sábado, 16 de dezembro de 2017


16 DE DEZEMBRO DE 2017
LYA LUFT

Três poemas


Quando me mataram,


meu lado não verteu água nem sangue:

eu me verti de mim por essa fenda,

escorri para a terra, debaixo das lajes,

me fingindo ausente.

(Quem me ama sabe que estou ali,

e com paciência me aguarda;

isso é uma luz na noite.)

Quando chegar o tempo de retorno,

eu volto.

Subirei devagar,

empurrando a alma com meu sangue

por labirintos e paradoxos,

descrença e esperança,

até inundar novamente o coração.

(Não será o coração de antigamente.)

Quando eu era menina,

minha mãe tocava piano

e a árvore de Natal girava

em sua pinha de ferro batido.

Eu cochilava no colo de meu pai:

dentro do peito dele pulsava

a máquina da vida que nunca se cala.

(Mas uma coisa escura e sorrateira

fazia rumor fora da casa:

era o destino chegando

passo a passo, e eu não sabia.)

Junto ao coração de meu pai,

ao ritmo da música do sangue,

meu coração também estremecia:

a faca cortando a minha alma

era pressentir que as águas do mundo

inundariam o tempo e o espaço,

e haveria perdas no caminho.

(Seríamos um dia pálidos rostos

em retratos, e rastros de perfumes numa mala.)

Dorme filho meu,

que eu te contemplo.

Sobre tua cabeça de sonho e névoa

a moldura da janela se abre

para uma vida só tua

que não conhecerei inteiramente.

Dorme fragilidade entregue,

seda de cílios sobre esse olhar azul,

espelho onde me renovo a cada hora.

Ser do meu ser, pétala a pétala tramado,

mãos tecidas da minha carne obscura, riso

da minha alegria, olhos

da minha infância, sombra

dos meus passos na tua sombra pelo chão.

Dorme filho meu, que eu te protegerei

enquanto couberes nos meus braços

- mas vou chorar por mim quando te afastares

para conquistar o teu futuro.

Nada sei de ti além do peso

do teu abandono no meu colo,

nada além do som do teu nome

que escolhemos,

e do teu destino impalpável.

Dorme, filho meu. Um dia serás um homem

com pedaços de vida de que não farei parte;

mas serás sempre, em qualquer dia e hora,

esse, de olhos azuis, o meu menino. (1966)

LYA LUFT

sábado, 9 de dezembro de 2017


09 DE DEZEMBRO DE 2017
PIANGERS

Você não precisa


Era um desses eventos em que as perguntas da plateia vêm em papeizinhos dobrados e, quando disseram que era uma pergunta anônima, já pensei que era injusto porque minha resposta não seria. Estou passando a maior dificuldade financeira porque preciso fazer a festa de dois anos de aniversário do meu filho e não tenho dinheiro algum, leu a mediadora, óculos meio caídos no nariz e ar de preferia estar em casa.

"Ora", respondi, "Você não PRECISA fazer uma festa de aniversário de dois anos pro seu filho". Alguns pais fizeram "Ohhhh", como se, na verdade, precisassem, sim, como se eu estivesse dizendo algo como você não precisa escovar os dentes ou você não precisa dar seta quando vai virar à direita. "Precisa, sim!", imaginei um pai gritando, uma mãe se levantando para ir embora, um copo com o logotipo do evento voando na minha cabeça, uma imensa vaia. Em um canto do auditório apenas um proprietário de uma casa de festas, estas que cobram milhares de reais por uma festa de dois anos de idade, sorrindo escondido nas sombras e por trás de seu chapéu de aniversário e língua de sogra.

Não sei em que momento a gente acreditou que PRECISA das coisas. Eu preciso de uma televisão nova, esta é uma frase real que, por alguma razão, convencionou-se considerar natural. Eu preciso reformar minha casa de praia. Eu preciso trocar os móveis lá de casa. Eu preciso trocar de celular, meu celular não está mais tirando foto - e o que fazia esta pessoa antes de 2005 quando os celulares não tiravam fotos ou quando as máquinas tinham 25 poses e demoravam uma semana para serem impressas?

Alguns de nós dormiram em duas cadeiras de restaurante durante boa parte da infância. Nossas festas de aniversário tinham apenas pão com salsicha feito em casa, um pra cada convidado, e brigadeiro de panela. Nossos cachorros não tinham raça nem ração, nem roupinha pra esquentar no inverno. Não sabíamos o que era internet de fibra ótica e voar de avião era um sonho distante. Mesmo assim, éramos felizes.

Me preocupa que, ao naturalizar nossas (ditas) necessidades, a gente se obrigue a outras coisas também. Você não precisa comprar nada na Black Friday. Você não precisa dar presentes de Natal. Você não precisa ser mais rico que o seu irmão advogado. Você não precisa trocar de carro só nesse final de semana de plantão de vendas com preços imbatíveis. Você não precisa viajar para fora do país. Se você quiser, você pode, mas você não precisa. Você não precisa. Só não me joguem tomates por estar falando isso, por favor. Que isso daria uma ótima salada.

PIANGERS

09 DE DEZEMBRO DE 2017
CARPINEJAR

Cartas musicadas

Quando adolescente, eu sempre andava com uma caneta Bic no bolso da camisa. Não era para escrever, mas para desenrolar a fita-cassete de 10cm por 7cm. O rolo às vezes escapava das duas bobinas e precisava rebobinar.

Não havia CDs, streaming, aplicativos nem celular, o único jeito de montar trilhas sonoras consistia em gravar a programação direto das rádios.

Custava muito esforço. Significava noites em claro para localizar as músicas favoritas. Não existia a possibilidade de cochilo e distração. Fazia-se plantão na frente do som 2 em 1. Com xícaras obsessivas de café, a tarefa exigia concentração absoluta. A habilidade estava em apertar e soltar rapidamente os botões REC e PLAY, eliminar os comerciais e organizar uma coletânea parecida com a continuidade de um LP.

A voz do locutor complicava o trabalho. Aparecia do nada para identificar a estação. Já no finalzinho da canção, despontava o reclame, como relâmpago impossível de conter. A propaganda inesperada no meio do refrão arruinava o trabalho.

Obrigava-me a treinar a telepatia. Adivinhar quando iria surgir o apresentador, para suspender por alguns segundos a gravação e retomar o fio da meada em seguida. Emendava lacunas, sem nenhuma ilha de edição, no dedo mesmo, num artesanato puro, suando frio. Tinha que ocupar 30 minutos do primeiro lado e mais 30 do segundo. O espaço comportava uma seleta de duas dezenas, sendo que cada uma das composições passava pelo corte e costura das teclas.

Na época, não nos declarávamos com flores e cartão, caixa de bombons e ursinho de pelúcia. Preparávamos fita-cassete para quem amávamos. Ninguém queria sofrer o vexame de receber um fora pessoalmente das meninas, ainda mais diante dos colegas e da turma. Assim, o recurso romântico utilizado era montar uma trilha para expressar a atração. As baladas traduziam os nossas emoções mais secretas. As letras demonstravam o que não conseguíamos falar cara a cara. Você conquistava alguém com cartas musicadas. Vinha a ser o jeito daquele tempo para vencer a timidez e declarar o amor.

