sábado, 12 de fevereiro de 2022


12 DE FEVEREIRO DE 2022
CLAUDIA TAJES

Golpistas em ação

É documentário da Netflix, mas também está, ou já esteve, em cartaz na vida da sua amiga, da sua irmã, talvez até na sua própria.

O Golpista do Tinder era um chinelão que se fazia passar por um bilionário russo chamado Simon Leviev para extorquir mulheres após o match no aplicativo. O que, por si, já parece uma contradição: se era bilionário, por que as vítimas entregavam dinheiro a ele?

Justamente porque fingia de ricaço. Dizia ele que precisava da bufunfa para se manter em segurança, mas que devolveria em pouco tempo, tão logo botasse as mãos em sua incalculável fortuna. O tipo de negócio garantido, proposto após alguns jantares caros, noites de amor e muita manipulação emocional.

A respeito de prejuízo: você já teve uma prima que precisou de dólares para o intercâmbio do filho, levou suas verdinhas, guardadas com sacrifício para uma viagem futura, e até hoje não devolveu? Ou uma amiga que, no auge do aperto, arrecadou suas economias e agora nem atende o telefone?

Pois a norueguesa Cecilie, a sueca Pernilla e a holandesa Ayleen, as três vítimas de Leviev, estão em situação bem pior. Juntas, as três transferiram milhões para ele. E enquanto o mequetrefe segue em liberdade, se dizendo inocente apesar das provas, as três continuam pagando as dívidas que contraíram nos bancos.

Não é novidade, muito menos um tipo de golpe exclusivo para enganar as moças. Há pouco, um jogador de basquete italiano descobriu que estava sendo extorquido havia mais de 10 anos por uma compatriota cinquentona que se fazia passar pela modelo brasileira Alessandra Ambrósio.

Um jumento, julgaram alguns. Um apaixonado, desculparam outros.

Sendo a carência a mãe de todas as roubadas, como bem definiu a escritora Clara Averbuck, ninguém pode dizer que está livre. A recomendação é nunca entrar no Tinder nos momentos de maior fragilidade - estratégia exatamente oposta a que se pratica em casos de pé na bunda.

Quem nunca?

Já tive um affair que dizia morar com a mãe doente e vivia precisando de apoio para os remédios dela, até que apresentou a conta de uma cirurgia particular que a genitora precisava fazer, e ele a nenhum para pagar. Sugeri procurar o SUS e bloqueei. Teve também o que comprou uma viagem de férias para a ex no meu cartão de crédito, o cara de pau. Caí fora assim que percebi a fria, mas passei meses entubando a excursão em suaves prestações. Outro queria me vender de tudo, de terrenos e móveis a carros, tudo supostamente dele, com grandes descontos e pagamento à vista. Mandei procurar a OLX.

Foi Cecilie quem primeiro divulgou o caso para um jornal norueguês, em 2019. Leviev, que, na verdade, é israelense e se chama Shimon Yehuda Hayu, fugiu para Atenas com um passaporte falso, foi preso, extraditado e, condenado a 15 meses de prisão em Tel Aviv, cumpriu cinco e acabou solto por conta do coronavírus. Promete que, em breve, vai contar a sua versão da história.

Esperemos para ver. Mas quem assistir ao documentário não vai ter muitas dúvidas, tal e qual o ministro Barroso, dia desses, ao comentar os eventos de 2016 no Brasil.

Foi golpe.

CLAUDIA TAJES

12 DE FEVEREIRO DE 2022
MAGALI MORAES

O copo-desejo

De repente, virou modinha. Só se fala no copo térmico Stanley, aquele de aço inoxidável com paredes duplas. Você não deve estar ligando o nome à pessoa (ou melhor, ao urso da marca). Escolher um urso polar pra mostrar que gela faz sentido. Ele ter uma coroa na cabeça, eu até entendo: coroa é realeza, elemento nobre, transmite qualidade. Agora ter asas, sei não, alguém voou longe. Urso de asas requer um certo poder de abstração. Mas isso é o copo original. Aquele que empodera e dá o recado "essa pessoa sabe das coisas". Como sempre, existem as versões mais baratas que prometem gelar. Me pergunto como fica o lado emocional. Dá prestígio ser #TeamStanley.

Esses dias, vi um bem faceiro na beira da praia. Um, não. Diversos. Desde que pensei em escrever sobre isso, comecei a prestar atenção e enxergo o tal copo por toda parte. O calor que está fazendo nesse verão certamente ajudou a criar a moda. Quem não gostaria de testar se a bebida permanece mesmo tanto tempo gelada, com o gelo intacto lá dentro? Onde tiver uma roda de gente brindando, a probabilidade é grande do amigo Stanley estar junto. Idem nas piscinas, quadras de esporte, campings, churrascos, pescarias e nas pias de banheiro pra quem sonha com uma água geladinha no meio da noite.

No mundo corporativo, há um verdadeiro fetiche por Stanley. Imagine gerentes e lideranças sem ganhar o seu no kit firma, em agradecimento a tanto suor e lágrimas? Dá justa causa. O poder do copo invadiu outras esferas da vida e até virou notícia. Você deve ter lido a história de um homem em Minas que esqueceu seu Stanley num quarto de hotel e só percebeu quando chegou em casa. Adivinha? Voltou 500 km pra buscar, e a água do copo continuava bem gelada. Notícia ou meme? Tem vários na internet. Quando a ostentação encontra o deboche, sai de perto.

Além do copo com e sem tampa, tem cooler, garrafa, caneca, cuia e até bomba de chimarrão. E você achando que urso só gosta de frio, hein? O da Stanley também esquenta. Será uma mensagem subliminar ao derretimento das calotas polares? Inclusive descobri que essa marca americana (onde a moda também estourou) entrou na América do Sul pela força dos mates e tererês. Pra cervejinha gelada, foi um pulo. O copo é febre no mundo inteiro, e há poucos anos teve sua fabricação interrompida. Nada como o combo influenciadores e redes sociais pra ressuscitar uma marca e criar desejo. A garantia vitalícia é outro forte apelo. Hoje em dia, o que dura a vida toda? Em tempos de amores líquidos, essa promessa dá um quentinho no coração.

INTERINA

12 DE FEVEREIRO DE 2022
FRANCISCO MARSHALL

QUEM MATOU JC?

Não falamos de um crime real, fato ocorrido em uma província romana, mas de narrativas criadas para propagar uma nova seita. Não há pistas na história ou na arqueologia, pois trata-se de um tipo de ficção literária, com argumento religioso repleto de folclore, fantasia e estratégias sociais. Há, todavia, elementos para se abrir a investigação do mais célebre deicídio da história: quem matou JC?

Os suspeitos são três. Primeiramente, os de sempre - judeus acusados por evangelistas. A condenação formal e execução, entretanto, é atribuída a um oficial romano, o segundo suspeito, Pôncio Pilatos. Por fim, a questão crucial: por qual razão foi executado quem se dizia filho de deus? Seria, como diz a fé cristã, um sacrifício - morreu por nós? Vejamos, sempre cientes de que não estamos tratando de história - de algo que teria acontecido, mas de literatura - algo narrado em textos ficcionais religiosos.

