sábado, 19 de março de 2022


19 DE MARÇO DE 2022
FLÁVIO TAVARES

O VULCÃO

O dia a dia não é só a sucessão de tragédias que começa na pandemia e chega à invasão da Ucrânia, abrindo caminho à destruição nuclear. Há, também, atos a festejar. Aqui, a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) decidiu arquivar o pedido de licença para cavar uma mina de carvão a céu aberto em terras de banhado à beira do Rio Jacuí, a 14 quilômetros de Porto Alegre.

A Fepam julgou insatisfatórias as alegações sobre a segurança do empreendimento apresentadas pela mineradora Copelmi para abrir a chamada Mina Guaíba. Antes disso, a juíza federal Clarides Rahmeier tinha declarado a "nulidade" do processo de licenciamento. Em 2019, a Fepam pediu novos detalhes sobre a alegada segurança da futura mina, mas a mineradora nada informou.

Limitou-se a alardear que extrairia mais de 166 milhões de toneladas de carvão, 422 milhões de metros cúbicos de areia e 200 milhões de metros cúbicos de cascalho, ocupando 4.373 hectares, equivalente a 4.370 campos de futebol, na maior mina a céu aberto da América Latina, hoje zona agrícola.

O próprio "estudo de impacto ambiental" apresentado pela mineradora, porém, revela que cada explosão liberará 416 quilos de poeira por hora. Em três explosões diárias, nos 23 anos da mina, seriam 30 mil toneladas do terrível material particulado caindo pela redondeza, equivalente a duas bombas atômicas de Hiroshima.

Essas partículas finas, sem cheiro, contêm material pesado, como cádmio, que provoca câncer. Os persistentes ventos espalhariam o material por áreas distantes. Situada em terras de brejo à beira do Rio Jacuí, com as chuvas, em poucos anos, a mina transformaria o Guaíba em um estuário tóxico de águas pestilentas.

Arquivar a licença é um passo adiante, mas não põe fim ao horror. É como um vulcão silencioso, que volta a irromper e destrói tudo. A empresa segue com o "direito" de explorar. Abolido mundo afora, aqui o carvão tem, até, subsídio federal e pode voltar a atacar, como vulcão ativo.

FLÁVIO TAVARES

19 DE MARÇO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

ÚTIL, MAS SÓ UM PALIATIVO

Os indicadores relativos a janeiro, divulgados nos últimos dias, atestam que o país iniciou o ano com o pé esquerdo. Os dados do IBGE até apontaram um crescimento do varejo de 0,8% sobre dezembro, mas os serviços - o setor de maior peso - tiveram uma variação negativa de 0,1%, frustrando expectativas do mercado. A indústria tombou 2,4%. O resultado detectado pelo Banco Central foi um recuo no mês de 0,99% no Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), considerado prévia do PIB, também decepcionando analistas.

É positiva a queda da taxa de desemprego no trimestre encerrado em janeiro para 11,2%, a menor para o período desde 2016, mas os trabalhadores seguem perdendo poder de compra. A renda média, em um ano, caiu quase 10%, mostrou o IBGE. Mesmo os ocupados, portanto, enfrentam aflições diárias ao constatar que seus ganhos são cada vez menos capazes de suportar o custo de vida elevado pela inflação, acima de 10% em 12 meses.

Toda essa avalanche de números não deixa dúvida de que medidas deveriam ser tomadas pelo governo federal para dar algum amparo, especialmente aos mais humildes. Legitima-se, portanto, o pacote anunciado na quinta-feira pelo Planalto para tentar alentar a economia, mesmo que de efeito bastante limitado. Além da nova rodada de saques extraordinários do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), de R$ 1 mil por trabalhador, o Executivo anunciou a antecipação do 13º de aposentados e pensionistas do INSS, a criação de um programa de crédito para microempreendedores e a ampliação da margem e do público que poderá acessar empréstimos consignados.

A necessidade, nesse caso, se soma à conveniência eleitoral. É nítida e lógica a tentativa do presidente Jair Bolsonaro de tentar mostrar proatividade para tirar o Brasil da estagnação e assim recuperar intenções de voto nas pesquisas, em busca da renovação do mandato. Isso não anula, entretanto, o dever do governo de fazer o que estiver ao seu alcance para reverter a predominância de previsões nada otimistas para 2022. Os eleitores, por outro lado, deverão saber julgar o governo não apenas por providências pontuais, mas pelo conjunto da obra - como deve ser a análise de qualquer governo.

Conclui-se, desta forma, que o pacote do governo é somente emergencial e paliativo. Em relação ao INSS, é apenas uma antecipação de recursos que entrariam depois no bolso dos beneficiários. O saque do FGTS já foi usado por Michel Temer e pelo próprio Bolsonaro para gerar demanda maior. O resultado agora é mais incerto, porque a inadimplência também está elevada. De qualquer forma, seja para consumir ou quitar compromissos, espera-se que os brasileiros favorecidos saibam fazer bom uso do dinheiro extra.

Em breve, começarão a ser conhecidos os números da atividade relativos a fevereiro, e depois, os de março, já com os impactos da guerra no Leste Europeu. Não se espera nada empolgante. As soluções que o país precisa são estruturais. Capazes de disseminar efeitos positivos ao longo do tempo e mitigar choques externos. Será auspicioso, por exemplo, se o Senado der continuidade à tramitação da reforma tributária. O texto da proposta que simplifica as incidências sobre o consumo e a produção e cria o imposto de valor agregado (IVA) seria votado na quarta-feira pela Comissão de Constituição e Justiça da Casa, mas a análise foi adiada para os próximos dias.

Com iniciativas como o orçamento secreto e o fundão eleitoral turbinado, o Congresso tem merecido censura dos brasileiros. Se quebrar um paradigma e avançar com uma matéria relevante em ano de eleição, poderá resgatar ao menos uma parte da confiança dos brasileiros. Mas o basilar para o país, sem dúvida, é recobrar a estabilidade institucional e política, base para debates maduros, que possam fazer a nação recuperar o tempo perdido, se modernizar e começar a deixar para trás o ciclo de baixíssimo crescimento. 


19 DE MARÇO DE 2022
MARCELO RECH

A sombra da Segunda Guerra

É uma trágica ironia histórica. Durante e após a Grande Guerra Patriótica, como a Segunda Guerra é chamada na Rússia, a União Soviética outorgou a 12 centros urbanos o título de "cidades-herói" por terem resistido bravamente aos invasores nazistas. Duas delas, Kerch e Sebastopol, estão na Crimeia tomada da Ucrânia por Vladimir Putin em 2014. Outras duas, Kiev e Odessa, são metrópoles ucranianas transformadas agora em palco do teatro de horrores desencadeado por Moscou.

Para aprofundar a ironia, Putin passou a aplicar na Ucrânia táticas que remontam à invasão nazista. Bombardeadas seguidamente, e com as tropas russas fechando o perímetro em torno delas, Kiev e Kharkhiv relembram Leningrado, hoje São Petersburgo, que resistiu por inacreditáveis 900 dias ao cerco dos alemães. Ainda há comida nas cidades, mas as prateleiras estão cada vez mais vazias, e a vida, como em Leningrado, se transfere paulatinamente para os porões e abrigos subterrâneos.

