sábado, 12 de junho de 2021


12 DE JUNHO DE 2021
CLAUDIA TAJES

Vacinada

Chegou a minha vez. Tão logo acabou a exclusividade das comorbidades e, já não era sem tempo, os professores começaram a ser imunizados, eu sabia que não demoraria muito para a minha faixa etária ser espetada com alegria na fila da vacinação.

Quer dizer: eu sabia racionalmente. Mas todos os dias abria o jornal com medo de ler alguma notícia do tipo "vacinação suspensa por falta de insumos" ou "quem não se vacinou ainda vai fazer um tratamento preventivo à base de óleo de fígado de bacalhau". Do jeito como as coisas se deram até aqui, a única certeza é a incerteza.

Não foi o que aconteceu. No meu dia, batata: pessoas nascidas no longínquo 1963, ou antes, favor comparecerem a um dos pontos de vacinação para receber a primeira dose. Ocasião que mereceu um banho caprichado, uma ajeitada melhor na cara pálida de tanto ficar em casa e até uma roupinha mais arrumada. Há que se estar preparada para receber um presente desses.

Chovia e acabei indo a um dos drive-thrus, o filho na direção. Isso sempre me comove: depois que já levamos tantas vezes os nossos pequenos para tomar vacina, agora são eles, adultos, que fazem questão de nos acompanhar. Bom é que a grande maioria dos pais, se chorar, é de alegria - diferente dos pitocos, que lutavam com todas as suas forcinhas para escapar da agulhada. E botavam a goela no mundo antes, durante e depois dela.

Ao menos no drive-thru em que estive, uma grata surpresa foi ver um pessoal muito jovem do Exército organizando a coisa toda, a entrada no estacionamento, as filas, o preenchimento da ficha e até, no meu caso, a injeção propriamente dita. Quem me vacinou foi uma sargento chamada Jeniffer, e ela fez isso com tanta leveza que eu não senti nada. Pico, só o da adrenalina. O pessoal do SUS estava lá, firme, e se não fossem as regras do distanciamento, a vontade era a de sair abraçando geral, agradecendo por estarem carregando a nossa saúde nas costas.

Chegando em casa, uma surpresa. O Sergio Braseiro, leitor de São Marcos, no interior de Uruguaiana, tinha me mandado de presente duas caixas com laranjas, bergamotas, geleias, farturas argentinas maravilhosas, produtos que saíram do sítio Santa Rita, atravessaram o Estado e chegaram na minha casa como se colhidos e feitos na hora. Daí fiquei pensando. Cheguei até aqui sem adoecer, com trabalho e com os meus leitores queridos que nunca me abandonam. Se você me encontrar reclamando por aí, pode me marcar com a hashtag ingratidão.

Minha segunda dose é no fim de agosto, quando - espero - quase toda a minha família, e todos os acima de 30, estarão imunizados também. Vai faltar pouco para a esperança picar toda a população. Agora é continuar de máscara, com o álcool em punho e os protocolos também, porque um tem que cuidar de todos. Pessoal da aglomeração bem que podia enfiar isso na cabeça.

Se uns e outros continuarem sem ajudar, mas ao menos pararem de atrapalhar, ali na frente a gente sai dessa feito um alegre, lindo e animado bando de jacarés.

CLAUDIA TAJES

12 DE JUNHO DE 2021
MARTHA MEDEIROS

De repente, um sinal de WhatsApp

Me sento em frente ao computador e olho para a tela em branco. Estou decidida a escrever algo a respeito do Dia dos Namorados, mas o quê? A clássica angústia dos colunistas. Antes que me venha a primeira palavra, aquela que puxa as demais, meu celular toca. É o Pedro. Ele está a 500 quilômetros, trabalhando numa cidade perto da fronteira com a Argentina, retornará daqui a dois dias. São três da tarde e ele ligou apenas para mandar um beijo, dizer que está com saudades. Essas coisas que acontecem entre... pois é, entre namorados. Ele tem 62 anos. Eu quase 60.

Cumpri o script da boa moça: tive o primeiro namorado "sério" na adolescência e casei com o segundo. Nosso casamento durou duas décadas, tivemos duas filhas e depois de uma separação amigável, emendei com outra relação que, entre altos e baixos, resistiu por oito anos. Separada novamente aos 52, achei que estava mais do que na hora de aproveitar minha juventude.

Dos 52 aos 57, namorei mais do que entre os 16 e 21. Foram relações curtas, que duraram de três a seis meses, mas nem por isso pequenas, desimportantes. Foi nessa etapa que consolidei meus vínculos fundamentais, que me estruturei para a liberdade possível e me assumi plenamente adulta, ou seja, abandonei as neuras e comecei a me divertir. Aprendi a me adaptar aos imprevistos, a recuperar sonhos deixados para trás e a renunciar a outros tantos, sem fazer drama. 

Foi quando tive certeza de que felicidade nada tem a ver com a reprodução de fórmulas consagradas pela igreja e pela sociedade, e sim com a manutenção de um estado de espírito tranquilo, com investimento em cultura e informação, com abertura para o novo, com a aceitação de quem se é, do jeito que se é, mas sem egolatria. Cada uma das minhas breves relações pós-50 anos foi uma viagem profunda de autoconhecimento, e quando encerrei o "tour", achando que a vida já tinha sido generosa o bastante, escutei um sinal de WhatsApp. Era o amigo de um primo, o conheci aos 17 anos, nem lembrava seu rosto. Não chegou atrasado. Levei tempo para ficar pronta. Ainda bem que ele esperou.

Há três anos formamos um casal, mas não somos marido e mulher. Não moramos juntos. Não nos vemos todos os dias. Não há ciúmes e desconfianças. O compromisso maior não é um com o outro, e sim de ambos com a vida que acreditamos que vale a pena ser vivida: com consciência, desprendimento e respeito por aquilo que cada um construiu até aqui. Eternidade? Talvez ela não ultrapasse a próxima quarta ou quinta-feira. Em plena pandemia, somos dois sortudos vacinados e unidos contra o tédio. Sem pudor, dançamos no meio da sala, acumulamos rolhas de vinho, postamos fotos no Instagram e nos telefonamos a qualquer hora do dia, por nada - aquele nada absolutamente essencial.