Estão em Mateus 27: 24-5 as palavras que se tornaram sentença de morte - não contra o personagem literário JC, imortal, mas contra judeus de verdade; Pilatos lava as mãos e declara-se inocente, diante do povo agitado (judeus? Há controvérsia), em cuja boca o narrador põe a frase: "O sangue dele sobre nós e sobre nossas crianças". O autor faz uma multidão clamar a culpa para si e para seus descendentes, algo insólito, mas que levou à maldição de sangue que cristãos cobraram e cobram de judeus ainda hoje. O mais antissemita dos evangelistas, João, complementou Mateus, esclarecendo a causa do ódio atribuído aos líderes judeus (5: 16-18): perseguiram Cristo porque este realizou atos durante o shabbath (cura milagrosa em Jerusalem) e porque vinculava-se ao Pai (Patér), equiparando-se à divindade. 

Nos Atos dos Apóstolos, ampliam-se essas acusações, que não têm provas, apenas convicção; os relatos são algo contraditórios e ao final deixam claro apenas um fato: os evangelistas queriam acusar os judeus. Provavelmente como estratégia para se posicionar diante do Império Romano, valendo-se de um antissemitismo que já vicejava em Roma. Isso explica por que Mateus limpou a barra para Pilatos, salvando o Império de uma culpa inata, pois a sentença foi proferida pelo oficial romano. Isso poupou cristãos de enfrentar o poder secular do Estado, formalmente relacionado à sentença, que poderia ser facilmente evitada, se assim quisesse um eventual oficial romano; do ponto de vista jurídico, Pilatos é o responsável pela morte de JC.

Lembremos, porém, que são escritos religiosos e que em tudo se trata da força e da autoria do que chamam Deus, e Cristo chama Pai. Em Mateus 26: 39, lê-se a célebre passagem que gerou a linda música de Chico e Gil: "Paizinho, se for possível, afasta de mim esse cálice. Todavia, seja não como eu quero, mas tu". E por assim querer, Jeová consumou para si o sacrifício do próprio filho, fazendo do deicídio também um filhicídio e esclarecendo que os judeus não podem portar a culpa da autoria maior, o Pai (Deus), sobre o destino de seu filho.

E nós renasceremos, sobre as cinzas dos antissemitas, erguendo um cálice com o sumo de Baco.

FRANCISCO MARSHALL

12 DE FEVEREIRO DE 2022
DRAUZIO VARELLA

DEZ RAZÕES PARA NÃO PEGAR A ÔMICRON

Numa época sem vacinas, quando aparecia uma criança com rubéola a mãe convidava as amigas para levarem as filhas para brincar com a doente. Era a estratégia para "pegar" uma doença de evolução benigna logo na infância, para evitar contraí-la numa futura gravidez, fase em que poderia causar malformação fetal.

Seria o caso de agirmos da mesma forma com a variante Ômicron? Se ela é tão contagiosa, não é provável que todos seremos infectados um dia? Não seria melhor pegarmos de uma vez essa variante menos agressiva, com menor risco de hospitalização, para ficarmos livres dessa pandemia que parece não ter fim?

Não é melhor, não, prezado leitor, aliás é uma péssima ideia, pelas seguintes razões:

Primeira: embora a Ômicron esteja associada a formas menos graves da doença, por não provocar comprometimento pulmonar extenso como as variantes anteriores, não será possível prever a evolução da covid em seu caso particular.

Segunda: nenhum de nós pode ter certeza de que nossa resposta imunológica será capaz de conter a multiplicação viral dentro de limites seguros. O número de internações hospitalares e de óbitos nos Estados Unidos continua aumentando apesar da alta prevalência da variante Ômicron que, em cidades como Nova York, ultrapassa 90%. O número de crianças e adolescentes hospitalizados diariamente, naquele país, é o mais alto desde o início da pandemia, em 2020.

Terceira: ainda que você não precise ser internado, não existe garantia de que a covid adquirida será uma tarde no parque. Não é agradável ter uma infecção que causa febre, dores musculares, cansaço intenso, cefaleia, tosse persistente, dor de garganta, coriza, dor de ouvido, perda de olfato e perversão do paladar, entre outros sintomas de intensidade variável.

O filho de uma paciente que tratei anos atrás passou o réveillon na Bahia. Voltou para São Paulo com covid - como tantos. Depois de dois dias, foi levado para o pronto-socorro com dor de garganta e de ouvido tão forte e rebelde, que precisou tomar morfina.

Quarta: as demais variantes provocam quadros com sintomas que costumam regredir depois da primeira semana. Levamos tempo para entender que alguns desses sintomas, ocasionalmente, persistem por semanas, meses e até mais, quadro que hoje chamamos de covid longa ou prolongada. Não há tempo de observação suficiente para ter certeza de que o mesmo não possa acontecer com a Ômicron.

Quinta: acompanho pacientes que tiveram covid em 2020. No decorrer de 2021, receberam duas doses de vacina, mais a dose de reforço e, ainda assim, foram infectados pela Ômicron e caíram de cama.

Esses casos acontecem porque todas as vacinas disponíveis foram testadas em estudos para avaliar a capacidade de evitar quadros graves, com hospitalizações e mortes. Nenhuma delas foi testada para evitar infecções pelo coronavírus, portanto pessoas vacinadas com as três doses ainda podem ser infectadas. A vantagem é que não irão parar nos hospitais.

Sexta: exposto à variante Ômicron, você poderá transmiti-la, ainda que esteja assintomático. Você se tornará um perigo ambulante para adultos não vacinados, pessoas de idade com comorbidades, crianças pequenas e todos os que tiverem sistema imunológico frágil.

Sétima: não há segurança de que, ao se expor, você será infectado pela Ômicron. A variante Delta ainda continua por aqui. E se você contrair uma variante mais agressiva?

Oitava: quanto maior o número de infectados, maior a probabilidade de surgirem novas variantes.

Nona: nós não sabemos se a imunidade adquirida pela infecção por ômicron persiste por muito tempo. Sabemos, no entanto, que variantes como Delta ou Beta induzem a produção de altas concentrações de anticorpos neutralizantes, mas que a duração da imunidade diminui com o passar dos meses. Por que seria diferente com a Ômicron? Por que razão a infecção por ela protegeria contra uma nova variante que, porventura, venha a surgir?

Décima: não faz o menor sentido contrair uma doença com o objetivo de adquirir imunidade quando existem vacinas seguras e eficazes que são capazes de obter esse resultado sem provocar doença nenhuma.

DRAUZIO VARELLA

12 DE FEVEREIRO DE 2022
J.J. CAMARGO

QUANDO OS PAPÉIS SE INVERTEM

Ele foi admitido no setor de medicina interna com sinais de infecção não controlada, com febre persistente e dor abdominal. Se um quadro infeccioso sempre assusta pela imprevisibilidade, quando esta situação é transferida para um paciente imunodeprimido o risco cresce exponencialmente. Pois esse cenário envolvia o Evandro, um homem de 50 e poucos anos, transplantado de rim aos 29.