Nada se compara em devastação a Mariupol, uma cidade que chegou a ter meio milhão de habitantes e que vem sendo dizimada pelas bombas russas. Pelas cenas de destruição e com a rotina começando a se esgueirar entre ruínas, Mariupol guarda semelhanças com Stalingrado, hoje Volgogrado, cenário do maior capítulo de resistência russa e um ponto de inflexão da Segunda Guerra após a rendição de quase 100 mil alemães.

Essa memória heroica da URSS sob ataque assombra hoje Moscou, cuja expectativa de uma vitória rápida, com os russos sendo recebidos como libertadores, evaporou-se já nos primeiros dias de batalha. Diante da tenacidade ucraniana, a invasão fez ressurgir outro fantasma. Desde a Segunda Guerra, nenhuma grande cidade foi tomada por invasores sem que tenha havido uma rendição, como Bagdá em 2004, ou sua virtual destruição, como Alepo, na Síria, onde de 2012 a 2016 bombas russas abriram terreno para que forças iranianas e sírias convertessem a cidade em uma pilha de ruínas e legassem mais de 100 mil mortes. Outras cidades atacadas intensamente, como Sarajevo nos anos 90, viveram o inferno na Guerra da Iugoslávia, mas não foram ocupadas, até porque a doutrina da guerra urbana - disputar casa a casa - pouco mudou desde Stalingrado.

Sem um acordo de paz, resta a Putin aferrar-se a seu método mais truculento de demonstração de força, já testado na Síria, na Geórgia e na Chechênia: submeter as populações civis a um bombardeio cruel e incessante até que, pela exaustão, as tropas se rendam ou os invasores tomem enfim as ruínas. Com suas paranoias e métodos sangrentos que recendem a nazismo, Putin macula a memória dos que lutaram e venceram a Grande Guerra Patriótica e abre um fosso que dificilmente se fechará entre dois povos que tinham até poucos anos uma convivência amistosa.

MARCELO RECH

19 DE MARÇO DE 2022
J.R. GUZZO

A pandemia e a educação

Após mais de dois anos de desgraças, a pandemia de covid-19 vai finalmente entrando na sua fase de dissolução, com infecções, mortes e internações hospitalares em baixa, e o desmanche progressivo das medidas impostas pela autoridade pública para administrar a doença.

Nunca se saberá, no Brasil e no resto do mundo, o custo real dessa tragédia sanitária sem precedentes. As ciências médicas e biológicas não chegaram até hoje, apesar do imenso esforço feito em pesquisas, a reunir respostas realmente satisfatórias sobre a pandemia, e nem sobre a real eficácia das providências tomadas por governos e pelas pessoas para lidar com ela.

Hoje, quando o desastre se encaminha para o seu fim, há quase tantas dúvidas quanto havia no começo - e uma sensação de que se pagou um preço alto demais para combater essa guerra.

Fala-se muito das calamidades em cascata causadas pela desaceleração da atividade produtiva em todo o mundo - dois anos de recessão, desemprego, falências, gasto público desesperado e por aí afora. Menos mencionada é a devastação causada na educação dos jovens e crianças pobres com o fechamento das escolas.

Os países desenvolvidos fizeram uma defesa muito melhor do futuro de suas crianças, percebendo, desde o início, que era essencial manter as escolas em funcionamento. O Brasil fez exatamente o contrário. Até hoje há escolas fechadas. Os alunos do ensino privado ainda se defenderam melhor, por terem mais recursos, mas a imensa maioria dos alunos brasileiros do Ensino Básico não aprendeu nada durante esse tempo todo.

As aulas "a distância", para as crianças pobres, foram uma piada: como dar aulas "online" sem computadores, sem internet estável, sem assistência técnica, sem a presença de monitores? Como ensinar sem professores, que trataram de toda essa tragédia como uma questão sindical, fazendo greves para não voltar às escolas e ficando dois anos seguidos em casa?

Os alunos que perderam os anos de 2020 e 2021, e ainda vão receber um ensino deficiente em 2022, sofreram um prejuízo que vai lhes perseguir pelo resto de suas vidas. É muito simples: o que não aprenderam agora não será aprendido nunca.

Nenhum Estado e nenhuma empresa com "sensibilidade social" vai lhes pagar ou compensar por isso. Só vão lhes oferecer empregos ruins, salários baixos, trabalho de má qualidade, sem perspectivas de progresso profissional ou de melhoria de vida - o que sempre se oferece a quem sabe pouco.

O fechamento das escolas, sob a mais completa indiferença dos que mandam e dos que pensam neste país, foi a maior e mais perversa ação de retrocesso social que o Brasil já teve em sua história moderna. A distância entre ricos e pobres aumentou ainda mais, e não há "políticas de igualdade" que possam resolver isso.

J.R. GUZZO

18 DE MARÇO DE 2022
DAVID COIMBRA

O preço do pecado

Uma vez, uma amiga minha, que estava amando e em retribuição era amada, me disse algo que jamais esqueci: - Tenho medo de que alguma coisa muito ruim me aconteça por estar tão feliz.

Parece um raciocínio tortuoso. Não é. Porque é essa a lógica da civilização. As pessoas pensam que a felicidade tem de ser merecida e que o merecimento só se obtém com sacrifício.

Eis a palavra-chave para compreender a alma atormentada do ser humano: sacrifício. Se você está feliz agora, é porque se sacrificou antes. Mas, se está feliz sem ter se sacrificado, talvez tenha de pagar por isso depois. Era o que temia a minha amiga. "No pain no gain", como pregam as academias de ginástica. Sem dor, não há ganho.

É por essa razão que o sacrifício está no centro de todas as religiões. Do patriarca das três grandes religiões monoteístas,

Abraão, Jeová teria exigido o maior de todos os sacrifícios: a imolação de seu filho, Isaac. Essa história mostra como eram comuns os sacrifícios humanos na Antiguidade. Afinal, o que pode ser mais valioso do que a vida de uma pessoa?

O judaísmo aboliu os sacrifícios humanos. Foi uma evolução. Mas animais continuaram sendo imolados até 70 d.C., quando os romanos destruíram Jerusalém e os hebreus se espalharam pelo mundo.

O cristianismo representou outra evolução: os animais não eram mais abatidos, porque o próprio Jesus se sacrificou pela salvação do homem. Ele era "o cordeiro de Deus", que morreu para lavar os nossos pecados. Em vida, Jesus também teria condenado a execução dos animais. Os vendilhões do templo, que ele expulsou a chicotadas, sabe o que eles vendiam? Bois, ovelhas e pombas para o sacrifício.

Tratava-se de um grande negócio. Os mais pobres compravam uma pequena pomba. Os remediados, uma ovelha. Os muito ricos e muito pecadores às vezes patrocinavam uma hecatombe: matavam cem bois. Havia muito dinheiro envolvido em toda essa devoção. Não foi por outro motivo que os sacerdotes se irritaram tanto com aquela pregação pacifista de Jesus.

Apesar desses progressos civilizatórios, a ideia de que a felicidade tem preço está gravada na nossa mente e infiltrada no nosso espírito. Se alguém é feliz, certamente limpou seus pecados por meio do sacrifício.

