sábado, 15 de janeiro de 2022


15 DE JANEIRO DE 2022
CLAUDIA TAJES

Retrate-se ou passe vergonha

E eis que o ano chegou chegando, para variar. Aconteceu tanta coisa que nem parece que mal estamos na metade de janeiro. As chuvas na Bahia e Minas são tragédias diárias nos noticiários, sem falar no desabamento no lago de Furnas, mais uma cena de filme de terror que nem o cinema tinha imaginado. Isso enquanto o sul torra sem esperança de água nos cultivos.

Não, o aquecimento global não existe. Pode desmatar à vontade, que não dá nada. Vamos trocar a floresta pelo garimpo, que dá mais lucro para os mesmos. Corre com os índios e bora explorar aquele monte de terra parada. A tosquice e o negacionismo também são tragédias que a gente vive todos os dias.

Falando em negacionismo, Ciência 1 x 0 Trevas. A vacinação das crianças ganhou de lavada dos antivida na tal da consulta pública, frustrando o resultado esperado pelo Ministério da Saúde. Tomara que os pais que preferem seus filhos expostos ao coronavírus se convençam da necessidade da vacina, ainda que na marra.

Se Tawy Zó?é, um jovem índio da tribo isolada dos Zó?é, na Amazônia, carregou o pai de 64 anos nas costas por mais de cinco quilômetros - cinco para ir e cinco para voltar -, floresta adentro, para os dois se vacinarem, não custa naaaaada pegar o filho pela mão e ir de carro até o posto de saúde mais próximo.

E há quem diga que os índios não podem nos ensinar nada. Já que tenho lado nessa briga, e nunca escondi de ninguém, que alegria a carta do diretor-presidente da Anvisa, que até almirante da Marinha é. Ou seja: não estamos falando de nenhum esquerdopata-vai-pra-Cuba-pra-Venezuela-pra-Nicarágua-etc.

Antônio Barra Torres, almirante e médico, respondeu na lata às insinuações de corrupção que o presidente - desculpa aí quem gosta, mas o fato aconteceu assim - deixou no ar, em mais uma fala desastrada insinuando interesses escusos da Anvisa e das "pessoas taradas por vacina". Oi?

"Se o senhor dispõe de informações que levantem o menor indício de corrupção sobre este brasileiro, não perca tempo nem prevarique, senhor presidente. Determine imediata investigação policial sobre a minha pessoa. Aliás, sobre qualquer um que trabalhe hoje na Anvisa, que com orgulho eu tenho o privilégio de integrar."

É isso. Se sabe de alguma coisa, manda investigar. Se não sabe, pede desculpas. Ah, sim, porque Barra Torres gostaria de desculpas: "Agora, se o senhor não possui tais informações ou indícios, exerça a grandeza que o seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor tanto cita, se retrate".

O diretor-presidente da Anvisa começou 2022 jantando os detratores da saúde. O ano começou quente - e em todos os sentidos, com essa sensação térmica de cem graus à sombra. Ao que tudo indica, não vai nos faltar treta.

Pelo menos, aleluia, também não vai nos faltar vacina.

O espetáculo que abriu os trabalhos do Porto Verão Alegre 2022 segue em cartaz até domingo. O Inverno do Nosso Descontentamento - Nosso Ricardo III comemora os 20 anos da Cia. Teatro ao Quadrado com direção de Luciano Alabarse e as atuações luxuosas de Margarida Peixoto e Marcelo Ádams. Baseado em uma das peças mais conhecidas de Shakespeare, o Ricardo da montagem é um vilão, mas não só. Como ele mesmo avisa, o personagem retrata nele, e para além dele, os tiranos de todos os séculos, os de antes e os muitos que vieram depois. É o teatro com T voltando com todos os protocolos de segurança dos nossos dias para se aplaudir de pé. E de máscara. Até 16 de janeiro no Teatro do CHC Santa Casa. Ingressos aqui: bit.ly/ricardoiii

CLAUDIA TAJES

15 DE JANEIRO DE 2022
FRANCISCO MARSHALL

ERGA A VISÃO

Plena de arte, uma nova imagem ora encanta Porto Alegre. Erga a visão para vê-la e pensar com seus símbolos e saberes. É a obra-prima pintada pela dupla de artistas muralistas Mona Caron e Mauro Neri, com artistas locais, na fachada lateral (empena cega, ora vidente) de prédio público, do Daer e da Procuradoria-Geral do RS. O imenso mural é bem visível da Ponte de Pedra, coração antigo e açoriano da Capital. Ali a cidade ascende em pintura que traz consigo o que importa vermos, com beleza e nobres significados. A obra ilumina bem a muitas questões: o que é arte? O que são uma e esta cidade? E, especialmente, o que somos no mundo e para onde nos destinamos.

A obra é convidativa, fácil de ver. O convite é para seguirmos com reflexão o caminho do encanto e compreendermos as formas ali representadas, sua composição e poderes, seus símbolos, mensagens possíveis e desejos despertos. Desponta figura humana, mulher negra elevando a cabeça com olhar prenhe de emoção feliz. É a imagem de Beatriz Gonçalves Pereira, a Bia da Ilha da Pintada, mulher notável, mãe de santo, que vem da borda fluvial, periferia da cidade, para dizer algo no centro, com força poética. Suas mãos se estendem em gesto de oferenda mas também receptivo, estabelecendo um eixo horizontal em que há um fluxo rumo ao coração da pessoa. Não por acaso, o gesto de Bia é também ponderador, as palmas erguidas como pratos de uma balança, com clamor de justiça e piedade. Veja nessas mãos o trabalho e as marcas de muitos destinos, e outras vias que se abrem, mãos que acolhem com carinho os olhares da metrópole, nossa visão erguida.

O fluxo, como tudo o que constitui esse poema visual, vem da paisagem e vai com arte rumo ao céu, mas encontra no caminho o caule de uma planta que se ergue como coluna da imagem e, agora, desta cidade. É um axis mundi, eixo do mundo, com que a cidade antiga se erguia como árvore da vida, unindo mundos ínfero, da superfície e celestial. A planta é Justicia gendarussa, de origem chinesa, difundida em culturas do Oceano Índico e plena de propriedades medicinais - inclusive como contraceptivo masculino (alô, patriarcado). Seu uso na medicina popular e no candomblé traz o nome da obra recém inaugurada: Quebra Tudo, Abre Caminhos. Por meio dessa imagem, muitas vias e veias convergem e se elevam rumo ao belo céu desta pólis, deste planeta.

Olhe para cima, e o faça com as lentes de todos esses símbolos, com arte, ciência e poder. Há um justo clamor antirracista, com beleza e dignidade que vêm de áreas em que falta urbe mas florescem, nos jardins de Bia, esta planta justiceira e muito mais. Há uma erva profilática, o verde que oferece cura, a seiva e a graça que tudo fazem com sacralidade benfazeja. O fluxo de energia aqui celebrado evoca as forças veras da cidade. Celebração da vida, da sensibilidade, da inteligência e da esperança.

Gratos aplausos para Mona e Mauro, e para Marcelo Sgarbossa e a comunidade e os recursos que mobilizou para esse feito que encanta Porto Alegre. Erga a visão. No topo da imagem há uma flor, e com ela e todas as forças vamos a destinos elevados.

