sábado, 27 de fevereiro de 2021


27 DE FEVEREIRO DE 2021
DAVID COIMBRA

Um virgem de 32 anos de idade

Não demora, chega outro outono, e nós estaremos ainda sitiados pelo corona. O que fazer? Uns, pão. Muita gente aprendeu a fazer pão no confinamento. Outros leem mais, veem mais filmes e séries, e tem também quem não canse de se entediar, afundado no sofá, jogando Candy Crush.

Eu, aqui, no meu tugúrio, há algo que faço diferente, nestes tempos pandêmicos. Não meus hábitos de leitura, esses continuam os mesmos: leio dois ou três livros simultaneamente, cada um de um gênero. Em geral, um de literatura, um de história e uma biografia. De repente, engato num, deixo os outros choramingando no criado-mudo e vou até o fim do escolhido com sofreguidão, especialmente se é um romance policial.

Sei que haverá quem me julgue mal por ler romance policial. Sei que narizes intelectuais ainda se retorcem de preconceito contra esse gênero. O grande Raymond Chandler morreu amargurado por causa disso. No tempo de Chandler, dizia-se que era "literatura noir", "negra", em francês, muito mais chique do que "romance policial".

Chandler, você sabe, foi o criador de um dos detetives mais carismáticos da história da literatura, Phillip Marlowe. Todos que liam Chandler queriam ser Marlowe, eu, inclusive, mas quem acabou sendo foi Humphrey Bogart, o Marlowe perfeito - cínico e humano ao mesmo tempo. Em todos os seus papéis, Bogart foi Marlowe, até no seu mais célebre, em Casablanca. Logo, se você quisesse ser de fato Marlowe, teria de ser também Bogart. O que me fez desistir de ser qualquer outra coisa que não eu próprio, algo que não tem muita graça.

Já Chandler foi, de certa forma, um pouco Marlowe. Ou Marlowe foi um pouco Chandler, faz mais sentido. Chandler era um homem atormentado. Tinha problemas em duas áreas fundamentais da vida: bebidas e mulheres. Com bebidas, ele as bebia demais. Com mulheres, ele as tinha de menos. Até os 32 anos, Chandler foi virgem como uma noviça. Foi, digamos, "deflorado" por Cissy, a melhor amiga de sua mãe. Cissy era 18 anos mais velha do que ele, gostava de sair à noite, dançar, beber e namorar. Namoraram por quatro anos, até a mãe de Chandler, que não aceitava o relacionamento, morrer. Aí, casaram-se.

Chandler era feliz no matrimônio, mas continuou bebendo e fazendo coisas de bêbado, pelo que foi demitido do bom emprego que ocupava. Para conseguir algum, começou a escrever histórias de detetive, e então se consagrou. Você só está lendo sobre Chandler agora porque ele perdeu o emprego devido ao alcoolismo. Um mal e uma perda o empurraram para a imortalidade. A vida é mesmo imprevisível.

Mas estou escrevendo tanto sobre Chandler para dizer que gosto de literatura noir. E cinema noir também. E, por que não?, séries noir. Assim, chego aonde queria chegar. Desde o começo, discorrendo a respeito do outono que virá, queria enaltecer um personagem da sociedade gaúcha que, se você não conhece, deveria. É um cara que tem uma assinatura moderna: Magrolima, assim, tudo junto.

O Magrolima trabalha na Atlântida, participa do Pretinho Básico e de um dos melhores podcasts do sul do mundo, o "Era uma vez no Oeste", com o Potter e o Daniel Scola. Trata-se de uma cabeça privilegiada, capaz de estocar um volume de informação que só o Google emula. Mas o melhor é que ele sabe o que fazer com a informação que guarda. O Magrolima é perspicaz e sensível, o que lhe dá bom gosto e capacidade de saber o que é importante e o que é interessante.

Pois bem. Munido de todos esses predicados, o Magrolima recomendou uma série que tem tornado emocionantes estes meus dias de final de verão encoronado. Babylon Berlin, o título. Está num cantinho da Globoplay e é um diamante de ficção noir. Passa-se na Alemanha de 1929, uma das épocas mais agitadas da História. É alemã e isso é um adjetivo, não um substantivo. Porque a história é narrada com originalidade tipicamente germânica, tanto na forma quanto no conteúdo, com personagens envolventes e uma música que não me sai mais da cabeça.

Cara, como sou grato ao Magrolima por me indicar essa série! Só podia ser ele. O Magrolima sabe das coisas. Assista a essa série que ele indica. Ouça o Magrolima, confinado leitor. Você se tornará uma pessoa melhor.

DAVID COIMBRA

27 DE FEVEREIRO DE 2021
FLAVIO TAVARES

O CAOS NO CAOS

A pandemia transformou o mundo numa ilha cercada de caos por todos os lados. E, nela, nós, humanos, a cada dia temos menos terra firme. A continuar assim, em meses ou anos, não teremos onde pisar. Escrevo "anos" porque nada sabemos sobre o fim da peste, tal qual quase nada sabemos do seu início.

O aumento dos casos de covid-19 em Porto Alegre e em todo o Estado (ou pelo país inteiro) é aterrador por não existir solução a curto prazo. O contágio se alastra e cada um de nós deve agir, não só o poder público. O governador e os prefeitos podem servir de modelo a copiar ou evitar, mas - além da vacina - o cuidado maior está em nossos pequenos gestos, como usar máscaras, lavar as mãos e nunca aglomerar-se.

Basta já a desmobilização da sociedade provocada pelo presidente da República e seu ministro da Saúde, que desdenharam a peste e jamais a enfrentaram. Em vez de nos dividirem na errática burocracia das cores, governador e prefeitos devem evitar que se repita, aqui, o horror de Manaus, onde se aguardava a morte de algum infectado para outro doente ocupar seu lugar num leito de UTI, tentando sobreviver.

Toda morte é brutal, mas, quando alguém próximo nos deixa, a dor se transforma em abismo. Assim me senti com a morte de Ludwig Buckup, um dos nossos raros cientistas verdadeiros, dedicado à zoologia e à botânica e aguerrido protetor do bioma pampa e da natureza. Fomos contemporâneos no curso de Biologia da UFRGS, que não concluí, mas onde conheci sua dedicação à ciência. Agora, a covid-19 o matou, mostrando que o contágio é um assassino que nos espreita em qualquer lugar.

A grande tarefa é evitar que o caos engendre ainda mais caos e crie pânico.

O caos maior, porém, é não perceber o caos ou fantasiá-lo de "inocente" para estendê-lo à administração pública. Ou - indago - não é isto que Jair Bolsonaro anuncia ao prometer atenuar o rigor da lei de improbidade administrativa que, hoje, leva à prisão funcionários corruptos?

O presidente da República alega que a lei atual inibe a atividade dos prefeitos, como se a improbidade ou o roubo encoberto fossem virtudes, nunca um malefício em si.

As grotescas ideias que o deputado bolsonarista Daniel Silveira vomitou pelas tais "redes sociais" mostram a estupidez do caos dominando a política. Mas, em vez de tentar extirpá-la, a Câmara dos Deputados quer mudar a Constituição para impedir que os parlamentares possam ser presos pelo Supremo Tribunal, como agora ocorreu.

Não é o caos no caos?

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

27 DE FEVEREIRO DE 2021
ARTIGOS

TODOS SOMOS RESPONSÁVEIS

É insano o argumento de que os governos culpam as pessoas pela contaminação em razão da covid-19. É preciso muito desconhecimento das informações públicas, ainda mais no Rio Grande do Sul, onde se prima pela transparência, para pensar que o agente público transfere responsabilidade, até porque, no assunto pandemia, a responsabilidade é de todos.

O Estado agiu e age para enfrentar uma doença de fácil transmissão, com ciclos de aumento exponencial de casos e percentual considerável de pacientes demandando UTIs, o que coloca a rede de saúde em risco permanente de colapso. O Rio Grande do Sul se preparou de inúmeras maneiras. Criou um sistema que acompanha diariamente a estrutura hospitalar e, ainda antes do primeiro caso, definiu um plano de contingência em fevereiro de 2020.