Ninguém ousava dizer eu te amo, o que se dizia:

- Fiz uma fita para você.

E se esperava, com ansiedade, o telefonema na semana seguinte, a voz do outro lado que valia as nossas 20 canções prediletas.

CARPINEJAR


09 DE DEZEMBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Os outsiders, alguém lembra?

Sempre gostei da literatura de estilhaços, aquelas publicações meio guerrilheiras feitas pelos chamados outsiders, se é que ainda se usa essa palavra. Livros contendo versos soltos, confissões durante ressacas, palavras com gosto de álcool e fumaça, súplicas desesperadas para amores que não deram certo, tudo misturado com fotos, ilustrações, manuscritos, enfim, um álbum de figurinhas da solidão do autor, e da nossa também.

No início dos anos 1980, havia fartura desses desabafos poéticos e mergulhos na alma, uma espécie de panfletagem da liberdade que me fazia sentir representada e compreendida. Caio Fernando Abreu, Charles Bukowski, Roberto Freire (o de Sem Tesão Não Há Solução), Luciano Alabarse (que na época publicava uns livrinhos bacanas de forma independente) e poetas como Cacaso, Ledusha, Chacal, Leminsky, Alice Ruiz e Ana Cristina Cesar eram a minha turma da porta do quarto pra dentro. Com eles eu embarcava num tour pelas entranhas, as minhas e as deles.

Não tenho visto muito disso. A rebeldia anda mais asséptica, os sentimentos menos intensos. Tudo vira uma postagem rápida e nem dá tempo de pensar sobre o que acontece dentro da gente.

Acho que é por isso que eu sempre gostei do trabalho da Clara Averbuck. Porque, mesmo sendo uma mulher do aqui e agora (ativista, empoderada, com presença forte nas redes), ela mantém vivo o espírito outsider, é uma Rê Bordosa clássica, atemporal. Acabei de ler Toureando o Diabo, seu livro de 2015, mas que poderia ser de 1979 ou de 2036, já que ela escreve sobre uma sensação de abandono que, vitalícia, nunca nos abandona. 

Clara faz uma mixagem de seus superpoderes com seus supervacilos - um tributo à ambiguidade. E lá vamos nós, com ela, embarcar na viagem alucinante das emoções e reconhecer a potência do sexo, do desejo, de tudo que é ilógico, que subverte, enlouquece, desestabiliza, de tudo que seduz, que nos encanta, que faz sofrer, que nos arrebata, enfim, desse caos que atende também pelo nome de amor.

Neste mundo de bilhões de seres conectados, eu espicho o olho para quem, sem medo, escancara sua perdição, sua atrapalhação, sua indefinição. Adoro bilhetes de S.O.S., mensagens dentro de garrafas, confidências literárias que parecem conversas de fim de festa, que provocam o mesmo calafrio de quando a gente se apaixona à primeira vista. A paixão é sempre um ato de sobrevivência. Clara é uma apaixonada pelas buscas - quem não? Alguém já encontrou a resposta definitiva para o que está fazendo aqui?

Enquanto a gente tenta levar uma vida organizada e a salvo de espantos, os outsiders se jogam, toureiam o diabo e nos ajudam a pensar sobre o que nos acontece dentro. Um olé para essas mulheres perfeitamente imperfeitas e meio kamikases, que não perdem a coragem e brigam pela sua voz.

MARTHA MEDEIROS


09 DE DEZEMBRO DE 2017
LYA LUFT

Quem sou eu


Não foi a primeira vez que, em tantos anos, me perguntaram isso assim diretamente. "D. Lya, quem é a senhora?" ou: "Afinal, quem é Lya Luft?".

Ah, eu queria saber. Ou não quero correr esse perigo? Desde menina, essa curiosidade: quem sou eu, quem somos nós, a família, os amigos, essas pessoas todas, o que faz o vento soprar, as nuvens ficarem vermelhas, a chuva cair, alguém adoecer? (Muito pequena, eu só sabia que morriam passarinhos e borboletas.)

Quero saber, isso me interessa? O que sei, ou penso, é que sou cada dia, cada hora, cada riso, cada pranto, cada golpe, cada perda, cada carinho. Talvez nem queira descobrir, eu que tanto escrevi sobre esse mistério que somos todos nós, mergulhados num enigma infinito, e de vez em quando nos afogando nele. Não sei, de verdade.

Mas, em geral, fui o que chamam uma pessoa legal. Nada de mais: péssima aluna, teimosa, pouco ambiciosa, que diferença fazia tirar o primeiro lugar na turma (isso naqueles tempos aparecia no boletim), ou a mais conversadeira, a que ria fora de hora, a que não prestava atenção? O bom mesmo era ser a mais divertida, e talvez aquela com alguns segredos. Por exemplo, as coisas que eu lia em casa, além das castíssimas revistas de amor, como Cinderela e outras. 

Pegava livros à vontade da biblioteca do pai, ou a da mãe, esta na sala. Romances na sala, teatro grego, filosofia, naturalmente Direito, no escritório do pai. Alguns, considerados "fortes", ficavam bem em cima, onde sem escada eu não alcançaria. Curiosidade e medo. Ao rés do chão, uma fileira longa de livrinhos amarelos, finos, capa mole, a série de histórias de detetive que meu pai dividia comigo e me fizeram gostar até hoje de séries como Criminal Minds ou SVU (não vivo só de Goethe ou Machado!).

Colegas não tinham ideia dessas minhas leituras bizarras, que em geral eu nem entendia bem, mas achava - especialmente teatro grego - lindo todo aquele sofrimento. Volumes e volumes de história, que eu adorava, enquanto na escola não conseguia decorar as datas mais simples. Um velho professor certa vez disse que eu "aprendia pra trás", isto é, ou intuía na hora, ou, quanto mais me explicavam, menos entendia. Era verdade, e continua assim.

Uma coisa eu sabia que era e sempre serei: amadora de livros. Quero ficar em paz acomodada na poltrona ou no sofá, pés em cima da mesinha (Melanie, minha mimadíssima spitz encolhida ao lado), lendo, lendo, lendo. Descobrindo que não há muitas respostas - mas o desejo de saber me mantém viva, apesar do assalto que arrancou sem anestesia um pedaço do meu coração recentemente. 

Primeiro, porque há toda essa família que eu amo, e eles a mim. Algumas amizades essenciais, que seguram minha mão ainda que pelo whats. O parceiro aguenta com delicadeza meu silêncio, a falta das bobagens e palhaçadas habituais, mas quem sabe elas retornam. E esse filho que se foi, para não sei onde, e que - isso eu acredito - ainda nos enxerga, nos ama, e não quereria ver sua mãe feito um trapo que mal sai da cama e passa o dia enrolada num velho robe.

Por todos eles e, sim, pelo leitor que lê isto, e quem sabe vai ler este novo livro, meio órfão, A Casa Inventada - que acaba de nascer, eu devo ser alguma pessoa. Esta pessoa.

LYA LUFT

sábado, 2 de dezembro de 2017



02 DE DEZEMBRO DE 2017
DRAUZIO VARELLA

Malu e Alfredão

Não havia um dia em que o casal não brigasse. Alfredão nunca entendeu por que viveu oito anos com aquela mulher. Conta que se conheceram num restaurante nordestino com música ao vivo, na zona norte. Ela dançava com um rapaz tão magro quanto baixo:

- Mas não tirava os olhos de mim.