FRANCISCO MARSHALL

15 DE JANEIRO DE 2022
COM A PALAVRA - 
PEDRO BUTCHER - Crítico e pesquisador de cinema, 50 anos

COM A PALAVRA

É professor na ESPM-RJ e pesquisa o mercado cinematográfico, tendo sido editor do portal Filme B, referência na área, e defendido doutorado na UFF sobre o tema

Entre 2001 e 2014, o crítico e pesquisador carioca Pedro Butcher editou o portal Filme B, referência do mercado cinematográfico nacional. Depois, aprofundou-se na pesquisa do sistema de distribuição e exibição de filmes, dedicando-se ao doutorado que rendeu a tese Hollywood e o Mercado de Cinema no Brasil: Princípio(s) de uma Hegemonia, defendida na Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2019. Mais recentemente, tem ministrado cursos e discutido em diversas instâncias as transformações que acometem esse sistema. 

Como fica claro na entrevista a seguir, essas transformações em curso atualmente, sobretudo com a ascensão do streaming, remetem ao contexto que determinou o estabelecimento de Hollywood como centro hegemônico da produção mundial, cerca de um século atrás. Curador, professor da ESPM-RJ e um dos mentores do programa Talent Press, do Festival de Berlim, ele aceitou o convite de ZH para uma conversa sobre o presente e o futuro do mercado de cinema, tendo como perspectiva os acontecimentos registrados no passado.

NO DOUTORADO, VOCÊ PESQUISOU A CONSTRUÇÃO DA HEGEMONIA DE HOLLYWOOD, DESTACANDO COMO, NOS ANOS 1910, A INDÚSTRIA DOS EUA TOMOU CONTA DAS TRÊS ETAPAS DO PROCESSO DO CINEMA: PRODUÇÃO, DISTRIBUIÇÃO E EXIBIÇÃO. HÁ SEMELHANÇAS COM O ATUAL MOMENTO, EM QUE AS PLATAFORMAS DE STREAMING ASCENDERAM À CONDIÇÃO DE DOMINANTES NESSAS TRÊS ETAPAS?

Essa pergunta é minha grande motivação para a pesquisa que resultou na tese: tentei buscar na história respostas, ou pistas, para o que está acontecendo hoje. É claro que vivemos um momento muito diferente de cem anos atrás, mas há semelhanças, sim, principalmente na forma como a indústria estabelece certos parâmetros de trabalho e acaba moldando determinadas convenções. Primeira coisa importante a se dizer é que Hollywood, para se estabelecer de modo hegemônico, contou com apoio estatal do governo dos EUA. Não foi pura e simples competição de mercado, mas sim uma expansão forjada com o apoio do Estado. O momento-chave dessa expansão é a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que faz com que a Europa, até então a principal fornecedora de filmes para a América Latina, se retirasse do mercado. Esse movimento não se deu somente no cinema, mas na economia como um todo. Por meio de suas embaixadas, o Estado americano montou uma ampla rede de coleta de informações sobre os principais produtos importados, hábitos culturais e de consumo, funcionamento da economia e estrutura política na América Latina, com foco em Brasil e Argentina, os maiores mercados. Essas informações muniram os empresários americanos em seu processo de expansão internacional - incluindo os empresários da indústria cinematográfica, ainda em processo de consolidação nos EUA.

FOI UMA AÇÃO POLÍTICA COORDENADA.

Sim. A historiadora Emily Rosemberg chama de "Estado promocional americano". Os princípios são liberais, mas é o Estado que cria a estrutura que promove o cinema de Hollywood rumo ao domínio mundial. É uma estrutura que não é clandestina, mas que se beneficia do anonimato das estruturas consulares, que produzem extensos relatórios confidenciais sobre o mercado brasileiro. Depois esses relatórios se tornaram públicos, no entanto, inicialmente, eram confidenciais. É importante ter em conta também que a própria Hollywood ainda estava em formação. As marcas que se tornariam muito presentes em nossas vidas - Paramount, Fox, Warner etc. - ainda estavam se fortalecendo, só se consolidariam de fato no cinema sonoro, ou seja, a partir de 1927. Eu diria que o processo da indústria verticalizada como a conhecemos se consolidou da Primeira Guerra até 1927. Foi nesse período que Hollywood começou a investir mais sistematicamente na ocupação dos mercados internacionais. Fundamental para isso, além de produzir e distribuir os filmes, foi poder exibi-los. Essas empresas, que se tornariam as majors, eram donas das salas mais rentáveis dos EUA, as salas das maiores cidades cujas bilheterias respondiam por um percentual altíssimo de seus ganhos.

NA EUROPA E FORA DOS EUA DE UM MODO GERAL NÃO ERA BEM ASSIM, CERTO?

Certo. No mercado internacional, a compra ou a construção de cinemas foi exceção. Paramount e MGM chegaram a ter salas no Rio e em São Paulo, mas essa não foi a regra. O que Hollywood garantiu ali, em grande parte com a ajuda do governo, foram parcerias com as redes locais de exibição para que os filmes dos EUA tivessem espaço privilegiado. Foi nesse período também que o formato do longa-metragem narrativo de ficção se estabeleceu como eixo econômico e de prestígio da indústria, já que antes filmes de várias durações eram exibidos, além de séries. As majors construíram palácios cinematográficos para exibirem seus longas. Foi o período de verticalização total, ou seja, domínio do processo nas suas três etapas.

MAIS OU MENOS O QUE VEMOS AGORA, COM A ASCENSÃO DAS PLATAFORMAS DE STREAMING.

O sistema de streaming não era inicialmente produtor, porém agora já financia ele próprio o produto que considera mais importante para o seu negócio, produzindo ou garantindo a propriedade intelectual desse produto, seja filme ou série. E isso acaba gerando uma concentração, sim, mais ou menos como ocorreu lá atrás. Essa comparação é válida: é o mesmo grupo que domina todas as etapas do processo. Uma diferença é que a rede mundial se estabeleceu antes via salas de cinema e, hoje, está estabelecida via internet.

PELO MENOS DESDE MEADOS DO SÉCULO PASSADO HOLLYWOOD INVESTIU MUITO NA EXPERIÊNCIA DAS SALAS DE CINEMA, NO SEU DIFERENCIAL. APOSTOU NO ESPETÁCULO E NA IMERSÃO DO ESPECTADOR PARA SUSTENTAR SEU NEGÓCIO, COM O CINEMASCOPE, O 3D, OS BLOCKBUSTERS ETC. COMO FICA ISSO NESSE NOVO CENÁRIO, SOBRETUDO APÓS A PANDEMIA?

Essa é uma questão difícil de responder. O que se sabe com mais concretude é que a pandemia acelerou um processo que já vinha ocorrendo. A experiência humana de uma forma geral está cada vez mais mediada pelo digital. O capitalismo como um todo vive um momento de digitalização. Tem um motivo para isso, que é o fato de a experiência digital ser muito melhor monitorada e, com isso, mapeada. Tudo o que passa pelo computador vira dado. Esta é a grande descoberta do capitalismo recente: a acumulação mais significativa é a de dados. 

Para o consumo isso tem muito significado. Shoshana Zuboff, em A Era do Capitalismo de Vigilância, defende que essa nova era é pautada pela descoberta do superávit comportamental. Ele permite o capitalismo preditivo, que prevê o que o comportamento do consumidor, antecipando-se a tendências e criando-as. Ou seja, o sistema de algoritmos cria um molde comportamental, elabora um molde no qual os comportamentos vão se desenvolver. O hábito de maratonar séries, por exemplo, seria um desejo do espectador ou fruto de uma estrutura que se desenvolveu de modo a criar esse molde? O streaming foi se desenvolvendo assim: antes de um episódio de uma série terminar, o seguinte já surge na tela para o espectador seguir vendo.

PARA PARAR DE VER VOCÊ PRECISA PEGAR O CONTROLE REMOTO, TOMAR UMA ATITUDE. DO CONTRÁRIO, A EXIBIÇÃO VAI SEGUINDO E OS EPISÓDIOS, SE SUCEDENDO.