Para proteger vidas e mitigar impactos na economia, desenvolvemos uma estratégia mista, modulada e pactuada, equilibrando a prioridade da vida com a retomada econômica, com o modelo de distanciamento controlado com base no histórico do comportamento do vírus e mediante monitoramento de indicadores para a tomada de decisão. É uma ferramenta que aplica medidas conforme o comportamento da doença no território, um mecanismo versátil, ponderado e coletivo.

O governo investiu na ampliação da capacidade de testagem e qualificou a rede de atendimento. Durante 2020, o governo ampliou a capacidade hospitalar em UTI em cerca de 122% e, neste momento, trabalha em conjunto com a rede hospitalar e os municípios para abrir mais 250 leitos para a população. Quanto às vacinas, embora não haja disponibilidade no mercado, o governo articula com empresa e já formalizou interesse na complementação do Programa Nacional de Imunizações.

A soma de todas as ações permitiu a redução de danos, não a eliminação completa dos prejuízos. Foi um longo aprendizado, que se materializou em um esforço diário de técnicos do governo e colaboradores externos. Neste período, o governo cumpriu o seu papel fundamental, o de estar ao lado das pessoas, de uma maneira absolutamente empática.


27 DE FEVEREIRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

PELA CONCILIAÇÃO

Grande parte da efetividade da decisão do governador Eduardo Leite de colocar todo o Rio Grande do Sul sob a bandeira preta por nove dias, deste sábado até o dia 7, vai depender do grau de adesão de lideranças locais, como os prefeitos. Mesmo acertado, um canetaço de cima para baixo não bastará se, nos municípios, vozes dissonantes forem compreendidas pelas comunidades como a sinalização de que os protocolos não precisam ser rigidamente cumpridos. Mais do que não contestar a diretriz do Piratini, tomada a partir da orientação do Comitê Científico do Estado e dos números assustadores da covid-19, é preciso engajamento. Caso contrário, o vírus continuará vencendo, e a quantidade de mortes, se elevando a cada dia, com o colapso do sistema de saúde.

Um caso exemplar de desarmonia é o que envolve Leite e o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo. Se o que está em jogo são vidas, prioridade absoluta, seria indispensável que o governador e o gestor da maior cidade do Estado aparassem arestas e começassem a agir no mesmo sentido. O vírus é um agente infeccioso que conta com a circulação de pessoas para se disseminar. Não é mais possível tergiversar com medidas cosméticas. É chegada a hora de lançar mão de todos os meios possíveis para minimizar deslocamentos desnecessários nas cidades. Esta é uma questão, hoje, de vida ou morte. O apelo vale para todos os demais prefeitos que, mesmo legitimamente contrariados com as restrições temporárias das atividades, precisam compreender a gravidade do momento e o caos logo ali à frente se nada de sério for feito para diminuir os contágios. Por isso, é adequada a decisão do Piratini de suspender a cogestão, evitando flexibilizações e uniformizando medidas em todo o território gaúcho.

O Brasil conta com um presidente que, por exemplo, é incapaz de compreender ou aceitar a importância das máscaras para evitar as contaminações. Se não é possível ter um alinhamento entre os três níveis dos entes federados, que ao menos os municípios gaúchos se somem aos esforços do governo do Estado, que teve de tomar uma decisão dura, que terá reflexos na economia mas neste momento é inevitável. Basta observar o crescimento assombroso do número de novos casos, internações e buscas por unidades de tratamento intensivo (UTIs). Se há agonizantes filas para o ingresso nas UTIs, médicos já têm de escolher quem poderá ter chances de viver e quem será deixado à própria sorte e a tendência é de piora do quadro, é irresponsabilidade ficar de braços cruzados. O julgamento da História tende a ser implacável.

Ampliar leitos de UTI é importante, mas são reiterados os alertas de que não será uma medida suficiente, tanto pela velocidade dos contágios quanto pela falta de equipamentos e recursos humanos. Os dados mais recentes, inclusive, mostram que 60% dos pacientes internados nas UTIs acabam não resistindo. Para vencer esta batalha, portanto, é vital evitar que mais pessoas precisem de tratamento intensivo. A vacinação, grande arma para derrotar a pandemia, é demasiadamente lenta devido à falta de doses. No curto prazo, infelizmente, não é possível contar com a imunização, pela baixa cobertura. O distanciamento social, portanto, segue como a arma mais eficaz neste momento. Passou a hora de, ao menos o Rio Grande do Sul, deixar de lado diferenças, agir com a ciência como guia e unificar um discurso claro à população, contando com a compreensão de lideranças de todas as áreas. Neste momento, toda a energia deve ser direcionada para salvar o maior número possível de vidas.


27 DE FEVEREIRO DE 2021
CHAMOU ATENÇÃO

Terraço é "Espaço de Deus"

É no terraço do Edifício Santa Tecla que famílias chegadas do Interior ou de outros Estados em busca de atendimento na Santa Casa recebem acolhimento com cama confortável, cozinha, sala e banheiro em Porto Alegre. O endereço - na Praça Dom Feliciano, no Centro - se tornou referência em ajuda a partir da ação da proprietária da cobertura, a engenheira Isabel Mânica Ruas, 54 anos. Em 2017, ela transformou o apartamento anexo, que antigamente era local para moradia de empregados, no que chama de "Espaço de Deus".

Isabel ampliou parte da área para ajudar pessoas que chegam sem conhecer ninguém e sem condições financeiras para se manter em hotéis enquanto familiares passam por acompanhamento no hospital. Tudo nos cerca de 30 metros quadrados é oferecido por ela de graça. Muitos dos auxiliados são pais e mães de crianças que precisam de transplante de órgãos no Hospital Santo Antônio.

Segundo ela, o apartamento sempre foi referência para familiares e amigos que vinham para Porto Alegre, especialmente por ser na frente da Santa Casa. Mas foi em uma ação da igreja que frequenta, a Igreja Mundial do Poder de Deus, visitando famílias em hospitais, que ela deu o pontapé inicial. Percebeu que muitos ficavam em acomodações de más condições ou dormindo nos corredores e bancos do hospital.

Ao longo dos últimos anos, ela calcula ter dado abrigo para mais de cem pessoas - entre pais e crianças -, inclusive moradores de Santa Catarina, Paraná, Espírito Santo, Pará e até da Argentina:

- Todas as histórias me emocionam. São histórias diferentes, é a vida de cada um. Estamos lidando com vidas.

VITOR ROSA


27 DE FEVEREIRO DE 2021
J.R. GUZZO

Licença para trabalhar

Houve um tempo neste país em que se perseguia o "subversivo", considerado então uma desgraça pior que a saúva - ou o Brasil acabava com eles, ou eles acabavam com o Brasil. Hoje, para a esquerda em geral, para a classe médiaalta urbana que reza pelo "verde" e, sobretudo, para milhares de burocratas que habitam a máquina pública, "aparelhada" até o talo nos últimos anos, o inimigo público número 1 do Brasil e do povo brasileiro são o agricultor e o pecuarista.

O agronegócio, neste mundo, não é o setor que mais dá certo em toda a economia brasileira; o único, talvez, que vai realmente bem. Não é o responsável direto por pouco mais de US$ 100 bilhões em exportações em 2020 - isso mesmo, US$ 100 bilhões, sem os quais o país não teria como comprar um prego no Exterior. Não é um criador essencial de empregos, de renda e de impostos. Não é a área mais competitiva, moderna e tecnológica do universo econômico nacional. Nada disso: o agronegócio, no entendimento dos citados acima, é uma doença a ser exterminada a qualquer custo.

O agronegócio, segundo seus inimigos, está transformando o país numa "monocultura" - um "fazendão", dizem os intelectuais da cidade, que só serve para produzir soja e espalhar "agrotóxicos". Está tornando o Brasil "dependente da China". Está acabando com a "floresta amazônica" - mesmo quando as safras são colhidas no Paraná ou no Rio Grande do Sul. Está levando as pessoas, aqui e fora daqui, a comerem mais carne. Está matando as abelhas - enfim, é uma desgraça só.

