sábado, 24 de abril de 2021


16 DE ABRIL DE 2021
OPINIÃO DA RBS

MÁQUINA DE GERAR CONFLITOS

É mais um péssimo sinal emitido pelo governo federal ao mundo a demissão do chefe da Polícia Federal (PF) do Amazonas, Alexandre Saraiva. O afastamento aconteceu em um intervalo de menos de 24 horas após vir a público a notícia de que Saraiva enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) uma notícia-crime em que pede apuração sobre atitudes do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e do senador Telmário Mota (Pros-RR). A alegação é de que ambos estariam prejudicando medidas de fiscalização de crimes contra a natureza. O pano de fundo do conflito é a apreensão de madeira com abundantes indícios de irregularidades feita pela PF, a maior ação do gênero da história do órgão, uma operação que, em circunstâncias normais, deveria ser saudada pelo Palácio do Planalto.

Salles, que pela função ocupada deveria ter uma atuação voltada à proteção do ambiente, age no sentido contrário, defendendo os interesses de empresas investigadas por suposto envolvimento em desmatamento ilegal. Poderia ser chocante, se não se tratasse de apenas mais uma investida de Salles a sabotar trabalho de vigilância contra ações danosas que afetam biomas brasileiros. As denúncias de obstrução de investigação ambiental, advocacia administrativa e organização criminosa contra o ministro deveriam ser suficientes para que o presidente Jair Bolsonaro o defenestrasse sumariamente. Mas quem caiu foi o chefe da PF no Amazonas. Às vésperas da cúpula do clima, convocada para a semana que vem pelo presidente dos EUA, Joe Biden, quando o Brasil vai ser cobrado a combater o desflorestamento, o governo brasileiro mostra que, na queda de braço, ficou ao lado dos suspeitos de crimes ambientais.

O caso tende apenas a acirrar a animosidade internacional contra o Brasil, reforçando a percepção de que o governo Bolsonaro é uma máquina de gerar conflitos. Nos últimos dois anos e quatro meses, são incontáveis as turbulências e as contendas internas e externas gestadas no Planalto. No plano doméstico, o mais recente é o novo ataque de Bolsonaro ao STF e a tentativa de influenciar a CPI da Pandemia. Isso após mal ter baixado a poeira da crise militar que levou à substituição do ministro da Defesa e dos comandantes das Forças Armadas, episódio que chegou ao fim, felizmente, com recados claros de militares da ativa e da reserva de que Exército, Marinha e Aeronáutica são instituições de Estado e não estão subordinadas a humores do presidente da vez. Ontem deu tempo ainda para gerar um novo atrito com o presidente da Argentina, Alberto Fernández, com uma publicação, em rede social, sobre o papel das forças armadas do país vizinho na pandemia. Uma atitude desnecessária, lamentável, gratuita e que passa longe do que deveria ser o cultivo de boas relações com as demais nações.

O governo federal tem conflitos com prefeitos, governadores, cientistas, põe em dúvida a lisura do processo eleitoral, interfere em estatais e se desentende com laboratórios e países que poderiam garantir ao Brasil uma situação mais confortável de vacinação, enquanto se esquiva de decisões difíceis e terceiriza culpas. Ao fim, são os brasileiros, exaustos, que perdem com tantas frentes de instabilidade abertas ao mesmo tempo. Espera-se que as instituições prossigam mostrando a solidez necessária para que o país atravesse os dias mais revoltos. Mas o custo de tantos sobressaltos, mais uma vez, pode ser uma nova frustrante constatação de que a tão esperada recuperação da economia será outra vez adiada.

 


16 DE ABRIL DE 2021
EDUARDO BUENO

Maior bandeira

A primeira bandeira do Brasil tremulou poucos dias após o grito do Ipiranga. Foi obra de Jean Baptiste Debret - que já tinha a pena na mão e uma ideia na cabeça. Tomando por base estandartes franceses, ele usou um fundo verde - a cor da dinastia de Bragança - e nele aplicou um losango amarelo, o dourado dos Habsburgos, a casa real da imperatriz Leopoldina. No centro do losango, pôs um escudo com a cruz da Ordem de Cristo, 19 estrelas e a esfera armilar, ladeados por um ramo de café e outro de tabaco - as drogas que faziam a fama e a fortuna do Brasil.

Tal pavilhão manteve-se no alto dos mastros até o golpe militar de 15 de novembro de 1889. Já ao raiar do dia seguinte, Lopes Trovão - o tempestuoso republicano -, apresentou sua nova versão. Era igual à bandeira dos EUA, stars and stripes: listras verdes e amarelas na horizontal e um quadro negro com estrelas no canto. Negro, em louvor aos africanos cujo suor e sangue tinham construído o país. Ruy Barbosa mandou pintar o retângulo de azul. E apresentou ao velho monarquista Deodoro, que odiou tudo. "Senhores, mudamos o regime, não a pátria", disse ele. E assim, com o lábaro que ostenta estrelado, surgiu a bandeira que você conhece - que alguns de nós juramos e que tem gente que agora sequestrou.

Sim, é fato: um bando - cada vez menor, mas cada vez mais fora de si - tomou de assalto a bandeira brasileira desde a campanha que acabou elegendo o mais despreparado presidente brasileiro de todos os tempos (e minha opinião vale mais, pois além de experiente doutrinador, estudei a trajetória de todos os que já comandaram o país desde o golpe que tirou os ramos de café e de tabaco da bandeira). Aliás, não sei como esse povo ainda não pensou em acrescentar um ramo de soja transgênica e uma carreira de pó branco (de avião da FAB) ao pavilhão. Pois já o levou para desfilar nas marchas mais vis das quais a bandeira tomou parte.

Domingo passado, eles se reuniram no Parcão, em torno da figura lastimável de Roberto Jefferson, para defender o direito de contaminar, o direito de aglomerar-se em tempos evangélicos e o "voto no papel". Passei por ali e vi duas criaturas caquéticas e patéticas com um cartaz que dizia: "Não é pandemia, é comunismo". Aí, desisti. Deles. Da bandeira. Quiçá do país. E com certeza do Parcão. Acho até que deveriam dar o Parcão para eles - desde que não saiam mais dali.

Só que a dona Laura Mostardeiro, o republicano Quintino Bocaiúva e a turma que fez a revolução de 30 no dia 24 de outubro (e talvez até o tal Comendador Caminha) não vão gostar nada disso. Mas como são eles que batizam as ruas ao redor do parque, talvez de fato os mantenham presos ali, onde grama não falta. Já a gente fica de boa na Redenção, que, aliás, é maior, mais democrática e mais bonita. Fui.

EDUARDO BUENO

16 DE ABRIL DE 2021
CHAMOU ATENÇÃO

Avanço da covid na Índia

A Índia registrou o recorde de 200 mil novos casos de covid-19 em 24 horas, segundo dados oficiais publicados ontem, no momento em que o país de 1,3 bilhão de habitantes enfrenta uma grande segunda onda de contágios. O número de contaminações diárias mais do que dobrou desde o início de abril.