Isso. Quer dizer, a experiência da sala de cinema vem sendo desestimulada há bastante tempo, já, em práticas comportamentais como essa. A sala de cinema, por não fornecer tantos dados às grandes corporações capitalistas, não interessa mais tanto no novo cenário em que nos encontramos. O que eu acredito, diante disso, é que essa experiência tende a ser um apêndice, algo minoritário diante dos comportamentos mais usuais, quase uma espécie de showcase (mostruário). O que é a tendência de todo o consumo. Veja as livrarias, por exemplo. Tendem a ser um apêndice, já que o grande fluxo de venda de livros se dá, ou se dará, online. A sala de cinema, assim como a livraria, vira uma espécie de loja de demonstração, uma vitrine, como as das lojas de luxo - uma versão superproduzida, porque de mostruário, daquilo que realmente será consumido pelas pessoas.

NESSE CONTEXTO, A EXPERIÊNCIA DE FRUIÇÃO DO ESPECTADOR MUDA. HÁ MUDANÇAS ESTÉTICAS COMO CONSEQUÊNCIA DISSO, VOCÊ CONCORDA?

Já existem mudanças estéticas, inclusive. É paradoxal, na verdade. Porque o que estamos vivendo é uma economia da atenção: o que as plataformas, os canais, enfim, disputam é a nossa atenção. Ao mesmo tempo em que tudo está acelerado, em que as novas gerações querem músicas mais curtas, ouvem áudios e mesmo veem vídeos em velocidade mais rápida, a indústria tenta capturar a atenção do espectador por um tempo estendido. Porque quando já estão familiarizadas com um universo ficcional, as pessoas gostam de seguir nele. 

Tem isso de "ah, estou curtindo muito essa série, mas ela fica boa mesmo na terceira temporada", ou "a obra-prima desse especial aqui é o oitavo episódio". O tempo estendido é usado para fisgar um consumidor que quer tudo mais rapidamente. É um contrassenso, mas é o que estamos vivendo. De um lado, surge o Tik Tok, compartilham-se vídeos curtíssimos nas redes sociais. De outro, os universos estendidos persistem em séries longas, sagas com cada vez mais filmes ou episódios. Essas tendências se entrecruzam. Algumas surgem mais espontaneamente, mas a maior parte é moldada pelo capitalismo, pelo consumo dirigido, como de algum modo ocorreu cem anos atrás.

O QUE VOCÊ ACHA DA EXPRESSÃO NETFLIX SYSTEM, EM REFERÊNCIA A STUDIO SYSTEM, USADA NO ESTABELECIMENTO DE HOLLYWOOD COMO FORÇA HEGEMÔNICA DO CINEMA?

Acho que a expressão faz jus à empresa que foi a precursora desse movimento, depois consolidado com outras marcas. É claro que a HBO já fazia séries antes, outras emissoras também, mas a Netflix é a precursora dessa plataformização do consumo. Algo que é interessante é que, com a plataformização, ao mesmo tempo em que fica estabelecido um tipo de produção padrão, um tipo de narrativa pretensamente universal, capaz de agradar às plateias do mundo inteiro, também ascende um movimento que está sendo chamado de glocalization, ou seja, o "global local", que seria aquele "ponto universal" - muitas aspas aí - dos filmes sul-coreanos, das séries espanholas etc. 

O que a escola narrativa dos filmes sul-coreanos e das séries espanholas tem que pode cativar plateias de outros países. As plataformas oferecem os canais para que essas plateias sejam cativadas e, uma vez que esse "ponto universal" seja alcançado por uma produção internacional - os algoritmos ajudam muito, é evidente -, abre-se mais uma perspectiva de consumo e de ganhos para as empresas.

NÃO DEIXA DE SER UM CONTRASSENSO, TAMBÉM, E UMA DIFERENÇA EM RELAÇÃO AOS PRIMÓRDIOS DA HEGEMONIA DOS EUA: AGORA A INDÚSTRIA HEGEMÔNICA ABRE ESPAÇO PARA PRODUÇÕES DE OUTROS PAÍSES.

É inegável que, nesse novo cenário, estamos tendo mais acesso a outras indústrias, sim, basta ver o sucesso de La Casa de Papel, da cultura pop da Coreia do Sul, de séries israelenses, italianas, dinamarquesas etc. Mas há isso que chamei - com muitas aspas - de "ponto universal". Do ponto de vista da linguagem, em muitos aspectos todas essas produções são bastante semelhantes. O que entra no esquema hegemônico segue um padrão. Tem algo interessante a ser lembrado sobre Parasita (2019) e seu diretor, Bong Hoon-jo: o filme anterior dele, Okja (2017), esteve na primeira edição do Festival de Cannes que aceitou produções de plataformas de streaming, o que acabou provocando uma reação muito forte dos exibidores e de toda a comunidade cinematográfica porque esse tipo de filme não tinha exibições programadas para as salas de cinema, sairia do festival direto para a Netflix. 

A partir da pressão da comunidade cinematográfica, Cannes criou ali uma regra indicando que, para participar da competição, o filme teria necessariamente de ser exibido depois no circuito de salas. O que enfureceu Ted Sarandos, então CEO da Netflix, que passou a levar suas produções para outros festivais, notadamente Berlim e Veneza. No meio dessa confusão, o distribuidor dos filmes do Bong Hoon-jo nos EUA tentou de todas as formas convencer Sarandos e a Netflix a permitirem a exibição de Okja nas salas de cinema. Não conseguiu. Então, com medo de não poder exibir um eventual novo projeto do Bong Hoon-jo nos EUA, esse distribuidor se antecipou e não só garantiu a distribuição do eventual novo projeto, mas decidiu financiá-lo. Calhou de ser Parasita, que assim pôde ser o primeiro filme de língua não inglesa a vencer o Oscar.

FOI UMA ESPÉCIE DE GUERRA DO VELHO SISTEMA CONTRA O NOVO, ISSO?

O que tem sido chamado de "guerra dos streamings" eu prefiro chamar de "guerra de janelas", porque não está restrita apenas a uma competição entre serviços de streaming, mas envolve também as salas de cinema, a TV aberta e a TV paga (o termo "janela" refere-se a cada um desses canais de exibição). É uma guerra para exibir os filmes. Essa guerra está inserida no processo de mudança do consumo, que é mais amplo e diz respeito ao comportamento como um todo.

A PANDEMIA PODE TER UM SIGNIFICADO PARECIDO AO DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL À MEDIDA QUE É UM EVENTO-CHAVE PARA O ESTABELECIMENTO DE UM NOVO PARADIGMA NO CONSUMO DE FILMES?

Olha, é uma comparação curiosa, a da pandemia com a Primeira Guerra, mas faz sentido. O que acho importante ressaltar é que esse tipo de mudança nunca se dá de uma hora para a outra. Os comportamentos não são estanques. A consolidação da hegemonia de Hollywood se completa só com o cinema sonoro, vários anos depois, sendo que a chegada do som tem por si só um impacto próprio, cheio de nuances e impulsionador de outras mudanças. 

Vale observar também o quanto as mudanças se dão em momentos de chegada de novas tecnologias, caso hoje da internet. E, é claro, há as questões políticas. Logo depois veio a Segunda Guerra, com a Europa ainda mais fragilizada, seguida da Guerra Fria, que pautou várias políticas expansionistas. Acontecimentos de grande magnitude costumam acelerar os processos, e acho que foi o caso agora. Talvez ainda estivéssemos tendo outros desdobramentos da "guerra das janelas". Tanto é que a participação das plataformas ainda não está tão consolidada assim. A Netflix ainda é uma empresa que aposta no futuro. As velhas majors ainda são as empresas gigantes.