O último ataque é particularmente estúpido - trata-se de um negócio chamado "zoneamento econômico e ecológico" do Mato Grosso. É uma aberração através da qual os ditadorezinhos ambientalistas que vivem dos impostos pagos por você estão tentando deixar aleijada uma região inteira do Estado que é hoje o principal produtor de grãos do Brasil. Esse "zoneamento" declara que o Vale do Araguaia, uma região com cerca de 20 municípios e 4 milhões de hectares, é uma "zona húmida" - e em zona húmida, segundo propõem os autores da ideia, ninguém pode mexer.

Segundo o "zoneamento" proposto, vai ficar proibido em toda a região, que tem como polo central o município de São Félix, o plantio de soja, milho ou qualquer lavoura intensiva. Vai ficar proibido o cultivo de pastagens para criação de gado. Vai ficar proibida, até mesmo, a criação de peixes em tanques de água - uma atividade de subsistência para assentados da reforma agrária e proprietários de áreas mínimas de terra. Só será permitida a pesca natural, nos rios - provavelmente sob a fiscalização, controle e permissão dos criadores do "zoneamento" e, quem sabe, do Ministério Público do "Meio Ambiente". É uma alucinação.

Um país está com problemas sérios quando quem trabalha no campo, e está dando uma contribuição vital à sociedade, precisa pedir licença para fazer o seu trabalho a um bando de burocratas que não foram eleitos por ninguém.

J.R. GUZZO*
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27 DE FEVEREIRO DE 2021
INFORME ESPECIAL

Izquierdo, o homem que falava direito

O professor Ivan Izquierdo sempre é citado quando explico a diferença entre falar difícil e falar bem. Generoso, me concedeu uma dezena de entrevistas no Estúdio 36, programa da TVCOM que teve Lauro Quadros como pioneiro e esse que vos escreve como sucessor, durante quase uma década.

Izquierdo, que morreu em fevereiro, enquanto eu estava em férias, era um dos maiores especialistas do mundo em memória. Mas quando se dirigia a um público leigo, sua maior preocupação era ser entendido. Conseguia, em nome da causa, simplificar ao máximo um tema extremamente complexo. Usava palavras simples e comparações conectadas com a vida cotidiana das pessoas. 

Era encantador ver como um cientista citado no mundo inteiro, argentino de nascimento, fluía em português de um jeito preciso e acessível. Peço licença para uma pequena digressão que me traz boas lembranças. Mais de uma vez comecei nossas conversas, ao vivo, na tevê, como a mesma pergunta: "Sobre que o senhor veio falar aqui mesmo, que eu esqueci?". Ele ria, mais por educação do que pela improvável graça da minha tentativa de piada com o tema ao qual dedicou a vida.

Simplificar é complicado, porque exige o conhecimento total e profundo de um tema. Falar difícil é para qualquer um. Na maioria das vezes, é apenas um exercício de poder e uma ostentação de status. Por medo ou insegurança, boa parte dos especialistas pronunciaria, pomposamente: "O balão de couro branco atravessou a linha que une os dois postes configurando a incidência de um tento". Ivan Izquierdo diria: "É gol". E foram muitos, disso nos lembramos bem.

TULIO MILMAN

domingo, 21 de fevereiro de 2021


20 DE FEVEREIRO DE 2021
COM A PALAVRA

COM A PALAVRA

MARIO SERGIO CORTELLA

filósofo, 66 anos Escritor e educador nascido em Londrina (PR), é um dos principais nomes do pensamento contemporâneo no país

Autor de 45 livros, o paranaense Mario Sergio Cortella, que completará 67 anos em 5 de março, é hoje uma das atuais referências no Brasil no campo da filosofia. Professor, doutor em Educação, escritor, palestrante e comentarista de rádio e televisão, o midiático filósofo faz questão de salientar que está em distanciamento social desde 16 de março de 2020, em São Paulo, onde mora. Um dos momentos de maior felicidade nesse período, conta, foi receber a notícia, por telefone, enquanto estava ao vivo em uma rádio, de que a mãe, a professora aposentada Emilia, 91 anos, havia recebido a primeira dose da vacina contra a covid-19, em 9 de fevereiro. Ela mora a uma quadra da casa do filho, e os dois vinham se comunicando, na maior parte do tempo, pela janela. Nesta entrevista, citando vários artistas e pensadores gaúchos, Cortella analisa o primeiro ano da pandemia de coronavírus, fala sobre a vida, a morte, as lições que o período já trouxe e deixa um conselho para o país nas próximas eleições.

NO SEU LIVRO VIVER EM PAZ PARA MORRER EM PAZ (2017), O SENHOR COMENTA QUE O HOMEM NÃO TEME O QUE VÊ, MAS O QUE NÃO VÊ. NO CASO DA PANDEMIA, ACREDITA QUE ISSO SE CONFIRMA, APESAR DE PESSOAS CONTINUAREM NEGANDO SUA EXISTÊNCIA?

O impacto da pandemia no início de 2020, adensando para pior no decorrer do ano passado, trouxe uma primeira circunstância que lembra o título de um álbum da Adriana Calcanhotto: Nada Ficou no Lugar. O estremecimento do nosso cotidiano fez com que houvesse duas atitudes extremamente perigosas quando se juntam: uma certa descrença na doença, que afinal não podia ser notada diretamente, é "invisível", e a tolice de supor que somos invulneráveis. O vírus nem é considerado vivo, mas é absolutamente danoso. O vírus não tem ética, isto é, não tem critérios de escolha. Ele não decide para onde vai. Isso está na natureza dele. 

Quem pode decidir e escolher o que fazer diante dele somos nós. Nós tememos muito aquilo que não vemos, mas, nesse caso, ficamos desatentos aos seus sinais, por mais que haja alertas muito expressivos. É que nossa possibilidade de mudança, de alteração, é um pouco mais complexa, como diz o gaúcho Apparício Torelly, o Barão de Itararé: "Tudo seria mais fácil se não fossem as dificuldades". Algumas pessoas ainda criam a fantasia de que não há dificuldade, de que se trata de invenção. Isso não só retarda a possibilidade de enfrentamento como agrega periculosidade ao vírus. Se o vírus raciocinasse, não imaginaria que seríamos capazes de tantos descuidos e que, assim, a natureza dele se cumpriria com tanta facilidade.

HAVERÁ UMA MUDANÇA ÉTICA PÓS-CORONAVÍRUS, COM AS PESSOAS PREOCUPANDO-SE MAIS OU MENOS COM O COLETIVO?

Uma parte das pessoas alterará sua conduta. Mas essa parte não é tão expressiva. Se olharmos para a trajetória anterior da humanidade, veremos que momentos graves que gerariam, em princípio, uma mudança de conduta para melhor, não trouxeram esse resultado de forma mais imediata. Assim que a tempestade acalma, muitos saem novamente supondo que não haverá tanto efeito posterior da tempestade e que ela não voltará. Esse tipo de crença em algo que não tem sentido acaba gerando em vários momentos da história humana uma dificuldade de trazer uma memória mais imediata. Assim que há uma diminuição do sufoco, parte das pessoas relaxa em larga escala e, portanto, se distrai e se torna mais insegura. 

Há pessoas que aproveitarão a circunstância daquilo que tivemos e temos de viver, que é muito difícil, que é agonizante e agoniante, e tirarão lições positivas. Mas uma grande parte permanecerá no mesmo modo de ação no dia a dia. Pessoas que eram tolas antes, tolas permaneceram durante a pandemia e é provável que tolas continuarão. Charles Darwin, ao construir sua concepção em relação ao modo em que as espécies e a vida progridem, no século 19, lembrou algo que a gente nem sempre interpreta de modo correto. Darwin nunca usou a palavra "evolução" no sentido de melhoria, mas de mudança. Que, aliás, é o sentido original no grego antigo. A palavra evolução não é positiva ou negativa por si mesma. Tampouco desenvolvimento e progresso. Encrenca também progride, corrupção também se desenvolve. E, portanto, dizer que nós estamos evoluindo é uma crença meio mística numa positividade. Quando um de nós falece, o médico anota no prontuário "evoluiu para óbito". Nesse sentido, a humanidade pode estar se, tolas e tolos continuarmos em várias situações, evoluindo para óbito. Alguém diria: "Mas isso não é nossa escolha". Sim, é nossa escolha. Quem não tem escolha é o vírus. Nós temos.