Incitado por um amigo que exaltou os dotes físicos da morena, ele foi tirá-la para dançar, mas o rapaz magro e baixo criou caso: mulher que estava com ele não dançava com outro nem morta. Apesar de ter o triplo da massa corpórea do adversário, Alfredão houve por bem não criar caso.

Meia hora mais tarde, o garçom lhe entregou um bilhete, com um telefone e a mensagem sucinta: "Me liga. Malu". Ela mesma atendeu ao telefonema no escritório de advocacia em que trabalhava como secretária. Combinaram encontrar-se num barzinho, no fim da tarde. Ela era articulada, desenvolta e falava com entusiasmo. Ele mais ouvia, encantado com os seios exuberantes, na blusa entreaberta.

Tomaram cerveja com torresmo e caldo de feijão, e riram muito. Ele só estranhou o empenho com que a moça defendia a igualdade entre mulheres e homens e a necessidade de acabar com o machismo na sociedade brasileira.

- Nunca tinha ouvido falar em feminismo, mas concordei com tudo. Não estava ali para debater, meu interesse era levar ela para a cama.

Não conseguiu naquela noite nem nos quatro encontros seguintes. Na sexta vez, depois de se beijarem com ardor na porta do prédio dela, desanimou:

- Falei de mim para comigo: não vou conseguir comer essa mulher de jeito nenhum.

Uma semana mais tarde, ela ligou para saber a razão da indiferença. Ele desconversou, estava com excesso de trabalho na fábrica, além do que, a mãe andava doente e só contava com o filho único. Malu suspirou, naquele fim de semana estava tão solitária no apartamento.

- Minha mãe sarou na hora. E, na fábrica, que trabalho?

A noite daquela sexta-feira acabou no sábado ao meio-dia. Até hoje Alfredão se orgulha da performance.

- Sete. Juro por Deus que foram sete.

A partir desse encontro, começaram a ficar juntos três noites por semana, frequência que Malu julgava frustrante.

- Era tanta reclamação que, quando vi, já dormia lá todos os dias.

A rotina o obrigava a acordar às cinco da manhã, passar em casa para o café com a mãe, trocar de roupa e ir para o trabalho.

Durante o expediente, precisava ligar pelo menos duas ou três vezes para a namorada, a última das quais ao sair, para que ela estimasse o tempo para chegar no apartamento. Se deixava de telefonar ou se atrasava, eram horas de falatório.

A marcação cerrada, no entanto, não era o pior: ela morria de ciúmes de todas as mulheres que passassem por perto dele. Não havia um dia em que o casal não brigasse.

- Quando ela começava, não tinha Cristo que fizesse parar.

De espírito conciliador, por natureza, Alfredão acabava perdendo o controle. Os vizinhos reclamavam da gritaria. Ele só pensava em acabar com tudo:

- Não tinha paz, sofria do lado dela, mas não conseguia me libertar. Quando criava coragem para ir embora, ela aparecia na saída da fábrica ameaçando se matar, meio implorando, meio me intimidando. Contra a vontade, eu cedia. Aquela mulher tomou posse do meu ser.

Alfredão se afastou da mãe, dos parentes e de todos os amigos. Vivia angustiado, triste, do trabalho para casa. Para evitar as cenas de ciúme, fazia de tudo para não sair à noite. Quando iam à pizzaria, dava um jeito de sentar virado para a parede ou de frente para uma mesa em que só houvesse homens. Apesar da cautela, as crises eclodiam a toda hora. Única forma de encontro afetivo naqueles anos, a vida sexual se tornou bissexta.

Num fim de tarde, ele foi buscá-la no escritório. Não havia ninguém. Esperava o elevador quando ouviu vozes, lá dentro. Ao se aproximar, percebeu que eram gemidos.

Esmurrou a porta até abrirem. Xingou Malu de todos os nomes, ameaçou esganar o advogado, arrancou um computador da mesa e atirou contra a parede. Quase derrubou a porta ao sair.

- Tudo encenação. Foi a melhor coisa que me aconteceu na vida. Fiquei livre daquele inferno.

DRAUZIO VARELLA

02 DE DEZEMBRO DE 2017
CLÁUDIA LAITANO

O FIM DO RECATO

O conflito final não será entre veganos e carnívoros, tatuados e sem-tinta, monogâmicos e poliamantes, mas entre recatados e o resto do mundo.

Manter amigos e conhecidos atualizados a respeito do programa da noite anterior, o cardápio do café da manhã e os planos para o próximo fim de semana tornou-se o novo "bom-dia". Ainda assim, sobrevivem entre nós aqueles que nunca fotografaram o próprio pé (a não ser por engano), só atualizam o status conjugal no cartório (por obrigação) e preferem se queixar da vida para o motorista do Uber a fazer revelações sobre a própria intimidade em uma rede social. Sim, eles ainda existem, mas estão se tornando cada vez mais raros.

Diferentes gerações dificilmente chegariam a um consenso a respeito do que é "íntimo demais" para ser compartilhado em uma rede social. A vida amorosa? O banheiro de casa? Uma doença terrível? Nos últimos anos, o conceito de intimidade foi sendo empurrado para um quartinho cada vez menor nos fundos da nossa vida privada. Para boa parte dos nativos digitais, não existe outra forma de viver a não ser trocando experiências e forjando uma identidade virtual ativa e supostamente genuína, transparente. Se deixar de compartilhar é quase como deixar de existir, palavras como "recato", "pudor" ou mesmo "privacidade" soam tão anacrônicas quanto "fax".

Na vida, como nas redes, agimos a maior parte do tempo por observação, assimilação e imitação. Adultos recém desembarcados nas redes sociais - colonizadas por pioneiros muito mais jovens - costumavam torcer o nariz para gente que fazia selfies na frente do espelho do banheiro, por exemplo. Com o tempo, esse novíssimo gênero fotográfico foi tornando-se lugar-comum e impôs-se como "mainstream" nesse ambiente. 

Da mesma forma, as timelines foram se enchendo de experiências de compartilhamento tão ou mais inusitadas. A intimidade alheia passou a ser encarada com naturalidade e bom humor - e eventualmente até mesmo algum interesse. Passamos a viver como se morássemos em um enorme condomínio em que é impossível ignorar o que o vizinho comeu no almoço, a música que ouviu com os amigos e os barulhos que fez quando estava com a namorada. Já aqueles que preferem permanecer parte do dia com as janelas fechadas e as luzes apagadas são vistos como arrogantes, antissociais, esquisitões.

Na semana que passou, um jornalista que passou boa parte da carreira administrando a vida particular com discrição e sobriedade sucumbiu à urgência de compartilhar com milhões de seguidores uma declaração de amor, em tom lírico, para a nova namorada. Seja pela necessidade de rejuvenescer a própria imagem diante dos telespectadores, seja por ter assimilado a nova sensibilidade da época, William Bonner atravessou uma fronteira invisível. Com sua defecção, o pequeno exército dos recatados ficou ainda menor e mais fraco. O que talvez ninguém tenha reparado, já que os poucos remanescentes da categoria não se deram ao trabalho de fazer um post a respeito.