NOS ÚLTIMOS ANOS, O CINEMA BRASILEIRO CRESCEU EM TERMOS DE QUANTIDADE DE PRODUÇÃO. AO MESMO TEMPO, GRANDE PARTE DESSA PRODUÇÃO NÃO É VISTA. COM ESSAS MUDANÇAS, OS FILMES NACIONAIS TENDEM A FICAR EM NICHOS AINDA RESTRITOS OU O STREAMING PODE AJUDAR A TORNÁ-LOS MAIS VISÍVEIS?

A incógnita envolvendo o cinema nacional é política. Nossa produção depende de qual será o futuro das políticas públicas - se vamos seguir no retrocesso promovido pelo governo atual ou se vamos retomá-las. No cinema, o Brasil é um país de tradição importadora. Mais do que isso, é um país colonizado, e com vários aspectos do Brasil colonial persistentes na configuração da sociedade. É por isso que é muito difícil criar um mercado menos assimétrico entre os produtos locais e internacionais sem regulação do Estado. 

Sendo que regulação é algo básico, vários países adotam e nós mesmos conseguimos avanços enormes no campo da TV por assinatura - houve um incremento do mercado, com mais produção e mão de obra locais após o marco legal do início da década passada. Então estamos nesse impasse. Acho importante considerar que a tradição audiovisual brasileira nunca foi restrita ao cinema, e a reconfiguração atual me parece em alguns aspectos aproximar certos setores. A Globoplay, por exemplo, produz filmes, séries, novelas. O mercado se transforma como um todo. Há muitas interrogações. As respostas dependem mais de questões políticas, me parece.

AS PRODUÇÕES DA GLOBOPLAY TÊM SEUS PRÓPRIOS CANAIS DE EXIBIÇÃO, DIFERENTEMENTE DE PRODUÇÕES REALIZADAS À MARGEM DAS PRINCIPAIS PRODUTORAS DO PAÍS.

As produções independentes cresceram muito com a regulação da TV por assinatura. E voltaram a ficar muito fragilizadas com a obstrução dos processos da Agência Nacional do Cinema (Ancine) e do Fundo Setorial do Audiovisual promovida pelo governo Bolsonaro. O governo cortou tudo, interrompeu um sistema que vinha sustentando toda uma indústria. Agora, pensando de maneira mais ampla, acho que a tendência, para o produto não hegemônico, é mesmo ficar restrito a um nicho. Isso é algo que vai além do cinema. O capitalismo, no seu estágio atual, tende a acabar com o que é intermediário no âmbito do consumo. 

Há aquilo em que se investe muito dinheiro para ter um retorno muito grande e, na outra ponta, há o que recebe pouco investimento e fica restrito a lugares bastante limitados. Isso aconteceu inclusive no cinema dos EUA: cineastas consagrados, mas que trabalhavam com orçamentos médios, como Woody Allen, David Lynch e Wes Anderson, passaram a ser financiados por empresas europeias. E hoje trabalham com orçamentos bem menores do que aqueles aos quais estavam acostumados. A tendência, de um modo geral, acho que é essa: uma separação mais radical entre o que é hegemônico e o que não é - que aí se torna cada vez mais restrito.

 DANIEL FEIX


15 DE JANEIRO DE 2022
DRAUZIO VARELLA

CRIAR OBSTÁCULOS PARA VACINAR CRIANÇAS É MAIS DO QUE FALTA DE ESCRÚPULOS

O coronavírus contra-ataca. Depois de dias mais calmos, voltamos a ter parentes e amigos com covid-19, fenômeno que se repete mundo afora.

Em Nova York, o número de casos aumentou mais de 400% em duas semanas. Nas capitais europeias em que a vida retornava à normalidade, a pandemia ganha força inesperada. Não se iluda prezado leitor, o mesmo acontecerá aqui.

A razão para a retomada é o aparecimento da variante Ômicron, que as mutações dotaram de duas características particulares: facilidade de transmissão e período de incubação mais curto. Mesmo um otimista, como este que vos escreve, é forçado a reconhecer que vem aí uma nova onda de infecções generalizadas. A diferença em relação às anteriores é que chega quando a maior parte da população está vacinada.

As vacinas, no entanto, foram aprovadas a partir de estudos nos quais demonstraram capacidade de evitar internações hospitalares e mortes. Não tiveram sua eficácia avaliada na prevenção das infecções pelo vírus. O esforço mundial é o de imunizar o maior número possível de pessoas para impedir que desenvolvam as formas graves da doença e reduzir o risco de surgir variantes mais agressivas. A presente onda nos atinge quando começávamos a respirar um pouco aliviados da pressão de quase dois anos de restrições que nos afastaram dos familiares e amigos e das reuniões sociais que nos trazem prazer. Estamos cansados. Infelizmente, o vírus insiste em seguir o mandamento supremo da vida na Terra e em qualquer planeta em que ela exista ou venha a existir: "Crescei e multiplicai-vos".

Embora a velocidade de disseminação da Ômicron seja bem maior do que a das cepas anteriores, a proteção oferecida pelas vacinas vai evitar a disputa por leitos de UTI e respiradores mecânicos, característica da fase em que quase 3 mil brasileiros perdiam a vida todos os dias.

O desafio agora será o da necessidade de afastamento dos profissionais de saúde da linha de frente, infectados por cepa tão contagiosa, ao lado dos que precisarão fazer quarentena por terem entrado em contato com eles. Quem cuidará dos doentes?

A demanda por atendimento médico dos pacientes com covid somada à daqueles com a gripe H3N2, que resolveu nos infernizar fora de época, explica o caos que bate à porta dos serviços de emergência.

Não fossem suficientemente graves esses problemas, temos que lidar com um presidente considerado negacionista, quando na verdade é um ativista empenhado de corpo e alma em disseminar a epidemia e em impedir que os brasileiros se vacinem.

Como parte dessa estratégia, nomeou um general para o Ministério da Saúde cuja missão era a de obedecê-lo. Quando o desastre tornou inevitável sacrificar pessoa tão incompetente, procurou para o posto um médico que não tivesse escrúpulos nem vergonha de assumir o mesmo papel. No ano passado, em obediência a ordens presidenciais, o general fez que não viu as sucessivas ofertas de vacinas da Pfizer. Só decidiu iniciar a imunização quando seu superior percebeu que ficaria em desvantagem eleitoral com o governador de São Paulo.

Mais tarde, no afã de lamber as botas do chefe, o ministro médico não ficou atrás: inventou a mentira de haver dúvidas sobre a segurança da vacina em adolescentes, com o objetivo de adiar ao máximo a imunização na faixa de 12 a 18 anos. Agora, o mesmo ministro não se envergonha de criar a palhaçada de uma consulta pública para avaliar a necessidade de imunizar crianças de cinco a 11 anos.

Alega que as 301 dessa faixa etária que perderam a vida na epidemia constituem um "número aceitável" e defende que o tal público deve opinar sobre a conveniência de vacinar crianças, com uma preparação segura e eficaz, aprovada pelo FDA americano, pela Agência Europeia, pela nossa Anvisa e recomendada com ênfase pelo comitê de especialistas que assessora o ministério, por todas as sociedades médicas respeitadas e pela Academia Nacional de Medicina.

A covid está entre as 10 principais causas de óbito dos cinco aos 11 anos. Já tirou mais vidas do que a somatória de todas as mortes provocadas por doenças da infância para as quais existem vacinas.

Criar obstáculos para imunizar nossas crianças, no momento em que se dissemina uma variante tão contagiosa, é muito mais do que falta de escrúpulos, é crime.

Que nome teria?

DRAUZIO VARELLA

15 DE JANEIRO DE 2022
MONJA COEN

LUA

Estamos no quarto crescente. Segunda-feira é lua cheia. A primeira do ano. Se a noite for clara, olhe para o céu, aprecie e recite: Todo carma prejudicial alguma vez cometido por mim.

