sábado, 5 de fevereiro de 2022


05 DE FEVEREIRO DE 2022
SAÚDE MENTAL

VALORIZE O AUTOCUIDADO

NÃO ESTÁ SENDO FÁCIL PARA NENHUM DE NÓS: PRECISAMOS DE ENERGIA PSÍQUICA PARA ADMINISTRAR DEMANDAS E ADVERSIDADES DO COTIDIANO

Nossos dias têm sido marcados por emoções diversas, nestes dois últimos anos, com o enfrentamento da pandemia e de todos os impactos que o coronavírus causou à saúde mental e econômica das famílias. Nunca vivenciamos tantas incertezas, instabilidade, frustrações e aprendizagens como nesse período, que nos exigiu resiliência, criatividade e competência para seguirmos nossos caminhos profissionais pessoais.

Hoje lidamos com inúmeras pessoas em situações de estresse pós-traumático, ansiedade, depressão e tantos outros transtornos ligados a saúde mental.

Não está sendo fácil para nenhum de nós! Nem para os pais, adultos e muito menos para as crianças. Quanta energia psíquica necessária para administrar tantas demandas e adversidades deste cotidiano.

O verão está sendo marcado pela elevação nas temperaturas e nos casos de covid-19, por causa da variante Ômicron, gerando um cenário de insegurança, propício para o desequilíbrio da nossa saúde emocional.

Olhar para nossa saúde mental e valorizar uma cultura de autocuidado é necessária para, aos poucos, transformar padrões de pensamento. As pessoas precisam compreender que aproveitar momentos do dia a dia para cuidar de si mesmas é essencial para viver bem. Precisamos trabalhar na linha da prevenção e não só do tratamento. Valorizar a alimentação, o lazer, horas e a qualidade do sono, relacionamentos, trabalho... Enfim, tudo soma para a prevenção.

u devemos aprender a conhecer nossas emoções

Pais e crianças estão cada vez mais precisando buscar ajuda e preparo para manterem-se no rumo adequado do desenvolvimento social. E quando falo em saúde mental, não estou dizendo ausência de doenças ou sintomas, mas nossa capacidade de conciliar o bem estar físico com o social e o mental. Precisamos estar cada dia mais fortes para gerarmos ambientes e relações mais saudáveis em nossos espaços sociais, de trabalho e familiar.

Nosso maior desafio tem sido justamente aprendermos a lidar e a conhecer nossas emoções frente a tantas limitações e mudanças. Priorizar um olhar atento aos cuidados que temos conosco e com os outros, e a forma como vivemos a alegria, a tristeza ou a raiva nos nossos dias. diz muito da nossa saúde mental.

E devemos ter a humildade para reconhecer que precisamos estudar, se conhecer mais, buscar ajuda para exercer nossas funções profissionais e pessoais com mais leveza e sucesso. Estamos todos juntos nessa busca contínua. O que desejo mesmo é que possamos nos reorganizar para este ano ainda de tantas incertezas, mas com a certeza de que quanto mais consciência das nossas emoções, mais autodesenvolvimento, respeito as nossas qualidades e dificuldades, mais aptos estaremos como pessoas, pais e educadores. 

(*) Psicóloga especialista em infância e adolescência - SOLANGE LOMPA TRUDA (*)


05 DE FEVEREIRO DE 2022
BRUNA LOMBARDI

O SORRISO DE DEUS

Comecei o ano de uma forma inesperada. Enquanto todos festejavam e fogos explodiam em cores na noite, lágrimas comovidas caiam no meu rosto. Eu abraçava, depois de uma ausência forçada pela pandemia, minha querida tia Yolanda, de 93 anos, que mora em Punta del Este.

A cidade estava em festa e meu coração, dividido entre a alegria do reencontro e a apreensão de ver como ela estava abatida, não querendo mais se alimentar há várias semanas, mesmo me dizendo que comia bem. Estava muito magra e debilitada.

A gente costumava se encontrar duas vezes por ano e falava por telefone regularmente. Ela foi uma mulher muito independente, sempre trabalhou, ficou viúva, não teve filhos e fez dos livros e dos bichos sua melhor companhia. Durante esse período de isolamento, deixou de ver seus amigos e família e o acúmulo do tempo fez a solidão pesar.

Mesmo acostumada com sua reduzida rotina, seu estímulo foi esmorecendo, seu entusiasmo de sempre deu lugar a uma certa melancolia, que ela nunca deixou transparecer. Por ser muito espiritualizada e ter conquistado uma grande sabedoria com o passar dos anos, sabia conviver com a contemplação da beleza do céu, observar o movimento das nuvens e das ruas e entregar sua alma ao silêncio, que ela sempre considerou precioso.

Via encanto ao seu redor e gostava de seus momentos sozinha. Sempre me dizia para prestar atenção na felicidade das coisas pequenas.

Aprendi muito com as mulheres da minha família. Todas modernas, inteligentes, poliglotas e com um finíssimo senso de humor. Foi o que as salvou dos muitos desafios que enfrentaram. Perdas, guerras, mudanças, novos países, costumes, culturas, ideias. Vieram de uma família muito rica, perderam grandes fortunas, mas mantiveram a força, a garra, a capacidade de inventar e criar novas realidades com magia e coragem. Com elas aprendi a ser forte diante da adversidade e a transformar o que viesse no seu melhor.

Quando abracei o seu corpo magro e vi seu sorriso, compreendi que afeto, cuidado e acolhimento são medicinas infalíveis. Sua saúde estava ótima, e nossa batalha não era apenas com o desgaste do tempo, mas com uma série de sentimentos invisíveis, desses que subliminarmente corroem a alma.

Coisas físicas se combatem pontualmente, essas outras são difíceis até de se detectar. São sensações que se embrenham no espírito e nos consomem. Drenam a energia e criam novas raízes. Vão se alimentar de medos, pensamentos negativos, sombras e conseguem nos confundir a ponto de não ser mais possível ver a saída. Na dúvida, você se pergunta se existe saída.

Enquanto existir vida, existe esperança, é um dos ditados mais comuns e uma verdade universal. E foi assim, se sentindo muito amada, que aos poucos ela despertou sua vontade de viver.

Com sua voz fraca, me disse que a gente ia deixando um rastro de amor por onde passava. Aos poucos, vimos ela se recuperar de uma forma incrível.

Amor cura. Amor salva. Amor é a resposta. Milagres nos acompanham quando nos empenhamos e prestamos atenção neles. Milagres são o sorriso de Deus.

BRUNA LOMBARDI

05 DE FEVEREIRO DE 2022
J.J. CAMARGO

A FRONTEIRA DOS DIREITOS INDIVIDUAIS

Final de plantão, todo mundo exausto, metade pelo trabalho, outra metade pela tensão - que tinha dado uma trégua e agora estava de volta, inteira. Então, mais uma vez tocou o alarme do box 17. Nova correria, para outra vez massagear um coração que, por falta de oxigenação, já desistira. Foram 95 minutos de sons alternados, da massagem, da insuflação manual do balão e de monitores alertando que a esperança racional já tinha saído pela janela. Como a menina só tinha 22 anos, o esforço continuou por mais um tempo que ninguém mais se animou em cronometrar. Até que alguém tomou a dianteira: "Pessoal, não tem mais sentido".

Todo mundo parou de fazer o que fazia, mas ninguém saiu do lugar. Até o ruído da retirada das luvas era parcimonioso, para que a mãe, do outro lado da parede, não percebesse que tínhamos perdido.

