sábado, 29 de janeiro de 2022


29 DE JANEIRO DE 2022
COM A PALAVRA

COM A PALAVRA

NADINE CLAUSELL- médica,

63 anos Cardiologista, professora da UFRGS, é a atual diretora-presidente do Hospital de Clínicas, o maior de Porto Alegre

Líder há cinco anos de um hospital que mais parece uma cidade, com quase 7 mil colaboradores e cerca de 18 mil pessoas circulando em suas dependências diariamente, a cardiologista Nadine Clausell não para. A médica concilia a rotina de diretora-presidente do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) com as aulas que leciona para os estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e suas próprias pesquisas, na área de insuficiência cardíaca. Mesmo diante de uma rotina exaustiva, somada a cortes orçamentários na área de pesquisa, diz que não se arrepende de ter voltado do Canadá para trilhar sua carreira no Brasil - e segue acreditando em um futuro mais pujante para a ciência brasileira. Nesta entrevista, detalha as dificuldades de fazer pesquisa hoje, quadro agravado com a pandemia, e comenta sobre o desgaste causado pelo negacionismo.

COMO TÊM SIDO OS ÚLTIMOS DOIS ANOS? A ROTINA ADMINISTRATIVA DO HOSPITAL MUDOU MUITO?

Esses dois anos foram realmente uma surpresa, num certo sentido, porque ninguém havia passado por algo assim. Tivemos que aprender a lidar com a pandemia e os números de pacientes crescentes no Clínicas, que se tornou um hospital de referência aqui no Sul, ao mesmo tempo em que fazíamos uma grande reorganização, para que o hospital redirecionasse sua energia para atender essa demanda nova. Tivemos um desafio adicional no início da pandemia, que foi o de montar mais de cem novos leitos de CTI na nova área do hospital em questão de 40 dias, entre março e abril de 2020. Fazer com que tudo continuasse a contento e nos prepararmos para aquilo que até o momento era incerto e não sabido, em termos de intensidade, tempo e complexidade. Foi um aprendizado muito grande para as equipes e, o lado positivo, fez com que houvesse um sentimento de união enorme, de solidariedade, com grupos se organizando para ajudar os colegas. Um crescimento institucional, que veio junto com o estresse, o sofrimento, o medo e as perdas por que nós todos passamos.

LIDAR COM A SAÚDE MENTAL DAS EQUIPES NESSE CONTEXTO É DESAFIADOR?

Muito. No início, havia muito receio do desconhecido. Rapidamente, com a nossa área de psicologia e de gerenciamento de risco, montaram-se grupos que foram visitando as áreas onde havia os primeiros funcionários e pacientes internados, para lidar com aquela situação de insegurança. Isso desenvolveu um senso de pertencer a uma instituição que se mobilizou muito para cuidar de quem estava cuidando dos pacientes, o que acho que é um ganho, um legado. Essas pessoas foram reconhecidas em diversas instâncias pelos seus próprios colegas.

PESSOALMENTE, COMO TEM SIDO A SUA ROTINA NO PERÍODO?

Eu enxergo minha função de diretora-presidente do hospital como uma missão, um dever, e estou junto com todos o tempo inteiro, desde o início da pandemia, participando, cuidando das coisas da gestão, trabalhando com os pacientes, com os residentes. Os alunos foram afastados por algum tempo, mas, mais recentemente, voltaram, e eu reassumi as atividades de graduação. Para mim, o cansaço fica abstraído dentro daquilo que considero mesmo uma missão dentro da minha trajetória. Isso fica em segundo plano. Meu objetivo é dar o máximo pelo hospital, ajudar meus colegas e fazer com que todos se sintam amparados, com energia para superar tudo isso. É nisso que eu venho pensando nestes últimos quase dois anos. Não quero olhar para trás e me arrepender de não ter feito alguma coisa, então eu prefiro seguir com o pé no acelerador o tempo inteiro, e é isso que me move.

DE QUE FORMA TEM SIDO POSSÍVEL MANTER O ÂNIMO DAS MILHARES DE PESSOAS QUE TRABALHAM NO CLÍNICAS, DIANTE DE UMA PANDEMIA QUE NÃO TEM DATA PARA TERMINAR?

Existe inegavelmente um burnout muito grande entre os profissionais de saúde, não só no Hospital de Clínicas. Houve esforços muito grandes no ano passado de tentar de alguma maneira reorganizar as equipes para que alguns pudessem tirar férias. Fizemos organizações internas e rodízios para as pessoas se exporem um pouco menos. Nos esforçamos para estarmos muito disponíveis para a escuta. Na direção, dizemos que estamos em uma guerra: às vezes, tem pessoas que ficam feridas e a gente tem que trazer outras pessoas, que estão um pouco mais em segundo plano, para a frente. Acho que a ideia de que tentamos acolher o cansaço de todos é uma maneira de dar um pouco de energia, dizer "descansa um pouquinho, vamos respirar fundo". O "descansa um pouquinho" pode ser um ou dois dias e tem que voltar de novo, mas o fato de estar atento para isso talvez seja uma maneira de mostrar solidariedade, e aí as pessoas relevam e vão adiante.

COMO VOCÊS TÊM LIDADO COM O NEGACIONISMO? AFETA MUITO O TRABALHO DENTRO DO HOSPITAL?

Ficamos tristes e preocupados, porque o negacionismo, do ponto de vista da vacina, ultrapassa o nível individual de decisão de vacinar-se ou não, e nós, profissionais da saúde, lidamos com isso o dia inteiro. Causa um certo desânimo ver que há pessoas que não conseguem enxergar o seu papel na sociedade. A vacina é uma questão de solidariedade, de entender que a minha decisão pode afetar o outro e, ao afetar o outro, eu posso sobrecarregar um sistema de saúde que vem muito assoberbado. Mas acho que não adianta o embate. Os dados estão aí, da ciência, da técnica. Aqui no Brasil, a tradição da vacina é muito forte, ainda bem. Mas o movimento antivax existe no mundo inteiro. O curioso é que talvez ele exista na medida em que as outras vacinas se tornaram tão parte do dia a dia de todos, desde criança, se vacinando para tudo, que muitas doenças foram praticamente erradicadas, então há gerações que nunca viveram o sarampo, os surtos de rubéola, a varíola. Aí as taxas de vacinação podem cair, e isso já está demonstrado em outras partes do mundo, essas doenças voltam e aí volta a taxa de vacinação a subir. Só que é uma discussão em que eu evito entrar, porque não é produtivo. A gente tem que seguir trabalhando sério e mostrando a importância da vacinação. Eu preciso botar o meu tempo para fazer as coisas funcionarem para o bem. Entrar em discussões ideológicas a respeito de vacina, de medicação, acho que não é produtivo. Os dados estão aí, eu e todos os meus colegas da área científica sempre repetimos os mesmos dados e a imprensa tem sido muito parceira em reproduzir aquilo que está bem embasado na ciência, e acho que é isso que vai nos fazer vencer essa pandemia.

COM TODO ESSE AUMENTO NO DEBATE PÚBLICO SOBRE CIÊNCIA, HÁ UM INTERESSE MAIOR DAS PESSOAS EM FAZER PESQUISA?