ALGUNS PENSADORES LEMBRAM QUE A HUMANIDADE PASSOU POR OUTROS TRAUMAS COLETIVOS E NÃO EVOLUIU. OUTROS, MAIS ESPERANÇOSOS, ACREDITAM QUE VAMOS SAIR DESSA MELHORES. EM QUE TIPO DE CORRENTE O SENHOR SE ENQUADRA, ENTRE OS OTIMISTAS OU PESSIMISTAS?

Não sou triunfalista a ponto de imaginar que sairemos redimidas e redimidos, que teremos uma conversão ao mundo da bondade e da solidariedade. Mas também não sou catastrofista para supor que não haverá alterações de conduta de várias pessoas e de alguns governos que forem inteligentes, que aprenderão com essa lição. Pelo meio mais difícil, que é o dano, mas aprenderão. A humanidade é capaz, em algumas circunstâncias, de dar um passo além. Há mais de 70 anos que a gente busca negar o horror nazista. Aquela foi uma lição. Quem passou por processos como genocídios diz o tempo todo que não podemos esquecer, que não podemos deixar de lado aquilo que foi tão horroroso. O mesmo vale para outras situações na história humana. A gente conseguiu dar um passo adiante. O grande Ivan Izquierdo (1937-2021) produziu uma reflexão muito forte ao falar do papel do esquecimento na preservação da saúde mental: "Existe um esquecimento que é ruim, que traz maldade, porque se acaba correndo o risco de, colocando na penumbra o que já foi negativo, trazê-lo de volta num outro momento. Mas existe um esquecimento que é necessário". Temos de sair da pandemia, temos de ter um controle maior sobre as circunstâncias de vida coletiva e não podemos levar na memória de modo contínuo tudo o que vivenciamos porque, do contrário, não damos o próximo passo. Por isso, há coisas que precisam ser trancadas num baú de memórias, mas há outras que a gente não pode esquecer. Na história humana, há momentos em que o aprendizado foi mais elevado do que o esquecimento proposital marcado pelo fingimento de que as coisas não tinham acontecido.

O SENHOR, ENTÃO, FICA EM UM MEIO TERMO ENTRE O OTIMISTA E O PESSIMISTA?

Não. Sou um otimista crítico. Sou aquela pessoa que enxerga a possibilidade de fazermos o que é melhor, mas não acha que isso será automático, que virá conosco apenas aguardando as coisas acontecerem. Nesse sentido, ao contrário do que escreveu Lupicínio Rodrigues, não acho que "a felicidade foi-se embora". A gente tem de colocar um ponto de interrogação e sermos capazes de reescrever e reinventar nosso trajeto. O otimismo crítico é aquele da esperança ativa, de quem se junta e vai buscar o melhor. Não é o da esperança que aguarda. Uma das frases que eu menos aceito é: "Por favor, alguém tem que fazer alguma coisa". Essa expressão deve ser colocada como uma pergunta espelhada. De modo que, embora ninguém consiga fazer tudo, ninguém é incapaz de fazer algo para que as coisas melhorem.

HÁ PESQUISAS E PESQUISADORES ALERTANDO PARA UM AUMENTO DOS PROBLEMAS DE SAÚDE MENTAL DURANTE A PANDEMIA. MUITA GENTE ESTÁ COM DIFICULDADE DE PASSAR PELO PERÍODO COM AS RESTRIÇÕES, O ISOLAMENTO, A SENSAÇÃO DE MEDO... JÁ TEM GENTE FALANDO DE UMA OUTRA EPIDEMIA: DE ANSIEDADE E DEPRESSÃO. SERÁ QUE, COMO SOCIEDADE, AGORA VAMOS FINALMENTE LEVAR MAIS A SÉRIO ESSE TIPO DE DOENÇA?

Agora ainda não conseguimos olhar melhor para isso. Porque hoje o perigo do vírus é muito expressivo. As situações de transtornos depressivos de maneira geral ainda não são tão notadas porque ficam dispersas em meio a essa outra agrura que estamos vivendo. Mas os lutos que serão vividos, que não só são lutos em relação a perdas de pessoas, mas a todas as perdas, de emprego, da condição econômica, do convívio, dos projetos, do tempo em isolamento, sem dúvida, deixarão cicatrizes. Não podemos fingir que isso não virá à tona. O surto possível de transtornos depressivos tem uma possibilidade muito grande de eclodir. E aí, nas várias instâncias de cuidados sociais, é preciso que não se subestime a condição depressiva que algumas pessoas terão. Será necessário entender que talvez não estejamos diante apenas de demonstrações de fraqueza, mas do resultado de uma série de circunstâncias que são funcionais, no campo da mente, que são orgânicas, no campo químico, e que não podem ser desprezadas. Então, se agora a emergência é cuidar para evitar a contaminação, o passo seguinte no campo da saúde pública e das políticas em geral será lidar com a saúde mental.

COMO PODEMOS SUPERAR AS MUDANÇAS TRAZIDAS PELA PANDEMIA E ENTENDER QUE AQUELA VIDA DE ANTES JÁ NÃO É MAIS A MESMA? ELA PODERÁ VOLTAR A SER?

A vida nunca é do mesmo modo. Ela é de modos diversos. Mas a aceleração das mudanças foi muito impulsionada neste momento. De 16 de março de 2020 até a data de agora estou em isolamento social quase completo. Tive de me reorganizar e mesmo reinventar o meu trabalho para que pudesse fazê-lo de modo remoto, para que minha produção e convivência com as pessoas com as quais eu trabalho se desse de outra maneira. Sou professor há 46 anos. Imagine o quanto que tive de alterar o modo de ensinar, a convivência com as novas gerações, a chegada de tecnologias. Sempre mudei, mas nunca tive de mudar tanto num tempo tão comprimido. Por isso, a nossa dificuldade maior quando do apaziguamento pandêmico será nos darmos conta de algo que não foi digerido direito. Nós não deglutimos, não conseguimos refletir tanto sobre a vida que levávamos e que passamos a levar. Em março, lanço um livro novo que busca também analisar essas questões todas nossas, mas especificamente ligadas ao mundo do trabalho. Um livro inspirado no estupendo paraibano Geraldo Vandré que se chama Quem Sabe Faz a Hora - Competências Certas em Tempos Incertos. A única maneira de lidarmos com tudo o que está acontecendo de modo que não seja traumático é sermos capazes de imaginar que, em todos os nossos momentos anteriores da vida, ultrapassamos fases não tão densas e danosas como esta, mas conseguimos fazê-lo. Afinal, não nascemos prontos. Vamos nos construindo dentro da nossa trajetória. Os idosos têm uma expressão que nos ajuda, serve para meditarmos, quando diziam que "quando não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe", ou "não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe". A vida é um processo, e processo é mudança. Teremos de reaprender, refazer, recriar, mas faremos isso. Vou citar um exemplo muito pessoal. Minha mãe, Emília, está a um quarteirão e meio do meu apartamento. Ela fará 92 anos, e foi vacinada em 9 de fevereiro. Ela nasceu em 1929, ano da grande crise econômica, quando meus avós espanhóis, que estavam no Brasil desde o final do século 19, quebraram porque eram da área do comércio. Minha mãe nasceu uma década depois de a gripe espanhola levar 50 milhões de vidas, 10 anos depois do fim Primeira Guerra Mundial, que levou vários parentes. Quando minha mãe tinha 10 anos, estourou a Segunda Guerra, na qual morreram 55 milhões de pessoas. E depois se viveu o terror de uma guerra nuclear que poderia extinguir a humanidade de modo conclusivo. Quando ela já era mãe e quase avó, tivemos a crise do petróleo, a inflação estupenda no Brasil, e momentos em que o terrorismo se deu de vários modos. Agora, com ela já bisavó, vivemos um mundo de violência e brutalidade. Quando falo para ela "mãe, tá difícil", ela diz assim: "Cê não viu nada!?. É um sinal de alento nestes tempos difíceis.