O país já registrou mais de 14,1 milhões de casos e também contabilizou 1.038 mortes em 24 horas, o que eleva a cerca de 175 mil o total de óbitos desde o início da pandemia, segundo os números do Ministério da Saúde indiano. A nação asiática se tornou, na segunda-feira, a segunda mais afetada pela covid-19 em número de contaminações, superando o Brasil.

Especialistas culpam as festas religiosas, os comícios políticos e os locais públicos lotados.

- Todo o país foi complacente: permitimos concentrações sociais, religiosas e políticas - declarou Rajib Dasgupta, professor de Saúde da Universidade Jawaharlal Nehru. - Ninguém faz fila para o distanciamento social - acrescentou.

Na quarta-feira, o governo adiou os exames escolares previstos para maio e junho para os estudantes com idades entre 15 e 18 anos. A nova onda de contágios provocou restrições e confinamentos parciais em muitos Estados e territórios gravemente afetados.

Maharashtra, principal foco de contaminação, decretou confinamento aos fins de semana e toque de recolher noturno. Mas o Estado - onde fica Mumbai, capital econômica do país - advertiu que um confinamento total pode ser instaurado nos próximos dias caso o número de contágios permaneça em alta.

A campanha do governo para vacinar toda a população ainda não tem o efeito esperado. Foram aplicadas apenas 114 milhões de vacinas e os estoques estão acabando, de acordo com as autoridades.

sábado, 10 de abril de 2021


10 DE ABRIL DE 2021
LYA LUFT

O jardim das palavras escritas

Há dias comentei com uma amiga sobre as mudanças na nossa vida nestes tempos estranhos e preocupantes, às vezes terríveis, com frestas, fendas, de claridade e beleza, afeto e paz.

Comentei que a amizade, entre tantos afetos, era como um jardim tranquilo onde andamos de mãos dadas, ou isolados, ou abraçados, nos sentamos em bancos, olhamos as plantas, as nuvens, um ao outro, trocamos ideias e silêncios, em resumo, curtimos uma das boas coisas desta vida.

E comentamos também que, neste momento de isolamento pessoal (não gosto de "social" e já expliquei por que), a palavra escrita adquire um valor maior. Seja em WhatsApp, seja em e-mails, nestes sobretudo, porque aí podemos nos estender melhor.

Se assim for, trocar e-mails com amigo ou amiga é como entrar nesse jardim um pouco secreto, onde nos aproximamos sem nos aproximar, nos tocamos sem contato, nos alegramos ou até magoamos de uma maneira quase etérea, aérea, e aprendemos novos jeitos de sermos humanos.

Algo de bom tem de acontecer, nesta fase tão dura. E a internet, que tantos criticavam sobretudo porque absorveria demais os jovens, tornou-se esse campo de flores de Drummond, num dos poemas dele que mais amo, que começa "Deus me deu um amor no tempo da madureza...", e posso dizer, em vários casos, que me deu alguma nova amizade, ou reforçou amizades que pareciam quase supérfluas porque tão naturais. Ninguém imaginaria um tempo em que a gente não pudesse se encontrar, se reunir, num pequeno grupo, trocar risadas e novidades, beber um gim-tônica à sombra de uma das lindas árvores do nosso clube preferido, pequeno e acolhedor, ou na casa de uma de nós, ou, enfim, como já fiz muito, num lugar mágico como era o atelier da Lou Borghetti, que frequentei por tantos anos e do qual ainda hoje sinto uma falta pungente.

Amigo é aquele de quem, de repente, sentimos essa falta, física, concreta, da voz, da mão, da risada, do olhar, que buscamos e achamos nesse lugar meio novo, no WhatsApp ou no e-mail, que começa a se revelar a mim como fonte de diálogo, mas com que antes implicava um pouco. Não dispenso a voz do telefone, com seus recados e silêncios, a presença física com seu contato, mas às vezes o jeito é se conformar.

Quero deixar claro, antes de encerrar, que nada, nada, nada, substitui a família entrando pela porta, todos reunidos em torno da mesa de jantar, depois dos abraços, dos carinhos, dos comentários do tipo "como esse menino cresceu", ou "vocês estão cada vez mais lindas".

Mas pelo menos temos isso, a internet, o computador, o celular, a magia que não é a de fadas e duendes, unicórnio e príncipes encantados de décadas atrás, mas um pequeno milagre aqui à mão, para consolar do quanto às vezes estamos sozinhos: o jardim das palavras escritas.


10 DE ABRIL DE 2021
MARTHA MEDEIROS

Nada na palma da mão

Era para eu ter aterrissado em Porto Alegre às 21h, mas não havia teto para pousar, e o avião teve que retornar a Florianópolis. Chegando lá, os passageiros não foram autorizados a deixar a aeronave. Passado um tempo, nova decolagem, e então sim, aterrissamos em Porto Alegre, quase 1h da manhã. Ao abrir a porta do meu apartamento, parecia uma festa surpresa, tinha primo que eu não via há anos, mas não era festa, e sim reforços convocados para acalmar minha mãe.

Fomos, uma colega de aula e eu, passar o domingo num sítio com uma turma que não era a nossa. O combinado era voltarmos à tardinha, mas o pessoal resolveu jantar por lá mesmo. As horas passavam, não havia telefone na casa, nós nem sabíamos exatamente onde estávamos, a informação que havíamos deixado com nossos pais era muito vaga: em algum ponto passando Viamão. Quando voltei, perto da meia-noite, havia um carro da polícia diante do meu edifício, prestes a iniciar as buscas.

Ele havia ficado de vir almoçar comigo ao meio-dia, mas não apareceu. Às 14h, eu continuava esperando. Às 16h, eu ainda não sabia dele. Às 22h, ele telefonou de um orelhão dizendo que, bem na hora que estava saindo de casa, um tio apareceu com a pior notícia do mundo. Ambos pegaram a estrada imediatamente para São Borja, a tempo de chegar para o enterro de seu irmão, que havia falecido naquela manhã.

Minha aula terminava às 17h30min. Ao sair pelo portão do colégio, eu logo enxergava o carro dele estacionado. Naquela tarde chuvosa, não. Esperei. Minhas colegas passavam por mim, davam tchau, e eu esperava. Alguns professores passavam, perguntavam se estava tudo bem, e eu mentia que estava. Começava a anoitecer e eu ainda aguardava meu pai, cujo carro havia quebrado numa rua distante, onde os táxis passavam todos ocupados.

Eu estava pela primeira vez em Barcelona, havia chegado com minha mochila no primeiro trem da manhã. Caminhei o dia inteiro, até encontrar um hostel baratinho para passar a noite. No Brasil, seria uma terça-feira como outra qualquer, mas eu estava viajando sozinha pela primeira vez, estava descobrindo o mundo, estava cansada e cheia de planos, e só pouco antes de cair no sono é que lembrei que era aniversário da minha melhor amiga.

Flashes de uma vida remota, quando não existia celular para avisar que o voo estava atrasado, que o combinado estava descombinado, que era preciso um substituto urgente para buscar o filho na escola, que mesmo do outro lado do oceano a gente jamais esqueceria de uma data tão importante como o dia em que nossa melhor amiga nasceu. Só quem viveu lembra a aventura que era estar num mundo sem localizador, sem mensagens de áudio, sem WhatsApp: nada na palma da mão, a não ser o coração.