Não sei se há uma mudança nesse nível. Na área da saúde, das universidades e dos hospitais não há muita dúvida sobre onde reside a melhor evidência e o que tem que ser feito em termos de saúde pública durante uma pandemia. Isso é feito com tranquilidade clínica, e aqui somos mais um hospital seguindo essa cartilha, então quem está se formando na área da Medicina ou na área da Enfermagem já tem essa noção de para que lado é o norte da verdade científica. Isso não mudou agora. Não aumentou a procura por residência, por exemplo, em um hospital como o Clínicas. Os alunos viveram muito tudo isso que está acontecendo e eles são os primeiros defensores de vacina, das evidências, do distanciamento, da máscara, porque viveram na pele o afastamento imposto a eles durante esse período. Não mudou para eles o interesse em buscar uma carreira pautada pela evidência científica. Essa é a trincheira certa de lutar nessa guerra e eles estão do lado certo, pelo simples fato de que estão em uma escola de Medicina, de Enfermagem, de Farmácia, da área técnica, bem formados em boas universidades.

A SENHORA FOI UM EXEMPLO DE PESSOA QUE SAIU DO BRASIL PARA BUSCAR UMA FORMAÇÃO E RETORNOU. POR QUE A SENHORA VOLTOU?

Essa é uma dúvida que eu não me permito mais ter, do porquê de eu ter voltado. Fiquei cinco anos fora, no Canadá, fiz minha formação de pesquisa em insuficiência cardíaca, transplante, meu PhD, tudo em Toronto. Minha volta se baseou em achar que eu tinha muito mais a contribuir aqui, em tentar trazer o que aprendi lá fora e ajudar a melhorar o meu meio, como forma de retribuição, porque eu fui com uma bolsa da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, entidade vinculada ao Ministério da Educação), em um primeiro momento, para fazer meu doutorado. Sempre achei que deveria voltar para implementar coisas novas e melhores aqui. Se eu olhar para trás, não me arrependo. Claro que é um caminho muito difícil. Talvez eu tenha implantado muito pouco do que aprendi lá fora até hoje, e já faz mais de 20 anos que voltei. Mas alguma coisinha eu acho que ajudei.

COMO EVITAR A FAMOSA FUGA DE CÉREBROS DO BRASIL?

É uma missão difícil. É difícil convencer um jovem da área científica de que vale a pena apostar no Brasil em um momento de redução muito grande de financiamento de pesquisa, de bolsas de estudo, de fomentos para a inovação, de aquisição de novos equipamentos e de bolsas de doutorado e de mestrado, que é o que alimenta a ciência e é o que esses cérebros precisam desenvolver. O Brasil está passando por um período de perspectivas muito sombrias na área científica, e eu entendo que as pessoas queiram buscar em outros lugares do mundo a chance de se desenvolverem melhor, serem mais realizados profissional e socialmente. Eu gostaria de que ficassem para nos ajudar, porque, assim como eu, outros voltaram e continuam aqui tentando fazer mudanças. Tem gente que continua, mas tem gente que está terminando sua faculdade e não quer dar esse tempo de esperar. Porque as coisas são cíclicas e podem melhorar. Temos que olhar para frente, esperar passar um pouco essa pandemia e ter um pouco de esperança. Eu entendo que as pessoas sejam céticas com relação a isso, porque a realidade tem sido muito dura.

O MOMENTO É DE CORTES FINANCEIROS NA ÁREA CIENTÍFICA, MAS, AO LONGO DO TEMPO, O BRASIL FOI SE TORNANDO UM PAÍS RECONHECIDO CIENTIFICAMENTE. ESTÁ MELHOR OU PIOR DE FAZER PESQUISA HOJE NO BRASIL, SE COMPARADO COM QUANDO A SENHORA INICIOU?

Agora está pior. Houve cortes importantes na Capes, no CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Não se consegue avançar na ciência sem investimento em educação. Este período é muito difícil. Hoje, comparado com 20 anos atrás, está muito pior para avançar em projetos novos, buscar publicações internacionais. O Brasil tem um papel fundamental na América do Sul nas pesquisas na área de saúde e já teve um destaque maior. Hoje, o que tem são esforços individuais de grupos de excelência que não desistem do país e inclusive buscam fomento internacional e parcerias público-privadas para seguir com as pesquisas. A gente tem que ter energia para seguir apostando, para que os jovens enxerguem uma perspectiva. Sem isso, eles aplicam para uma bolsa no Exterior. Eu fiz isso também, mas decidi rapidamente que meu papel era voltar e, digo de novo, não me arrependo. Acho que muita gente pensa como eu, porque a maioria fica, aposta, segue investindo. São fases cíclicas. Espero enxergar um momento no Brasil de novamente ter uma ciência mais pujante. Temos que mostrar a importância disso, não só para a pesquisa, mas para o país como um todo.

COM OS CORTES, HOUVE REDUÇÃO DE PESQUISAS DESENVOLVIDAS NO CLÍNICAS OU A DIMINUIÇÃO FOI COMPENSADA COM ESTUDOS SOBRE A PANDEMIA?

Houve redução, sim, de número de projetos novos com fomentos públicos, especialmente. Houve redução de número de bolsistas, o pessoal um pouco cético de embarcar num mestrado ou doutorado, com receio de as coisas não andarem a contento. É um período de ceticismo em relação a isso. Temos no Clínicas uma área de pesquisa muito forte. Enquanto os projetos de covid-19 cresceram, e acho que isso é importante e foi uma oportunidade de desenvolver uma área significativa, como a de vacinas, outras áreas foram ficando mais acanhadas. O balanço geral é de uma redução nas atividades de pesquisa. Mas acredito que isso é transitório. Continuo mantendo um certo otimismo, de que vamos encontrar saídas e voltar a ter um papel mais importante na área da ciência.

A SENHORA FOI RECONDUZIDA AO CARGO DE DIRETORA-PRESIDENTE DO CLÍNICAS EM JULHO DE 2020. NESSE TEMPO, DEIXOU ALGUM PROJETO PARADO POR CONTA DA SOBRECARGA LIGADA À PANDEMIA?

Alguns alunos de mestrado e doutorado tiveram dificuldade de continuar algumas coletas de dados e atrasos, porque todo mundo ficou assoberbado, o que não tem necessariamente a ver com o fomento. Acho que direcionamos muito a atenção para a pandemia, o que também fez com que houvesse certo sofrimento e retração nas defesas de mestrado e doutorado. Comigo não foi diferente. Eu também me direcionei bastante para isso. Eu estava recém assumindo a direção no início da pandemia e isso impactou. Minha energia ficou muito voltada para o aspecto covid-19. Eu esperava poder retomar isso agora, desde o final do ano. Mas ainda não conseguimos nos organizar suficientemente para retomar o que ficou para trás, do ponto de vista de projetos e artigos para escrever. É uma certa frustração que fica, mas eu quero crer que a gente vai acabar retomando em algum momento. Espero que a gente consiga, neste ano ainda, dar uma respirada e fazer outras coisas que não covid-19.

QUE TIPOS DE PROJETOS?

Eu trabalho especificamente na área de insuficiência cardíaca e transplante de coração. A pandemia impactou nos nossos projetos de coleta de dados, levantamento de perfil de risco dos pacientes com insuficiência cardíaca, o que poderíamos ter de queixas de pacientes que tinham complicações, pré-transplante com hipertensão pulmonar, então tínhamos todo um projeto de avaliar esses pacientes, fazer intervenções com alguns tipos de cateterismo. Isso tudo foi muito impactado. São exames que demoram para ser feitos, a gente precisou desativar algumas áreas do hospital. Assim como ocorreu comigo, com outros também precisaram abrir espaço para aquilo que a covid-19 nos demandou. Nossa área de projetos de pesquisa, do meu grupo, especificamente, ficou impactada. Já a nossa área de atuação especificamente em transplante se reduziu muito, se tornou praticamente a metade do que vínhamos fazendo antes. Isso desmotiva o grupo. Foi bastante frustrante tudo o que a covid-19 impactou nas nossas atividades que eram o nosso dia a dia no hospital.