MARTHA MEDEIROS

12 DE JUNHO DE 2021
LYA LUFT

Ter amigos

Quando pequena, eu tinha poucas amigas reais: não se usava muito isso de dormir ou comer na casa dos outros, não havia praticamente vizinhas da minha idade, e levei muito tempo para me adaptar ao jardim de infância. Pra variar, chorava tanto, e por tanto tempo, que acabava não ficando. Mas eu tinha amigos imaginários, de que já falei: uma família inteira. Familinha, diminutos, vestidos de verde, chapeuzinho pontudo. Eu os sentava no peitoril da janela e conversava com eles. Imaginação infantil ou de verdade gnomos benfazejos? Criança enxerga o que adultos há muito deixaram de ver.

Na escola, comecei a entender amizade e coleguismo. Afinal, já podia visitar amigas e elas vinham à minha casa. Sempre havia as mais ligadas a mim e as mais ligadas entre si: eu, em geral a mais novinha e maior, mais pateta para muitas coisas, ficava um pouco de fora. Mas adorava dançar de mãos dadas no pátio da escola, cantiga de roda, sobretudo - ao entardecer nos dias de calor - na calçada de casa. Quando se usava calçada para brincar, conversar, não só para andar depressa, olhando sobre o ombro, bolsa apertada no peito.

Nem sempre eu podia, nem sempre me deixavam, pais amorosos mas preocupados e, em algumas coisas, rígidos. Quando, já escurecendo, a criançada ainda corria ou girava na rua, eu tinha de entrar: banho, comer e cama. Surgiram daí minhas revoluções bobas e prematuras: "Por que tenho de entrar se as outras podem continuar brincando? Por que tenho de comer e logo dormir? Por que, por que, por quê? A resposta, em geral, era: "Porque eu quero". Ou: "Porque você não é as outras". "Mas então eu sou pior?" "Não chateia, menina."

Por isso e outros motivos, sempre desejei crescer. Ser jovem, adulta, entrar na maturidade, envelhecer: cada vez ficaria mais independente, mais livre. "Ninguém é livre", me diziam. É, sim, eu teimava. Livre para ler ou caminhar quando quisesse, para dormir quando sentisse vontade, para comer algo além de purê de batata, peito de frango, saladinha e canja. Poder dizer coisas bobas e dar risada fora de hora sem ficar de castigo no corredor, fora da sala de aula, por causa de uns irreprimíveis frouxos de riso.(Que ainda tenho hoje...)

Mais tarde, surgiram as grandes, verdadeiras amizades. Cedo vim para cá para fazer faculdade, e Porto Alegre me adotou definitivamente, então tenho poucas amigas de infância, mas algumas de muitas décadas. Se a gente pouco se encontra, estamos juntas no Whats ou no Face, e viva o cyberspace. Estamos ao alcance de um telefonema, e aqui e ali nos vemos. Muita risada, lembrança engraçada ou novidade triste - porque uma desvantagem do passar do tempo é que morrem mais pessoas queridas do que quando éramos moços. Também tenho amigos jovens, o que me ensina, comove e diverte. Amigo, esse que não cobra, não trai, não tem inveja nem ciúme, nem te deixa na mão - e, mesmo quando não te entende, te curte -, como eu espero ser para os meus, é um tesouro que o tempo não corrói, e que de um jeito ou de outro nos salva.

Texto originalmente publicado em 4 de agosto de 2018

LYA LUFT

12 DE JUNHO DE 2021
BRUNA LOMBARDI

OS CAPRICHOS DO AMOR

Carlos Drummond de Andrade escreveu: "Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando".

Se o amor é o bem supremo dos sentimentos, por que relacionamentos são tão difíceis? Por que queremos tanto amar e ser amados e, no entanto, complicamos tudo, até o instante em que o amor se desintegra, depois de uma grande explosão?

Não é por acaso que, na mitologia, Cupido, figura mítica, é filho de Vênus, deusa do amor, e de Marte, deus da guerra. O amor carrega dentro de si essas duas energias opostas, esse conflito de sentimentos que, se a gente não prestar atenção, nos desgasta, derruba, derrota. Joga contra as paredes nosso coração partido e nos arrasta no chão, implorando que os deuses aliviem esse redemoinho de emoções.

Pedimos a Eros, Isis, Afrodite, Freya, Oxum, Santo Antonio, São Valentim e quem mais puder proteger esse tesouro tão sensível e delicado que carregamos dentro de nós.

Podemos reverter esse destino? Podemos antecipar as ciladas do amor e desviar delas? Podemos construir a cada dia um pouco, tecer pacientemente o fio dessa fina tapeçaria, criar um belo desenho que traduza aquilo que desejamos no nosso íntimo? O que é preciso pra isso?

Será que nós, que amamos tanto, aprendemos a compreender a abrangência desse sentimento? Sabemos de verdade alimentar as raízes do amor, para flores, folhas e frutos desabrochem?

Precisamos ter intimidade com esse sentimento que nos invade, nos transporta, nos transforma. É preciso criar uma cumplicidade profunda com a pessoa que amamos, para que possamos nos entender, mesmo à distância, com um simples olhar, um gesto, um código.

É fundamental ter humor parecido e dar muita risada juntos. É bom ter as mesmas referências, os mesmos interesses, gostar de fazer as mesmas coisas. Ter visão da vida, filosofia e valores parecidos.

É muito importante gostar de transar e de dormir agarrado. Amor tem que saber esquentar os pés, mesmo se existe sempre uma boa diferença de temperatura entre os corpos, a eterna briga de tirar e puxar o edredom. E é preciso saber se divertir com as diferenças, com as características do ajuste de uma relação. Saber fazer nossos defeitos terem algum encanto, nossas particularidades serem motivo de risos e não de raiva. Afinal tem alguém perfeito nesse mundo?

Nenhum relacionamento é perfeito, mas o amor, sim, é e consegue fazer a gente enxergar só a maravilha das coisas. O amor tem o poder extraordinário de aquecer, iluminar, colorir. O amor torna os seres humanos generosos e é com essa generosidade que podemos mudar o mundo. Não importa quanto dura o amor, porque ele sempre vale a pena, desde que nos faça bem no percurso.

