sábado, 21 de março de 2020



21 DE MARÇO DE 2020
LYA LUFT

Enfim, a coroa

Meu marido entra na sala sorrindo, Zero Hora na mão: "Você ainda consegue não escrever sobre o coronavírus?". E eu, rindo: "Nem o vírus, nem o Dia da Mulher".

O assunto mulher, porque não aguento mais, dezenas de anos, dezenas de artigos, palestras, palavras. Inúteis ou com alguma mínima repercussão? Nunca saberei. Crônicas se soltam aos ventos, centenas, milhares de leitores que provavelmente amanhã não lembrarão mais. É da profissão. O resumo do que penso não é muito simpático mas: vamos nos respeitar, e nos fazer respeitar, e talvez... nos respeitem. Luta dura, demorada, de preferência sem xingamento nem lamuriação. Nós, mulheres, somos melhores do que isso.

O vírus, bem, o vírus.

Quando muitas Polianas e malandrinhos ainda achavam graça, me chamavam de mensageira da agonia ou coisa parecida, eu já sentia medo. Algo estranho, sinistro, estava embutido nessa peste que logo deitaria sobre o mundo, sobre nós, sua feia sombra. Intuição, quem sabe? Um alerta que a idade vai nos concedendo feito um chip especial? Não sei. Sei que desde as primeiras notícias, senti medo.

Hoje, até os alegrinhos, que anunciam que devemos cultivar alegria em nossos corações porque ela nos salvará, começam a se remexer preocupados. Que bom se a alegria nos salvasse. Mas, por outro lado, o desespero, a raiva e a amargura certamente nos liquidarão junto com a doença.

Meio-termo é uma expressão de que gosto, mas que acho difícil. Entre prudência e negligência, entre terror e cautela, cada um de nós tem de escolher sua posição.

O que me desgosta sobretudo: a raiva fácil com que algumas pessoas apontam o dedo, eu acuso: os chineses, os americanos, os capitalistas, grandes laboratórios... Acho pobre, contraproducente e irreal. Não acredito que uma cúpula de líderes de qualquer país, ou diretores de grandes laboratórios, um dia se reunisse para cochichar atrás de portas fechadas como poderia ferrar com o mundo. Acredito, sim, que as doenças ocorrem porque somos humanos, porque não nos cuidamos, porque abusamos, porque somos ignorantes - mas também porque o azar existe e às vezes predomina. E ninguém é nem culpado, nem responsável.

Tenho medo, sim, dessa doença, que se arrasta, bufando, sobre nós, pobre humanidade. Ninguém sabe direito o que fazer, uns esbravejam, outros soltam bravatas, outros, ainda, nem levantam os olhos. Todos estamos nessa rota, que para muitos será a morte, para outros, vida com sequelas graves, mas, para a maioria, eu acho, e espero, será pouco incômodo ou nem notar se tem, ou não, o vírus.

Sofro pelos que serão coroados. Rezo para que ninguém seja, mas é oração de criança pedindo ao Menino Jesus que hoje não faça noite, porque quero brincar na calçada até bem tarde.

LYA LUFT


21 DE MARÇO DE 2020
SINAL ABERTO

É DO SUL QUE VEM MINHA GARRA

Mesmo após apresentar a previsão do tempo em telejornais do Rio de Janeiro, Anne Lottermann confessa sentir um frio na barriga no Jornal Nacional. Natural de Santa Rosa, ela garante que sua força vem das raízes gaúchas. E se derrete ao falar tanto dos filhos quanto de sua antecessora no posto, Maju Coutinho.

Como foi estrear oficialmente no posto, em rede nacional?

Bateu um nervosismo. Na verdade, fico nervosa até hoje. Quando você para e pensa o peso que tem, ou quantas pessoas estão te assistindo naquele momento, acaba ficando um pouco mais nervosa. Mas estreia em rede nacional não era algo totalmente novo para mim. Eu já fazia as previsões nos jornais da GloboNews, no Edição das 16h, com a Christiane Pelajo. Já tinha esse gostinho de rede nacional. Mas é diferente.

Chamou a atenção pedires um tempo para estares inteira no final do ano letivo dos teus filhos. Como foi essa decisão?

Essa foi uma questão que nem partiu de mim. Partiu da direção fazer essa transição com calma, sem pressa, e foi isso o que acabou acontecendo. Em novembro, comecei a vir mais para São Paulo para procurar escolas, residência. E, quando houve a mudança no final do ano, eu já tinha toda a estrutura necessária para realizar a mudança com minha família. Felizmente, tive a sorte de achar uma casa rápido, uma escola para meus filhos que me agradasse também bastante rápido, e tudo foi se encaixando da melhor forma possível.

Como está sendo se dedicar à maternidade e a esse grande momento profissional?

