sábado, 8 de abril de 2023


RISCO PARA O CORPO E PARA A MENTE

COMO O USO EXCESSIVO DO CELULAR PODE PREJUDICAR A SAÚDE DE ADULTOS E CRIANÇAS

Na metade de 2018, o desenvolvedor de software Jaydson Gomes, 38 anos, saiu em uma viagem de férias depois de quatro anos sem períodos de descanso. Mas, no primeiro dia, percebeu que navegava no celular pelo feed do Instagram ao invés de descansar. Na época, às vésperas de eleições, ele se sentia estafado com a desinformação e a violência dos debates acirrados que lia nas redes sociais.

- Lá estava eu, em um lugar maravilhoso, mas querendo ver o que as pessoas falavam, ou que elas vissem onde eu estava e o que fazia - relembra Gomes, que na hora deletou as contas que tinha no Facebook, Twitter e Instagram para seguir viagem sem postar nada.

Sair das redes causou abstinência por um tempo pela angústia de não ver as fotos postadas pelos amigos ou os debates quentes na internet, conta o desenvolvedor. Isso porque, para ele, as redes sociais aliviam momentos de "microtédio", mas na prática deixam as pessoas mais ansiosas. Ao abandoná-las, Gomes diz que deixou de passar entre três e quatro horas diárias no celular para se dedicar a hobbies, como o canto e a leitura.

- O modelo de negócios das redes sociais é (monetizar) a atenção das pessoas, então não é por acaso que ficamos presos em um feed. Isso foi feito por design, baseado em estudos, com algoritmos feitos conscientemente por essas empresas para ficarmos dentro dessas redes consumindo - afirma o desenvolvedor, que abandonou as redes sociais por também achar antiético o modo como elas são programadas.

Hoje, por exemplo, os brasileiros estão entre os que mais gastam tempo ao celular. No índice global, o país ocupa o segundo lugar, empatado com Arábia Saudita e Singapura. Em 2022, foram cerca de 5,3 horas diárias de uso por morador do Brasil, em média. Os dados são da consultoria data.ai, que publica anualmente o relatório State of Mobile sobre o uso de dispositivos móveis no mundo inteiro.

Um estudo publicado em janeiro deste ano na revista Journal of Technology in Behavioral Science, da Nature, acompanhou por três meses 50 universitários que usavam redes sociais no dia a dia e pediu a parte deles para reduzir o acesso. Em comparação ao grupo-controle que manteve o uso regular do aparelho, quem cortou horas de tela aliviou sensações de solidão e depressão, além de sentir melhoras na imunidade e no bem-estar geral.

Para além das redes sociais, o uso intensivo de celulares também pode estar relacionado ao vício em jogos digitais. Desde 2018, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o abuso de videogames uma forma de dependência da mesma classe que a ludopatia, o vício em apostas. O uso excessivo de celulares, no entanto, ainda não é reconhecido como uma forma de vício, apesar de estar associado a uma série de danos à saúde mental, ortopédica e oftalmológica.

u Text-neck, a síndrome do pescoço de texto

Pesquisadores brasileiros publicaram em janeiro deste ano, na revista científica Healthcare, da MDPI, um estudo que associou o uso de celulares por mais de três horas diárias à dor nas costas entre adolescentes dos 14 e 18 anos. O problema já é conhecido por ortopedistas, que até já cunharam o nome de text-neck, ou síndrome do pescoço de texto, para as dores causadas pela má postura ao se usar o celular por longas horas.

- Quando ficamos com a coluna para a frente olhando uma tela, o peso da cabeça aumenta pelo efeito de braço de alavanca que isso acarreta. Então há uma sobrecarga da coluna cervical que inicialmente gera dores musculares e o uso repetitivo traz um desgaste prematuro da coluna, que leva à artrose e a hérnias de disco, agravados pelo uso repetitivo do celular - explica o médico ortopedista Alexandre Fogaça, chefe do grupo de coluna do Hospital de Clínicas da Universidade de São Paulo (USP).

Na avaliação de Fogaça, usar telas na altura dos olhos para forçar menos a coluna pode prevenir o problema, assim como a prática de atividades físicas para preparar a musculatura para a tensão cotidiana. Ainda assim, apesar do alívio às costas, os ombros, cotovelos e punhos permanecem vulneráveis, o que pode levar a tendinites.

- Piorou muito durante a pandemia. As pessoas foram para home office e nem sempre tinham laptop, adaptação em casa, cadeira adequada, suporte para computador ou tela na altura dos olhos - lamenta o ortopedista, que também é secretário-geral da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (Sbot).

A proximidade das telas com os olhos também levou a um aumento em distúrbios de visão, principalmente a miopia. Um estudo do Conselho Brasileiro de Oftalmologia de 2021 apontou que 70% dos médicos da área relataram um aumento nesse tipo de diagnóstico em crianças e adolescentes durante a pandemia.

- Temos um mecanismo nos olhos, semelhante ao foco da máquina fotográfica, chamado de acomodação. Quando usamos a visão de perto, o músculo dos olhos precisa trabalhar mais para manter a imagem nítida, o que leva a alterações bioquímicas que fazem o olho alongar - diz a médica oftalmologista Atauine Lummertz, do corpo clínico do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), ao explicar que é esse alongamento ocular que causa a miopia.

Segundo estimativas de pesquisadores australianos, mais da metade da população mundial será míope até 2050 e por volta de 10% terá alta miopia, índice acima dos seis graus. A hipótese apontada pelos cientistas para a tendência é o maior tempo que as pessoas permanecem no interior de casas, salas e escritórios, bem como o uso excessivo de aparelhos eletrônicos. Em ambos os casos, a proximidade com os objetos é parte da explicação.

u Efeitos sentidos nos consultórios pediátricos

A luz da tela de celulares confunde o mecanismo que nosso cérebro usa para diferenciar o dia da noite, o que pode levar a dificuldades para adormecer e atrasar a produção fisiológica dos hormônios que nos ajudam a dormir. Um estudo saudita publicado em 2019, por exemplo, identificou que a qualidade do sono diminui proporcionalmente ao tempo de uso do celular à cama. Ou seja, o uso excessivo do celular à noite pode trazer uma série de riscos à saúde em decorrência da privação de sono.

- No curto prazo, o indivíduo fica mais cansado, sonolento, irritado, com mais chances de acidentes e erros de cognição no dia seguinte. No médio e longo prazo gera alteração metabólica, ganho de peso, resistência à insulina, hipertensão arterial, baixa imunidade e transtornos de humor, como depressão. Entre adolescentes, o rendimento escolar fica inferior ao potencial, ele cochila nas aulas e não quer fazer atividade física - relata a médica neurologista Andrea Bacelar, diretora da Associação Brasileira do Sono (Absono).

Andrea ressalta que, além das questões oftalmológicas e de sono, o uso excessivo de celulares também tem afetado os vínculos afetivos de crianças, que em alguns casos estão ficando mais individualistas e com pouco contato físico no dia a dia, o que pode dificultar o aprendizado infantil em como interagir e socializar.

As repercussões do uso nocivo já têm chegado aos consultórios pediátricos. Dados do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) apontam que 93% dos brasileiros com idade entre nove e 17 anos são usuários de internet, principalmente para assistir vídeos e acessar redes sociais. Em 52% dessas crianças, o celular foi o único dispositivo utilizado para o acesso, índice que cresce para três a cada quatro menores de idade entre aqueles das classes D e E.