O desconforto desta perda, que os intensivistas conhecem como ninguém, fica reverberando, desgruda do jaleco mas sobe no ombro e embarca no carro no caminho de casa. Arranha o esôfago na hora do jantar e enche de pedras o travesseiro.

O choro da mãe, consumida por noites insones e orações fúteis, ainda se juntava ao desespero inculposo de não ter conseguido dobrar o discurso negacionista da filha, vítima incauta de uma patrulha ideológica de uns tipos que nem sabem para que a ciência serve, mas são contra, e dos que escolhem estupidamente a doença porque desconfiam dessa história de vacina.

Na manhã seguinte, durante uma sessão do café, alguém levantou a questão que todo pai escolheria nunca ter que responder: "O que fariam se um filho amado de vocês, transbordando de argumentos persecutórios, extraídos a golpes de idiotice de teorias da conspiração, essas que enchem a lata do lixo da internet, anunciasse que não se vacinaria, por nada deste mundo?".

Houve uma troca não programada de olhares, quando o mais velho, e por todas as razões o menos tolerante com a estupidez humana, radicalizou: "Depois da surra?". Todos fizeram uma parada respiratória, mas ninguém protestou.

Os civilizados que rodeavam aquela mesa são pais amorosos, de afeto genuíno, e defensores dos direitos individuais. Mas estavam cansados, pela sobrecarga de casos graves, e mais ainda pela sucessão de perdas que foi minando a autoestima de quem foi treinado a lutar pela vida e agora assistia inerte à banalização da morte. A consciência de que muitas daquelas mortes poderiam ter sido evitadas pela vacina tinha esgotado a paciência.

Passados alguns meses com redução gradual de casos novos e de óbitos, a chegada da cepa nova foi vista com alguma serenidade pelos infectologistas, por ser menos letal, apesar de rapidamente disseminante, e porque esta combinação, historicamente, antecede o fim das pandemias. E então, de repente, o alto percentual de ocupação das UTIs voltou à mídia, desta vez por iniciativa de pessoas que tinham se negado à vacina e optado pela doença, tudo em nome do livre arbítrio, claro.

Os médicos, porque só sabem fazer isso, retomaram a batalha insana para salvá-los, mesmo sabendo que, com um tubo na traqueia, o "muito obrigado doutor" ia ter que aguardar uma eventual sobrevivência. E sem nenhuma expectativa de mudar a cabeça dos radicais, embotados demais para cederam à única explicação possível para 90% dos casos mais graves estarem entre os 30% dos brasileiros ainda não vacinados.

J.J. CAMARGO

05 DE FEVEREIRO DE 2022
FLAVIO TAVARES

IDOSOS JOVENS

A fonte da "eterna juventude", que até aqui era só fantasia ou devaneio, pode estar a caminho. Uma equipe multinacional de neurocientistas, encabeçada pelas brasileiras Isadora Matias e Flávia Gomes, da UFRJ, descobriu um "marcador" do envelhecimento do sistema nervoso central que leva a entender o declínio cognitivo dos idosos.

Trata-se da rota para compreender o desenvolvimento de dois males aterradores, Alzheimer e Parkinson, com sintomas visíveis até pelos leigos, mas cujas origens e causas a ciência médica desconhece.

O trabalho, publicado na revista científica Ageing Cell e realizado conjuntamente na Holanda e no Rio de Janeiro ao longo de 10 anos, associa a proteína "lamina-b1" ao declínio cognitivo dos idosos. Não se trata, porém, de formas de rejuvenescimento, ao estilo das que estiveram de moda nos anos 1970-80, como os tratamentos da doutora Aslan, na antiga Romênia comunista, à qual recorriam os bilionários capitalistas do mundo inteiro?

O novo e revolucionário em termos médicos é que o estudo entendeu o papel daquela proteína nos neurônios e nas células gliais, ou interstícios das células nervosas, e, assim, também no DNA. Até aqui, isso era desconhecido e a pesquisa do grupo científico internacional avançou em uma área totalmente nova.

Alzheimer e Parkinson, doenças neurodegenerativas, passam a ter, assim, um caminho que leve a retardar ou, até mesmo, impedir ou evitar seu aparecimento. Mais do que tudo, o novo é o descobrimento da rota que leva ao envelhecimento das células cerebrais e destrói a integridade do núcleo celular.

Não se trata de remoçar. Nem em pensar que, a partir de agora, abre-se a fonte da "eterna juventude", como insinuei ao início. A idade e os anos são nossa prova de vida e envelhecer é o único testemunho de que vivemos.

Abre-se, porém, a rota para o fim da senilidade e da caduquice, e os idosos poderão pensar e agir como jovens. E morrer lúcidos e sãos. Afinal, a água é dádiva da natureza (e, assim, tem algo de divino) ou é mercadoria vendável, tal qual as das prateleiras dos supermercados?

A pergunta se encaixa na decisão do governador Eduardo Leite (aprovada pelos deputados) de privatizar a Corsan, que abastece 307 municípios gaúchos. Arilson Wünsch, presidente do Sindiáguas, que reúne os trabalhadores do setor, lembra (e festeja) que 70% dos municípios recusaram-se a aceitar os termos que levam à privatização.

FLÁVIO TAVARES

05 DE FEVEREIRO DE 2022
EM BUSCA DE SOLUÇÕES

Em Passo Fundo, chuva trouxe esperança

O presidente do Sindicato Rural de Passo Fundo, Carlos Fauth, relata que a soja é a cultura mais afetada no município, levando em conta a área de plantação. Embora o milho seja o plantio que mais sofreu com a falta de chuva, ele tem menor área de cultivo na região, explica Fauth. O dirigente estima quebra de, no mínimo, 40% na soja. No milho, a previsão é de 70%.

- As perdas estão se acentuando. Agora, para o fim de semana, tem previsão de chuva. Ainda não é possível definir os prejuízos. Eles podem estabilizar ou piorar - explica Fauth. Durante a apresentação do programa, chuva constante atingia o município do Norte, abrindo margem para especular uma trégua na estiagem.

O coordenador regional da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag), Nauro Nizzola, disse que as dificuldades são maiores na agricultura familiar.

- O próprio preço da soja e do milho estão em patamares nunca vistos antes na história. Quando se fala nesses preços altos e não tem produção, a dificuldade aumenta. Porque quem trabalha com atividade de leite, mas também atua com soja e milho, acaba fazendo a troca do milho e da soja por farelo e ração. Quando você não tem essa matéria-prima que é afetada pela estiagem, tem de adquirir esse produto e não tem o retorno que precisa para rentabilidade e sustento da família - afirmou Nizzola.

O coordenador regional da Fetag destacou a necessidade de ajuda dos governos federal e estadual no combate aos efeitos da estiagem. Renegociação e prorrogação de financiamentos, linhas especiais de crédito e ações de fortalecimento no fornecimento de milho estão entre as reivindicações.

O professor da Universidade de Passo Fundo (UPF) Mauro Rizzardi, que também é engenheiro agrônomo e doutor em Agronomia, afirmou que é necessário avançar em melhorias na estrutura do solo. Rizzardi avalia que, além de pensar em barragens e irrigação, é importante pensar e trabalhar na conservação da água no solo.

- Cada vez mais, nós devemos buscar, através da pesquisa, a melhoria da estruturação do solo, melhorando a conservação.