A maternidade e esse momento estão sendo meus dois principais papéis no momento. Estou tentando dividir 50/50 e até aproveito para pedir compreensão aos meus amigos. Não é fácil tentar conciliar todas as tarefas que temos no dia a dia. Vou me desdobrando e acredito que, quando existe verdade no relacionamento, a criança entende muito mais esse processo de a mãe estar trabalhando um pouco mais. Quando chego no trabalho, eu fico 100% voltada para tocar as tarefas do dia e, quando estou em casa, é a mesma coisa. Mesmo com a correria, acredito que está funcionando de uma forma bem legal. Sou a melhor profissional que posso ser e sou a melhor mãe que posso ser.

Gael e Leo já curtem a mamãe na TV?

O Gael e o Leo quase não me veem na TV. Agora que estou em São Paulo, eles acabam me assistindo um pouco mais. Quando trabalhava no Rio, eu chegava na escola deles, e os amiguinhos falavam que me viam na TV. Mas os meus filhos ficavam um pouco sem entender muito bem. Era engraçado porque os amiguinhos da escola escolhiam minha roupa, pedindo para ir de verde ou de roxo, e eu negociava se podia ir com a cor escolhida na blusa ou na calça. Até um dia que meu filho virou para mim e perguntou: "Mamãe, você é famosa?". Foi um momento engraçado, mas expliquei a ele que eu era jornalista e, por isso, aparecia às vezes na televisão. Agora, eles me assistem um pouco mais, mas acho que ainda não têm a noção do que, de fato, é o meu trabalho.

Chegaste a trocar figurinhas com a Maju?

Eu troco figurinha com a Maju até hoje. A Maju é um pessoa incrível, iluminada, e eu dei muita sorte de poder estar substituindo uma pessoa tão competente como ela. Às vezes, ainda nos falamos para pegar indicação de fonte, de informação, e ela me recebeu absurdamente bem. Me considero muito sortuda porque ela me acolheu, me abraçou, me mostrou tudo como funcionava e, de fato, é maravilhosa. Não é à toa que está onde está. A estrela dela brilha muito. E eu tenho certeza de que continuará brilhando muito pelo jeito simples, amiga, parceira.

Falaste nas tuas redes sociais de como o RJ te acolheu e, agora, estás em SP. Teu lado gaúcha sobrevive a tantas andanças?

A minha força, a minha dedicação, o meu foco e a minha coragem vêm da minha base, que é a base da família gaúcha. Tudo isso já está no meu DNA e não tem como tirar. Essas tradições do gaúcho estão muito presentes na minha raiz, na minha força que carrego até hoje. É do Sul que vem toda a minha garra para encarar todas essas mudanças. O gaúcho tem um pouco disso, de estar aberto para o mundo, receber bem as mudanças e se adaptar. Adoro chimarrão, mas acabo não tomando no dia a dia por falta de parceiro para tomar comigo. Mas sempre que tem alguém do Sul aqui, como minha mãe, meu pai, meus irmãos (ela tem uma irmã e um irmão, é a do meio entre os três) e algum familiar, com certeza, rola o chimarrão. Tem outras também, como o sagu, que amo de paixão, a bolacha da minha mãe, que ela sempre traz, e o tradicional churrasco gaúcho. O Rio me acolheu muito bem. Foi lá que construí minha família, onde tive filhos, e isso torna um lado muito afetivo da minha história com o Rio de Janeiro. São Paulo sempre teve uma história de recomeço para mim. É a terceira vez que estou morando aqui, desde que saí do Sul em 2001.

Voltas para rever as raízes em Santa Rosa ou no Rio Grande?

Confesso que vou menos do que gostaria. Pela distância que tem de Porto Alegre, com filhos pequenos, dificultava um pouco a logística. Com certeza, neste ano, estarei na cidade para visitar a todos.

É verdade que começaste como modelo e professora?

Sim, comecei como professora. Fiz magistério na cidade de Cândido Godói, e foi incrível. Devo muito ao curso de magistério, porque me preparou para encarar a vida de uma forma diferente. Vim para São Paulo para trabalhar com moda, mas vi que não era minha praia e resolvi fazer faculdade, mas no Rio de Janeiro.

Outra gaúcha, Patrícia Poeta começou no tempo e virou apresentadora, inclusive do Jornal Nacional. Tens esse sonho?

De tudo que sonhei até hoje, a vida me surpreendeu muito mais. Acho que recebi muito mais da vida do que tive capacidade de sonhar. Estou buscando sempre fazer o meu trabalho bem feito e vejo de que forma a vida vai me surpreender novamente. Sem cobrança, sem expectativa, mas, simplesmente, deixando a vida cumprir a sua missão na hora e no tempo certo.

Como está a receptividade do público no JN?