CLÁUDIA LAITANO



02 DE DEZEMBRO DE 2017
CARPINEJAR

Black Friday da eternidade

Todos recebem um bônus. A vida dá uma segunda chance, um período extra, uma dilatação de prazo, um visto a mais. Ela não nos entrega para o fim sem um anúncio, sem nos colocar em uma antessala aqui mesmo.

A dificuldade é aproveitar a Black Friday da eternidade. O que atrapalha é a soberba.

Há pessoas que ficam humildes depois de um acidente e refazem os seus hábitos. Percebem que estavam no caminho errado, contrárias à ternura e recuam prodigiosamente para recuperar os laços com a família e amigos. Mudam o jeito de encarar os limites. Tornam-se mais abertas e confessionais, começam a se despedir dia a dia pelo medo de não definir mais qual será o dia derradeiro. Criam férias nas folgas, esticam os lazeres nos finais de semana. Possuídos pela delicadeza, falam o eu te amo com a naturalidade de um cumprimento, abraçam e beijam com uma intensidade incomum. 

A quase morte passa a ser um trailer da existência. Compreendem o significado do puxão de orelhas do vento e dos anjos e escutam com afinco o som de um pássaro e da chuva. São empresários que largam o acúmulo dos bens pelo bem partilhado, são sujeitos roçados pela suavidade do perdão. Antes ricos de números e vazios de palavras, invertem o julgamento e se predispõem a praticar a fragilidade com coragem. Pois é só cuidando dos outros que revelamos o cuidado consigo.

Mas a maior parte dos sobreviventes não vê a luz em extinção, não coloca as mãos em concha para proteger a chama da vela. Despreza os avisos e as profecias. Pelo contrário, como superou uma tragédia iminente, acha-se agora invencível. Acredita que nada pode mais levá-lo embora. Internaliza uma onipotência que agrava os defeitos e os vícios. Dedica-se ainda mais à carreira e à fortuna e abandona de vez os semelhantes, já que eles são inferiores e não desfrutaram da mesma experiência de ressurreição.

Não percebe a promoção, a liquidação dos ideais, o céu se abrindo. Não acorda as horas mortas, não renasce diferente dos escombros, não compra a sua vida de volta, aquela vida que se consumia na indiferença e no egoísmo. Descarta Deus e os homens, como se respirar fosse um dom vitalício.

O susto da morte pode gerar arrependimento ou arrogância, agradecimento ou acusação. Nem sempre é entendido como milagre.

Quem acha que nunca vai morrer não encontra tempo para amar.

CARPINEJAR

02 DE DEZEMBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Não pertenço a este lugar


Era um restaurante popular e estava com todas as mesas lotadas, a maioria delas ocupadas por dois casais, algumas com um casal e dois filhos. A mesa em que eu estava era maior: cinco adultos e três adolescentes. Nem 15 minutos de conversa e eu já não entendia o que fazia ali. Estava alheia aos assuntos e não achava graça das piadas. Até que um dos adultos disse algo detestável, e eu pensei: Não pertenço a este lugar. Lembrei a minha casa, o meu quarto, a minha cama, onde eu preferiria estar. Preciso ir embora. Preciso chamar um táxi. A comida está vindo, o garçom já colocou o prato servido à minha frente, é agora, levanta e vai. Mas não levantei.

Não foi, nem de longe, a pior noite da minha vida. Já estive em vários outros lugares a que eu não pertencia. Uma missa rezada por um pastor mal-intencionado. Um escritório com gente estressada trabalhando até tarde. Uma entrevista que dei para um jornalista que induzia as minhas respostas. Uma festa num clube sofisticado onde as pessoas só falavam em dinheiro. Um quarto úmido de hotel, com as paredes descascadas e luz branca no teto. Um carro de madrugada lotado de garotos bêbados.

Quando pude, saí mais cedo, saí antes do fim, mas nunca fui embora durante o apogeu de um acontecimento, como uma noiva que abandona o altar. Nunca fiz da minha retirada um gesto político, audacioso e inesperado. Sempre fui daquelas mulheres que, uma vez dito sim, mantinha meu sim até o limite da educação - mesmo quando o meu sim já tinha virado, dentro de mim, um não.

Pra ser gentil, me senti estrangeira várias vezes sem estar viajando.

Pode ser suportável, mas nem sempre. Cortesia demais nos desintegra. Se alguém te oferece um baseado, é só dizer "não, obrigado", caso não seja chegado. Se alguém te tira pra dançar, é só dizer "não, obrigada", caso esteja cansada. Alguém ao teu lado diz que buzinar é coisa de preto, discorde e denuncie o racismo, em vez de ficar num silêncio conivente. E toque a vida pra frente, elegantemente.

Como elegantemente fez o ator Pedro Cardoso quando se levantou de um programa de TV transmitido ao vivo e se retirou, em duplo protesto: ele foi solidário com os trabalhadores em greve da TV Brasil, que é pública, e o fez também em repúdio a um comentário inapropriado que o presidente da emissora teria feito contra Taís Araújo. Pedro é um homem inteligente, politizado e, como se viu, um lorde. 

Não agiu feito um moleque. Foi até o programa para divulgar um livro que havia lançado, mas diante das informações que recebeu ao chegar lá, sobre a greve e sobre a injúria, não se sentiu confortável em dar audiência a um canal que não estava sintonizado com suas convicções. Pediu desculpas a todos, explicou-se e, com toda a calma, deixou o estúdio, não sem antes abraçar a apresentadora.

"Eu não pertenço a este lugar." A cada vez que essa frase grudar em seu pensamento a ponto de gerar desconforto, levante, se despeça e agradeça por você ter coragem para decidir, pernas para sair e sua dignidade aguardando lá fora.

MARTHA MEDEIROS


02 DE DEZEMBRO DE 2017
LYA LUFT

As vassouras das bruxas

O motorista de táxi de um aeroporto deste Brasil xingava um político, acusado no rádio por ter-se encontrado ali mesmo, dias atrás, com um suspeito de corrupção. "Viu só?", ele vociferava, "Viu só?". Cansada de aeroporto e do assunto, e porque logo antes alguém tinha me dito "Olha aí o Fulano, fotografado ao lado do Sicrano que é suspeito de corrupção! Certamente ele também é...", fui curta e direta: "Meu filho, se sua namorada conversar com uma moça desonesta e disserem que por isso ela também é desonesta, você vai gostar?". 

Ele olhou sobre o ombro, meio espantado: "Sabe que a senhora tem razão?". Comentei: "Chama-se a isso caça às bruxas". Chegando ao meu destino, não tive tempo de explicar mais. Isso ocorreu há poucos anos. Hoje, confesso, talvez eu não tivesse dito nada, porque os honrados, os valorosos, andam reduzidos.

E, assim, não cheguei a lhe falar das caças às bruxas da Idade Média: a tropa de psicopatas autorizados caçava gente com o entusiasmo com que se caçariam animais selvagens. O maior divertimento era julgar, esfolar vivo e queimar na fogueira depois de inimagináveis sofrimentos. Além dos hereges habituais, pegavam as mulheres simples, que lidavam com o que hoje chamaríamos medicina alternativa, na sabedoria popular de suas antepassadas.