MARTHA MEDEIROS

10 DE ABRIL DE 2021
CLAUDIA TAJES

O causo da fechadura

Ele olhou bem na minha cara e disse:

- 260. Eu olhei bem na cara dele e falei: - O quê? 

E em seguida:

- What? - Qué?  - Quelle? - Quid?

A fechadura da porta estragou, e fiquei na rua às 18h, depois de uma ida relâmpago ao supermercado para pegar o maior número de coisas faltantes no menor número de minutos possível. Resultado dessa conta: um monte de sacolinhas para além da ecobag que sempre levo. Nem vamos entrar no mérito de que, a cada ida ao súper, é preciso mais dinheiro para comprar os mesmos produtos. Se há quem saiba transformar a crise em oportunidade, são os supermercados.

Voltando à fechadura. Todo mundo já passou por esse momento de pânico, a chave que não se mexe para lado algum. Bem verdade que ela andava meio estranha, trancando levemente antes de girar. Nada que aquele pó de grafite que mamãe ensinou a introduzir nas entranhas do aço não resolvesse.

A essa altura, as sacolinhas de supermercado estavam espalhadas pelo chão do corredor, e a velha máxima do "não forçar para não estragar" tinha ido para o inferno. Deixei minhas abobrinhas e leites e cenouras e águas e sabonetes na frente na porta e liguei para o chaveiro.

Nas vezes em que ficamos na rua, e não foram poucas, sempre chamei o mesmo chaveiro, perto da casa do meu filho. Liguei, e o rapaz disse que chegava em minutos. Com um pingo de bateria, como só acontece nesses momentos, sentei para esperar.

E nada. E nada. E nada.

Meia hora depois, mas que pareceram cinco, liguei para perguntar onde ele andava. E o rapaz: "Quase aí".

Ainda demorou até surgir um sujeito que poderia se chamar Montanha ou Armário de Doze Portas com Maleiro. Ele enfiou um palitinho de metal na fechadura e movimentou por um segundo. A porta abriu e ele guardou o palitinho no bolso.

- Mas o senhor não vai consertar? A lingueta (NR: que palavra horrível) está trancando.

- Qué isso, ela é perfeita, como nova.

Foi tudo tão simples que, na onda da facilidade, pedi para ele abrir também a caixa de correspondência, emperrada há anos. Agora que as contas todas chegam por e-mail, abrir a caixa de correspondência para quê?

Dois segundos depois, perguntei quanto devia. Ele olhou bem na minha cara e disse:

- 260. Eu olhei bem na cara dele e falei:

- O quê? E em seguida: - What? -  Qué? - Quelle? - Quid?

Para encurtar o caso, que nós temos prazo. Por alguma dessas tretas do Google, achei que ligava para um chaveiro de confiança, mas a ligação foi parar no tal do Montanha. Que, pelo tempo que levou, atravessou a cidade. E ainda alegou que estava cobrando barato. Pelo sindicato, o preço deveria ser o dobro, ele disse, olhando nos meus olhos.

Um dia depois, quando a fechadura estragou novamente, liguei para o chaveiro certo. É o Marcelo da Avenida Nilópolis, que atende com o Guilherme, que veio em 10 minutos, levou a fechadura para consertar, voltou, colocou no lugar e cobrou pouco mais de um quarto do preço do Montanha. Moral da história: essa história não tem moral. É só mais um causo de consumidor trouxa.

E assim segue a vida nesses tempos de pandemia.

CLAUDIA TAJES

10 DE ABRIL DE 2021
ESPIRITUALIDADE

QUE O EGOÍSMO SEJA VENCIDO

Índia, há 2.600 anos. Um jardim florido. A gestante, coberta por um sari bordado a ouro, sente as contrações. Levanta-se e se segura no tronco baixo de uma árvore. Suas atendentes preparam um ninho de folhas e tecidos caros, raros, para receber o bebê. Tendo a força da gravidade como sua aliada, ele nasce.

Dos céus cai um néctar celestial, doce chuva que refresca o ar. As flores todas desabrocham. Foi chamado de Sidarta Gautama. Sua mãe morreu uma semana após o parto.

Sua tia, irmã de sua mãe, o adotou. Viveu no castelo, bem cuidado, forte, inteligente, reflexivo. Gostava de meditar, o que preocupava seu pai que queria fazer dele um grande guerreiro, um rei, seu sucessor. Sidarta aceitava os conselhos do pai, mas de tempos em tempos se perdia em meditações e reflexões sobre a existência, vidamorte, dores, tristezas.

Casou-se, teve um filho e fugiu do castelo. Vagou pelas matas procurando um sentido. Anos e anos no Yoga, no ascetismo, até que, finalmente, sentou-se em Zen e despertou. Foi chamado Buda Xaquiamuni.

Dia 8 de abril teria sido, no calendário atual, a data de seu nascimento. Buda significa o desperto. Um ser livre, um ser comum, que não é enganado por ninguém, nem por sua própria mente. Quem não gostaria de ser livre e adentrar o reino dos despertos? Basta afastar-se dos apegos e das aversões. Sem se entristecer com as críticas nem se engrandecer com os elogios.

Mestre Eihei Dogen, no século 13, no Japão: "Vidamorte é a própria vida de Buda. Não deseje uma e não sinta aversão à outra". Que frase difícil em meio a pandemia, quando há tantas mortes, hospitais lotados, quando está faltando tudo, até o respeito mínimo a cada vida humana. Dizem especialistas que ainda irão morrer outros 300 mil brasileiros. Lamentável. Cada morte dói. Cada morte conta. Sabemos que todos morrem, mas há um momento de morrer e um de viver. Não podemos confundir uma coisa com outra.

Quem sabe os países ricos, com muito mais vacinas do que sua população, possam despertar e oferecer seu excesso às nações sem imunizantes suficientes? Ah! Como será bom ver a solidariedade superar o egoísmo. Que todos os governantes de todos os países possam despertar. Que cuidem para que todos criem anticorpos. Só assim eles mesmos sobreviverão.

Nossa vida no planeta depende agora de cada um e de todos nós. Se você descuidar, ir a passeios, festas, jogos, aglomerações, não usar máscaras, você será um Buda sem vida, sem brilho, sem luz, adormecido, sonambulando pelas ruas, quiçá morto. Por favor, não julgue. Não fale. Liberte-se e vá além de si mesmo. Entre na casa sagrada. A sua casa. Permita que seu Buda interior o oriente. Siga sem esforço e sem ansiedade a sua consciência ética. Ainda há tempo. Arrependa-se e transforme a confusão em clareza.

Há um caminho muito simples para se tornar um Buda, escreveram os antigos: evite fazer, falar ou pensar mal. Liberte-se. Não deseje reconhecimento pelas suas ações, não espere recompensas. Desapegue-se. Compreenda e sinta compaixão por todos os seres. Mostre reverência aos mais antigos. Seja bondoso e gentil com os mais jovens. Não abuse de ninguém. Sinta prazer na existência. Mantenha sua mente livre de desejo, julgamento e ansiedade. Então, só então, você será reconhecido como um ser que despertou. Quanto todos despertarem haverá harmonia e respeito, alegria e compartilhamento.