É um tema extenso, mas hoje quero me deter na América Latina, que passa por imensos sacrifícios. Chico Buarque diz que "não existe pecado do lado de baixo do Equador". A frase não é dele. Foi tirada de Raízes do Brasil, livro escrito por seu pai, o grande Sérgio Buarque de Holanda, que, por sua vez, a tomou de outro autor, ainda mais antigo.

Pai e filho tinham interpretações opostas a respeito da frase. Para o filho, o fato de não haver pecado ao sul do Equador é positivo, a vida é uma festa, urru!, ninguém é de ninguém. Para o pai, era algo negativo, porque assim se comportavam os europeus, quando desciam para o Sul: como se não existisse pecado. Tudo valia, para se ganhar o que se queria: o assassinato, o estupro, o roubo, o logro. A América Latina, então, teria sido construída sobre o pecado.

Tudo indica que o pai estava certo. Porque toda essa dor, todo esse sacrifício latino-americano tem uma fonte: o pecado que foi cometido. A cobiça dos homens, sua ganância irrefreável e, principalmente, sua sede por dinheiro e poder forjaram este pedaço tão belo e triste do planeta. Existe, portanto, pecado ao sul do Equador. E estamos pagando por ele.

Texto originalmente publicado em 13 de novembro de 2019 - DAVID COIMBRA


18 DE MARÇO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

ACLIVES E DECLIVES DO PIB GAÚCHO

Todo o peso da agropecuária na economia gaúcha voltou a dar o ar da graça em 2021. Turbinado pela supersafra, o PIB do Rio Grande do Sul saltou 10,4% no ano passado. Mas o que à primeira vista poderia ser um crescimento de dar inveja a chinês, sabe-se, é resultado de um verão de abundância de chuva depois da seca de 2020 e de recuperação das atividades após o período de restrições que se seguiu aos primeiros meses da pandemia. Mas, ao fim, entre o tombo de 2020 e o robusto recobrar das forças, restou um crescimento líquido de 2,9% nos últimos dois anos, um desempenho nada desprezível.

Sim, a base de comparação foi baixa, mas deve ser ressaltado, por exemplo, o resultado do último trimestre do ano passado. As altas de 3,3% em relação aos três meses imediatamente anteriores e de 5% sobre igual recorte temporal de 2020 mostram que a economia gaúcha encerrou 2021 com boa performance. Para ilustrar, basta comparar com a média nacional. De outubro a dezembro, o PIB brasileiro variou módicos 0,5% ante julho a setembro e 1,6% sobre o último trimestre do ano anterior. Ao longo de 2021, como apontou o IBGE na semana passada, a economia brasileira avançou 4,6%.

Como o esperado, o pulo de 10,4%, apurado pelo Departamento de Economia e Estatística, da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão, foi fruto especialmente da grande recuperação da safra de grãos, que levou a agropecuária à altíssima taxa de crescimento de 67,5%. A indústria, por seu turno, viu seu desempenho subir 9,7%, mais do que o dobro da média nacional. Já o setor de serviços, que inclui o comércio, teve um desempenho de 4,1%, um pouco abaixo do registrado no país.

O resultado do campo, na última década, tem em regra potencializado o PIB do Estado ou então amortecido períodos ruins que afetam os demais segmentos. Mas, quando há estiagens fortes, a agropecuária acaba exacerbando o tombo. Foi o que ocorreu em 2020 e vai se repetir em 2022, devido a um novo verão seco, com perdas significativas e consolidadas nas lavouras de soja e milho. O segundo revés em três anos tem ao menos de servir para que o Rio Grande do Sul avance em medidas que possam destravar projetos de irrigação para mitigar prejuízos em futuros episódios de falta de chuva.

Não bastasse a dificuldade climática, a economia nacional entrou 2022 trôpega, e a Guerra na Ucrânia trouxe mais preocupações, como elevação de custos, novas interrupções de cadeia de fornecimentos, inflação e perda de fôlego da atividade mundo afora. Devido à alta dos preços, o Banco Central elevou na quarta-feira o juro básico da economia para 11,75% ao ano. É uma nova trava aos negócios. Há à frente uma série de incertezas sobre as quais os gaúchos não têm controle.

Resta esperar que o conflito no Leste Europeu se encerre o mais breve possível e, no país, governantes e postulantes à corrida presidencial não coloquem em prática ou acenem com políticas que possam agravar o quadro delicado da economia nacional. Sobra, aos trabalhadores, empresários e produtores rurais do Rio Grande do Sul a possibilidade de mostrarem-se irresignados para contornar dificuldades. O país e o mundo vivem, nos últimos tempos, sacudidos por surpresas negativas. Quem sabe daqui para a frente vire a maré dos imprevistos e a onda de más notícias possa chegar ao fim, dando lugar a novas esperanças.



18 DE MARÇO DE 2022
ACERTO DE CONTAS

Farmacêutica gaúcha em expansão

Fundada há 22 anos, a indústria farmacêutica gaúcha Stem Novalatina, que produz principalmente suplementos alimentares, fechou parceria com duas redes de farmácias: a Drogaria Iguatemi, que tem sete lojas em São Paulo, e a Toureiro Farma, marca de um grande grupo de varejo do Piauí, a Casa O Toureiro. A estrutura física para a expansão de mercado está pronta. A empresa se mudou de Porto Alegre para Alvorada, onde construiu uma fábrica de R$ 10 milhões para aumentar a capacidade de produção em 500 mil unidades por mês. O diretor Guilherme Nunnenkamp quer faturar 47% mais em 2022, mas não fala em valores. Outros detalhes em gzh.rs/stem.

Volta da renda fixa

Não é torcida pelo juro alto, mas a Selic está deixando a renda fixa bem atrativa para estrangeiros e também para brasileiros. O tão sonhado retorno de 1% ao mês fica mais perto, mas é preciso considerar a inflação neste cálculo. No caso do Tesouro Direto, o IPCA+ está pagando a inflação mais um juro anual acima de 5,8%, o que não é mesmo de se jogar fora. É uma boa forma de proteger o dinheiro da alta de preços. 

Títulos atrelados à Selic também acompanham a inflação, que é o gatilho do Banco Central para mexer na taxa. Há, ainda, fundos de inflação, porém, fique de olho nas taxas de administração e compare. Além dos títulos públicos do Tesouro, há os privados, como CDBs, LCIs (Letras de Crédito Imobiliário) e LCAs (Letras de Crédito do Agronegócio). Esses dois últimos ainda contam com isenção de Imposto de Renda. No caso dos CDBs, há opções com rendimento parecido e até maior ao título público IPCA+ com prazos de aplicação acima de um ano. Veja outras opções e como está a poupança em gzh.rs/aplicaçoes.

GIANE GUERRA



18 DE MARÇO DE 2022
EDUARDO BUENO

Viva a vodca

Com o advento da covid, cancelaram os restaurantes chineses. Agora, estão proibindo a vodca. Só espero que a Jamaica não faça nada errado...

