domingo, 21 de fevereiro de 2021


20 DE FEVEREIRO DE 2021
CAPA

Humor como antídoto

Tati Bernardi descobriu que suas histórias tragicômicas poderiam fazer outras pessoas rirem de seus próprios problemas. Hoje, a escritora e roteirista tem 10 livros publicados e comanda um podcast sobre temas como maternidade

Tati Bernardi sofreu com crises de pânico por cinco anos. Dos 25 aos 30, a ansiedade dominava seu corpo e a paralisava. No consultório da terapeuta, a escritora e roteirista revelava seus desafios diários e recebia conselhos, mas não só isso: também ouvia sonoras gargalhadas a cada história que contava. Foi aí que a ficha caiu. Sua vida, ou melhor, seu jeito escrachado e cômico de narrar a própria trajetória poderia virar um livro e arrancar risadas de outras pessoas além de incentivá-la a olhar para si com menos julgamento e mais leveza. Depois a Louca Sou Eu foi lançado em 2016, virou best-seller e, no próximo dia 25, chega aos cinemas estrelado por Débora Falabella e dirigido por Julia Rezende.

- Contar essas histórias e fazer os outros rirem me fez ver que eu era humana, não era de outro planeta. Sou neurótica de um jeito que é engraçado porque, no fundo, todo mundo é um pouco assim - afirma.

Este é o primeiro livro de Tati que inspira um longa-metragem. Apesar da paulista ser roteirista da Globo, estar por trás de sucessos como a franquia Meu Passado Me Condena e ter pelo menos 10 obras publicadas, ela preferiu acompanhar a produção de longe, com poucos pitacos para não se tornar "irritante". Até porque projetos bacanas não faltam na vida da escritora, que é publicitária de formação e decidiu emendar cursos na área da psicanálise nos últimos anos. Ao lado de Camila Fremder e Helen Ramos, comanda o podcast Calcinha Larga, que faz sucesso ao tratar do universo feminino sem filtros - já participaram convidadas como Carolina Dieckmann, Andréia Sadi e Malu Mader. Ela também estreou neste mês Meu Inconsciente Coletivo, podcast focado em saúde mental. No ano passado, lançou o livro Você Nunca Mais Vai Ficar Sozinha, ficção que expõe a maternidade real. Tudo isso equilibrando a vida a dois com o marido, o diretor e roteirista Pedro Coutinho, e os cuidados com a filha, Rita, de três anos.

A seguir, a escritora abre o jogo sobre ansiedade, a busca por uma vida longe dos padrões e o quanto o humor a ajuda a lidar com seus próprios desafios.

O filme é baseado no seu livro, que é autobiográfico. O quanto da Tati tem na personagem Dani?

Quando me ligaram para comprar os direitos do livro para fazer um filme, eu faria o roteiro. Fiz uma primeira versão, só que a Julia (diretora) leu e disse: "Putz, isso não é o livro". Daí disse que não sabia fazer e pedi para sair do projeto. Meu livro é de memórias, meio autoficção, tem uma base de coisas que aconteceram. Mas, para virar literatura, exagerei muito. Percebi que minhas histórias de crise de pânico davam um livro porque eu contava para a minha analista e ela tinha ataques de riso. Levei esse humor e exagero para o livro, por isso não digo que é 100% autobiográfico. O filme é mais distante ainda do que aconteceu, mas tem uma base real lá.

Mesmo abrindo mão do roteiro, você deu pitacos?

Sou apaixonada pela Débora (Falabella), como atriz e como ser humano. No teatro, ela fez personagens neuróticas, engraçadas e dramáticas. Achava que ela tinha tudo a ver com meus textos. Ela me escreveu dizendo que, se rolasse alguma adaptação, queria fazer. Foi na semana que me ligaram querendo levar para o cinema. Fomos tomar um café e percebi a Débora dando uma olhada em mim para pegar trejeitos, jeito de falar. As roupas que ela usa no filme são copiadas de modelitos que eu usava. Depois que o Gustavo Lipsztein assumiu o roteiro, me distanciei porque eu opinava de um jeito que poderia ser irritante. Só vi depois de pronto mesmo.

No filme, a Dani sofre com crises de pânico. Você acredita que vivemos na era da ansiedade?

Quando escrevi o livro, achei que seria de nicho. Só que vendeu mais de 40 mil exemplares, considerado um best-seller no Brasil. Ficou claro para mim o quanto a galera estava tendo crise de pânico, de ansiedade e tomando remédio. Angústia todo mundo tem, em maior ou menor grau. Tive crise de pânico dos 25 aos 30 anos. Hoje, estou com 41 e faz mais de 10 anos que não tenho, mas tenho enxaqueca, fibromialgia, insônia, acho que os sintomas só caminharam pelo corpo. A angústia sai por algum lado, e é por isso que as pessoas se identificam.

Rir de si mesma é uma saída para encarar a ansiedade?

Percebi que me fazia bem quando a minha analista ria das minhas histórias. Fazer os outros rirem me fez ver que eu era humana, que não era nada de outro planeta. Sempre contei histórias assim, exageradas, neuróticas, e todo mundo ri desde que sou criança. Conto as coisas sérias e as pessoas riem, sou neurótica de um jeito que é engraçado porque, no fundo, todo mundo é um pouco assim. E é uma forma de me acalmar e me fazer rir.

O filme também reforça que os relacionamentos são construídos por pessoas reais e falhas. Ainda idealizamos a vida a dois?

Quando comecei a trabalhar, achava um saco ter horário para entrar e sair de uma empresa. Queria ser escritora e trabalhar em casa, mas queria ganhar dinheiro. Então, decidi atacar para todos os lados: jornal, revista, televisão, peças de teatro, cinema. Me dei conta que não ia viver a maternidade que todo mundo faz. No casamento, a mesma coisa. Tive relacionamentos antes do Pedro que acabavam muito porque eu não suportava uma pessoa dentro da minha casa o tempo inteiro. Ele e eu temos dois apartamentos. Quando um quer ficar sozinho, dá para se isolar. E é ótimo, nós dois trabalhamos em casa. Estamos juntos há oito anos.

Seu último livro trata de maternidade sem floreios ou romance. Tem um quê de autobiografia?

Comecei a escrever o Você Nunca Mais Vai Ficar Sozinha quando não estava grávida e era muito sobre a relação com a minha mãe, Ruth. É superintensa, grudada, sou filha única, e com briga também. Era um livro engraçado sobre mãe e filha. Era uma autoficção, partia de uma base real, mas tinha muita coisa inventada também. E daí engravidei de uma menina. Mudei tudo e virou o livro de uma mulher que está na zona intermediária, que ainda não é mãe porque o bebê não nasceu, mas já é mãe porque está grávida, e também não é mais apenas a filhinha da mãe dela. De não querer repetir os erros, mas repetir os acertos da relação com a própria mãe.

Depois do nascimento da Rita, uma nova Tati desabrochou?

A maternidade implode a sua vida de antes e começa uma nova. Claro, sou a mesma pessoa, mas mudou. Amadureci muito. Até os 38 anos era uma menina em muitas questões, daí nasceu minha filha, que agora tem três anos, e estou focada nela. Ela não pode cair, tem que comer, fazer cocô, dormir. Descentralizei minhas hipocondrias e fobias que eram infantis e ligadas à minha mãe. Eu trabalhava mais desfocada antes, tinha o dia inteiro para mim e para o meu trabalho. Agora, tenho horários para ficar com a minha filha, não perco um segundo do meu tempo, foco 100% quando estou no escritório para voltar logo e ficar com ela. Passei a trabalhar mais focada e melhor, virei uma escritora melhor.

A maternidade ainda é sinônimo de culpa?

Muito. Faço terapia duas vezes por semana, estudo psicanálise há cinco anos, tenho um podcast que tira sarro da culpa materna e sinto culpa todos os dias, já acordo com culpa. Precisamos falar mais disso.

O sucesso do podcast Calcinha Larga foi surpresa?