Desde tempos imemoriáveis 

Devido à minha ganância, raiva e ignorância sem limites

Nascido de meu corpo, boca e mente

Agora, de tudo, eu me arrependo

O arrependimento nos leva à grande pureza. Reconhecer nossas faltas e comprometer-se a não as repetir. Transformar-se. Não é tarefa fácil. As mudanças emocionais/espirituais não acontecem em linha reta, mas em uma espiral ascendente. Algumas vezes derrapamos e retrocedemos. Que seja apenas para tomar força e ir adiante. Essa é a proposta do arrependimento nas luas cheias e luas novas. Hoje em dia, nos mosteiros japoneses que já não seguem mais o calendário lunar, essa liturgia do arrependimento é feita nos dias 15 (este sábado) e nos dias primeiro de cada mês - ou seja, de quinze em quinze dias precisamos rever nossas ações, palavras e pensamentos para estimular o que é benéfico e impedir o crescimento do que é prejudicial.

Meu nome budista é mente lua só e completa: Shingetsu Coen. Shin significa espírito/mente/coração/essência e Getsu (lê-se guetsu) significa lua.

No Japão, na lua, não há um dragão sendo morto por São Jorge.

Dragões são seres imaginários representantes das águas. E o tigre - animal símbolo deste ano, no calendário chinês, é o símbolo da terra.

No filme Pocahontas, um pequeno dragão era o protetor dos ancestrais da família. Lembram-se dele? Um dragãozinho atrapalhado? Pois, dragões não devem ser mortos...

Quem aparece na lua cheia japonesa é um coelho, em pé, amassando arroz em um pilão, com um machado de madeira enorme. Por isso, em janeiro, primeiro mês do ano, é uma delicadeza servir bolinho de arroz.

Simboliza o trabalho feito durante o ano - semear, plantar, cultivar, cuidar, colher, separar e cozinhar. Ou seja, precisamos um ano inteiro de trabalho, de atenção para termos alimento.

O arroz gaúcho de grão curto é o mais parecido com o arroz japonês. Podemos cozinhar só com água e fica delicioso.

Quem planta arroz sabe o trabalho que envolve para uma boa colheita. Ainda há agricultores que usam o método antigo, manual. Nos arrozais de água sempre aparecem sapos falastrões e seus predadores, as cobras.

Bem, voltando ao meu nome: Shingetsu poderia ser traduzido como "mente lua". Seria ter a cabeça na lua? Distraída? Sonhadora? Entretanto, vem de um poema chinês antigo:

Mente lua Só e completa

A luz permite ver todas as formas Quando formas e luz são transcendidas

O que é? Questão existencial. O que é, o que existe além da luz e das formas? Qual a essência do ser?

A lua é uma só, completa em si mesma. Lua cheia, lua nova, quarto crescente ou quarto minguante - sempre o círculo perfeito - quer visível ou invisível.

Assim é o nosso eu verdadeiro, a essência de cada ser humano. Assim como é. Algumas vezes visível outras invisível. O que move você? Posição social, fama, reconhecimento, dinheiro? Ou a ternura de uma vida simples e singela?

Há um filme lindo a ser lançado este mês no Brasil.

Um filme do Butão. Belíssimas imagens e um roteiro sensível, macio, doce sobre a felicidade interna bruta. Um país onde ser feliz é mais importante que ser rico ou poderoso. De uma delicadeza indescritível. Povo simples de montanha, capaz de cantar e oferecer o canto para o bem de todos os seres.

Qual é o seu meio de vida?

Matar dragões ou plantar arroz e amassar no pilão?

Além do silêncio e do som, da luz e da forma - o que é?

Mãos em prece

MONJA COEN

15 DE JANEIRO DE 2022
J.J. CAMARGO

EM FRENTE, COM OLHO NO RETROVISOR

Os votos emocionados, os desejos ardentes e até os fogos de colorido exagerado anunciam que seguimos com esperança de que as coisas melhorem, mesmo com tantas evidências apontando que não. O que devia ser uma simples troca de calendário, com o ritual de abraços como estímulo ao clarear do dia seguinte, quase nunca é tão simples.

Alguma força maior nos empurra para a retrospecção e, quando percebemos, estamos revirando gavetas, catando memórias dadas com mortas, recuperando, com remorso, músicas memoráveis que por uma estranha razão esquecemos de incluir no Spotify, ou relendo cartões que, lá atrás, quando os recebemos, alguma coisa muito errada devia estar ocorrendo conosco, se não como explicar que tivéssemos esquecido o que significaram?

Quase sempre essas retrospectivas deixam uma mistura de vazio, saudade e pena, de não termos dado a alguns momentos a solenidade que mereciam.

Hoje, com os olhos da maturidade, vejo com nitidez o que não passaram de vultos na pressa vazia da juventude, quando éramos muita vontade de ir e uma vaga noção de onde queríamos chegar.

Desde que li, pela primeira vez, o quanto a nossa memória tende a sepultar as coisas ruins e a glamorizar as boas, decidi por uma rotina que adoto desde então: no final de cada ano, faço um resumo factual do que realizei e uma projeção, tão realista quanto possível, do que planejo fazer adiante.

Os argumentos para essa prática são a inconfiabilidade da memória e a necessidade de avaliar o quanto tenho sido timidamente modesto ou ridiculamente pretensioso nas minhas estimativas futuras.

Esse inventário anual incluí três colunas: as maiores conquistas (sempre tão poucas), os maiores fracassos (que foram o que tinham que ser) e as metas para o ano seguinte. A leitura desses textos, anos depois, tem sido tão mais surpreendente quanto maior o intervalo entre a redação original e a revisita.

Há que reconhecer essa estratégia como um plágio assumido do que já faziam os gestores modernos que trabalham com metas, na busca obstinada da sustentabilidade das empresas e, claro, da manutenção dos seus preciosos empregos.

A tarefa inicialmente despretensiosa de transferir esse modelo empresarial para a vida pessoal tem, na minha opinião, funcionado com espécie de "conhece-te a ti mesmo", tão valorizado por Sócrates, ou Heráclito ou Platão, ou os três, como "o fundamento de toda a filosofia".

As visitas a esse relicário do tempo trazem descobertas desconcertantes, porque ora nos vemos agradecendo ao fracasso do projeto fantasioso que nos recolocou nos trilhos, ora saudamos a ventura de não termos convencido ninguém da nossa proposta maluca. Nesse inventário, nada se compara à maravilhosa sensação de termos confiado nas pessoas certas.

E, além disso, de vez em quando, bem de vez em quando, em prol da autoestima, é bom admitirmos, sem espalhafatos, que termos prosseguido com aquele projeto considerado delirante, não importa com quanto suor derramado, ajudou, ao menos, a pôr alguma lenha no inferno dos invejosos.

J.J. CAMARGO

15 DE JANEIRO DE 2022
MAGALI MORAES

O porta-remédios

Essa coluna é pra você que tem uma belezinha dessas em casa. E também pra quem ainda não tem. Perceba que usei ainda. É inevitável, aceita. A partir dos 50, ser proprietário de um porta-remédios é tão certo quanto usar óculos pra perto. E tá tudo bem. Lembro de sentir vergonha ao assumir publicamente que precisava deles, depois de muito enrugar a testa na tentativa de ler as letrinhas nem tão miúdas. O pior julgamento quase sempre é o nosso. Tenso mesmo é negar medicamentos de uso constante e comprometer a saúde.