Recebi essa piada pelo WhatsApp, e achei deliciosa. Pena que no caso da vodca não seja piada: tem restaurantes não só deixando de servi-la como vertendo esse líquido sagrado à sarjeta. E dizem que o coquetel Moscow Mule passará a se chamar Snake Island Mule, em homenagem aos bravos soldados ucranianos dessa ilha que mandaram um navio russo longe, antes de serem pulverizados por ele, pois chumbo mata mais que palavrões.

Mas os sujeitos que querem proibir a vodca e mudar o nome do coquetel não devem saber nada nem de uma nem de outro. Chamada de "aguinha" pelos russos, vodca sempre foi uma mistura de água e álcool. Só que em vez de ser simples assim, era complexo assim: a combinação dos dois líquidos dependia das propriedades moleculares de ambos, mais especificamente dos pesos relativos. Nos primórdios, a vodca era usada como anestésico e desinfetante, nos tempos em que nenhum dos dois existia. De início, a porcentagem de álcool chegava a 90% e quem ingeria vodca para afogar as mágoas, em geral afogava o resto todo também.

Foi o genial Dmitri Ivanovich Mendeleev quem descobriu em 1893 a fórmula ideal para a vodca, a mesma usada até hoje. Após mais de um ano misturando água e álcool (e provando), Mendeleev concluiu que a composição ideal era 40% de álcool e 60% de água. Aprendi isso no Museu da Vodca em Moscou. Lá descobri também que entre as façanhas de Mendeleev está a criação da Tabela Periódica: ele foi o primeiro a relacionar a massa atômica às propriedades dos elementos. Conclui que o tormento das aulas de química no colégio foi, ao menos em parte, recompensado pelos prazeres do Blood Mary.

Acontece que a história do americaníssimo coquetel Moscow Mule também é sensacional. Em 1939, John Martin obteve a exclusividade da venda da vodca Smirnoff nos EUA. A princípio, tudo desceu redondo. Mas com a Guerra Fria, os lucros se congelaram. Para esquentar o negócio, Martin foi de bar em bar e quando chegou ao pub Cock?n? Bull, em Hollywood, encontrou o proprietário, Jack Morgan, às voltas com um estoque encalhado de ginger beer (cerveja de gengibre). Como Mendeleev, eles se puseram a misturar. Mas a receita só ficou completa quando a russa Sophie Berezinski bateu-lhes à porta querendo se livrar de uma montanha de canecas de cobre, vindas de Moscou, com a imagem de uma mula impressa nelas, e que ninguém queria comprar. A alquimia daqueles elementos faz tabelinha - e o resto é história. Inebriante história.

Isso posto, proponho um brinde à Otan, contanto que seja com Cuba Libre, é claro. Já para Putin, recomendo um coice de mula e uma caneca furada com haraquiri. Ops, daiquiri, claro.

EDUARDO BUENO

sábado, 12 de março de 2022


12 DE MARÇO DE 2022
MARTHA MEDEIROS

Make love

Se não há como impedir a pulsão doentia dos que se excitam destruindo vidas, façamos amor. É minha proposta, eu que sou especialista em nada, menos ainda em furores assassinos. Façamos amor com a desenvoltura de um acrobata que desvia do tiro, com a flexibilidade de um contorcionista, façamos amor como os dançarinos do tango, deixemos para os gestores do inferno os discursos longos e gelados.

Façamos amor com a boca, as pernas, os olhos e o coração pra fora do peito. Que o prazer que inflamamos em nossas trincheiras íntimas atinja em cheio a humanidade. Que dediquemos a esse hospício mundial alguma compaixão, que nossos corpos não se despedacem em vão, que se mantenham inteiros para, fazendo amor, tocarem o sublime. Façamos amor hoje ainda, com a lâmpada acesa.

Façamos amor porque é isso que falta a eles, porque é um luxo que nunca terão, ocupados demais em ganhar dinheiro e anexar territórios, em apoiar a indústria bélica e em iludir-se que são imortais, façamos amor que isso eles não sabem, que isso eles também têm que comprar.

Façamos amor para tirar a roupa, para ficarmos nus como nua é nossa alma, para glorificar a mais antiga forma de pureza - sexo é o antipecado. Despir-se é uma valentia, uma contravenção poética, é quando retornamos ao nosso estado primitivo, ancestral. Não precisamos de armas para sermos majestosos, não precisamos camuflar o ódio que não sentimos, façamos amor entre nós, porque esse é o nosso acordo de paz.

E façamos não apenas o amor erótico e revolucionário, mas também o amor solidário, o amor de existir com plenitude, o amor que nos encontra pela manhã com a mesma integridade com que fomos dormir à noite, o amor que não é assombrado por pesadelos e culpas, já que nunca traímos nossa essência, não optamos por viver apartados, defendendo apenas um lado. Nosso amor é universal.

Façamos amor, como propusemos em guerras passadas, aquelas que julgávamos finitas e inspiradoras de slogans singelos, make love not war, quando acreditávamos que a estupidez do mundo seria passageira. Façamos amor, mesmo o amor tendo esse nome viciado, quase cafona de tão desgastado, amor. Diante da iminência de morrer pelas mãos dos medíocres, façamos o que nos resta fazer.

A morte não é de todo má, nem de todo abrupta, a morte valoriza o poder das nossas palavras, o silêncio da nossa comoção, as cores vivas da nossa existência, a morte é um prêmio ajustado entre as partes, mas a violência é sempre atroz, a covardia mais vil, o ato verdadeiramente obsceno que emerge do escuro. Façamos amor antes que o último miserável apague a luz, façamos amor à tarde, no claro, de um jeito libertário e insolente, enquanto eles ainda não estragaram tudo.

MARTHA MEDEIROS

12 DE MARÇO DE 2022
CLAUDIA TAJES

Do YouTube vieste, ao YouTube voltarás

Nada contra os youtubers, até tenho amigos que são. Brincadeirinha. Nada contra os youtubers, até porque basta não dar audiência para aqueles que não interessam e não acrescentam, independentemente de seus milhares, milhões de seguidores.

É direito assegurado ao mais anônimo dos mortais ser um youtuber. Basta criar um canal e, no mais das vezes, ter cara de pau suficiente para colocar seu conteúdo no ar. É assim que a internet está cheia de canais de todos os tipos e ênfases. Há os que debatem exaustivamente filmes, séries, futebol e política. Há os que ensinam a fazer pequenos consertos em casa e até um foguete espacial. Há os que passam receitas de comida, crochê, tricô, corte e costura, pintura, literatura, tudo pode ser ensinado em um canal no YouTube.

Uma senhorinha muito simpática quase matou seus seguidores ao divulgar uma fórmula emagrecedora que, segundo ela, fazia qualquer um perder 20 quilos em um dia. Imagine por onde esses 20 quilos saíam. As dicas para tirar manchas de alguns canais são realmente eficientes, misturas cáusticas que fazem a mancha desaparecer em segundos. E a roupa também. Tem youtuber exorcista, youtuber hipnotizador, youtuber tântrico, youtuber surubeiro, youtuber coach, youtuber consultor de tudo. E tem youtuber que reage a youtuber, como o Casimiro Miguel, grande sucesso desses nossos dias youtubers.