Depois de uma melhora inicial com o uso de antibióticos, iniciou um quadro acelerado de septicemia, que, agora já se sabia, fora provocada por uma extensa diverticulite.

O quadro infeccioso generalizou-se e, nessa condição, o envolvimento pulmonar é uma complicação quase inevitável e associada a alta mortalidade.

Apesar do uso de doses crescentes de oxigênio por meio de máscaras de alto fluxo, o Evandro passou a exibir sinais de fadiga ventilatória, decorrente do esforço progressivo de manter-se respirando. Quando chegou ao limite, com queda temerária da oxigenação, a intubação tornou-se obrigatória. Ele, que até então se mantinha submisso às recomendações do intensivista, quis conversar com o especialista responsável pelo transplante e pelos vários anos de cuidados subsequentes.

A esta altura, o nefrologista, relator dessa história, fez um parêntese para comentar que usualmente tornava-se amigos dos pacientes pelo carinho que lhes dedicava, mas também e muito pela necessidade de acompanhamento perene, vivessem o quanto os dois, médico e paciente, vivessem. Depois de uma pausa, acrescentou que o Evandro era um paciente especial, por atributos de confiança, generosidade e gratidão ilimitados.

Com esse estado de espírito, o nosso doutor acelerou o passo para socorrer um dos seus queridos. Ao entrar na Unidade de Terapia Intensiva, encontrou o amigo que, apesar de arfante e sudorético, conseguiu sorrir ao estender-lhe a mão arroxeada.

Então inicia-se um diálogo que mistura em doses generosas confiança, angústia, desespero por continuar vivendo e medo de não conseguir:

- Meu querido doutor, tu achas que esta máquina vai me ajudar?

O medo de que já fosse tarde demais se diluiu na afirmação vigorosa:

- Claro que sim. Tu vais poder descansar, e com a oxigenação garantida teremos o tempo de ver os antibióticos funcionarem.

E então, com tudo explicado e coerente, veio a pergunta inesperada: - Doutor, e eu vou morrer?

Quem já viveu esta situação sabe o quanto custa manter a esperança, quando o som das palavras já não soa verdadeiro e o único impulso é abraçar. E foi isso que o Ivan Antonello, um desses médicos para ser copiado, fez. Mas ao sentir o corpo do amigo soluçando no abraço de náufrago, não conseguiu segurar o seu próprio choro. E então, como só pode ocorrer em relações humanas de intensidades proporcionais, inverteram-se os papéis. E o paciente assumiu o comando:

- Não chore, meu doutor. Lá atrás, quando falaram que meu rim não tinha jeito, sim, eu estava morrendo de medo. Afinal, eu só tinha 29 anos e dois filhos pequenos. Agora, vivido este tempo que o seu transplante me presenteou, meus filhos tornaram-se adultos autônomos, e um deles até me deu um netinho, o maior presente da minha vida. Então não chore, doutor, nós somos uma dupla de sucesso!

Quando a intensidade afetiva rompe a barreira de uma pretensa hierarquia, não mais surpreende que o paciente amoroso possa, no limite da gratidão, ser médico do seu médico.

J.J. CAMARGO

12 DE FEVEREIRO DE 2022
DAVID COIMBRA

A liberdade das ratazanas

Uma manhã, eu e o Bernardo saíamos do prédio em que morávamos, em Boston, e vimos, na rua, ao lado de uma floreira, uma gorda ratazana. Levei um susto. Esses ratos grandes, bem fornidos e ousados são mais frequentes em Nova York. Em Boston, até então, eu só havia visto pequenos e simpáticos camundongos. O Mickey.

No nosso prédio, eu tinha certeza, não moravam ratos. Era um prédio muito limpo e organizado, cuidado pelo ótimo zelador Julio, que era salvadorenho. O Julio vivia há mais de 30 anos nos Estados Unidos, e a maior parte desse tempo ele trabalhou no prédio. Formou família, tinha mulher, filhos e tudo mais. Era um americano, já.

Pois decidi que ia avisar o Julio da presença daquela ratazana. Ele certamente saberia o que fazer a respeito. Então, deixei meu filho na escola, voltei e, quando estava chegando, vi o Julio zanzando pela portaria. Cumprimentei-o e saí falando do rato, contei como o bicho era taludo e bem alimentado. O Julio me olhou, pensativo.

_ Ele estava na rua? Perguntou ..._ Sim! _ respondi. _ Bem aqui, na rua, em frente àquela floreira.

_ Então não posso fazer nada. Ele tem a liberdade de ir para onde quiser.

Fiquei perplexo com aquela súbita defesa do Julio do direito de ir e vir das ratazanas, mas não protestei. Entendi que faz parte da cultura americana e que o Julio a havia introjetado depois de tanto tempo morando no país.

Contei essa história no Timeline, da Gaúcha, nessa sexta-feira, para exemplificar como os americanos prezam a liberdade individual. É algo muito forte para eles, muito presente em tudo que fazem. Só que, curiosamente, isso não criou uma sociedade egoísta. Ao contrário: o americano respeita a liberdade individual do outro porque quer que a sua seja respeitada. Ele não vai falar alto no trem ou no ônibus para não dar ao outro a justificativa para falar alto também. Então, a sociedade é solidária no controle à liberdade individual de cada um, inclusive a dos ratos.

O principal trunfo que eles têm para conseguir essa façanha é a Constituição. Jung dizia que existem arquétipos que formam o inconsciente coletivo. Isto é: algo que toda uma comunidade absorveu como verdade sólida. A Constituição americana é assim. Ela está na cabeça de cada americano e dos estrangeiros que lá se radicaram, como o Julio.

Esse fio condutor da vida americana, ao mesmo tempo que mantém a sociedade dentro de regras, dá maiores possibilidades de liberdade, porque você sabe o que pode fazer e o que não pode. E, se você está dentro da lei, você tremula isso como um salvo-conduto. O indivíduo enfrenta o país inteiro, se preciso. Ou seja: os regulamentos que enquadram a vida do cidadão também lhe dão mais liberdade.

É uma façanha dos Estados Unidos. Maior do que ir à lua. Será que algum dia faremos igual?

DAVID COIMBRA

12 DE FEVEREIRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

O EXPERIMENTO DAS FEDERAÇÕES

Decidiu com sensatez o Supremo Tribunal Federal (STF) ao, além de confirmar a legalidade da formação das chamadas federações partidárias, ampliar o prazo para que as siglas formem estas associações. O limite passou do dia 2 de abril para 31 de maio. O resultado do plenário dá mais tempo para as negociações que buscam formar alianças válidas para a eleição de outubro e que serão um casamento forçado pelos próximos quatro anos, quando as legendas terão de atuar de forma conjunta, em torno de um programa comum, quase como se fossem uma agremiação única.