Melhoramos um pouco como civilização, temos antibióticos e iPhones, mas também temos gente sendo vendida como escravos, menores trabalhando ilegalmente, mulheres apanhando dos maridos (vai ser mais divertido quando os papéis se inverterem... Será?). A caça às bruxas anda voltando, e sou quase fanática contra os crimes de corrupção, porque nos deixaram tão pobres, tão atrasados, tão feios ou abençoados em nossa desonestidade. 

Execução moral de inocentes na fogueira da opinião pública, mais disposta a ver em tudo o mal, me assusta tanto quanto me enojam bondades concedidas a faltosos comprovados, até confessos. Estamos num mundo destrambelhado, de pernas para o ar. (Se lermos os antigos, como alguns filósofos ou escritores, veremos que eles pensavam assim também...)

Num encontro em que um grupo de jovens questionava a falta de civilidade com que agem alguns personagens investigados na Lava-a-Jato (obrigada, Moreno) ou em debates no Congresso, comentaram como seria reconfortante ver debates entre homens educados e preparados. Respondi que bastava ler um pouco de história dos povos para ver que não há nada de novo entre nós. Às vezes, como grupos ou como sociedade, adoecemos de uma triste falta de compostura.

Um rancor primitivo que nasce de fundos problemas pessoais e a agressividade geral que nos botou numa selva sem a graça das borboletas e dos bugios nos aniquilam. E até as bruxas boas, nas quais piamente acredito, em lugar de varrer tanta sujeira, fogem ligeirinho nas suas vassouras - e julgamos ser o vento nas ramagens.

LYA LUFT

sábado, 25 de novembro de 2017



25 DE NOVEMBRO DE 2017
PIANGERS

O futuro é feminino

Não faz muito tempo perguntei pro meu amigo Gustavo, pequeno empresário, quantos funcionários homens ele tinha. Nenhum, ele me disse. E completou com uma frase que me ficou marcada:

- O futuro é feminino.

A lógica é que teremos cada vez mais mulheres no mercado de trabalho. Cada vez mais mulheres optam por não ter filhos; cada vez mais mulheres assumem cargos de liderança; cada vez mais os trabalhos que exigem força física são substituídos por máquinas; mulheres são maioria nas universidades brasileiras; mulheres vivem mais; mulheres morrem menos de causas violentas e cometem menos crimes, por isso são presas em menor número do que os homens. 

Ao contrário do que se diz, mulheres dirigem melhor do que os homens, cometem menos acidentes e, por isso, pagam menor valor no seguro do carro. Mulheres são melhores gestoras, e pesquisas indicam que cuidam melhor do dinheiro. (Curiosidade: na crise mundial de 2008, a Islândia entrou em colapso quando todos os bancos do país quebraram, menos um: que era totalmente administrado por mulheres.)

Estive em Brasília palestrando há alguns meses e tive a chance de conversar com o embaixador sueco no Brasil, Per-Arne Hjelmborn. Quando perguntei se as mulheres usavam mesmo a licença parental de um ano e quatro meses ele disse: "Geralmente as mulheres voltam antes ao trabalho. Mais de 80% das mães suecas trabalham. Muitos pais acabam ficando em casa com as crianças depois que as mães voltam para o serviço", ele disse. Uma amiga que mora no Canadá contou que levou o filho em um parque e, ao olhar ao redor, percebeu que era a única mãe no local. Todas as crianças estavam acompanhadas de seus papais.

Pois então, o que sobrará para nós, homens? Nos tornarmos mais femininos. O leitor machão já ficará horrorizado, se imaginando de vestido e blush, mas não é isso. A verdade é que nós, homens, teremos que desenvolver nosso lado mais sensível e amistoso, controlar nosso lado competitivo e hostil. O futuro é compartilhável e abundante, criativo e sociável. Nós, trogloditas reclusos, trabalhadores mecânicos, provedores robóticos, transformadores de cerveja em mijo, musculosos abridores de potes de pepino, estamos ultrapassados. Que venha o futuro. E que chegue logo.

PIANGERS

25 DE NOVEMBRO DE 2017
CARPINEJAR

Capitão Gancho


Quando está sozinho, os braços são um problema para o homem. Um estorvo. Ele não decidiu muito bem o que fazer com os gestos. Vacila no controle da marionete de si mesmo. Quer manter uma postura séria, compenetrada e não relaxa o tronco. Costuma escolher duas posições de defesa: braços cruzados e mãos no bolso. Neste momento, metade dos homens do universo está com a mão no bolso e a outra metade de braços cruzados.

O que o macho gostaria é de pegar tudo com os pés. Seu maior desejo é nunca parar de jogar futebol e fazer embaixadinha com objetos e roupas. Se possível, inventando um gol na cesta da lavanderia ou na gaveta.

Se largo uma cueca no chão, jamais vou me abaixar para buscar, raciocino o custo-benefício da situação, vejo que será mais fácil não me mexer e ergo a roupa com o dedão. Jogo para cima e seguro depois em festa, como se fossem cupons de urna de shopping no Natal.

Não é uma atitude isolada. Tento abrir portas com os pés, mexer na geladeira com os pés, segurar elevador com os pés, recolher xampu com os pés. Os pés são sempre mais rápidos. É também uma forma de me divertir, de manter a infância da molecagem, de realizar malabarismo de circo, de ser engraçado. Até para tirar ou colocar o tênis dispenso as mãos. Vou enfiando os pés e pulando pela casa esperando me encaixar na fôrma.

A praticidade não me seduz, opero por desafios nas atividades prosaicas e domésticas. É um rapel estranho pelas paredes do apartamento. Realizo simpatias e cumpro metas - falta apenas me fantasiar de Capitão Gancho.

Quem não gosta nem um pouco das minhas brincadeiras é a minha esposa. Vive cortando o meu barato. Acha que sou preguiçoso e não entende nada do meu incurável universo infantil. As mãos são o fracasso do homem, somente usadas em último caso.

CARPINEJAR


25 DE NOVEMBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Humor é coisa séria

Um dia desses, um amigo me enviou uma piadinha por WhatsApp, e eu não respondi nada, que é o máximo de educação que eu consigo manter diante de uma foto bizarra acompanhada de um trocadilho infame. Ele deveria ter se tocado que não agradou e deixado por isso mesmo, mas resolveu cobrar pelo meu silêncio: pô, humor tem que ser sempre inteligente?

Que eu saiba, só existe humor na inteligência. Na falta dela, reside a idiotice.

Eu sei, eu sei. Estou parecendo extremamente mal-humorada, mas, diante desta histeria coletiva de se mandar duzentas mil gracinhas para os grupos de WhatsApp, é preciso ficar atento. Quando fazemos parte de uma turma íntima, vá lá, a idiotice pode funcionar como uma válvula de escape para as tensões do dia a dia, além de ser uma forma de manter contato - a troca de piadas tolas substitui a cervejinha no fim de tarde que não se teve tempo de tomar. Em todo caso, é bom cuidar para que a bobajada intramuros não vire alienação irreversível.

Humor bom é humor crítico. Pense na Escolinha do Professor Raimundo e no Porta dos Fundos, por exemplo. Duas épocas e duas linguagens completamente diferentes, mas a crítica está ali, no subtexto. Uma é mais popular e alegórica, a outra é mais ácida e realista, mas ambas prestam homenagem à sua, à minha, à nossa inteligência.