Geralmente tudo começa com a necessidade de organizar os remédios de alguém mais velho do que você. Seus pais ou avós. Excesso de zelo e praticidade pra evitar descuidos no dia a dia. Mas aí a gente se dá conta de que aquilo funciona mesmo. Então vem a lógica: por que não organizar assim nossas próprias vitaminas e suplementos?

Tem idade certa pra ser uma pessoa superorganizada ? Signo eu sei que tem.

A partir do momento em que você adquire seu porta-remédios e joga tudo lá dentro, não volta atrás. A gente esquece tanta coisa ao longo da semana. O déficit de atenção está aí pra nos confundir se já tomamos ou não. Existem várias cores e formatos dessas caixinhas. Mas o público 50+ é exigente, quer novidades. Aproveito pra sugerir aos fabricantes que criem versões mais atraentes com estampas, emojis ou frases edificantes. Cabe, sim. O pessoal escreve até em grão de arroz. Seg ter qua qui sex sab dom dá vontade de bocejar. Estabelecendo qual sequência seguir, a inovação é bem-vinda. Nomes de cantores, flores, cidades, pássaros.

Sabe a turma que prepara as marmitas da semana? Eu e meu marido temos o ritual de preparar nossos porta-remédios no domingo após o café da manhã. É até romântico dividir as últimas cápsulas de cúrcuma longa e colágeno com o amor da sua vida. No caso, colágeno tipo II pra artrose. Dá pra reforçar as juntas e a cumplicidade. Sempre repito: "amor, pelamor, cuida desses joelhos que a gente ainda não conhece a Costa Amalfitana". Aliás, porta-remédios é perfeito em viagens. Ou alguém quer perder espaço na mala com embalagens e bulas?

Glória Maria, a rainha da prevenção, assumiu faz tempo que toma diariamente zilhões de vitaminas. Me pergunto se cabe tudo em um só porta-remédios. A expectativa de vida é outra, desejamos viver muito mais e melhor. Sem automedicação, mas com a ajuda da ciência. Aos 60, ninguém quer parecer encurvado como o velhotinho do pictograma das sinalizações pra idosos. Envelhecer bem é um presente que a gente se dá em vida, lembre disso.

Magali Moraes ocupará esse espaço nas edições de fim de semana em janeiro

INTERINA

15 DE JANEIRO DE 2022
OBITUÁRIO

Brasil perde o poeta Thiago de Mello Paulo Knapp

O psiquiatra gaúcho Werner Paulo Knapp morreu na segunda- feira, aos 66 anos, em Porto Alegre, em decorrência de um câncer. Reconhecido em todo o país, era um expoente e pioneiro da técnica da terapia cognitivo- comportamental no Brasil, difundida aqui graças ao seu trabalho.

Formado em Medicina pela Universidade Católica de Pelotas, realizou seus estudos em psiquiatria na Associação Encarnación Blaya, Clínica Pinel (1981-1983), em Porto Alegre. No início da carreira, interessou-se pelo tema da dependência química, tendo feito uma especialização no Canadá. No Brasil, trabalhou na área e publicou, em 1994, conjuntamente com José Manuel Bertolote, o livro Prevenção de Recaída: um Manual para as Pessoas com Problemas pelo Uso do Álcool e de Drogas.

Entre 1994 e 1995, foi estudar a terapia cognitivo-comportamental (TCC) com o criador da técnica, Aaron Beck, no Instituto que leva seu nome, na Filadélfia. Depois, Knapp foi um dos protagonistas na vinda do Instituto Beck para ministrar o treinamento em TCC em Porto Alegre e em São Paulo, as únicas experiências deste Instituto fora de Filadélfia.

Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Knapp fez seu mestrado e doutorado. Suas pesquisas resultaram em livros- manuais sobre a TCC, entre eles Terapia Cognitvo-Comportamental no Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (2002) e Terapia Cognitivo-Comportamental na Prática Psiquiátrica (2004).

O psiquiatra era casado com Maria Olívia Girardello, a Uli para todos que a conhecem. Desta união, nasceu seu único filho, Pedro. Luiza e Ana Girardello Sirotsky, filhas de um primeiro casamento de Uli, completam o núcleo familiar.

O poeta e tradutor Thiago de Mello morreu na madrugada de sexta-feira, aos 95 anos, em sua casa, em Manaus, de causas naturais.

Reconhecido como um dos grandes autores da literatura regional, ele alcançou fama internacional graças a poemas como o clássico Os Estatutos do Homem, escrito em abril de 1964, quando Thiago de Mello era adido cultural da embaixada do Brasil no Chile e amigo de Pablo Neruda.

Nascido no interior do Amazonas, na cidade de Barreirinhas, Mello era conhecido como Poeta da Floresta e teve suas obras traduzidas para mais de 30 idiomas.

O interesse pela natureza sempre norteou a carreira dele, que largou a faculdade de Medicina para seguir a literatura e lançar, aos 25 anos, seu primeiro livro de poemas, Silêncio e Palavras. Publicou diversas obras até ser exilado em 1964, quando esteve na Argentina, em Portugal, na França, na Alemanha e no Chile. Retornou ao Brasil em 1978, quando seu nome já era conhecido internacionalmente.

A potência de seus versos, especialmente os que pregavam contra a violência e a opressão, conquistou muitos adeptos, a partir da década de 1970, no meio estudantil e entre grupos de opositores ao regime militar. Entre os mais admirados, está Os Estatutos do Homem, que se inicia com os seguintes versos em seu artigo I: "Fica decretado que agora vale a verdade / Que agora vale a vida / e que de mãos dadas / trabalharemos todos/ pela vida verdadeira".

Premiações

Em 1997 e em 2000, foi reconhecido com o Prêmio Jabuti pelas obras De Uma Vez por Todas e Campos dos Milagres. Em 2018, recebeu do Jabuti o troféu Personalidade Literária, em reconhecimento ao conjunto de sua obra.

No ano passado, foi homenageado pela 34a Bienal de São Paulo. O verso "Faz escuro mas eu canto, porque a manhã vai chegar", retirado do poema Madrugada Camponesa, foi o tema da edição.


15 DE JANEIRO DE 2022
A ROTA DA ESTIAGEM

Em Passa Sete, o inventário das pequenas propriedades

A batata morreu, a alface queimou, a abóbora nem nasceu. O tomate murchou, a beterraba secou e o milho está se entregando. Palmilhar os três hectares da família de Márcia Fátima dos Santos, em Engenho Velho, no interior de Passa Sete, é como redigir um inventário da estiagem que assola as pequenas propriedades rurais do Rio Grande do Sul: do que sobrou, pouco se salva.

Durante os últimos 12 anos, sob chuva forte ou sol inclemente, Márcia teve água graças a uma cacimba situada nos fundos do terreno. Em novembro, a fonte secou, deixando ela, o marido, as duas filhas e mais sete membros da família sem água nem para beber. Desde então, todos os dias ela sai de casa pela manhã e olha para cima, suspirando por nuvens carregadas.

Ajuda

Mas não há reza ou promessa que faça chover em abundância no município de 5 mil habitantes da região central do Estado. Como consolo, dia sim, dia não surge no alto da coxilha um tanque alaranjado carregando 5 mil litros de água.

Mal avista o caminhão da prefeitura, Márcia sobe a escada de madeira até o alto da caixa d?água e abastece o reservatório de 250 litros que serão usados no preparo da comida e para matar a sede. Baldes e bombonas espalhadas ao redor da casa servem de depósito para a água destinada aos animais e na lida doméstica.

- Essa água dura um dia meio, no máximo dois. Mas nada é pior do que ficar sem água. Não dá para limpar a casa, fazer comida. A gente deixa de fazer muita coisa - lamenta Márcia, ao lado das filhas Marcela, 10 anos, e Maíra, de três.