COMO SE CONCILIA A FUNÇÃO HOSPITALAR DE ATENDER PACIENTES COM COVID-19 E A FUNÇÃO DE HOSPITAL-ESCOLA QUE O CLÍNICAS ACUMULA?

Especialmente na Medicina, que tem alunos no hospital desde o quarto semestre, os estudantes foram bastante impactados. Passamos mais de um ano com os alunos afastados do hospital, com aulas online e trabalhando com modelos de simulação. Essa é uma perda importante na formação, que eles não vão recuperar nunca mais. Infelizmente, vai ficar uma lacuna na formação de uma geração, pelo menos na área médica. A residência médica também foi bastante impactada, porque reduzimos muito as atividades ambulatoriais e as cirurgias. Teve residente que passou quase dois anos de uma residência que tem no total dois anos envolvido com covid-19 e teve um contato com sua área de interesse primária muito restrito. Na área cirúrgica, nem se fala. O residente da cirurgia precisa operar, e o nosso bloco cirúrgico foi seriamente impactado. Isso também não se retoma. Por outro lado, trabalhou-se bem mais com modelos de simulação, que é algo bastante contemporâneo e muito utilizado em várias outras universidades mundo afora, e com a área de teleatendimento.

O QUE FICA DE REFLEXÃO PARA O FUTURO, PENSANDO NO QUE HOUVE NOS DOIS ÚLTIMOS ANOS?

À parte todo o cansaço que estamos sentindo, não podemos perder de vista que estamos no meio de uma batalha, que ainda é preciso trabalhar muito, mas quero acreditar que vamos sair com aprendizados de tudo isso. Que vamos nos recuperar e voltar a ter um investimento forte em educação, saúde, ciência e o Brasil vai voltar a ser um país que vai poder encantar com essas coisas e fazer as pessoas quererem ficar aqui para seguirem ajudando no desenvolvimento. Essa fase vai passar, a pandemia vai passar. Nós temos que seguir firmes nas nossas convicções e seguir trabalhando seriamente.

ISABELLA SANDER


29 DE JANEIRO DE 2022
DRAUZIO VARELLA

A ARTE DE ENVELHECER

Achei que estava bem na foto. Magro, olhar vivo, rindo com os amigos na praia. Quase não havia cabelos brancos entre os poucos que sobreviviam. Comparada ao homem de hoje, era a fotografia de um jovem.

Tinha 50 anos naquela época, entretanto, idade em que me considerava bem distante da juventude. Se me for dado o privilégio de chegar aos 90 em pleno domínio da razão, é possível que uma imagem de agora me cause impressão semelhante.

O envelhecimento é sombra que nos acompanha desde a concepção: o feto de seis meses é muito mais velho do que o embrião de cinco dias.

Lidar com a inexorabilidade desse processo exige uma habilidade na qual somos inigualáveis: a adaptação. Não há animal capaz de criar soluções diante da adversidade como nós, de sobreviver em nichos ecológicos que vão do calor tropical às geleiras do Ártico.

Da mesma forma que ensaiamos os primeiros passos por imitação, temos que aprender a ser adolescentes, adultos e a ficar cada vez mais velhos.

A adolescência é um fenômeno moderno. Nossos ancestrais passavam da infância à vida adulta sem estágios intermediários. Nas comunidades agrárias, o menino de sete anos trabalhava na roça e as meninas cuidavam dos afazeres domésticos antes de chegar a essa idade.

A figura do adolescente que mora com os pais até os 30 anos, sem abrir mão do direito de reclamar da comida à mesa e da camisa mal passada, surgiu nas sociedades industrializadas depois da Segunda Guerra Mundial. Bem mais cedo, nossos avós tinham filhos para criar.

A exaltação da juventude como o período áureo da existência humana é um mito das sociedades ocidentais. Confinar aos jovens a publicidade dos bens de consumo e louvar a estética, os costumes e os padrões de comportamento característicos dessa faixa etária têm o efeito perverso de insinuar que o declínio começa assim que essa fase se aproxima do fim.

A ideia de envelhecer aflige mulheres e homens modernos, muito mais do que afligia nossos antepassados. Sócrates tomou cicuta aos 70 anos, Cícero foi assassinado aos 63, Matusalém, sabe-se lá quantos anos teve, mas seus contemporâneos gregos, romanos ou judeus viviam em média 30 anos. No início do século 20, a expectativa de vida ao nascer nos países da Europa mais desenvolvida não passava dos 40 anos.

A mortalidade infantil era altíssima, epidemias de peste negra, varíola, malária, febre amarela, gripe e tuberculose dizimavam populações inteiras. Nossos ancestrais viveram num mundo devastado por guerras, enfermidades infecciosas, escravidão, dores sem analgesia e a onipresença da mais temível das criaturas. Que sentido haveria em pensar na velhice, quando a probabilidade de morrer jovem era tão alta? Seria como hoje preocupar-nos com a vida aos cem anos de idade, que pouquíssimos conhecerão.

Os que estão vivos agora têm boa chance de passar dos 80. Se assim for, é preciso sabedoria para aceitar que nossos atributos se modificam com o passar dos anos. Que nenhuma cirurgia devolverá, aos 60, o rosto que tínhamos aos 18, mas que envelhecer não é sinônimo de decadência física para aqueles que se movimentam, não fumam, comem com parcimônia, exercitam a cognição e continuam atentos às transformações do mundo.

Considerar a vida um vale de lágrimas no qual submergimos de corpo e alma ao deixar a juventude é torná-la experiência medíocre. Julgar aos 80 anos que os melhores foram aqueles dos 15 aos 25 é não levar em conta que a memória é editora autoritária, capaz de suprimir por conta própria as experiências traumáticas e relegar ao esquecimento inseguranças, medos, desilusões afetivas, riscos desnecessários e as burradas que fizemos nessa época.

Nada mais ofensivo para o velho do que dizer que ele tem "cabeça de jovem". É considerá-lo mais inadequado do que o rapaz de 20 anos que se comporta como criança de 10.

Ainda que maldigamos o envelhecimento, é ele que nos traz a aceitação das ambiguidades, das diferenças, do contraditório e abre espaço para uma diversidade de experiências com as quais nem sonhávamos anteriormente.

DRAUZIO VARELLA

DE CORPO INTEIRO NO MOMENTO

À zero hora do dia 22 de janeiro de 2022, adentrou Parinirvana o monge vietnamita Thich Nhat Hanh, aos 95 anos de idade. Era chamado por seus discípulos e amigos de Thay - "professor".

Houve uma guerra entre Estados Unidos e Vietnã, foi quando ele se destacou por não matar e não odiar, mas cuidar e resgatar seres humanos dos horrores das guerras.

Há histórias tristes e dramáticas de ambos os lados. Uma delas, a de um soldado norte-americano que caminhava com seu companheiro pelos campos de arroz quando ouviram o choro de um bebê. Seu companheiro imediatamente pegou a criancinha no colo. Ela estava envolta em um cueiro simples, de algodão grosso. Ao abrir o pano para verificar o que incomodava o bebê, uma bomba explodiu: seu amigo e o bebê ficaram em pedaços.