Vem, ainda dá tempo. Podemos transformar o ego em eco.

Mãos em prece


10 DE ABRIL DE 2021
LEANDRO KARNAL

A SEGUNDA FILEIRA

Há alguns anos, fui convidado para uma palestra em um grande evento de moda em São Paulo. Eu deveria falar sobre Luís XIV, Versalhes e a noção de luxo na França, um tema bom, boa bibliografia e sólidas reflexões de especialistas. Preparei a aula e fiz a palestra. Ao final do evento, a promotora pediu que eu ficasse para o desfile que ocorreria. Jamais havia visto um e fui fisgado pela curiosidade.

Entramos por um bastidor e ela me deixou no espaço ainda vazio. Sentei-me em uma cadeira da primeira fileira. Minutos depois, a mesma promotora voltou e, de forma muito educada, pediu-me que eu passasse para a segunda fileira. "A primeira", ela disse, "é ocupada por pessoas influentes do meio". Passei para o lugar que me cabia naquela pirâmide alimentar e pude ver, naquele fim de tarde, meu primeiro e único desfile.

Mais tarde, pensei na sabedoria do conselho de Jesus. No capítulo 14, de Lucas, o Mestre diz que devemos evitar a precedência vaidosa nos assentos. "Ao contrário, quando fores convidado, senta-te no último lugar e, assim, aquele que te convidou te dirá ao chegar: ?Meu amigo, senta-te mais para cima!?. E isso será honroso para ti diante de todos os convidados" (Lc 14,10).

Bem, como de fato não pertenço ao mundo da moda, a segunda fileira não me pesou. Sempre penso muito na questão dos lugares como metáfora complexa. Quase todos os discursos atuais enfatizam que a qualidade alta e o desempenho brilhante estão ao alcance da pessoa resiliente e esforçada. Tente, faça de novo, não desista, levante-se a cada tombo e siga em frente com mais energia. Isso ajuda muito para animar. Seria uma verdade universal?

Eu acredito, como professor, que devo incentivar alunos a conseguirem mais e a darem o máximo de si. Porém, todos estão destinados à primeira fileira bastando o esforço? Já toquei no tema aqui no jornal, porém ainda não esgotei minha dúvida interna: é justo incentivar todo mundo ao máximo (já que nunca sabemos o pleno potencial de cada um) ou é cruel estimular a sardinha a tentar o voo do albatroz? Não tenho uma resposta clara.

Com uma turma de alunos cabe-me falar que o sucesso das notas está ao alcance de quem se esforçar. Porém, no universo circunscrito da sala de aula, a avaliação é pensada na média. Não faço provas para gênios nem pergunto coisas tão elementares que ofendam a inteligência comum. Então sim: todos podem, bastando o esforço. Mas... e na vida? Se eu ficar insistindo com alguém que pode brilhar muito e de forma autônoma, e a pessoa perder um tempo enorme (e inútil) realizando algo muito além das suas capacidades? Quando a crítica realista se torna cruel e quando o elogio entusiasmado seria enganador?

A grande dor contemporânea, estimulada pelas redes, é a crença em felicidade e sucesso para todos. Acredito na meritocracia, porém, na maneira como a vejo defendida, alimenta-se uma enorme frustração para as terceiras e quartas fileiras.

Uma vez, um senhor experiente disse a uma grande amiga que a filha dela deveria buscar o amparo de um bom casamento, pois era pouco provável que conseguisse algum sucesso pelo trabalho autônomo dela. Eu e minha amiga ficamos indignados. Ela, pela raiva da opinião sobre a filha; eu, pelo preconceito misógino. Isso ocorreu há quase 20 anos. A adolescente cresceu, fez um curso superior e, pelo que sei, nunca conseguiu progredir a ponto, sequer, de se sustentar. Não seguiu o conselho daquele senhor e nem desenvolveu uma carreira. Ficou com o pior de dois mundos. Seria o velho senhor cruel ou realista? Era uma profecia fatal ou estaria dentro do desvio padrão aceitável? Pior: rotular a filha da minha amiga com a etiqueta de medíocre e dependente seria mais duro ou mais prático? Não consigo encontrar uma resposta sábia.

Minha ideia sempre foi "professoral". Oferecer a melhor aula possível para todos, indicar os melhores livros, responder a todas as dúvidas e, espalhando as melhores sementes, esperar que cada solo produza de acordo com sua capacidade ou sua vontade e no seu tempo. No espaço protegido da sala de aula, eu, mesmo tendo errado bastante, continuo acreditando na ideia do melhor para todos. Hoje, sei que só respondo pelo que eu faço. A recepção da mensagem é livre e incontrolável.

Abrir mão da crença de que todos podem melhorar sempre é acreditar no Admirável Mundo Novo, de Huxley. Lá, todos são predeterminados ao exercício de funções específicas. Ninguém precisa de motivação: alguém nasce alfa ou beta e pronto. Como nas colmeias, inexistem abelhas infelizes. Todos são eficazes e funcionais.

Acredito que o mundo dará doses cavalares de desânimo e de críticas. A vida costuma ser um balde de água fria a cada instante. Para lidar com isso, pais e professores, responsáveis diretos em geral, devemos reforçar o potencial de todos sempre. Sem ilusões e correndo o risco do equívoco, podemos dizer a verdade: o futuro é incerto e o esforço sempre pode melhorar cada um de nós. Condenar um jovem a um fracasso prévio é mais cruel do que tudo. Nunca conseguiremos profetizar com certeza. Grandes gênios tiveram problemas na escola, como Einstein. Cabe ao jardineiro regar com boa água todas as plantas. O profissional que planta sabe que algumas não darão flores. Por fim, como saber se a felicidade está na primeira fileira ou no prazer de contemplar o mundo da última? Como distinguir se o conselho do velho senhor para a filha da minha amiga era sábio ou eco da dor dele, que, afinal, também não tinha tomado lugar logo à frente na vida (e talvez sonhasse com um casamento em que controlasse a esposa)? Um desafio sempre é mais bem enfrentado se for com esperança.

LEANDRO KARNAL

10 DE ABRIL DE 2021
CRISTINA BONORINO

IGUALDADE

Nem todos os empresários são iguais. Luiza Trajano, do Magazine Luiza, considerada a mulher mais rica do Brasil, lidera um grupo de mulheres e homens, voluntários, na iniciativa Unidos pela Vacina. Esse grupo fez uma enquete em 6 mil municípios com uma pergunta básica: como podemos ajudar? O levantamento trouxe necessidades básicas das prefeituras que efetivamente aplicam as vacinas disponíveis, que o grupo se lançou a atender doando tempo, recursos, conexões. Material de refrigeração, pessoal, uniformes, logística, insumos _ tudo isso faltava nos locais de vacinação, e cada um vem ajudando como pode para a árdua tarefa de vacinar contra a covid-19 num país imenso, populoso e profundamente desigual.

