algumas políticas na pandemia. Mas microempresas e alguns setores como turismo e entretenimento passam por dificuldades. Então, é preciso gerenciar tudo isso.

COMO O SENHOR AVALIA A CONDUÇÃO DA CRISE SANITÁRIA E ECONÔMICA NO ESTADO E NO PAÍS?

Podemos começar pelo princípio. No início, sabíamos praticamente nada a respeito do vírus e do seu comportamento. Hoje, sabemos algumas coisas. Houve adoção de medidas quando ainda não existiam surtos. Esse descasamento entre algumas medidas e o vírus mostra nosso desconhecimento, nossa dificuldade de lidar com a pandemia como ela se apresentou inicialmente, de controlar a propagação da doença. É algo muito difícil. Tenho dito: espero que essa seja uma grande lição de humildade, para que a gente aprenda que, infelizmente, existem coisas que não sabemos fazer. Víamos muitos políticos dizendo que era preciso fazer isso e aquilo, porque era o que a ciência indicava. Mas percebemos que o vírus seguiu sua trajetória, independentemente de fecharmos isso ou aquilo ou de medidas mais radicais que acabavam sendo uma forma de dar satisfação para o público em geral e a imprensa. O vírus, por si só, já geraria uma série de problemas econômicos, as pessoas já deixariam de viajar, de frequentar locais fechados. Essas medidas potencializaram os problemas.

NA SUA OPINIÃO, EM QUAIS DECISÕES HOUVE ACERTOS? E EM QUAIS HOUVE ERROS?

É muito difícil fazer algum julgamento, porque ainda estamos no calor da situação. Talvez precisaremos de algum tempo para ter uma cabeça mais fria e estudar o tema sem fincar pé em um lado da questão. O que acho que faltou para decisões políticas, e ainda falta, é uma análise de custo-benefício. Sou um defensor da análise de custo-benefício. Acho que, mesmo em situações de incerteza, você consegue fazer essa avaliação com algumas informações. Vou dar um exemplo: no Estado, estamos com um sistema de bandeiras desde maio, e até hoje o governo não apresentou uma avaliação desse modelo. Por exemplo, em determinados locais, com bandeira vermelha ou preta, qual foi o impacto nas hospitalizações? Ou seja, não se fez uma análise mínima das medidas. No país, estamos passando por um problema na questão das vacinas. Há uma ideologização, uma politização das vacinas, sem a busca pelo melhor desenho para imunizar a maior parte da população o mais rapidamente possível. Temos essa dificuldade de avaliação de políticas estabelecidas.

QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS DESAFIOS PARA VOLTARMOS A UMA NORMALIDADE NO PAÍS?

Há uma série de situações que a gente ainda desconhece. Temos de criar desenhos para que as pessoas realmente se vacinem. Nesse sentido, o governo federal, o Ministério da Saúde, responsável pelo processo, está indo mal. O mercado privado já deveria ter sido aberto para que outras vacinas entrassem. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já reduziu exigências, mas é preciso mais. É necessário atingir o maior número possível de pessoas com vacinas diferentes. Há um mercado que hoje não está sendo atendido. Isso gera desequilíbrio. Agora, não é tão evidente, mas vai começar a sobrar vacina para determinados grupos etários e, ao mesmo tempo, vai haver escassez para pessoas que estarão esperando. Então, é preciso abrir o mercado de vacinas, liberar a importação pelo setor privado, de qualquer opção que esteja aprovada. É liberar para que as pessoas com disposição para pagar efetivamente paguem pela vacina e tenham a imunização o mais rápido possível. O pagamento da vacina é um incentivo que o importador e o produtor têm para ofertá-la. No momento em que você diz "tenho no meu país 100 mil pessoas dispostas a pagar US$ 100", a conversa já muda na hora de barganhar a vacina com os fabricantes de fora do país. Hoje, temos a ideia de que vamos fazer compras grandes e convencer os fornecedores de insumos, mas não é assim que o mercado funciona. O mercado funciona com incentivos. Isso quem pode fazer é o setor privado.

COMO SERIA O PROCESSO DE VACINAÇÃO COM A PARTICIPAÇÃO DO SETOR PRIVADO?

O processo seria assim como ocorre com outras vacinas. No caso da gripe, por exemplo, você pode se vacinar em um posto, em uma data específica, ou um laboratório privado fornece a vacina na hora em que você quiser.

CRÍTICOS À PARTICIPAÇÃO DA REDE PRIVADA VEEM AMEAÇAS DE DISTORÇÕES NO ANDAMENTO DO CRONOGRAMA DE IMUNIZAÇÃO. O SENHOR NÃO VÊ ESSE RISCO?

Não. Isso não faz sentido. Em um momento de escassez, a questão não é abrir o mercado para que pessoas furem a fila. É abrir o mercado para criar uma nova fila. Você cria várias filas.

NA SUA AVALIAÇÃO, EXISTE ALGUM PAÍS QUE SEJA UM EXEMPLO NO COMBATE À CRISE SANITÁRIA E, AO MESMO TEMPO, ECONÔMICA, TOMANDO MEDIDAS QUE MINIMIZARAM O IMPACTO DO CORONAVÍRUS NA ECONOMIA?

Tudo isso o que está acontecendo, todo esse cenário de pandemia, é estranho. No ano passado, os países pareceram perdidos. Adotaram comportamento de manada. Uns começaram a tomar determinadas medidas, e os outros seguiram esse caminho. É claro que há medidas restritivas com alguma literatura, sobre aglomeração de pessoas em ambientes fechados, por exemplo. Essas coisas, obviamente, são consenso. Não falo de medidas assim básicas. Fora disso, é muito difícil apontar exemplos de países neste momento. Hoje, em termos de vacinação, Israel está à frente, mas é preciso abrir parênteses de maneira rápida. O que está sendo feito em Israel é uma espécie de experimento, o país resolveu fazer um estudo direto na população, porque confia e imagina que vai funcionar bem. Felizmente, está dando ótimo resultado. Israel é uma referência hoje, mas tem essa pequena observação que, me parece, deve ser feita.

O SENHOR ATUA COMO PESQUISADOR NA ÁREA DE ECONOMIA DO CRIME (ANÁLISE SOBRE RELAÇÕES ENTRE VARIÁVEIS ECONÔMICAS E INDICADORES DE SEGURANÇA PÚBLICA). QUAIS REFLEXOS DA PANDEMIA PODEM SER PERCEBIDOS NESSE CAMPO DE PESQUISA?

São dois aspectos. O primeiro é o efeito visto no ano passado. Houve redução da criminalidade em praticamente todos os lugares do Brasil. É curioso isso. Governantes atribuíram para si os méritos dessa redução. Na verdade, a redução ocorreu com a queda no número de pessoas circulando nas ruas. Então, é muito difícil avaliar qualquer política implementada no ano passado por causa da pandemia. Foi um choque muito grande. As pessoas circularam menos. O segundo aspecto é o econômico ligado ao crime. Aí há um chutômetro, uma intuição de quem pesquisa o assunto. Aparentemente, a situação está sob controle por causa do auxílio emergencial. Há uma literatura bem vasta ligando questões de pobreza e miséria à criminalidade. Se houvesse realmente o choque da perda massiva de empregos sem qualquer tipo de auxílio, a situação seria bastante complicada. Talvez esse seja o choque que vamos começar a perceber agora, com o fim do auxílio emergencial. É algo apenas especulativo, se vamos ter alguma relação entre economia, crime e pandemia. Com o desemprego crescente, pode começar a aparecer algum reflexo na criminalidade. Principalmente, em crimes contra o patrimônio.

EM 2020, O AUXÍLIO EMERGENCIAL CONTEMPLOU CERCA DE 68 MILHÕES DE PESSOAS NO BRASIL. COM A PIORA DA PANDEMIA EM PARTE DO PAÍS, CRESCE A PRESSÃO PELA VOLTA DO BENEFÍCIO. POR OUTRO LADO, O GOVERNO FEDERAL ENFRENTA RESTRIÇÕES FISCAIS. DIANTE DESSE CENÁRIO, É INTERESSANTE RETOMAR O AUXÍLIO? HÁ VIABILIDADE?