Era o podcast que eu queria que existisse quando estava no puerpério amamentando a minha filha. Nasceu pensando nessa mãe que está amamentando e as pessoas dizendo que tem que estar feliz o tempo todo. E ela está ali, achando que a vida mudou para sempre, meio deprimida, sem espaço, porque há uma cobrança para ser feliz 100% do tempo. Nasceu para dizer que é normal ter raiva do filho de vez em quando, estar de saco cheio, deprimida, achar um porre amamentar o dia inteiro. A primeira temporada foi isso, a segunda, sobre sexo, e a terceira, que está rolando agora, é sobre amizade. Somos três amigas conversando, é uma brincadeira com esse nome "saia justa". Acreditava muito no projeto porque as pessoas sentem falta de conteúdo que fale sobre ser de verdade.

Você acha que as mulheres estão se apoiando mais, na prática? E que isso se refletiu em movimentos contra o assédio, por exemplo, que ganharam força nos últimos anos?

Enxergo total. Claro, não dá para ser boba e falar que todas as mulheres se amam. Na minha trajetória, tive muito homem que me ajudou, chefe maravilhoso, mas também passei por muito machismo. Até pouco tempo atrás achava uma besteira esse papo, não para a mulher negra e da periferia, mas eu como branca e de classe média ficar levantando essa bandeira achava que era mimimi. Durante muito tempo, falava: "Nasci numa família de classe média, sou branca, estudei em escola particular, trabalhei onde queria, tinha machismo, mas fui lá e fiz". Esse é um discurso bobo. É claro que para a menina negra da periferia é muito pior, mas também tenho que reconhecer que sofri machismo porque estou no mundo. Não posso desmerecer os machismos pelos quais passei.

A pandemia tem sido um período criativo para você? O que vem de novidade por aí?

Pensar roteiros foi impossível. Estava escrevendo uma série para a Globo, mas não sabia se escrevia com o tema coronavírus na vida dos personagens ou se ninguém mais ia aguentar isso quando fosse ao ar. Acabou não rolando, não sendo filmada, e foi um alívio porque fiquei muito engessada. Foi difícil escrever na pandemia porque acho que deu um cansaço na alma. E fiquei com uma dificuldade quase cognitiva. Acho que a cabeça da gente estava muito cansada de tanto buscar informação. Estreei o podcast Meu Inconsciente Coletivo recentemente, e também tem a série Tapa na Cara, que escrevi e vou começar a filmar.

 NATHÁLIA CARAPEÇOS


20 DE FEVEREIRO DE 2021
DRAUZIO VARELLA

A VACINAÇÃO VIROU BAGUNÇA NO BRASIL

Tem cabimento vacinar terapeutas e personal trainers antes dos mais velhos, que representam 70% dos mortos?

Olha a bagunça que virou a vacinação contra o coronavírus.

Reconhecido como um dos maiores programas do mundo, ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) caberia coordenar a distribuição das vacinas e estabelecer regras rígidas para definir as localidades e os grupos que deveriam receber as primeiras doses disponíveis.

Não faltaria conhecimento a um programa com mais de 45 anos de idade, que foi capaz de eliminar a varíola e a poliomielite do país, de vacinar 18 milhões de crianças contra a poliomielite num só dia, 100 milhões de pessoas contra a H1N1 em três meses, em 2010, e 80 milhões contra a influenza, em 2020.

Agora, sem autonomia para coordenar a estratégia de vacinação, o programa houve por bem pulverizar pelo país as poucas vacinas existentes, como se a epidemia ameaçasse todos os municípios com igual virulência. Ao lado desse equívoco, facultou a Estados e municípios a adoção dos critérios para estabelecer prioridades, de acordo com as realidades locais.

A falta de uma coordenação centralizada com regras válidas para o país inteiro gerou essa confusão de grupos e de pessoas que subvertem a ordem prioritária e confundem a população, incapaz de entender porque em cada cidade a vacinação chega para uns e não para outros.

Profissionais formados em Psicologia, Biologia, Veterinária, Educação Física, além de trabalhadores da área da saúde que nem sequer chegam perto dos doentes com covid, são vacinados antes das mulheres e homens com mais de 80 anos. Enquanto nos entretemos com as imagens dos telejornais que mostram senhoras e senhores de 90 anos, infantilizados pelo repórter que lhes pergunta se estão felizes com a vacina, passa a boiada dos mais jovens que furam a fila.

Tem cabimento vacinar veterinários, terapeutas, personal trainers, escriturários de hospitais, antes dos mais velhos, que representam mais de 70% dos mortos? É justo proteger essa gente antes dos professores, dos policiais e de outras categorias mais expostas ao vírus?

A distribuição pulverizada das vacinas sem levar em conta a prevalência do coronavírus, as condições do sistema de saúde da localidade e as vagas disponíveis nos hospitais é demonstração inequívoca de incompetência.

Veja os exemplos do Amazonas e de Roraima, caríssima leitora: hospitais lotados, filas de doentes sentados à espera de um leito, UTIs sem vagas, pacientes transferidos para cidades a milhares de quilômetros, uma linhagem mutante do vírus bem mais contagiosa que se espalha pelo país.

Em Manaus, se somarmos aos manauaras com mais de 60 anos aqueles com comorbidades, teremos cerca de 200 mil pessoas. No Estado do Amazonas haveria 400 mil. Não seria mais lógico, neste momento, enviarmos para lá 800 mil doses de vacina, na tentativa de pôr ordem no caos e conter a disseminação da linhagem mais perigosa? É preciso pós-doutorado em Oxford para ter uma ideia dessas?

A imunização contra o coronavírus impõe pelo menos três grandes desafios. O primeiro é que nunca iniciamos uma campanha sem ter doses suficientes, situação a que chegamos pelas dificuldades de produção de vacinas disputadas pelo mundo inteiro e pela desídia de um governo negacionista que não se interessou em adquiri-las quando ainda havia disponibilidade.

O segundo é a necessidade de administrar duas doses da mesma vacina, com intervalo de algumas semanas: recebeu a primeira dose da Fiocruz/AstraZeneca, a segunda não pode ser a do Butantan/Sinovac, e vice-versa. Com a presente escassez, não será fácil organizar a distribuição de preparações fabricadas por empresas diferentes, para chegar de forma ordeira nas 38 mil salas de vacinação espalhadas pelo país. O terceiro, talvez o mais grave, foi a substituição de especialistas competentes como a doutora Carla Domingues, que dirigiu o programa nacional de 2011 a 2019, por gente nomeada por afinidades corporativas e ideológicas. O atual ministro da Saúde e as chefias de coordenação que retiraram das mãos do PNI o poder de decisão têm algo em comum com você e eu, prezado leitor: a falta absoluta de experiência com imunizações em massa.

Que azar. Quando o Brasil mais precisava de técnicos treinados para executar a difícil tarefa de vacinar seus habitantes, única forma de reduzir a mortalidade e dar alento à economia, caímos nas mãos de um Ministério da Saúde fragilizado, dirigido por amadores.

DRAUZIO VARELLA

20 DE FEVEREIRO DE 2021
ELIANE MARQUES

LUGARES DE BRANQUITUDE

Adah viajou à Inglaterra para estudar e retornar à Nigéria com título que a habilitasse a lugares "de valor". Até a página 49 de No Fundo do Poço, ela está no fundo do poço até que alguém a puxe ou ela naufrague. Para sobreviver, adotou a estratégia de parecer "burra" diante dos ingleses, pois "se alguém parecesse negro e burro, estaria conforme o esperado pela sociedade", diz a personagem da escritora Buchi Emecheta, com tradução de Julia Dantas. A máscara para inglês se sentir "por cima" não a impede de formular questões como esta: "Por que todo mundo sempre avaliava uma pessoa negra a partir da maneira que outra pessoa negra tinha se comportado? Basta alguém ser negro e todos os outros negros são ?seu povo?".

Adah talvez intuísse que a branquitude tem a vantagem de ser vista individualmente, ou seja, se permite aos brancos uma subjetividade alheia à do grupo, tanto que a vantagem estrutural que os alça aos lugares de poder lhes parece conquista apenas meritocrática e não resultante do Pacto Narcísico da Branquitude, como o teoriza Maria Aparecida Bento.