De todo esse interminável leque, o que mais me intriga são os youtubers que, do nada, viram expressões políticas por conta do que fazem em seus canais na internet. Em geral, tosquices que nem como piada serviriam.

O tal do Mamãe Falei, ridículo desde a alcunha pela qual ficou conhecido, ganhou fama por aparecer em eventos de universidades, escolas, exposições, lançamentos de livros e qualquer outra ocasião em que pudesse provocar os que não comungavam de sua filosofia tradição-família-propriedade. Levou muito cascudo, pontapé e pescotapas, perfeitos para aumentar sua fama de defensor de... de... de que mesmo?

Ligado aos jovens de sapatênis do MBL, contra a Lei Rouanet, discussões de gênero etc, só podia se eleger o segundo deputado estadual mais votado de São Paulo nas eleições que fizeram o Brasil dar muitos passos para trás em tudo, na política, na economia, na educação, na saúde, na cultura. O Brasil que, de repente, passou a ter orgulho da truculência e da ignorância.

Então, na semana passada, já pré-candidato ao governo de São Paulo, o tal do Mamãe Falei viu sua imagem - construída na base de uma moralidade anos 1940 - se espatifar em mil pedacinhos, estilhaços tão pequenos que nem um youtuber especialista em colagem avançada conseguiria ajudá-lo a juntar os cacos.

Os áudios que ele mandou para um grupo de amigos (muy amigos) já são suficientemente conhecidos, nem precisa replicar. Fico só com a parte do "elas são fáceis porque são pobres", ao se referir às refugiadas de guerra na Ucrânia, país que ele supostamente foi servir em sua missão humanitária de fazer coquetéis molotov e turismo sexual.

Depois do vazamento, o tal do Mamãe Falei já desembarcou no Brasil sem namorada, corrido do palanque do Moro, sem chances ao governo de São Paulo e com alguns milhares de seguidores a menos, todos decepcionados com a moral de cuecas de seu ídolo.

Imagino o ex-futuro governador e atual solteiro chegando na casa da família, depois do acontecido. Rabinho no meio das pernas, porque gente assim é muito valente quando se trata de atingir os mais vulneráveis. Ele atravessa o condomínio sob os olhares dos vizinhos, muitos ex-eleitores. Toca a campainha. Abre-se a porta. E ele:

- Mamãe, defequei.

CLAUDIA TAJES

12 DE MARÇO DE 2022
LEANDRO KARNAL

A POLÍTICA DA ARANHA

A velhice de quem não lê será solitária, profetizava uma aluna minha entusiasta dos livros. Sim, ler é uma imensa e generosa companhia. Pensei ainda mais na frase quando ouvi um conto de Machado de Assis: A Sereníssima República. Sim, minha querida leitora intrigada e meu estimado leitor com dúvidas: ouvi, porque estava na narrativa de um site de audiolivros que eu assino e acompanho com fones ao andar ou correr. Também uso livros narrados quando meus olhos, cansados como no poema da pedra de Drummond, não aguentam mais as letras cada vez menores. Porém, gostei tanto do que ouvi, que busquei reler, na minha edição das obras completas de Machado, o conto. Está na coletânea Papéis Avulsos, a mesma que contém O Alienista, Teoria do Medalhão e o intrigante O Espelho. Se cada brasileiro lesse bem um conto de Machado por semana, este seria um país muito melhor.

Volto ao conto ouvido/lido. Um cônego chamado Vargas profere uma palestra sobre uma intrigante descoberta. Após minuciosa observação, descobriu-se capaz de entender a língua das aranhas. Prossegue a imaginação do Bruxo do Cosme Velho: o religioso deu aos insetos uma constituição política. O modelo? A República de Veneza, sempre conhecida como Sereníssima, daí o título da obra.

Da República do Adriático, ele tomou o sorteio de cargos como modelo. Como na Atenas Clássica, o sorteio veneziano era muito frequente para preencher funções públicas. Para tal fim, aranhas hábeis fizeram um saco bem tecido. Os nomes seriam introduzidos e de lá sairiam magistrados e senadores. Aí começou o drama.

Algumas aranhas eram inclinadas à corrupção. Aumentavam ou diminuíam a boca do dito saco, mudavam a grafia de nomes, alteravam as regras tão sábias dadas pelo cônego, tomado por elas como um deus das aranhas. Surgiram grupamentos políticos na nova sociedade: o Partido Curvilíneo, o Retilíneo, um partido de centro (expressão de Machado) conhecido como Reto-Curvilíneo e, por fim, o negador de tudo, o partido Anti-Reto-Curvilíneo, que se limitava a "negar tudo".

As leis eram boas, porém as aranhas políticas faziam mudanças de acordo com o momento. As regras eram torcidas para atender a impulsos inconfessáveis. Em frase lapidar, nosso gênio literário diz que, "infelizmente, senhores, o comentário da lei é a eterna malícia". O que significaria a ideia?

A República é uma boa instituição, e as leis são claras. O sorteio elimina compadrios e deixa ao acaso (geralmente muito sábio) a tarefa de preencher cargos cobiçados. Elimina-se o nepotismo, vício recorrente de sistemas de poder. Porém... por serem cobiçados, os postos são alvo de, digamos, interpretações. Na chamada "hermenêutica jurídica" (juro, será o único termo difícil de hoje), ocorre a mudança da intenção da lei. Interpretar é fundamental para teólogos que se debruçam sobre o texto sagrado ou para advogados e juízes com a constituição aberta a sua frente. Existe um Deus ou uma Assembleia Constituinte que falou ali, todavia, há princípios, metáforas e intenções. Necessita-se da chamada hermenêutica na busca do sentido exato de cada termo dentro da narrativa. Aí, surge a malícia...

As aranhas personificam, claro, a situação política do Império. Os sistemas, por mais elevados que sejam, convivem com seus executores humanos e subjetivos. A excelência da receita culinária depende da leitura de cada cozinheiro/a, no que se deseja com aquele prato e das possibilidades materiais da despensa com ingredientes. O real e o ideal são ilhas isoladas pelo oceano dos comentários, das interpretações, ou seja, da já citada hermenêutica. Toda criança e todo aluno aprendem desde logo: hermenêutica serve para torcer diretrizes...

Machado encerra o conto dizendo que havia de refazer o saco de sorteios constantemente. Recomendava, como modelo, a famosa rainha de Ítaca, Penélope. Ela tecia uma peça incessantemente, escapando de pretendentes e aguardando seu marido Ulisses por longos 20 anos. "Refazei o saco, amigas minhas, refazei o saco, até que Ulisses, cansado de dar às pernas, venha tomar entre nós o lugar que lhe cabe. Ulisses é a sapiência."

Bizarra a sociedade aracnídea! Machado louvou que eram diligentes, esforçadas, trabalhadoras incansáveis. Compara-as ao cão, ao gato e ao mosquito e afirma que, ao contrário das fiandeiras, tais seres "são o modelo acabado da vadiação e do parasitismo". A aranha não nos "aflige nem defrauda; apanha as moscas, nossas inimigas, fia, tece, trabalha e morre". Bem, mesmo tais seres laboriosos ainda podem ser alvo de interesses pessoais envenenadores da isenção aleatória dos sorteios. Nem as aranhas...