Já outros empresários pressionaram junto à Câmara de Deputados para aprovar uma lei que viola todos os princípios de saúde pública, autorizando empresas a adquirir vacinas para seus funcionários, alegando que estarão contribuindo para diminuir a fila de vacinação, auxiliando assim o SUS. Eles não estariam passando à frente do governo federal, que alega já ter encomendado mais de 500 milhões do doses de vacinas, suficiente para vacinar toda a população. Impossível não perguntar, então: se já foram compradas vacinas suficientes, para que comprar mais?

Outro ponto importante: as farmacêuticas produtoras das vacinas comprovadamente eficazes repetidamente respondem que não venderão vacinas a não ser para governos. Até para elas está difícil atender a essa demanda: companhias gigantescas como a Pfizer e a Janssen tentam consórcios até com concorrentes para ampliar a capacidade produtiva e realizar a entrega das vacinas a tempo de impedir uma catástrofe global. Então, que vacinas são essas que esses empresários alegam ter "maior agilidade" para adquirir? 

Os deputados que aprovaram essa lei alegam que há outros laboratórios, na China e na Índia, vendendo vacinas para a covid-19. Seriam vacinas que não revelaram seus resultados de eficácia? Respondem que são de laboratórios certificados internacionalmente. Mas certificação de laboratório e eficácia de um produto contra uma doença são coisas diferentes. Por exemplo, a Merck é certificada internacionalmente e produz ivermectina, também certificada. Mas ivermectina não tem eficácia comprovada contra a covid-19, então não resolve o problema.

Uma vacina cuja eficácia não foi claramente demonstrada e amplamente escrutinada não vai ajudar a resolver o problema da vacinação no Brasil. O país não contratou vacinas quando deveria e até agora vacinou menos de 3% da sua população. Morrem 4 mil pessoas por dia - para o governo, esse é o preço normal que se paga para um país funcionar. As pessoas que apoiam essa lei apoiam o princípio de que alguém, por ter prosperado em seu negócio, tem mais direito à vida. 

Mas o pior é que, na sua profunda ignorância, falham em compreender que nem todas as vacinas são iguais. Não entendem, nem se preocupam em entender, o que é uma vacina eficaz. Talvez alguns pensam que, mesmo que não funcione, podem ganhar algum dinheiro com isso. Em um país onde impera a desigualdade, nos igualaremos - todos - no desastre que isso inevitavelmente trará.

CRISTINA BONORINO

10 DE ABRIL DE 2021
+ SAÚDE

A SURDEZ NO OSCAR

Indicado em seis categorias do prêmio, filme "O Som do Silêncio" dá visibilidade a situação vivida por 1,5 bilhão de pessoas

Dorothy Marder ficou profundamente surda por causa de um antibiótico ototóxico. A perda do acesso ao cinema foi devastadora para ela, que lutou por legendas pelo resto da sua vida. O filme O Som do Silêncio (Sound of Metal, disponível no Amazon Prime Video) é dedicado a Dorothy - não à toa, afinal, ela era avó de Darius Marder, corroteirista e diretor da obra indicada a seis Oscar: em 25 de abril, concorre nas categorias melhor filme, ator (Riz Ahmed), roteiro original, ator coadjuvante (Paul Raci), edição e som.

No dia 3 de março de 2021, a Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou o World Hearing Report, com números globais atualizados sobre a surdez. Temos hoje, no mundo, nada menos do que 1,5 bilhão de pessoas com algum grau de surdez - o que significa que uma a cada cinco pessoas tem algum grau de perda auditiva. Um montante de US$ 980 bilhões é gasto por ano para cobrir os prejuízos da perda auditiva não tratada - a cifra é equivalente ao que Brasil e China gastam juntos em saúde anualmente. Maior do que esse número, apenas o desconhecimento generalizado da população sobre o assunto.

É aí que O Som do Silêncio entra. O personagem principal, Ruben, é um músico que trabalha sem proteger a sua audição. Como resultado, ele fica completamente surdo. A perda repentina da habilidade de ouvir traz desafios gigantes: ele não consegue mais se comunicar, não pode falar ao telefone, não ouve música, não ouve sua voz nem as vozes das pessoas ao redor. Como sua surdez foi súbita, Ruben não sabe fazer leitura labial, afinal, nunca precisou dessa ferramenta antes. Preso numa bolha do mais absoluto silêncio, ele se desespera.

O baterista é ex-viciado em drogas e acaba indo parar num centro de reabilitação para pessoas surdas que se comunicam através de língua de sinais. Ruben, como a maioria dos ouvintes, não sabia absolutamente nada sobre surdez até ficar surdo. Com a passagem pelo centro de reabilitação, ele aprende sobre a diversidade da surdez. Com exceção de Joe, que perdeu a audição por causa de uma bomba no Vietnã, os outros residentes do local usam exclusivamente a língua de sinais como modo de comunicação.

Ruben quer voltar a ouvir, e numa ida ao fonoaudiólogo, fica sabendo sobre a existência do implante coclear. A partir daí, enquanto aprende a sinalizar e se entrosa com os colegas, ele traça sua estratégia para conseguir fazer a cirurgia.

O Som do Silêncio é cirúrgico em mostrar o preconceito que as pessoas surdas que usam aparelho auditivo ou decidem fazer um implante coclear sofrem por parte da comunidade surda usuária de LIBRAS. Infelizmente, o filme peca ao mostrar o implante coclear (IC) como uma solução mágica e à jato para a surdez. Existem, sim, casos em que o resultado logo após a ativação dos eletrodos é espetacular (me incluo entre eles), mas, na maioria das vezes, o processo é lento e gradual, além de requerer muita terapia fonoaudiológica e dedicação por parte do paciente. As acusações de cripface (quando uma pessoa sem deficiência interpreta o papel de uma pessoa com deficiência no cinema ou na TV), por sua vez, não procedem, uma vez que tanto Ruben quanto Joe eram ouvintes que tiveram surdez súbita. Já os atores que interpretam os residentes do centro de reabilitação são todos surdos na vida real.

O final é aberto à interpretação de cada um. Enquanto uns acham que Ruben desistiu de ouvir e preferiu continuar no silêncio, outros, que como eu têm implantes, sabem que ele apenas retirou os ICs para relaxar com um pouco de silêncio. Esse é um privilégio que milhões de pessoas conhecem: transitar pelos dois mundos, o do som e o do silêncio, quando bem entendem. Ter um botão "OFF" e poder desligar seu aparelho auditivo ou seu implante coclear é um verdadeiro luxo nesse mundo cheio de poluição sonora no qual vivemos.


10 DE ABRIL DE 2021
DRAUZIO VARELLA

A SAÚDE GLOBAL NA PANDEMIA

A covid-19 pode gerar uma sindemia, quando duas ou mais doenças interagem de forma a causar danos maiores do que a soma delas

O novo coronavírus causou prejuízos de toda ordem. Entre eles, a execução de três programas prioritários da Organização Mundial da Saúde (OMS): vacinação contra a poliomielite, diagnóstico e tratamento da tuberculose e o combate à malária.

Algumas das barreiras enfrentadas por esses programas já existiam antes da chegada da pandemia. Em agosto de 2020, depois de passar quatro anos sem detectar um caso sequer na África, a OMS certificou que a poliomielite estava erradicada do continente africano.