Quando conheci o Ri, escrevi: "Se a paixão há de ser provisória, que seja louca e linda a nossa história". Depois de décadas juntos, ele disse "Casamento só é bom quando é cada vez melhor". Assim é o nosso.

BRUNA LOMBARDI

12 DE JUNHO DE 2021
BRUNA LOMBARDI

OS CAPRICHOS DO AMOR

Carlos Drummond de Andrade escreveu: "Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando".

Se o amor é o bem supremo dos sentimentos, por que relacionamentos são tão difíceis? Por que queremos tanto amar e ser amados e, no entanto, complicamos tudo, até o instante em que o amor se desintegra, depois de uma grande explosão?

Não é por acaso que, na mitologia, Cupido, figura mítica, é filho de Vênus, deusa do amor, e de Marte, deus da guerra. O amor carrega dentro de si essas duas energias opostas, esse conflito de sentimentos que, se a gente não prestar atenção, nos desgasta, derruba, derrota. Joga contra as paredes nosso coração partido e nos arrasta no chão, implorando que os deuses aliviem esse redemoinho de emoções.

Pedimos a Eros, Isis, Afrodite, Freya, Oxum, Santo Antonio, São Valentim e quem mais puder proteger esse tesouro tão sensível e delicado que carregamos dentro de nós.

Podemos reverter esse destino? Podemos antecipar as ciladas do amor e desviar delas? Podemos construir a cada dia um pouco, tecer pacientemente o fio dessa fina tapeçaria, criar um belo desenho que traduza aquilo que desejamos no nosso íntimo? O que é preciso pra isso?

Será que nós, que amamos tanto, aprendemos a compreender a abrangência desse sentimento? Sabemos de verdade alimentar as raízes do amor, para flores, folhas e frutos desabrochem?

Precisamos ter intimidade com esse sentimento que nos invade, nos transporta, nos transforma. É preciso criar uma cumplicidade profunda com a pessoa que amamos, para que possamos nos entender, mesmo à distância, com um simples olhar, um gesto, um código.

É fundamental ter humor parecido e dar muita risada juntos. É bom ter as mesmas referências, os mesmos interesses, gostar de fazer as mesmas coisas. Ter visão da vida, filosofia e valores parecidos.

É muito importante gostar de transar e de dormir agarrado. Amor tem que saber esquentar os pés, mesmo se existe sempre uma boa diferença de temperatura entre os corpos, a eterna briga de tirar e puxar o edredom. E é preciso saber se divertir com as diferenças, com as características do ajuste de uma relação. Saber fazer nossos defeitos terem algum encanto, nossas particularidades serem motivo de risos e não de raiva. Afinal tem alguém perfeito nesse mundo?

Nenhum relacionamento é perfeito, mas o amor, sim, é e consegue fazer a gente enxergar só a maravilha das coisas. O amor tem o poder extraordinário de aquecer, iluminar, colorir. O amor torna os seres humanos generosos e é com essa generosidade que podemos mudar o mundo. Não importa quanto dura o amor, porque ele sempre vale a pena, desde que nos faça bem no percurso.

Quando conheci o Ri, escrevi: "Se a paixão há de ser provisória, que seja louca e linda a nossa história". Depois de décadas juntos, ele disse "Casamento só é bom quando é cada vez melhor". Assim é o nosso.

BRUNA LOMBARDI

12 DE JUNHO DE 2021
DRAUZIO VARELLA

VOCÊ PODE TRANSMITIR O CORONAVÍRUS ANTES DE SABER QUE ESTÁ INFECTADO

Você pode transmitir o coronavírus antes de saber que está infectado. Ao entrar em contato com o vírus, alguns permanecem sem sintomas durante todo o curso da infecção: são os assintomáticos. Outros passam dias sem sentir nada, antes que os sintomas se instalem: são os pré-sintomáticos.

Assintomáticos e pré-sintomáticos desempenham papel primordial na disseminação da epidemia, porque são pessoas saudáveis que entram em contato com outras, em casa e na comunidade, muitas vezes sem tomar os cuidados necessários. Esse contingente de transmissores só pode ser identificado pela testagem em massa.

Para ter valor preventivo, entretanto, a execução do teste deve ser rápida, para que os infectados e os que entraram em contato com eles possam ser identificados e mantidos em isolamento. Resultados que chegam depois de dois ou três dias são menos úteis; quando se tornam acessíveis apenas uma semana ou mais depois da coleta, o impacto na prevenção de novos casos é zero.

A falta de testagem aleatória em indivíduos saudáveis compromete os esforços para controlar a epidemia. O número de casos assintomáticos durante todo o curso da infecção é mal conhecido. Nos primeiros meses da pandemia, os estudos citavam números que variavam entre 30% e 80% dos infectados.

O tempo nos mostrou, no entanto, que apenas 17% a 30% são verdadeiramente assintomáticos, os demais desenvolvem a sintomatologia característica da covid. Uma revisão sistemática mais recente concluiu que permanecem sem sintomas 20% dos infectados.

Entre os que apresentarão a forma sintomática da doença, o período de transmissão do vírus para os contactantes começa dois dias antes da instalação dos primeiros sintomas.

Nesses dias iniciais, a carga viral nas secreções da mucosa nasal atinge o pico, para cair nas proximidades do final da primeira semana. Nos assintomáticos a carga viral costuma ser mais baixa, e a eliminação do vírus mais rápida.

Embora saibamos que a carga viral diminui gradativamente no decorrer do processo infeccioso, a duração do período em que pode ocorrer transmissão não está definida com clareza. As melhores estimativas são que, depois de dez dias, o doente deixa de ser contagioso, desde que seus sintomas estejam em regressão.

Nos pacientes internados em UTI, mantidos com ventilação mecânica, o vírus pode persistir nas secreções nasais por mais tempo.

Alguns dos que se recuperaram completamente da doença podem apresentar o teste de PCR repetidamente positivo por semanas. Esses casos não estão associados à possibilidade de transmissão para terceiros, porque o teste é muito sensível, capaz de detectar a presença de fragmentos de RNA residual, partículas sem viabilidade. Por essa razão, não faz sentido empresas adiarem a volta ao trabalho dos funcionários já recuperados da covid, em que o teste de PCR permanece positivo depois de duas semanas, contadas a partir do dia do primeiro sintoma.