Se as tecedeiras incansáveis, melhores do que nós e do que os mosquitos, erram, imagine cada um de nós, muito menos aplicado ao esforço pessoal como redenção de vida. O conselho dado às aranhas é válido: vamos adaptando o saco de sorteios até que Ulisses volte e restaure a ordem na Ítaca-teia-Brasil. Quem será o desejado rei? Se os quatro partidos divergiam na narrativa do Cônego Vargas, imaginem-se cerca de 33 partidos no Brasil? Ah, Ulisses é a nossa esperança...

LEANDRO KARNAL

12 DE MARÇO DE 2022
PENSAMENTO

SILÊNCIO, RACIONALIDADE, PODER

Em tempos belicosos, calar-se e encontrar-se consigo mesmo poderia ser algo mais recorrente, sugere professor e editor

Uma vez que podemos intencionalmente permanecer em silêncio, por certo em incontáveis ocasiões teremos, adrede, calado durante uma reunião, para evitar expor o dissenso, assim como em inumeráveis outras dessas ocasiões, teremos articulado discursos para mostrar as nossas belas razões, ou exibir nosso domínio sobre o tema tratado. Nas duas circunstâncias, porém, procedemos daquela forma principalmente em benefício próprio seja pela não exposição ou, ao contrário, pela premeditada manifestação vaidosa das nossas sabedorias , logo, na essência, almejando um poder. 

Silenciar eventual e propositadamente visando a algo é natural no ser humano, ele pode permanecer silente; todavia, lhe é complicado manter silêncio consigo próprio, pois não é uma disposição humana normal. Nos outros animais o silêncio é algo natural, ao passo que nos humanos vem a ser momento de confronto com conflitos interiores. Quem aborda de forma singular esse tema é o filósofo britânico John Gray, em sua obra O Silêncio dos Animais (Record), na qual também trata de outro tema que lhe é caro: a dubiedade ou mesmo a contrafação que carrega a ideia de progresso.

Uma das razões da infelicidade humana, disse B. Pascal em seus Pensamentos (1670;88), está no fato de o indivíduo não saber permanecer solitário em silêncio em seu quarto. Na modernidade, para além dessa dificuldade, guardar silêncio significa o constrangimento de abrir mão de algo que o mercado considera um valor: a exigente produtividade humana de cada dia, o requerimento da ação. Permanecer silente é se encontrar com suas inquietudes interiores, angústias, contradições; enfim, defrontar-se com os próprios indizíveis sofrimentos, o que a "produção da produtividade", empana. Afinal, dizem os produtivos, não se pode menosprezar a dispersão, que hoje seria considerada prática que dá um sentido à vida.

O indivíduo humano costuma não aprender com suas experiências; mais, não aprende que não aprende e, assim, esboça sua intermitente irracionalidade ao perpetrar repetidos malfeitos. Se o conhecimento avançou ao longo da nossa história, o mesmo não se pode dizer da racionalidade - pois o não uso da razão, do pensamento predecessor e condutor da ação, digamos assim, é notório no cotidiano. A razão humana é descontínua e parcial, os indivíduos não são totalmente racionais nem em tempo contínuo. 

Quando nos referimos à história humana queremos mais dizer sobre a história do progresso, que, todavia, não encontra correspondência num aumento da racionalidade: nesse aspecto, diz Gray, os indivíduos permanecem praticamente os mesmos, condição de que são provas cotidianas rudimentares, por exemplo, aquelas ridículas desavenças miúdas familiares ou comunitárias com que nos defrontamos a toda hora, ou os desentendimentos boçais no trânsito: só a irrazão os justificam. E então, onde radica o progresso?

Diante da já exaustivamente falada rasteira polarização ideológica que atormenta nossos dias - traço inequívoco da ausência da razão -, vem a calhar a lembrança de uma conformação pouco racional conhecida como dissonância cognitiva. Suponhamos que um neomessiânico me afirme que amanhã um disco voador chegará aqui com alienígenas de poderes extra-humanos para acabar com a dita polarização; todavia, no dia seguinte, nada: eles não vieram. 

O neomessiânico com certeza justificará a não vinda porque os visitantes constataram que ainda não seria o momento conveniente, precisaríamos sofrer mais doses de polarização irracional para merecermos descanso. Isto é, a não vinda dos extraterrestres salvadores reforça a crença absurda do neomessiânico, que tem suas convicções inabaláveis mesmo diante de qualquer outra constatação racional. Dissonância cognitiva. Como diz Gray, se a racionalidade fosse uma ciência, há muito teria entrado em descrédito.

Diante da guerra, em bonita terminologia humanista, criaturas conclamam a paz - uma manifestação inócua e tão vazia quanto sentimentalista. Comentaristas usarão todo seu vocabulário para explicar numa visão intelectual as causas geopolíticas da guerra, conquanto, imagina-se, estejam bem cientes de que a irracionalidade do conflito tem como origem primeira e fundação a inelutável ânsia pelo poder. Exaltar a paz é mero sentimentalismo. Paz, como liberdade, mas diferentemente de silêncio, é apenas um vocábulo.

CARLOS ALBERTO GIANOTTI

12 DE MARÇO DE 2022
FRANCISCO MARSHALL

OS BÁRBAROS E O OUTRO

Barbaroi era como os gregos chamavam a um povo que capturavam para escravizar, na Trácia, na costa do Mar Negro, atual território de Romênia, Bulgária e Turquia. É o povo cita (trácio), que Heródoto (484-425 a.C.) foi pesquisar e cuja descrição aparece no quarto livro (capítulo) de sua obra Histórias; o pai da História e da Etnografia foi o primeiro a tentar compreender o outro e posteriormente difundir mensagem cultural visando ao fim da guerra. Os demais gregos ouviam o idioma alheio como um bar-bar-bar incompreensível, de onde geraram o onomatopaico até hoje usado, bárbaro, muito revelador. Porém, revelador de quê? Do outro ou de quem o chama de bárbaro?

No livro O Espelho de Heródoto (1980, com tradução de Jacyntho Lins Brandão em 1999), François Hartog examina a representação cultural do outro e as várias formas com que as descrições de povos estrangeiros, sobretudo os citas, tornam-se formas de representar negativamente e afirmar por contraste a identidade grega. Em Heródoto, os citas (e outras etnias) são descritos com características diametralmente opostas às dos helenos, o que os define como os não gregos; assim, afirmam-se as qualidades positivas do narrador e sua cultura diante do outro, que é transformado numa espécie de espelho narcísico, subordinado aos fins do autor grego. Nessa operação, temos como referência apenas o texto de Heródoto, o que é insuficiente para sabermos como eram de fato os citas e outros povos, pois tudo subordina-se a esse objetivo autorreferenciado, no qual o que se revela é o que são ou querem ser os gregos, por contraste com os bárbaros.

Podemos ver na relação entre gregos e o que chamavam bárbaros o modelo para compreendermos a alteridade histórica, ou seja, como a representação do outro explica quem a faz, o dono da fala ou a cultura que alimenta as imagens do outro. Isso nos leva a pensar também a construção da violência no embate com o outro diferente, e a centralidade histórica do olhar senhorial masculino na matriz das narrativas hegemônicas, desde a antiguidade.