O prefeito de Passo Fundo, Pedro Almeida, afirma que a prefeitura está encaminhando a construção de novos poços:

- São três com recursos próprios e um com a ajuda do Estado, para termos mais quatro poços artesianos no interior nos próximos meses - declarou.


05 DE FEVEREIRO DE 2022
POLÍTICA +

Yeda descobre talento para pintura

Amante da arte e das cores, a ex-governadora Yeda Crusius virou pintora aos 77 anos. Autodidata, pintou sua primeira tela autoral neste início de 2022, ano do centenário da Semana de Arte Moderna, que tem um significado especial em sua vida. Foi inspirada nesse movimento que ela deu o nome à filha Tarsila, nascida em 22 de janeiro.

A imagem retratada na tela é a que Yeda tem da janela da casa comprada com Tarsila em um condomínio de Xangri-Lá, em julho do ano passado.

- Escolhi a casinha quando entrei nela e vi o pôr-do-sol. O que está retratado na tela é a primeira visão que tenho da casinha, o refúgio onde vou ler, escrever e criar.

O desejo de pintar começou há três anos, quando Yeda começou o que define como "um programa pessoal que juntasse as coisas e fizesse entender mais amplamente o momento em que estava vivendo, como presidente do PSDB Mulher, com aquela guerra permanente com os homens, na política, para fazer a coisa melhorar":

- Fui para um campo de estudo de mito, de filosofia, pegar umas coisas que na atual fase eu posso fazer. Não fiz em uma vida inteira de trabalho, faço agora.

Yeda é autodidata, mas dá vivas ao YouTube:

- O que tenho de aula pelo YouTube, de como desenhar primeiro e pintar depois, é uma coisa incrível.

ROSANE DE OLIVEIRA

05 DE FEVEREIRO DE 2022
CHAMOU ATENÇÃO

"Tá tudo bem ser diferente"

"Tá tudo bem ser diferente" é uma frase debatida, explicada e compartilhada pelo estudante de Publicidade e Propaganda Deives Picáz, de 20 anos. Repetida, repetida e repetida.

- Não me canso de desconstruir esse preconceito que as pessoas têm. Olhar com a sensação de que a pessoa com deficiência é incapaz - explica.

O influenciador digital tem agenesia de membros, má formação congênita que impediu, durante a gravidez de sua mãe, a formação do antebraço direito. No perfil do Instagram @deives, ele encara sua deficiência física da maneira como as demais pessoas deveriam tratar: uma característica do seu corpo.

Na rede social, o estudante da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) alcançou 30 mil seguidores. Uma foto em especial viralizou: em frente ao espelho, o jovem faz um sinal de "V" com a mão, enquanto apoia o smartphone no outro braço (imagem acima).

Em casa, em Cachoeirinha, na Região Metropolitana, ele instalou equipamentos para captação profissional de ví­deos. Um dos posts acabou compartilhado pela equipe da atriz, cantora e campeã do último Big Brother Brasil (BBB 21), Juliette. Ele também virou embaixador da Dar a Mão, uma associação de acolhimento, apoio e suporte a pessoas com agenesia de membros.

Na quinta-feira, debateu capacitismo (ideia de que pessoas com deficiência são inferiores) ao vivo na Rádio Gaúcha.

- O outro sempre acha que a gente não tá apto a estar naquele lugar de destaque, que a gente não é capaz de exercer aquela função. Quando na verdade aquela função é só mais uma comum, das milhares que a gente tem no dia a dia - declarou, durante o programa Gaúcha Hoje.

TIAGO BOFF


05 DE FEVEREIRO DE 2022
MARCELO RECH

Bolas fora

Perguntinha rápida: o que uma candidatura a presidente e uma partida de tênis têm em comum?

Resposta mais rápida ainda: vence quem erra menos. Na política, como nas quadras de tênis, há saques e jogadas irresistíveis, impossíveis de serem rebatidos. Mas a maioria dos pontos não é conquistada: é desperdiçada pelo adversário em movimentos e táticas equivocadas ou em bobagens memoráveis. O governo Olívio Dutra, no Rio Grande do Sul, por exemplo, ficou marcado pela exibição da bandeira de Cuba numa sacada do Piratini já no dia da posse. Alguém mais empolgado teve a ideia da bandeira, que provavelmente lhe pareceu luminosa na hora, e o governo passou os quatro anos seguintes convivendo com a noção de que pretendia implantar uma Cuba no Brasil meridional.

No Brasil, o confronto dos dois líderes nas pesquisas ao Planalto evidencia uma somatória de erros que pode abalar profundamente uma ou até as duas candidaturas. Lula e Bolsonaro nem precisam se xingar mutuamente. Como no caso da bandeira de Cuba, só precisam mostrar o que o adversário diz ou faz para que o outro marque pontos. As redes de Bolsonaro, por exemplo, espalham um vídeo do próprio PT, no qual seus dirigentes dão vivas ao PCO, partido marxista que incensa Lula, ataca as urnas eletrônicas e descrê das instituições democráticas. 

O arsenal disponível é abundante. Além da rapinagem em governos passados, há os acenos do PT ao esquerdismo infantil e radical ou de retrocessos em favor de corporações e dos sindicatos ligados ao partido - fora a gravação do próprio Geraldo Alckmin na campanha de 2018 dizendo que Lula, agora seu possível companheiro de chapa ao Planalto, "depois de quebrar o Brasil, quer voltar à cena do crime".

Lula e o PT também não precisam garimpar arquivos para grelhar a imagem de Bolsonaro, tamanha a quantidade de sandices acumuladas pelo presidente, que vão dos ataques à democracia à peroração insana contra as vacinas e as medidas de proteção contra a covid, sem considerar as promessas e previsões descumpridas. E elas podem ser contadas aos borbotões, como a proteção à sua própria família, o abraço apertado no centrão e a filiação de Bolsonaro ao PL, uma capitania de Valdemar Costa Neto, condenado a sete anos e 10 meses de prisão por causa do Mensalão, ora só, do PT.

Palavras e gestos são símbolos fortes na política e, no mundo da internet, não caem facilmente no esquecimento. Como Lula e Bolsonaro erraram muito e a campanha nem começou ainda, tanto um como outro podem ser eliminados do campeonato, tal a quantidade de saques e jogadas perdidas. Para tanto, basta que ambos - e toda a fila de adversários que ambicionam chegar ao segundo turno - sigam exibindo sem fim suas raquetadas na rede ou as bolas para fora da quadra.

MARCELO RECH

05 DE FEVEREIRO DE 2022
J.R. GUZZO

Projeto nacional de destruição

Nunca houve antes na história política do Brasil, como está sendo agora o caso de Lula em sua campanha eleitoral, um candidato que quisesse chegar à Presidência da República em cima de um programa consistente de destruição. Candidatos costumam se apresentar aos eleitores, na maior parte das disputas, com mentiras, promessas que não têm a menor intenção de cumprir e ideias ruins, que vão dar errado todas as vezes que alguém tentar aplicá-las.

Mas Lula está dando um "plus a mais" na desgraça habitual, ou "dobrando a aposta", como faria a inesquecível Dilma Rousseff - inesquecível sobretudo para ele, pelo atraso que fez na sua carreira. Não se contenta com o erro. Quer, acima de tudo, destruir - e, naturalmente, quer destruir justo aquelas coisas, não muitas, que estão dando certo neste país. É claro. A existência dessas coisas prejudica diretamente os interesses de quem viaja no seu bonde. Pau nelas.