- Qual a estratégia das plataformas, desenvolvedores e provedores? Eles querem o cérebro dessa criança. Usam cor, música, ruído, movimento de tela, imagens, para atrair a curiosidade. Também a impulsividade por meio de recompensas, como pontos, likes e seguidores. O que a criança deveria fazer em vez de ficar na frente da tela? Atividade física, ir para um parque, jardim, caminhar com os pais e por aí vai - diz a médica pediatra Evelyn Eisenstein, coordenadora do grupo de trabalho "Saúde na Era Digital" da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

Evelyn ressalta que, de acordo com o CGI.br, mais da metade dos pais não sabem o que seus filhos fazem na internet, o que traz riscos à proteção da criança, que pode estar vulnerável a conteúdos maliciosos. Além disso, a pediatra também critica o uso de telas como "babá-eletrônica" por parte de responsáveis.

- É uma distração passiva. Tá no restaurante e, no lugar de dar à criança um papel, lápis de cera, crayon, se entrega um celular para ela ficar girando o dedo. A criança não é um miniadulto. O cérebro dela está em desenvolvimento, com toda a parte das emoções amadurecendo. Então volta a questão: quem produz vídeos e desenvolve jogos para crianças quer o quê? Eles usam o cérebro da criança de um modo lucrativo - alerta Evelyn.

5,3 horas

foi o tempo médio gasto diariamente, em 2022, por brasileiros em aparelhos móveis. com a Arábia Saudita e Singapura, o Brasil foi o segundo país com maior uso diário, atrás da Indonésia (5,7) e à frente da Coreia do Sul (5) 

PEDRO NAKAMURA 


08 DE ABRIL DE 2023
ARTIGO

PÁSCOA

A ressurreição de Jesus de Nazaré é a pedra angular da fé cristã. Ele foi fiel ao projeto do Pai. Sua pregação consistia no anúncio da boa nova do perdão e da misericórdia, e, por isso, foi condenado à morte pelo poder político e religioso de então.

A fidelidade de Jesus ao projeto do Pai e sua determinante coragem incomodaram os poderes estabelecidos. Foi considerado um rebelde, um blasfemo, e, por isso, foi executado como um maldito.

Porém, o Pai, amante apaixonado pela vida, "ama tudo que existe e não despreza nada do que fez" (Sb: 11, 24); por isso, não permitiu que a morte tivesse a última palavra. Aquele que parecia um derrotado, despojado de tudo e abandonado na cruz, ressuscitou. Assim, pode-se compreender que a cruz e o sofrimento têm o seu lugar na história humana, mas em função da ressurreição.

Páscoa é a passagem da morte para a vida: vida nova em Cristo, vida de irmãos e irmãs, vida de igualdade, justiça, paz, solidariedade, amor. Páscoa é a vitória da vida sobre a morte e tudo o que a morte significa.

O inaudito da ressurreição lança luzes sobre a história humana. Em meio às mais variadas situações do cotidiano, todos são convidados a seguir os passos do Homem de Nazaré: ele é vida!

O ser humano é mais forte do que os limites e contradições que traz na sua natureza. O germe da vida vencendo a morte e do amor superando as formas de egoísmo estão presentes no íntimo de todo ser humano. Ele não vive para morrer, mas morre para ressuscitar. Esta é sua destinação final.

Com a ressurreição de Jesus, desponta a convicção de que as utopias jamais morrerão, os sonhos de libertação jamais serão pesadelos, a luta dos pequenos e pobres será sempre vitoriosa e as forças da vida terão sempre a última palavra. Por mais cruéis que sejam, todas as tiranias, opressões, corrupções e guerras passarão!

Celebrar a Páscoa é, pois, dispor-se para o novo! Implica acolher a súplica que sobe aos céus desta "terra dos homens" por mais vida e vida em abundância (conforme Jo: 10, 10). Abençoada Páscoa!

 Arcebispo de Porto Alegre e primeiro vice-presidente da CNBB - DOM JAIME SPENGLER


08 DE ABRIL DE 2023
FLÁVIO TAVARES

PÁSCOA OU COELHINHO?

A Páscoa cristã tem origem na Pessach judaica, que simboliza a libertação de 400 anos de escravidão no Egito e a travessia do Rio Vermelho rumo à Terra Prometida. As datas quase coincidem, tal qual agora.

No cristianismo, a Páscoa significa a ressurreição de Cristo, ainda que muitos pensem que é só empanturrar-se de chocolate. No judaísmo, é o ressurgir da liberdade para o povo de Israel.

Não é só isso, porém, que aproxima as duas datas. A última ceia de Cristo com os apóstolos foi um jantar de Pessach e aí está a fonte teológica dos católicos e luteranos. Leonardo da Vinci imortalizou a cena numa pintura cuja reprodução adorna a maioria dos lares no Ocidente.

Em suma: no fundo, trata-se de uma só data que, de forma diferente mas próxima, festeja a ressurreição, pois libertar-se da escravidão é, também, uma forma de ressuscitar.

É assim que, no rito católico, o papa lava os pés de pessoas do povo numa demonstração da humildade que deve pautar nossas vidas. Nos últimos anos, com o papa Francisco, o lava-pés deixou de ser apenas um ritual a esmo e se transformou num exemplo concreto de serviço à vida.

O papa Francisco é hoje o grande defensor da preservação do meio-ambiente e um crítico acérrimo das desigualdades sociais oriundas do capitalismo predatório. Veio dele a grande ressurreição do cristianismo após o aggiornamento de João XXIII, que iniciou a libertação da Igreja das amarras medievais da escuridão.

Por isso, a Páscoa é ressurreição em tudo. O "coelhinho" é apenas um símbolo da fertilidade reproduzida em cada um de nós. É impossível, porém, não mencionar a brutalidade vil da chacina de Blumenau (SC), onde um homem pulou o muro de uma creche e - a machadadas - assassinou quatro criancinhas. Depois, fugiu em motocicleta e se entregou à polícia.

Tudo é grotesco e terrorífico, gerando perplexidade, pois não há explicação para o assassinato de quatro inocentes absolutos. Cabe, no entanto, pesquisar as causas profundas que geraram um episódio em que a maldade e o ódio se uniram, tornando impossível qualquer tipo de interpretação da chacina.

Dizer que o criminoso é um psicopata não explica sequer a sordidez da bandidagem. Às vésperas da ressurreição da Páscoa, o crime torna-se ainda mais brutal em si mesmo.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

08 DE ABRIL DE 2023
OPINIÃO DA RBS

ATENÇÃO À PRIMEIRA INFÂNCIA

Exemplo pioneiro de política pública exitosa, o programa Primeira Infância Melhor (PIM), lançado pelo governo do Rio Grande do Sul em 2003, está completando duas décadas de existência com ganhos sociais incomensuráveis para parcela significativa da população gaúcha. Centrado no atendimento domiciliar a famílias com gestantes e crianças menores de seis anos, o PIM promove ações de saúde, educação, cultura e desenvolvimento social, orientando pais, mães e cuidadores sobre o trato com os pequenos. Estima-se que nesse período em que foi mantido e continuado por governos de diferentes orientações ideológicas, caracterizando-se assim como uma política suprapartidária de Estado, o programa já tenha beneficiado mais de 245 mil famílias, a maioria delas em condição de vulnerabilidade social.