Conceitos como "pacto narcísico" se incluem nos "estudos críticos da branquitude", que ganham relevância na década de 1990 nos EUA e nos 2000, no Brasil. Apesar das distinções entre branquitude e branquidade, branquitude crítica e acrítica, eles têm como ponto de partida a racialização do "branco", não apenas como pele, mas como brancura portadora de privilégios materiais e simbólicos.

Alberto Guerreiro Ramos é um dos precursores desses estudos no Brasil, especialmente com o ensaio A Patologia do Branco Brasileiro (1957). O desejo de apagar as origens negra e indígena e de supervalorizar a europeia e o fato de ter o Negro como objeto de seus estudos, como se ele, o pesquisador branco, não participasse das relações de poder como alguém racializado, caracterizariam a patologia.

"Salário público e psicológico" foi o conceito que, nos EUA, o sociólogo W.B. Du Bois introduziu nos estudos raciais para explicar o motivo pelo qual os imigrantes europeus (não nórdicos), embora com trabalhos semelhantes às dos trabalhadores negros, se negavam à luta sindical. Du Bois assinala que, por não gozarem da origem anglo-saxã e do protestantismo, eles eram tidos como "brancos de segunda classe". Porém, tinham trânsito livre, voto nos tribunais, seus filhos podiam frequentar escolas em bons prédios. Sua brancura manca era compensada com um "salário público e psicológico" que resultava em ganhos diários. Melhor receber os privilégios da "branquitude" do que um tratamento de Negro. Não pertencendo à classe proprietária, os imigrantes gozavam do status de serem, por participação, da raça proprietária.

Essa é uma notícia do tema, há nuances a serem exploradas, inclusive distinções entre Brasil e EUA. No entanto, digo a Adah, a vantagem estrutural da branquidade lhe garante um "ponto de vista" a partir do qual se vê e vê aqueles que são os "outros" como unidade do outro. Mas, Adah, o olho é sempre uma ilusão.

ELIANE MARQUES

20 DE FEVEREIRO DE 2021
JULIA DANTAS

COMO FUGIR DO BBB

Parece que não há escapatória. Mesmo quem não assiste ao Big Brother Brasil se vê de repente diante de notícias sobre os participantes ou recebe mensagens em grupos de WhatsApp com torcidas ou reclamações. Por mais que seja evidente que sempre haverá temas mais importantes e urgentes, o BBB é uma fábrica tão potente de subprodutos que é impossível não ter contato com seus desdobramentos.

Estou entre os que não assistem, mas, mesmo que assistisse, não opinaria em público sobre nada. Não por achar que o programa é irrelevante - só sua onipresença já basta para demonstrar alguma importância no debate público nacional -, mas por considerar que, antes de tudo, o BBB é uma mercadoria. Muito bem embalada, com rótulos de verdade e pessoas reais, mas ainda assim uma mercadoria não representativa da vida comum.

Primeiro, porque as pessoas estão confinadas entre desconhecidos sem contato com o resto do mundo e sem os laços verdadeiros das suas vidas que poderiam dar suporte emocional ou puxadas de orelha bem intencionadas. Segundo, porque elas não têm como objetivo estabelecer relações, mas vencer o prêmio, atuando ou jogando conforme o que julgarem que vai ser melhor visto pela audiência. Terceiro, porque ninguém faz nada para intervir quando dinâmicas violentas surgem no grupo.

Exceto em alguns poucos casos extremos de participantes que foram expulsos após suspeitas de estupro ou agressões físicas, a regra é cruzar os abraços e deixar que as situações violentas se desenrolem. Quando escuto comentários e leio artigos sobre a presente edição, repetem-se termos como bullying, racismo e xenofobia. O tribunal da internet fica muito satisfeito com seus julgamentos morais, mas nada faz para ajudar as vítimas e, tampouco, para mudar a atitude dos agressores. A produção do programa se abstém, e nós ficamos como espectadores de situações que, se acaso testemunhássemos na vida real de fato, exigiriam nossa intervenção.

No livro A Televisão, Jean Philippe Toussaint narra as angústias de um escritor que tenta abandonar o hábito de assistir à TV e, em certo momento, ele escreve: "Nunca se opera qualquer troca entre nosso espírito e as imagens da televisão, nem a menor das projeções de nós mesmos em direção ao mundo (...), as imagens da televisão jamais remetam a qualquer sonho, nem a qualquer horror, nem a qualquer pesadelo, nem a qualquer felicidade, nem suscitam nenhum ímpeto, nenhum enlevo, e contentam-se, ao favorecer nossa sonolência e afagando nosso ego, em nos tranquilizar".

Embora pessoas muito inteligentes já tenham escrito artigos profundos e pertinentes sobre questões que ganham visibilidade no BBB, me parece que a função primordial do programa é essa a que se refere Toussaint, de favorecer a sonolência e afagar os egos. Quem fica indignado diante daquelas violências pode ir dormir no conforto da superioridade moral sem ter que jamais colocar essa moralidade em ação. É a tranquilidade de quem aceita ser mero espectador.

JULIA DANTAS

20 DE FEVEREIRO DE 2021
J.J.CAMARGO

E HAJA DISPONIBILIDADE

Mario Rigatto e Adib Jatene eram tipos humanos especiais. Além de grandes mestres, eram pensadores sábios e generosos, com direito adquirido de serem implacáveis, vez por outra. Numa conferência na Academia Nacional de Medicina, falando sobre formação médica, evoquei-os para apontar dois pré-requisitos essenciais à esta maravilhosa profissão. Rigatto assegurava, com toda a convicção, que "ninguém consegue ser um bom médico sem antes ser uma pessoa boa". Já Adib valorizava muito a disponibilidade: "Sempre repito aos meus filho, que o indisponível nunca será um bom médico!". Eu não saberia dizer qual desses atributos é o mais importante, mas tenho certeza de que não podemos prescindir de nenhum deles.

Numa noite do último ano bom (naquele tempo que a gente não tinha medo, lembram?), testei, involuntariamente, a disponibilidade, esta virtude pouco aclamada, mas que considero essencial em qualquer atividade, e muito especialmente na medicina, a ponto de jamais encaminhar pacientes para colegas que sei que são competentes, mas que nunca estavam no lugar quando precisei deles.

Mas voltando à história que motivou esta crônica: foi uma ligação fora de hora, com uma voz talvez reconhecível, se houvesse mais tempo para investigar. Surpreendido com o inesperado da chamada, sem procedência identificada, soltei um "alô".

- Dr. Camargo, o Sr. está bem ou meio gripado? Sua voz parece meio rouca! (Veja que grande potencial clínico para a telemedicina, visto que faz diagnóstico só com um alô.)

- Estou bem, mas acontece que recém acordei, estou em Berlim, e aqui são 3h da madrugada!

- Que bom que o Sr. está bem, porque eu tenho uma pergunta bem rápida: um cirurgião que trabalha com o Sr. e que sempre esqueço o nome me pediu uma tomografia para a minha revisão daqui a seis meses. O Sr. acha que essa tomografia deve ser com ou sem contraste?

Com a vontade de voltar a dormir maior do que a irritação de ter sido involuntariamente acordado por uma bobagem, fiz a pergunta indispensável:

- O Sr. tem algum problema nos rins?

- Não. Deusulivre!

- Então, é melhor fazer com contraste.

- Obrigado, Dr. Estimo melhoras!

- Obrigado para você também.

E foi um alívio voltar a dormir!

Talvez o grande problema da disponibilidade seja a definição do limite. Naquele inverno, entrei no elevador com uma velhinha, simpática e sorridente.

- Nem acredito lhe encontrar no elevador, não perco uma das suas crônicas no sábado!

- Que bom, muito obrigado pelo carinho!

- Posso lhe pedir uma coisinha bem rápida?

- Sim, pois não.

- Tem luz no seu celular?

- Sim, claro!

- Será que o Sr. podia dar uma olhadinha na minha garganta, que anda me incomodando?