Dependência

Com 5,7 mil habitantes e 1.015 propriedades rurais, Passa Sete tem 95% da população vivendo no campo. Na última semana, a cada dia 10 novas famílias ficavam sem água.

Depois de ver um poço artesiano secar, a prefeitura precisou a recorrer a um mais antigo, desativado há 20 anos. Todos os dias, o caminhão-tanque percorre 220 quilômetros, entregando em média 40 mil litros por dia.

- Dizem que em 2005 foi a pior seca do Estado, mas naquele ano não foi preciso puxar água para ninguém. Agora, o número de gente sem água só aumenta - diz o secretário municipal de Obras, Elói Kipper.


15 DE JANEIRO DE 2022
A ROTA DA ESTIAGEM

"Está tudo morrendo"

A estiagem retirou Camila Faustino da Silva da rotina no campo. Nascida e criada em Barra do Braga, localidade a 18 quilômetros de Frederico Westphalen, Camila passou a vida inteira lidando no tambo e nas lavouras da família. Agora, aos 32 anos, pela primeira vez vai trabalhar fora, na tentativa de amenizar a queda na renda.

- Vou ser agente de saúde. Já comecei o treinamento e logo estarei atuando. Não tem outro jeito. É desesperador, está muito caro para plantar, a gente não sabe se vai colher nem se vai ter dinheiro para pagar as contas - lamenta Camila, sob um calor de 37oC às 10h.

No inverno, as 52 vacas da agricultora produziam, em média, 9 mil litros de leite por mês. No verão mais perverso dos últimos três anos, a média caiu para 4 mil litros mensais. Com as pastagens queimadas pelo sol, o gado come menos, perde peso e reduz os índices de prenhez, numa espiral de prejuízos.

No início de janeiro, o marido de Camila, Jaime Vedovato, aproveitou dois dias seguidos de chuva, uma raridade na região, e plantou milho em 2,5 hectares. Os 50 milímetros que caíram do céu fizeram as plantas germinarem, mas foram insuficientes para o resto.

- Está tudo morrendo - diz Vedovato.

A água que falta no pasto é escassa também na casa. Camila e cinco vizinhos são abastecidos por uma caixa d?água de 10 mil litros. A reposição é feita toda quarta-feira pela prefeitura, mas desde o final do ano passado a água dura só quatro dias.

- Busco água na minha mãe aqui perto - conta Camila.

Emendando uma estiagem na outra há três anos, Frederico Westphalen convive com ameaça de racionamento. A rede de água da cidade e dos municípios vizinhos de Vicente Dutra e Caiçara era mantida pelo Rio Pardo, mas não há mais vazão suficiente. Desde o ano passado a Corsan puxa água do Rio Fortaleza, em Seberi. E 300 famílias de 16 localidades precisam de assistência semanal de caminhões-pipa. São 110 cargas por mês, com total de um milhão de litros. Além disso, três escavadeiras percorrem o interior cavando açudes.

- Meu telefone não para de tanto pedido que recebo - diz o secretário municipal de Agricultura, Gildo Busatto. 

sábado, 8 de janeiro de 2022


08 DE JANEIRO DE 2022
FÍNDI DO CLUBE DO ASSINANTE

A Sbørnia em novo endereço

O Teatro do Bourbon Country (Av. Túlio de Rose, 80) recebe excepcionalmente na próxima semana, de quinta a sábado, três sessões de A Sbørnia Kontr?Atracka, a sequência do consagrado espetáculo Tangos & Tragédias.

Trata-se apenas de um "asilo diplomático", esclarecem os sbørnianos, enquanto o Theatro São Pedro segue de portas fechadas para reformas. As apresentações serão às 21h, todas com transmissão ao vivo pela plataforma Cuboplay.

Criado em 1984, o espetáculo Tangos & Tragédias veio a se tornar um dos mais celebrados do Estado, mas precisou ser reconstruído após a morte de Nico Nicolaiewsky, a metade de um show de dois, em 2014. Assim, Kraunus (Hique Gomez) encontrou uma nova parceira em Nabiha (Simone Rasslan), uma grande pianista sbørniana formada pela Libertok Universitik de Musik da Sbørnia, mesma universidade do Maestro Pletskaya (Nicolaiewsky). Haverá ainda a participação do Professor Kanflutz (Cláudio Levitan) e outros.

Sócios do Clube têm direito a 50% de desconto nos ingressos, à venda pelo uhuu.com, mediante pagamento de taxas, e sem taxas no totem ao lado da bilheteria do teatro, disponível de segunda a sábado, das 13h às 21h, e domingos e feriados, das 14h às 20h.

Para acesso ao evento, é obrigatória a apresentação do comprovante de vacinação contra a covid-19 com, no mínimo, a primeira dose. O comprovante pode ser físico ou digital.


08 DE JANEIRO DE 2022
MARTHA MEDEIROS

Liberdade e amor

Começou a estudar psicanálise e parou. Foi então para a Suécia. Trabalhou em Uppsala, depois em Varsóvia e por fim em Hamburgo, como diretor do Instituto Francês. Após um tempo como professor de psicologia e filosofia na França, passou três anos lecionando na Tunísia. Em 1968, participou de uma universidade experimental em Vincennes e se engajou em muitas ações políticas. De 1970 até sua morte, em 1984, foi professor de História dos Sistemas de Pensamento em Paris, passou um pequeno período em Berkeley e também no Japão, onde se dedicou ao zen-budismo.

Esse é um pedacinho do currículo do filósofo Michel Foucault. A exemplo dele, eu adoraria trabalhar numa faculdade de um país, depois no jornal de outro país, ser professora numa universidade europeia, me engajar em movimentos na África, fazer um doutorado nos Estados Unidos e um retiro espiritual num ashram. Mas teria que carregar a família junto.

Cada vez que leio sobre pessoas que viveram inúmeras experiências mundo afora, fico imaginando quantas outras não gostariam de fazer o mesmo, mas quem vai levar o filho no colégio, quem vai dar atenção à mãe doente? Não dá para simplesmente chutar o balde e virar as costas. Por isso é tão importante a gente se perguntar, ainda no início da vida adulta, o quanto estamos dispostos a negociar nossa liberdade.

Desde cedo, percebi minha inclinação para viver solta, mas não quis abrir mão de ser mãe. Acreditava que a intensidade deste envolvimento amoroso seria a maior das aventuras, meu profundo mergulho emocional. Então respirei fundo e embarquei na maternidade, acreditando que mais adiante, com filhos adultos, voltaria à liberdade possível, sem me dar conta de que esse momento coincidiria com o envelhecimento dos meus pais. E agora?

Agora, gracias a la vida. Familiares e amigos íntimos são espelhos que reforçam nossa identidade. Raízes prendem, mas também fortalecem. Posso viajar, trabalhar, amar, posso o que eu quiser, ainda que não usufrua 100% do meu livre-arbítrio. Para mim, que nasci com longas asas, não é muito fácil, mas foram escolhas bem pensadas. Como dizia Foucault, precisamos resolver nossos monstros secretos, nossas feridas clandestinas, nossa insanidade oculta, e o desejo de ser livre faz parte disso, mas liberdade não é apenas ir e vir. 

Optei pelos vínculos afetivos como conforto contra a passagem do tempo e para povoar minha existência de sentimentos mais generosos do que apenas o egóico amor por si mesmo. Já que não dá para ser uma globe-trotter o tempo todo, viajo através da minha força criativa e do meu pensamento, que foi desobstruído pela leitura e atravessa qualquer fronteira. Temos um ano inteirinho pela frente. Não importa em que condições, que sejamos todos livres, cada um traçando seu próprio plano de voo.