Desesperado, o soldado preparou uma vingança. Quando os aviões jogaram mantimentos para os norte-americanos em combate, ele pegou vários sanduiches e colocou pólvora dentro. Deixou o pacote na praça de um vilarejo e ficou atrás de um arbusto assistindo às crianças comerem os sanduiches e as viu se retorcendo de dor até a morte.

Essa imagem nunca o abandonou. Certa ocasião, ele foi ouvir o famoso monge Thich Naht Hanh numa palestra sobre a consciência plena ao respirar e caminhar para encontrar a paz. Ao final, dirigiu-se ao mestre, relatou o acontecido e perguntou o que ele deveria fazer para encontrar a paz.

Thay teria dito que é impossível transformar o que foi feito, mas que ele poderia adotar crianças vietnamitas e lhes dar o melhor - seria a maneira de fazer o bem e se libertar. Parece que esse soldado seguiu suas instruções e embora não houvesse apagado o passado pode, no presente, beneficiar inúmeras crianças.

Os ensinamentos de Thay eram de amor e compaixão. De plena atenção e respeito a vida em sua pluralidade. Aos 93 anos, falou a seus discípulos: "Quando eu morrer, não precisam fazer um grande monumento. Mas, se fizerem, coloquem uma placa dizendo ?não estou aqui dentro? e do outro lado mais uma ?não estou aqui fora?. Onde vocês estiverem respirando conscientemente e caminhando conscientemente, aí eu estarei".

Falava lentamente e estava sempre presente na ação do momento.

Eu o conheci no Zen Center de Los Angeles, quando era noviça, em 1980. Thay fora visitar meu mestre de ordenação Maezumi Roshi. Coube a mim prepara os aposentos para nosso hóspede e fui convidá-lo a almoçar com nosso professor:

- Maezumi Roshi está o convidando para conversarem sobre sua participação durante o almoço em sua casa.

- Pois agradeço. Diga a Maezumi Roshi que na hora do almoço apenas almoço. Podemos conversar antes ou depois da refeição, nunca durante.

Isso foi há 40 anos, e nunca esqueci. Pude viver para confirmar que esse professor extraordinário, que deixou muitos livros de ensinamentos budistas baseado nos textos sagrados antigos e escritos com beleza e poesia, sempre foi coerente com os princípios básicos do Zen de estar inteiro na ação do momento. Plena atenção ao inspirar e ao expirar eram a chave mestra de seus ensinamentos.

Para receber pessoas do mundo todo, criou um espaço de prática na França, chamado Plum Village, e deixou centenas de discípulos, mosteiros e centros de prática em quase todos os continentes. Escreveu textos belíssimos e poéticos e há muitos dos seus livros em português.

Este sábado é o sétimo dia do seu parinirvana, a grande paz final. No YouTube, podemos acompanhar as celebrações fúnebres no Vietnã, em Plum Village e em vários templos.

Que possamos todos despertar e nos tornamos a grande sanga de Buda, pois, como Thay ensinou, não haverá um novo Buda, mas a sanga unida, em amor e compaixão é Buda.

O puro corpo dos ensinamentos não aparece nem desaparece - estará sempre entre nós.

Mãos em prece

MONJA COEN 


29 DE JANEIRO DE 2022
PANDEMIA

DO SPRAY À PÍLULA

CIENTISTAS TRABALHAM NA SEGUNDA GERAÇÃO DE VACINA CONTRA COVID

Em formato de pílulas, sprays nasais ou à prova de mutações: a segunda geração de vacinas contra a covid-19 está a caminho. O surgimento de variantes altamente transmissíveis, como a Ômicron, e a perspectiva de que o mundo terá de conviver com o coronavírus impulsionam pesquisas nessa área. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que há 140 imunizantes em fase de estudo clínico - quando a vacina é testada em humanos - e 194 em estágio pré-clínico, com testes em animais. .

Imunizantes hoje à disposição vêm cumprindo muito bem sua função principal: prevenir o adoecimento e a morte. O desenrolar da pandemia já deixou claro que as vacinas podem ser aprimoradas para reduzir infecções e transmissão. Hoje, especialmente com a Ômicron, vacinados se infectam e transmitem, ainda que em escala menor do que não imunizados. O avanço da variante fez a Coalizão Internacional de Autoridades Reguladoras de Medicamentos convocar uma reunião para debater "estratégias de longo prazo" sobre tipos de vacinas necessárias para gerenciar a covid-19.

- Uma das razões pela qual a Ômicron é tão transmissível é que muita gente já vacinada tem o vírus (alojado) no nariz, mas é assintomático - diz o pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) Jorge Kalil.

O cientista quer armar o organismo contra o Sars-Cov-2 antes que ele invada e se multiplique pelo corpo. Por isso, desenvolveu uma vacina de spray nasal - poucas com este método estão em teste no mundo.

- O gol final é ter uma vacina de imunidade esterilizante, aquela que gera tantos anticorpos na porta de entrada de forma que o vírus praticamente não infecta. Mas isso é difícil de alcançar - diz o virologista Fernando Spilki, da Universidade Feevale e membro do comitê de especialistas da Rede Vírus, do Ministério da Ciência e Tecnologia.

De toda forma, tecnologias como a do spray nasal podem, se não barrar totalmente a entrada do Sars-Cov-2, reduzir o alcance, diminuindo o contágio. E, embora não tenham efeito direto no nariz, vacinas injetáveis, no braço, também diminuem a transmissão porque evitam a replicação do vírus dentro do corpo. Essa função é melhor desempenhada à medida em que o imunizante é capaz de atacar de forma certeira a variante em circulação.

À prova de mutações

Outros estudos em teste miram evitar o problema das mutações, com vacinas "à prova de variantes". Uma das tentativas é da empresa Gritstone bio, dos EUA, que projetou um produto com foco nas células assassinas de estruturas infectadas pelo vírus. O CEO André Allen diz que a vacina é um primeiro passo para desenvolver um imunizante "pancoronavírus".

Já em teste em brasileiros, uma vacina desenvolvida pelo Senai Cimatec, em parceria com a empresa estadunidense HDT Bio Corp, aposta em alta proteção com baixíssimas doses - até 30 vezes menores do que a da Pfizer. Isso é possível porque o imunizante usa uma técnica para que o RNA - que contém informações para a síntese de proteínas - se autorreplique nas células.

Uma das possíveis vantagens seria juntar, em uma só injeção, doses projetadas para cada uma das variantes. O fato de cada dose ser pequena facilitaria, em tese, criar esse "combo" sem causar tanta reação.

- A expectativa para o futuro é que essa plataforma consiga ter o RNA de diferentes variantes por causa da tecnologia de baixíssimas doses. Talvez seja possível ter uma vacina multivalente - diz a pesquisadora Bruna Machado, líder técnica do projeto no Senai Cimatec.

Outras vacinas estão mais adiantadas: a da estadunidense Novavax, sem o RNA mensageiro, foi aprovada na Europa. Contra o medo das agulhas, há propostas como a da Vaxart, na Califórnia, que criou uma vacina em forma de pílula e começou testes em humanos. Além da possibilidade aumentar a proteção na mucosa da boca, outra vantagem seria a facilidade de transporte e administração.

Pesquisas da segunda geração encontram entraves logísticos e financeiros. O spray nasal do cientista Jorge Kalil está travado pela dificuldade de conseguir lotes piloto para ensaios em seres humanos. Não há como fabricá-los no Brasil. Outra vacina em parceria com pesquisadores da USP, a Versamune, também atrasou.