No entanto, a pretensão de eliminar a doença do mundo (como aconteceu com a varíola) tem fracassado, porque a vacinação universal em zonas conflagradas como as das cidades e povoados ao longo da fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão demonstrou ser muito difícil.

No ano de 2020, as interrupções da imunização contra a pólio provocadas pela pandemia do coronavírus deixaram, somente no continente africano, cerca de 80 milhões de crianças sem receber a vacina. A OMS defende um grande esforço para a cobertura vacinal desse contingente, para evitar o retorno da poliomielite ao continente.

No combate mundial à tuberculose, a OMS tinha estabelecido a meta de reduzir em 25% a incidência de casos e em 35% a de mortes pela doença, até 2020. Como dos U$ 2 bilhões que pretendia investir em estratégias para atingir esses números só foi possível aplicar U$ 900 milhões, os resultados frustraram essas expectativas. A Agência admite agora que haverá aumento de 1 milhão de casos anuais, até o ano de 2025.

Os programas de controle e tratamento da malária - uma das principais causas de óbito em vários países africanos - também sofreram o impacto da pandemia. A OMS esperava chegar em 2020 com redução de 37% na incidência de casos e 22% na de mortes. As dificuldades de acesso aos centros de diagnóstico e de tratamento causadas pela necessidade de adotar medidas de afastamento social para deter a disseminação do coronavírus, serão responsáveis por dezenas de milhares de óbitos nos países da África abaixo do deserto do Saara.

Apesar desses dissabores, a organização lançou, em 2020, a campanha "Estratégia Global para Acelerar a Eliminação do Câncer Cervical", destinada a erradicar o câncer de colo uterino. A iniciativa pretende vacinar contra o HPV (papilomavírus) 90% das meninas antes dos 15 anos de idade e garantir acesso ao tratamento de pelo menos 90% das mulheres diagnosticadas com a doença, até 2030. É o primeiro esforço internacional para eliminar um tipo de câncer para o qual existe vacina.

Se adicionarmos as dificuldades que a pandemia acrescentou ao acesso à assistência médica para controle das doenças crônicas, como diabetes, hipertensão arterial e suas complicações, é possível entender por que os técnicos consideram que o coronavírus causou uma sindemia, termo criado pelo médico e antropologo americano Merrill Singer para caracterizar situações em que duas ou mais doenças interagem de forma a causar danos maiores do que a soma delas.

DRAUZIO VARELLA

10 DE ABRIL DE 2021
J.J. CAMARGO

EU SEI QUEM VOCÊ É

Alerto meus residentes: se não lembrarem o nome do paciente, não entrem no quarto. Poupem-no da humilhação do anonimato

Soltos no mundo como anônimos, somos seres incompletos, ainda que esta incompletude seja festejada por aqueles avessos ao convívio social, contrariando a nossa natureza gregária. Mas esses são poucos, acrescidos talvez daqueles que preferem não serem identificados por conta de uma biografia chamuscada.

Quando circulamos livres, sem culpa na mochila, é sempre prazeroso sermos identificados por completo, ou seja, com nome e antecedentes.

Sendo a identificação a primeira medida do tamanho que temos aos olhos do mundo, toda homenagem deve ter a espontaneidade da nominação instantânea.

Por isso aquela cerimônia de reconhecimento ao velho cabo eleitoral que durante tantos anos tinha sido o fiel escudeiro do político emplumado morreu no nascedouro e ainda deixou uma mágoa que só morrerá com o magoado.

Tudo tinha sido planejado por um chefe de cerimonial famoso pelo detalhismo com que impunha a perfeição absoluta. Ele não imaginava que, enquanto o povo se aglomerava na praça (houve um tempo em que a proximidade humana era festejada, lembram?), o imprevisto lambia os beiços.

Com a bandinha interrompendo os acordes iniciais, o político veterano levantou o braço direito, no clássico pedido de silêncio, limpou a garganta de tantos discursos vazios e, se preparando para mais uma fala de outra lavra, anunciou: "Estamos aqui para reverenciar este amigo fiel, este apoiador incondicional durante décadas de assessoria política e que hoje completa 80 anos. Peço o aplauso ao nosso querido.... o velho ... o incomparável...".

Com um olhar desesperado, passou os olhos pelas folhas soltas no púlpito, onde o escriba contratado para ser emocionante listara todas as conquistas, sem jamais citar o nome do autor das proezas.

Quando todo mundo já tinha percebido que um apagão mental borrara o nome do amigo aludidamente inesquecível, o pedido dissimulado de um estrepitoso "parabéns a você!" não encontrou eco no público, onde os amigos verdadeiros, emudecidos, tomaram as mágoas do desconsiderado e deixaram o homenageando num constrangedor canto à capela.

Os médicos experientes sabem bem que não há relação com paciente que se pretenda sólida e duradoura, que prescinda de uma identificação solene.

Alerto meus residentes: se não lembrarem o nome do paciente, não entrem no quarto. Poupem-no da humilhação do anonimato. No outro extremo, peçam à secretária que relacione as consultas do dia para que os pacientes antigos, previamente identificados, iluminem a sala de espera da mais justa alegria ao serem saudados nominalmente pelo médico que os atendeu tempos atrás. E quanto mais humilde o paciente, maior será esta alegria.

Quem achar que isso é um exagero não tem a menor noção do quanto os pequenos gestos de afeto são inesquecíveis quando estamos fragilizados pelo medo. E não interessa o tamanho que este medo tenha.

J.J. CAMARGO

10 DE ABRIL DE 2021
DAVID COIMBRA

Por que parei? Uma explicação para você

Você merece uma explicação. Porque entrei em licença médica para me submeter a uma cirurgia na coluna. Passei pela cirurgia, tudo bem, voltei e, de repente, parei de novo. Sumi das páginas.

O que houve?

O que houve foi que um dia, em meio ao processo de recuperação, senti febre. Atravessei a noite suando e tiritando. Bem, no que qualquer terráqueo pensa quando sente febre, hoje em dia? Na maldita covid, é claro. Então, eu, fraco do jeito que estava, poderia ter que enfrentar o feroz corona. Não era o momento para esse tipo de confronto.

Na manhã seguinte, fiz o teste de PCR, aquele incômodo, do nariz. Enquanto o enfermeiro, muito gentil, aliás, coletava a amostra, lembrei dos antigos egípcios, que, durante a preparação dos corpos para a mumificação, tinham de extrair o cérebro do morto. Sabe como eles faziam isso? Introduziam um gancho no nariz do cadáver e puxavam o cérebro inteirinho pelas narinas. Tenha cuidado, portanto, não apenas com onde mete o seu nariz, mas também com o que mete nele.

Horas depois, veio o resultado: negativo! Urru, que alegria! Quer dizer: mais ou menos, porque, na verdade, eu havia contraído algum outro mal. A suspeita foi de uma infecção urinária, provavelmente causada pela sonda. Não sei se você sabe: eles botam uma sonda no seu tico, quando você vai ser operado, para que você possa urinar sem ter que sair da cama.