Lula deve calcular, é óbvio, que isso pode render voto para ele em outubro. Ele está não apenas pensando em si. Está defendendo os interesses individuais de muitos dos piores grupos de parasitas que existem no território brasileiro. Esses grupos perderam terreno depois que Dilma foi posta para fora do governo. Estão desesperados, agora, para recuperar o que tinham.

Lula é o melhor atalho para voltarem à vida boa de antes. Basicamente, querem ter de novo o Tesouro Nacional à sua disposição. Dar às suas minorias, como conseguiram fazer em quase 14 anos de governo, o dinheiro tirado do imposto de todos - esse é o seu mandamento número 1, acima de qualquer outro.

Basta ver o que eles mesmos estão dizendo. Lula, em seu governo, promete destruir a reforma trabalhista aprovada no governo Michel Temer - o passo mais importante para a modernização das relações de trabalho que o Brasil já deu nos últimos 50 anos. Promete destruir a lei que acabou com o infame "imposto sindical.

J.R. GUZZO

sábado, 29 de janeiro de 2022


29 DE JANEIRO DE 2022
MARTHA MEDEIROS

O sorriso que o tempo nos deu

A última vez que almoçamos juntas eu ainda me deslumbrava com seu sorriso de garota e seus olhos faiscantes, dois holofotes que não perdiam nada do que acontecia ao redor - e nem eram azuis, e ela nem era garota, tinha mais de 60. Sobrava inteligência. Assistia a todas as peças em cartaz e dominava os assuntos da mídia tradicional e da mídia independente, pois não era mulher de se conformar com uma única versão dos fatos. Não saía de casa sem suas echarpes exóticas, trazidas de andanças pelo mundo. Era uma pessoa comum e ao mesmo tempo um acontecimento, e sendo o mundo generoso comigo, aquele não foi nosso terceiro nem oitavo almoço, pra lá do vigésimo. Amizade rodada.

Acho que nunca havíamos demorado tanto para nos reencontrar. Além de morarmos em cidades diferentes, teve a pandemia e a própria vida, que nos sobrecarrega de tarefas a ponto de subverter a percepção do tempo: mal diferenciamos o que aconteceu há três meses ou há três anos. Ela e eu acabamos nos acostumando com a troca de WhatsApp e não vimos o tempo passar, até que voltamos a sentar à mesma mesa, ela agora com mais de 70 e algumas perdas na bagagem.

Me explicou sobre o problema no joelho que a estava impedindo de correr, atividade matinal sagrada, costumava fazer oito quilômetros assim que acordava. Paciência, aderiu ao pilates. Percebi seu rosto tomado por rugas novas, mas os olhos mantinham-se faiscantes. Sua boca murchou, reparei, mas, que diabos, a minha também, mesmo sendo mais moça. Seu cabelo havia perdido o brilho e o volume, percebi assim que ela retirou a echarpe que agora usava enrolada na cabeça, não mais no pescoço. Quimio? 

Ela assentiu, mas a ascendência nordestina não permitiu que ele caísse todo, foi a explicação pouco científica que me deu, acompanhada de uma piscadinha. E ainda nem tínhamos falado sobre a morte de sua mãe, que foi um abalo mais duro do que ela previa. "Mas são 13h20min de uma quinta-feira e você está bem aqui na minha frente, não vejo motivo melhor para um vinho branco gelado. Garçom!"

É um processo lento e contínuo. O rosto desaba um pouco e ganha vincos. O corpo resiste graças a atividades físicas regulares, mas também vai se entregando. Alguma doença aparece, é curada, então vem outra, e certas dores excêntricas. A memória falha bastante, às vezes menos, ler ajuda. Mas graças ao bom humor e a uma vida bem aproveitada, as contingências previsíveis deixam de ser dramáticas. Envelhecer é um teste de sabedoria. A grande tragédia do envelhecimento é restar só. Ela e eu fizemos um brinde, sorrimos o sorriso que o tempo nos deu e confirmamos que, sem preservar os afetos, de nada presta viver tanto. Marcamos novo almoço para breve.

MARTHA MEDEIROS

29 DE JANEIRO DE 2022
CLAUDIA TAJES

De calções e calçolas

Ela era fã de um ex-jogador da dupla que, terminado o contrato, foi para o Palmeiras. Fique claro: era fã não só do talento futebolístico do atleta, também da forma, dos músculos, do estilo, do sujeito como um todo. Até salvava uma que outra foto dele para ficar olhando em momentos de tédio, assim como um dia recortou fotos do Peter Frampton e do Sean Penn para usar como marcador de livros. Ingenuidades de fã. Mais ou menos na mesma época, ela mesma foi transferida, a trabalho, para São Paulo. O marido não a acompanhou, funcionário estadual que era, e também havia o filho, que não queria sequer discutir a hipótese de uma troca de cidade aos 14 anos.

Instaurou-se o vai e vem de avião, por sorte antes das passagens custarem o que custam hoje. De qualquer jeito, o cartão de crédito era todo das companhias aéreas, bons tempos dos preços razoáveis em 12 vezes sem juros. Bem verdade que uns e outros detestavam a ideia de ver pessoas com menor poder aquisitivo nos aeroportos, incômodo que, por qualquer que seja o ângulo, não fazia o menor sentido. Seja como for, as pessoas de menor poder aquisitivo atualmente mal comem, que dirá viajar. Os beneficiados com isso? Deixa para outra coluna.

O casamento dos nossos protagonistas seguiu firme, até melhor sem a rotina, essa destruidora de ideais românticos. O tal jogador do início da história fazia sucesso no Palmeiras sem sequer desconfiar da existência da fã - que agora morava em um pequeno apartamento na Barra Funda, a poucas quadras do Allianz Parque. Um dia ela não resistiu a uma foto do jogador sem camisa no jornal, recortou e colou no espelho do quarto. O marido acharia até engraçado e, olhando pelo lado positivo, podia servir de estímulo para ele trabalhar os peitorais.

Esperando a visita da família para um fim de semana esticado, ela tratou de arrumar bem a casa, com flores para enfeitar e essência de shopping center, aquela que remete a compras caras que ela não fazia. Buscou a roupa na lavanderia e arrumou as peças nas pilhas do marido e do filho, todas no mesmo guarda-roupa do quarto. Eram quase 10 da noite de sexta quando os dois chegaram. Depois de jantar, foram dormir para aproveitar o feriadão que se anunciava em toda a sua magnitude.

Antes do café da manhã, o marido surgiu com um calção verde na mão.

Ele: De quem é isso?

Ela: Não é teu?

Ele: Eu sou colorado. Esse calção é do Palmeiras.

Ela: Que Palmeiras?

Ele: O time do teu jogador.

Ela: Eu não sei de calção do Palmeiras nenhum, deve ter vindo por engano da lavanderia.

Ele: Engano é achar que eu vou acreditar nisso.

O fim de semana fracassou. Muita DR depois, o marido se convenceu de que ela jamais tinha encontrado o tal jogador - infelizmente, advérbio de modo que não foi usado para não piorar ainda mais a situação. A única explicação, por mais mentirosa que pudesse parecer, era o calção ter vindo da lavanderia. Ninguém tinha entrado no apartamento, muito menos o tal jogador.

(Infelizmente.)