O SENHOR COSTUMA CITAR O PERSONAGEM RIOBALDO, DE GRANDE SERTÃO: VEREDAS, PARA QUEM VIVER É MUITO PERIGOSO. É MESMO?

Riobaldo diz isso várias vezes em Grande Sertão: Veredas, e temos de lembrar que Guimarães Rosa era médico. Portanto, ele estaria, se vivo estivesse, provavelmente envolvido num trabalho de busca de proteger a vida. Das várias vezes em que Riobaldo diz, numa delas é um pouco mais inclemente porque ele diz que "viver é muito perigoso, sempre acaba em morte". Nesse momento, ele está dando um sinal que serve para o nosso tempo. A consciência da nossa mortalidade ficou muito mais evidente na pandemia. Algumas pessoas esquecem de que a morte não é uma ameaça, mas uma advertência de que não somos infinitos. E que, portanto, nós temos de cuidar para que a vida que temos, enquanto a temos, não seja banal, inútil, fútil, descartável. De modo algum, entendo a morte como ameaça. Ela é apenas uma condição de qualquer ser vivo. Nesse sentido, é preciso entender que esse perigo não significa uma impossibilidade de enfrentá-lo. Viver é perigoso, mas enfrentar o perigo é preciso. Como lembra Mario Quintana: "Um dia... Pronto! Me acabo. Pois seja o que tem de ser. Morrer: que me importa? O diabo é deixar de viver". E deixar de viver não é algo que aconteça quando se morre. Deixa-se de viver quando se vive de modo banal, egoísta e tolo. Nesse sentido, insisto: viver é muito perigoso, mas a gente faz aquilo que deseja e aquilo que pode para que este perigo seja enfrentado, e a vida, enquanto der, não cesse.

QUE LIÇÕES DEVEMOS TIRAR DESSE PERÍODO? É POSSÍVEL TIRÁ-LAS AINDA EM MEIO À DOR E À TRISTEZA?

Podemos tirar três grandes lições deste período. Em filosofia, a gente costuma dizer que quem menos sabe da água é o peixe. Estamos, ainda, muito mergulhados neste momento para entendê-lo. Então, ainda não dá para olharmos para todas as lições. Mas três são nítidas. A primeira é que precisamos ter cautela com a nossa arrogância enquanto humanidade. É preciso mais humildade. Não somos capazes de todas as coisas, nem com a velocidade que a gente imagina. Nações altamente poderosas, com a capacidade destrutiva de fazer com que o planeta desapareça se utilizarem todo o seu armamento num determinado tempo ou de modo concomitante, são incapazes de liquidar num tempo mais veloz um adversário que nem é visível. A segunda lição é o quanto a ciência colaborativa e o trabalho cooperado são decisivos. De fato, não haveria como diminuir o horror produzido à nossa volta não fosse a força que a cooperação oferece. Se cada local buscasse achar a sua saída exclusiva, individual e localizada, não se produziria o resultado inédito que se conseguiu em ciência até agora. Terceira lição: havia muitas coisas que estavam na penumbra. Não estávamos vendo o quanto havia de sofrimento cotidiano para muitas pessoas que, independentemente da pandemia, já tinham suas dores, suas feridas, em relação à condição de vida. Veja o acesso à tecnologia, por exemplo. Quantos alunos estão tendo dificuldades com o ensino remoto por não disporem de aparato tecnológico. Há uma ausência brutal de condições de existência de vários tipos que a pandemia acabou trazendo à tona.

EM 2020, O SENHOR LANÇOU O LIVRO FELICIDADE: MODOS DE USAR JUNTO A LUÍS FELIPE PONDÉ E LEANDRO KARNAL. HOJE É MAIS DIFÍCIL SER FELIZ?

A felicidade é uma circunstância eventual. Não é uma presença contínua. Ela não é um evento futuro. Quem diz "um dia eu vou ser feliz" terá uma grande chance de não sê-lo, porque fica aguardando, tal como em Esperando Godot, alguém que não virá e não chega. Uma pessoa que, no momento como este, estiver o tempo todo feliz, não é feliz; ela é tonta. Está alienada em relação ao que a circunda. Mas uma pessoa que for infeliz o tempo todo está perdendo ocasiões em que a vida dela poderia vibrar. Não dá para ser feliz o tempo todo, mas não dá também para ter a escolha da amargura e da melancolia. Mesmo que se tenha muito mais incômodos do que sofrimento, como pode ser o caso atual com as restrições de circulação e de convivência social.

QUE IMPACTO A SOCIEDADE PODE TER DIANTE DE LIDERANÇAS QUE INCITAM O NEGACIONISMO, FAZEM FALAS ANTICIÊNCIA E DÃO CORDA PARA MOVIMENTOS CONSPIRATÓRIOS? É UMA PERGUNTA PARA ALÉM DO IMPACTO INICIAL ÓBVIO DE TER GENTE QUE ENTRA NA ONDA SE RECUSANDO A SE VACINAR, POR EXEMPLO: PODEMOS COLHER ALGO A LONGO PRAZO, UMA SOCIEDADE PARANOICA OU ALGO DO TIPO?

Aderir ao que ameaça a vida das comunidades humanas é grave. Mais ainda quando vem daqueles que precisam exercer a liderança. O fato de haver várias nações com líderes que não têm preparo para fazê-lo tornou muito mais expressivo este momento ruim. Por outro lado, também serve como alerta para que se entenda que o negacionismo tem de ser levado a sério. Não pode ser lidado de modo folclórico. E a maneira de enfrentá-lo é com provas, com o concreto. E com a responsabilização. Isso é, pessoas que, por conta de uma atitude despreparada, fizeram com que as sociedades com as quais elas têm responsabilidades públicas ficassem desprotegidas, não podem ficar impunes em relação ao que fizeram. Falo de várias lideranças mundiais que desqualificaram a pandemia. 

O Brasil, especificamente, terá de sair deste momento com uma noção mais nítida de que a democracia tem alguns mecanismos de proteção que ajudam bastante. Bom, mas nenhum de nós que em 2018 depositou o voto na urna imaginaria que uma pandemia poderia ocorrer. A gente não imaginava, mas tínhamos de levar em conta que, quando escolhemos uma liderança, esta terá tarefas e responsabilidades. A longo prazo, não sei se ficaremos paranoicos, mas mais atentos e atentas nós precisamos ficar. Afinal, como dizem alguns, "confie em Deus, mas amarre bem os seus cavalos". Porque, de repente, alguma coisa pode vir pela frente.

ALINE CUSTÓDIO

20 DE FEVEREIRO DE 2021
LYA LUFT

O terrível e o sublime

Que somos animais predadores com vernizinho de civilidade, ou de humanidade se quiserem, isso me parece óbvio. Basta soltar as amarras num impulso de raiva, num momento de ódio, num fanatismo qualquer, e lá vamos nós, nada bonzinhos, matando, esquartejando, estuprando, aniquilando com mísseis ou espalhando morte e tripas com algum homem-bomba. Lá vamos nós treinar menininhos para matar com fuzis maiores do que eles. Lá vamos nós queimar prisioneiros vivos dentro de jaulas aos olhos de uma multidão.

Onde, quando ouvi ou li coisas parecidas? Foi no Holocausto? Está sendo em tantos holocaustos atuais? Foi Nero, que mandou matar a mãe, assassinou com pontapés na barriga sua mulher grávida, mandava empalar cristãos cobertos de óleo em postes para queimarem iluminando seus jardins? Nero, incompreensivelmente discípulo do meu amado filósofo Sêneca, cujos pensamentos sábios, harmoniosos, nobres e tranquilizadores leio e releio desde adolescente? Comentei com um de meus filhos, quando falávamos mais uma vez sobre a violência no Brasil, e também aqui, que, lendo um bocado de História, até acho que melhoramos muito. Não havia imprensa, não havia organizações, não havia democracia que botasse limite na ferocidade humana.