Será um experimento válido, embora seja preciso esperar que as tratativas em curso entre alguns partidos cheguem a um bom termo. Há uma tortuosa costura pela frente para definir a correlação de forças internas nas uniões, vencer resistências regionais e superar contrariedades entre lideranças e filiados. Os incomodados, de toda forma, ainda contam com espaço no calendário para mudar de sigla. Afinal, as federações terão ampla abrangência. O acordo firmado pelas direções nacionais obrigatoriamente será seguido pelas siglas nos Estados e municípios, onde estes mesmos partidos não poderão se vincular a outras legendas para o pleito.

O efeito esperado, portanto, é o de que as federações colaborem para uma maior coerência política devido à afinidade programática que serão forçadas a ter. Será ainda um movimento proveitoso se contribuir para mitigar os efeitos da extrema fragmentação partidária materializada em uma quantidade muito acima do razoável de legendas. Esta miscelânea, hoje, dificulta a governabilidade por exigir negociações no varejo político, o que alimentam o toma lá dá cá.

A minirreforma eleitoral de 2017 deu um importante passo na direção da depuração partidária ao extinguir as coligações nas eleições proporcionais. A nova norma começou a valer a partir do pleito de 2020. Assim, siglas nanicas, muitas verdadeiros balcões de negócios, começaram a ter maior dificuldade porque passaram a eleger parlamentares apenas com os próprios votos, deixando de contar com os depositados para nomes de outras legendas com as quais se coligavam ocasionalmente. E foi além, ao definir uma cláusula mínima de desempenho que, se não for atingida, significa perda do direito de receber recursos do fundo partidário e do espaço de propaganda gratuita em rádio e TV. A partir destas mudanças, algumas fusões e incorporações ocorreram, mas a quantidade de agremiações segue muito acima do razoável. Não existem linhas de pensamento tão diversas que justifiquem a existência de mais de 30 partidos no país.

No ano passado, no entanto, o Congresso instituiu a possibilidade já debatida há algum tempo de criações de federações, o que pode dar sobrevida a legendas pequenas que se unirem ou se somarem a outras mais representativas. Mas, ao fim, há um saudável incentivo para siglas de ideologias semelhantes formarem consórcios a partir de afinidades mínimas e atuarem de maneira mais coerente e coesa nos parlamentos. Em alguns casos, tende a ser a antessala de futuras fusões, colaborando para diminuir pulverização partidária sem sentido hoje reinante.

OPINIÃO DA RBS

12 DE FEVEREIRO DE 2022
TORRES

Caminhos para fugir do óbvio

Trilhas guiadas e gratuitas pelo Parque Estadual da Guarita proporcionam experiência para além das conhecidas belezas naturais

Um novo olhar para o Parque Estadual da Guarita: esta é a proposta da Secretaria Municipal de Turismo de Torres ao criar quatro trilhas gratuitas no local, oferecidas com acompanhamento de guia e diferentes níveis de dificuldade. O roteiro, inaugurado no final de janeiro, vai além das belezas naturais já conhecidas. É possível saber mais sobre a história e a biologia do lugar, e até sobre as lendas que passam de geração em geração.

Segundo o turismólogo e guia de turismo Francisco Reis, o principal propósito é trabalhar a educação ambiental dentro do parque, ação já incluída no plano municipal de turismo:

- A intenção é que os turistas venham, conheçam, amem e nos ajudem a preservar.

Hoje, o Parque Estadual da Guarita é um sítio geológico com relevância internacional. Até por isso, Torres integra o grupo de sete cidades - três gaúchas e quatro catarinenses - que fazem parte do projeto Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul. O projeto está na última etapa de análise da Unesco para ser reconhecido como geoparque mundial - uma área onde sítios e paisagens de relevância geológica internacional, aliados a bens culturais e naturais, recebem estratégias de desenvolvimento sustentável com o foco na conservação do patrimônio.

As novas trilhas foram divididas em níveis de dificuldade, extensão e tempo de percurso, indo do fácil ao difícil. Há uma agenda com dias e horários para os passeios, e as inscrições podem ser feitas no pórtico do Parque. Os grupos têm, no máximo, 15 pessoas. As inscrições podem ser feitas no pórtico da entrada do Parque. É aconselhável que os interessados usem roupas leves, bonés, tênis adequado, levem água e usem protetor solar. Também são seguidos os protocolos vigentes de prevenção à covid-19.

Na companhia de Francisco e do oceanólogo e guia de turismo Geraldo Medeiros Lima, a reportagem de ZH fez nesta semana o roteiro mais longo - a Trilha Vermelha - e destaca os principais pontos da experiência. Confira a seguir.

 ALINE CUSTÓDIO


12 DE FEVEREIRO DE 2022
+ ECONOMIA

Uma cachaçaria na terra do vinho

Conhecida pelas vinícolas que formam o Vale dos Vinhedos, Bento Gonçalves, na serra gaúcha, também abriga atrações turísticas para os fãs de outras bebidas. É o caso da Casa Bucco, cachaçaria com plantação de cana-de-açúcar de 19 hectares, que construiu a sua história na "terra do vinho".

Em 1925, os imigrantes italianos da família Bucco começaram a produzir cachaça de alambique na região. Por anos, a produção foi organizada de uma forma regionalizada. Em 2000, o consultor técnico em bebidas Moacir Menegotto assumiu a casa e incorporou a produção de outras bebidas destiladas.

Segundo Matheus Menegotto - filho de Moacir e um dos administradores do empreendimento -, foi o seu pai quem identificou o potencial turístico da propriedade e passou a desenvolver o modelo de gestão que é utilizado pela empresa atualmente.

No local, clientes e visitantes podem comprar produtos, conhecer o processo de fabricação e se hospedar na pousada que fica dentro da propriedade.

A imersão na cultura da cachaça é um forte atrativo do local, mas não é o único. Localizada no Vale do Rio das Antas, a casa oferece aos seus visitantes paisagens de "encher os olhos". Durante a estadia na pousada, os hóspedes podem realizar "ecoatividades" como trilha com duração de três horas.

Matheus explica que a localização não é só benéfica para o turismo, mas também para a produção da cana-de-açúcar:

- Durante o inverno, na região próxima do Rio das Antas existe a presença de intensa neblina. Por conta disso, ocorre um microclima propício para a produção da matéria-prima.

Desde 2012, a empresa passou a produzir também de maneira orgânica. Ou seja, o cultivo não inclui fertilizantes químicos ou pesticidas, e o trato é manual.

Para visitar o local, não é necessário agendamento prévio. A casa fica aberta das 9h às 17h. Quem deseja se hospedar na pousada deve entrar em contato por meio do e-mail reservas@casabucco.com.br ou pelo telefone (54) 99129-1586.

RAFAEL VIGNA INTERINO

12 DE FEVEREIRO DE 2022
MARCELO RECH

Alvo errado

Quando vai chegando a eleição presidencial, desconfie dos políticos que atacam o "mercado", um suposto inimigo oculto ideal para fertilizar teorias da conspiração e a unção do candidato, é claro, que o fará se dobrar a sua vontade. O tal mercado, não custa lembrar, é um ente formado por toda e qualquer transação econômica. Quando você compra um ovo, está - ainda que em parcela ínfima - ativando a lei da oferta e da procura. Se muitos comprarem ou deixarem de comprar ovos de repente, os preços tenderão a oscilar. E, se não houver confiança dos produtores de ovos, eles escassearão, o que pode levar a uma corrida pelos ovos remanescentes, para o desabastecimento e uma disparada nos preços.