As bases biológicas para a transmissão do Sars-CoV-2 na fase assintomática são pouco conhecidas. O contágio nesse período depende da magnitude da resposta imunológica da mucosa nasal do hospedeiro.

A mucosa nasal é um nicho ecológico em que a resposta antiviral é modulada pelo ambiente externo (temperatura, umidade, poluição do ar), pelos fatores anti-infecciosos presentes no muco, pelo histórico de outras infecções adquiridas por via respiratória e pelo estado imunológico do hospedeiro.

A identificação dos assintomáticos e pré-sintomáticos tem grande importância epidemiológica, porque a única forma de identificá-los é através do teste PCR, colhido no fundo do nariz. Enquanto os que já estão doentes procuram os serviços de saúde para confirmar o diagnóstico e receber orientação, quem desconhece sua condição só pode ser alcançado pela testagem aleatória.

Com tanta gente sem sintomas espalhando inadvertidamente o vírus na comunidade, precisa haver um grande esforço para aplicarmos o maior número possível de testes.

Há consenso entre os especialistas de que as medidas de combate à pandemia devem ser de natureza aditiva: vacinação, testagem em massa, uso de máscara, higiene das mãos, distanciamento social e ventilação de espaços fechados.

Ou seja, tudo o que deixamos de fazer.

DRAUZIO VARELLA

12 DE JUNHO DE 2021
EM FAMÍLIA

A MORTE, O AMOR E AS CRIANÇAS

O LUTO PRECISA SER VIVIDO E NÃO EVITADO, ESCREVE PSICÓLOGA

A vida da criança é marcada por várias fases diferentes. E a cada vez que chega em uma nova idade, nos surpreende com descobertas e inquietações. Um dos temas mais delicados de serem conversados que encontramos como pais e educadores é o da morte. Mas não tem jeito, essa é uma pergunta que vai surgir mais cedo ou mais tarde no desenvolvimento infantil. E a pandemia de covid-19 colocou a morte no cotidiano de muitas famílias. Não podemos evitar de abordarmos o assunto com todo o cuidado e respeito que a infância merece.

É no período de quatro a seis anos de idade que o medo da morte se torna evidente e que essa pergunta começa a aparecer em vários momentos. Antes disso, a criança só percebe as coisas vivas, a exploração pelo que há de concreto a sua volta. À medida que amadurece, passa a associar a morte com a ausência, a falta do objeto amado, e passa a compreender então que algumas ausências não são capazes de retornar, são para sempre, irreversíveis.

Mas é só no final da educação infantil, por volta dos seis ou sete anos, que se dará conta de que a morte é algo inevitável, que forma parte do ciclo da vida.

Como as crianças relacionam a morte com o abandono e a separação, seu principal temor é perder os pais. Isso acontece porque quando elas crescem percebem que morrer é natural e pode acontecer a qualquer pessoa, de qualquer idade, por diversos motivos.

Como em todos os casos, o melhor a fazer quando surgem perguntas sobre a morte é conversar abertamente, usando uma linguagem simples e direta. Mas muitas vezes me questionam: como ajudar a lidar com a morte? Como contar quando um ente querido morrer? Será que eles conseguem enfrentar essa barra?

Na hora de dar uma notícia sobre a morte de alguém com quem a criança tem uma forte relação, os pais precisam ser bastante verdadeiros, afetuosos e seguros. É preciso tentar responder às perguntas sem ter o receio de dizermos, inclusive, que para algumas não teremos respostas e precisaremos pensar juntos. Não há necessidade de falarmos mais do que a criança realmente pergunta, isto é, mais do que ela precisa saber no momento.

A criança percebe quando ocorreu uma morte, e não falar sobre ela pode provocar medo, insegurança.

Não gosto muito de metáforas para explicar a morte para as crianças Por exemplo: falar da morte como "sono eterno" pode causar incompreensão, porque se confunde com o sono diário, o mesmo pode acontecer quando se fala da morte como "viagem eterna". O que tem como objetivo diminuir a dor pode causar dificuldades de compreensão.

> A importância das lembranças

O importante é salientar que a pessoa que morreu deixará muita tristeza e depois saudades, que ela não estará mais aqui e agora e não viverá mais conosco. Os pais também podem dizer que, quando sentir saudades do ente querido, poderá lembrar dele através de suas brincadeiras, desenhos ou pensamentos.

Certamente a criança terá mais duvidas sobre a morte, mas as perguntas dependerão da sua etapa evolutiva, da sua idade e de seu próprio repertório de experiências. É importante explicar de forma adequada para a sua idade sobre o velório e o funeral. Podemos recorrer à literatura infantil (cito, por exemplo, A Operação de Lili e O Medo da Sementinha, ambos do escritor Rubem Alves) ou aos filmes, como as animações da Disney Bambi e O Rei Leão.

É importante que os pais ou educadores possam demonstrar os sentimentos e a dificuldade de lidar com este momento para a criança. Ficar triste e chorar forma parte do contexto e é natural ser vivido e sentido com ela. Não temos como esconder os sentimentos e as emoções. Não é nada adequado, por exemplo, dizer para a criança ser forte e não chorar. Acolher a emoção da criança frente ao que está sentindo e expressando vai lhe proporcionar segurança e confiança.

A criança, mesmo pequena, sente a tristeza da família. Por isso, o melhor é encorajar a criança a falar sobre a pessoa que morreu e deixá-la compartilhar seu sentimento. O luto precisa ser vivido e não evitado, por mais difícil que seja.

Viver este processo em família é fazer com que a criança sinta-se pertencente a esta dinâmica. A criança vai se sentir mais protegida e segura se compartilhar suas emoções com os pais, sem maquiar ou esconder tudo que envolve a partida de alguém querido.

É consensual entre os especialistas que a educação para a morte ensina a viver, e, independentemente da cultura ou religião, a questão da morte precisa ser olhada e tratada com todo o cuidado e delicadeza, pois traz à tona questões profundas da nossa existência e finitude.