Antes que eu pudesse responder, a bocarra já estava escancarada. Sem alternativa, dei uma espiada rápida. Quando a porta do elevador se abriu, não senti nenhuma vontade de explicar àquele povo que esperava para embarcar o que a lanterna do meu iPhone fazia esparramada na amígdala esquerda daquela vozinha que não perde uma crônica minha no sábado. E saí caminhando pelo corredor, encantado com a minha própria disponibilidade.

Claro que foi uma consulta bizarra, mas como estabelecer o tal limite se a amígdala da vozinha não tem hora para incomodar?

J.J.CAMARGO

20 DE FEVEREIRO DE 2021
DAVID COIMBRA

É impossível meditar às sextas-feiras

Estava olhando o cardápio de um desses aplicativos de filmes na TV e vi que ali havia um curso de meditação. Pensei que seria ótimo meditar, sempre quis meditar. Dizem que faz muito bem para o corpo e a alma. Que dá uma paz...

As pessoas que meditam, sem dúvida nenhuma, são pessoas calmas. É bonito ser uma pessoa calma. Numa discussão, o outro está alterado, falando alto, gesticulando feito um italiano, e você gruda no semblante sereno um meio sorriso de condescendência. Nem sorri com os lábios, apenas com os olhos. É o sorriso de quem conhece as fraquezas humanas.

É muito irritante discutir com alguém assim. Pois eu seria essa pessoa calma, depois do curso de meditação.

Então, comecei meu curso. Fiquei feliz em saber que o professor havia sido monge budista no Himalaia. Ou seja: uma autoridade.

Buda nasceu ao pé do Himalaia. Era rico, era um príncipe, tinha mulher e filho, mas, um dia, ao sair para as ruas, contemplou a miséria humana e compreendeu que sua vida estava errada. Decidiu mudar. Como? Pela meditação. Contou aos seus monges:

"Antes da minha iluminação, sendo eu mesmo sujeito ao nascimento, meditei sobre a natureza do nascimento; sendo sujeito à velhice, meditei sobre a natureza da velhice. Da doença. Da dor. Da impureza".

Buda meditou para alcançar o Nirvana. Por que não eu?

O problema com o Nirvana é que você só o alcançará quando extinguir completamente a fonte dos seus desejos - Buda ensina que são os desejos os causadores de toda dor. Não foi fácil para ele chegar a essa conclusão. Primeiro, passou por anos de renúncia: vestia-se com roupas feitas dos próprios cabelos, que arrancava pela raiz. Deitava-se em cama de espinhos. Reduziu paulatinamente a alimentação até nada mais do que um grão de arroz por dia. Aí, percebeu que havia certo orgulho naquela mortificação, e viu que o caminho era outro: o não querer. O não ser. O não desejar.

Enquanto o professor falava, no curso, eu pensava nessas histórias de Buda e me afligia, porque não me sinto elevado o suficiente para atingir o Nirvana. Ainda sou tristemente movido por desejos mundanos. Pensar no filé acebolado da Santo Antônio me faz salivar e, outro dia, assisti a um filme antigo da Monique Evans e fiquei perturbado. Eu amava Monique Evans, nos meus tempos de adolescência. Aquelas pernas longas, aqueles seios pequenos - nunca me importei com seios pequenos, se você quer saber. Mas o que mais me tocava, em Monique, era a malícia que reluzia em seu rosto de boneca. Monique Evans era uma mulher cheia de promessas recônditas, cheia de insinuações de prazeres. Por isso, ao ver agora filmes dela lá dos anos 1970 ou 1980, estremeci. E entendi que a malvada carne ainda me comanda. Preciso meditar.

Preciso meditar!

Bem. Assisti ao curso do professor monge. Tenho meditado, desde então. Fecho os olhos, tento limpar a mente, presto atenção à minha própria respiração, mantenho-me quieto como se estivesse em estado de reticências... Espero logo submergir na paz e me tornar uma pessoa eternamente calma... muito calma... é bonito ser uma pessoa calma. Mas, quando estou quase lá, imagens começam a se formar diante dos meus olhos cerrados. Coisas da vida secular e profana, coisas que um homem deseja. E afasto esses pensamentos que levam à perdição e me esforço para me purificar no vazio e no nada, e até consigo. Mas não às sextas-feiras. Às sextas, me surgem na mente imagens de copos de chopes cremosos e gelados e dourados como as pernas de Monique Evans nos anos 1980. Assim, a concentração se esfuma, começo a sorrir como qualquer homem imperfeito e ligo para os amigos: "Que tal um chopinho hoje?". Maldição. É impossível meditar às sextas-feiras.

DAVID COIMBRA

20 DE FEVEREIRO DE 2021
ARTIGOS

O REVIVER

Jamais pensei que a picada indolor da vacina contra a covid-19 tivesse o efeito de nos fazer reviver em meio ao caos. Foi assim, pelo menos, que me senti dias atrás ao ser imunizado contra a nova peste. Sei que foi só uma sensação de voltar a pertencer ao mundo, pois, de fato, apenas revive quem deixa de viver.

Mas é exatamente isto - deixar de viver - que a pandemia impôs ao mundo, ao mudar o dia a dia e alterar o comportamento, os hábitos e até nossas necessidades. Outra vez senti o "anjo da guarda", como na infância. Em mais de 80 anos de vida, aprendi que o sistema imunológico "está na mente" e o que vivemos pode nos levar tanto ao fogo do inferno quanto à brisa do paraíso - basta viver profundamente. Há sempre, porém, um detonante vindo de fora.

Quando a enfermeira Robertta (com "t" duplo no nome) em segundos concluiu tudo, minha mulher chorou de emoção e meu pranto escondido transbordou. Quando a emoção (e não a dor) faz chorar, a lágrima é bálsamo. Olhei ao redor, vi a fila de espera e a emoção cresceu. Jovens enfermeiras atendiam idosos de rugas e cabelos brancos com a mesma devoção de mães servindo aos filhos. Batemos palmas, num aplauso ao amor nestes tempos de ódio.

A imunização busca reter a vida e, assim, é como gerar vida nova ou reviver.

Por isto, não entendo o desdém do Ministério da Saúde em perder tanto tempo para aceitar que a vacina evita a peste. Menos entendo, ainda, que o presidente da República tenha criticado "a pressa" da ciência em desenvolver a vacina e, agora, frise que não se vacinará.

O desdém fez a covid-19 propagar-se de forma avassaladora pelo Brasil e surgiu a brutal "variante amazônica", ou "cepa Pazuello", como deve chamar-se a nova fonte do horror.

O crime do rapaz de 23 anos que, em Tunas, no Vale do Rio Pardo, assassinou a tiros o pai (por proibi-lo de ir a uma boate) e, logo, incendiou a casa, matando também a mãe e a irmãzinha de 16 meses, que morreram abraçadas, trancadas no banheiro, reúne delírio e paranoia, com raízes obscuras e sinistras.

O cinismo completou a tragédia quando o criminoso compareceu ao enterro, sendo preso.

Pergunto-me se não é cínico, também, que um decreto do presidente da República facilite, agora, o porte de armas e, na prática, libere a compra de munição. Antes, Bolsonaro isentou de impostos a importação de armas. Isto não será, por acaso, inventar "o direito a matar" e fazê-lo "necessidade" quando, de fato, é o mais vil dos crimes? 

FLÁVIO TAVARES

20 DE FEVEREIRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

ALERTA MÁXIMO NO RIO GRANDE DO SUL

Merece a mais alta atenção o alerta que parte das autoridades da saúde e do governo gaúcho sobre o quadro extremamente grave da pandemia no Rio Grande do Sul e as preocupações com o que pode acontecer nas próximas semanas. O Estado chegou na sexta-feira à marca de mil pacientes com covid-19 internados em unidades de tratamento intensivo (UTIs), maior número desde o início da crise sanitária, e o rápido crescimento da chegada de novos enfermos necessitando leitos clínicos põe o sistema hospitalar gaúcho sob o risco iminente de um colapso.