Na última vez que ela foi a Porto Alegre, encontrou no cesto da roupa suja uma calçola já com o elástico meio frouxo, largona e desbotada, que o filho jurou desconhecer e o marido quis teimar que era dela. Não era. Única explicação plausível: o calçolão devia ser de alguma vizinha e entrou pela janela, em um desses fins de tarde de temporal porto-alegrense.

Nos casamentos em que existe confiança, tudo fica mais fácil.

Felizmente.

Carlos Gerbase, Replicante, professor, roteirista e diretor de cinema, acaba de lançar seu sexto livro de ficção. No romance O Caderno dos Sonhos de Hugo Drummond, um jovem cineasta do interior do Rio Grande do Sul vem a Porto Alegre para um evento de produtores e acaba envolvido por fatos e personagens que mais parecem saídos de filmes. Não se sabe se Gerbase pretende levar o livro para a tela, mas que o leitor já imagina a história no cinema, imagina. Da Diadorim Editora, nas boas livrarias reais e virtuais.

CLAUDIA TAJES

29 DE JANEIRO DE 2022
LEANDRO KARNAL

O advogado Tiago Pavinatto lançou, pela Edições 70, o livro Estética da Estupidez: a Arte da Guerra Contra o Senso Comum. O livro é muito interessante e serve para refletir o momento curioso em que nos encontramos. O autor mistura bom humor, ironia ácida, referências eruditas e lança catapultas sobre a Jerusalém de Brasília e seus Messias.

Comecei refletindo na epígrafe do livro: "Debater com um idiota é perder de maneiras distintas e combinadas. Perde-se tempo. Perde-se a paciência. E se perde o debate propriamente, porque ele só entenderá argumentos idiotas - e, nesse quesito, o imbatível é ele, não você" (Reinaldo Azevedo).

A primeira reação ao ler o pensamento é sorrir. Ela já contém uma vaidade: se você gostou, há uma chance de não se considerar um idiota. Quem achou bom, naturalmente, imagina-se portador de cidadania plena na ilha da sabedoria e da razão e olha para os limitados com certa xenofobia. O pensamento de Azevedo termina com frase que, diria meu pai, usa de "contundência". O termo comum para a conclusão, hoje, é "lacradora". Sim, o adversário é imbatível porque é... idiota. Há certo consolo retórico e psicológico na conclusão.

Despontam questionamentos válidos: a) como saberei, de fato, que não sou um imbecil? A característica básica da falta de inteligência é ser cego sobre suas próprias capacidades; b) se não posso debater com idiotas e não tenho certeza sobre minha pontuação no campo da genialidade, com mais certeza terei dúvidas sobre quem é sábio ao meu redor e, por consequência, digno de debate; c) se eu perco o debate com idiota porque ele é melhor no manejo do argumento ilógico, com um sábio eu perderei porque ele é hábil no uso da razão; logo, perderei sempre?

Já dei este conselho em palestra, citando minha avó: "Não toque tambor para maluco dançar". Li O Alienista de Machado algumas vezes e me dou o direito ao relativismo no campo da sanidade mental. Analisando algumas passagens da minha vida pretérita, eu teria bons motivos para ocupar ampla suíte na Casa Verde do dr. Bacamarte. Itaguaí poderia conter o universo todo.

Sim, fui louco eventual. Continuarei sendo um idiota? Claro, querida leitora e estimado leitor, já ficou claro aqui que temos idiotas insanos e idiotas perfeitamente equilibrados daquele tipo que, em época menos cuidadosa com palavras, chamaríamos de "pessoa normal". Como é patológico nos dias atuais identificar alguém como normal, digamos que a maioria das ações e pensamentos de alguns idiotas caracteriza um comportamento médio tido por aceitável pela sociedade.

Duas questões afloram: sou um idiota? Devo discutir com idiotas? Sendo a democracia inconciliável com a censura, estaríamos condenados (como pensou Umberto Eco) à fala onipresente do "idiota da aldeia"? A figura descrita por Eco tem base literária: anda, maltrapilho, incomodando pessoas com frases e gestos, todavia todos o tomam por inofensivo. Aliás, o "idiota da aldeia" tem profunda função social: serve para classificar todo o resto da comunidade como inteligente. É fundamental existir, no grupo, o tipo limitado: a sombra da escassez cerebral dele ilumina a inteligência dos outros.

Nos tempos que despertam desejo daquele meteoro devastador como redenção possível, existe a categoria que Pierre Bourdieu chamou de "meio-cientistas", chave conceitual analisada por Pavinatto na página 175. Fazem eco a algum tema tratado por pesquisadores, misturam a outros, somam certo senso comum com linguagem elaborada e, le voilà, surge um post devastador contra vacinas. O meio-cientista reúne o pior de dois mundos e causa danos aos idiotas da aldeia e aos sábios.

Que futuro terá nossa sociedade se conseguirmos classificar com quem se pode e com quem não se pode debater? Teremos uma Berlim reconstruída com um muro ao meio? Uma nova Guerra Fria?

Eu tenho alguns princípios para tentar conversa séria. O primeiro é concordância sobre ética e lei. Não discuto com racistas ou defensores da violência contra a mulher, por exemplo. É uma derivação do paradoxo de Karl Popper: não tolerar intolerantes. "A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância", segundo o austro-britânico.

Há mais condições propícias: a pessoa ouve e fala. A condição de um diálogo é a alternância entre ouvir e falar. Mais uma: existe uma vontade de análise sem fígado, adjetivos, fulanização ou violência verbal. Por fim, os dois lados reconhecem que não são donos absolutos da verdade e o outro tem direito à existência, mesmo que com argumentos contrários.

Na minha concepção, nunca saberemos se somos idiotas ou inteligentes. Porém, o debate com alguns princípios prévios aperfeiçoa meu raciocínio oferecendo o contraditório. Também aumenta minha visão e, eventualmente, muda minha ideia ou a do meu debatedor. Não existem as condições dadas? Melhor ficar de um lado de Berlim que lhe agrade lamentando o limite das pessoas do outro lado do muro. Enquanto isso, leia o livro de Pavinatto e seja feliz. No ano de 2022, os muros serão erguidos a alturas inimagináveis. Esperança média de bons debates...

LEANDRO KARNAL

PRIORIDADES

Na semana que passou, a nova variante Ômicron do SARS-CoV-2 se confirmou como a esmagadoramente dominante no mundo. Com uma taxa de transmissão altíssima e, alguns virologistas sugerem, inédita. Esses dados vêm dos países cujos órgãos de saúde sequenciam e testam em larga escala, e cuja prioridade é a proteção de seus cidadãos. Confirmando previsões dos imunologistas desde 2020: enquanto todos não estiverem vacinados, variantes surgirão.

As mutações dessa variante se concentram na porção que liga no hospedeiro. As respostas imunes que nos protegem induzem anticorpos que bloqueiam essa interação. Elas são altas e bem uniformes nos vacinados, mas variam muito nos não vacinados - daí a importância de se vacinar. Lembrando que mesmo uma resposta vacinal forte não protege da infecção, mas da doença. E, quando protege, protege por anos.

Isso porque, além de anticorpos, fazemos células T, que não deixam o vírus que infecta se multiplicar no corpo. E assim o vacinado, mesmo que se infecte, não transmite, ou transmite muito menos. Enquanto houver surtos, nos infectaremos; vacinar é para controlar a lotação dos hospitais e manter condições de atender os que realmente precisam. Que são, hoje, majoritariamente, os não vacinados.