Se pensarmos no auxílio como algo temporário, vamos ter um problema. Estamos em um ambiente de incertezas. Entre as questões incertas, está o tempo de duração da pandemia. Você até pode pensar em fazer o auxílio por mais dois, três ou seis meses. Mas, na verdade, você não sabe isso, porque não sabe até onde vai a pandemia. A extensão do benefício ficou complicada. Agora não temos mais o Orçamento de Guerra (medida que permitiu ao Planalto turbinar gastos para enfrentar a crise em 2020). Aí, o governo tem de colocar o custo do auxílio no Orçamento tradicional. A questão é que o dinheiro vai ter de sair de algum lugar. De onde vai sair? Não tenho a menor ideia. Imagino que nem as pessoas que trabalham no Ministério da Economia tenham alguma ideia, porque o Orçamento é muito rígido. Há muitas despesas obrigatórias. O governo não pode, por exemplo, deixar de pagar funcionários públicos ou deixar de cumprir o orçamento do Judiciário. Então, há pouca margem para manobra, mas a ideia é interessante, acredito que seria importante. Claro, hoje em dia é mais fácil falar, mas voltando a um ponto inicial: demos uma paulada grande na economia no início da pandemia, fechando diversos tipos de atividades. Houve impacto muito forte, quando a gente talvez devesse focar em atividades que infelizmente deveriam ser fechadas, como o setor de entretenimento ou turismo. Sabemos que o vírus se propaga em locais fechados ou com grande quantidade de pessoas. A gente poderia ter estendido o auxílio para pessoas como garçons, por um longo período, em vez de dar todo o auxílio para todo o mundo. No momento em que atividades foram fechadas, criou-se um custo muito alto para a sociedade. As pessoas perderam sua fonte de renda. De novo, é fácil falar hoje, mas, naquele momento (início da pandemia), talvez tenha faltado esse tino para dizer que não fazia sentido fechar determinadas atividades, porque geraria um problema a ser custeado, e as pessoas não podem ficar na miséria.

É POSSÍVEL DIMENSIONAR O TAMANHO DO DESAFIO PARA A RETOMADA DA ECONOMIA?

É bom ficar claro que, antes da pandemia, não estávamos crescendo muito. A década passada (2011 a 2020) foi perdida em termos de crescimento. Foi muito pior do que os anos 1980, que ficaram conhecidos como a década perdida. O país está estagnado há muito tempo. Esperar retomada muito forte, no meu ponto de vista, seria irrealista. "Ah, vamos sair da pandemia para um período de crescimento acelerado". Isso é praticamente impossível. Por que estamos estagnados? A lista é longa, mas enumeraria algumas coisas. Entre elas, o péssimo ambiente de negócios, que piorou na pandemia. Hoje, há uma incerteza a respeito dos negócios. Você não sabe se amanhã seu negócio será fechado com o aumento de internações. Em termos de segurança jurídica, saímos piores da pandemia.

ALÉM DA VACINAÇÃO, QUAIS SÃO AS OUTRAS MEDIDAS IMPORTANTES PARA MELHORAR O AMBIENTE DE NEGÓCIOS NO BRASIL E NO RIO GRANDE DO SUL?

Há uma tentativa de fazer muita coisa. A reforma tributária é fundamental para simplificar o pagamento de impostos. Hoje, a legislação é extremamente complexa na área tributária. O Brasil é um dos piores países do mundo para o pagamento de tributos. No caso do Rio Grande do Sul, é preciso resolver o problema fiscal. O governo do Estado teve a "sorte" de conseguir recursos extras (transferências da União) durante a pandemia. O Rio Grande do Sul vai ter de fazer a lição de casa, cortar gastos efetivamente.

OU SEJA, O CAMINHO DO ESTADO É SEGUIR NA AGENDA DE REFORMAS?

Exato. É o caminho, porque tem muita coisa a ser feita. Há muita despesa que deve ser cortada, muita empresa pública que deve ser vendida. Infelizmente, o gasto público está limitado à capacidade de geração de receitas. E quem gera receita é o setor privado, empresas e trabalhadores, que vêm sendo prejudicados.

HÁ MAIS ALGUM PONTO QUE O SENHOR GOSTARIA DE DESTACAR SOBRE O CENÁRIO ATUAL?

Uma coisa que me chateia muito é o que ocorreu ao longo da pandemia. Houve uma espécie de cancelamento do debate. Isso não é bom. Você estabelece um pensamento único de um ente abstrato que é a ciência. É como se eu, economista, dissesse que a ciência econômica é isso ou aquilo. Não é assim que tudo funciona. Quando vamos debater a reforma tributária, por exemplo, há várias ideias e vários caminhos, com custos e benefícios, se você vai tributar mais o consumo ou se vai tributar mais a renda, por exemplo. Há prós e contras para cada situação. O bom debate se faz com a troca de ideias. O que observamos durante a pandemia foi uma espécie de cancelamento do debate.

QUAL É, ENTÃO, O APRENDIZADO DEIXADO PELA PANDEMIA?

A palavra agora é vacina. Problemas no passado foram resolvidos com vacina. E que bom que temos pessoas com capacidade para desenvolver vacinas de muito boa qualidade em pouquíssimo tempo. Essa é a boa ciência. Desde o início, sempre falei que o caminho era esse. Ou você cria uma vacina ou, em tudo o que você fizer, não terá a mínima ideia do resultado.

LEONARDO VIECELI

13 DE FEVEREIRO DE 2021
DRAUZIO VARELLA

REFLEXÕES TRANSGÊNICAS

Os alimentos transgênicos poderão representar, para a saúde pública dos próximos cem anos, avanço semelhante ao do saneamento básico no século 20. A descrição da molécula de DNA, nos anos 1950, rapidamente levou às conclusões que criaram as bases da transgenia:

1) das bactérias ao Homo sapiens, os genes estão localizados entre as duas hélices da molécula de DNA;

2) os genes de todos os seres vivos têm estruturas químicas semelhantes.

A constatação de que os genes possuem estruturas quimicamente idênticas em todos os seres criou a possibilidade de transplantá-los de uma espécie para outra, tecnologia batizada com o nome de DNA recombinante.

Já na década de 1980, essas descobertas levaram à produção de proteínas humanas em bactérias escravas: o gene do interferon humano, transplantado para Escherichia coli, permitiu que uma reles bactéria presente nas fezes produzisse interferon recombinante para tratamento de hepatites, câncer e outras doenças. Pela mesma tecnologia, hoje, são produzidas proteínas preciosas como a insulina, a interleucina 2 e muitas outras. Da mesma forma, as técnicas para introduzir genes humanos no gado leiteiro com a finalidade de obter proteínas de interesse médico, excretadas no leite, chegam à fase de implantação comercial.

Mas, nenhuma aplicação da biotecnologia tem a abrangência da produção de alimentos transgênicos. Inserir genes novos nos vegetais cria possibilidades concretas de obter plantas resistentes às pragas e às intempéries da natureza, capazes de produzir com mais eficiência e de fabricar compostos de interesse médico, como vitaminas, proteínas ou vacinas contra várias enfermidades.

A produção de vacinas em vegetais poderá modificar a história da saúde pública. Por exemplo, introduzir nas bananeiras genes que codificam proteínas existentes na cápsula do vírus da hepatite B pode estimular a produção de anticorpos contra essa doença epidêmica em populações inteiras.

Alimentos transgênicos ricos em micronutrientes para combater deficiências nutricionais responsáveis por patologias graves como o câncer, assim como a possibilidade de vacinar grandes massas populacionais contra a maioria das doenças infecciosas através da ingestão de tomate, alface ou batatas transgênicas, tornam absurda a ideia de abrirmos mão do estudo e desenvolvimento de pesquisas com DNA recombinante.