O alvo principal é a criança. A estratégia de atendimento parte do pressuposto científico de que os primeiros anos de vida são decisivos para o futuro dos indivíduos. Crianças que recebem nutrição adequada, cuidados médicos e estímulos para o seu desenvolvimento psicológico terão mais chance de se transformar em cidadãos saudáveis, íntegros e felizes. A metodologia do programa gaúcho tem seu suporte teórico baseado em estudos sobre o desenvolvimento infantil feitos por autoridades internacionais reconhecidas, como Paulo Freire, Jean Piaget, Lev Vygotsky e Donald Winnicott.

Realizado em parceria com os municípios, o PIM presta atendimento atualmente a mais de 22 mil crianças e a cerca de 2 mil gestantes. A adesão ao programa é voluntária e ocorre mediante convite, no qual os visitadores informam claramente às famílias sobre os objetivos e ações a serem desenvolvidas. Aquelas que, por algum motivo, optarem por desligar-se do programa não sofrerão qualquer prejuízo nos benefícios socioassistenciais a que têm direito.

Confirmada a adesão, os núcleos familiares passam a receber visitas periódicas de técnicos e profissionais habilitados a identificar suas potencialidades e necessidades, orientando-os sobre desenvolvimento integral infantil, parentalidade positiva e cuidados na gestação. Gestantes e famílias com crianças menores de quatro anos recebem atendimento semanal. Famílias com crianças maiores de quatro anos recebem atendimento quinzenal.

Embora já atinja metade dos municípios do Rio Grande do Sul, o programa Primeira Infância Melhor tem potencial para ampliar seu atendimento no Estado, o que está entre as prioridades do atual governo. Mas, ao longo desses 20 anos, a experiência gaúcha atingiu tal reconhecimento que hoje inspira iniciativas semelhantes em outros Estados da Federação e até mesmo no Exterior.

Investir na infância é investir no futuro da nação. Com baixo custo e elevado retorno social, o programa que tem como objetivo oficial "apoiar as famílias, a partir de sua cultura e experiências, na promoção do desenvolvimento integral das crianças, desde a gestação aos seis anos de idade", também alcança a condição de política pública inteligente, construtiva e democrática a serviço do país. O Brasil precisa muito de iniciativas e realizações desse teor. 


08 DE ABRIL DE 2023
CHACINAS EM SC

Por que os ataques a escolas se repetem?

Fatores culturais e sociais existentes na sociedade brasileira podem estar relacionados ao aumento de ocorrências como o ataque a crianças em uma escola de educação infantil em Blumenau, em Santa Catarina, na quarta-feira. É o que apontam especialistas em saúde mental e em comunicação nas mídias digitais.

Para a psicanalista e psicóloga Marina Pombo, pós-graduada em Saúde da Criança com transversalidade em Violência e Vulnerabilidade, o que está ocorrendo no Brasil é um fenômeno social, e não algo relacionado à saúde mental de forma individualizada. Ela afirma que o tecido social no país está extremamente violento:

- Não se fala mais em mediação e em conversa. Temos um tecido que fala muito da individualização das causas, de cada um por si, e esse movimento vai fazendo um pouco do movimento contrário do que as escolas fazem. A escola sempre precisa ter um pensar no bem em comum, em prol de todos, na inclusão e na equidade.

Segundo Marina, o motivo de os ataques ocorrerem em escolas está ligado ao lugar desse espaço na sociedade. É onde se tem diálogo e questionamentos.

- É onde se intervém em relação ao aluno que faz bullying ou que está sendo agressivo. A escola ainda é um lugar onde tem alguém observando e intervindo, dizendo que não pode bater no coleguinha porque ele não emprestou o estojo, por exemplo. E isso na sociedade de adultos está precarizado por conta de anos com discurso de violência - explica Marina.

A psicóloga fala que hoje a sociedade está reforçando a cultura da violência e diminuindo os espaços de diálogo, reforçando a exposição maior de agressividade e ódio. Marina reforça que há uma epidemia de ataques em curso, importada dos Estados Unidos, onde casos como o ocorrido em Blumenau se repetem.

Intolerância

O aumento da intolerância e da cultura de violência "importada" também é ressaltado pelo psiquiatra forense Thiago Fernando da Silva, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. Segundo ele, o cenário se agravou nos últimos anos porque a "cultura da violência passou a ser glamourizada", com mais discursos de intolerância, menos espaço para resolução de conflitos de forma amistosa e incentivo a políticas públicas de maior acesso a armas.

Pesquisador de mídias digitais e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Marcelo Fontoura explica que casos como o de Blumenau podem ter ligação com o crescimento e a radicalização de grupos de ódio. O docente relata que pesquisas recentes indicam a existência de conexão entre esses grupos online quando se trata de conduta extrema:

- Mas não podemos reduzir só a isso porque estes grupos, normalmente, têm milhões de pessoas. Não significa dizer que alguém por circular lá fará isso. A questão é que algumas pessoas estarão predispostas.

Fontoura salienta que as redes sociais são ferramentas que podem auxiliar no processo de radicalização, mas não o único motor. Segundo ele, geralmente a pessoa com acesso às redes já tem questões pessoais que a deixam propensa.

- A rede social não transforma as pessoas: é a pessoa quem dá o primeiro passo - reforça.

 ALINE CUSTÓDIO


08 DE ABRIL DE 2023
ÁGUA E ESGOTO

Congresso avalia reverter decretos sobre saneamento

O Congresso vai discutir como reverter os decretos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que mexeram no marco do saneamento básico e abriram caminho para que empresas públicas estaduais possam continuar operando sem novas licitações. A decisão do governo contrariou até mesmo integrantes da base aliada, especialmente na Câmara.

O deputado Fernando Monteiro (PP-PE), aliado do governo, vai apresentar projetos de decreto legislativo para derrubar os dois decretos assinados por Lula. Os projetos anulam por inteiro os efeitos das regras editadas pelo presidente. O conteúdo, porém, pode ser alterado para derrubar apenas alguns trechos. Uma proposta como essa precisa ser aprovada por maioria simples na Câmara e no Senado.

- O Congresso votou uma lei, eu defendia uma transição maior para manutenção dos contratos de programa (aqueles assinados diretamente pelas prefeituras com as empresas sem licitação), mas perdemos no Congresso. Podemos discutir a volta dos contratos de programa, mas não pode ser por decreto. A minha briga não é só pelo mérito, é pela forma - afirmou Monteiro.

Os partidos da oposição também irão protocolar propostas para tentar derrubar os decretos de Lula. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), já tomou conhecimento dos projetos e sinalizou a possibilidade de pautá­-los no plenário da Casa.

Entre as principais mudanças trazidas pelo marco, estão a abertura do setor à iniciativa privada e o estabelecimento de metas para a universalização do serviço. O saneamento foi por anos prestado, majoritariamente, por estatais. A ideia da nova lei foi aumentar a concorrência e buscar melhorar a qualidade da infraestrutura oferecida.

Desde a aprovação do marco, em 2020, 22 leilões já foram realizados, com R$ 55 bilhões em investimentos, segundo a Associação e Sindicato Nacional das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de água e Esgoto (Abcon Sindcon).