Com esse critério, a visão das etnias pode avançar para examinar relações entre gêneros, em que a mulher é representada como o outro para certo olhar masculino, como o bárbaro o foi para gregos. É o caso da narrativa sobre mulher feiticeira, capítulo central da história da ginecofobia, que vem de fonte muito antiga. No Grande Hino a Osíris, literatura do antigo Egito, a deusa Ísis é apresentada como "a hábil em sua língua, cujas fórmulas mágicas não falham" (trad. Emanuel Araújo), a feiticeira, como o foram para os gregos Circe e Medeia, entre outras. A demonização da mulher como bruxa, na era inquisitorial moderna (séculos XV a XIX), levou a Igreja a matar milhares de mulheres, uma das grandes violências da história. Em recente fala do genocida, as mulheres apareceram como o outro "praticamente integradas na sociedade". É quando o bárbaro e a barbárie se evidenciam e mostram quem e o que de fato são.

O outro, a outra e cada um de nós. Mistério e desafio, e o convite para conhecermos a riqueza e a complexidade do que nos constitui.

FRANCISCO MARSHALL

12 DE MARÇO DE 2022
CRISTINA BONORINO

COINCIDÊNCIAS

E quis o destino que em 2019 eu estivesse almoçando no campus da UFRGS com colegas da física após gravar um episódio do podcast Fronteiras da Ciência. E se senta na mesa uma mulher vibrante que, fui saber depois, era a Marcia Barbosa, física internacionalmente famosa, já escrevi aqui. Eles falavam de um podfiction (uma radionovela, digamos) que iria compilar histórias de mulheres da física, baseado numa peça de teatro e serie do YouTube feita por ela e pela também física Carolina Brito, que lidera um projeto chamado Meninas na Ciência.

E, quanto mais eu ouvia, mais fascinada ficava - Serrapilheira financiando; podfiction feminista; um produtor para escalar atores; mil histórias que queriam contar. Faltava um roteirista, não tinha orçamento. Quase ajoelhei e implorei que me escolhessem. Inacreditavelmente, eles toparam. As reuniões começariam em 2020, mas algo iria começar também, sabemos hoje. Os cientistas não pararam; o podfiction, também não. E certamente escrever a Saga da Carlota com elas, mais o Jefferson Arenzon e o Ricardo Severo, via Zoom, foi definitivo para a nossa sanidade mental.

Desafios não faltaram. Eu aprendi a escrever para cinema; mostre, não diga. Mas podfiction não tem imagem! Além disso, não sou física. Como explicar as dificuldades das mulheres nessa área? Coincidência ou não, descobri que os problemas não se resumiam à fisica, mas aquelas histórias poderiam ser de qualquer mulher cientista. E, mesmo, de qualquer mulher.

Mais de uma vez, ao dramatizar um episódio, os meninos da equipe falavam "que exagero, ninguém vai acreditar..." - só para alguma de nós três dizer: isso aconteceu comigo. Nossa heroína, Carlota, persiste na física apesar de ninguém acreditar que isso seria possível; os pais, os colegas, namorados. Soa familiar? O que estimula uma mulher a tentar mudar o mundo, mesmo sem nunca esperar ser reconhecida?

Logo no início contamos a história de Maria Meyer, a segunda mulher premiada com o Nobel de Física. A manchete do jornal de San Diego, onde morava, no dia seguinte, era: "Mãe local ganha o Nobel da Física". Que dificuldade de admitir que uma mulher pode ser mãe e brilhante; que isso não é o mais importante da notícia. Demos à Carlota o problema estudado por Deborah Jin: é possível criar outro tipo de matéria? Não é coincidência que uma mulher pensasse nisso.

Não encaixamos em um mundo em que chamam só homens para debater o dia das mulheres. Em que acham que mulheres pensam apenas em roupas e sapatos. Na voz de Ilana Kaplan, nossa narradora, dizemos: este é o momento de as mulheres contarem suas próprias histórias. De construir um mundo novo. Trabalho brilhante dos atores que deram voz às nossas histórias, entre eles, Mel Lisboa, Nany People, Fafi Siqueira, Otávio Martins, Samuel de Assis. A Saga de Carlota é um jeito bem legal de celebrar o mês da mulher. Ouve lá!

CRISTINA BONORINO

12 DE MARÇO DE 2022
DRAUZIO VARELLA

CAFEÍNA E SONO

Sem um gole de café pela manhã, sou indigente. Consigo trabalhar, falar o essencial e até raciocinar, mas em câmera lenta. É o primeiro cafezinho que me devolve a vontade de viver.

Um estudo recém-publicado na revista Science Translational Medicine mostra que, além das propriedades euforizantes, o café consumido à noite perturba o sono.

Até aí, minha avó sabia. O mérito de Burke e colaboradores, da Universidade de Zurique, foi elucidar os mecanismos moleculares por meio dos quais uma quantidade de cafeína equivalente a dois expressos, interfere com o ciclo circadiano - conjunto de reações do organismo que se repetem a cada 24 horas - controlador dos períodos de sono e vigília.

A cafeína é antagonista dos receptores da adenosina, substância essencial para que o sono se instale no cérebro.

Existem dois tipos de receptores cerebrais para a adenosina: o primeiro é considerado inibidor de sua ação (portanto do sono), enquanto o outro é facilitador.

A quantidade média de cafeína ingerida por qualquer um de nós, diariamente, é suficiente para antagonizar até 50% de ambos receptores, ação que nos deixa mais alerta, combate a fadiga, prolonga o tempo de vigília e reduz a profundidade do sono.

Como dormir é essencial para a saúde e a qualidade de vida, os ciclos de sono e vigília são regulados por uma sintonia fina existente entre os processos homeostáticos e os circadianos.

A necessidade homeostática de sono se acumula no decorrer do dia e se dissipa enquanto dormimos; já o relógio circadiano determina a hora de pegar no sono.

O marcador mais preciso para avaliar a necessidade de sono são as ondas lentas (ondas delta) que aparecem no eletroencefalograma, com frequências de 0,75 a 4,5 hertz. Como a cafeína atenua a atividade dessas ondas e bloqueia os receptores da adenosina, sua influência na homeostasia do sono havia sido sugerida há vários anos. O grupo de Burke investigou se ela também afeta o relógio circadiano.

Usando um protocolo rígido por um período de 49 dias, os autores quantificaram o efeito de 200 mg de cafeína, ingeridas três horas antes de ir para a cama, na produção de melatonina, o hormônio que controla o ritmo circadiano de diversos processos, entre os quais o de sono-vigília.

Verificaram que a cafeína atrasa 40 minutos no ritmo da melatonina, quase a metade do retardo causado pela exposição à luz brilhante.

Os autores concluem que as alterações provocadas pela cafeína nos mecanismos que regulam o relógio circadiano podem contribuir para a alta incidência de distúrbios do sono na sociedade moderna. Além disso, a interferência da cafeína com as ondas de baixa frequência tem efeito negativo nas funções cerebrais que dependem da integridade dessas ondas.

Por outro lado, a cafeína pode ajudar a enfrentar o jet lag das viagens intercontinentais e os que sofrem de alguns distúrbios do ciclo circadiano de sono-vigília.