SOLANGE LOMPA TRUDA (*)

12 DE JUNHO DE 2021
J.J. CAMARGO

OS LIMITES DO ENCANTAMENTO

Os progressos tecnológicos, especialmente os relacionados com imagem, modificaram a relação dos idosos com a medicina, trazendo os impagáveis benefícios do diagnóstico precoce. E então, na descoberta de lesões menores, puderam contar com a disponibilidade de tratamentos mais eficientes e menos agressivos. Essa qualificação técnica, somada à determinação de check-ups periódicos, principalmente a partir daquela idade em que morrer não tem mais nada de espetacular, contribui de maneira substancial para o aumento da expectativa de vida da população geral com câncer.

No entanto, essa atitude inteligente e racional de prevenção ainda não é unânime e sofre oposição entre os néscios e negacionistas, esses mesmos que, no século 21, ainda são contra vacina e se sentem ofendidos se alguém questiona se estarão a favor da peste.

Admito que você possa estar sem paciência com esse tipo de texto e deseje parar, afinal esse é um direito seu, mas não sem um aviso: você vai perder uma história muito boa!

A Natália tem mais de 80 anos, é meio gordinha, com uma cara muito fofa e um sorriso espontâneo que quase lhe fecha os olhos.

Parecia muito feliz quando anunciou: "Estou encantada de ter conseguido marcar uma consulta com o senhor". Quando eu ia dizer que não havia nada de especial com o agendamento porque, afinal, é o que eu faço todos os dias, Agnello, o marido, dono de uma bochecha ainda mais vermelha, interrompeu: "Não faça o doutor perder tempo, mulher! Conte logo porque você está aqui".

Ela se mexeu na cadeira e assumiu uma posição mais oblíqua em relação a ele. Uma maneira muito didática de excluí-lo da conversa.

E então contou que sua ginecologista tinha recomendado que ela fizesse uma revisão considerando a história antiga de tabagismo. Por conta disso, entre outros exames, havia a solicitação de uma tomografia de tórax que revelou um tumor de 1,5 cm, uma lesão com uma chance altíssima de cura e só encontrável pela busca ativa, por ser, obrigatoriamente, assintomática. Comentei, com aquele entusiasmo que encanta os pacientes, sempre condicionados a informações otimistas, o quanto ela tivera sorte em descobrir uma lesão tão pequena que significava uma operação com perda muito pequena de tecido pulmonar, a certeza de que essa lesão podia ser removida com o uso de vídeo numa operação muito menos agressiva, com o tempo de internação de, no máximo, três dias. E o que a deixou ainda mais sorridente: não precisaria fazer nenhum tratamento no pós-operatório.

Ao solicitar os exames adicionais e encaminhava o pedido de internação, me dei conta de que o Agnello continuava em silêncio, não fosse um ruído leve que podia significar um rosnado sutil. E era.

Enquanto a dona Natália organizava o pacote de tomografias, Agnello, olhando no vazio como se eu tivesse saído da sala, acionou um sotaque carregado para liberar sua irritação: "E você pensa que Deus é surdo? Toda vez que lia no jornal qualquer coisa dele, tinha que dizer: imagina a maravilha que é ser cuidado por esse doutor! Pois agora taí, ele é todo teu!". Não podia ser ciúme. Mas então o que seria?

A primeira hipótese apontava para esse sentimento obscuro que rege a crença primitiva de que quem procura doença acaba adoecendo. Quando já olhava para ela como uma inocente vítima do destino injusto, fui sacudido pelo contraponto. Houve um dia, não importa há quantas décadas, em que, rendida à paixão, essa péssima conselheira, ela pensou: "Esse é o homem da minha vida. Se eu não puder casar com ele, prefiro morrer".

E o que mais Deus poderia fazer, sendo generoso como Ele só?

J.J. CAMARGO

12 DE JUNHO DE 2021
DAVID COIMBRA

A barba quase selvagem do Bonner

Tem sido muito comentada a barba do Bonner. Dias atrás, eu, o Potter e a Kelly entrevistamos a repórter Glória Maria, no Timeline, e o assunto que mais a entusiasmou foi esse. Ela descreveu com pormenores o momento em que viu, pela primeira vez, o Bonner barbudo. Disse que ele chegou com aquela barba e bronzeado das férias e ela quase desfaleceu:

- Um Apolo!

Foi como o definiu: um Apolo. Fiquei pensando na comparação. Apolo era mesmo um deus famoso por sua beleza, mas também se tratava de um guerreiro. Chamavam-no "o deus que fere de longe", porque sua arma preferida era o arco e flecha. Com uma flechada, matou a serpente Píton, em Delfos. A população local, agradecida, lhe ergueu um templo que abrigava o mais infalível oráculo da Grécia.

Esse templo tinha gravada, na sua porta de entrada, a frase basilar da filosofia e da psicanálise, usada por Heráclito, Sócrates, Schopenhauer, Nietzsche e Freud: "Conhece-te a ti mesmo".

Ou seja: Apolo era muita areia para o caminhãozinho do Bonner. Mesmo assim, a Glória Maria repetia: "Um Apolo, um Apolo..." Tudo por causa da barba. Naquela noite, assisti ao Jornal Nacional e prestei atenção à barba dele: uma barba em duas cores, preta e branca, aparada com esmero, retinha, nenhum fio fora do prumo. Há cuidados naquela barba, vê-se. Há critério.

Já usei barba, por pouco tempo, mas nunca consegui, nem jamais conseguiria, harmonia capilar igual à do Bonner. Também, vou dizer: não é esse o objetivo da barba. Ao contrário: o objetivo é dar ao rosto certa aragem de selvageria. Por isso eu, quando guri, queria muito que logo me crescesse a barba. Imaginava-me chegando e as gurias comentando:

- Que barba! Que homem!

- Macho! Ele é macho!

Mas a barba não vinha nunca. Só uns tufos aqui, outros ali. Contentava-me pensando que os macedônios de Alexandre, o Grande, eram todos glabros, e conquistaram o mundo. Lembrava ainda de um dos episódios mais extraordinários da história da Antiga Roma, a derrota dos romanos comandados por Varo para os germanos de Armínio. Você assistiu ao seriado Barbarians, que recomendei tempos atrás? Não? Devia. Trata, exatamente, dessa batalha, em que os germanos dizimaram 20 mil romanos. Augusto, o imperador romano, ao saber do fracasso, batia com a cabeça nas colunas do palácio e gania:

- Varo, Varo, devolve as minhas legiões!