Percebo como as pessoas na rua me olham diferente. Trabalhar com previsão do tempo é, de certa forma, ajudar todo mundo a se planejar, levando casaco ou não, se coloca uma roupa mais leve. Estou gostando de receber esse carinho.

SINAL ABERTO


21 DE MARÇO DE 2020
MARTHA MEDEIROS

Dar as mãos

A Filarmônica de Berlim liberou sua plataforma digital (digitalconcerthall.com). O usuário pode se registrar com o código BERLINPHIL e ter acesso gratuito a todos os concertos e documentários por um período de 30 dias (o test drive normal é de sete dias, foi ampliado para 30). Em tempos de confinamento, uma gentil oferta da casa.

Muitos jornais liberaram o acesso de seus conteúdos online a não assinantes, a fim de que as informações sobre o coronavírus alcancem o maior número de pessoas.

Em condomínios, há bilhetes de vizinhos nos espelhos do elevador e nas paredes dos corredores: eles se oferecem para ir a farmácias e a mercados para o idoso da porta ao lado.

Além disso, voluntários se predispõem a serem "anjos da guarda" no WhatsApp. Descobrem o contato de alguém com mais de 60 anos que more sozinho e mandam mensagens diárias, perguntando se ele está dormindo bem, se tem algum sintoma, se deseja conversar. Um antídoto afetivo contra o isolamento.

Italianos cantam nas janelas, criando um coro improvisado e garantindo diversão comunitária. Um tenor profissional fez uma apresentação em sua varanda, num andar alto: ópera a céu aberto. Um professor de ginástica foi sozinho para o playground interno do edifício, cercado por apartamentos, e conduziu uma sessão de exercícios para quem o observava de dentro de suas salas.

Há muitas maneiras de dar a mão sem precisar tocá-la fisicamente. Beijos e abraços foram cancelados, mas a solidariedade emergiu, e essa é a boa notícia em meio ao espanto da nova condição mundial. Solidariedade que precisa ser mantida quando as contaminações reduzirem e as sequelas econômicas aparecerem para nos cumprimentar.

Que oportunidade de ouro para sermos mais coletivos e menos individualistas.

Até aqui, era cada um por si, era só o lucro que interessava, era a transferência de responsabilidade que mandava no jogo: "os políticos que cuidem da nação", "os outros que se virem sem mim". Não há mais "os outros", somos um imenso "nós". Eu, tu e eles no mesmo barco. Sem união, a gente vai esticar esse drama por mais tempo do que o necessário.

O que você pode fazer, além de lavar bem as mãos e manter-se em casa? Ler livros. Leitura é hábito privado, não requer um espaço público. Conversar mais com os filhos. Ver filmes. Estudar idiomas. Arrumar os armários. Fazer mais sexo (dizem que ajuda na imunização; se for fake news, não me conte). Tentar se desapegar das redes sociais para não pirar. Tirar proveito da sua introspecção.

Vai passar. E quando passar, que a gente saia dessa melhor do que entrou. Regra básica para qualquer período de transição.

MARTHA MEDEIROS


21 DE MARÇO DE 2020
CARPINEJAR

Morreu a catimba no amor

Não existe mais cera no amor. A mesma cera técnica que sempre prosperou nos gramados quando um time está vencendo. Ninguém tem mais paciência para quedas simuladas e demora na reposição de bola.

A catimba morreu na relação. Não dá para tentar ganhar minutos procurando uma resposta difícil, não dá para chorar e fingir arrependimento após uma grosseria, não dá para se fingir de morto para ser atendido na maca, não dá para prender o jogo sem vontade, não dá para abraçar para respirar um pouco, muito menos é admissível cavar um pênalti malandramente e terceirizar a culpa.

A pressa da época não permite mentiras. Mentiu, está fora. Mentiu, cartão vermelho. Mentiu, pode ir para ducha no vestiário. Mentiu, rescindiu o contrato. Mentiu, trate de arrumar as suas malas e procurar um novo time.

Ainda que seja por uma bobagem, não é admitido enrolar o outro. Mentiras grandes e pequenas partilham igual gravidade. Ou se é sincero ou não se é coisa nenhuma.

Até porque a deslealdade é a véspera da infidelidade. A honestidade tornou-se, diante das facilidades das trapaças nas redes sociais, a maior exigência na vida a dois.

Todo mundo tem direito a errar, desde que fale e se retrate antes de ser descoberto. Não existe tolerância para duplicidade, para cafajestadas, para realidades paralelas.

A omissão também é compreendida como uma farsa. Não contar tudo é enganar.

Nunca a confissão e a partilha dos pensamentos foram tão valorizadas dentro de um romance.