Para conciliar o prazer e as ações benéficas do café com a necessidade de dormir, costumo evitar o cafezinho nas oito horas que precedem o horário de ir para a cama.

DRAUZIO VARELLA

12 DE MARÇO DE 2022
ESPIRITUALIDADE

DE MAHAPRAJAPATI A JOEN

Mulheres de Buda, assim eram chamadas as discípulas de Sidarta Gautama, jovem príncipe que abandonou a vida palaciana, as mordomias e alegrias de um filho recém nascido e saiu em busca da verdade e do caminho. Caminhou, pesquisou, indagou, investigou e se tornou um Buda. Feliz com sua descoberta da impermanência e da relação entre tudo que existe, retornou à casa paterna (o palácio real) e relatou a todos sobre suas descobertas. Há uma lei, a da causalidade ou origem dependente: disto surge aquilo e daquilo surgem outras possibilidades.

Todos se maravilharam. Entre eles, sua mãe adotiva, Mahaprajapati. Foi tanto o seu encanto que ela pediu ao seu filho que a acolhesse em sua comunidade como monja.

Não. Isso seria impossível. Mulheres na comunidade? Seria um desastre, os lares desfeitos, as crianças abandonadas.

Mahaprajapati era a irmã da rainha Maya, mãe biológica de Buda. A rainha morreu uma semana após o parto. A irmã o criou como se fosse seu. Teve outros filhos com o rei, pai de Buda. Tornou-se rainha e auxiliava mulheres carentes. Seu nome, Mahaprajapati, significa líder de uma grande assembleia.

Naquela época, na Índia, mulheres sem maridos, sem filhos, primos, tios, ou seja, sem um homem que as protegesse, eram marginalizadas. Mahaprajapati as ajudava a encontrar ofícios simples - costuras, alimentos, serviços de limpeza e cuidados com crianças nas casas ricas. Eram mais de 500 que sobreviviam graças ao apoio da rainha.

Quando Buda voltou ao palácio e explicou os ensinamentos sagrados, Mahaprajapati sentiu que deveria seguir esse caminho de desapego. Buda negou várias vezes seu pedido e se foi para outras áreas, sempre ensinando o que aprendera. Mahaprajapati e as 500 mulheres o seguiram.

Certo dia, ao fazer uma palestra, seu auxiliar, Ananda, indagou: "Mestre, todos os seres podem despertar?".

"Sim, Ananda. Todos." "Inclusive as mulheres, Mestre?" "Certamente, Ananda." "Por que o senhor não ordena Mahaprajapati?"

Buda não soube o que responder, mas passou a refletir.

Quando os homens abandonavam as famílias para seguir a vida monástica, suas mulheres eram marginalizadas e a família se desfazia. Ora, por certo, ordenar as mulheres não seria o fim das famílias, como ele pensara. Refletiu e ordenou Mahaprajapati - a primeira monja histórica. E, por ela ter se submetido a longas e cansativas caminhadas, a desagravos e abusos, e haver a tudo resistido, tornou-se monja. Assim, a comunidade budista é composta de monges e monjas, leigos e leigas.

Joen é uma jovem praticante Zen da atualidade. Ela não pensa em ser monja, mas é uma das mulheres de Buda. Pratica zazen, estuda os ensinamentos, participa das liturgias e mantém a fala correta. Se Mahaprajapati não houvesse insistido, eu não teria me tornado monja e não poderia ter passado os Preceitos laicos a Joen. Tudo está interligado, desde o passado mais remoto ao futuro distante. O que fazemos, falamos e pensamos mexe na trama da vida.

Mulheres devem ser incluídas e respeitadas como seres humanos dignos de afeto, amor, alegria e equanimidade. Não devemos permitir nenhuma forma de abuso, preconceito, discriminação e exclusão. A mente da equidade é a mente superior, é a mente Buda, e essa mente é desenvolvida por mulheres e por homens. Não é igualdade, mas equidade: vidas humanas têm todas o mesmo valor.

Mãos em prece

ESPIRITUALIDADE

12 DE MARÇO DE 2022
DRAUZIO VARELLA

CAFEÍNA E SONO

Sem um gole de café pela manhã, sou indigente. Consigo trabalhar, falar o essencial e até raciocinar, mas em câmera lenta. É o primeiro cafezinho que me devolve a vontade de viver.

Um estudo recém-publicado na revista Science Translational Medicine mostra que, além das propriedades euforizantes, o café consumido à noite perturba o sono.

Até aí, minha avó sabia. O mérito de Burke e colaboradores, da Universidade de Zurique, foi elucidar os mecanismos moleculares por meio dos quais uma quantidade de cafeína equivalente a dois expressos, interfere com o ciclo circadiano - conjunto de reações do organismo que se repetem a cada 24 horas - controlador dos períodos de sono e vigília.

A cafeína é antagonista dos receptores da adenosina, substância essencial para que o sono se instale no cérebro.

Existem dois tipos de receptores cerebrais para a adenosina: o primeiro é considerado inibidor de sua ação (portanto do sono), enquanto o outro é facilitador.

A quantidade média de cafeína ingerida por qualquer um de nós, diariamente, é suficiente para antagonizar até 50% de ambos receptores, ação que nos deixa mais alerta, combate a fadiga, prolonga o tempo de vigília e reduz a profundidade do sono.

Como dormir é essencial para a saúde e a qualidade de vida, os ciclos de sono e vigília são regulados por uma sintonia fina existente entre os processos homeostáticos e os circadianos.

A necessidade homeostática de sono se acumula no decorrer do dia e se dissipa enquanto dormimos; já o relógio circadiano determina a hora de pegar no sono.

O marcador mais preciso para avaliar a necessidade de sono são as ondas lentas (ondas delta) que aparecem no eletroencefalograma, com frequências de 0,75 a 4,5 hertz. Como a cafeína atenua a atividade dessas ondas e bloqueia os receptores da adenosina, sua influência na homeostasia do sono havia sido sugerida há vários anos. O grupo de Burke investigou se ela também afeta o relógio circadiano.

Usando um protocolo rígido por um período de 49 dias, os autores quantificaram o efeito de 200 mg de cafeína, ingeridas três horas antes de ir para a cama, na produção de melatonina, o hormônio que controla o ritmo circadiano de diversos processos, entre os quais o de sono-vigília.

Verificaram que a cafeína atrasa 40 minutos no ritmo da melatonina, quase a metade do retardo causado pela exposição à luz brilhante.

Os autores concluem que as alterações provocadas pela cafeína nos mecanismos que regulam o relógio circadiano podem contribuir para a alta incidência de distúrbios do sono na sociedade moderna. Além disso, a interferência da cafeína com as ondas de baixa frequência tem efeito negativo nas funções cerebrais que dependem da integridade dessas ondas.

Por outro lado, a cafeína pode ajudar a enfrentar o jet lag das viagens intercontinentais e os que sofrem de alguns distúrbios do ciclo circadiano de sono-vigília.

Para conciliar o prazer e as ações benéficas do café com a necessidade de dormir, costumo evitar o cafezinho nas oito horas que precedem o horário de ir para a cama.

DRAUZIO VARELLA