O cenário aflitivo fez o Palácio Piratini colocar 11 regiões do Estado sob bandeira preta, mas com suspensão geral de atividades em todo o território gaúcho entre 22h e 5h, a partir deste sábado. As aulas presenciais não serão retomadas nas regiões sob risco altíssimo, como Porto Alegre, decisão prudente confirmada pelo prefeito Sebastião Melo. O Rio Grande do Sul atravessa um momento que requer cuidados excepcionais. 

Para enfrentar os dias desafiadores à frente, será imprescindível a colaboração irrestrita de toda a população com as medidas necessárias para conter a disseminação do vírus e, ao mesmo tempo, a adesão dos prefeitos e demais lideranças de cada município. Por parte dos cidadãos, é essencial redobrar a disciplina com práticas, hábitos e comportamentos que têm o poder de diminuir o ritmo de contágios, como evitar aglomerações, fazer a assepsia constante das mãos e usar máscaras de forma correta.

O momento é delicado por uma série de fatores. A vacinação, que seria a grande barreira para deter a covid-19, se desenrola em cadência muito aquém da necessária e, em algumas cidades, está até paralisada momentaneamente por falta de doses. Concorre para agravar o quadro o surgimento de novas variantes que se mostram mais contagiosas e com capacidade de ludibriar o sistema imunológico de quem já teve a doença. Há ainda a grande preocupação com a ameaça de aceleração das infecções após o festival de irresponsabilidades observado ao longo do Carnaval, com aglomerações e festas clandestinas em vários pontos do Estado e no Litoral. Muitos jovens que participaram desses ajuntamentos, de várias regiões do Rio Grande do Sul, estão agora voltando para os seus municípios de origem, elevando o potencial de propagação da covid-19.

Esta soma de agravantes exige esforço máximo para interromper a cadeia de transmissão do vírus. Sob pena de, nos próximos dias, as estruturas de saúde não terem condições de suportar o ritmo de chegada de novos pacientes. A seriedade da situação impõe que cada um se conscientize, faça a sua parte e reconecte o seu comportamento à realidade dura que precisa ser enfrentada. O novo coronavírus já enlutou famílias e amigos de mais de 11,6 mil gaúchos. Frear esta conta macabra, que pode se elevar de forma ainda mais acelerada se a postura de relaxamento generalizada da sociedade não for revista, é tarefa de todos. 


20 DE FEVEREIRO DE 2021
SAÚDE EM ALERTA NO RS

Sob novas variantes, pandemia assume características inéditas

Ritmo acelerado de hospitalizações e impacto generalizado preocupam especialistas em relação aos rumos da covid-19

O vírus já é conhecido, mas é como se uma nova pandemia tivesse atingido o Rio Grande do Sul nos últimos dias. Em meio a uma escalada vertiginosa de internações hospitalares e de impacto generalizado entre regiões, a disseminação da covid-19 adquiriu características que ainda não haviam sido observadas no Estado. A combinação entre o espalhamento de novas variantes, o descuido com medidas de prevenção e o final das férias deixa especialistas temerosos de um agravamento desenfreado nas próximas semanas.

O avanço atual da doença é mais rápido e abrangente do que havia sido registrado desde seu desembarque em solo gaúcho. Em uma semana, as hospitalizações cresceram 43% em leitos clínicos e 22% em unidades de terapia intensiva (UTIs), conforme dados disponíveis até as 13h de sexta-feira. O fenômeno passou a atingir praticamente todas as partes do Estado: das sete macrorregiões de saúde, seis tiveram aumento nos dois tipos de atendimento ao longo de sete dias - apenas o Sul teve ligeiro recuo nas UTIs (veja gráfico).

- Já tivemos momentos em que a Região Norte ficava mais complicada, depois a zona de Caxias, ou a Metropolitana. Nesse momento, pela primeira vez, estamos vendo agravamento geral, com elevação da demanda por leitos clínicos e de UTI - alerta o diretor da Auditoria do SUS da Secretaria Estadual da Saúde (SES) e integrante do gabinete de crise do governo estadual, Bruno Naundorf.

A nova fase da covid-19 traz ainda outras peculiaridades vistas pela primeira vez - e para as quais ainda não há explicações conclusivas. Apesar da escalada íngreme de hospitalizações, esse cenário ainda não se reflete por inteiro nos números de novos casos e óbitos.

A última semana de janeiro e a primeira de fevereiro chegaram a registrar leve decréscimo no número de exames positivos tabulados por data de início dos sintomas - de 12,9 para 12,5 mil. Mas o coordenador da Rede Análise Covid-19, Isaac Schrarstzhaupt, alerta:

- O Rio Grande do Sul estava caindo (no número de casos) de forma cada vez mais devagar, o que indicava reversão de tendência - diz Isaac, que lembra complicadores no cenário atual, como final das férias, volta às aulas e aumento da mobilidade nos municípios.

Mudança

Ainda assim, o infectologista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Alexandre Zavascki afirma que a evolução recente é atípica:

- É uma situação que ainda não tínhamos visto, com muitas pes­soas internando em um curto período de tempo sem um aumento no número de casos na mesma proporção. Talvez tenhamos testado menos durante as férias.

Esse cenário pode estar mudando rapidamente. O virologista e professor da Universidade Feevale Fernando Spilki revela que a demanda por exames na instituição de Novo Hamburgo disparou nos últimos dias, assim como o índice de resultados positivos:

A quantidade de óbitos, segundo o painel de monitoramento da SES, subiu de 311 para 317 entre as semanas epidemiológicas 5 e 6 (nos sete dias anteriores a 6 e a 13 de fevereiro, respectivamente). Pode ser que nem todas as mortes ocorridas mais recentemente já tenham sido notificadas. Além disso, é provável que os efeitos da atual avalanche de adoecimentos só resultem em elevação da mortalidade nos próximos dias ou semanas.

- Podemos ainda não estar vislumbrando as mortes que talvez só venham a ocorrer em duas, três semanas. Mas só as hospitalizações já são carga de sofrimento considerável para os pacientes e para o sistema de saúde - avalia o gerente de Risco do Hospital de Clínicas, Ricardo Kuchenbecker.

O infectologista Ronaldo Hallal, integrante do Comitê de Covid-19 da Sociedade Riograndense de Infectologia, aponta que uma redução significativa na mobilidade é necessária para impor um freio à disparada de internações por coronavírus.

- O modelo de distanciamento controlado não contém a circulação viral, apenas aciona procedimentos a partir do impacto hospitalar. É preciso reduzir a mobilidade. As pessoas precisam de recursos para poder ficar em casa, mas é necessário mais isolamento - observa Hallal.

Bruno Naundorf afirma que o governo gaúcho está estudando novas medidas para barrar o coronavírus. Em entrevista à Rádio Gaúcha na manhã de sexta-feira, o diretor de Regulação da SES, Eduardo Elsade, observou que o modelo de distanciamento adotado no Estado leva em conta critérios científicos para definir medidas de contenção da pandemia.

 MARCELO GONZATTO


20 DE FEVEREIRO DE 2021
J.R. GUZZO

STF não pode ser vítima e juiz

Digamos que o deputado federal Daniel Silveira, do Rio de Janeiro e da primeira linha da direita nacional, tenha cometido crimes fora de série - tão graves, que não deixam nem sequer a possibilidade de fiança por parte do acusado. Mas o deputado não cometeu crime nenhum, nem fora de série e nem de qualquer outro tipo, e muito menos foi pego em flagrante. O que fez foi um vídeo de 20 minutos falando o diabo dos ministros do STF - no qual, entre uma pilha de ofensas pesadas, deixa claro que ficaria muito feliz se todos eles levassem uma surra. É opinião, pura e simples. Pode ser opinião da pior qualidade, mas é isso - opinião.

De qualquer jeito, mesmo que Silveira tivesse praticado algum crime definido como hediondo, esses que vão do racismo e da prática de tortura ao terrorismo e o tráfico de drogas, só poderia ser julgado e punido pela Câmara dos Deputados - e não preso pela polícia de madrugada por ordem de um ministro do STF, com o aval de seus 10 colegas. Eis aí um erro em estado puro e sem atenuantes.