Mas hoje, mesmo tendo melhorado em relação às barbáries passadas, aqui nas nossas ruas não temos sossego. A cada dia, alguém que conheço ou que é conhecido de algum amigo é assaltado, e tudo termina com o suspiro de alívio: "Ainda bem que só levaram minha carteira, meu carro, não minha vida, nem minha mulher ou meus filhos. Tivemos sorte".

Que vida é essa, que pensamento funesto? Terrível atestado da nossa vergonha e conformidade, e da incompetência de quem deveria administrar o país. O crime começa a compensar. O criminoso nos controla. Saímos pouco à noite, e com receio. Não paramos o carro nos sinais vermelhos altas horas, o que aliás nos foi há tempos sugerido por uma autoridade de segurança, se não me engano. Em cidades como Rio, e lugares do Norte e Nordeste, está vivo o espírito dos jagunços, tiroteios, mortes, roubos de grandes quantias, bancos arrombados, cofres explodidos. Criminosos fugidos, às vezes mortos eles e os policiais. Apesar da pandemia assassina, essa loucura prossegue.

Meus filhos brincavam nos terrenos baldios perto de casa, há algumas décadas, e ninguém se preocupava com a possibilidade de tragédias hoje banais. Ao escurecer, a gente chegava na esquina, chamava, "venham tomar banho e jantar!". E vinham, suados, cansados e felizes, os pais de nossos netos, que já não andam sozinhos nem até a escola. Sei que é ingenuidade querer de volta aqueles tempos, mas podíamos estar mais civilizados.

O consolo é que essa humanidade sedenta de sangue também produz milagres como as obras de arte e seus autores. Van Gogh, Monet, Mozart e Bach, Shakespeare e Pessoa, os sublimes: os artistas. Mas também os mais cotidianos gestos dos jovens alegres e saudáveis, das crianças carinhosas, dos pais maravilhados, tudo o que nos faz acreditar que não produzimos só barbárie e repulsa, mas claridade, beleza, e - apesar de tudo - esperança. Muito necessária nestes tempos da Peste do século. Que nos assusta, nos intimida, e nem sempre nos faz escolher a melhor opção, além de cuidados: Vacina.

LYA LUFT

20 DE FEVEREIRO DE 2021
MARTHA MEDEIROS

Mães solo 

Semanas atrás publiquei uma coluna em que citava Amanda Gorman, que leu um poema na posse do presidente americano Joe Biden. Em dado momento do texto, a apresentei como ela mesma se apresentou naquele dia, dizendo que era descendente de escravos e filha de mãe solteira. Não me senti confortável ao usar esta expressão, mas foi a tradução que fiz de single mother e, como não me ocorreu outra, deixei por isso. Depois que enviei o texto para o jornal, pensei: "Humm, vai chover reclamação, fui descuidada". Mas a torrente não veio. Recebi uma única mensagem mencionando o fato, e nem foi de uma mulher, e sim de um leitor chamado Marcelo. Foi ele que, com muito tato, me puxou a orelha: você não conhece a expressão "mãe solo"?

Sigo perfis nas redes, leio livros, assisto a entrevistas, documentários, mantenho o radar ligado 24 horas e, ainda assim, tanta coisa me escapa: não, eu não conhecia a expressão mãe solo. Se ouvi, não retive. Por isso, mesmo sem acusações, volto ao assunto para corrigir-me e para chamar atenção de alguns outros desavisados, se houver.

Décadas atrás, uma mulher não casar era uma tragédia, e desqualificava-se a vítima chamando-a de solteirona. Não bastasse o rótulo pejorativo, ela era vista como amarga, infeliz e solitária - afinal, não havia sido "escolhida". Não é de hoje que o mundo é cruel.

A roda girou e mulheres solteiras transam, com ou sem parceiro fixo. O casamento passou a ser uma opção, não um destino. E sendo a gravidez um efeito colateral do sexo, um dia o teste dá positivo. Infelizmente, muitos ainda se apressam em julgar a grávida sem marido como uma aventureira ou irresponsável. Onde está o pai? Boa pergunta. Fugiu? Não quis assumir? Acontece muito. Às vezes, ele não foge, ao contrário, assume com alegria a paternidade e divide as responsabilidades com a mãe, dando ao filho o mesmo amor que ela, mesmo sem formarem um casal. Pode, também, ela engravidar numa relação casual e resolver criar o filho sozinha. Ou ela pode ter sido inseminada de um doador desconhecido. Outra hipótese: ela pode ser homossexual e decidir ter um filho, adotado ou biológico, como um projeto próprio, particular.

Todas essas variantes têm um ponto em comum: seja qual for o caso, ninguém tem nada com isso, não é passível de julgamento. Joan Wicks é uma professora californiana que criou sozinha seus três filhos, um menino e duas meninas, sendo uma delas, Amanda. Joan era casada? Nunca foi? Não sabemos e não importa. O resultado é Amanda, uma menina elegante, talentosa e consciente, que demonstra ter recebido uma educação de muito valor de sua mãe solo. Da mesma forma que há pais solo, e não pais solteiros. Solo. Uma pequena palavra pavimentando um avanço.

MARTHA MEDEIROS

20 DE FEVEREIRO DE 2021
CLAUDIA TAJES

Amor a sete chaves 

A quarentena mudou a rotina do mundo. O que era perto, de uma hora para outra, ficou mais distante que a lua. O que era simples, de repente, ficou complexo, complicado, uma barafunda. Ainda assim, apesar das chamadas condições adversas, surgiram histórias de amor. Porque o amor pode ser tanto um diamante, que não se quebra, quanto uma erva daninha, que aparece do nada. E quem consegue se livrar dela?

O amor resiste, o danado.

São muitas as notícias de relacionamentos amorosos que vingaram durante a pandemia. Casais que se apaixonaram a distância e nunca se viram pessoalmente, casamentos online e até gente caindo de amores pelo vizinho de porta. Pena que com uma porta no meio. A historinha a seguir é um exemplo. A Ana e o Rafael se conheceram em Porto Alegre, no saudoso Carnaval de 2020. Contrariando as expectativas, continuaram a se ver depois da quarta-feira de cinzas, até que março chegou e ela viajou para estudar em Portugal. O Rafael combinou de encontrá-la em abril e, quem sabe, ficar por lá também, ele que estava meio perdidão na vida.

A Ana e o Rafael só não contavam com o coronavírus. Ninguém contava, sejamos francos. E os planos deles viraram de cabeça para baixo.

Março de 2020:

Rafael: Não vai dar para ir. Fechou tudo, ninguém entra e ninguém sai!

Ana: Dá um jeito! Eu preciso te ver!

Rafael: Só com teletransporte! Não tem voo, não tem navio, eu vou como?

Ana: Em dois dias a gente completa um mês de namoro. Eu vou comemorar sozinha?

Rafael: Meu amor, a gente tem a vida toda para comemorar!

Ana: Não aguento mais ficar abandonada aqui no hotel, só eu e o senhor da portaria que não entende o que eu falo.

Rafael: Mas ele não é português?

Ana: É, mas não ouve direito. Vem logo!

Rafael: Só se eu tivesse um avião. Mas eu não sou o Luciano Huck!

Ana: E se você falasse com ele? Não sai uma carona?

Rafael: Meu amor, você está muito nervosa! Para um pouco, acalma!

Ana: O que mais você sabe fazer além de me criticar?

Rafael: Eu não estou te criticando! É que nós precisamos ser maduros.

Ana: Eu sou madura. Vem para cá agora!

Rafael: Tem que ser a nado, então. Mas eu só sei nadar cachorrinho.

Ana: Se você se importasse comigo, viria. O que são alguns milhares de quilômetros com tubarões e ondas gigantes quando a gente ama?

Março de 2021:

Rafael: Passagem comprada, malas feitas e PCR na mão. Amanhã eu chego para comemorar o nosso primeiro ano de namoro!