Líder do MDB na Câmara e aliado de Lula, Isnaldo Bulhões (AL) afirmou que não concordou com os decretos.

- Tenho certeza de que não vou concordar com 100% do que veio no decreto, até porque vivi isso no Congresso e na estruturação do projeto de saneamento aqui em Alagoas - disse Bulhões, citando a concessão feita pelo Estado em 2020, após a aprovação do marco, como um "sucesso".

Os decretos causaram críticas até mesmo dentro do governo. Segundo técnicos, as mudanças assinadas por Lula podem adiar os investimentos no setor e comprometer a universalização dos serviços prevista na lei, cujo prazo é 2033.

Capacidade

Outra dúvida no governo é sobre a falta de capacidade técnica e financeira das estatais de saneamento, que podem continuar sem condições de comprovar as exigências do marco mesmo com a flexibilização dos critérios.

O prazo para que comprovem essa capacidade de investimentos (que já tinha vencido em 2021) foi adiado para dezembro de 2025. Até agora, muitas das estatais sequer entregaram a documentação necessária.

Antes da edição dos decretos por Lula, 1.113 municípios, com população de 29,8 milhões de pessoas, tiveram os contratos considerados irregulares com as companhias de água e esgoto após análise da capacidade financeira para cumprir os objetivos do novo marco: universalizar os serviços de água e esgoto até 2033, com fornecimento de água para 99% da população e coleta e tratamento de esgoto para 90%.

Outra mudança prorrogou para dezembro de 2025 o prazo para a regionalização do serviço de saneamento. O marco estabeleceu que se criassem blocos regionais, formados por municípios mais rentáveis do ponto de vista econômico, com cidades menores, com baixa viabilidade comercial. A regionalização dos serviços deveria ter ocorrido até o dia 31 de março, mas muitos municípios perderam a data.

Atualmente, 100 milhões de pessoas não têm rede de esgoto, e falta água potável para 35 milhões, segundo ranking divulgado neste ano pelo Instituto Trata Brasil, com base nos indicadores de 2021 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento.


08 DE ABRIL DE 2023
INFORME ESPECIAL

Um sonho que começa a se realizar

No início de outubro do ano passado, Andrey William Oliveira Silva, hoje com 22 anos, foi personagem do espaço Chamou Atenção, de Zero Hora. Era o início do sonho do gari acostumado a correr vários quilômetros por dia junto aos caminhões que fazem a coleta do lixo orgânico na Capital. A história narrada pelo repórter Tiago Boff contava o desejo do jovem de vida humilde de um dia se tornar maratonista. Esse dia está chegando.

Andrey foi auxiliado pelo projeto social Peregrinos Revolucionários, que também atua na Vila Safira, na zona norte da Capital, onde ele mora. O coordenador na iniciativa, Cláudio Roberto da Costa, contatou o fotógrafo Marcelo Campos, 20 anos de experiência em marketing esportivo, que aceitou fazer imagens do rapaz enquanto corria na Redenção. As fotos nas redes sociais o ajudaram a receber um apoio rápido e inesperado. Ganhou tênis apropriado, relógio de corrida, foi avaliado e passou a ser treinado pelo triatleta Luciano Alves. Os resultados apareceram em poucos meses.

No começo do mês, na Capital, Andrey venceu o circuito de 10 quilômetros da corrida Go Green Eco Race, que tem a economia circular como temática e tenta unir esporte e sustentabilidade. O evento foi organizado pela Norte Marketing Esportivo, com patrocínio da Braskem, por meio da Lei Federal de Incentivo ao Esporte. Foi a terceira prova que Andrey participou e a sua primeira vitória. Para o gari, que treina três vezes por semana e conta com o apoio da empresa onde trabalha para conciliar ofício e a preparação, é só o começo. O próximo objetivo é participar de uma maratona de verdade. E vai acontecer. Ele vai correr na 38ª Maratona Internacional de Porto Alegre, no início de junho, em que terá de encarar um percurso de 42 quilômetros.

Andrey conta que teve despertada a vontade de ser maratonista ao assistir a chegada de uma prova na TV. A comemoração do vencedor segue viva na memória.

- Eu quis ter aquela sensação - lembra o gari.

- Em pouco mais de cinco meses de trabalho já estamos colhendo os frutos em termos técnicos - conta Campos, um dos integrantes da mobilização solidária que começa a viabilizar a Andrey a possibilidade de alcançar um sonho que parecia distante.

A pretensões não são modestas.

- Quero ser o maior atleta do Rio Grande do Sul - diz o gari, convicto.

Afinal, como diz o ditado, quem corre por gosto não cansa. E, quem sabe, alcança.

***

FRASES DA SEMANA

Nossa avaliação é superpositiva. Vamos observar como vai ser a tramitação no Congresso.

Roberto Campos Neto, Presidente do Banco Central, criticado por Lula e pelo PT, avaliando de forma positiva as diretrizes do arcabouço desenhado pelo governo para preservar as contas públicas.

Eu me lembro do Grande Sertão: Veredas, em que Riobaldo tenta vender a alma ao diabo e o diabo nem responde. É mais ou menos o que está acontecendo com o arcabouço.

LINDBERGH FARIAS, Deputado federal (PT-RJ), em um episódio de "fogo amigo", usando obra de Guimarães Rosa para criticar a proposta do novo marco fiscal.

Se você está numa corrida de cavalo dizendo que o seu cavalo é pangaré, que seu cavalo tá com gripe, que seu cavalo tá cansado, ninguém vai fazer nenhuma aposta nele.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA, Presidente da República, pedindo a ministros para serem mais otimistas em relação ao desempenho da economia em 2023.

Fechei os bebês no banheiro, depois vieram na porta dizendo que ele ?veio matando?, ele foi no parque para matar.

SIMONE APARECIDA CAMARGO, Professora da Creche Cantinho do Bom Pastor, em Blumenau (SC), atacada por um homem que matou quatro crianças, contando como agiu para salvar bebês que estavam no local.

Não podemos e não iremos normalizar condutas criminosas graves.

ALVIN BRAGG, Promotor que conduz as acusação do processo criminal contra Donal Trump, sustentando que todos os cidadãos devem ser tratados igualmente perante a lei.

Reforço que não me interessa o lado financeiro nessa história e, sim, a justiça.

FELIPE MASSA, Segundo colocado mundial de Fórmula 1 em 2008, o brasileiro admitiu acionar a categoria e a Federação Internacional de Automobilismo na Justiça para assegurar o campeonato, após declarações de ex-chefão da F1 sobre manipulação do GP de Cingapura, que poderia ter dado o título ao piloto brasileiro.

O único crime que cometi foi defender com coragem nossa nação daqueles que procuram destruí-la.

DONALD TRUMP, O republicano, que se tornou o primeiro ex-presidente dos EUA a ir parar no banco dos réus, disse estar sendo perseguido no processo em que é acusado de subornar uma atriz pornô.

E ouvirás toque de gaita e de violão

No final de março, a titular da coluna, Juliana Bublitz, noticiou que a Capital ganharia mais um mural, dentro da onda de arte urbana que vem colorindo e tornando a cidade quase uma galeria a céu aberto. No caso, um muro seria pintado para homenagear a família Fagundes, que há tanto tempo se dedica a cultivar e a divulgar a cultura gaúcha. Pois aí está na foto uma parte do trabalho do designer e grafiteiro Jackson Brum, que já está pronto. O paredão que recebeu a intervenção tem, ao todo, 71 metros de comprimento e 2,5 metros de altura e fica entre a Rua Voluntários da Pátria e a Avenida Castelo Branco, no 4º Distrito.