É simples. No artigo 53 da Constituição Federal, está escrito, da maneira mais clara possível, que os mandatos dos parlamentares brasileiros são invioláveis; podem até ser cassados, caso o plenário achar que romperam com as suas obrigações por qualquer razão que seja, mas é só o Congresso que pode fazer isso.

No caso do deputado Silveira, especificamente, a Comissão de Ética e, em seguida, o plenário da Câmara podem considerar que as suas palavras caracterizam injúria aos ministros do STF, ou incentivo à violência; podem achar que ele se conduziu de maneira desastrosa e que, por isso, merece ser punido com a suspensão ou a perda do seu mandato.

Tudo bem - mas o STF não tem nada a ver com isso. Pode ser vítima e, nessa condição, apresentar suas queixas. Mas não pode ser juiz.

O Estado de direito no Brasil vem sendo agredido de forma sistemática e deliberada por um dos três poderes constitucionais - o Judiciário, que é justamente aquele que tem por dever principal garantir que as leis do país sejam respeitadas e que os dois outros poderes obedeçam à Constituição.

A prisão arbitrária e ilegal do deputado Silveira é apenas mais um chute no pau da barraca da democracia brasileira. Para resumir a ópera: há dois anos inteiros, desde março de 2019, o STF conduz um inquérito policial inteiramente fora da lei, sem indiciados, sem um crime específico a apurar, sem prazo para terminar, sem direito de defesa para os acusados.

Um Congresso Nacional e um Poder Executivo que ficam o tempo todo de quatro diante desse Judiciário, em nome das "instituições", da "harmonia entre os poderes" e da paz universal, não estão apaziguando nada, nem ninguém, com o seu comportamento. Só têm deixado o STF com um apetite cada vez maior.

*Conteúdo distribuído por Gazeta do Povo Vozes - J.R. GUZZO


20 DE FEVEREIRO DE 2021
INFORME ESPECIAL

A despedida e as inquietações de um desgarrado

Morreu Telmo de Lima Freitas, aos 88 anos. Sua partida abre a oportunidade para uma reflexão sobre o futuro da música nativista do Rio Grande do Sul. Nada muito pretensioso. Apenas uma inquietação de um desgarrado que prepara os seus assados de domingo na churrasqueira de um apartamento e, às vezes, divaga ouvindo Noel Guarany. Paisagens, cenas do cotidiano e personagens que inspiram os versos de compositores como Telmo de Lima Freitas são cada vez mais escassos. Em alguns casos, rumando aos poucos para a extinção.

A descrição presente na música Esquilador só pode ser feita por quem, dotado de sensibilidade poética, conhece e assiste à sequência de movimentos e sons do trabalho sincronizado da tosquia. O rebanho ovino do Estado se reduziu a uma ínfima parte do que era há quatro décadas e, ao longo do tempo, a máquina substituiu a tesoura, uma constatação presente na canção de Telmo, já final dos anos 1970. A figura do esquilador é apenas uma que vai sumindo.

A vegetação nativa do bioma Pampa no Rio Grande do Sul é hoje um terço da original e, apenas de 2000 a 2018, perdeu 15,5 mil quilômetros quadrados, o dobro da extensão do município de Alegrete, o maior do Estado, segundo o IBGE. Esta conversão, óbvio, é fruto do avanço da agricultura, notadamente da soja, muito mais rentável do que a pecuária tradicional. Mas foram as atividades originais do Rio Grande do Sul, junto às elucubrações sobre questões sociais mais profundas, como o êxodo rural, a observação da natureza, ou mesmo temas divertidos, como pitorescos episódios em bailes de campanha, que inspiraram as músicas décadas depois ainda cantadas. Mesmo por quem sequer compreende boa parte das expressões, caso de Esquilador.

O fato é que, com a transformação da paisagem rural do Rio Grande do Sul, a cena quase mítica do gaúcho a cavalo nas coxilhas, campereando, é cada vez mais esporádica. Perdeu espaço para o ronco de tratores e colheitadeiras. Sobrevive em alguns rincões, assim como, aqui e ali, alguma marcação da terneirada e um bolicho de beira de estrada.

A agricultura é hoje sinônimo de prosperidade, empregos no campo e na cidade, tecnologia e inovação. E o que é inspirador pode ter o inconveniente de ser improdutivo, ultrapassado e mal pagar as contas. Modernizar e buscar mais rendimento significa progresso. É o que move a humanidade, embora aqui se possa discutir passivos ambientais. Se não fosse essa migração de atividade, o número de taperas, Rio Grande afora, seria bem maior e, as agruras econômicas, mais severas.

Mas vai ser difícil fazer versos inesquecíveis sobre o ofício de pulverizar uma lavoura, se é que me faço entender. Ou então sobre uma vivência que não se tem ou lida cada vez mais rara. Não há, aqui, juízo de valor. Tampouco a defesa de ficar aferrado a um passado, em muitos casos, até romantizado. Há apenas uma inquietação e uma ponta de nostalgia.

CAIO CIGANA - INTERINO

sábado, 13 de fevereiro de 2021


13 DE FEVEREIRO DE 2021
LYA LUFT

São Jorge e Joana d'Arc

Uma leitora me pede que escreva sobre envelhecer. Já escrevi sobre isso tantas vezes, em artigos, crônicas, romances e poemas, que pareço me repetir sempre, mas o tema parece eterno, então vamos lá.

Considero o processo de envelhecimento, isto é, a passagem do tempo, como um processo natural. Nunca tive medo de ser adulta, ao contrário, em criança achava que eram os adultos os interessantes, felizes, sábios. Nunca tive medo de envelhecer, pois a alternativa, como todos sabem, é a morte. Vi outro dia a frase "velho é o jovem que deu certo". Sim. Tem seu preço? Tudo tem sem preço.

Uma das questões é não ter medo de rugas, de flacidez, e com isso realizar mais e mais cirurgias, que, depois daquela inicial que embeleza, e renova, acabam por deformar e despertar piedade. Estética acima do bem-estar interior? Que desperdício.

O jeito melhor é se ocupar: pintura, escrita, aulas de qualquer coisa, muita leitura, caminhadas se corpo e saúde permitirem, amizades boas. Claro que agora, nesta fase de pandemia, tudo fica muito difícil, eu mesma estou em casa há mais de 10 meses, como tantas pessoas mais pelo mundo afora. Mas podemos nos comunicar, e distrair, e ver bons filmes, belos documentários, seja o que for que nos faça bem. Não basta, não é a mesma coisa, falta a sagrada liberdade, estamos todos, pelo mundo afora, meio deprimidos, cansados, impacientes, desanimados. Eu me incluo nessa turma.

Difícil, frustrante, triste? Mas é porque estamos numa situação ruim, especial. Velhice não é isso. Normalmente não é isolamento e afastamento de pessoas amadas. É mudança. Para aceitar com naturalidade, ou ficamos chatos. Doença? Ah, sim, o corpo não é o de anos atrás, mas vamos lembrar que jovens adoecem, jovens se matam, jovens têm perdas. Talvez as perdas agora sejam o pior, ao menos pra mim: amizades que se vão, seja por doença, seja por algum acidente, seja porque afinal a Velha Senhora é irremediável visita. Dói muito deletar os nomes no nosso celular. É pesado, sim. Porque o coração nada deleta.

Porém, o tempo não se importa com nada disso, não importamos para ele, é um rio que corre, título de um livro meu, soberano e tranquilo. E temos de nos adaptar, ou quebramos, ou nos deprimimos, ou nos isolamos, ou nos matamos.

Já não tenho a força de anos atrás: traduzia sem problema quatro, seis horas por dia, ou mais. Hoje, três horas me cansam. Porque estou doente? Não, porque tenho 82 anos. Amizades, sejam as fraternas, ou as amorosas, me importam muito mais: porque estou carente? Não sei, talvez porque saiba mais o seu valor.