Ninguém terá apertado um botão de maldades. O mercado se regula em quaisquer circunstâncias ou sistemas econômicos e, quanto mais intervenções sofre, mais escapa do controle. A Turquia é um desses casos. O presidente Recep Erdogan é um autocrata que decidiu intervir na marra na taxa de juros, mandando seu Banco Central derrubá-la contra todas as evidências em contrário. Resultado: a lira turca desabou 40% e a inflação anual chegou em janeiro passado a 48,7%. Como bom populista, Erdogan culpou o serviço de estatística, e trocou seu diretor pela quarta vez.

Afrontar as leis básicas do mercado pode render o apoio transitório de quem está sufocado por juros ou preços altos. José Sarney e Collor de Mello buscaram a popularidade fácil e congelaram os preços. Só criaram mais desabastecimento, inflação e juros. Caíram em desgraça, assim como Dilma Rousseff e sua obsessão por intervenções estatais, a exemplo da desastrosa interferência no sistema energético há 10 anos.

Não se pense também que o mercado é um filho perverso do capitalismo. O papel de malvadão cabe ao mercado paralelo, esse sim um rebento típico de sistemas totalitários e economias sob tutela absoluta do Estado. Em minhas andanças por União Soviética, Cuba e Venezuela de prateleiras esvaziadas, sempre topei com economias subterrâneas onde podia-se comprar do bom e do melhor desde que se tivesse dólares no bolso ou se fosse apaniguado do poder. O mercado paralelo não dá bola para ideologias ou bravatas. Quanto mais intervenção, mais negócios nas sombras e mais crise - principalmente para os mais pobres e a classe média.

Na busca desesperada pela popularidade, o presidente Jair Bolsonaro desprezou leis primárias da estabilidade. Furou o teto fiscal, corroeu a confiança e agravou a inflação no Brasil, que, entre os principais países, só ficou atrás de quem no ano passado? Turquia e Argentina, outras campeãs da irresponsabilidade fiscal e do intervencionismo.

MARCELO RECH

12 DE FEVEREIRO DE 2022
J.R. GUZZO

Inflação nos EUA sem a gritaria do Brasil

Acabam de sair os números mais recentes, e eles não deixam dúvida. A inflação nos Estados Unidos, nos últimos doze meses, chegou aos 7,5%. Na última medição, no início de janeiro, o índice estava em 7%; subiu mais, e não se trata de um fenômeno "fora da curva", pois ficou claro que a "curva" é essa mesma. Ou seja: há, sim, inflação alta na economia americana, e ela tende a ficar por aí. Muito bem. Houve pânico? Não houve. É o fim do mundo? Não é. É unicamente o resultado inevitável de dois anos com a economia fechada pelas políticas de lockdown e suas similares que foram adotadas para lidar com a Covid-19. Não poderia dar outra coisa. Não deu.

É certo que há 40 anos, desde 1982, não havia inflação pior nos Estados Unidos. É certo, também, que foi necessário esperar um presidente como esse que está lá, com o seu passeio ao acaso pelos "investimentos sociais" e as suas tentativas de fazer a revolução através de atos administrativos, para se despencar tão fundo. Mas a palavra-chave continua sendo a Covid. Reduziram a produção a quase nada, socaram dinheiro de "ajuda emergencial" em cima de pessoas e empresas, e a consequência é essa aí. Dinheiro doado, em vez de produzido, gera inflação sempre - lá, aqui e no resto do mundo.

Não faz nexo, portanto - mas raramente faz nexo, quando se trata da opinião de economistas brasileiros -, o escândalo levantado no momento em torno da inflação brasileira de 10% ao ano. Queriam o quê? Quanto menos do que esses 10% para ficarem mais calmos? Qual o número que sugerem a respeito? Metade disso? Nada?

Se a inflação americana está em 7,5%, o Brasil tem mais é de dar graças a Deus por estar onde está; não pode ter menos, simplesmente. Problema tem a Argentina, que está com mais de 50% no lombo, ou a Venezuela, com cerca de 700%. Mas a respeito desses não se dá um pio; os companheiros-comandantes Fernandez e Maduro são o modelo econômico, político e ético da esquerda nacional e, de mais, a mais, a culpa pelas suas desgraças é do "bloqueio econômico" americano.

A esquerda ouve essas coisas e fica em estado de agitação extrema; nada irrita tanto essa gente toda, economista ou não, do que um número como os 7,5% da inflação nos Estados Unidos. É uma realidade. Não dá para dizer que ela não existe, ou que a inflação americana é de 1%. Mas em vez de encarar e seguir em frente, atrás de outro assunto, fazem questão de continuar dizendo que o Brasil morreu. Não adianta nada. Não muda a inflação americana. Não muda a inflação brasileira. Fica apenas tudo igual.

J.R. GUZZO

sábado, 5 de fevereiro de 2022


05 DE FEVEREIRO DE 2022
MARTHA MEDEIROS

O resto pode esperar

A cada vez que você procura um livro na estante, você pensa: "preciso organizá-los em ordem alfabética". Acertei? Pois é, mas nunca tem tempo, e acaba demorando para encontrar o exemplar que buscava. O mesmo se dá quando percebe que o antúrio está pegando sol e dizem que não é aconselhável, qualquer hora você irá trocar a planta de lugar, assim como qualquer hora irá comprar uma panela pra substituir aquela que está sem cabo. Uma hora dessas você vai descartar os remédios fora da validade. E irá abrir a lata de atum que comprou em 2019. O que não faltam são horas pela frente, dias e semanas a seu dispor, não precisa ser agora-agora.

Aquela mancha na parede que você disfarçou colocando uma árvore artificial na frente - antes do fim do mês você chamará um pintor. O móvel da sala está infestado de cupim, sua funcionária já alertou, um dia isso virá abaixo, diz ela, tem que tomar uma providência. Não demora você irá tomar. O edredom que o gato rasgou, é preciso resolver: ou corta as unhas desse bichano ou dá outro jeito. Você: eu sei, eu sei.

Pois é, a gente paga as contas em dia, retorna as mensagens, providencia comida para a despensa, não protela o trabalho, a vida funciona do jeito que tem que funcionar, mas como dar conta de todo o resto? Do gigantesco universo das insignificâncias que se escondem por trás da cortina (que precisa de uma lavagem) e dentro daquela gaveta empanturrada de recibos antigos que precisam ser jogados fora? Para onde quer que você olhe, existe uma pendência aguardando a vez. Mas não precisa ser logo hoje.

Tem coisas que não dá para adiar: fazer exercícios, cumprir os compromissos de trabalho, telefonar para a mãe, atender as demandas dos filhos e reservar um tempinho pra ele, pra ela: ninguém é louco de procrastinar um amor. Entre uma coisa e outra, você promete a si mesma que irá arranjar uma tela antiderrapante para colocar embaixo do tapete e chamar o moço que regula o ar-condicionado, da semana que vem não passa.