Ana: Más notícias. Lockdown aqui. É para a nova cepa que vem do Brasil não entrar.

Rafael: Eu não tenho nada a ver com isso! Eu não sou uma cepa! Eu quero entrar!

Ana: Nós precisamos ser maduros.

Rafael: Maduro, o cacete! Um ano de namoro e a gente só se viu por quatro dias! Ainda tem tanta coisa para conhecer. Para mim você não é um país, é um continente. Não, é uma galáxia. Eu preciso de toda a minha vida para te descobrir.

Ana: Eu espero todos os anos-luz que precisar para a sua galáxia encontrar a minha.

Pelo jeito, vai esperar mesmo. O Rafael está no grupo não prioritário e vai demorar bastante a se vacinar. Mas essa história não é uma tragédia e, para brincar, os atores Leonardo Barison e Janaína Barbosa estão interpretando a saga de Rafa e Ana na série Zoommance, no Vimeo. Roteiro feito em família pelo Duda Tajes e por mim. Entra aqui para ver: gzh.rs/zoommance.

Dependendo de quantas novas cepas ainda aparecerem, a gente sai dessa.

CLAUDIA TAJES

20 DE FEVEREIRO DE 2021
CAPA

Humor como antídoto

Tati Bernardi descobriu que suas histórias tragicômicas poderiam fazer outras pessoas rirem de seus próprios problemas. Hoje, a escritora e roteirista tem 10 livros publicados e comanda um podcast sobre temas como maternidade

Tati Bernardi sofreu com crises de pânico por cinco anos. Dos 25 aos 30, a ansiedade dominava seu corpo e a paralisava. No consultório da terapeuta, a escritora e roteirista revelava seus desafios diários e recebia conselhos, mas não só isso: também ouvia sonoras gargalhadas a cada história que contava. Foi aí que a ficha caiu. Sua vida, ou melhor, seu jeito escrachado e cômico de narrar a própria trajetória poderia virar um livro e arrancar risadas de outras pessoas além de incentivá-la a olhar para si com menos julgamento e mais leveza. Depois a Louca Sou Eu foi lançado em 2016, virou best-seller e, no próximo dia 25, chega aos cinemas estrelado por Débora Falabella e dirigido por Julia Rezende.

- Contar essas histórias e fazer os outros rirem me fez ver que eu era humana, não era de outro planeta. Sou neurótica de um jeito que é engraçado porque, no fundo, todo mundo é um pouco assim - afirma.

Este é o primeiro livro de Tati que inspira um longa-metragem. Apesar da paulista ser roteirista da Globo, estar por trás de sucessos como a franquia Meu Passado Me Condena e ter pelo menos 10 obras publicadas, ela preferiu acompanhar a produção de longe, com poucos pitacos para não se tornar "irritante". Até porque projetos bacanas não faltam na vida da escritora, que é publicitária de formação e decidiu emendar cursos na área da psicanálise nos últimos anos. Ao lado de Camila Fremder e Helen Ramos, comanda o podcast Calcinha Larga, que faz sucesso ao tratar do universo feminino sem filtros - já participaram convidadas como Carolina Dieckmann, Andréia Sadi e Malu Mader. Ela também estreou neste mês Meu Inconsciente Coletivo, podcast focado em saúde mental. No ano passado, lançou o livro Você Nunca Mais Vai Ficar Sozinha, ficção que expõe a maternidade real. Tudo isso equilibrando a vida a dois com o marido, o diretor e roteirista Pedro Coutinho, e os cuidados com a filha, Rita, de três anos.

A seguir, a escritora abre o jogo sobre ansiedade, a busca por uma vida longe dos padrões e o quanto o humor a ajuda a lidar com seus próprios desafios.

O filme é baseado no seu livro, que é autobiográfico. O quanto da Tati tem na personagem Dani?

Quando me ligaram para comprar os direitos do livro para fazer um filme, eu faria o roteiro. Fiz uma primeira versão, só que a Julia (diretora) leu e disse: "Putz, isso não é o livro". Daí disse que não sabia fazer e pedi para sair do projeto. Meu livro é de memórias, meio autoficção, tem uma base de coisas que aconteceram. Mas, para virar literatura, exagerei muito. Percebi que minhas histórias de crise de pânico davam um livro porque eu contava para a minha analista e ela tinha ataques de riso. Levei esse humor e exagero para o livro, por isso não digo que é 100% autobiográfico. O filme é mais distante ainda do que aconteceu, mas tem uma base real lá.

Mesmo abrindo mão do roteiro, você deu pitacos?

Sou apaixonada pela Débora (Falabella), como atriz e como ser humano. No teatro, ela fez personagens neuróticas, engraçadas e dramáticas. Achava que ela tinha tudo a ver com meus textos. Ela me escreveu dizendo que, se rolasse alguma adaptação, queria fazer. Foi na semana que me ligaram querendo levar para o cinema. Fomos tomar um café e percebi a Débora dando uma olhada em mim para pegar trejeitos, jeito de falar. As roupas que ela usa no filme são copiadas de modelitos que eu usava. Depois que o Gustavo Lipsztein assumiu o roteiro, me distanciei porque eu opinava de um jeito que poderia ser irritante. Só vi depois de pronto mesmo.

No filme, a Dani sofre com crises de pânico. Você acredita que vivemos na era da ansiedade?

Quando escrevi o livro, achei que seria de nicho. Só que vendeu mais de 40 mil exemplares, considerado um best-seller no Brasil. Ficou claro para mim o quanto a galera estava tendo crise de pânico, de ansiedade e tomando remédio. Angústia todo mundo tem, em maior ou menor grau. Tive crise de pânico dos 25 aos 30 anos. Hoje, estou com 41 e faz mais de 10 anos que não tenho, mas tenho enxaqueca, fibromialgia, insônia, acho que os sintomas só caminharam pelo corpo. A angústia sai por algum lado, e é por isso que as pessoas se identificam.

Rir de si mesma é uma saída para encarar a ansiedade?

Percebi que me fazia bem quando a minha analista ria das minhas histórias. Fazer os outros rirem me fez ver que eu era humana, que não era nada de outro planeta. Sempre contei histórias assim, exageradas, neuróticas, e todo mundo ri desde que sou criança. Conto as coisas sérias e as pessoas riem, sou neurótica de um jeito que é engraçado porque, no fundo, todo mundo é um pouco assim. E é uma forma de me acalmar e me fazer rir.

O filme também reforça que os relacionamentos são construídos por pessoas reais e falhas. Ainda idealizamos a vida a dois?

Quando comecei a trabalhar, achava um saco ter horário para entrar e sair de uma empresa. Queria ser escritora e trabalhar em casa, mas queria ganhar dinheiro. Então, decidi atacar para todos os lados: jornal, revista, televisão, peças de teatro, cinema. Me dei conta que não ia viver a maternidade que todo mundo faz. No casamento, a mesma coisa. Tive relacionamentos antes do Pedro que acabavam muito porque eu não suportava uma pessoa dentro da minha casa o tempo inteiro. Ele e eu temos dois apartamentos. Quando um quer ficar sozinho, dá para se isolar. E é ótimo, nós dois trabalhamos em casa. Estamos juntos há oito anos.

Seu último livro trata de maternidade sem floreios ou romance. Tem um quê de autobiografia?

Comecei a escrever o Você Nunca Mais Vai Ficar Sozinha quando não estava grávida e era muito sobre a relação com a minha mãe, Ruth. É superintensa, grudada, sou filha única, e com briga também. Era um livro engraçado sobre mãe e filha. Era uma autoficção, partia de uma base real, mas tinha muita coisa inventada também. E daí engravidei de uma menina. Mudei tudo e virou o livro de uma mulher que está na zona intermediária, que ainda não é mãe porque o bebê não nasceu, mas já é mãe porque está grávida, e também não é mais apenas a filhinha da mãe dela. De não querer repetir os erros, mas repetir os acertos da relação com a própria mãe.

Depois do nascimento da Rita, uma nova Tati desabrochou?