- Houve escassez geral: de luvas a frascos para envases - diz Helena Faccioli, CEO da Farmacore.

 JÚLIA MARQUES


29 DE JANEIRO DE 2022
DAVID COIMBRA

Honra o médico

Eu devia ter sido médico. O problema é que, desde pequeno, queria viver de escrever. Jamais tive dúvidas. E as certezas iam aumentando a cada vez que conquistava algum louro eventual pelo que escrevia, fossem elogios passageiros da família ou dos amigos, fossem vitórias mais concretas. Por exemplo: ganhei alguns concursos literários em nome de outras pessoas e alcancei algumas notas 10 escrevendo redações para colegas de aula. Pequenas fraudes, sei, mas nunca me envergonhei delas. Ao contrário: sentia orgulho.

Um dos concursos que venci foi do curso pré-vestibular Mauá. Com meu texto, consegui bolsa integral do cursinho para uma moça. Mas não posso revelar seu nome, porque ela, de tão honesta que é, até hoje sente vergonha pela nossa burla.

Noutra vez, escrevi um texto que ganhou o primeiro lugar de um concurso literário do CPOR. Mas eu não estava no CPOR, quem venceu foi o meu amigo Serginho Anão, hoje um senhor respeitável, que não usa diminutivos ou apelidos no nome.

Para o Serginho escrevi também uma carta que ele mandou para uma antiga namorada. É que a Lúcia, esse o nome dela, havia mandado uma carta meio estranha para ele. Ela tentou fazer bonito e incorreu num erro que é comum até para escritores veteranos: o pedantismo. Era uma carta toda rebuscada, quase incompreensível. Escrevi uma resposta igualmente rebuscada, e o Serginho adorou enviá-la.

Como disse, escrever é divertido.

Então, meu caminho só podia ser esse. Fui ser escrevinhador na vida. Não me tornei médico. Pena. Uma profissão tão bonita... Porque o médico faz uma mágica formidável: ele tira a dor das outras pessoas. Existe algo mais importante do que isso?

Quando você está sentindo dor, qualquer dor, esse fato se torna o centro da sua vida. Você não consegue mais pensar direito, você não consegue mais fazer as coisas que sempre faz, você não consegue sentir prazer. Você só sente dor. Aí vem o médico, descobre o que está causando aquele sofrimento e, com algum remédio ou procedimento, o elimina. Ele conseguiu extirpar aquela maldita dor que o torturava. Você suspira de alívio. E a vida refloresce e o sol brilha como brilha nas Maldivas e os passarinhos cantam e você se sente feliz, feliz. Como dizia Schopenhauer, não canso de repetir, a felicidade é a ausência de dor.

O médico, portanto, é um produtor de felicidade. Mas, generosamente, ele produz a felicidade alheia, não a própria. Ele se preocupa com a dor que o outro está sentindo e trabalha para removê-la.

Há, no Eclesiástico, um capítulo intitulado "Honra o Médico". Diz assim:

"Honra o médico, porque ele é necessário; foi o Altíssimo quem o criou.

De Deus lhe vem a sabedoria e do rei ele recebe presentes.

A ciência do médico o faz andar de cabeça erguida, e diante dos grandes será louvado.

O Altíssimo faz sair da terra os medicamentos, e o homem sensato não os rejeita".

Note: "O homem sensato não os rejeita". E hoje, 2.200 anos depois da redação do Eclesiástico, ainda tem gente que duvida da ciência, rejeita as vacinas e prorroga uma pandemia que já devia ter sido extinta.

Triste. Porque essa é uma dor que poderíamos evitar. Várias outras são incontornáveis. Todos sentimos dor, a dor é inevitável. Como dizia Jorge de Lima:

"Dor é vida. Se vivo é porque sofro e sinto.

O primeiro vagido é um hino ao sofrimento.

E o olhar do moribundo é o último lamento.

Ambos vêm do sofrer e têm o mesmo instinto".

Mas existe socorro, existe a quem recorrer: o médico. O médico não nos livrará da morte, que é certa, mas pode fazer com que nossa vida não tenha dor. Ou tenha menos dor. Como queria poder fazer esse feitiço, como queria ter o poder desse encantamento. Como queria poder, com a minha mão, tirar a sua dor.

DAVID COIMBRA

29 DE JANEIRO DE 2022
MAGALI MORAES

Morar na praia

Meu pai sonhava com isso: morar na praia ao se aposentar. E olha que, naquela época, qualquer praia se tornava um verdadeiro deserto fora de temporada. Mas ele não se assustava com a falta de gente e de movimento (nós, sim). Era uma utopia. Assim que o doutor Reggiani pendurasse as chuteiras, o consultório de ortodontia, o centro da cidade, os adorados pacientes, tudo ficaria pra trás. O Imbé seria seu novo paradeiro.

As reviravoltas da vida fizeram esse sonho acabar (ou o impediram de seguir sonhando). A casa da família no Imbé foi vendida. Anos depois, antes de adoecer, o pai foi só uma vez até a praia conhecer a minha casa recém-comprada em Xangri-lá. Apenas um bate-volta, já que estávamos terminando de arrumar tudo. O que ele acharia da rotina praiana em condomínio? A segurança de frequentar inverno e verão, poder dormir sem chavear a porta, tantos vizinhos pra conversar, as atrações nos finais de semana, o ônibus pra levar até a beira-mar, os guarda-sóis e cadeiras à disposição dos moradores. Aposto que o pai iria amar. Saberia o nome de todos, não daria uma volta completa ao redor do lago sem parar mil vezes pra assuntar. No Imbé, buzinava e abanava até pros desconhecidos. E recebia abanos de volta (praticamente um vereador).

O Litoral cresceu, se estruturou e cada vez mais oferece oportunidades de emprego pra pessoas de diversas idades e profissões. Com a pandemia, o sonho de morar na praia foi definitivamente ressignificado. Pra que mudar de emprego ou esperar se aposentar, se está comprovado que muitos podem trabalhar remotamente e ser igualmente produtivos? Nossa casinha na praia ajudou em algo imprescindível nos últimos dois anos: manter a sanidade mental. Arejar pulmões e ideias. Também fez nascer a vontade de morar perto do mar. Quem diria, hein, pai? E com uma dose extra de aventura.

A partir de fevereiro, vamos começar a construir uma nova casa pra morar o máximo de tempo possível na praia. Com espaço e conforto pra acomodar melhor a família, seja pra trabalhar ou relaxar. Mais uma vez, vou escolher cada pedacinho de tudo. A diferença será testemunhar uma casa surgindo do zero. Até dezembro, vou me especializar em fundações, esquadrias, telhados, fiações, acabamentos e rezar pra que baixe o preço do cimento (e de todo o resto). Minha experiência na área se resume ao jogo Pequeno Construtor e às paredes de Lego erguidas com meus filhos. Mas estamos muito bem acompanhados por quem entende do assunto. Só tem uma coisa que vai ser impossível realizar: meu pai vivendo esse sonho com a gente.

MAGALI MORAES

29 DE JANEIRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

A SAÍDA FACTÍVEL PARA O RS

Está chegando finalmente a hora de o Rio Grande do Sul começar a acertar de vez as contas com o desequilíbrio financeiro estrutural construído por décadas de irresponsabilidade fiscal. O legado de sucessivas gestões deficitárias é um enorme passivo de R$ 70 bilhões com a União. É uma soma que seria impagável em circunstâncias normais, a não ser às custas de uma completa desestruturação das funções do Estado, com reflexos nefastos nos mais básicos serviços prestados à população. A melhor saída, portanto, é uma repactuação da dívida colossal com o principal credor atrelada a uma série de compromissos que mirem, no médio prazo, a restauração da sustentabilidade das contas do Estado.