O marido da sua amiga pegou covid, um primo anda tendo tonturas, uma conhecida arrasou na live, um ex-colega de trabalho se separou. Você mandará um WhatsApp pra todos eles - daqui a pouquinho.

Já já você agendará a colonoscopia que deveria ter feito em outubro. O trinco da porta está meio frouxo, mas deve resistir até o carnaval. Aquele saco enorme de lenhas ainda está atravancando a garagem do prédio, mas qual o problema de permanecer lá até o início do inverno? Ok, ok, só que agora não dá, são nove horas da manhã e você ainda não postou nada no Stories nem bisbilhotou o Instagram dos outros, primeiro as prioridades.

MARTHA MEDEIROS

05 DE FEVEREIRO DE 2022
CLAUDIA TAJES

Uma casa pede ajuda

Na contramão de outros crimes, os feminicídios cresceram no Rio Grande do Sul em 2021. O aumento foi de 23% entre janeiro e novembro na comparação com o mesmo período de 2020.

Feminicídio, como se sabe, são os assassinatos de mulheres motivados por gênero. E, a se julgar pela quantidade desses crimes que o jornal nos traz nesse começo de 2022, nada indica que os números vão melhorar.

Matou porque ela quis terminar o relacionamento. Matou porque ela começou outro relacionamento.

Matou em uma briga por ciúme. Matou porque ela contou para a mãe que apanhava. Matou a mãe dela junto. Matou porque bateu nela desde sempre e, dessa vez, exagerou.

O outro lado desse drama acontece quando a mulher quer romper com a situação de violência e não sabe a quem recorrer, seja por não ter família ou morar longe dela, seja por não ter para onde ir. É aí que entra o tema desta coluna, a Casa de Referência Mulheres Mirabal.

A Mirabal surgiu em 2016, primeiro em uma ocupação na Duque de Caxias. De propriedade dos Irmãos Salesianos, o casarão estava desocupado havia quatro anos, e assim permanece desde que as acolhidas e seus filhos foram despejados de lá em 2018. Desde então, a Mirabal funciona em uma escola abandonada de Porto Alegre e atende as mulheres em situação de risco com uma rede já estruturada que inclui assistentes sociais, advogadas, psicólogas e outras voluntárias coordenadas pelo Movimento de Mulheres Olga Benario.

Hoje as meninas têm uma horta comunitária, promovem feiras, oficinas de recreação e artes para as crianças e de qualificação profissional para as mulheres acolhidas. Dentro de uma realidade de incontáveis necessidades e privações, as coisas estavam nos eixos. Até que, em 1º de dezembro, a CEEE cortou a luz da Mirabal por dívidas anteriores às da ocupação.

Isso significa que adultas e crianças estão passando o verão mais quente dos últimos tempos sem sequer o consolo de um ventilador e de uma geladeira. Procurada para negociar, a prefeitura respondeu que o grupo não é regularizado, nem conveniado com o município, o que impede qualquer tipo de acordo.

Parece bem ruim, mas senta que vai piorar.

Há pouco, um promotor classificou o local como "inadequado para receber famílias na modalidade de acolhimento institucional", além de "não preencher os requisitos necessários para funcionamento na condição de casas-abrigos para mulheres e respectivos dependentes menores em situação de violência doméstica e familiar". Argumentos, vamos combinar, que em nada importam para quem encontrou dignidade e segurança na Mirabal.

Resumindo: um abrigo para vítimas da violência doméstica em que as mães não são separadas de seus filhos e que, como casa de passagem que é, trabalha pelo encaminhamento de mulheres que não tinham horizonte algum, corre o risco de um novo despejo.

De mais uma violência.

Enquanto tenta convencer o Ministério Público de que precisa continuar em atividade, a Mirabal segue lutando para sobreviver. Doações de alimentos e produtos de limpeza podem ser entregues na Rua Souza Reis, 132, das 9h às 17h, todos os dias. Também é possível apoiar com qualquer quantia pelo Pix mulheresmirabal@gmail.com. Maiores informações pelo celular (51) 99332-6597.

Prefeito Melo, que tal conversar com as meninas da Mirabal?

CLAUDIA TAJES

05 DE FEVEREIRO DE 2022
LEANDRO KARNAL

Na semana que passou, cheguei a 59 anos. No próximo ano, 2023, estarei com a idade de poder estacionar em alguns lugares mais próximos do elevador, passar para a fila preferencial e chegar ao título de sexagenário. O tiozão de 40 fala do dilema pavê/pacomê; o tiozão de 60 afirma ser sexy-sagenário. Esperam sempre existir graça nas frases gastas. Deveria existir um estudo de tiozão por tipo de piadas.

Porém, ainda não tenho 60. Falta um ano. Parece um limite aleatório, mas real. Ter 59 se aproxima daquele recurso de vendas: leve a camiseta por 59,99! Ufa, ainda não custa 60! O consumidor "sabe" que o valor de 59,99 é muito mais baixo do que 60 e leva o produto.

Passarei a ter duas opções na caminhada da melhor idade: a primeira, muito comum, é usar roupas de adolescente, dizendo aos amigos, espantados, que minha cabeça se sente jovem (entretanto... minha coluna ri dessa fantasia). Posso fazer coisas como aula de surfe ou skate e, principalmente, postar minhas ações juvenis. Na mesma toada, posso colocar uma foto no Whats uns 20 anos mais novo. Várias amigas e amigos usam o recurso. A imagem, amarelada, copiada de uma foto tradicional revelada, mostra muito mais minha dor do que minha juventude.

A segunda situação do processo de amadurecimento é oposta: passo a enfatizar roupas de respeito e hábitos de gente idosa. Alguns voltam a suspensórios, outros compram abotoaduras, há quem se encante de novo pela abandonada caneta-tinteiro. É quase um processo de restauração histórica: removo as muitas camadas do tempo e mostro o afresco original, antigo, gasto, mais próximo da inauguração do prédio.

Não tenho saudade da minha juventude. Apresento, claro, ligeiras memórias melancólicas de poder sair de casa sem óculos, sem remédios, sem lenço e sem documento. O mundo vai ficando mais pesado, mais carregado, mais cheio de seguros de saúde e planilhas de gastos. Porém, reconheço que, no geral, estando em um momento produtivo e sem doenças graves no horizonte, encaro bem a maturidade.

A memória ainda não falha, todavia o cansaço vai se tornando um pouco mais estrutural. Não é exatamente exaustão física, porém de vontade. "A festa começa às 21h? É tarde... Devem servir o jantar pelas 23h. Vai dar refluxo de madrugada. Quem vai estar lá também? Ah não, esta pessoa é insuportável..." São muitas considerações que a idade vai acrescentando. A cama, em casa, se torna, a cada ano, mais confortável e sair do ambiente doméstico, crescentemente, desafiador.