MARTHA MEDEIROS

08 DE JANEIRO DE 2022
CLAUDIA TAJES

A filha perdida e os filhos encontrados

Então é isso, 2022. Agora o trem só para daqui a 365 dias. Bota viagem longa nisso. Tudo indica que vai ser outro ano daqueles, mas em 2022, ó, glória, teremos eleições. Cuidado para não repetir os erros - e aqui cada um entenda do jeito que quiser.

O ano começou com as mães de duas amigas queridas no hospital. Assim, de repente, o que era para ser comemoração virou antessala de UTI. A vida, esse sopro, como se diz sem originalidade alguma. Na torcida por elas e por todas as pessoas que estão na luta para continuar a aventura.

Pensando nas mães das minhas amigas, parei para ver mais um dos filmes da Netflix que tomou as telas e as redes nesses dias, A Filha Perdida, estreia na direção e no roteiro da atriz Maggie Gyllenhaal. E que estreia, logo adaptando um livro da Elena Ferrante, um dos (muitos) melhores.

A chata de plantão informa: gostei mais do livro, como é de praxe. Ainda assim, o filme vale as duas horas em que faz as mães pensarem no que aconteceria se apenas fechassem a porta, deixando para trás as dores e as delícias da maternidade.

Leda, aos quase 50 anos e com duas filhas adultas, é uma professora brilhante que vai passar uns dias sozinha em uma praia grega, e que topa logo de cara com uma grande e não exatamente amistosa família. O que era para ser a tranquilidade das férias, claro, acaba virando o confronto não só de Leda com a família, mas com ela mesma.

Uma grávida agressiva e uma jovem mãe exausta com sua filha carente de atenção são o presente que se alterna com as lembranças da maternidade da protagonista. Mais não digo porque, como um amigo vivia me repetindo, eu tenho spoiler até no olhar. Falando nisso, e a mulher aquela que atacou duas crianças com spray de pimenta no Rio porque elas narravam as cenas de Homem-Aranha na fila de trás?

Nem sempre os loucos estão na tela do cinema. Aliás, na tela do cinema estão só os inofensivos.

Passando da filha perdida para os filhos encontrados, duas notícias desse início de 2022 que se misturaram com as mães das minhas amigas no hospital e com o filme dessa mãe que não corresponde ao imaginário. Uma menina brasileira traficada para o Exterior aos quatro anos foi adotada por um casal francês alcoólatra e violento. Mesmo crescendo em um abrigo, ela conseguiu juntar os fios do passado. Agora com o nome do registro original, Isabella dos Santos, está no Brasil para reencontrar sua história.

Enquanto isso, na China, um homem que foi traficado também aos quatro anos reencontrou a mãe biológica depois de desenhar, de memória, um mapa da vila em que vivia na infância até ser sequestrado. O vídeo dos dois se reencontrando, mais de três décadas depois, é daqueles de deixar o vivente sufocado de chorar. O nome dele é Li Jingwei, é só botar no YouTube.

Agora é desejar que 2022 nos traga muitas histórias e que nos leve não a um final feliz, mas a mais uma continuação das muitas que queremos.

Segue o baile.

CLAUDIA TAJES

08 DE JANEIRO DE 2022
LEANDRO KARNAL

O ano de 2022 marca o bicentenário do chamado Grito do Ipiranga. A memória foi construída para dar forma grandiosa a um acontecimento um pouco diferente daquilo que Pedro Américo retratou no quadro de 1888. Por algum tempo, a data da nossa Independência foi o 12 de outubro, quando o príncipe português D. Pedro foi aclamado Imperador. No instante em que você pesquisa jornais da época, não encontra referências às margens plácidas do riacho anabolizado do Hino Nacional. Porém, a aclamação de outubro, data do aniversário do novo governante, era percebida como a festa da emancipação.

Avancemos um século. Em fevereiro de 1922, um novo grito de ruptura. O Teatro Municipal de São Paulo via, em três noites, o impacto da Semana de Arte Moderna. Como todo evento histórico, a avaliação depende do que ocorreu naquele momento em diálogo com construções posteriores. Houve enorme esforço de intelectuais paulistas para concentrar na Semana de 22 a grande ruptura estética da República Velha. História é sempre um diálogo do passado com o presente.

Assim, o ano em curso traz outros dois 22 nas recordações: Independência do Brasil e Semana de Arte Moderna. Três vezes 22 é algo forte e simbólico. Percebendo o fato, a USP e a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin prepararam o portal 3 x 22. Lá, há publicações voltadas para escolas e para o público em geral. Por exemplo: quais os 200 livros que elaboram um amplo retrato do Brasil? É uma excelente iniciativa coordenada por Alexandre Macchione Saes e Janice Theodoro e pode ser acessada em 3x22.bbm.usp.br. Os profissionais das escolas podem baixar material sobre as representações da Independência, sobre mulheres no processo de emancipação nacional, a vida na periferia de São Paulo ou sobre os indígenas do território brasileiro.

Há uma pergunta provocativa na origem do projeto: "Nenhum Brasil existe. Acaso existirão os brasileiros?". Por absurda que pareça, fala-se da dificuldade em delimitar o que seria a sociedade brasileira e, por consequência, tipologias dos seus habitantes. Em artigo no Jornal da USP (8/11/2021), Janice Theodoro afirma sobre o papel da universidade no itinerário do debate: "Qual o desafio das universidades na atualidade?". Utilizar o conhecimento nela produzido para enfrentar os desafios contemporâneos. Utilizar seus computadores, criar condições para que seus pesquisadores, literatos, historiadores, cientistas sociais, comunicadores, artistas (entre outros) disponham de condições para formar redes capazes de compreender os algoritmos que podem levar a comportamentos que marcam nosso mundo.

Comemorações são, como indica a base latina da palavra, lembranças em conjunto. Comemorar indica trazer, coletivamente, ao plano da consciência algo ocorrido. Memórias são mutáveis, claro. O centenário da Independência exposto no Rio de Janeiro, em 1922, foi uma celebração de um tipo de Brasil afrancesado e eurocêntrico. Certamente, o bicentenário terá vozes mais variadas. Nós mudamos muito em cem anos.

Um ponto em comum aos dois momentos: o mundo acabava de passar por pandemias, e o medo ecoava na festa. A gripe espanhola estava um pouco afastada em 1922 e o malfadado coronavírus ainda ronda o ano novo que vivemos há pouco.

Como todo aniversário, 2022 traz avaliações. O que houve com o país nos últimos 200 anos? Onde está a cultura e para onde foram as vanguardas do século passado? Todo Parabéns a Você relembra, comemora, celebra, exorciza e renova o limiar do futuro como possibilidade. Lembro-me do sesquicentenário da Independência 1972 e os discursos nacionalistas e triunfais do governo Médici. 

Recordo-me de Tarcísio Meira a cavalo a partir do modelo canônico no filme Independência ou Morte. Como cantávamos no colégio São José, de São Leopoldo: "Sesquicentenário da Independência/ Potência de amor e paz/ Esse Brasil faz coisas/ Que ninguém imagina que faz/ É Dom Pedro I/ É Dom Pedro do Grito/ Esse grito de glória/ Que a cor da história à vitória nos traz/ Na mistura das raças/ Na esperança que uniu/ O imenso continente nossa gente, Brasil/ Sesquicentenário/ E vamos mais e mais/ Na festa, do amor e da paz".

Eu tinha nove anos e achava que tudo era paz e integração, um milagre harmonioso de 1972. Resta a pergunta: que imaginário passaremos para alunos neste ano? Que elementos identificaremos para orgulho ou debate? Bem, sei que eu não estarei aqui na festa dos 250 anos da Independência. Torço pelo Brasil. Tenho esperança na comemoração futura...

LEANDRO KARNAL