O humor combate a hipocrisia. O humor é uma via de transcender a mediocridade. O humor estimula o raciocínio e a reflexão. O humor desestabiliza. O humor ridiculariza o status quo. O humor empodera movimentos ("Homem não gosta de calcinha bege. Poxa, manda ele usar uma cor-de-rosa então"). O humor nos insulta e nos obriga a rir de nós mesmos, nos reposicionando no mundo de uma forma menos solene e mais humana. É o antídoto mais eficaz contra a arrogância.

Inverter o estabelecido: transformar o notável em banal, o defeito em virtude, a derrota em vitória. O olhar renovado para velhas convicções desperta a nossa consciência e solta o nosso riso, seja através da paródia, da sátira, da imitação, da ironia, do exagero, do besteirol. Até mesmo aquilo que é engraçado sem querer (o uso de um chapéu totalmente sem noção, por exemplo, ou se desequilibrar e cair da cadeira) tem uma espontaneidade que quebra o protocolo.

Qual a quebra de protocolo que há no trocadilho? É um humor tão simplório que até constrange.

Pra quem deseja ir mais fundo no assunto, vale a pena ler o livro A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar, do português Ricardo Araújo Pereira. Ajuda a entender que o humor serve para acordar os neurônios, não para anestesiá-los, e que a ignorância só produz sorrisos amarelos.

MARTHA MEDEIROS



25 DE NOVEMBRO DE 2017
LYA LUFT

O tempo, amigo feroz

É uma das esquisitices do nosso tempo que na época em que mais tempo vivemos haja tanta dificuldade em relação ao que se convencionou chamar velhice. Palavras significam emoções e conceitos, portanto também preconceitos. Por isso, quero falar de minha implicância com a implicância que temos com os vocábulos - e a realidade - velho, velhice.

E, como gosto de historinhas, algumas, como esta, reais, lembro um episódio com Tônia Carrero, ainda uma linda mulher aos oitenta anos, na casa de minha comadre Mafalda Verissimo. De repente, alguém lhe perguntou: "Tônia, chegando aos oitenta, como você lida com a velhice?". Nós todos gelamos, mas ela, em pé no meio da sala, possivelmente com um cálice de champanhe na mão, respondeu sem hesitar: "Ora, eu acho ótimo. Porque a alternativa seria a morte".

A presença de Tônia era sempre uma festa naqueles tempos. E nós, eu então com mal uns cinquenta, achei maravilhosa aquela presença de espírito, e aquele pensamento. Naturalmente, nem ela, nem ninguém gostaria de envelhecer com as doenças, perdas e fragilidades que tantas vezes nos acompanham quando o número de anos cresce assustadoramente. Mas que, pelo menos, não sejamos velhos chatos e sombrios, eternamente reclamando de tudo e de todos.

Quando não pudermos mais realizar negócios, viajar a países distantes ou dar caminhadas, poderemos ainda exercer afetos, agregar pessoas, ler bons livros, observar a humanidade que nos cerca, eventualmente lhe dar abrigo e colo. Para isso, não é necessário ser jovem, belo (significando carnes firmes e pele de seda...) ou ágil, mas ainda lúcido. 

Ter adquirido uma relativa sabedoria e um sensato otimismo - coisas que podem melhorar. A mim, o que me aborrece é o preconceito evidente com que cercamos velho, velhice, como se fossem uma enfermidade, um incômodo para os outros, a demência inevitável, a chateação: "Ah, tenho de ligar para a mamãe, poxa, tenho de visitar o velho".

Isso não é apenas grosseria, mas grave pobreza emocional. Viver deveria ser poder celebrar sempre mais um dia: o nosso, e dos que amamos. E, em momentos de dor indizível, redobrar sem espalhafato, com delicadeza, o amor de que somos capazes.

LYA LUFT

sábado, 18 de novembro de 2017



18 DE NOVEMBRO DE 2017
CARPINEJAR

Receita para manter a sogra longe

Você não suporta a sogra insistentemente por perto?

Não tem mais paciência para vê-la aparecendo de repente e assumindo o controle de casa?

Você conversou com o marido, pediu limites e providências e nada foi feito?

Você descobriu que está casada com um filhinho da mamãe, de sangue de barata, e que ele jamais vai se opor à invasão do espaço e desembaraçar a confusão de papéis?

Você já está no último auge da escravidão, quando ela abre a geladeira como uma fiscal da vigilância sanitária para verificar o que tem e determina o que deve ser descartado e o que deve subir no congelador?

Tenho a receita de olho de sogra, a simpatia para ela nunca mais incomodar.

Pense comigo. Não funcionou a clara oposição: ou ela ou eu, pois ele ainda continua pendendo para as razões e tirania materna, sob a alegação de que ela somente pretende ajudar. Não surtiu efeito o boicote ao sexo, a birra, as intermináveis discussões de relacionamento chamando atenção para a manutenção da privacidade e dos segredos, sem que sejam partilhados com a matriarca.

A fórmula é realizar exatamente o contrário: seja a melhor amiga da sogra. Convide-a para todos os eventos a dois, até para aquele restaurante romântico que costumam frequentar uma vez por semana. Só fale dela para o marido durante dois meses seguidos, elogiando-a, defendendo-a, achando estranho que ele não vem dando a devida atenção à própria mãe, que ele precisava agradecer, com esforço redobrado, o mérito do nascimento e da vida. Compre presentes de decoração estranhíssimos, com bilhetes açucarados: "Segui o conselho de sua mãe, um exemplo de mulher!".

Transforme a admiração em obsessão. Traga a sogra para assistir a uma longa série de Netflix de noite com direito a cobertor no sofá e pipoca. Desligue o celular e faça longas incursões com ela pelos shoppings - ao chegar tarde, o esposo se sentirá excluído dos planos de passeio e perguntará "onde estavam?". Confidencie manias na cama para a sogra e depois encerre o assunto com muitas gargalhadas quando ele se aproximar.

Trate de ser mais filha que o filho. Nenhum marido aguenta disputar a mãe com uma irmã. Ele romperá os laços com a mãe por ciúme e desfrutará de longeva exclusividade. Ainda poderá colocar a culpa nele, telefonar para a sogra dizendo não entender o que está acontecendo, que ele é um filho ingrato e que ela foi sempre excelente e não merecia nem um pouco tamanha desconsideração.

CARPINEJAR

18 DE NOVEMBRO DE 2017
PIANGERS

Os tempos mudaram

Não faz muito tempo eu e minha esposa resolvemos viajar pela primeira vez sem as crianças, decisão que nos tomou tempo e discussões. As meninas teriam que ficar com as avós, e nosso medo era que de que as senhorinhas não dessem conta do recado. Que elas não soubessem alimentar direito nossas filhas. Que perdessem o horário da aula de natação. Que permitissem assistir televisão demais. Que dessem bolacha e suco artificial de jantar, algo que as duas fizeram comigo e minha esposa quando éramos crianças nos anos 80.

Essas senhoras, as avós, não entendem que as coisas mudaram. Na época que nos educaram o mundo era outro, menos violento e mais permissivo. Minha mãe tinha um Fusca e permitia que eu viajasse no vão atrás do banco de trás do carro, sem cinto e muito menos cadeirinha. Minha esposa conta que sua mãe permitia que ela saísse de casa depois do almoço e só voltasse às nove horas da noite, com a roupa suja e o joelho ralado. Imaginem isso acontecendo hoje em dia! Prendam estas senhoras!