Na imagem, Bagre, Paulinho, Ernesto e Neto Fagundes posam para uma foto junto à representação de Nico Fagundes, que partiu para a estância grande do Criador em 2015.

- É uma homenagem aos Fagundes, mas também a todos os interioranos que constroem a sua trajetória na Capital - diz Ernesto, lembrando as raízes da família, em Alegrete.

A iniciativa foi das empresas porto-alegrenses TGD e Edificare Engenharia, em parceria com a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos.

RS nas telonas

Pela primeira vez o Estado estará na Rio2C, evento no Rio de Janeiro que reúne grandes nomes da indústria criativa, como o setor audiovisual. A intenção é promover os destinos cinematográficos do RS. A Secretaria de Turismo do Estado marcará presença no encontro, entre terça-feira e o próximo domingo. Existem diversas organizações que incentivam a realização de produções audiovisuais em cidades como Bento Gonçalves, Antônio Prado, Garibaldi, Pelotas, Santa Maria, Gramado e Porto Alegre, além da Rota Cinematográfica.

A iniciativa da pasta busca fortalecer e incentivar a cadeia do turismo, já que a presença de equipes de filmagem divulga as regiões e tem impacto direto sobre os destinos, movimentando toda a economia desses locais.

CAIO CIGANA INTERINO

sábado, 1 de abril de 2023


01 DE ABRIL DE 2023
MARTHA MEDEIROS

Duas mãos e o sentimento do mundo

O que mais gosto dela são os seus anéis. Mentira. Tudo nela é fascinante. A voz e o que essa voz diz, a cabeça e o que essa cabeça pensa. Um mulherão, a minha amiga. Dona de anéis enormes: pedras roxas, cristais verdes. Sempre teve a mania de esticar o braço para olhar a própria mão. Linda mão, com dedos compridos, unhas bem aparadas. Ela podia estar comentando sobre o discurso de um chanceler ou sobre o enredo de um filme, mas em algum momento dava uma espiadinha para sua mão, a fim de apreciá-la com distanciamento, como se faz quando queremos analisar melhor uma obra de arte.

As mãos, uma vez ela me disse, são importantes para tudo. Será? Começamos a listar, durante um almoço, as duas já meio altas. Para cozinhar. Se maquiar. Segurar um cálice. Tocar piano. Abanar. Entregar um presente. Levantar uma pessoa do chão. Mexer o café. Cafuné. Para bater à porta de alguém. Dirigir. Pedir silêncio. Desembaçar o espelho. Aplaudir. Iniciar um namoro (somos do tempo em que se pegava primeiro a mão antes de avançar).

Bastou tocarmos neste assunto para a conversa apimentar. Sexo é manual. A mão desliza pelo corpo e segura tudo o que pertence à intimidade daquele instante. Arranha, puxa, coloca, tira. Que escândalo, nossas risadas sem controle. Foi com minha mão levantada que atraí a atenção do garçom, enquanto minha amiga fazia a mímica clássica de pedir a conta, assinando uma nota no ar.

Há muitos anos que não nos encontramos, ela mora no Exterior. Outro dia, mandou por WhatsApp uma foto da sua mão, agora com dedos tortos e dramáticos, tomados pela artrose. Sua mão continua anatomicamente bela, preparada para agarrar a vida com fúria, mas os anéis foram recolhidos à gaveta e para minha amiga nada mais é trivial. Já não consegue desenroscar a tampa de uma garrafa plástica, nem segurar uma caneta com firmeza. Em nossas trocas de mensagens, agora ela erra ao digitar o emoji, quer encerrar o papo com um coração e manda um unicórnio.

Minha mão também está com o indicador retesado e o "pai de todos" sem nenhuma autoridade. Quando vai comprar seus remédios, pede para o funcionário da farmácia abrir os frascos ali mesmo no balcão. Faz bem. Até eu, com os dedos ainda em bom funcionamento, tenho me desentendido com alguns lacres.

Enfim, são mesmo importantes para tudo. Para virar a página do livro. Sublinhar um trecho. Sentir a temperatura da testa de um filho. Trançar o cabelo da neta. Esculpir. Apontar uma estrela no céu. Espremer o limão. Puxar a coberta no meio da noite. Abrir a cortina. Tirar o carregador da tomada. Programar o micro-ondas. Passar a manteiga no pão. Catar milho no teclado do computador, e com apenas dois dedos, escrever uma crônica assim, sem propósito, puramente sentimental, como se tivesse sido escrita à mão.

MARTHA MEDEIROS

01 DE ABRIL DE 2023
CLAUDIA TAJES

Os que não cozinham na primeira fervura

Entre tantos assuntos importantes e urgentes e tristes e preocupantes, segue a praga do etarismo. Modernamente, o preconceito contra pessoas de mais idade que existe desde o tempo do Ariri Pistola - para usar uma expressão que apenas pessoas de mais idade entenderão.

Quem é Ariri Pistola? Não faço ideia. Deve ser contemporâneo da vó do Badanha. Frequentador da casa da Mãe Joana. Alguma coisa assim.

Escrevi uma coluna sobre esse tema, o etarismo, a propósito das universitárias de Bauru que debocharam da colega de 40 anos. Com exceção de um cidadão de 67 anos que volta e meia escreve para pautar o que deve ou não ser publicado nesta coluna e que declarou nunca ter sofrido qualquer preconceito por conta da idade, muitos queridos leitores se identificaram com o assunto e contaram suas experiências ao adquirir o selo de qualidade Não Cozinha na Primeira Fervura.

Com muito orgulho. O Rolnei Correa Pinto é médico em atividade e, aos 72 anos, pedala 20 quilômetros por dia. Há quatro anos, de bicicleta na estrada, foi atropelado por um jovem e imprudente barbeiro - não o profissional, mas o mau motorista. O Rolnei conta que, ao acordar, ouviu o rapaz dizer, chorando: nunca pensei que atropelaria uma pessoa de idade!

Foi a pior parte da desventura, diz brincando o Rolnei, que escapou com o capacete rachado e uma concussão cerebral. Nada que o impedisse de, tão logo curado, continuar pedalando seus 20 quilômetros por dia. Todos os dias.

O seu Sidney, que casou novamente depois dos filhos já formados e dos netos crescidos, conta que continua aproveitando a vida e o tempo. Com mais de 90 anos, acaba de renovar a carteira de motorista e segue circulando pela cidade.

Mais de 90 anos também tem o seu Jorge, que fez concurso para Auditor Fiscal depois de uma carreira de muitos anos como bancário. Bem-humorado, ele diz que só não vai dar o conselho de Nelson Rodrigues aos netos - "Envelheçam!" - porque poderia soar como uma praga.

A Silvia, advogada de 73 anos, acorda às 6h30min, cuida da filha, alterna o trabalho remoto com o presencial e não pretende parar tão cedo. A Iara e suas oito décadas seguem fazendo aula de dança e de pilates e tratando pessoalmente de todos os seus negócios, com uma memória de dar inveja a qualquer um. Já a Priscila revela que ouviu absurdos em entrevistas de emprego, com as justificativas mais furadas dos recrutadores para disfarçar - sem conseguir, óbvio - que o único problema era a idade dela.