O cômputo geral é muito positivo. Tenho menos vontade de sair do que na juventude, porém, muito mais desejo de ler bons livros e encontrar os poucos e seletos amigos. Uma música maravilhosa e uma taça de vinho fazem uma festa em si, portátil e boa. Os dramas alheios ficam, cada vez mais, alheios. A opinião do mundo sobre mim ainda causa espanto, no entanto, cada vez mais, é do mundo, não minha. Minha meta é chegar a um ponto em que se torne 100% opinião alheia.

Não sou notavelmente paciente desde a infância. Aprendi a dialogar mais com minhas falhas e as dos outros nos últimos anos Sei, hoje, que tudo traz embutido um custo: de tempo, de dinheiro ou da cota de paciência. Um jantar para quatro pessoas causa-me mais alegria do que uma festa para cem. Homenagens amplas ficam um pouco pesadas: melhor um brinde a dois. Preciso pouco de roupas novas, com exceção daquelas que me colocam para gravar algo na televisão. Não estou mais humilde ou sábio, apenas dirijo minha vaidade para outros focos. Já viajei muito: gostaria de voltar a alguns lugares sozinho, a dois ou com três ou quatro amigos. Aquilo que fiz no passado (exemplo: 30 cidades em 40 dias) não quero repetir. Foi necessário. Passou.

Quero fazer de novo ousadias da juventude: pegar um trem, um ônibus, caminhar muito e, enfim, ver um quadro único em um museu regional, sem fazer fotos, apenas emocionado diante daquele lugar pequeno com uma obra de arte impactante. Lembro-me de ter me desviado muito para ir a Mântua, no palácio Te, para ver uma obra de Giulio Romano, o aluno maneirista de Rafael: A Queda dos Gigantes (Sala dei Giganti). Esse é o tipo de coisa que eu faria de novo, pela beleza da sala e pelo isolamento em alguns momentos. Fiz o mesmo para chegar até a Capela Rothko, em Houston. 

Um restaurante que servia uma burrata especial em Milão representou uma saga a pé. Lugar simples, depois de um espetáculo no Scala. Um barco pequeno e um pôr do sol em família na praia do Sancho, em Fernando de Noronha. Um dia comum e dar de comer a carpas coloridas no Pavilhão Japonês do Ibirapuera. Uma flutuação lenta e calma em Bonito, Mato Grosso do Sul. Um jantar perfeito com um amigo em torno de um bacalhau frito em um restaurante despojado no Brás, em São Paulo. Um banho de banheira olhando o Himalaia com os picos iluminados, solenes e eternos. Uma festa a fantasia para celebrar o aniversário da minha mãe e da minha irmã. Momentos todos felizes, momentos de parar o tempo, momentos de meditação e de prazer. As boas memórias voltam com força e tornam a vida mais intensa até hoje.

Estou quase lá. Não sei onde é lá, mas tenho gostado da jornada. Foram, como diz o trivial parabéns, muitas felicidades e muitos anos de vida. Quero aprender mais e ter mais alguns desses momentos. A vida tem sido, sempre, repleta de esperança pelo bem que recebi e pelo que distribuí. No fim, aos 19 ou 59, sempre a esperança de seguir bem e ser feliz. Obrigado a vocês, leitores e leitoras, admiradores e críticos. Um ano extraordinário para todos nós.

LEANDRO KARNAL

05 DE FEVEREIRO DE 2022
EUGÊNIO ESBER

SENHORES DO TEMPO

No meu sonho, havia um sujeito simpático parecido com um grande amigo de infância que eu tive. Não lembro de mais nada, a não ser de que era uma presença boa, que me dizia algo sobre o tempo e que me contemplava com um olhar sereno.

Fiz meu chimarrão cedo, e o primeiro gole que puxei foi bem longo, aquele que se toma fechando os olhos e espraiando a mente. O que aquela doce figura quisera me dizer sobre o tempo? Por que irrompeu no meu sono? Acaso era o emissário de alguma camada mais profunda de minha consciência, a vir me curar de alguma aflição sobre o tempo dos homens, e das coisas?

Engoli devagarzinho as divagações até o ronco final da cuia.

O trabalho chamava. Como em muitos outros dias típicos, o assunto dominante, no noticiário, era vacina. Aliás, me engano. Logo percebi que a questão de fundo não era sobre outra coisa senão sobre... o tempo.

Uma notícia vinda dos Estados Unidos, e desdenhada pelos veículos do "Consórcio de Imprensa", dava conta de uma decisão judicial de primeira instância que tive de ler mais de uma vez, dado o estupor que me causou. Um grupo de médicos norte-americanos "Pela Transparência" havia solicitado, com base na lei local de acesso à informação, que a Food and Drug Administration (FDA) disponibilizasse os documentos que havia recebido da Pfizer e que deram base à decisão da agência de conceder o registro definitivo à vacina naquele país. A FDA, órgão regulador de atribuição semelhante à da Anvisa no Brasil, informou que não poderia atender ao pedido dos médicos - não no prazo solicitado por eles, 3 de março de 2022. A agência ponderou que teria de fazer uma análise minuciosa de 329 mil páginas de documentos antes de liberá-los, pois precisava reter, sob sigilo, informações confidenciais de natureza comercial do fabricante, a Pfizer/Biontech, e também dados pessoais de quem participou dos testes clínicos.

Tudo parecia razoável, a demanda dos médicos e a resposta da FDA. Mas eis que a agência, para talvez demonstrar quão impraticável seria a liberação de todo aquele material, fez um cálculo assustador. Com base na sua estrutura humana e material, previu que conseguiria liberar só 500 páginas por mês. Levaria, portanto, quase 55 anos para disponibilizar as 329 mil páginas.

55 anos!

Os médicos recorreram e a Justiça, em sua primeira decisão, deu razão à inconformidade deles com as alegações da FDA. Um novo cronograma, mais "razoável", deve ser construído em nome da transparência.

Desde o início da pandemia, lemos e ouvimos que o desenvolvimento de vacinas em tempo recorde é uma proeza da ciência e que fazer perguntas ou expressar dúvidas sobre tal celeridade é obscurantismo. Pois admitamos que sim, que a pandemia tenha legado à humanidade semideuses, senhores do tempo capazes de garantir segurança e eficácia de vacinas em prazo recorde, sem observância de todas as etapas de pesquisa. Acreditemos que o homem subjugou o tempo e o tornou irrelevante.

A pergunta que os senhores do tempo precisam responder é por que a documentação da vacina, aprovada em alguns meses pela FDA, demanda 55 anos para ser aberta ao escrutínio público.

Encontrar sentido na realidade se tornou, por vezes, mais difícil do que interpretar sonho.

EUGÊNIO ESBER

05 DE FEVEREIRO DE 2022
DRAUZIO VARELLA

BOLSONARO E SEUS ACÓLITOS ESTÚPIDOS DESTROEM SAÚDE PÚBLICA IMPUNEMENTE

A Justiça precisa punir os criminosos que atentam contra a saúde pública. Se continuar de braços cruzados, tem que explicar para a sociedade por que razão não o faz.

No último fim de semana fui convidado a participar de um abaixo-assinado redigido por professores da USP, em repúdio a um documento do Ministério da Saúde que teve o descaramento de insistir na farsa da eficácia da hidroxicloroquina, característica que faltaria às vacinas, segundo eles.