A dor da alma custa a passar, precisa de mais colo, mais presença, mais carinho. Fora isso, estamos sempre aí, na luta, guerreiros e guerreiras, feito São Jorge e Joana d?Arc, e é preciso encontrar valor, alegria, contentamento, nisso que ainda podemos ser, não importando a idade. Sendo queridos, apreciando as pessoas, e tentando fazer o melhor. Tudo menos desistir choramingando, sermos amargurados ou medrosos: isso é, sim, decreto de insuperável, triste, solidão.

"O tempo não existe, eu decretei assim", escrevi certa vez. E confirmo. Depende de nós.

LYA LUFT

13 DE FEVEREIRO DE 2021
MARTHA MEDEIROS

Pampa profundo

Normalmente, nesta época do ano, eu estaria tirando uns dias junto ao mar, mas o "normalmente" foi cancelado. Neste verão, a estrada me levou para o sentido oposto ao azul marítimo e às aglomerações que ele convoca. Uma semana no pampa profundo, lá fui eu.

Gaúcha que se preze tem bom relacionamento com vacas, figueiras, forno a lenha: por que eu seria diferente? Mas sou, um pouquinho. Já passei finais de semana na estância de uns primos, outros na estância do namorado, tudo ótimo, mas cronometrado: na terceira noite, começo a sofrer com o excesso de silêncio. Desta vez fui mais disposta, com um olhar treinado para o detalhe e a paciência mais esticada. Boa vontade faz milagres.

O pampa é longe. Depois de 400, 500 quilômetros de asfalto, entra-se no chão batido, a poeira levanta e atravessa-se a campanha. Atrás das cercas, animais isentos de pressa, pássaros voando em câmera lenta, um peão solitário espia por baixo do chapéu e acena. Está-se em outro tempo, em outro lugar. O carro para em frente a uma porteira fechada. O passageiro desce, abre, espera o motorista atravessá-la com o veículo, fecha novamente e retorna para seu assento, e a viagem continua até a próxima porteira, ou até que ela apareça: a casa.

Ela será branca e terá um passado. Os móveis contarão histórias de família. Tudo será original: a cerâmica do piso, as esquadrias pintadas de azul royal, os baús e as cristaleiras. Nada será sintético ou terá a etiqueta da Tok&Stok: de moderno, apenas a tela na janela dos quartos tentando impedir a entrada de mosquitos, apesar de um furo ou dois.

Os cheiros não virão apenas da cozinha: feijões, carnes de panela, ambrosias. Os corredores e varandas também exalarão seus aromas. Da madeira do fundo dos armários. Do couro do tapete da sala. Da ferrugem dos ferrolhos das janelas. Abra todas delas. Lá fora, uma cartela com tons de verde nunca vistos.

Uma bezerrinha se aproxima do pátio em busca de leite, perdeu-se da mãe. O cavalo, ao longe, se alimenta de azevém e não se dá conta de que é um rei. Répteis rastejam em pontos distantes - ou talvez perto demais, ninguém quer pensar nisso. E há os cachorros, vários, magros, os menores e os maiores, e alguns gatos.

E faz só cinco minutos que a mala foi aberta, recém troquei o tênis pelas botas. Haverá muito para contar. Sobre um vento menos discreto do que o vento da cidade. Sobre perdizes, beija-flores e cardeais de topete vermelho. Sobre as paineiras e suas sombras, o trote curto na égua mais mansa, as ovelhas reunidas por um border collie, os bambuzais e seus ruídos enganadores, o vocabulário peculiar do pessoal que vive rente à fronteira, quase em outro país. Estou aprendendo. Mansamente, como convém. Não é mar, é outro mergulho.

MARTHA MEDEIROS

13 DE FEVEREIRO DE 2021
CLAUDIA TAJES

A difícil vida fora dos livros

Semana passada aconteceu mais uma história que seria inverossímil nos livros, mas que na vida real pode acontecer sem maiores espantos. A vida real, como se sabe, não tem compromisso algum com a razão.

A escritora e advogada Saíle Bárbara Barreto, que até já apareceu aqui na coluna com a página Diário de Uma Advogada Estressada, caiu para trás com a notificação que recebeu. Um juiz de Santa Catarina entendeu que um dos personagens do novo livro dela, Causos da Comarca de São Barnabé, era... ele. O Ministério Público tomou as dores do juiz e ofereceu a representação. Agora, dois processos correm em segredo de Justiça, pleiteando uma indenização incompatível com os rendimentos da Saíle. Ela também não pode mais publicar os capítulos do livro em suas redes sociais para seus mais de cem mil seguidores sob pena de uma multa diária.

A que ponto chegamos.

É fato que escritores se inspiram no mundo para criar seus personagens. Difícil a realidade não entrar na ficção, ainda mais quando ela parece pronta para ser escrita em forma de saga. A Saíle, que faz em seu livro uma crítica bem-humorada ao sistema judiciário, alega que sua comarca é ficcional, tal e qual o juiz do livro - cujo nome não pode ser citado por decisão do MP. O juiz da vida real não tem provas de que foi o muso inspirador do personagem, mas o que importa é que está cheio de convicção. E isso diz mais sobre a atuação dele que sobre o livro da Saíle - disponível em formato digital na Amazon, ao menos até o fechamento dessa edição.

Um dos escritores que divulgou o incrível causo da Comarca de São Barnabé foi o paulista Ricardo Lísias, que já passou por situação parecida. Em 2017, quando o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha ainda aparecia no noticiário - mas já em pleno ocaso, guardadinho em sua cela -, Lísias lançou o romance Diário da Cadeia e assinou como Eduardo Cunha (pseudônimo). Assim mesmo, com a palavra pseudônimo entre parênteses, estampada na capa do livro.

A Justiça cobrou uma indenização por dano moral a Cunha (caiu um lenço: moral?) e determinou que a edição toda fosse apreendida. Um dos trechos da sentença: "A própria capa do livro leva-nos a pensar que o mesmo foi escrito pelo autor da ação, uma vez que é ele quem se encontra recluso, não sendo crível que o pseudônimo também se encontrasse recluso a justificar o título escolhido para o livro."

Se alguém entendeu alguma coisa, cartas para este endereço.

Mais dramático foi o que aconteceu ao escritor João Paulo Cuenca, que parafraseou uma frase de Jean Meslier, autor do século 18, para criticar o governo atual. A frase, que não vou reproduzir para não me incomodar, misturava política e religião. Em ação orquestrada, pastores da Igreja Universal entraram com ações simultâneas contra Cuenca. Eram 134 processos em novembro de 2020, todos com o mesmo texto, em interiores como Planaltina e capitais como São Paulo. A conta do escritor chegou a ser banida do Twitter por decisão de um magistrado.

Uma das únicas decisões favoráveis a Cuenca veio da comarca de Plácido de Castro, no Acre. Após criticar o mau gosto da frase, e era de mau gosto mesmo, a juíza determinou o encerramento da causa por entender que o pastor que a movia não tinha nada a ver com o peixe, caracterizando um "abuso do direito de ação". A juíza ressaltou a dificuldade de Cuenca em se defender de vários processos em estados diferentes, "o que lhe trará enormes dispêndios financeiros, ainda mais em sede de juizados especiais, cuja ausência do reclamado às audiências importa em revelia". E não é?

É como disse Albert Camus em sua frase clássica: se o homem falhar em conciliar liberdade e justiça, então falha em tudo. Pode me chamar de Velhinha de Taubaté - que, aliás, morreu em 2005, na frente da televisão, provavelmente pelo choque com alguma notícia. Mas eu ainda acredito que, lá no fim, a gente acerta.

E se não acertar, é porque ainda não chegou ao fim.

CLAUDIA TAJES

13 DE FEVEREIRO DE 2021
LEANDRO KARNAL

ONDE ESTÃO OS LEITORES?

Historiador, professor da Unicamp, autor de, entre outros, "Todos Contra Todos: o Ódio Nosso de Cada Dia".

Ao falar dos leitores, Alberto Manguel disse que são, basicamente, de três tipos. Pode ser um devorador de livros em si (o leitor como traça), pode estar refugiado no saber livresco (a torre) e pode usar os textos como forma de flanar pelo mundo (o viajante). São metáforas bem explicadas pelo pensador argentino-canadense.