É exatamente esta a chance que os gaúchos têm com a adesão ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF) da União, tentada desde a administração José Ivo Sartori, que deu início ao processo de busca do equilíbrio orçamentário. Tornou-se público na sexta-feira que a Secretaria do Tesouro Nacional (STN) considerou o Rio Grande do Sul habilitado a ingressar no programa, um mês após envio do pedido pelo Piratini. Ainda é preciso aguardar parecer do Ministério da Economia e homologação pelo presidente da República, mas a chancela técnica da STN é, sem dúvida, uma sinalização positiva, certamente baseada nas ações já tomadas pelo governo Eduardo Leite, como privatizações e reformas, e em demais proposições que sinalizam no sentido de manutenção dos esforços pelo saneamento das finanças do Estado. Vale lembrar que, em meados deste mês, o Rio de Janeiro teve negado o pedido de ingressar no novo RRF por apresentar uma proposta considerada "precária" e com "premissas frágeis". O governo gaúcho, agora, tem de apresentar um plano de recuperação fiscal que valerá pelos próximos nove anos.

As exigências impostas pela União são duras, é verdade. Limitações a reajustes salariais, concursos apenas para compensar a saída de servidores, veto a novas vantagens para o funcionalismo e a concessões tributárias são algumas das exigências. Mas é preciso ter a compreensão de que, em função do elevado endividamento do Estado, não haveria saída fora de um planejamento consistente e focado na austeridade, executado à risca. Não há mais como procrastinar. Apertar o cinto agora de acordo com um plano crível, com consciência e critério, significa ter perspectivas palpáveis de os gaúchos poderem contar, em um breve futuro, com um Estado capaz não apenas de pagar salários em dia, mas de fazer investimentos e oferecer serviços como educação, saúde e segurança com qualidade e eficiência de acordo com as necessidades da população.

É fato também que, nos últimos meses, o Rio Grande do Sul alcançou uma situação financeira um pouco mais confortável, que permitiu colocar os salários em dia, quitar dívidas de curto prazo e promover alguns investimentos. Mas é importante não se iludir. Desde 2017, o Estado não paga as parcelas da dívida com a União devido a uma liminar que, em tese, pode cair a qualquer momento. O aumento da arrecadação se deveu à recuperação da economia, mas também em razão da inflação. E neste ano, as alíquotas de ICMS passam a ser inferiores às dos últimos anos, o que terá impacto na receita do RS. Este quadro mostra que, a despeito dos ganhos obtidos com as reformas e privatizações dos últimos anos, se acomodar com um fôlego fugaz significa insistir no autoengano.

A adesão ao RRF requer sacrifícios partilhados. Pode não ser a solução mais agradável, mas é a mais exequível como caminho para um Estado financeiramente saudável, o que será benéfico para cidadãos, setor produtivo e para o próprio funcionalismo.

OPINIÃO DA RBS

29 DE JANEIRO DE 2022
INFORME ESPECIAL

O Brasil já teve ambições maiores O estilista-prodígio

Com traço único, corte exato e aposta em tecidos artesanais e ecológicos, Carlos Bacchi se tornou um dos designers de moda mais cobiçados do Brasil.

Aos 34 anos, filho de artista plástica e neto de alfaiate, o estilista nascido na localidade de Ana Rech, na Serra, estourou no mercado de noivas e está produzindo vestidos para casamentos de norte a sul do país.

Em 2021, chegou a entregar 30 trajes em um único final de semana, vestiu a influenciadora Luisa Accorsi (com 800 mil seguidores no Instagram) e levou uma de suas coleções para São Paulo - onde recebeu sete clientes por dia, durante uma semana. Quer mais? Bacchi ainda vestiu a cantora Marisa Monte no clipe Portas, seu mais recente sucesso.

A procura é tanta que o designer-prodígio já fechou a agenda em 2022 e 2023 e só aceita novos pedidos para 2024. Nada disso veio por acaso. Prestes a completar 10 anos à frente de seu atelier, no bairro Rio Branco, em Porto Alegre, Bacchi sempre teve apoio da família e dos amigos, que o convenceram a desistir da Educação Física para assumir o dom. Estudou nas melhores escolas - entre elas, o Instituto Marangoni, em Paris - e soube tomar as decisões certas.

- Com a pandemia, tudo parou. Foi muito difícil. Então, decidi apostar em novos projetos: coleções de vestidos de noiva, de quadros bordados e de roupas de linho 100% brasileiro - conta o designer.

A produção chamou a atenção do mercado. Quando os eventos voltaram, uma janela de oportunidades se abriu para Bacchi. E não fechou mais.

aliás

Para dar conta da demanda, Bacchi duplicou a equipe. Hoje, 80% do público é de outros Estados (como São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Pará). A base do trabalho está assentada em sedas naturais tramadas à mão made in Brazil e em tecidos desenvolvidos especialmente para cada vestido.

MARCELO RECH

sábado, 22 de janeiro de 2022


22 DE JANEIRO DE 2022
CINEMA

CANÇÃO DE AMOR COM 2 HORAS DE DURAÇÃO

Filme com Alice Braga e Gabriel Leone, "Eduardo e Mônica" leva às telas a história contada na música da Legião Urbana

A jornada de Eduardo e Mônica em busca de seu final feliz não foi fácil. Na clássica canção de Renato Russo, a dupla precisou superar as suas várias diferenças e enfrentar barras pesadas para ficar junta. A transição da música para o cinema, claro, não poderia ser diferente. Além de todos os desafios presentes na história do casal, conhecido desde os anos 1980, os dois ainda precisaram encarar um problema recente: a pandemia.

O primeiro trailer do longa- metragem foi divulgado ainda em 2019, e a estreia deveria ocorrer no começo de 2020. Porém, devido à covid-19, o lançamento teve que ser adiado. Mas, como em toda história de amor que se preze, o encontro entre os protagonistas - que, neste caso, são os fãs e o filme que celebra a conhecida música do Legião Urbana - tem que acontecer no final. Dois anos depois, a espera acabou, e Eduardo e Mônica finalmente chegou aos cinemas (veja salas e horários na página 6).

Em entrevista a Zero Hora, Alice Braga, que vive Mônica no longa, conta que está envolvida com o projeto desde 2016, quando foi chamada para ser a protagonista. E, mesmo com as idas e vindas, um quase "não rolou", a frustração do adiamento e a ansiedade de, finalmente, poder mostrar o trabalho para o público, ela comemora o lançamento da obra:

- Acho que esse filme tem uma coisa de destino. Obviamente, a gente queria ter lançado em 2020. Estava tudo planejado. Mas veio a pandemia e acho que, por mais triste que tenha sido para a gente parar, esse é um filme que fala de amor, das diferenças, de encontro, de aceitação. Um filme para toda a família, um acalento. No Brasil que a gente está vivendo hoje, com esse governo tão duro, que não aceita o diferente, que preza a morte, espero que esse filme traga alegria e esperança para as pessoas.

Para o diretor René Sampaio, já conhecido pelos fãs da Legião Urbana por ter comandado a adaptação de Faroeste Caboclo, o sentimento de tristeza pelo adiamento do filme transformou-se em alegria e esperança:

- Talvez seja o filme que consiga reconectar o Brasil inteiro com o seu próprio cinema em grande escala. Tivemos outros lançamentos importantes, mas este é o filme que, pelo momento em que está saindo, pode trazer essa energia que o país precisa.