A Anna Maria Petrone Pinho respondeu com poesia a um deselegante que a lembrou de sua idade. "Quando estou comigo mesma/ Pouco me importa a verdade/Não tenho certidão de nascimento/ Nem cédula de identidade/ Tenho a idade do momento/ Não a do documento".

Tirando o colágeno perdido, viver muito é a maior de todas as vantagens. Mas isso não é todo mundo que percebe. Carece de ter muitos e muitos anos para entender.

CLAUDIA TAJES

01 DE ABRIL DE 2023
SARA BODOWSKY

Passeios e gastronomia DONUTS FELIZES

Donuts são, explicando de maneira bem simples, rosquinhas de bolinho fritas. Mas essa é uma definição que não dá a dimensão das delícias da loja O Culpado Donuts.

O que sinto é muito prazer e alegria, com zero culpa, curtindo um donut de Creme Brûlée, o meu preferido -recheado com um creme de baunilha e coberto com casquinha dura de caramelo, bem como o doce que leva oficialmente o nome.

Mas tem ainda o Pinky (que ficou famoso como o preferido do personagem Homer Simpson), Dulce de Leche, Tiramisù e Cheesecake de Goiaba. Fizeram para a Páscoa um brownie com camada de caramelos e flocos de milho (sim, os sucrilhos) que deve permanecer no cardápio.

A loja do O Culpado Donuts opera dentro do Tio Burgers, na Av. Protásio Alves, 230, e pelos aplicativos de entrega. Os valores variam de R$ 12 a R$ 19,90 a unidade.

A Latam inaugurou essa semana um voo direto entre Porto Alegre e Santiago do Chile. É a segunda operação internacional saindo aqui da Capital - a primeira foi Lima.

A frequência para a capital chilena é de três vezes por semana, nas quartas, sextas e domingos. Os voos duram cerca de 3h20min, decolam de Porto Alegre sempre às 19h05min (hora local) e de Santiago às 14h28min (hora local) e são operados por aeronaves Airbus A320 (capacidade para 176 passageiros). Buscando no site da companhia, é possível encontrar passagens de ida e volta em abril, maio e junho com valor mínimo de R$ 1,2 mil. A Latam também passou a oferecer diariamente o trecho Guarulhos (SP) -Passo Fundo (RS), saindo da cidade paulista às 12h30min e, da gaúcha, às 14h50min.

SANTIAGO DIRETO

Uma das minhas regiões mais queridas da cidade tem um evento com muitas opções da minha bebida preferida, nesse sábado!

A Feira Vinhos e Vizinhos vai reunir distribuidores da bebida e de espumantes. Eles prometem valores especiais para os rótulos comercializados no evento.

Já os "vizinhos" são os expositores de produtos que combinam com vinho e gastronomia. Serão oferecidos desde pães, molhos e pizzas até velas e aromatizadores para criar o clima em uma degustação em casa.

O evento rola na Sálvia Forneria, na Rua Cel. Marcos, 791, Pedra Redonda. Entrada grátis.

SARA BODOWSKY

01 DE ABRIL DE 2023
BRUNA LOMBARDI

O CHAPÉU DE CADA UM

Minha avó dizia pra minha mãe, que repetia pra mim: "Cada um cumprimenta com o chapéu que tem". Eu, criança, não entendia muito bem que chapéu era esse, porque ninguém que eu conhecia usava chapéu. Precisei crescer para enxergar a abrangência do significado e entender a força que minha mãe queria que eu tivesse: ser eu mesma.

Ainda adolescente, comecei a prestar atenção no comportamento de outras mães de amigas minhas e tentava fazer comparações. Em geral, elas, com a cumplicidade da família e até das amigas mais íntimas, tentavam parecer mais do que eram. Queriam casar as filhas com caras ricos, e para isso sabiam que era preciso salvar as aparências. Algumas se endividavam para poder aparentar ter o que não tinham e gastavam mais do que podiam para corresponder à imagem que a tal sociedade parecia exigir.

Na minha casa, era exatamente o oposto. Minha mãe nunca me preparou para um bom casamento, queria que eu estudasse e tivesse uma profissão, sem depender de homem nenhum. Meu pai queria que eu tivesse acima de tudo liberdade. E em casa ninguém tentava parecer coisa nenhuma. A gente era o que era e pronto. Quem quiser que aceitasse assim.

Muitas vezes eu morria de vergonha de tamanha autenticidade. Eu queria que minha família fosse um pouco mais como as outras, que se preocupasse em aparentar, mesmo sem ser. Naquela época, eu tinha as minhas razões para isso. E achava que as outras mães estavam mais certas do que a minha, com aquela estranha história do chapéu.

Décadas precisaram passar para eu concordar plenamente com a minha mãe. Para entender que fingir dá muito trabalho, dá um cansaço profundo e não adianta se esforçar porque não dura. Não se sustenta. A verdade sempre vem à tona. O tempo revela, mostra quem somos, e não tem jeito. Melhor pra quem se preparou, mostrando logo de cara o que era.

Minha mãe, por exemplo, genuína em tudo o que fazia e dizia, achava normal remendar o sofá se o tecido estivesse esgarçado, e eu que desse um jeito de repetir as pouquíssimas roupas que tinha. Ela queria que eu aprendesse que meu valor não dependia disso. E que vergonha é roubar e não não ter.

Minha mãe foi ficando a mulher mais poderosa que já conheci. Foi se ampliando, ocupando com tanta propriedade a sua própria verdade, que ao seu lado ninguém conseguia sustentar uma máscara. Era impossível fingir.

E assim fui construindo minha vida, sem me dar ao trabalho de tentar ser o que estava fora do meu alcance. Não consigo aparentar o que não sou, não quero mostrar o que não tenho e nem quero ostentar o que possuo. Tudo o que tenho é resultado do meu trabalho, como queria minha mãe. E faço o exercício constante da minha liberdade, como queria meu pai.

Vivo por amor. Cumprimento com o chapéu que tenho, recebo na casa em que moro, do jeito que sou e tudo é. Gosto de enfeitar a vida pelo prazer de ver as coisas bonitas. A sinceridade me aproxima de tal maneira das pessoas, que minha verdade desarma gente defensiva, transforma energia pesadas e faz cada momento valer a pena.

BRUNA LOMBARDI


01 DE ABRIL DE 2023
LEANDRO STAUDT

Imigrantes italianos no Vale do Paranhana

Em meio a colônias alemãs, imigrantes italianos chegaram no início do século 20 ao interior de Rolante, no Vale do Paranhana. A comunidade de Boa Esperança foi formada por famílias como os Longo, Cambruzzi, Lamonatto, Lazzari, Trentim e Rossi. Em busca de terras mais baratas, que pertenciam a Santo Antônio da Patrulha, colonos deixaram seus lotes na serra gaúcha.

Depois de derrubarem parte da mata, produziram trigo, milho, uva e outros alimentos para subsistência. Preocupados com a educação, Jorge Valandro foi o primeiro professor, em 1933. Como em outras colônias italianas, a fé fez eles erguerem a igreja em 1935. A velha igrejinha deu lugar à atual, construída na década de 1950. A bela casa paroquial, de 1936, continua ao lado.