Pois ficou tão triste, o Augusto, que passou meses sem fazer a barba, em sinal de luto. Isso significa que a barba não serve apenas para denotar sua masculinidade, mas também a sua tristeza.

Era pensando nesses exemplos históricos que me consolava por ter barba rala. Mas, com a ação do tempo e dos hormônios, minha barba começou a se tornar mais densa. Então, com paciência e zelo, deixei-a se desenvolver. E ela cresceu com bom vigor, embora não fosse exatamente fechada. O problema é que me pinicava e coçava e eu sentia calor. Não era confortável ter barba, era até irritante. Mas, ao mesmo tempo, eu queria ostentar o tal ar selvagem. Sacrificava-me, portanto, pelas aparências. Vaidade das vaidades, tudo é vaidade debaixo do sol, como dizia o Eclesiastes.

Continuei naquela dúvida, corto ou não a barba?, até o dia em que, ao dar um abraço mais entusiasmado na namoradinha da época, ela miou:

- Ai, assim tu me machuca com essa tua barba...

Lembrei-me de imediato da música do Chico:

"O meu amor

Tem um jeito manso que é só seu

De me deixar maluca

Quando me roça a nuca quase me machuca com a barba malfeita

E de pousar as coxas entre as minhas coxas quando ele se deita

Ai...".

Sorri. Senti-me másculo. Másculo!

- OK, garota - falei. - Por você, tirarei a barba.

E tirei, com grande alívio. Já tinha sido selvagem o suficiente.

DAVID COIMBRA

12 DE JUNHO DE 2021
FLÁVIO TAVARES

NAMORAR HOJE

Nasci num 12 de junho, muito antes de que fosse oficializado como "Dia dos Namorados". Quando vim ao mundo, era o "Dia de Santo Antônio", o "casamenteiro", ao qual recorriam (especialmente) solteirões e solteironas numa época de noivos em trajes de gala, ela de tule e vestido branco de longa cauda, ele de gravatinha-borboleta.

Assim, sou inocente quanto ao lado postiço e mercantil da data. Da cafonice à autêntica alegria de renovar juras de amor, tudo se juntou, no entanto, e quisera que cada um se sentisse como me sinto hoje - um enamorado da vida e do amor pela natureza.

Sim, pois este é o namoro perene e constante que nos leva ao amor maior. Unir-se à pessoa amada e com ela partilhar tudo, do erotismo ao pensamento, nos integra ao mundo e mostra que o namoro profundo e autêntico (infinito, até) vai além de nós.

Hoje, quando as bugigangas da sociedade de consumo se transformam em supostas "nece$$idade$" que devastam a vida no planeta quase no ritmo da covid-19, namorar é um gesto de salvação. Parecerá grandiloquente dizer "salvação", mas é verdadeiro. A continuidade da vida no planeta está ameaçada pela crise do clima (provocada pelos combustíveis fósseis, como carvão e petróleo) e, assim, o compromisso fundamental é namorar a natureza.

Namorar é extravasar algo ativo que nos integre ao outro, ao próximo. Transformemos o 12 de junho, portanto, em atos de amor à natureza, num namoro constante com a obra da Criação e sua evolução. Em vez de presentinhos, esta é a oferenda.

A pandemia brutalizou até o namoro a dois, dificultando a intimidade do beijo ou até do abraço, mas não nos fechou o caminho do amor à vida no planeta. Preparemo-nos, pois, para este namoro de amor intenso.

Namorar é, também, localizar o horror para que não se aninhe no poder. É a forma de nos alertar sobre os absurdos dos que se dizem intocáveis para ocultar a bandidagem.

A Polícia Federal descobriu agora algo estarrecedor: o líder do governo Bolsonaro no Senado, Fernando Bezerra, recebeu propina de R$ 10 milhões de empreiteiras quando ministro de Integração Nacional no governo Dilma Rousseff. O relatório enviado ao Supremo Tribunal pede o bloqueio de R$ 20 milhões da conta bancária do senador bolsonarista do MDB.

Num país em que os políticos mudam de partido como se trocassem a camisa suada no verão, namora-se o poder para arrombar o cofre.

Namoro assim é tão falso quanto anel de lata e pedra de vidro da velha canção da infância.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

12 DE JUNHO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

OS DESAFIOS DO PIB

O desempenho da agropecuária, especialmente da cultura da soja, costuma ter forte influência sobre o PIB do Rio Grande do Sul, principalmente nos primeiros meses do ano. Com uma supersafra após a seca que dizimou lavouras no ciclo 2019/2020, já era esperado um significativo crescimento da atividade no Estado no início de 2021, como mostraram os dados divulgados pelo Departamento de Economia e Estatística (DEE), ligado à Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão. O Produto Interno Bruto gaúcho subiu 5,5% em comparação com igual período do ano passado, sendo que o campo teve um salto de 42,2%.

A boa notícia é que, tradicionalmente, o agronegócio no Estado tem uma capacidade maior de disseminar seus reflexos positivos em comparação à média nacional, e o empurrão ainda deverá ser sentido no segundo trimestre, uma vez que a colheita da soja se concentra em abril. Há, por exemplo, milhares de pequenos e médios produtores de soja no Rio Grande do Sul, espalhados por centenas de municípios, fazendo com que os benefícios sejam mais bem distribuídos. O mesmo vale para a cultura do milho e o setor de carnes, especialmente nos segmentos de suínos e aves, devido à grande quantidade de produtores que integram as cadeias dos fornecedores dos frigoríficos, com significativa demanda do mercado externo. Beneficiam-se, da mesma forma, o comércio de diversas cidades, especialmente nas regiões mais ligadas ao agronegócio, assim como parte significativa da indústria que tem vinculação com o campo e também vende para todo o país. O recolhimento de impostos, igualmente, responde de forma positiva.

As fábricas, felizmente, também apresentaram um desempenho robusto, com um crescimento de 10,5% sobre o primeiro trimestre do ano passado. Claro que há uma base de comparação deprimida, mas setores como de equipamentos agrícolas e de transporte, metalurgia, fumo e móveis também contribuíram decisivamente para a magnitude do avanço do PIB gaúcho de janeiro a março. Uma performance ainda melhor, no restante do ano, é uma incógnita, devido a problemas de falta de insumos em alguns segmentos, como o de automóveis.