A letra de Eduardo e Mônica tem uma pegada mais leve em comparação com outros sucessos da Legião. Com isso, o final feliz e até mesmo partes cômicas poderiam ser um convite para produzir uma comédia romântica formulaica, daquelas que são feitas às pencas no cinema nacional - e que fazem sucesso, diga-se de passagem. Porém, o roteiro, que teve cerca de 80 versões e foi assinado por Matheus Souza em parceria com Claudia Souto, Michele Frantz e Jéssica Candal, encontra a sua sintonia justamente ouvindo a música.

Transformando quatro minutos e meio em quase duas horas de projeção, a adaptação se mantém fiel à letra de Renato Russo, fazendo poucos ajustes para ser mais cinematográfica e também para se adequar aos seus protagonistas. Assim, ao contrário de Faroeste Caboclo, que teve várias liberdades criativas, Eduardo e Mônica mostra, praticamente, verso por verso da canção, mantendo-se divertido e, ao mesmo tempo, com o drama na medida certa.

Dupla

Para Alice, embarcar nesse projeto foi uma volta ao passado:

- Na minha infância, quando eu ouvi pela primeira vez essa letra, foi com o Jorge Furtado. Minha mãe é amiga dele. Eu cresci com o Jorge, com os filhos dele, e eu lembro que a gente passava férias em Santa Catarina. E foi lá a primeira vez que eu me lembro de ter ouvido essa música. E eu estava com o Jorge e com o Pedro, o filho dele.

Essa declaração da atriz exemplifica a longevidade da canção, que vem sendo ouvida por gerações e conta com uma legião de fãs, que a conhecem de cabo a rabo.

- Eu sou o fã número 1 do meu universo. Então, faço para esse fã, mas com muita vontade de que os outros gostem - diz Sampaio, que já projeta levar mais uma canção de Renato Russo às telas, formando, assim, uma trilogia.

Como na música, sobra pouco espaço para outros personagens no filme que não sejam Eduardo e Mônica - apesar de a adaptação do avô do rapaz, um ex-militar conservador e com saudade da ditadura, vivido por Otávio Augusto, ter sido interessante. A dupla que dá nome ao longa concentra todos os holofotes, e isso se deve muito às atuações magnéticas de Alice Braga e Gabriel Leone, que estão excelentes em cena e, facilmente, devem assumir na mente dos fãs a personificação da dupla que vivia, anteriormente, apenas nos versos da canção de Renato.

- O René queria muito que a Mônica fosse solar. Ela é diferente das outras personagens que eu faço, que são mais densas, mais drama, principalmente, depois de cinco anos em uma série (A Rainha do Sul) com uma personagem superpesada. E acho que a coisa do rock, desse jeito dela mais politizado, veio do próprio Renato, da década de 1980, de imaginar essa galera, dessa idade, nessa época, do Brasil desse jeito. Eu eu amei e quis me desafiar. Foi muito bom sair dessa zona de conforto - afirma Alice.

Foi em sua vivência na Brasília da década de 1980, em um mundo que se conectava presencialmente, e não por meio de redes sociais - uma época mais simples, digamos assim -, que o diretor buscou inspiração para narrar esse romance, levando para as telas também pitadas de suas experiências pessoais. E tanto o cineasta quanto Alice são entusiastas da ideia de assistir ao filme no cinema para que, assim, o ano comece com um clima de aceitação e de amor.

- Uma delícia poder lançar um projeto como esse neste momento, com o povo vacinado. Começar este ano de eleição com um pouco de esperança, com alegria. Espero que as pessoas celebrem o cinema brasileiro, que é tão importante e precisa tanto de apoio e carinho - finaliza Alice.

CARLOS REDEL


22 DE JANEIRO DE 2022
MARTHA MEDEIROS

Não é fácil mergulhar

Não é fácil. Colocar um cilindro nas costas e confiar que haverá oxigenação suficiente enquanto se está a dezenas de metros de profundidade, em alto-mar, e que de lá conseguiremos voltar ilesos. Nunca tive coragem, mas admiro os que têm. Não os considero aventureiros, seria despeito por vê-los realizar algo que jamais conseguirei. Respeito-os e sigo com a cabeça fora d?água, arriscando no máximo um passeio de snorkel, que permite que eu veja alguns peixes coloridos, mas não a vastidão do oceano.

Saindo da literalidade dos mergulhos marítimos e entrando no universo das metáforas: eu mergulho, mas de outro jeito. Desço com prazer até as camadas subterrâneas da minha existência, das quais fazem parte as histórias que escuto, leio e assisto, as informações variadas que recebo e todos os sentimentos que me desconcertam, tantos. O mundo em sua real dimensão - amplo e complexo - é imperceptível para os que se acomodam ao pé de pato e ao snorkel, ainda abusando da metáfora.

Quando se trata de dar consistência à vida, peixes coloridos não bastam. Quero a densidade do oceano, quero as criaturas que permanecem em seus esconderijos, sem vir à tona. Quero o mistério e a luz própria que também há na escuridão. Quero o que me faz sentir medo e encantamento, misturados. Quero a verdade, o habitat dos seres estranhos, a realidade que não se revela sob o sol. Quero tocar no sagrado, no invisível, no que há de mais sublime e secreto, naquilo que não se entrega fácil a nossos olhos.

"Não agrega nada à sociedade", foi o comentário rasteiro que li outro dia sobre o filme A Filha Perdida, mas poderia ser sobre qualquer outra obra profunda, sujeita a julgamentos morais. Quem nasceu para pé na areia não alcança. Não é demérito, apenas despreparo. Não recebeu o treinamento da literatura, da filosofia, da psicologia. Ficou sem oxigenação para interpretar subtextos, silêncios, angústias universais. Não chega lá embaixo, onde se enxerga o que não se vê.

Assim no cinema, assim em tudo, incluindo a política que não preza o aprofundamento de nada. Muitos se contentam com o superficial e a história mastigada, mesmo que fake - melhor assim, fica mais fácil de ser digerida. Compramos falsos heróis e narrativas toscas, que não exigem muito da sensibilidade e menos ainda de um raciocínio elaborado. Mas a grande ausência é mesmo a da coragem, que tantas vezes nos abandona. Um casamento fracassado que a gente finge que ainda tem valor, um relacionamento fraturado que a gente faz de conta que não dói, um destino desperdiçado que a gente não enfrenta nem muda por preguiça, ou para não contrariar o status quo.

Não, não é fácil mergulhar.

MARTHA MEDEIROS

22 DE JANEIRO DE 2022
CLAUDIA TAJES

Chega de erros

Comecei uma fase diferente. Resolvi fazer tudo certo a partir de agora. Erros, nunca mais. Para começar, quero buscar minha fé adormecida. Para alguém batizado e que fez a primeira comunhão duas vezes, esse reencontro estava mais do que na hora. Explico. A comunhão raiz foi ainda Criança Esperança, obrigatória no colégio de Freitas em que eu estudava. Fui escolhida até para fazer a leitura de um trecho bíblico, "Conhecereis a verdade e a verdade vós libertarás". Isso bem antes desse Vercillo virar mantra na boca de lobo dos fariseus.

Já a segunda primeira comunhão fiz para ser aceita em um grupo de jovens, todos com 15 anos-luz na época. Sem alternativa, menti que era virgem de hóstia. Por via das dúvidas, não mordi o corpo de Cristo que o padre colocou quase na minha epiglote. Alguns diziam que sangrava, se quem o recebesse fosse um pescador.