Por que, então, tanta polêmica sobre os transgênicos? Por causa de duas preocupações totalmente justificadas:

1) Plantas transgênicas causarão transtornos ecológicos?

2) Alimentos transgênicos farão mal à saúde?

A primeira pergunta deve ser respondida objetivamente pelos estudos de impacto ambiental. É fundamental uma legislação que estabeleça com clareza o conjunto de testes necessários para avaliar o impacto a curto e médio prazo da introdução de um transgênico em determinado meio. Desastres ecológicos não interessam a ninguém, muito menos aos cientistas.

Quanto aos consumidores, não podemos esquecer que até hoje jamais foi descrito qualquer agravo à saúde provocado pela ingestão de transgênicos. E que, nos Estados Unidos, país de legislação bastante rigorosa, pelo menos 70% de todos os produtos alimentícios contêm algum ingrediente geneticamente modificado.

Quanto à exigência da prova de que eles não fazem mal à saúde, é preciso não esquecer que estudos positivos são fáceis de serem feitos, enquanto os negativos são difíceis de elaborar, excessivamente dispendiosos e demorados.

Explico melhor: provar que sardinha enlatada faz mal é fácil; basta saber se quem comeu ficou doente (estudo positivo). Agora, provar que não faz mal (estudo negativo) é outra história. Quantos precisarão comê-la? Milhares ou milhões? Deverão ser acompanhados por quantos anos para ficarmos tranquilos? Será seguro comê-las diariamente, ou apenas uma vez por semana, ou uma vez por mês? Quantas dúvidas persistirão no final de um estudo desses?

Só para dar uma ideia das dificuldades, tomemos o exemplo da carne vermelha. Os epidemiologistas da Universidade de Harvard estimam que um estudo programado para definir se a ingestão de carne vermelha aumenta a incidência de ataques cardíacos deveria envolver pelo menos 100 mil consumidores de carne e um número equivalente de abstinentes (grupo controle). Seria necessário acompanhá-los por pelo menos 20 anos, a um custo aproximado de US$ 1 bilhão.

Enquanto não surgirem voluntários para patrocinar uma pesquisa dessas, continuaremos sem saber se comer carne faz mal para o coração. E a carne é conhecida de nossa espécie há 5 milhões de anos!

Os que exigem estudos negativos, para demonstrar que os transgênicos não causarão problemas de saúde a longo prazo, desconhecem a complexidade do tema e ignoram a inexistência de provas semelhantes para a carne, para o arroz ou para a cenoura.

Essa questão é muito relevante para ser decidida por políticos despreparados ou por militantes repetidores de slogans a favor ou contra. Em nossas universidades e, especialmente, na Embrapa há cientistas com conhecimento suficiente para que o Brasil ocupe posição de destaque nessa área; basta um mínimo de vontade política.

O benefício que os transgênicos poderão trazer à humanidade é de tal ordem que não admite discussões apaixonadas. O tema exige preparo intelectual e racionalidade nas decisões.

DRAUZIO VARELLA

13 DE FEVEREIRO DE 2021
MONJA COEN

NÃO FIQUEM SE ACHANDO SUPERIORES A NINGUÉM

Era uma vez um idoso que se deitou para morrer. Estava com dores e mesmo assim, vendo tanta gente chegar, resolver deixar de herança seus ensinamentos finais.

Imagine você morrendo e o povo esperando suas palavras. Com dor e desconforto, não dá para fazer piadas, enrolar, ficar falando blablablá.

O senhorzinho foi direto ao ponto daqueles que se lamentavam e disse:

- Não se lamentem. Tudo que começa termina. Não é meu corpo que vocês amam, mas meus ensinamentos, meus truques, meus conselhos, minha ternura.

Seus truques eram seus meios hábeis de fazer todos despertos. Há gente que vive dormindo, nem percebe o tempo indo e de repente se vê de face com o fim. Quer retroceder, mas não dá.

Esse idoso era um professor e, com certa dificuldade, foi continuando a ensinar: que fossem honestos e éticos, que mantivessem a linha e a dignidade, que não caíssem em tentação - há tantas e disfarçadas que a pessoa não se dá conta e cai numa vala na estrada. Mas quem consegue estar presente, atento e resistente vive no mundo como uma tocha acesa no meio da escuridão.

Falou ainda que deveriam estar sempre perto uns dos outros, dando apoio, compartilhando e colaborando para que a lei verdadeira jamais se perdesse e que todos pudessem ser muito ativos na transformação da ignorância em sabedoria. Tarefa - não tarefa, pois no fundo não haveria nada a ensinar, ninguém a aprender, pois nada tem uma autoidentidade substancial fixa e permanente.

Logo, não fiquem se achando superiores a ninguém. Nem pensem que são dotados de estilo, inteligência acima das outras gentes. Tomem cuidado para não se perderem, se confundirem, serem provocados pelos apegos e aversões, desejos e aflições. Há um caminho de liberdade, e esse é o da verdade. Procurem estar sempre em boa companhia e saibam que a melhor de todas é sempre a sua mesma, sozinho.

Ele falava da grandiosidade do isolamento. Do prazer de estar a sós, de sentar em noite quente, olhar a lua e as estrelas, reconhecer o silêncio mesclado de todos os sons. Saber-se interligado a todas as galáxias e que nunca, nunca, nunca está só.

Ele falou bonito, de comover, de chorar. Estava cercado por todos os bichinhos, de elefante a besourinhos, de seres celestiais e terráqueos. Esse senhor de 80 anos não ficou na fila para a vacinação. Naquela época, não havia. Nem coronavírus nem pandemia.

Foi morrendo devagarinho. Inspirando e expirando em plena atenção. Que fossem justos e dignos, respeitando a cada irmão.

Reconhecendo nas mulheres suas mães, irmãs e amadas para serem sempre dignificadas, honradas, acolhidas e reconhecidas como grandes parceiras, que todos podem manter a mente da equidade, mente desperta.

Depois silenciou. Tudo silenciou. Contam que foi cremado e suas cinzas espalhadas pelos reinos mais sagrados.

Até hoje nos lembramos. Seria em 15 de fevereiro o dia de sua despedida dos amigos, das amigas, dos irmãos e das irmãs. Entrou parinirvana - a grande tranquilidade. Capaz de controlar a si mesmo na vida e no morrer. Deixou muitos sucessores e sucessoras - a mim, me honra ser uma herdeira.

Sou de Buda uma filha, amiga, discípula e parceira. Transmitir seus ensinamentos, viver como ele viveu, seguir assim os preceitos é ser quem sou, mesmo sem perceber que quem escreve não é nem deixa de ser alguém.

Mãos em prece.

MONJA COEN

O CLUBE DOS IDEALISTAS

"A ética do dever define nossas obrigações como membros de uma comunidade, enquanto que a moral define nossas obrigações como indivíduos." (Hegel)

O Clube do Imperador é o meu filme predileto para mostrar a importância da figura do professor como instrumento de construção dos melhores modelos de cidadãos do futuro.

William Hundert (Kevin Kline, num papel monumental) é professor de uma escola preparatória para rapazes que recebe como alunos a classe alta da sociedade americana. Lá, Hundert dá lições de moral para serem aprendidas, por meio do estudo de filósofos gregos e romanos. O clima respeitoso em relação ao professor é quebrado pela chegada de Sedgewick (Emile Hirsch), o filho de um influente senador que rapidamente entra em confronto com as posições do docente, questionando a importância do que lhes é ensinado. 

Porém, apesar dessa irreverência, Hundert, impressionado com a inteligência do rebelde, acha que pode colocá-lo nos trilhos da dignidade e chega a favorecê-lo com uma nota melhor do que realmente alcançara, para que ele pudesse participar de um desafio cultural que era o grande evento anual na escola, o Concurso Júlio César, sobre a história da Roma antiga, seus múltiplos e seus controversos personagens. A descoberta de que o rebelde, cumprindo a sina de escorpião, trapaceara deixou o mestre arrasado. Ele, claramente, investira no mau-caráter e se penitenciava pelo que considerou um fracasso como educador.