A maternidade implode a sua vida de antes e começa uma nova. Claro, sou a mesma pessoa, mas mudou. Amadureci muito. Até os 38 anos era uma menina em muitas questões, daí nasceu minha filha, que agora tem três anos, e estou focada nela. Ela não pode cair, tem que comer, fazer cocô, dormir. Descentralizei minhas hipocondrias e fobias que eram infantis e ligadas à minha mãe. Eu trabalhava mais desfocada antes, tinha o dia inteiro para mim e para o meu trabalho. Agora, tenho horários para ficar com a minha filha, não perco um segundo do meu tempo, foco 100% quando estou no escritório para voltar logo e ficar com ela. Passei a trabalhar mais focada e melhor, virei uma escritora melhor.

A maternidade ainda é sinônimo de culpa?

Muito. Faço terapia duas vezes por semana, estudo psicanálise há cinco anos, tenho um podcast que tira sarro da culpa materna e sinto culpa todos os dias, já acordo com culpa. Precisamos falar mais disso.

O sucesso do podcast Calcinha Larga foi surpresa?

Era o podcast que eu queria que existisse quando estava no puerpério amamentando a minha filha. Nasceu pensando nessa mãe que está amamentando e as pessoas dizendo que tem que estar feliz o tempo todo. E ela está ali, achando que a vida mudou para sempre, meio deprimida, sem espaço, porque há uma cobrança para ser feliz 100% do tempo. Nasceu para dizer que é normal ter raiva do filho de vez em quando, estar de saco cheio, deprimida, achar um porre amamentar o dia inteiro. A primeira temporada foi isso, a segunda, sobre sexo, e a terceira, que está rolando agora, é sobre amizade. Somos três amigas conversando, é uma brincadeira com esse nome "saia justa". Acreditava muito no projeto porque as pessoas sentem falta de conteúdo que fale sobre ser de verdade.

Você acha que as mulheres estão se apoiando mais, na prática? E que isso se refletiu em movimentos contra o assédio, por exemplo, que ganharam força nos últimos anos?

Enxergo total. Claro, não dá para ser boba e falar que todas as mulheres se amam. Na minha trajetória, tive muito homem que me ajudou, chefe maravilhoso, mas também passei por muito machismo. Até pouco tempo atrás achava uma besteira esse papo, não para a mulher negra e da periferia, mas eu como branca e de classe média ficar levantando essa bandeira achava que era mimimi. Durante muito tempo, falava: "Nasci numa família de classe média, sou branca, estudei em escola particular, trabalhei onde queria, tinha machismo, mas fui lá e fiz". Esse é um discurso bobo. É claro que para a menina negra da periferia é muito pior, mas também tenho que reconhecer que sofri machismo porque estou no mundo. Não posso desmerecer os machismos pelos quais passei.

A pandemia tem sido um período criativo para você? O que vem de novidade por aí?

Pensar roteiros foi impossível. Estava escrevendo uma série para a Globo, mas não sabia se escrevia com o tema coronavírus na vida dos personagens ou se ninguém mais ia aguentar isso quando fosse ao ar. Acabou não rolando, não sendo filmada, e foi um alívio porque fiquei muito engessada. Foi difícil escrever na pandemia porque acho que deu um cansaço na alma. E fiquei com uma dificuldade quase cognitiva. Acho que a cabeça da gente estava muito cansada de tanto buscar informação. Estreei o podcast Meu Inconsciente Coletivo recentemente, e também tem a série Tapa na Cara, que escrevi e vou começar a filmar.

 NATHÁLIA CARAPEÇOS


20 DE FEVEREIRO DE 2021
DRAUZIO VARELLA

A VACINAÇÃO VIROU BAGUNÇA NO BRASIL

Tem cabimento vacinar terapeutas e personal trainers antes dos mais velhos, que representam 70% dos mortos?

Olha a bagunça que virou a vacinação contra o coronavírus.

Reconhecido como um dos maiores programas do mundo, ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) caberia coordenar a distribuição das vacinas e estabelecer regras rígidas para definir as localidades e os grupos que deveriam receber as primeiras doses disponíveis.

Não faltaria conhecimento a um programa com mais de 45 anos de idade, que foi capaz de eliminar a varíola e a poliomielite do país, de vacinar 18 milhões de crianças contra a poliomielite num só dia, 100 milhões de pessoas contra a H1N1 em três meses, em 2010, e 80 milhões contra a influenza, em 2020.

Agora, sem autonomia para coordenar a estratégia de vacinação, o programa houve por bem pulverizar pelo país as poucas vacinas existentes, como se a epidemia ameaçasse todos os municípios com igual virulência. Ao lado desse equívoco, facultou a Estados e municípios a adoção dos critérios para estabelecer prioridades, de acordo com as realidades locais.

A falta de uma coordenação centralizada com regras válidas para o país inteiro gerou essa confusão de grupos e de pessoas que subvertem a ordem prioritária e confundem a população, incapaz de entender porque em cada cidade a vacinação chega para uns e não para outros.

Profissionais formados em Psicologia, Biologia, Veterinária, Educação Física, além de trabalhadores da área da saúde que nem sequer chegam perto dos doentes com covid, são vacinados antes das mulheres e homens com mais de 80 anos. Enquanto nos entretemos com as imagens dos telejornais que mostram senhoras e senhores de 90 anos, infantilizados pelo repórter que lhes pergunta se estão felizes com a vacina, passa a boiada dos mais jovens que furam a fila.

Tem cabimento vacinar veterinários, terapeutas, personal trainers, escriturários de hospitais, antes dos mais velhos, que representam mais de 70% dos mortos? É justo proteger essa gente antes dos professores, dos policiais e de outras categorias mais expostas ao vírus?

A distribuição pulverizada das vacinas sem levar em conta a prevalência do coronavírus, as condições do sistema de saúde da localidade e as vagas disponíveis nos hospitais é demonstração inequívoca de incompetência.

Veja os exemplos do Amazonas e de Roraima, caríssima leitora: hospitais lotados, filas de doentes sentados à espera de um leito, UTIs sem vagas, pacientes transferidos para cidades a milhares de quilômetros, uma linhagem mutante do vírus bem mais contagiosa que se espalha pelo país.

Em Manaus, se somarmos aos manauaras com mais de 60 anos aqueles com comorbidades, teremos cerca de 200 mil pessoas. No Estado do Amazonas haveria 400 mil. Não seria mais lógico, neste momento, enviarmos para lá 800 mil doses de vacina, na tentativa de pôr ordem no caos e conter a disseminação da linhagem mais perigosa? É preciso pós-doutorado em Oxford para ter uma ideia dessas?

A imunização contra o coronavírus impõe pelo menos três grandes desafios. O primeiro é que nunca iniciamos uma campanha sem ter doses suficientes, situação a que chegamos pelas dificuldades de produção de vacinas disputadas pelo mundo inteiro e pela desídia de um governo negacionista que não se interessou em adquiri-las quando ainda havia disponibilidade.

O segundo é a necessidade de administrar duas doses da mesma vacina, com intervalo de algumas semanas: recebeu a primeira dose da Fiocruz/AstraZeneca, a segunda não pode ser a do Butantan/Sinovac, e vice-versa. Com a presente escassez, não será fácil organizar a distribuição de preparações fabricadas por empresas diferentes, para chegar de forma ordeira nas 38 mil salas de vacinação espalhadas pelo país. O terceiro, talvez o mais grave, foi a substituição de especialistas competentes como a doutora Carla Domingues, que dirigiu o programa nacional de 2011 a 2019, por gente nomeada por afinidades corporativas e ideológicas. O atual ministro da Saúde e as chefias de coordenação que retiraram das mãos do PNI o poder de decisão têm algo em comum com você e eu, prezado leitor: a falta absoluta de experiência com imunizações em massa.

Que azar. Quando o Brasil mais precisava de técnicos treinados para executar a difícil tarefa de vacinar seus habitantes, única forma de reduzir a mortalidade e dar alento à economia, caímos nas mãos de um Ministério da Saúde fragilizado, dirigido por amadores.

DRAUZIO VARELLA