Por isso nossa preocupação. Dizem que o trabalho dos avós é destruir todo o trabalho dos pais, e isso seria inadmissível. Levamos meses para que a minha filha de 12 anos se interessasse por matemática, através de um canal do YouTube que é engraçado e informativo ao mesmo tempo. Nossa filha de cinco anos está comendo um prato inteiro de comida no almoço, basta darmos as colheradas uma a uma na boca. Imagina estragar tudo isso deixando as meninas com as avós.

Durante a viagem imaginamos as avós permitindo tudo, comida em cima da cama e pular corda no meio da sala. Imaginei minha filha pequena indo sozinha à padaria. Meu deus! As avós não sabem como é o mundo hoje, cheio de perigos e gente má. Nos anos 80, a última década em que minha mãe cuidou de uma criança, era normal as pessoas fumarem. Só o que me falta a vovó oferecer um Marlboro pra minha filha mais velha!

O que fizemos! Precisamos voltar desta viagem!

As duas avós se revezaram para cuidar das netas. Quando chegamos em casa, preocupados, minha filha mais velha veio correndo nos receber: "Olha o que a vovó me deu", nos disse. Era um ábaco. "Agora consigo fazer qualquer conta!". A mais nova já dormia. Minha mãe me disse que ela agora come um prato inteiro de comida sozinha. "Sem aviãozinho?", perguntei. "Sem aviãozinho. E escova os dentes e dorme sozinha na cama dela", respondeu a vó.

Seguiram-se semanas em que as meninas dormiam em suas próprias camas, sempre no horário apropriado. Comiam sozinhas. Liam livros e não assistiam desenhos. Tudo muito estranho e organizado. Depois de um tempo de convivência elas deram uma piorada, é verdade. É o que dizem: trabalho de pai é destruir todo o trabalho dos avós.

PIANGERS


18 DE NOVEMBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Um bebê na plateia

Acho que já comentei este episódio: muitos anos atrás, em 1993, assisti a um show da banda Living Colour num pequeno ginásio em Santiago do Chile. Quem conhece o grupo sabe que eles tocam um funk rock pesado. O som estava incrivelmente alto, e as pessoas fumavam no local. Foi quando vi, ao meu lado, uma moça com um bebê de colo. 

Que agonia. Um bebê naquele ambiente era tão adequado quanto um gorila num concurso de miss. Não me segurei: perguntei a ela se o bebê não estaria melhor em casa. Ela respondeu que não tinha com quem deixá-lo. Tinha, sim, respondi. Com você. E dei uma piscadinha pra ela, pra parecer simpática. Ela me fulminou.

Sei que fui invasiva, mas na época eu tinha uma filha pequena e bateu mesmo um desespero: se meus tímpanos mal estavam aguentando (saí antes do bis), imagine o desconforto daquela criaturinha de poucos meses.

Os argumentos a favor da moça: só por que virou mãe não tem mais o direito de se divertir? O pai, pelo visto, não estava a postos, e babá é caro. É provável que não tivesse um parente ou uma amiga que a socorresse, e devia estar amamentando. Merece ser crucificada por causa disso?

Agora um episódio mais atual, envolvendo o ator Marco Caruso, que passou recentemente por uma situação desagradável. Ele estava encenando a peça O Escândalo Philippe Dussaert quando percebeu uma senhora na segunda fila amamentando seu filho de nove meses, uma criança que logo começou a fazer os ruídos naturais de todo bebê (regurgitar, resmungar etc). A plateia distraiu-se, o ator também, e por fim ele solicitou que ela se retirasse para que pudesse continuar o espetáculo.

A mulher saiu do teatro direto para as redes sociais, onde chamou o ator de preconceituoso, machista, ignorante, mal-educado, além de dizer que a peça era horrível (já assisti, é genial). Muitos defenderam o ator, outros deram razão à mulher, e não consigo entender mais nada. O que faz uma mãe levar um bebê a uma peça de teatro adulto, à noite? A administração do teatro deveria ter orientado a espectadora antes de o espetáculo começar, mas não o fez, e deu-se a confusão.

Mães têm o direito de amamentar no ônibus, numa sala de espera, no meio da rua. Elas precisam se deslocar até o trabalho, ir a consultas médicas e, ao mesmo tempo, manter seus bebês alimentados. Amamentação não é um ato erótico e pode acontecer em qualquer lugar, mas levar um lactente a um show de rock pesado ou a um monólogo teatral é, convenhamos, facultativo: a opção de ficar em casa tem que ser considerada. Pelo bem da própria criança e também por uma questão de bom senso.

Mas alguém quer saber de bom senso? Cada um faz o que bem entende e defende seus direitos aos berros, peitando quem ousar questioná-los. Ok, estando dentro da lei, podemos tudo, mas não custa se perguntar de vez em quando: poder, eu posso, mas devo?

MARTHA MEDEIROS

sábado, 11 de novembro de 2017


11 DE NOVEMBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Somos todas DIVAS


Até mesmo as mulheres mais estonteantes do planeta passam por momentos tensos em frente ao espelho. Nunca estamos 100%, ao menos não na nossa própria avaliação. Digo nossa a fim de englobar o gênero feminino, e não a classe específica das estonteantes, coisa que nunca fui. Bem que eu queria ser lindona, mas não me coube essa sorte e tudo certo. 

A beleza pode ser substituída por charme, por sensualidade, por exotismo, por maturidade, por mil outros atributos. Jamais sonhei em ser clone da Barbie, uma perfeitinha sem expressão. Ando ocupada com questões mais relevantes, porém, claro, adoraria ser bonita, e não interessante, o eufemismo clássico para quem não chegou lá.

Calma. Está tudo bem. Ninguém cortando os pulsos por aqui.

A maioria das mulheres é bela. As brasileiras são exuberantes e atraentes em toda a sua diversidade. Negras, brancas, crespas, lisas, gordas, magras. Eu percebia isso já na sala de aula, criança ainda. Cada menina tinha sua graça. Eu me sentia o patinho feio entre todas elas e, como namorava menos, tinha solidão de sobra para me dedicar aos livros, que foram meus verdadeiros affairs da adolescência.

Ao menos era alta e tinha um corpo bacana, mas isso não era suficiente pra ser a primeira opção nas reuniões dançantes. Então os anos passaram e meu cabelo melhorou, minha cabeça melhorou, a vida melhorou, e por fim descobri que a atração entre um casal pode ser dar por outros caminhos, tanto que tive namorados, casei, descasei, segui namorando e me tornei o grande amor de mim mesma, a relação essencial que alavanca todas as outras. Mas, entre mim e meus botões, às vezes ainda lamentava: quem dera ser gata.

Até que surgiram as redes sociais e o autobullying chegou ao fim. Hoje, nem mesmo a irmã gêmea do Quasímodo tem do que reclamar. Somos todas divas.

A criatura acorda às sete da manhã com o rosto inchado pelas 26 long necks que entornou na noite anterior. Posta uma selfie de ressaca, coberta de olheiras, e adivinha os comentários: Lindíssima! Poderosa! Lacrou!