No salão paroquial de Nossa Senhora de Caravaggio, uma exposição mostra a história resgatada pelas moradoras Josiane Gabriela Sbardelotto e Lisiane Bonetto Prezzi. Os imigrantes chegaram pelas picadas no mato. Com ajuda de mulas ou cavalos, transportaram a pouca bagagem, de roupas e ferramentas. Construíram casas e móveis com a madeira da floresta. Na antiga escola, uma foto de 1947 mostra o grande número de crianças da comunidade.

Boa Esperança teve festa da uva em 1963. Com a roda d´água, poucos anos antes, chegou a energia elétrica. Nas décadas de 1960 e 1970, muitas pessoas deixaram a comunidade, atraídas pelos empregos da indústria calçadista. A comunidade é formada por menos de cem famílias.

Entre os italianos também viviam alguns alemães. Era o caso de Altur Edmundo Finger, casado com Marieta Boniatti. Nas terras do casal, fica a vinícola do bisneto Andrei Finger, presidente da Associação Caminho das Pipas (Acapi). O grupo formado por oito vinícolas, pousada e minimercado mantém a tradição dos italianos em um roteiro turístico.

Em Boa Esperança, a rota turística já está asfaltada, mas a ligação com a área urbana de Rolante ainda tem 11 quilômetros de estrada de chão. É um entrave para aumentar o movimento neste recanto da colonização italiana no Vale do Paranhana.

LEANDRO STAUDT

01 DE ABRIL DE 2023
FLÁVIO TAVARES

ABERRAÇÕES EM SÉRIE

Em plena sala de aula, um menino de 13 anos assassinou a facadas uma professora de 71 e feriu outras três em São Paulo. Os escabrosos detalhes impõem pesquisar as origens do horror e levam a uma pergunta: em que sociedade vivemos hoje, para que um guri imberbe, ainda pré-adolescente, transforme-se em requintado criminoso?

Sim, pois a morte a facadas é requintada em si, exige presteza manual e alguns longos segundos para insistir na morte. Não é como um tiro, em que se aperta o gatilho e a bala faz o resto. A facada exige repetição contínua.

Mais ainda: como um guri de 13 anos pode ter acumulado desgostos e incertezas que geram ódio e despertam a maldade de Caim que levamos dentro de nós? Trata-se de um caso patológico, dirão todos.

Mas a patologia assassina não nasce ao acaso. Suas raízes profundas estão no dia a dia, nas "redes sociais" e naquilo que mais ocupa nosso interesse, que é a televisão. Após o trabalho diário, é a TV que nos dá lazer e descanso, mas nela somos levados a um mundo de violência. As "séries" televisivas (ou até as novelas) exibem tiros e traições e, mesmo com o triunfo do bem, o desenrolar violento vai habitar nosso inconsciente.

Nada, porém, supera a maldade dos videojogos (que dizemos "videogames", em inglês, numa violência ao nosso idioma), em que ganha quem "mata mais" na tela do celular. Na tenra infância, isso passa a ser um convite para matar de verdade na vida adulta

É a banalização da vida em forma contínua.

Outro fato recente chama atenção. Também em São Paulo, um juiz acorrentava a própria esposa para, a socos, obrigá-la ao ato sexual, em um sadismo aberrante substituindo a beleza do erotismo. Mais nauseabundo é que o crime seja praticado por um magistrado, cuja missão é julgar os demais.

Indago: pode a aberração guiar alguém encarregado de definir o certo e o errado para toda a sociedade?

A tentativa de assassinato contra três jovens judeus na Cidade Baixa, em Porto Alegre, em 2005, só agora foi a julgamento. "Mas a cicatriz não se apaga", disse Rodrigo Fontella Matheus, um dos jovens quase mortos por usarem quipá, o gorro religioso judaico. Tão funda foi a ferida que Rodrigo foi morar em Israel. Um dos três atacantes chama-se Israel Silva, numa aberrante contradição.

Flávio Tavares escreve neste espaço aos finais de semana.


01 DE ABRIL DE 2023
OPINIÃO DA RBS

O QUE FICA DO SOUTH SUMMIT

Legado é o que fica, o que é deixado, o que influencia o futuro. Pode ser algo palpável, como uma obra, mas também imaterial, como valores e uma nova mentalidade. O South Summit é um acontecimento capaz de ser lembrado, nos próximos anos, como uma espécie de marco do amadurecimento do ambiente da inovação em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul.

Não foi a partir da primeira edição, ano passado, que a busca por fazer diferente passou a ser uma obsessão de empresas gaúchas, parques científicos, institutos e mesmo do poder público, parte essencial na consolidação de um ecossistema voltado a criar novas soluções - tecnológicas, digitais, de processos ou de que natureza forem. Tampouco foi a segunda edição, encerrada na sexta-feira, que tornou essa vocação ainda mais cristalina. Mas o novo êxito do evento, que voltará a ser realizado na Capital até 2027, solidifica a certeza de que a inovação será cada vez mais um novo vetor do desenvolvimento da cidade e do Estado, ao lado e em proveito dos setores tradicionais, da indústria ao agronegócio.

Além do esforço do governo gaúcho para atrai-lo, o South Summit só veio para a Capital, afinal, porque o Rio Grande do Sul vinha trilhando esse caminho há algum tempo. Basta lembrar, por exemplo, que o Rio Grande do Sul tem o terceiro maior número de startups do país. Eram mais de 1,1 mil ao final do ano passado, um avanço expressivo de 70% sobre 2021. É um ritmo notável de surgimento de novas empresas de grande potencial de crescimento. Mostra de forma inequívoca a vocação do capital humano local para a inventividade e a disseminação da cultura empreendedora.

O South Summit é o coroamento desse movimento originalmente orgânico. O evento firma a Capital, agora e nos próximos anos, como ponto de referência quando o assunto é inovação. O resultado da vinda de mais de 20 mil visitantes de dezenas de países, pensadores e envolvidos com o tema dos negócios ligados à área, catapulta a visibilidade da cidade e do Rio Grande do Sul e eleva a atenção dos fundos de investimento para o que é desenvolvido no Estado. É um potencial que se multiplica, gerando frutos colhidos daqui para a frente com o surgimento de mais startups, mais oportunidades, retenção de cérebros e crescimento econômico com qualidade de vida. Esse é o grande legado do South Summit.

Merecem reconhecimento, ainda, os eventos paralelos, que buscaram introduzir os conceitos ligados à inovação a estudantes da rede pública e fomentar o interesse dos alunos pelo assunto. É uma forma de democratizar o acesso ao conhecimento, gerar estímulos e mostrar que inovar é, antes de tudo, um ato resultante da inquietação por fazer algo de uma forma que não foi pensada antes. Acessível, portanto, a todos, independentemente da classe social, e que pode ter impacto, inclusive, na melhoria do cotidiano de comunidades carentes.

Fica agora a expectativa pelo South Summit 2024, talvez ainda maior e melhor, nos simbólicos armazéns do Cais Mauá, à beira do Guaíba, local conhecido por ser cenário de um dos entardeceres mais belos do mundo e que também passa a simbolizar o alvorecer de uma nova era para Porto Alegre e o Rio Grande do Sul.