Passam-se os anos e, um dia, o professor, já velhinho, é convidado por Sedgewick, agora pai de família e candidato à sucessão do pai no Senado, a reviver o Júlio César, num luxuoso spa da sua família onde estariam presentes todos os ex-colegas da turma, numa pretensa oportunidade de redenção pelo ocorrido, 30 anos antes.

O cerimonial se reveste de grande pompa, e no final o professor percebe que nada mudara (tem gente que acredita que o caráter pode ser modificado com educação!) e que, com um sofisticado dispositivo eletrônico no ouvido, a fraude se repetira.

O encontro dos dois no banheiro, depois desse incidente, é antológico. O mau-caráter interrompe o último sermão moralista do mestre e, supondo-se sozinho com o professor, na maior cara dura, discorre sobre as vantagens de uma trapaça inteligente, e que o mundo era dos espertos, e o quanto ele já lucrara com isso. A soberba desse discurso era o atestado da irreversibilidade do caráter. O problema inesperado é que seu filho também estava no banheiro e ouviu toda a conversa.

O que esperar do menino que o idolatrava, e que além do DNA distorcido ainda amargaria pela vida o exemplo do pai?

Por mais que o professor tivesse recebido um comovente retorno afetivo dos outros alunos, certamente carregaria pela vida a tristeza do caso malogrado.

Sempre comparo essa frustração com a do médico que salva dezenas de pacientes, mas isso nunca consola nem alivia a carga pelo caso perdido.

J.J. CAMARGO 


13 DE FEVEREIRO DE 2021
DAVID COIMBRA

O perdão para ser feliz

O brasileiro espera. Trata-se de uma atividade nacional. Ou, no caso, inatividade. Mais ainda: trata-se de um sentimento. O brasileiro sente que precisa esperar.

Nos anos 1960, Chico Buarque lançou Pedro Pedreiro, contando sobre um personagem que passava a vida esperando o trem, esperando o sol, esperando o aumento para o mês que vem. Não é a melhor música do Chico, mas ele acertou em cheio: o homem comum do Brasil, o que ele faz é esperar.

Ele espera por dias melhores, tudo bem, todo mundo espera por dias melhores, mesmo que os dias do presente sejam ótimos. Mas não é só isso. O brasileiro tem necessidade íntima de esperar.

Agora, nos primeiros dias da vacinação contra a covid, em Porto Alegre, as pessoas correram de madrugada para os postos de saúde. Ouvi na Gaúcha que os filhos de alguns idosos passaram a noite na fila, em frente ao posto fechado. Aí, de manhã, o lugar abria e as pessoas eram vacinadas com tranquilidade. Em pouco tempo, a fila se desfazia e quem chegasse saía em cinco minutos.

Por que a ânsia de ir para a fila e esperar a noite toda ao relento?

Porque dá ao homem a sensação de merecimento. Ele fez um sacrifício para ganhar aquela benesse, ele não é um privilegiado.

Surge aí outra palavra-chave do inconsciente coletivo brasileiro: privilégio.

Há seis anos, a Seleção Brasileira realizou um amistoso contra os Estados Unidos no estádio dos Patriots, na periferia de Boston. O Zé Alberto Andrade cobria o jogo pela Gaúcha, e me juntei a ele para escrever para a Zero Hora.

Esse estádio dos Patriots não é só dos Patriots. É também do time de futebol da região, o Revolution. E tudo, estádio e clubes, tudo pertence a um bilionário local chamado Robert Kraft, que é de Brookline, onde morei, e estudou na mesma escola (pública) em que meu filho estudou. Outro aluno ilustre dessa escola (pública, pública!) foi John Kennedy. Para você avaliar a qualidade da educação (PÚBLICA) naquele naco dos Estados Unidos.

Mas estou tergiversando. Voltemos ao estádio, que é bastante imponente. Para jogos de football, reserva quase 70 mil lugares; para os de futebol, quase 90 mil. Todos os jogos do Patriots alcançam lotação máxima. Todos.

No dia do treino da Seleção, o Patriots trabalhou antes do Brasil. Nós estávamos perto do vestiário, jornalistas e jogadores brasileiros, e aqueles caras vieram de lá, dentro daquelas armaduras deles. Quando chegaram perto, ficamos boquiabertos. Eles são GIGANTES! Não só altos, mas grandes como ursos. Alguns, gordos. Homens de 130 quilos de peso e dois metros de altura. Os zagueiros do Brasil pareciam menininhos perto deles. O Neymar observava-os, mudo e lívido. Provavelmente imaginava o que seria dividir uma bola com um monstrengo daqueles.

Bem, mas o que ia contar é que os repórteres não teriam acesso ao gramado durante o jogo, e o Zé Alberto resolveu fazer algo a respeito: escreveu um longo e-mail em inglês pedindo liberdade para trabalhar, expôs suas boas razões, fez ponderações. Mostrou-me o texto. Estava bem escrito, bem fundamentado.

- Mas olha, Zé - disse para ele -, nem precisava tanto. Bastava perguntar se pode. Se puder, eles deixam. Se não puder, não deixam, e não tem mais conversa.

Não deu, e não teve mais conversa. Duvido mesmo que tenham lido o e-mail. Porque o americano é duro e reto nisso: se você reivindica algo e tem direito a tal, ele responde "sure", claro, e é seu; se não tem direito, ele sorri e diz "sorry", desculpe, e não adianta insistir. Não haverá privilégio. Nem prejuízo.

O brasileiro, ao contrário, sabe que, para obter inclusive o que lhe é de direito, terá de contar com privilégios. Forças ocultas estão sempre à espreita para lhe tirar o que tem ou o que deveria ter. Então, o brasileiro se explica e se esforça para provar que não é à toa que ganhou um benefício qualquer. Donde, a conformação com a longa espera, e mais até do que conformação: o apreço. O regozijo. Pois o sacrifício da espera justifica o bem adquirido e redime o brasileiro da culpa de ter conseguido aquilo que outros queriam. Então, o brasileiro não se importa de esperar. Ele aceita a espera, sublima-se nela. A espera lhe dá o perdão para ser feliz.

DAVID COIMBRA

13 DE FEVEREIRO DE 2021
FLÁVIO TAVARES

VACINA É VIDA

A peste da covid-19 inaugurou um período de medo e cuidados tão extremos, que, em contrapartida, fez a ciência desdobrar-se em pesquisas, mundo afora, e obter uma série de vacinas em tempo rápido, jamais visto na história da medicina. Em menos de um ano, temos uma dezena de vacinas desenvolvidas em diferentes métodos.

Se, no Brasil, não chegaram ainda ao grosso da população, deve-se unicamente à desorganização e reboliço do governo federal sob comando do próprio presidente da República. Primeiro, ele desmobilizou a população, tachando a pandemia de "gripezinha". Depois, criticou "a pressa" em desenvolver a vacina. Ao comprovar-se a eficácia da primeira delas, Bolsonaro frisou que "não se vacinaria". Enquanto isto, no Amazonas os infectados morriam asfixiados por falta de oxigênio.

No alto do poder, a peste mais devastadora da era moderna seguia sendo apresentada como um resfriado comum. Mais de 7 milhões de testes para detectar a pandemia continuam armazenados no aeroporto internacional de Guarulhos (SP). Prestes a vencer, 1 milhão deles irão para o miserável Haiti.

Paralelamente, o governo federal gastou centenas de milhares de dólares no estrangeiro comprando cloroquina, útil na malária e inútil (e perigosa) na covid-19, mas preferida por Bolsonaro.

Essa soma de disparates engendrou um estranho e absurdo movimento de negação da vacina, que se alimenta da ignorância das tais "redes sociais" que a telefonia celular transformou em comunicação direta.