A importância da leitura sempre parece uma defesa inútil. Quem a ama não necessita de outrem a catequizá-lo. Quem detesta ouve com enfado a pregação dos convertidos. Mas, afinal, o que seria ou o que buscaria um leitor? O que falta?

Existe o leitor de novidades. Ávido por lançamentos, percorre listas dos mais vendidos na imprensa. Em uma livraria, corre aos mostruários redondos que, em geral próximos à porta, mostram o que acabou de chegar. Seu interesse é no frescor da nova obra, na vanguarda, em estar atualizado. A dor maior do primeiro tipo é alguém falar de um novo autor ou da obra mais recente de uma escritora consagrada e ele, garimpador de pepitas recém-impressas, ainda não conhecer.

O leitor atualizado não age mal. O preço a pagar pelo afã de consumir o novo pelo novo é uma dieta que entremeia alhos com bugalhos. O comportamento existe em todos os campos, de enólogos a músicos. Todos descobrem, em algum momento, que leram, beberam ou ouviram uma porcaria nova... porque era nova! O mérito está na ousadia de pioneiro. Um dia, afinal, Clarice Lispector também lançou sua primeira obra e dependeu da boa vontade de um tipo assim.

O segundo tipo ideal é o "leitor de obras consagradas". Temendo perder tempo, refugia-se no consolidado. Parece suficiente: se eu decidir apenas ler as obras-primas de Machado, Shakespeare, Dante, Virginia Woolf ou Adélia Prado, já tenho um projeto de vida pleno. Tal leitor pode ser assim de nascença ou, como ouvi de Antônio Houaiss, um hábito da etapa madura. O dicionarista e diplomata, aos 80 anos, temia perder tempo com coisas ruins. Ele afirmava que, entre arriscar uma jovem promessa da literatura e reler Padre Vieira, voltava-se à segunda hipótese. Talvez valha para os leitores o mesmo conselho que os investidores recebem: se for jovem e tiver tempo de vida à frente, seja mais ousado nos riscos.

O primeiro tipo gosta de pesca esportiva em alto-mar. Quem sabe, entre sardinhas comuns, encontre um gigantesco e raro marlim-azul? O segundo prefere "pesque e pague", com peixes confiáveis. Um se arrisca muito, outro é marcado pela prudência do talento lavrado.

Além dos dois modelos quanto à ousadia, existem outros tipos no campo do prazer. Há quem seja mais próximo da leitura como algo muito bom, que desperte deleite imediato. Abandona obras pela metade ou logo à partida, se não cumprirem a meta hedonista. No canto oposto, os que amam livros complexos, árduos, de narrativas lentas e que não se entregam logo. O primeiro encontra o prazer do beija-flor bailando diante de flores muito variadas em busca do néctar doce imediato. O segundo é águia em ninho escarpado que passa horas acompanhando, com seu olhar agudo, a presa que serpenteia no vale. Ambos pagam preços pelos seus hábitos de voo.

Torre, traça, viajante, faminto de novidades, prudente, o buscador de prazeres rápidos ou o adepto de prazeres mais árduos: todos os modelos podem estar misturados em você e em mim. Quando abrimos um livro em papel ou na tela, temos a nossa disposição descobertas, torres e traças. Com o tempo, vemos que os livros lidos nos leram e alteraram nossa composição molecular. Formamos uma complexa simbiose que mudou ambos. O livro voltou à estante com a lombada marcada, alguma página assinalada a lápis, uma página com uma orelha dobrada. Eu, para sempre trilhado pelo que li.

Brilha o autor ressuscitado, falando de novo entre os vivos, exercendo a imortalidade do talento. Eu, leitor, desperto como o observador de estrelas de Olavo Bilac, que chega ao alvorecer tomado de emoção das conversas que manteve durante a noite.

Qual o conselho a quem não gosta de ler? Nada que eu possa dizer serve se não houver a ousadia transformadora da leitura. E se um inimigo da leitura me perguntasse o que eu vejo nos livros? Eu adaptaria o soneto do poeta parnasiano: "Amai para entendê-los! Pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender livros". Será a falta de leitura que nos domina? Carecemos de amor, entusiasmo, vida, fluxo e ânsia de futuro, esperança e curiosidade. Os livros e a leitura decorrem dos sentimentos. Não é falta de livros, é ausência de amor pela vida no sentido amplo e vasto do termo. Não foram os livros que me ensinaram a amar. Foi o amor que me levou aos livros, à música, à arte e aos amigos. Os livros são parte da uma parede extraordinária, mas o amor pela vida é o alicerce. Hipótese: o sumiço de muitos bons leitores seja muito mais grave como sintoma social do que imaginamos. Faltam leitores e falta vida. Sobra apatia, tédio e sucessão de "likes" diante do imenso "dislike" da vida real que pulsa. Ainda é preciso ter esperança.

LEANDRO KARNAL

13 DE FEVEREIRO DE 2021
FRANCISCO MARSHALL

RELIGIÃO

Uma das melhores contribuições das Ciências Humanas à sociedade é explanar o que significa a palavra religião e as instituições e comportamentos por ela representadas. A palavra é latina, religio, mas refere fenômenos que surgiram com o Estado, 5 mil anos atrás, no Egito e na Mesopotâmia. Além da palavra e das instituições, há o fenômeno psicológico da piedade, que inclui o sentimento subjetivo e faz com que milhares de gotículas unam-se para formar grandes rios, a correnteza das grandes religiões, que arrastam multidões e inundam as sociedades, do mundo antigo ao atual.

"Mas se mãos tivessem os bois (?) e pudessem com as mãos desenhar e criar obras como os homens (?) semelhantes aos bois desenhariam as formas dos deuses (?)." Com essa sentença, o filósofo Xenófanes de Colofão (570-528 a.C.) lançou uma das melhores teses sobre as religiões: são fatos culturais, relativos, e criações, como a pintura, com a qual se produz a veneração, diante de imagens. Há hoje cerca de 10 mil religiões. Qual delas detém a verdade? Autoridade plena, só com amparo das forças de coerção do Estado, ou por subordinação do devoto. A religião não é revelação divina, mas invenção cultural. Há religião ou religiosos que aceitam essa verdade tão singela? Pouquíssimos.

É comum ler-se uma etimologia que associa o termo religião a religare, o retorno à divindade. Essa explicação aparece na obra do cristão Lactâncio (250-325 d.C.) e foi propagada por Agostinho de Hipona (354-430 d.C.). Assim definida, a religião-religação é a relação de entrega e dependência do devoto diante da divindade. O sentido romano original, todavia, é outro, e liga o termo religio ao sentimento de escrúpulos, observância e respeito, o que consagra a autoridade de sacerdotes cuidando para que o rito seja perfeito, sob risco de se produzir o caos. Neste caso, a religião expressa disciplina e normas morais e explica a pretensão das autoridades religiosas de controlar pessoas e comunidades.

A relação da religião com o poder, todavia, é a chave do enigma. Desde o paleolítico, há crenças em potências sobrenaturais e figuras de poder, como xamãs e curandeiras. Mas, com o advento do Estado, formou-se uma casta sacerdotal que complementou as ambições de poder de guerreiros e de burocratas letrados, na Mesopotâmia e no Egito. 

Mitos e ritos espetaculares consagraram essa posição de poder, e assim formou-se e perpetuou-se a principal composição de forças para dominar a sociedade. A engenharia que controlava as águas do Nilo era irmã da fantasia religiosa que associava o poder fecundo às forças divinas. Tendo para si a direção de um teatro habitado por deidades, autoridades do sagrado habituaram-se a atribuir aos deuses a autoria das normas que eles mesmos impunham aos seus. Eis a heteronomia, a norma que vem do outro, o oposto da autonomia, visada por mentes e sociedades emancipadas.

Ficção, disciplina e poder, eis o fundamento das religiões. E quem acha que amor, piedade, empatia e filantropia dependem das religiões é porque desconhece o que são essas virtudes nobres.

FRANCISCO MARSHALL