A nota destoante ficou com o setor de serviços, que caiu 2,4% e ainda sente os reflexos das restrições de circulação devido à pandemia. É, como no restante do Brasil, a atividade com maior peso na economia e depende do avanço da vacinação para controlar a crise sanitária e abrir a possibilidade de reabertura de atividades, criando um ambiente propício para um crescimento ainda mais consistente, uniforme e distributivo, com criação de postos de trabalho e geração de renda, em meio a um momento de desemprego elevado e inflação alta.

 


12 DE JUNHO DE 2021
MARCELO RECH

O alerta peruano

A primeira salva de alerta ecoou da longínqua Filipinas em maio de 2016. Lá, um desatinado populista de extrema direita, Rodrigo Duterte, foi eleito após uma campanha em que atacava a política tradicional e prometia eliminar traficantes de drogas que infernizam a vida filipina. A torrente extremista-populista se seguiu com a impensável vitória de Donald Trump nos EUA, com a condução de Matteo Salvini a vice-primeiro-ministro na Itália e a acachapante eleição no Brasil de um até então obscuro ex-capitão afastado do Exército por indisciplina. 

Com pequenas variações, o modus operandi foi o mesmo: o marketing anti-establishment, a unção de inimigos a serem riscados do mapa (terroristas e mexicanos ilegais nos EUA, imigrantes na Itália, “comunistas” e bandidagem no Brasil), o uso de redes sociais para espalhar fake news e desencadear ondas de indignação e o consequente ataque à imprensa que se interpõe diante das mentiras e do fanatismo. A Turquia de Erdogan, a Rússia de Putin e a Índia de Modi, ainda que com discursos mais moderados, já tinham dado a senha de que havia massas dispostas a sacrificar princípios da democracia e do bom senso em nome de serem governadas por autocratas com perfis populistas que só resolvem as questões que os elegeram em manifestações que sacodem as redes sociais.

A eleição de Joe Biden nos EUA despejou um oceano de racionalidade nas urnas e agora é o Peru de junho de 2021 que serve de alerta para nações presas a dilemas entre o péssimo e o muito ruim mesmo. No Peru, foram para o segundo turno um sindicalista sem qualquer experiência de gestão, misto de Guilherme Boulos na economia com Cabo Daciolo no moralismo, e uma herdeira política de ex-presidente preso, combinação de Fernando Collor na economia com Lula na Lava-Jato, que atribui a uma perseguição política suas três prisões por promiscuidade com a Odebrecht.

No primeiro turno, em abril, o eleitorado peruano tinha à disposição 18 candidaturas presidenciais, algumas sensatas e sensíveis às profundas reformas de que o país precisa para sair da crise sem provocar outras ainda mais graves. Na pandemia, o Peru sofreu em 2020 uma retração econômica de 15% e hoje exibe a mais alta taxa de mortalidade por covid no mundo. Na política, revezaram-se cinco presidentes e dois congressos em cinco anos. Mas, para apagar os incêndios, os peruanos colocaram dois piromaníacos no embate final pela Presidência. Pedro Castillo e Keiko Fujimori foram parar ali com menos de 19% dos votos do primeiro turno porque o eleitorado moderado se estilhaçou em abril. Como resultado da inépcia em se desviar do extremismo populista e da corrupção, o Peru, como definiu um eleitor de Lima, se viu diante da escolha entre o precipício e o abismo. Agora teve de saltar nele.

MARCELO RECH

12 DE JUNHO DE 2021
J.R.GUZZO*

Um crime contra o país

O Supremo Tribunal Federal tem se mostrado cada vez mais como protetor do crime no Brasil. O ministro Edson Fachin proibiu os voos de helicóptero da polícia sobre as favelas do Rio de Janeiro; o único direito que ficou garantido, no caso, foi o dos criminosos, que agora estão protegidos de ações policiais capazes de revelar suas posições no território que ocupam. O ministro Marco Aurélio soltou um dos maiores traficantes de droga do país; o homem fugiu no ato, e nunca mais foi encontrado.

Agora é a vez da ministra Rosa Weber, que deu ao governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), um dos políticos brasileiros mais enrolados com suspeitas de corrupção no uso de verbas públicas no combate à covid-19, o privilégio de não ser interrogado nesse picadeiro de circo que “investiga” a pandemia no Brasil.

A ministra Weber deu um argumento espantoso para a sua decisão: o governador, segundo ela, não pode sofrer “constrangimentos” na CPI da Covid. Por que não? Só porque está metido na operação Sangria da Polícia Federal? Só porque precisa esconder as responsabilidades diretas do governo do Amazonas no sinistro colapso do fornecimento de oxigênio em Manaus?

Todos os inimigos do presidente da CPI, do seu relator e da bancada da esquerda que controla os chamados “trabalhos” têm sido insultados em público, das formas mais grosseiras que se possa imaginar, pelos inquisidores. Ninguém, no STF ou em qualquer outra entidade de oposição ao governo, se lembrou até agora de mexer uma palha em favor dos seus direitos. Por acaso eles não estão sendo constrangidos da maneira mais agressiva, cínica e desleal em seus interrogatórios? Por que o governador do Amazonas não pode ser constrangido, mas a dra. Mayra Pinheiro pode?

Há desculpas vagas de que ouvir o governador na CPI poderia ferir a “independência de poderes”. Como assim?

Alega-se, também, que o governador do Amazonas está sendo investigado pela polícia e, se fosse ouvido na CPI, poderia incriminar a si mesmo. Um administrador minimamente honesto não teria problema nenhum em responder a qualquer pergunta, na CPI ou onde for. Se não fez nada de errado, por que está se escondendo? 

Quanto à possibilidade de “incriminação”, estamos diante de uma piada vulgar. Não é exatamente esse o propósito declarado dos donos da CPI – incriminar os adversários?

Desde o seu primeiro dia, essa CPI tem sido um espetáculo inédito, mesmo para os padrões de safadeza da vida política brasileira, em matéria de hipocrisia, de desrespeito ao público e de desonestidade em estado bruto. Como definir esta aglomeração, quando o presidente da CPI é um político desse mesmíssimo Amazonas, envolvido nas piores denúncias de roubalheira na área da saúde?