A TV e a imprensa mostram o impacto da peste, enquanto as tais "redes" inventam absurdos sobre as vacinas. O mais grotesco mente que a vacina "pode mudar o DNA" pessoal e nos fazer meros robôs?

Para honrar a lucidez e a inteligência humana, cada um de nós, ao vacinar-se, propagará a vacina, mostrando que amamos a nós mesmos e ao próximo.

Outra vez, a mais respeitada rede de TV do país apresenta o programa Big Brother Brasil como "atração" e chama de "astros" um punhado de moços e moças em diálogos grosseiros e tolos. Quem melhor suportar a grosseria receberá R$ 1,5 milhão e se tornará "famoso".

Agora, em plena pandemia, o BBB virou modelo do absurdo, beirando a estultícia. Sem máscaras, muitas vezes em roupas íntimas ou de torso nu, proferem tolas intimidades como se fossem opiniões sobre o mundo e a vida, tudo num ambiente promíscuo, em meio a camas desarrumadas ou louça por lavar.

O palavreado tosco e chulo será modelo para a vida em si? Ou o absurdo atrai?

FLÁVIO TAVARES

13 DE FEVEREIRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

VACINAÇÃO AOS SOLAVANCOS

Os resultados da aposta equivocada do governo federal em fechar contratos com poucos fornecedores de vacinas contra a covid-19 voltaram a aparecer. É preocupante que, em meio ao agravamento da pandemia no país, saiba-se que muitas capitais brasileiras, com os estoques perto do fim, admitam grande risco de terem de interromper momentaneamente a campanha de imunização nos próximos dias. O problema, provavelmente, é bem mais disseminado. A saída encontrada em meio à escassez de doses e à incerteza tem sido restringir o público-alvo, diminuindo o ritmo de vacinação de profissionais da saúde e da população idosa.

O Conselho Nacional de Secretários Estaduais da Saúde (Conass) projeta que, em algumas localidades do país, serão registrados alguns dias sem imunização. Grande parte das doses em posse das prefeituras tem de ser reservada para quem já tomou a primeira aplicação. Para a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), mesmo que existam contratempos operacionais em Estados e municípios, o solavanco reflete, em primeiro lugar, a falta de doses. 

Os problemas, alerta a entidade, tendem a se repetir pela previsão de novos episódios de descontinuidade no fornecimento. É um sinal de que a vacinação de todos os brasileiros pode demorar ainda mais, apesar da previsão do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. No Senado, na quinta-feira, Pazuello prometeu vacinar metade da população apta a receber o fármaco até junho e o restante até dezembro. Levando-se em consideração apenas a competência da pasta demonstrada até agora, é uma estimativa que parece exageradamente otimista.

A situação se torna mais inquietante pela inexistência de previsão, pelo Ministério da Saúde, de distribuição de novas remessas nos próximos dias. O Instituto Butantan tem programação de entrega de 8,6 milhões de doses, mas apenas a partir do próximo dia 23. Em Porto Alegre, a informação da prefeitura é de que os estoques são suficientes para todas as pessoas acima de 85 anos e 80% dos profissionais de saúde que trabalham em hospitais. Mas, por enquanto, não há confirmação de datas para novas entregas pelo governo federal.

O Banco Central (BC) mostrou, na sexta-feira, que a atividade no Brasil em 2020 caiu 4,05% pelo IBC-Br, considerado a prévia do PIB. O ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente do BC, Roberto Campos Neto, já disseram e reafirmaram que uma reação robusta e a melhora do mercado do trabalho dependem da vacinação em massa. Será benéfica, inclusive, para o novo auxílio emergencial não demandar um esforço fiscal tão custoso.

Países como Israel e Estados Unidos já apresentam, com o avanço de suas campanhas, queda considerável nas hospitalizações por covid-19. Mesmo por poucos dias, interrupções significam elevar a contabilidade lúgubre que, no Brasil, soma quase 240 mil vítimas fatais e um doloroso número de mortes diárias próximo de 1,5 mil. É preciso corrigir erros e investir energia na aquisição de mais vacinas, também de novos fornecedores, para acelerar a imunização, salvar vidas e fazer a economia recobrar forças.

 


13 DE FEVEREIRO DE 2021
MARCELO RECH

Idadômetro na pandemia

A pandemia estabeleceu uma nova leva de sinais para identificar se você está - ou onde está - naquela fase que dizem ser da melhor idade. Pode ser uma boa fase, mas se não está fácil pra ninguém, imaginem para nós, ops, quero dizer, para aqueles que têm mais de 60 anos. Para saber se está ficando velho mesmo, confira se você se encaixa em uma ou mais das situações abaixo.

- O nariz tem dificuldade de ficar sob a máscara.

- Você toca na máscara enquanto fala.

- Você esquece de tirar a máscara em casa.

- Você não lembra onde largou a máscara.

- Os filhos passam uma carraspana porque você deu um pulo no banco "pra ver o saldo".

- Você ganhou dos filhos no Natal um celular supermoderno, mas não tem a menor noção de como baixar ou usar aplicativos.

- Você acha que pagar conta pelo celular é coisa de ficção científica.

- Quando a família liga pelo WhatsApp, você pergunta pela 1.213ª vez como faz para acionar o vídeo.

- Você coloca o celular no ouvido com a câmera ligada, propiciando à família conhecer a fundo seu tímpano.

- Alertado, você mantém o celular apontado para o teto e deixa só a testa à vista.

- Você ainda está tentando descobrir onde fica a câmera frontal do celular.

- Você precisa de uma cadeira na porta de casa para tirar ou colocar os sapatos antes de entrar ou sair.

- Você desconfia da internet e não digita o número de seu cartão para compras online.

- Você confia naquele moço simpático que pede seus dados por um motivo que parece razoável e cai em um golpe por telefone ou pelo WhatsApp.

- Você vê uma série histórica na Netflix por semana.

- Você liga toda semana para os filhos para perguntar como faz para colocar a Netflix na TV.

- Você recorre à TI dos netos para fazer qualquer coisa diferente no computador.

- Você evita aglomerações mas bate longos papos com o porteiro ou qualquer um que o cumprimente.

- Você se anima porque é dia de ir ao supermercado no horário dos idosos.

- Seu carro anda oito quilômetros por semana, o equivalente a duas idas ao supermercado.

- Você xinga o prefeito porque vê que em outras cidades já vacinaram os da sua idade.

- Você já escolheu a roupa com que será vacinado.

- Você acompanha as boas e más notícias sobre as vacinas como se fosse um Gre-Nal e roga praga em tudo o que atrasa a vacinação. Que chegue logo a bendita!

MARCELO RECH

13 DE FEVEREIRO DE 2021
J.R. GUZZO

Epidemia dentro da epidemia

Trata-se de algo que já ficou evidente há muito tempo, mas estudos recentes estão insistindo, cada vez mais, na multiplicação, na variedade e no agravamento dos problemas mentais causados pelo tratamento que os governos e as autoridades médicas estão dando para a covid-19. É como se houvesse uma epidemia dentro da epidemia.

Agravar diariamente o pânico da população, com a repetição maciça de advertências, alarmes e ameaças sobre o risco fatal que todos estariam correndo, sem exceção, é um fator-chave para a propagação de distúrbios psicológicos. E forçar as pessoas a ficar "em casa" e dificultar ao extremo as possibilidades de uma vida normal é uma fórmula altamente eficaz para garantir o desequilíbrio nervoso de uma parte importante da população - a começar pelas crianças.

Os militantes do "distanciamento social" por tempo indeterminado dizem todos os dias que a população, dos dois anos de idade até os cem, deve se limitar, como dever cívico, moral e "científico", a não se envolver em nenhuma atividade que não seja "essencial". Qualquer zé mané vive repetindo esse mantra - governadores, prefeitos, promotores públicos, juízes de direito, guardas municipais e toda essa multidão de "cientistas" que os governos penduraram à sua volta. Qual a autoridade ou o conhecimento que cada um deles tem para definir o que é "essencial"?