01 DE ABRIL DE 2023
ACERTO DE CONTAS

Para manter a confiança nas startups

O momento para as startups é delicado, praticamente uma ressaca. Empresas de tecnologia estão enxugando operação, juros elevados deixam o crédito mais caro e crises em bancos geram estresse financeiro. A fundadora e presidente global do South Summit, a espanhola María Benjumea, disse à coluna qual o seu conselho aos empreendedores.

Todos sabemos que a economia é cíclica. Vivemos um momento econômico inquietante. Várias coisas afetam tanto o Vale do Silício, como em diferentes entidades financeiras. Graças a Deus, os governos estão fazendo algo imediatamente, pois são momentos mais complicados, nos quais está havendo uma correção do valor das startups. Isso é normal. O que estamos vivendo é uma mudança estrutural como jamais vista. A quarta maior revolução tecnológica e digital da história. 

Minha opinião é que, nesse movimento que afeta todo o ecossistema de inovação, necessitamos empurrar para que continue cada vez mais forte. Logicamente, não haverá grandes compras, mas grandes acordos entre as companhias tradicionais e as startups. Nos momentos ruins, deve-se ter maior criatividade. Todos os diferentes atores devem estar convencidos de que isso vai passar. Aqui vai um dado para colocar isso em contexto: vivemos a pandemia em 2020, e, na Espanha, multiplicou por quatro o investimento em startups. 

O dinheiro tem medo, e faz bem. Você tem que ter segurança. O importante é que ninguém perca a confiança nas startups. Elas são inovadoras, muito talentosas, capazes de se transformar e se adaptar às mudanças do mercado, onde há necessidade. Por isso, são muito espertas, sabem que têm que resistir e nós todos temos que apoiá-las, como estamos fazendo aqui no South Summit. Não estamos no melhor momento, mas há muitas oportunidades.

Um brinde gaúcho

Espumante da Garibaldi, vinho branco da Aurora e tinto da Salton foram servidos no jantar oferecido pela família Sirotsky a empresários e políticos para marcar a realização de mais um South Summit em Porto Alegre. Foi uma escolha simbólica e explicada por Nelson Sirotsky:

- Todos, na nossa trajetória, temos acertos e erros. Eventuais erros têm que ser corrigidos. Assim é com o vinho gaúcho, com a comunicação, com qualquer setor. O Rio Grande do Sul tem uma classe produtiva que nos gera muito orgulho.

As três vinícolas terceirizavam de uma prestadora de serviços o trabalho de safristas resgatados em Bento Gonçalves.

GIANE GUERRA


01 DE ABRIL DE 2023
CARTA DA EDITORA

CARTA DA EDITORA Cobertura intensa

Depois de três dias de evento e quase três meses de preparação, encerrou-se nesta sexta-feira a segunda edição do South Summit em Porto Alegre, o encontro global que reuniu startups, empresas e fundos de investimento dispostos a expor e apostar em projetos tecnológicos inovadores. De quarta a sexta-feira, a reportagem da Redação Integrada de ZH, GZH, Rádio Gaúcha e Diário Gaúcho entregou dezenas de conteúdos aos nossos leitores de impresso e digital, além da cobertura ao vivo na rádio e nas redes sociais.

A colunista Marta Sfredo, por exemplo, entrevistou o público para saber quais eram as sugestões para a edição de 2024. O repórter Bruno Pancot mostrou como foi a batalha decisiva que levou 10 startups à fase final. Anderson Aires contou quais eram os projetos apresentados pelas empresas ligadas a soluções na área de tecnologia financeira. A também colunista Juliana Bublitz descreveu a atuação dos robôs espalhados pelo Cais Mauá que viraram os "queridinhos" do South Summit, assim como mostrou o "arsenal linguístico" de quem está mergulhado no universo da inovação.

A reportagem que ilustra a capa de ZH faz um balanço e mostra o legado deste encontro. Em coberturas de eventos importantes, é necessário mostrar o que funcionou, o que não deu certo e as lições que ficam para o futuro. O repórter Marcelo Gonzatto, que acompanhou as duas edições do South Summit na Capital, resume o que foram esses três dias:

- A segunda edição do South Summit chamou atenção pelo avanço em relação a 2022, com mais do que o dobro de startups inscritas, maior estrutura, mas também porque foi possível observar a concretização de iniciativas nascidas no primeiro evento, como uma coordenação espontânea entre servidores públicos para integrar setores de inovação de diferentes órgãos do Rio Grande do Sul.

Os conteúdos sobre o último dia do evento estão nas páginas 13 e 15 a 18. Todo o material produzido também pode ser acessado pelo site ou aplicativo de GZH por meio do link ao lado.

DIONE KUHN

01 DE ABRIL DE 2023
MARCELO RECH

Terror asséptico

Se você quer ler a coluna, digite 1. Se você quer que leiam a coluna para você, digite 2. Se você quer o protocolo de que leu essa coluna, mesmo que seja impossível você anotar tudo na velocidade em que eu dito o protocolo, digite 3. Se você quer mandar mensagem para a coluna, fique na linha....

Confesso que, entre meus terrores, está a necessidade de ligar para bancos, companhias aéreas, cartões de crédito, operadoras de telefonia e, a bem da verdade, para grande parte dos serviços de atendimento ao consumidor. Primeiro, garanto um bom tempo disponível. Meia hora, no mínimo. Vou ao banheiro, municio-me de café, água mineral, celular com bastante bateria, papel e caneta, um computador à mão e muuuita paciência.

Desconfio de que muitos dos que patrocinam esses sistemas de atendimento não os utilizam, porque eles são, via de regra, um espantalho das relações com os clientes. O pior são os irritantes chatbots por WhatsApp, aquele robô apalermado que fica repetindo as opções, mesmo que nenhuma delas atenda a sua necessidade. Se fosse óbvio, já tinha resolvido eu mesmo, tento explicar para a geringonça. Inutilmente, é claro. Sinto um alívio quando consigo finalmente ser atendido por um humano, até ele, depois de minha detalhada peroração, sentenciar: "Entendi, mas não é com este setor. O senhor tem de ligar para ...". E logo em seguida pedem minha avaliação do atendimento.

As histórias de horror deste novo mundo asséptico na relação com os usuários são muitas, e as recebi a mancheias ao longo da semana, depois da coluna sobre as dificuldades dos mais velhos percorrerem os labirintos digitais de serviços privados e públicos. Juro que tento resolver todos os problemas via sites e só ligo depois de desistir de cavocar nos confins do mundo perdido de bits e bytes. Às vezes, reconheço, tiro a sorte grande e um atendente resolve de primeira o problema. Nota 10 na avaliação, e um cliente para sempre.

Mas essa não é a regra geral. Empresas privadas e serviços públicos deviam aprender com o Google, a Apple e a Amazon. Não por acaso elas são o que são. Essas empresas têm obsessão pela redução dos chamados pontos de fricção, ou seja, a quantidade de cliques e digitações que um cliente precisa enfrentar até obter a informação ou serviço buscados. Menos, nestes casos, sempre é mais.

E todas aquelas páginas maravilhosas de serviços públicos e privados com bateladas de notícias velhas que só massageiam os próprios egos ou dezenas de links irrelevantes? Deviam todos ir na direção dos mecanismos de busca mais eficientes. Troquem tudo por um retângulo branco onde as pessoas pesquisam o que precisam e recebem, de forma clara, objetiva e ordenada, a resposta desejada. Simples. Mas ser simples é o mais difícil hoje.

MARCELO RECH