Com as mutações, precisaremos atualizar as vacinas; a Pfizer já começou o primeiro estudo clínico para uma vacina atualizada. Essa, sim, é experimental - até ser aprovada. Enquanto isso, dois estudos recentes trouxeram boas notícias. A terceira dose cria anticorpos que neutralizam a Ômicron. E as respostas de células T induzidas pelas vacinas reconhecem todas as variantes.

A Ômicron não é, como dizem alguns, mais branda. As mortes dos não vacinados mostram isso. Para os que sugerem que a Ômicron é o fim da pandemia e o início de uma endemia, o virologista Aris Katzourakis, da Oxford, lembra que não existe nenhuma lei da natureza que diga que, por ser endêmica, uma doença se torna menos letal. Malária e tuberculose são endêmicas e matam milhões a cada ano.

Esse é um argumento preguiçoso, que ignora o papel do comportamento individual e da ação do poder público em controlar as doenças. No Brasil, as ações do ministro da Saúde vão além da preguiça: há um engajamento sério em perpetuar fraudes. Mesmo sendo compelido por lei e recomendações técnicas a executar a vacinação infantil e não distribuir hidroxicloroquina pelo SUS, ele primeiro convoca uma audiência pública esdrúxula para criar uma controvérsia que não existe. A seguir, emite uma nota que estimula o uso do "kit covid" - que um estudo encomendado pelo próprio ministério mostrou ser ineficaz. Esquizofrenicamente, fala que precisa acelerar a vacinação; alega que a nota foi de um subalterno, não dele. O comportamento do ministro é desenhado para confundir, mas na verdade é esclarecedor. Estejam onde estiverem suas prioridades, sabemos onde não estão: em liderar um ministério focado na saúde e no bem-estar da população.

CRISTINA BONORINO

29 DE JANEIRO DE 2022
FRANCISCO MARSHALL

O CORRUPTO-MOR

Desde que o Estado regulou a propriedade privada e hierarquias de poder na sociedade, há corrupção; onde houver uma porteira, haverá quem cobre umas patacas para liberar passagem. Os gregos, todavia, cedo compreenderam que a corrupção maior vem da ambição desmedida - a hybris -, a cupidez de poder, honras, bens e prazeres que cega a muitos homens e os leva a erros trágicos para o transgressor, o hybristés, e para a sociedade. Há, pois, uma hierarquia também entre corruptos, e o corrupto-mor o é no topo de cadeia nefasta de delitos. Que tal enquadrarmos nosso corrupto-mor, homem público notório, enquanto é tempo, por crimes já praticados e riscos evidentes?

A hybris é falha moral típica de sociedades competitivas, como foi a Grécia antiga, em sua aurora aristocrática e ainda mais na era da pólis e da democracia. O poder está aberto à disputa, ambiente em que podem ocorrer golpes, fraudes e outros frutos podres de ambições espúrias. Tudo começa com certo estado de opulência (ólbos) em que o sujeito se julga superior e, em estado de saciedade (kóros), ambiciona com megalomania (méga phroneín); isto ocorre com um ser potente, líder em triunfo, mas também com um ser giomoro, medíocre torpemente adulado. 

Nessa condição perturbada, o sujeito em estado de hybris julga-se heroico ou divino, e invade domínios, ferindo normas de direito e reciprocidade, ou também, como acreditavam os antigos, incomodando deidades. É a síndrome trágica grega. Com a desmedida, desencadeiam-se punições divinas (némesis) e sociais (julgamentos). O pior caso é a ambição de poder, como proclama Sófocles no v. 873 do Édipo Tirano: hybris phyteuei tyrrhanon - a hybris engendra o tirano. A democracia deve precaver-se contra a hybris como nossos corpos diante do assassino. O corrupto-mor, o perigo real, é o hybristés - cego por ambição, pronto para qualquer delito.

Não há corrupção maior do que subverter a República e manipular a democracia para saciar ambições pessoais. Se isso é feito com a utilização pervertida dos meios judiciários, instituídos como garantia coletiva e fundados em exigências de imparcialidade, algo ainda mais grave ocorre; é asquerosa a partidarização do Judiciário. E quando esta cabala ocorre em cenário de tráfico de influências envolvendo poderes políticos e financeiros estrangeiros, então o que já era gravíssimo torna-se hediondo: traição à pátria. A investigação severa desses delitos pode levar ao indiciamento também de outras autoridades judiciárias acumpliciadas, aqueles três e os que permitiram, por arrogância política, incúria e ódio partidário, que um cidadão brasileiro fosse condenado sem provas por crime indeterminado, como consta na infame sentença, um panfleto medíocre e ilegítimo.

Ardilosamente, o corrupto-mor ocupa a vitrine e defende-se ambicionando ainda mais, com a bravata de dizer-se ser ele, o corrupto-mor, o que combate a corrupção, quando é o pivô da maior trama corrupta da história do Brasil, e precisa ser indiciado, julgado e condenado por seus gravíssimos delitos, o corrupto-mor obsceno e sua querquedulea hybris.

FRANCISCO MARSHALL

29 DE JANEIRO DE 2022
COM A PALAVRA

COM A PALAVRA

NADINE CLAUSELL- médica,

63 anos Cardiologista, professora da UFRGS, é a atual diretora-presidente do Hospital de Clínicas, o maior de Porto Alegre

Líder há cinco anos de um hospital que mais parece uma cidade, com quase 7 mil colaboradores e cerca de 18 mil pessoas circulando em suas dependências diariamente, a cardiologista Nadine Clausell não para. A médica concilia a rotina de diretora-presidente do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) com as aulas que leciona para os estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e suas próprias pesquisas, na área de insuficiência cardíaca. Mesmo diante de uma rotina exaustiva, somada a cortes orçamentários na área de pesquisa, diz que não se arrepende de ter voltado do Canadá para trilhar sua carreira no Brasil - e segue acreditando em um futuro mais pujante para a ciência brasileira. Nesta entrevista, detalha as dificuldades de fazer pesquisa hoje, quadro agravado com a pandemia, e comenta sobre o desgaste causado pelo negacionismo.

COMO TÊM SIDO OS ÚLTIMOS DOIS ANOS? A ROTINA ADMINISTRATIVA DO HOSPITAL MUDOU MUITO?

Esses dois anos foram realmente uma surpresa, num certo sentido, porque ninguém havia passado por algo assim. Tivemos que aprender a lidar com a pandemia e os números de pacientes crescentes no Clínicas, que se tornou um hospital de referência aqui no Sul, ao mesmo tempo em que fazíamos uma grande reorganização, para que o hospital redirecionasse sua energia para atender essa demanda nova. Tivemos um desafio adicional no início da pandemia, que foi o de montar mais de cem novos leitos de CTI na nova área do hospital em questão de 40 dias, entre março e abril de 2020. Fazer com que tudo continuasse a contento e nos prepararmos para aquilo que até o momento era incerto e não sabido, em termos de intensidade, tempo e complexidade. Foi um aprendizado muito grande para as equipes e, o lado positivo, fez com que houvesse um sentimento de união enorme, de solidariedade, com grupos se organizando para ajudar os colegas. Um crescimento institucional, que veio junto com o estresse, o sofrimento, o medo e as perdas por que nós todos passamos.

LIDAR COM A SAÚDE MENTAL DAS EQUIPES NESSE CONTEXTO É DESAFIADOR?