A sonda nada mais é do que um caninho que eles ENFIAM no canal do pênis. O procedimento é feito quando você está anestesiado e adormecido. Logo, nada a sentir. Mas, em algum momento, depois da cirurgia, a sonda tem de ser retirada. Vem um enfermeiro e puxa o cano dali. Claro, ele não tira de repelão, ele tem jeito. Mas, mesmo assim, é um cano que introduziram no seu pênis, entende? Talvez você diga: é fininho... Certo, é fininho porque não está no SEU pênis, sortudo leitor. Para mim, parecia que eles haviam metido um cano de PVC no meu assustado Prolegômeno, que é como chamo meu membro, com afeto.

Enquanto o enfermeiro vai tirando aquele troço do mais profundo da sua alma, você pensa no que fez para merecer isso. Mas é um erro, meu amigo, procurar sentido no sofrimento. Até porque, no meu caso, mal sabia que aquilo era apenas o começo do suplício. Eu haveria de lutar contra uma greve do meu próprio intestino e, depois, descobriria que aquela febre não fora originada por uma infecção urinária, e sim por uma prostatite, que é parecida, só que pior. Imagine que você está sempre com vontade de fazer xixi e, quando faz, saem três gotas. Você urina urrando, assustando a vizinhança. Em certo momento, pensei que trocaria na hora aquele padecimento por uma covidezinha moderada, dessas que a gente fica em casa sem sentir cheiro.

Mas, tudo certo, estou tomando remédios e me recuperando. Estou de volta às páginas, feliz, porque, como bem dizia Schopenhauer: a felicidade nada mais é do que a ausência de dor.

DAVID COIMBRA

10 DE ABRIL DE 2021
FLÁVIO TAVARES

DELÍRIO GERAL?

O delírio é como a água: toma a forma do recipiente e pode ter leito e rumo, como num rio, ou dispersar-se, como no chuveiro. O delírio vê sem enxergar, não distingue cores nem tons, toma o absurdo como algo natural, engana-se a si próprio e é daninho quando vem dos altos escalões.

Dias atrás, em Chapecó (SC), o presidente da República voltou a portar-se como charlatão e insistiu no uso de cloroquina e outras quinquilharias comprovadamente maléficas no combate à covid-19. Para defender o que a ciência médica desaprova, disse que na Guerra do Pacífico, quando faltou plasma, "usaram água de coco em transfusões" e "salvaram vidas".

Bolsonaro trocou alhos por bugalhos. Água de coco é material neutro e foi injetado na veia em vez de soro fisiológico, não como plasma sanguíneo.

É inexplicável que Bolsonaro use a autoridade do cargo para insistir no uso de medicamentos que prejudicam (ou levam à morte) quando aplicados. Fazer isto em nome da "função do médico para salvar vidas" é um absurdo que beira o crime.

Tempos atrás, era delirante ouvi-lo dizer que preferia ter um filho morto do que sabê-lo homossexual. Ou proclamar que "o erro" da ditadura "foi não ter matado 30 mil brasileiros".

Agora, o delírio chegou ao Supremo Tribunal nos debates sobre a proibição de assistir a missas e cultos religiosos durante a pandemia. Com o aval de Bolsonaro, o procurador-geral da República e o advogado-geral da União creem que a proibição "fere a liberdade religiosa", quando - em verdade - busca evitar o contágio. Ou seja, é parte do necessário isolamento social.

O procurador e o ministro-chefe da AGU desconhecem que a fé religiosa é o contato direto de cada um com a divindade e não precisa de intermediação. Orar e ser piedoso é ato pessoal e, assim, proibir frequentar templos durante a pandemia nem sequer arranha a liberdade religiosa.

Ou esse tacanho argumento é uma forma de proteger as chamadas "igrejas pentecostais" que se dedicam, mais do que tudo, a arrecadar dinheiro, como se Deus cobrasse "royalties"?

As grandes crises geram, também, lucidez e união da sociedade civil. Na última semana, 280 grandes empresas, bancos e instituições que reúnem ambientalistas e o agronegócio pediram que o presidente da República seja mais estrito na defesa do clima e do meio ambiente.

O Brasil é o sexto maior causador mundial do "efeito estufa", mas o governo alega que só poderá agir se receber bilhões de dólares em doações estrangeiras? É delirante!

 Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES


10 DE ABRIL DE 2021
OPINIÃO DA RBS

ENCRUZILHADA AMBIENTAL

Ainda há tempo para o governo brasileiro rever seu posicionamento e dar ao mundo, nos próximos dias, a boa notícia de que pretende ser mais ambicioso em suas metas de redução de emissão de gases de efeito estufa até 2030, no âmbito do Acordo de Paris. Essa é hoje não apenas uma preocupação de ambientalistas, mas um tema considerado de máxima importância inclusive por grandes grupos empresariais brasileiros, que temem por reflexos negativos para o país, na forma de diminuição de investimentos estrangeiros e dificuldade para negócios. 

Esse temor, ao lado das inquietações de que o avanço do desflorestamento no território nacional contribua de forma decisiva para uma mudança rápida do clima global, foi o tema de uma carta enviada na quinta-feira ao Planalto pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. Trata-se de uma organização que reúne 280 empresas, entidades do agronegócio, instituições financeiras e da academia que, em sua atuação, tem se norteado pela premissa de que a preservação ambiental é benéfica para o desenvolvimento do país. A proteção da natureza, ao fim, também significa um capitalismo mais vigoroso e saudável.

Esta nova pressão, agora, se deve à aproximação da Cúpula do Clima, organizada pelo governo norte-americano e que se realizará de forma virtual nos próximos dias 22 e 23 deste mês. Sabe-se que a questão climática será central na diplomacia da Casa Branca sob Joe Biden, que convocou a reunião e convidou 40 líderes mundiais, entre eles o presidente Jair Bolsonaro. Será uma espécie de preparação para o encontro sobre o tema promovido pela ONU, em novembro, na Escócia.

É, portanto, a oportunidade de o Brasil mostrar novos e mais consistentes compromissos com a redução do desmatamento. Seria conveniente que o Planalto compreendesse a preocupação global com a situação da Amazônia, se despisse de posições baseadas em teorias conspiratórias e adotasse uma postura à altura das expectativas depositadas sobre o país. 

Foi grande a decepção, no final do ano passado, quando o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, anunciou que o Brasil manteria a sua meta de reduzir a emissão de gases de efeito estufa em até 43% até 2030, enquanto a expectativa era de que informasse objetivos maiores. Salles ainda condicionou a possibilidade de alcançar essa redução à ajuda financeira de cerca de US$ 1 bilhão de outras nações. Este, é preciso recordar, é o mesmo Salles que criou uma polêmica inútil com os governos da Alemanha e da Noruega. O episódio culminou com o fim do Fundo da Amazônia, que ao longo de uma década recebeu cerca de R$ 3,4 bilhões para o combate de crimes ambientais.

A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura lembra que o Brasil é peça-chave nos esforços para desacelerar o aumento médio da temperatura nas próximas décadas. E 40% das emissões brasileiras, observa a entidade, se originam de desmatamento ilegal. Para isso, é basilar trabalhar para reduzir as taxas de desmatamento, algo que o país conseguiu entre 2004 e 2012. É preciso lembrar que, além da imagem internacional, está em jogo a própria higidez da agricultura brasileira, que depende da floresta amazônica para um regime regular de chuvas.