As principais vítimas do fanatismo no trato da covid-19 têm sido as crianças. Todos os sábios descritos acima decidiram, para o bem comum, trancar as crianças numa prisão; há um ano não podem ir à escola, não podem brincar, não podem chegar perto de outras crianças (nem de adultos), não podem ir ao playground, não podem fazer nada. São ameaçadas o tempo todo: "Você vai matar o seu avô se não ficar quieto". Para eles, a vida tem de se resumir à tela do joguinho, ao "ensino remoto" e ao delivery. Como alguém pode esperar que um negócio desses vá dar certo?

Esses campos de concentração domiciliares criados pelos "gestores" da epidemia não atingem por igual a todas as crianças. O estrago maior está sendo feito da classe média para cima; os pobres já têm o seu próprio inferno permanente. Seus pais não podem ficar "em casa", pois precisam trabalhar todo dia para garantir o "essencial" da turma que manda.

O preço do confinamento está sendo cobrado, além da devastação econômica, da perda de empregos e de outras desgraças, numa infecção alarmante de casos de estresse, ansiedade, medo, apatia, agressividade, neurastenia, paranoia, egocentrismo e todo o resto da extensa coleção de males que preocupam a psiquiatria. Os líderes e crentes da quarentena alegam que tudo isso é um mal necessário, que deve ser aceito para "salvar vidas". É falso. O confinamento radical não impediu que o Brasil chegasse às 250 mil mortes desde o início da epidemia; é um remédio inútil e responsável pelos piores tipos de efeito colateral.

*Conteúdo distribuído por Gazeta do Povo Vozes - J.R. GUZZO

sábado, 6 de fevereiro de 2021


06 DE FEVEREIRO DE 2021
LYA LUFT

Encontros e desencontros 

Na vida, essa estranha máquina que nos carrega, nos transforma, nos faz felizes ou solitários, passamos uns pelos outros, rapidamente, demoradamente, ou em uniões e amizades permanentes, essas que resistem ao tempo e nos confortam quando mandamos um recado, um olhar, um whatsapp, um e-mail, ou até um pedido silencioso, preciso ombro, escuta, resposta, ah, a importância das respostas.

E assim vamos de amado em amado, amigo em amigo, grupo em grupo, como crianças em ciranda (ainda se faz isso?) trocando de mãos, de lado, estando no centro ou fora do círculo. Não controlamos a maior parte desses acontecimentos que nos exaltam ou nos deixam de coração partido, por dias, meses, anos ou... sempre.

Lembro de na infância só conseguir dormir tranquila, de verdade, quando o carro de meu pai entrava pelo portão, passava debaixo da minha janela, entrava na garagem: meu mundo ficava em ordem. Alguém um dia me diria: quando você está aí, meu mundo fica em ordem.

Há uma beleza comovente nessas ligações, mas há também uma imensa fragilidade naquele que está mais ligado, precisado, talvez encantado do que o outro. O que inevitavelmente acontece, nas melhores relações, amizades, amores.

Não há defesa contra esse sofrimento, que pode ser muito sutil, mas lá está. Inevitável vida, insuperável condição humana, todos no fundo uns pobres coitados, assustados, carentes, ou enganosamente prepotentes.

Há décadas escrevo sobre isso, de alguma forma: a incomunicabilidade causando dor, os mal-entendidos separando, a falta de coragem para falar isolando, quando queríamos união, bem-estar e segurança pelo afeto do outro. Alguma forma de presença boa, ainda que virtual. Que, aliás, em geral ele também queria dar. Mas a humana condição nem sempre permite. O medo, medo de assustar, de ferir, de ser ferido.

Esse assunto, sobre o qual tanto escrevi e escrevo, me cansa um pouco. Por que não podemos ser mais felizes? Ou ser felizes por um pouquinho mais de tempo? Seja lá o que isso signifique para cada um.

Neste momento, uma grande mancha, uma sombra escura e pegajosa se espalha sobre o planeta e atinge a todos nós, os que tivemos, teremos ou nos salvaremos da Peste moderna chamada covid, em que vários ainda não acreditam. Morrem centenas de milhares, e ainda há quem ache trama de impérios ávidos, de políticos assassinos, subserviência de povos ignorantes e miseráveis.

Seja como for, há desencontros por causa disso, por incrível que pareça: nos zangamos com quem acredita no vírus, nos irritamos com quem não acredita no vírus. Se não for política, agora a enfermidade, ou a possibilidade dela, provoca discordâncias, xingamentos, hostilidades.

Botam à prova nossa humanidade melhor, a que quer amar e ser amada, seja com que forma de afeto for, amizade, desejo, amor, não importa. Parceria. E, assim, o vírus não só mata pessoas, mas relações: que pena, que pena, que absurdo beirando o ridículo, se não fosse tantas vezes trágico.

LYA LUFT

06 DE FEVEREIRO DE 2021
MARTHA MEDEIROS

Adorável esquisitice 

Nunca tinha ouvido falar de Fran Lebowitz. Seu sobrenome me remeteu instantaneamente à fotógrafa Annie Leibovitz (frutos do mesmo pé, pensei), mas logo percebi que era ilusão de ótica: o "w" de uma não dialoga com o "v" da outra. Em comum, apenas o talento, cada uma com o seu.

Nos anos 1970, Fran assinava uma coluna na revista Interview, de Andy Warhol, e dali saltou para os livros de crônicas e participações em programas de entrevistas, onde dá respostas ácidas e cômicas para qualquer pergunta, sobre qualquer assunto: virou cult. Uma espécie de Dorothy Parker, também ela uma crítica perspicaz da sociedade norte-americana, falecida em 1967.

Além da verve afiada, Fran tem como grande amigo Martin Scorsese, que a dirigiu na série queridinha do momento, Faz de Conta que Nova York é Uma Cidade, e que tornou popular, entre nós, esta adorável estranha - estranha não apenas no sentido de desconhecida, mas também na aparência, com seus ternos Saville Row e botas de cowboy, um look andrógino que ela mesma reconhece como esquisito, mas que é seu uniforme desde garota.

Adorei conhecer Fran Lebowitz e seu sarcasmo, suas neuras, sua inteligência. Alguém dirá: claro, ela é a personificação de Woody Allen! Idênticos eu não diria que são, o cineasta está mais bem pontuado no meu ranking, mas a comparação procede. Há quem não goste do estilo ranzinza de ser, e já ouvi comentários desabonadores sobre este tipo de (mau) humor que detona com tudo o que o senso comum idolatra - no caso da série, a cidade de Nova York.

Eu gosto de quem é crítico em relação ao que ama. Quando Fran fala sobre os bueiros, o metrô, os pedestres que não cruzam olhares ou a especulação imobiliária, não está pensando em fazer as malas e partir: ela está declarando seu amor a uma metrópole que jamais conseguirá abandonar. Nós também somos mais críticos com nossos familiares do que com amigos: quando o vínculo é vitalício, desejamos nada menos que uma relação perfeita, e por isso somos mais severos e impiedosos. Aos que não têm o nosso sangue, aí sim, toda a condescendência do mundo.

Casamentos, mesma coisa. Quando o parceiro ou parceira encasqueta com nossos defeitos e tenta (sem sucesso) consertá-los, é chato, mas tem amor incluído. Alerta eu fico é quando o outro deixou de se importar. Quero que ao menos se divirta implicando com minhas manias, enquanto eu me divirto com suas excentricidades. Esquisitices sempre trazem embutida alguma ternura e nos fazem rir - quando não nos apaixonam. Eu, por exemplo, me apaixonei por Fran, pela série e ainda mais por Nova York. Impossível resistir à sedução de quem sabe encontrar os argumentos certos para combater o que está consagrado, apesar da rabugice. E, melhor ainda, não sendo parente meu.