Assinei, claro, como o fizeram 45 mil colegas nas primeiras 24 horas. Apesar da adesão em massa, estou certo de que será mais uma ação incapaz de alterar o rumo das políticas adotadas por um ministério desmoralizado, comandado por um lambe-botas incompetente, com credibilidade abaixo de zero, que envergonha a nossa profissão sob o olhar subserviente do Conselho Federal de Medicina.

Há um ano, jornalistas, médicos e cientistas aparecem nos meios de comunicação de massa para repetir à exaustão que as vacinas são seguras e protegem contra as formas graves da doença, afirmações defendidas por todas as sociedades médicas. Não conheço um único médico com um mínimo de formação científica que conteste a necessidade de vacinarmos a população; os que atacam as vacinas na internet ou no governo são ignorantes, curtos de inteligência ou mal intencionados, não há quarta alternativa.

Em contraposição, o ministro e seus auxiliares encarregados do trabalho sujo fazem o possível para desacreditar a vacinação e semear dúvidas sobre a segurança das preparações aprovadas pela Anvisa, uma das agências mais respeitadas do mundo.

O empenho em confundir o povo é tão grande que o ministro da Saúde, acompanhado da ministra que teve o privilégio de receber Jesus no alto de uma goiabeira, viajaram para Lençóis Paulista decididos a explorar o caso de uma menina que teve parada cardíaca horas depois de receber a vacina.

A ministra se apressou a divulgar a "suspeita" pelo Twitter, sem mencionar que o laudo médico já havia concluído que o episódio não guardava relação com a vacina. Na mesma plataforma, o ministro curtiu a mensagem da colega.

Para completar o show de horrores e de oportunismo rasteiro, o próprio presidente da República se deu ao trabalho de telefonar para os familiares da criança, em contraste com o desprezo às 623 mil famílias brasileiras que perderam entes queridos na pandemia.

Enquanto na Inglaterra o primeiro-ministro pode cair por causa de uma festinha que contrariou as recomendações oficiais de isolamento social, no Brasil, o presidente, o ministro da Saúde e seus acólitos escolhidos a dedo nas catacumbas da estupidez humana conspiram contra a saúde pública sem que nada lhes aconteça.

Essa pandemia é mais prolongada do que esperávamos. A variante Ômicron se dissemina numa velocidade impressionante. Em mais de 50 anos de medicina nunca vi virose tão contagiosa. Os mais velhos diziam que a varíola era assim, mas não cheguei a ver porque a vacinação varreu o vírus da face da Terra.

Não podemos nos iludir, essa variante não vai nos imunizar coletivamente. Tenho vários pacientes que tiveram covid, receberam as três doses da vacina e adoeceram outra vez nas últimas semanas, embora com sintomatologia discreta.

Se a doença provocada pelas variantes anteriores não produziu níveis de anticorpos suficientes para evitar a infecção pela ômicron, que certeza pode haver de que não emergirá uma nova cepa capaz de driblar a imunidade induzida por ela? O SARS-CoV-2 permanecerá entre nós. Quanto mais contagiosa for a variante e mais pessoas não vacinadas disseminarem o vírus, mais tempo ele terá para sofrer novas mutações.

Enfrentar epidemia de tal complexidade exige especialistas competentes, coordenação centralizada, serviços de saúde organizados e políticos conscientes de suas responsabilidades, para convencer a população de que todos devem se vacinar e tomar os demais cuidados para reduzir ao máximo a transmissão.

Admitir que autoridades inescrupulosas se dediquem a fazer exatamente o oposto, pondo em risco a saúde e a vida de todos impunemente, é um péssimo exemplo para lidar com esta e com as futuras epidemias. A Justiça não tem o direito de se omitir, precisa deixar claro para as próximas gerações que crimes contra a saúde pública devem ser punidos com rigor em nosso país.

DRAUZIO VARELLA

05 DE FEVEREIRO DE 2022
SAÚDE MENTAL

VALORIZE O AUTOCUIDADO

NÃO ESTÁ SENDO FÁCIL PARA NENHUM DE NÓS: PRECISAMOS DE ENERGIA PSÍQUICA PARA ADMINISTRAR DEMANDAS E ADVERSIDADES DO COTIDIANO

Nossos dias têm sido marcados por emoções diversas, nestes dois últimos anos, com o enfrentamento da pandemia e de todos os impactos que o coronavírus causou à saúde mental e econômica das famílias. Nunca vivenciamos tantas incertezas, instabilidade, frustrações e aprendizagens como nesse período, que nos exigiu resiliência, criatividade e competência para seguirmos nossos caminhos profissionais pessoais.

Hoje lidamos com inúmeras pessoas em situações de estresse pós-traumático, ansiedade, depressão e tantos outros transtornos ligados a saúde mental.

Não está sendo fácil para nenhum de nós! Nem para os pais, adultos e muito menos para as crianças. Quanta energia psíquica necessária para administrar tantas demandas e adversidades deste cotidiano.

O verão está sendo marcado pela elevação nas temperaturas e nos casos de covid-19, por causa da variante Ômicron, gerando um cenário de insegurança, propício para o desequilíbrio da nossa saúde emocional.

Olhar para nossa saúde mental e valorizar uma cultura de autocuidado é necessária para, aos poucos, transformar padrões de pensamento. As pessoas precisam compreender que aproveitar momentos do dia a dia para cuidar de si mesmas é essencial para viver bem. Precisamos trabalhar na linha da prevenção e não só do tratamento. Valorizar a alimentação, o lazer, horas e a qualidade do sono, relacionamentos, trabalho... Enfim, tudo soma para a prevenção.

u devemos aprender a conhecer nossas emoções

Pais e crianças estão cada vez mais precisando buscar ajuda e preparo para manterem-se no rumo adequado do desenvolvimento social. E quando falo em saúde mental, não estou dizendo ausência de doenças ou sintomas, mas nossa capacidade de conciliar o bem estar físico com o social e o mental. Precisamos estar cada dia mais fortes para gerarmos ambientes e relações mais saudáveis em nossos espaços sociais, de trabalho e familiar.

Nosso maior desafio tem sido justamente aprendermos a lidar e a conhecer nossas emoções frente a tantas limitações e mudanças. Priorizar um olhar atento aos cuidados que temos conosco e com os outros, e a forma como vivemos a alegria, a tristeza ou a raiva nos nossos dias. diz muito da nossa saúde mental.

E devemos ter a humildade para reconhecer que precisamos estudar, se conhecer mais, buscar ajuda para exercer nossas funções profissionais e pessoais com mais leveza e sucesso. Estamos todos juntos nessa busca contínua. O que desejo mesmo é que possamos nos reorganizar para este ano ainda de tantas incertezas, mas com a certeza de que quanto mais consciência das nossas emoções, mais autodesenvolvimento, respeito as nossas qualidades e dificuldades, mais aptos estaremos como pessoas, pais e educadores. 

(*) Psicóloga especialista em infância e adolescência - SOLANGE LOMPA TRUDA (*)