Seria de enorme benefício para o país, então, se o governo aceitasse ser mais ousado e se comprometesse com novas metas, seguindo os conselhos da coalizão de fortalecer organismos como o Ibama, finalizar a implantação do Cadastro Ambiental Rural e negar registros de áreas desmatadas de maneira irregular, além de trabalhar para a implementação da concessão de financiamento por critérios socioambientais, entre outros pontos listados. Mas é imprescindível mudar o discurso e os sinais enviados aos criminosos do ambiente, que hoje parecem agir com a certeza da impunidade.


10 DE ABRIL DE 2021
AGRONEGÓCIO NO RS

Produtividade acima da expectativa inicial

Mesmo em lavouras que habitualmente figuram entre as mais produtivas do Estado, o resultado inicial da safra deste ano tem surpreendido positivamente. Administrando em torno de 9 mil hectares de soja em nove fazendas em Cruz Alta, no Noroeste, Maurício de Bortoli lembra que a semeadura foi conturbada, devido ao clima adverso na primavera, o que trouxe incertezas sobre o potencial produtivo. No entanto, após colher as primeiras áreas no início, as dúvidas ficaram para trás.

- As primeiras lavouras que colhemos estão com produtividade em torno de 10% maior do que a da última safra boa que tivemos, que foi a de 2019, e até 50% maior do que a da safra passada, quando tivemos a estiagem - compara Bortoli, produtor duas vezes campeão do Desafio Nacional de Máxima Produtividade de Soja do Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb), uma em área irrigada e outra em sequeiro, e que neste ano vai em busca do terceiro título.

Diretor da Sementes Aurora, Bortoli destina a maior parte da produção à elaboração de sementes. Por isso, tem mais de 30 cultivares de soja em suas lavouras. Desta maneira, a produtividade média tende a oscilar até o final da colheita. Ainda assim, o sojicultor aponta que é possível que a empresa registre seu melhor desempenho neste ano, com produtividade média na faixa de 75 sacas por hectare.

- Minha lavoura este ano é boa. Acredito que vou quebrar o recorde da história de nossa empresa, que foi de 73 sacas por hectare, na safra 2018/2019 - aponta.

Com forte investimento em tecnologia, Bortoli salienta que o segredo da alta produtividade é ter uma visão de longo prazo. O sojicultor ressalta que a criação de um sistema de produção eficiente leva anos e está atrelada a aspectos como qualidade do solo e de sementes e o manejo adequado na área plantada.



10 DE ABRIL DE 2021
ACERTODE CONTAS

Magalu investe no RS

Uma das maiores redes de varejo do país, o Magazine Luiza abrirá um novo centro de distribuição no Rio Grande do Sul. A unidade será instalada no parque logístico GLP, na RS-118, em Gravataí, e começará a operar plenamente ainda no primeiro semestre. O Magalu quer que seus produtos cheguem mais rápido aos clientes, ampliando até o serviço de entrega no mesmo dia. O investimento vai gerar 360 empregos diretos e mais 150 indiretos.

- O forte plano de expansão para este ano tem foco em logística. Será o ano do "piscou, chegou", e o RS é estratégico - reforça o diretor de logística Márcio Chammas.

O curioso é que a operação ficará no lugar onde seria instalado o centro de distribuição do Mercado Livre, gigante mundial do e-commerce que acabou levando o projeto para Santa Catarina. Agora, com a confirmação do Magazine Luiza, o complexo logístico terá ocupado o único pavilhão que estava vago. Aliás, também fica no local o centro de distribuição da maior rede de farmácias do país, a Droga Raia, investimento que também foi antecipado pela coluna. O outro centro de distribuição do Magazine Luiza no Estado fica em Caxias do Sul.

Uma agência para passear

Será aberta em Lajeado uma agência do Sicredi de 132 metros quadrados e construída com dois contêineres da empresa Vagão Urbano. A operação da cooperativa de crédito traz outras iniciativas interessantes: 42 painéis para gerar energia solar, dois jardins verticais com irrigação automática, uma horta com chás para os clientes prepararem e consumirem no local e, por fim, água quente para chimarrão. O projeto (imagem acima) é do escritório de arquitetura Thomas Horn.

GIANE GUERRA

10 DE ABRIL DE 2021
MARCELO RECH

Estatísticas torturadas

Como quase tudo no Brasil passou a ser examinado por lentes polarizadas, assiste-se por aqui a um espetáculo de tortura de estatísticas sobre a covid-19 conforme o canto do corner ideológico. Números deveriam ser cartesianos, mas no caso da pandemia há poucos aspectos definitivos.

Em primeiro lugar, o cotejo puro e simples de estatísticas entre países serve apenas como uma referência. A incidência de variantes mais contagiosas e letais, a idade média da população, a densidade demográfica, o grau de testagem, os indicadores de comorbidades e as subnotificações dificultam comparações simplistas.

A ciência tem um caderno de dúvidas a esclarecer pelos próximos anos, mas ainda assim algumas questões são cristalinas. A primeira delas: rankings absolutos ofuscam comparativos. É o caso do número de mortos e de vacinação. Ao despontar com mais de 4 mil mortos diários por covid, o Brasil vive a maior calamidade de sua história, mas não é o país com maior mortalidade no momento. O trágico título cabe à Hungria, com 2,43 mortos por 100 mil habitantes nos sete dias prévios. 

A taxa brasileira era de 1,35 morto pela doença por 100 mil habitantes, em um nada tranquilizador sétimo lugar, ainda mais se levada em conta a proporção de idosos, mais vulneráveis à covid, na população. A idade média na Hungria é de 43 anos, contra 33 no Brasil. Por outro lado, o Brasil é mesmo o quinto país que mais aplicou vacinas, mas nem de longe, como o governo quer fazer crer, disputa a liderança do ranking de imunização, medido pelo percentual de vacinados. Na verdade, o Brasil luta para ficar entre os 50 que, proporcionalmente à população, mais imunizaram contra a covid.

Outra conclusão que agora parece óbvia: é temerário fazer análises definitivas em quadros provisórios. A Suécia, que já fora apontada como referência mundial de contenção do vírus sem adotar grandes restrições, exibia na última semana 51 casos diários por 100 mil habitantes, o 14º mais alto no mundo e quase cinco vezes mais do que a vizinha Noruega, de condições sociais e demográficas similares.

O Uruguai é outro triste exemplo de análises afoitas. Nos primeiros meses da pandemia, nosso estimado vizinho era apontado como exemplo de controle do vírus, mas agora chegou ao topo do ranking mundial: registrou na sexta-feira a média de 93 casos diários por 100 mil habitantes nos sete dias prévios (o Rio Grande Sul tinha 37/100 mil, também muito alto).

Como de hábito, os alemães cunharam uma palavra para definir o que pode ter assolado o Uruguai: Pandemüde, a junção de pandemia com cansaço, um terreno fértil para que novas variantes se espalhem e se somem ao trágico coquetel de irresponsabilidade e imprevidência que abre caminho para o vírus. De definitivo, resta o tripé que comprovadamente curva as estatísticas para baixo: vacinação em massa, distanciamento social e uso de máscaras eficazes por todos.

MARCELO RECH