MARTHA MEDEIROS

06 DE FEVEREIRO DE 2021
CLAUDIA TAJES

O bloco do Fica em Casa

Estou me guardando para quando o Carnaval não chegar. E olha que, nesse ano, a variedade de fantasias seria grande, a se considerar o bloco dos mascarados que é maioria na avenida - isso a despeito dos que fantasiam que a vida está normal, olelá, olalá.

Não faltariam opções na hora de escolher o figurino.

Odalisca de máscara cirúrgica bordada com paetês.

Havaiana de máscara tripla estampada com flores.

Pirata com uma caveira de strass aplicada na máscara preta.

Mulher-Maravilha com um MM dourado na máscara. Ia ter gente me confundindo com a Martha Medeiros, e pedindo autógrafo.

Se o Carnaval chegasse em 2021, fantasia alguma estaria completa sem a máscara. Ah, mas eu pretendia ir só de tapa-sexo com o símbolo do meu time. Se não usasse também a máscara com o símbolo do seu time, você se sentiria nua.

Sair sem máscara é o verdadeiro atentado ao pudor.

Estou me guardando para quando o Carnaval não chegar. Aquele eterno plano de passar a noite no Sambódromo, dessa vez, será adiado sem culpa. Não por mim, é que esse era o sonho da minha mãe. Um dia, quando percebeu que não sairia do hospital, ela disse: "E vê se vai no Sambódromo, eu queria tanto e não vai dar tempo". Não é exatamente uma dívida, mas a cada Carnaval que não vou, renovo a fatura para o ano seguinte.

Em 2022, sem falta.

Estou me guardando para quando o Carnaval não chegar. Pela primeira vez, deu vontade de não fugir da confusão, quem sabe até estrear em um bloco, a alegria de ocasião contaminando mais do que o coronavírus. A capacidade de ser alegre por uns dias, hora marcada para começar e terminar, bem que podia nascer com todos. Vou tentar desenvolver a minha.

Estou me guardando para quando o Carnaval não chegar. Mas o Carnaval na Câmara dos Deputados foi comemorado antes. O bloco do toma lá, dá cá saiu forte e elegeu o sujeito que é réu por corrupção em duas ações no STF. Fora as acusações de violência doméstica. É o Brasil fantasiado de nova política. Quanto riso, ó, quanta alegria.

Estou me guardando para quando o Carnaval não chegar. Entre pagar um preço digno de Exterior no nosso litoral, e isso para ir à praia só em rápidos horários de pouca gente na areia, talvez seja melhor ficar dentro de casa sem pagar nada. O que se deve fazer e o que se tem vontade de fazer, a inevitável luta do humano. Devido a tudo, o jeito hoje é deixar a razão vencer.

Estou me guardando para quando o Carnaval não chegar. Mas deixa chegar a minha vez na fila da vacina.

Eu me vingo.

CLAUDIA TAJES

06 DE FEVEREIRO DE 2021
LEANDRO KARNAL

AMOR, SUBLIME AMOR

Ele ronca. Muito. Ela fica sem sono e irritada. O evento começa, invariavelmente, às 3h da manhã.

Há mais... Ela também se irrita com o hábito dele de não utilizar jogos americanos ou toalhas para comer. A mesa está arranhada.

O sexo decaiu, mas ambos estavam preparados para o evento. Talvez fosse até um alívio. O espaçamento entre as ocasiões eróticas despertou uma desconfiança no começo. "Haveria outra ou outro?", pensavam os dois. O caso não era de desejo que fugia do leito matrimonial para irrigar sofá de amante. Era apenas o declínio da vontade de ambos que, curiosamente, atribuíam ao cônjuge. Não aguentavam mais, sequer, o som da voz dela e dele. Mesmo os gestos delicados pareciam irritar. Aliás, o silêncio também irritava, tanto quanto a voz. As piadas dele, repetitivas, causavam uma raiva incontrolável da parte dela. Ela passava o dia ao celular e o olhar dele fuzilava esse hábito.

Casaram-se por amor, sim; apaixonados, até. Não havia um adultério. Inexistiam vícios ou violência. Tudo parecia ser, como ele dizia para amigos, "desgaste de material". De tanto rodar, mesmo sem buracos ou acidentes, o carro apresentava barulhinhos iniciais, peças corroídas e, por fim, pane total. Ela dizia para a melhor amiga que ele era acomodado. Ele era arrastado para os eventos mais elementares como Natal na família dela. Nos aniversários, 10 segundos após os parabéns, o marido queria ir embora.

Por que continuavam casados? Basicamente porque, para romper uma relação (sem violências etc.), você precisa de uma crença romântica. Faltava aos dois tal convicção. Qual seria tal fé? Não deu certo entre nós, porém, em algum lugar dessa combalida humanidade, existe uma cara-metade, uma pessoa com meu ritmo e jeito, um côncavo para meu convexo, ou, menos poeticamente, um chinelo velho para meu pé com joanetes. Os dois desdenhavam da utopia amorosa. O andar do carro com melancias, segundo velha metáfora rural, não ajeitara as pesadas frutas rasteiras sobrepostas na carroceria. Era mais grave, a estrada fora sem incidentes, e os condutores não acreditavam mais no sentido de dirigir ou de comer melancias...

Deixaram de rir um do outro. Ambos tinham tantas coisas deliciosamente ridículas que seria algo interessante para um escritor cômico. Chegaram a ponto de uma Guerra Fria sem choques atômicos, com alguma espionagem, dois ou três acordos de leniência e algumas delações premiadas de parentes.

Obrigados a um evento em comum de uma prima mais insistente do que talentosa, compareceram a um teatro para a encenação de Romeu e Julieta. De repente, viram-se rindo nos momentos mais inadequados. Não eram as ambiguidades vulgares da Ama, risíveis ao extremo. Eram as declarações de amor... Romeu queria jurar pela Lua? Os dois seguraram a boca para não causarem escândalo público. Debatiam os infelizes amantes se era um rouxinol ou uma cotovia que cantava ao longe após a noite de amor total? Ele não se aguentou e disse baixinho: "Daqui a três anos será um urubu...". Ela ouviu e não se aguentou. O riso foi tão estridente que os atores pararam no palco, para alegria da memória do Bardo. O público fuzilou. Eles pediram desculpas e se seguraram. Por fim, diante da gelada tumba dos Capuletos, entre venenos e adagas, na longa cena da morte teatral dos dois apaixonados, foi incontrolável. Ele e ela desataram em gargalhadas e tiveram de sair da plateia, perdendo o final iminente da peça e a estima da prima insistente.

Em distância segura e indo para o carro, voltaram a rir de forma como não faziam havia anos. Engasgavam com a veia cômica. Repetiam, de forma irônica, as falas dos apaixonados. Profetizavam o desastre se tivessem atingido, como eles, as bodas de porcelana (20 anos). Então, perto do carro, em um ato de impulso, beijaram-se ternamente. Tinham entendido que se odiavam por causa de um modelo de amor romântico. Tinham desejado ser todo casal incendiado pelo sentido alheio. Perceberam que não necessitavam um do outro para um sentido de viver. 

Uniram-se no ceticismo do amor ideal. Interpretaram como ódio o que era uma, afinal, dissonância em relação a um modelo criado na poesia provençal e italiana. Não era raiva, apenas era um choque entre elenco e roteiro. O texto não tinha sido escrito por eles. Isso causava o dano e o atrito contínuo, como se fosse uma peça de ballet clássico escrita para lutadores de sumô. E se lutassem em vez de bailar? Se dormissem afastados como sempre desejaram sem usar o ronco alheio como álibi? E se rissem juntos de todos os Romeus e Julietas do mundo? Se batessem palmas quando Leonardo DiCaprio se afogasse, congelado, porque isso o livraria da terrível necessidade de ser intenso como a bordo do Titanic? 