Muito. No início, havia muito receio do desconhecido. Rapidamente, com a nossa área de psicologia e de gerenciamento de risco, montaram-se grupos que foram visitando as áreas onde havia os primeiros funcionários e pacientes internados, para lidar com aquela situação de insegurança. Isso desenvolveu um senso de pertencer a uma instituição que se mobilizou muito para cuidar de quem estava cuidando dos pacientes, o que acho que é um ganho, um legado. Essas pessoas foram reconhecidas em diversas instâncias pelos seus próprios colegas.

PESSOALMENTE, COMO TEM SIDO A SUA ROTINA NO PERÍODO?

Eu enxergo minha função de diretora-presidente do hospital como uma missão, um dever, e estou junto com todos o tempo inteiro, desde o início da pandemia, participando, cuidando das coisas da gestão, trabalhando com os pacientes, com os residentes. Os alunos foram afastados por algum tempo, mas, mais recentemente, voltaram, e eu reassumi as atividades de graduação. Para mim, o cansaço fica abstraído dentro daquilo que considero mesmo uma missão dentro da minha trajetória. Isso fica em segundo plano. Meu objetivo é dar o máximo pelo hospital, ajudar meus colegas e fazer com que todos se sintam amparados, com energia para superar tudo isso. É nisso que eu venho pensando nestes últimos quase dois anos. Não quero olhar para trás e me arrepender de não ter feito alguma coisa, então eu prefiro seguir com o pé no acelerador o tempo inteiro, e é isso que me move.

DE QUE FORMA TEM SIDO POSSÍVEL MANTER O ÂNIMO DAS MILHARES DE PESSOAS QUE TRABALHAM NO CLÍNICAS, DIANTE DE UMA PANDEMIA QUE NÃO TEM DATA PARA TERMINAR?

Existe inegavelmente um burnout muito grande entre os profissionais de saúde, não só no Hospital de Clínicas. Houve esforços muito grandes no ano passado de tentar de alguma maneira reorganizar as equipes para que alguns pudessem tirar férias. Fizemos organizações internas e rodízios para as pessoas se exporem um pouco menos. Nos esforçamos para estarmos muito disponíveis para a escuta. Na direção, dizemos que estamos em uma guerra: às vezes, tem pessoas que ficam feridas e a gente tem que trazer outras pessoas, que estão um pouco mais em segundo plano, para a frente. Acho que a ideia de que tentamos acolher o cansaço de todos é uma maneira de dar um pouco de energia, dizer "descansa um pouquinho, vamos respirar fundo". O "descansa um pouquinho" pode ser um ou dois dias e tem que voltar de novo, mas o fato de estar atento para isso talvez seja uma maneira de mostrar solidariedade, e aí as pessoas relevam e vão adiante.

COMO VOCÊS TÊM LIDADO COM O NEGACIONISMO? AFETA MUITO O TRABALHO DENTRO DO HOSPITAL?

Ficamos tristes e preocupados, porque o negacionismo, do ponto de vista da vacina, ultrapassa o nível individual de decisão de vacinar-se ou não, e nós, profissionais da saúde, lidamos com isso o dia inteiro. Causa um certo desânimo ver que há pessoas que não conseguem enxergar o seu papel na sociedade. A vacina é uma questão de solidariedade, de entender que a minha decisão pode afetar o outro e, ao afetar o outro, eu posso sobrecarregar um sistema de saúde que vem muito assoberbado. Mas acho que não adianta o embate. Os dados estão aí, da ciência, da técnica. Aqui no Brasil, a tradição da vacina é muito forte, ainda bem. Mas o movimento antivax existe no mundo inteiro. O curioso é que talvez ele exista na medida em que as outras vacinas se tornaram tão parte do dia a dia de todos, desde criança, se vacinando para tudo, que muitas doenças foram praticamente erradicadas, então há gerações que nunca viveram o sarampo, os surtos de rubéola, a varíola. Aí as taxas de vacinação podem cair, e isso já está demonstrado em outras partes do mundo, essas doenças voltam e aí volta a taxa de vacinação a subir. Só que é uma discussão em que eu evito entrar, porque não é produtivo. A gente tem que seguir trabalhando sério e mostrando a importância da vacinação. Eu preciso botar o meu tempo para fazer as coisas funcionarem para o bem. Entrar em discussões ideológicas a respeito de vacina, de medicação, acho que não é produtivo. Os dados estão aí, eu e todos os meus colegas da área científica sempre repetimos os mesmos dados e a imprensa tem sido muito parceira em reproduzir aquilo que está bem embasado na ciência, e acho que é isso que vai nos fazer vencer essa pandemia.

COM TODO ESSE AUMENTO NO DEBATE PÚBLICO SOBRE CIÊNCIA, HÁ UM INTERESSE MAIOR DAS PESSOAS EM FAZER PESQUISA?

Não sei se há uma mudança nesse nível. Na área da saúde, das universidades e dos hospitais não há muita dúvida sobre onde reside a melhor evidência e o que tem que ser feito em termos de saúde pública durante uma pandemia. Isso é feito com tranquilidade clínica, e aqui somos mais um hospital seguindo essa cartilha, então quem está se formando na área da Medicina ou na área da Enfermagem já tem essa noção de para que lado é o norte da verdade científica. Isso não mudou agora. Não aumentou a procura por residência, por exemplo, em um hospital como o Clínicas. Os alunos viveram muito tudo isso que está acontecendo e eles são os primeiros defensores de vacina, das evidências, do distanciamento, da máscara, porque viveram na pele o afastamento imposto a eles durante esse período. Não mudou para eles o interesse em buscar uma carreira pautada pela evidência científica. Essa é a trincheira certa de lutar nessa guerra e eles estão do lado certo, pelo simples fato de que estão em uma escola de Medicina, de Enfermagem, de Farmácia, da área técnica, bem formados em boas universidades.

A SENHORA FOI UM EXEMPLO DE PESSOA QUE SAIU DO BRASIL PARA BUSCAR UMA FORMAÇÃO E RETORNOU. POR QUE A SENHORA VOLTOU?

Essa é uma dúvida que eu não me permito mais ter, do porquê de eu ter voltado. Fiquei cinco anos fora, no Canadá, fiz minha formação de pesquisa em insuficiência cardíaca, transplante, meu PhD, tudo em Toronto. Minha volta se baseou em achar que eu tinha muito mais a contribuir aqui, em tentar trazer o que aprendi lá fora e ajudar a melhorar o meu meio, como forma de retribuição, porque eu fui com uma bolsa da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, entidade vinculada ao Ministério da Educação), em um primeiro momento, para fazer meu doutorado. Sempre achei que deveria voltar para implementar coisas novas e melhores aqui. Se eu olhar para trás, não me arrependo. Claro que é um caminho muito difícil. Talvez eu tenha implantado muito pouco do que aprendi lá fora até hoje, e já faz mais de 20 anos que voltei. Mas alguma coisinha eu acho que ajudei.

COMO EVITAR A FAMOSA FUGA DE CÉREBROS DO BRASIL?