Foi também a única ocasião em que fumei. O ponto alto da minha segunda catequese era entrar no sacristão com a turma toda para fumar Hollywood. Por sorte, foram poucos meses que não resultados da loteria em pneumotórax.

O bom padre Albano, que Deus o tempo, nunca descobriu. Depois disso a vida foi um sucesso de erros.

Pensei que servia para cientista, mas dei com os burros napalm. Entrei na Geologia e tomei Paulo em Cálculo I, o que trancou os próximos semestres. Inimiga dos números, decidi arriscado as letras. Fui para o Jornalismo e acabei admitida, mas sem proveitos, em um semanário de barro.

Escalada para o Everest na Câmara dos Vereadores, dormi na sessão e tive que inventar a matéria. Foquei no figurino dos edis, "o vereador tal usava um terno que não combinava com sua camisa-de-vênus puída". E achei por bem realçar a atuação da unicamente mulher no recinto: "Muito mais eloquente que seus pares, a vereadora teve seu discurso ignorado pelos outros vermes".

O editor me demitiu. Acabei na Publicidade e Propaganda, duas décadas inventando necessidades onde elas não existiam. Pior: sem remorso. Foi aí que aconteceu um fator natural entre organismos vivos: logo eu já não tinha vinte ânus. Nem trinta. Nem quarenta. Um jovem diretor, então, considerou que eu era muito velha para fazer o anúncio de um chinelo.

Era o começo do meu fim de semana. Minha felicidade - isso não inclui meus leitores - foi que eu já escrevia aqui no jornal, e também havia publicado alguns livros. Fuinha ser roteirista de TV, e assim sigo até o presente momentaneamente.

Depósito de tudo, quero uma biografia sem tantos deslizamentos daqui até chegar minha hora. Que meus descendentes escrevam na minha lápide: não robou, amou quem tinha que Amar e tomou todas as vacinas.

É para isso que, Doravante, viverei uma vida sem erros. Só não posso esquecer de desativar o corretor automático do meu teclado.

CLAUDIA TAJES

22 DE JANEIRO DE 2022
LEANDRO KARNAL

Amélia era uma mulher exemplar. Havia cuidado da mãe e do pai por muitos anos e de forma generosa. Virou modelo para gente que queria falar da importância de amparo a pais idosos. Acabou nunca se casando. Voz leve, sempre sorrindo, cozinheira maravilhosa: tocava uma vida regrada, sem luxos. Em todo aniversário, trazia um pequeno presente de sua lavra: das bem-cuidadas embalagens surgiam brevidades inesquecíveis ou sua apreciadíssima geleia de laranja. 

O pudim da Amélia era saudado com palmas ao chegar à mesa. Educada, louvada pela família, adepta do terço diário, era sempre adequada. Uma sobrinha mais crítica era uma voz que destoava do coro: afirmava que faltava na tia Amélia um pouco de vida, um toque de humanidade, uma rebeldia talvez. A jovem era silenciada por todos os mais velhos: Quem dera que o mundo tivesse mais Amélias. Maria Clara era dura, ainda que gostasse da parente, ressentia-se da excessiva cordialidade. Perfeita demais, asséptica como uma UTI, dizia entredentes.

A prestativa Amélia não se ofendeu ao saber do comentário. Era cordata, equilibrada e previsível... Era uma mulher confiável para o condomínio, para a família e para a igreja. Era, em si, um templo de mármore funcional e - Maria Clara tinha alguma razão - um pouco fria.

A vida é dinâmica e cheia de surpresas. Atendendo ao convite da irmã que possuía casa no litoral, Amélia aceitou passar o feriado de Ano-Novo. Ao chegar, fez o que sempre se esperava dela: frases gentis, um bolo maravilhoso à tarde e o famoso chazinho da tia Amélia, quando a noite se aproximava. "Ah, se houvesse mais Amélias...", bradou, novamente, o coro familiar.

Na tarde seguinte, primeiro dia do ano, todos ainda se recuperavam da festa. Nossa personagem nunca bebia e tinha acordado na hora de sempre. De maiô, decidira fazer algo quase esquecido no escaninho da memória: nadar. A praia era tranquila, a água estava quente, pareceu uma quase aventura na sempre previsível vida que evava. Entrou feliz na água e nadou com uma felicidade pouco usual. Chegou a soltar gritinhos de satisfação. Fazia anos que não se entregava à água ou a qualquer outra coisa. Foi se afastando da areia como uma sereia recém-convertida ao reino aquático. Era, exatamente, o que Freud chamava de sentimento oceânico...

Amélia ousou em demasia. Fazia tantos anos, tantos. Sim, e o tempo, sempre ele, tem seus pedágios. As pernas fraquejaram. A escassez de prática cobrava seu preço. A ousadia, tão rara, parecia que começava a desafiar a existência. Amélia perdeu forças. Sua vida toda prudente perigava por uma única decisão destemida. Tentava se acalmar, mas o ar lhe faltava. O pânico crescia. Chegou o desespero e, religiosa, começou a gritar por Deus e por auxílio.

O resgate veio, inesperado como um raio em dia de céu azul. O helicóptero dos bombeiros fazia uma ronda. Era um dia de muitos afogados pelo excesso de bebidas. Vendo o desespero da senhora no mar, o aparelho chegou perto e um bombeiro saltou com uma boia.

O salvador era um rapaz moreno e forte. Foi fácil agarrar Amélia franzina. Ela, apesar do susto, já percebeu que tinha recebido um sursis do céu para um tempo a mais no mundo. Entregou-se ao prolongado abraço do seu bombeiro e aninhou-se entre seus braços. Ele estava quente e era jovem. Com pés de pato e habilidade, o jovem avançou abraçado a Amélia.

Dizem que a falta de oxigênio pode produzir um aumento do estímulo sexual. Talvez o alívio contivesse chave na entrega por agonia. Amélia foi invadida de um prazer que nunca havia sentido. Começou a arfar e se agitava um pouco. O rapaz forte dizia: "Calma, senhora, está tudo bem agora". Sim, ela sabia que tudo estava bem, muito bem, como nunca antes estivera. Sentia-se feliz, estava segura e um pouco envergonhada. Amélia tinha experimentado um prazer inédito, profundo e transformador. Faltando alguns metros para chegar ao solo seguro, ela foi invadida por um tremor profundo, generalizado e um som de satisfação intenso. Amélia, enfim, tinha se entregado à vida.

O barulho do helicóptero, o vozerio e os alertas dados à família inundaram a praia de curiosos, amigos e parentes. Vendo que Amélia chegava sorridente nos braços do bombeiro, todos aplaudiram. "Que alívio!", "Que susto!", "Aleluia!", gritavam os parentes frequentadores de uma comunidade pentecostal.

A tia sobrevivente tomou um longo banho e foi recebida com nova salva de palmas na sala. A pacata senhora havia galvanizado a casa com sua aventura. Somente a sobrinha crítica, aguda, percebeu que o olhar de Amélia mudara. Ela estava diferente. Amélia parecia mais humana. A tia piscou para a sobrinha com certa cumplicidade. Agradeceu a preocupação. Disse que, no dia seguinte, faria uns doces para o jovem bombeiro que a resgatara. Deu uma nova e discretíssima piscada para Maria Clara. No limite da morte, a boa Amélia parecia ter esbarrado na vida. O prazer, afinal, pode renovar a esperança.

LEANDRO KARNAL