A peça foi uma epifania. Ali, no carro, em pleno estacionamento, agarraram-se com o furor de um novo tipo de cio matrimonial. Não precisariam se amar como os dois noivinhos sobre o bolo de casamento. Eram, enfim, livres de roteiros estranhos a eles. Um ano depois da peça, celebraram as bodas de papel, aquele fato que assinala um ano de casamento. Estavam, enfim, casados. O papel era, agora, em branco para que cada um escrevesse sua realidade. A porcelana das bodas anteriores era frágil e deveria ser admirada para as visitas. O papel era multiuso. É preciso ter esperança para amar e, talvez, alguma liberdade para os papéis.

LEANDRO KARNAL

06 DE FEVEREIRO DE 2021
LITERATURA

A hora das LOBAS

No ar desde o dia 31, a revista literária La Loba surgiu como veículo para dar visibilidade à produção artística (não apenas literária) de mulheres.

O projeto tem à frente a escritora Carolina Panta, que é autora de Dois Nós (Ed. Metamorfose, 2019) e que está com o segundo romance engatilhado - a previsão é publicá-lo nos próximos meses pela Zouk.

La Loba Magazine terá edições mensais com ficções, poemas, resenhas e projetos de artes visuais, recebidos por e-mail - nas 49 páginas do primeiro número, entre outros conteúdos, Nathallia Protazio pergunta se "existe escrita feminina?", Clara Corleone publica Um Conto de Verão e Priscila Pasko concede entrevista sobre seu trabalho e o lugar da mulher na literatura.

O perfil do Instagram @lalobamagazine é um catalisador das ações, mas as edições ficarão disponíveis em linktr.ee/lalobamagazine. A seguir, Carolina explica a linha editorial e também a inspiração do nome da revista.

ENTREVISTA COM: Carolina Panta | Escritora, editora da revista La Loba

Por que uma revista literária que só publica mulheres?

Esse tipo de iniciativa é necessária, e cada vez mais, pois os ambientes de discussão no campo da cultura ainda são, infelizmente, lugares de privilégio. A partir de pesquisas divulgadas nos últimos anos, como a da professora Regina Dalcastagnè, pesquisadora do assunto, pode-se perceber que a maioria das publicações literárias das principais editoras brasileiras ainda são, em sua maioria, obras de escritores do sexo masculino. Produzir uma revista que busca o protagonismo feminino na escrita é uma forma de apresentar aos olhos da sociedade mulheres que se colocam como produtoras de arte. Quanto mais textos de mulheres circularem, mais resenhas serão feitas sobre seus livros, suas obras alcançarão mais pessoas, seu fazer artístico irá para além dos limites de uma escrita particular para tornar-se, enfim, pública.

Um dos primeiros posts no perfil da revista, no Instagram, pergunta: "Por que a intensa produção feminina não se reflete em números nas publicações?". Transfiro a pergunta a você: por quê?

Ainda nos tempos atuais, uma mulher inserida no campo intelectual muitas vezes é julgada ou por produzir uma arte vista como "menor" e mais "emocional" ou por trabalhar em sua carreira em detrimento à família. Em uma observação simples dos nomes vencedores nos mais de 60 anos do prêmio Jabuti, por exemplo, configuram menos de 15 mulheres como grandes vencedoras na categoria romance literário. A matemática é simples: somos menos publicadas no grande mercado editorial pois nossa literatura é considerada atrativa a somente um grupo social, enquanto a produzida por homens atinge a todos e a todas. Eles são maiores produtores de capital intelectual e mais numerosos em publicação de resenhas em jornais. Ainda há uma hegemonia masculina que dita, muitas vezes, aquilo que é ou não arte relevante socialmente.

O texto de apresentação do projeto começa com a frase: "A mulher selvagem precisa renascer". O que significa isso?

Em seu livro, grande clássico da psicologia, Clarissa Pinkola Estés nos apresenta o conceito de uma mulher selvagem. Mulheres que Correm com Lobos é uma análise de arquétipos e estereótipos aplicados às mulheres ao longo da história. Nessa obra, a autora nos apresenta o mito La Loba: uma senhora que busca ossos de animais mortos no deserto. Em sua caverna, La Loba remonta os ossos em forma de um lobo que cria vida e corre pelo deserto. Em sua corrida, esse animal transforma-se em mulher. Tal narrativa nos serve para que possamos, ao nos tornarmos selvagens, restabelecer as conexões que nos libertam das amarras sociais a que muitas vezes estamos presas. A mulher selvagem, uma mulher liberta, precisa renascer. É por meio de sua força sui-generis que brotam para a sociedade textos, ideias e imagens por toda parte. Paridos do potencial enraizado na dor e no prazer de nos fazermos mulheres, é com a escrita, com a dança, com a pintura, com um tambor a ressoar que acessamos o nosso repertório carregado de consciências coletivas herdadas de nossas ancestrais.

 DANIEL FEIX


06 DE FEVEREIRO DE 2021
ELIANE MARQUES

O FASCÍNIODO EU 

Bibiana e Belonísia retiram de debaixo da cama destinada ao sono da avó uma maleta. Da maleta retiram uma faca que as fascina. Ambas se veem no fio da faca como se num espelho. Ambas levam o metal à boca, pois enorme a vontade do seu gosto. A avó as surpreende e, ameaçando cortar suas línguas, pergunta o que faziam. Belonísia, doravante B1, estava sem língua; e Bibiana, B2, tinha um talho na língua.

Antes disso, as irmãs disputavam tudo. Após o "acidente", um sentimento de união as tomou. Uma teria que falar pela outra, uma seria a voz da outra. "Foi assim que me tornei parte de Belonísia, da mesma forma que ela se tornou parte de mim"; "Seríamos iguais", diz Bibiana. O corpo despedaçado de uma encontra, agora, unidade na imagem do corpo da outra. Porém, a unidade que Belonísia "olha" na imagem de Bibiana é sua própria imagem antecipada, ou seja, o que ela projeta para o seu futuro como "gente" e vice-versa. O ditado, "a grama do vizinho é sempre mais verde", cabe aqui.

O que ocorre com B1 e B2 na primeira parte do romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior (Todavia), se apresenta logo após a fascinação, não com a faca da avó - nossas impressões são enganosas -, mas com as imagens de uma e de outra refletidas no fio da faca.

Então, isso que Lacan nominou de "estádio do espelho", fundante do "eu", se assenta sobre, de um lado, a relação entre o que podemos nominar de vivências desconectadas e despedaçadas, num certo momento e, de outro lado, numa unidade com a qual ela se confunde e se emparelha. Esse despedaço-emparelhamento virtual é aquilo em que B1 se conhece como unidade estranha a si mesma, ou seja, se conhece como B2. No Livro 2, Lacan diz que a fascinação é essencial para o fenômeno da constituição do "eu". É na qualidade de fascinada que a diversidade descoordenada, incoerente, da despedaçagem primitiva adquire sua unidade, pontua ele.

Isso gera uma situação de impasse. Entre B1 e B2, pelo menos até a primeira parte do Torto Arado, a união perfeita se rompe quando surge o primo Severo, para o qual se volta o desejo de uma e de outra, já que uma é modelo para a outra. Aí aparece a dialética do ciúme, pois um "eu", pendente da unidade de outro "eu", é incompatível com ele no campo do desejo.

Um objeto temido, desejado, como primo Severo, não poderá pertencer ao mesmo tempo à B1 e à B2. Ou será de uma ou será de outra. E quando for de uma, a outra será vista como sua pertença.

Essa rivalidade constitutiva exige um reconhecimento a fim de que a comunidade do "eu" e do outro no desejo do objeto não se destruam. Tal reconhecimento se dá numa espécie de acordo, que se pode chamar de sistema simbólico. O sistema simbólico teve que operar em B1 e B2 para que cada uma se tornasse Bibiana e Belonísia.

Tal processo ocorre dia a dia conosco, e, quando a dimensão simbólica não intervém, aquela que sou "eu" no reflexo da faca, que é apenas o "olho", torna-se minha inimiga. Com isso, cumpro a promessa que fiz a vocês no último artigo. Mas deixo a pergunta: Por que uma faca que cortou e arrancou línguas se o olho, como espelho, seria suficiente?