Se você tem um pouco de noção, deleta a foto da ressaca e posta a foto em que está com o cabelo estrategicamente cobrindo metade do rosto: Musa! Deusa! Arraso!

Você tem 96 anos, com aparência de 104, está deformada por uma dúzia de plásticas e posta um autorretrato mesmo assim, pois anda meio gagá e já não enxerga quase nada: Gatíssima! Avião! Perfeita!

Não é o paraíso? Se a gente não está num dia bom, é só escolher a melhor foto entre as duzentas que tirou no fim de semana, caprichar no enquadramento e postar com a legenda: "sem filtro". E então começar a contar os "uau" pipocando um embaixo do outro. Não existe mais mulher feia nem com baixa autoestima - a não ser que ela não tenha seguidores.

MARTHA MEDEIROS


11 DE NOVEMBRO DE 2017
CLÁUDIA LAITANO

PODER E RESPONSABILIDADE


Se Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, fosse o Homem-Aranha, este seria o momento em que seu Tio Ben deveria puxar o guri prum canto para proferir uma das mais célebres (e sábias) lições de moral do universo dos quadrinhos: "Com os grandes poderes vêm também as grandes responsabilidades".

Em junho, o Facebook atingiu 2 bilhões de usuários - quase 25% da população mundial, que chegou a 7,6 bilhões de almas no mesmo mês -, mas a responsabilidade de Zuckerberg diante do seus superpoderes na internet anda mais para Formiga Atômica do que para Homem-Aranha.

As cobranças tornaram-se especialmente intensas nas últimas semanas, depois que a própria empresa admitiu que mais de 10 milhões de usuários da rede social foram expostos a anúncios cuja finalidade era estimular a divisão política nas eleições americanas de 2016. A chapa esquentou ainda mais no último domingo, dia 5, quando as investigações da série de reportagens Paradise Papers revelaram que um empresário ligado ao Kremlin andou investindo na empresa.

Originalmente, o Facebook via a si mesmo (e era visto) como uma força do bem, uma plataforma criada para facilitar a comunicação entre as pessoas e "mudar o mundo" - para usar o jargão preferido de Silicon Valley. Amistosa o suficiente para ser frequentada por avós e seus netinhos, a rede social era também potencialmente revolucionária, com a capacidade de mobilizar forças em torno de causas justas sem a necessidade de intermediários. A imaginação no poder, como sonhavam os jovens rebeldes de 1968.

Nos últimos tempos, porém, o Facebook anda mais parecido com aqueles vilões megalomaníacos que dão gargalhadas macabras enquanto fazem planos para dominar o mundo. Não que Mark Zuckerberg seja uma espécie de Lex Luthor disfarçado de nerd, mas o fato é que ele não tem agido à altura dos seus superpoderes. Talvez lhe faltem as luzes (ou a disposição) para perceber que sua empresa deixou de ser um negócio como outro qualquer, tornando-se uma entidade sem paralelo, em dimensão e influência, na história das relações humanas.

Esse ambiente em que fotos de gatinhos, publicidade e notícias falsas disputam a atenção das pessoas sem que elas percebam que estão sendo manipuladas por algoritmos que nem sequer entendem como funcionam, tem produzido, como subproduto, a erosão do espaço público e da capacidade de convívio com o contraditório. Nada mais justo que sejam cobradas da rede social transparência e algum tipo de regulamentação - e até mesmo que o modelo de negócios seja menos ávido por dinheiro de origem nebulosa.

O Facebook tem se mostrado muito ágil para reconhecer e censurar peitos (mesmo os de mármore...) e para desenvolver algoritmos capazes de antecipar os movimentos de seus usuários. O que se espera agora é que a empresa reaja com a mesma eficiência para combater a desinformação, as notícias falsas, as fraudes e o dinheiro suspeito.

CLÁUDIA LAITANO


11 DE NOVEMBRO DE 2017
J.J. CAMARGO

A FALTA QUE FAZEM AS COISAS MAIS SIMPLES


O consultório pode ser um lugar monótono e desanimador, mas também pode ser divertido e estimulante. Claro que uma parte de como será vai depender do que você leva consigo, mas o mais instigante é não ter a menor ideia do que vai encontrar.

Muitas vezes penso nisso quando empurro a porta e abro o melhor sorriso para anunciar um simpático "boa tarde". Tudo aprendizado de anos de atendimento que me ensinaram o quanto é difícil restaurar uma relação que começou torta. Por isso, insisto com os residentes da importância de ter em mente que aquele paciente saiu de casa com a maior expectativa, fantasiosa ou não, de que encontraria alguém capaz de ao menos ouvi-lo com dignidade, e isso não deve ser considerado um bônus do atendimento médico, mas a rotina entre duas pessoas estranhas, aproximadas por uma circunstância inesperada que vitimou emocionalmente a uma delas.

E como o médico, por mais experiente e generoso que seja, não consegue carregar mais do que um ser humano com suas limitações, problemas e angústias, sempre haverá um dia daqueles em que o modelo de gentileza e doçura não funciona.

Às vezes, se consegue restaurar a cordialidade atropelada, outras não. Muitos meses depois da cirurgia, o Albino fez um comentário revelador: "Hoje, meu doutor, estamos comemorando o nosso aniversário de namoro. E depois de um ano posso lhe contar que só aguentei a primeira consulta porque me disseram que o senhor era muito bom pra consertar a traqueia das pessoas, mas que antipatia naquela segunda-feira!".

O comentário do Albino, um homem tosco, mas afetivo, tinha a sinceridade que marca as pessoas mais puras, e por isso mais confiáveis. Eu não lembrava o que tinha ocorrido na tal segunda-feira, mas fiquei com a certeza de que o extravasamento daquele mau humor, por mais justificado que fosse, tinha sido imperdoável. Menos mal que a tolerância do Albino permitira uma segunda chance que, quando negada, deixa a sequela definitiva com que são penalizados os subestimadores do sofrimento alheio.

Outras vezes, a relação fortuita traz uma revelação inesperada e inesquecível. Quando abri a porta que dá acesso ao ambulatório dos pacientes mais humildes e chamei a dona Rosaura, não houve resposta imediata. Até que uma velhinha, depois do segundo chamado, começou a se deslocar com aquela lerdeza de quem está iniciando a única tarefa do dia. Quando lhe dei a mão, a ideia, como sempre, era de cumprimentá-la, e então, metade porque ela tinha a pele com aquela inconfundível maciez da velhice e outra metade porque queria ajudá-la a percorrer mais rapidamente o caminho até a minha sala, continuamos de mãos dadas.

Ao perguntar-lhe quais eram suas queixas, ela foi muito sincera: "Ah, doutor, eu não queria que o senhor ficasse bravo comigo e me desculpasse de eu não ter nada doendo, mas eu só queria conversar com alguém, e já vou lhe contando que lá fora tem duas mulheres, até mais moças do que eu, que também não têm doença nenhuma. Mas o que aconteceu comigo aqui eu não esperava, e aquelas ciumentas nem vão acreditar. Desde que o Antenor morreu, há 13 anos, eu nunca mais tinha andado de mãos dadas com ninguém".

E encheu os olhos para confessar: "E eu sinto uma falta dele!".

J.J. CAMARGO