É uma missão difícil. É difícil convencer um jovem da área científica de que vale a pena apostar no Brasil em um momento de redução muito grande de financiamento de pesquisa, de bolsas de estudo, de fomentos para a inovação, de aquisição de novos equipamentos e de bolsas de doutorado e de mestrado, que é o que alimenta a ciência e é o que esses cérebros precisam desenvolver. O Brasil está passando por um período de perspectivas muito sombrias na área científica, e eu entendo que as pessoas queiram buscar em outros lugares do mundo a chance de se desenvolverem melhor, serem mais realizados profissional e socialmente. Eu gostaria de que ficassem para nos ajudar, porque, assim como eu, outros voltaram e continuam aqui tentando fazer mudanças. Tem gente que continua, mas tem gente que está terminando sua faculdade e não quer dar esse tempo de esperar. Porque as coisas são cíclicas e podem melhorar. Temos que olhar para frente, esperar passar um pouco essa pandemia e ter um pouco de esperança. Eu entendo que as pessoas sejam céticas com relação a isso, porque a realidade tem sido muito dura.

O MOMENTO É DE CORTES FINANCEIROS NA ÁREA CIENTÍFICA, MAS, AO LONGO DO TEMPO, O BRASIL FOI SE TORNANDO UM PAÍS RECONHECIDO CIENTIFICAMENTE. ESTÁ MELHOR OU PIOR DE FAZER PESQUISA HOJE NO BRASIL, SE COMPARADO COM QUANDO A SENHORA INICIOU?

Agora está pior. Houve cortes importantes na Capes, no CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Não se consegue avançar na ciência sem investimento em educação. Este período é muito difícil. Hoje, comparado com 20 anos atrás, está muito pior para avançar em projetos novos, buscar publicações internacionais. O Brasil tem um papel fundamental na América do Sul nas pesquisas na área de saúde e já teve um destaque maior. Hoje, o que tem são esforços individuais de grupos de excelência que não desistem do país e inclusive buscam fomento internacional e parcerias público-privadas para seguir com as pesquisas. A gente tem que ter energia para seguir apostando, para que os jovens enxerguem uma perspectiva. Sem isso, eles aplicam para uma bolsa no Exterior. Eu fiz isso também, mas decidi rapidamente que meu papel era voltar e, digo de novo, não me arrependo. Acho que muita gente pensa como eu, porque a maioria fica, aposta, segue investindo. São fases cíclicas. Espero enxergar um momento no Brasil de novamente ter uma ciência mais pujante. Temos que mostrar a importância disso, não só para a pesquisa, mas para o país como um todo.

COM OS CORTES, HOUVE REDUÇÃO DE PESQUISAS DESENVOLVIDAS NO CLÍNICAS OU A DIMINUIÇÃO FOI COMPENSADA COM ESTUDOS SOBRE A PANDEMIA?

Houve redução, sim, de número de projetos novos com fomentos públicos, especialmente. Houve redução de número de bolsistas, o pessoal um pouco cético de embarcar num mestrado ou doutorado, com receio de as coisas não andarem a contento. É um período de ceticismo em relação a isso. Temos no Clínicas uma área de pesquisa muito forte. Enquanto os projetos de covid-19 cresceram, e acho que isso é importante e foi uma oportunidade de desenvolver uma área significativa, como a de vacinas, outras áreas foram ficando mais acanhadas. O balanço geral é de uma redução nas atividades de pesquisa. Mas acredito que isso é transitório. Continuo mantendo um certo otimismo, de que vamos encontrar saídas e voltar a ter um papel mais importante na área da ciência.

A SENHORA FOI RECONDUZIDA AO CARGO DE DIRETORA-PRESIDENTE DO CLÍNICAS EM JULHO DE 2020. NESSE TEMPO, DEIXOU ALGUM PROJETO PARADO POR CONTA DA SOBRECARGA LIGADA À PANDEMIA?

Alguns alunos de mestrado e doutorado tiveram dificuldade de continuar algumas coletas de dados e atrasos, porque todo mundo ficou assoberbado, o que não tem necessariamente a ver com o fomento. Acho que direcionamos muito a atenção para a pandemia, o que também fez com que houvesse certo sofrimento e retração nas defesas de mestrado e doutorado. Comigo não foi diferente. Eu também me direcionei bastante para isso. Eu estava recém assumindo a direção no início da pandemia e isso impactou. Minha energia ficou muito voltada para o aspecto covid-19. Eu esperava poder retomar isso agora, desde o final do ano. Mas ainda não conseguimos nos organizar suficientemente para retomar o que ficou para trás, do ponto de vista de projetos e artigos para escrever. É uma certa frustração que fica, mas eu quero crer que a gente vai acabar retomando em algum momento. Espero que a gente consiga, neste ano ainda, dar uma respirada e fazer outras coisas que não covid-19.

QUE TIPOS DE PROJETOS?

Eu trabalho especificamente na área de insuficiência cardíaca e transplante de coração. A pandemia impactou nos nossos projetos de coleta de dados, levantamento de perfil de risco dos pacientes com insuficiência cardíaca, o que poderíamos ter de queixas de pacientes que tinham complicações, pré-transplante com hipertensão pulmonar, então tínhamos todo um projeto de avaliar esses pacientes, fazer intervenções com alguns tipos de cateterismo. Isso tudo foi muito impactado. São exames que demoram para ser feitos, a gente precisou desativar algumas áreas do hospital. Assim como ocorreu comigo, com outros também precisaram abrir espaço para aquilo que a covid-19 nos demandou. Nossa área de projetos de pesquisa, do meu grupo, especificamente, ficou impactada. Já a nossa área de atuação especificamente em transplante se reduziu muito, se tornou praticamente a metade do que vínhamos fazendo antes. Isso desmotiva o grupo. Foi bastante frustrante tudo o que a covid-19 impactou nas nossas atividades que eram o nosso dia a dia no hospital.

COMO SE CONCILIA A FUNÇÃO HOSPITALAR DE ATENDER PACIENTES COM COVID-19 E A FUNÇÃO DE HOSPITAL-ESCOLA QUE O CLÍNICAS ACUMULA?

Especialmente na Medicina, que tem alunos no hospital desde o quarto semestre, os estudantes foram bastante impactados. Passamos mais de um ano com os alunos afastados do hospital, com aulas online e trabalhando com modelos de simulação. Essa é uma perda importante na formação, que eles não vão recuperar nunca mais. Infelizmente, vai ficar uma lacuna na formação de uma geração, pelo menos na área médica. A residência médica também foi bastante impactada, porque reduzimos muito as atividades ambulatoriais e as cirurgias. Teve residente que passou quase dois anos de uma residência que tem no total dois anos envolvido com covid-19 e teve um contato com sua área de interesse primária muito restrito. Na área cirúrgica, nem se fala. O residente da cirurgia precisa operar, e o nosso bloco cirúrgico foi seriamente impactado. Isso também não se retoma. Por outro lado, trabalhou-se bem mais com modelos de simulação, que é algo bastante contemporâneo e muito utilizado em várias outras universidades mundo afora, e com a área de teleatendimento.

O QUE FICA DE REFLEXÃO PARA O FUTURO, PENSANDO NO QUE HOUVE NOS DOIS ÚLTIMOS ANOS?

À parte todo o cansaço que estamos sentindo, não podemos perder de vista que estamos no meio de uma batalha, que ainda é preciso trabalhar muito, mas quero acreditar que vamos sair com aprendizados de tudo isso. Que vamos nos recuperar e voltar a ter um investimento forte em educação, saúde, ciência e o Brasil vai voltar a ser um país que vai poder encantar com essas coisas e fazer as pessoas quererem ficar aqui para seguirem ajudando no desenvolvimento. Essa fase vai passar, a pandemia vai passar. Nós temos que seguir firmes nas nossas convicções e seguir trabalhando seriamente.

ISABELLA SANDER