É óbvio que o STF está agindo e vai agir como aliado vital dessa gente. Seu objetivo e seus interesses têm sido os mesmos – governar o país sem a necessidade de ganhar eleições.

J.R. GUZZO*

12 DE JUNHO DE 2021
CARTA DA EDITORA

Parceria com universidades

Aprendemos na profissão que expor os problemas que afetam uma comunidade é papel primordial do jornalista. E, de fato, é. Mas não basta.

Há pelo menos um ano que a Redação Integrada de ZH, GZH, Rádio Gaúcha e Diário Gaúcho vem perseguindo o que chamamos de Jornalismo de Soluções. Nada mais é do que levar a prática da reportagem para além da apuração tradicional. Apresentar o problema, mas também focar na resolução, no enfrentamento da questão e, em última instância, no desenvolvimento da sociedade.

Com o objetivo de intensificar essa prática, recentemente fizemos parcerias com universidades públicas e privadas do RS, instituições que têm conhecimento acumulado e trabalhos extensos de pesquisa. Dessa união de esforços já resultaram reportagens como a que mostra o projeto de revitalização de trecho do Arroio Dilúvio, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) e o Núcleo de Tecnologia Urbana (NTU) da UFRGS, a iniciativa da Universidade Federal de Santa Maria, que transforma produção de flores em fonte de renda adicional a famílias no Estado, e o trabalho da Universidade de Ijuí, que oferece sessões gratuitas de fisioterapia para quem passou por quadro grave da covid-19.

O editor Leandro Fontoura explica como lidamos no dia a dia com as pautas focadas em Jornalismo de Soluções:

- Costumamos discutir na Redação: "Identificamos um problema no Rio Grande do Sul? Vamos apurar! Mas será que em algum lugar do Brasil ou no Exterior alguém já conseguiu resolver dificuldade semelhante? Como foi feito? O que dizem os especialistas no assunto? Que saídas sugerem? Como poderiam ser aplicadas aqui?

A editora Rosângela Monteiro lembra que diversas iniciativas que ganham destaque nas páginas do jornal e em GZH depois têm seu alcance ampliado. Foi o caso da reportagem sobre o projeto de combate à pobreza menstrual, que reuniu mais de 3 mil absorventes para mulheres em situação de vulnerabilidade, liderado pela PUCRS. A professora Camila Henz, coordenadora docente da Liga Acadêmica de Ginecologia e Obstetrícia da PUCRS (Ligo), notou um aumento no número de pessoas que entraram em contato querendo contribuir. Um exemplo foi uma associação de mulheres empreendedoras, que quer fazer uma doação de mil absorventes. Outro foi o de uma vereadora do Interior, que planeja fazer um projeto semelhante na cidade.

- O Jornalismo de Soluções é isso: foca em como contornar as dificuldades. Então, em vez de só apontar como a pandemia trouxe transtornos para a saúde mental da população, apresentamos serviços que podem auxiliar quem está sofrendo com isso. A parceria com as universidades tem sido muito produtiva - diz Rosângela.

Em GZH o assinante de Zero Hora pode ler todas as reportagens que temos feito com foco em Jornalismo de Soluções.
DIONE KUHN

sábado, 5 de junho de 2021


05 DE JUNHO DE 2021
MARTHA MEDEIROS

Bom-tom

No livro de ensaios de Ana Karla Dubiela, As cidades de Rubem Braga e W. Benjamin, encontrei uma crítica de Rubem Braga a uma reportagem da antiga revista Manchete que mostrava as "10 mais elegantes de 1967" e que assim foram analisadas por nosso cronista maior: "Que aura envenenada lhes tirou o encanto, e as deixou ali tão enfeitadas e tão banais, tão pateticamente sem graça, expostas naquelas páginas coloridas como risíveis manequins em uma vitrine de subúrbio?". Ana Karla complementa: aquelas mulheres que um dia representaram o símbolo de perfeição e encantamento burgueses, que romantizavam a riqueza e o desnível social, agora denunciavam, em seus rostos caricaturais, a decadência de um tempo.

Quase posso visualizar a foto das madames, idêntica a tantas outras que costumavam ser publicadas nas colunas sociais, na distante época em que ter "berço" ou um sobrenome de peso justificava o destaque. Mas a roda gira e esse tipo de jornalismo acabou. Foi substituído pela valorização de pessoas que alcançam prestígio por razões mais consistentes do que ter uma herança a caminho ou uma plástica bem-feita: ganha foco, hoje, os que contribuem para a sociedade através de suas habilidades, talentos, ideias. Nem é obrigatório um sobrenome; o apelido, às vezes, basta.

No vácuo, coube às redes sociais continuarem a dar uma forcinha para a vaidade sem motivo, com a vantagem de agora ninguém mais depender de um colunista social e de um fotógrafo para aparecer: é só tirar uma selfie, escrever a legenda e postar em sua própria página. Cada um de nós tem uma Ilha de Caras para chamar de sua.

A egotrip é uma tentação, eu sei. Por mais que se tente oferecer algum conteúdo aos seguidores, é difícil resistir e não postar aquela foto "de revista", em que você está segurando uma taça de champanhota ao lado de 15 amigas durante o entardecer, em um coquetel à beira do Mediterrâneo. É de bom-tom? Consultas com a especialista em etiqueta virtual Keila Mellman, personagem oportuníssima da atriz Ilana Kaplan, e com a blogueirinha do fim do mundo, personagem da perspicaz Maria Bopp que, com sua ironia crítica, atinge em cheio a turma dos sem noção.

Ter nascido rico e lindo não é crime, ninguém precisa se atirar do alto da pirâmide. Porém, estamos em 2021: ostentar é cafona, aglomerar é perigoso e a insensibilidade diante do momento presente não é de bom-tom. Em caso de dúvida, siga Ilana e Maria, gurus da inteligência e do humor em tempos de pandemia - sim, ainda estamos no meio de uma pandemia e o item mais elegante do vestuário deixou de ser a bolsa de grife e o blazer de cetim de seda com estampa de leopardo, e sim a boa e indispensável máscara. E uma camiseta regata para facilitar a aplicação da vacina. No aqui e agora, gente com tutano é que está entre as 10 mais.

MARTHA MEDEIROS