As brincadeiras acabaram. A ideia do sedutor incorrigível, que não presta, jamais entra na linha e continua aprontando virou obsoleta. Os cornos não são mais mansos - cancelam pessoas de modo sumário, sem dó nem piedade.

Acostume-se com o rigor dos tempos atuais. Não entre num namoro ou casamento mantendo falsas fachadas. Será desmascarado e não terá segunda chance.

A integridade não usa perfume. Não floreie a sua história ou exagere nos antecedentes. Seja você mesmo durante o convívio. É a única chance de funcionar.

CARPINEJAR



21 DE MARÇO DE 2020
LEANDRO KARNAL

A TENTAÇÃO DO CLICHÊ

Mestre Houaiss começa definindo pelo sentido tipográfico: a placa de metal que imprimirá imagens ou textos. Depois, emerge o figurado: frase (frequentemente rebuscada) que se banaliza por ser muito repetida, transformando-se em unidade linguística estereotipada, de fácil emprego pelo emissor e fácil compreensão pelo receptor. Para os franceses, o simpático acento agudo que fecha a pronúncia da vogal e: cliché. São os pais da palavra.

A definição dicionaresca apresenta três eixos importantes para entender o clichê e sua fortuna crítica: é usado em demasia, é pretensioso e... comunica bem. A eficácia e a facilidade do uso explicam o sucesso. O público será mais feliz se ouvir algo conhecido do que se for desafiado com um termo novo. Sempre haverá mais pessoas comuns que nos ouvem do que críticos especialistas em originalidade da linguagem. A banalidade triunfa pela eficácia. Bordões animam tropas. Slogans comunicam. O lugar-comum é um lugar quentinho...

Pensei no termo em uma palestra recente. Minha fala terminaria o encontro. O locutor, em voz pausada, proclamou: "Para encerrar nosso evento com chave de..." e o público completou "ouro!". Desfecho inevitável. A metáfora é ruim: o ouro seria um péssimo material para uma chave. Metal maleável, tornaria o uso difícil. Não seria a exatidão metalúrgica ou a falta de originalidade que embasariam o uso, todavia a eficácia comunicativa. 

Mais: todos conheciam, repetiram em uníssono, houve empatia entre mestre de cerimônias e público, e o monocórdico realizou uma comunhão sempre contagiante. Jamais funcionaria "fechar com chave de ferro" ou "lacrar com código alfanumérico...". Além do poder comunicativo, o clichê serve como recurso retórico de encerramento de discurso ou de texto. Ele conduz a um fim inevitável, como uma tradicional novela mexicana: a redenção da mocinha é sabida e, não obstante, aguardada com ansiedade. Chegar ao local conhecido (um falante mais culto diria um tropo) costuma trazer grande alegria.

O clichê é atemporal. No mundo da eletricidade ou das forças nucleares, dizemos que a empresa vai "a todo vapor" como se estivéssemos em uma fábrica do século 18. O que ainda será movido pelo vapor? Com tantos conflitos em curso e muito mais trágicos do que os clássicos, evocamos Homero ao tentar agradar "a gregos e troianos". Em mundo de glabros, "colocamos as barbas de molho". Apesar de bólidos espaciais poderem estar navegando há muito tempo, falamos de uma "carreira meteórica". Falamos que houve uma "sonora vaia". Existiria uma "discreta"? "Buhhh", bem baixinho, para que ninguém escutasse? Cena patética. Quem vaiaria de forma mínima? Pouca gente liderou uma récua, mas todos já deram com "os burros n?água".

De todos, o "vivendo e aprendendo" talvez seja o pior, pois diz tudo sem afirmar nada além do gerúndio obsessivo. Sim, sempre estamos vivendo e aprendendo e esquecendo e morrendo um pouco. Uma pororoca irrefreável de jargões.

Há jornais que proíbem, em manuais de redação, pérolas do tipo "calor senegalês", "tríduo momesco" ou "coroar-se de êxito". Reconheço: há muita pompa no clichê e, igualmente, muita força. Como resistir a sua força? Ele é sábio sem nada dizer, bem arrumado sem originalidade, infalível contra o erro, bem-aceito. Quando falo "era uma vez", eu uso um lugar-comum, óbvio, porém ele prepara o público e cria uma clima conhecido e esperado. O clichê é uma tentação suprema. Como introdução ou fechamento, é inexcedível. O único defeito do clichê é... ser clichê.

O jogo termina em 7 a 1 e dois torcedores se contemplam. Nada resta por dizer. Dor e humilhação nacional. Se o vazio retórico se instalou, lá está ele, rápido, certeiro e confiável. Nosso amigo desponta na conversa: "O futebol é uma caixinha de surpresas". O que não seria? Casamento? Política? Bebês? Mais curioso, usar a não surpresa (o clichê) para caracterizar o inesperado. O futebol surpreende. A crônica sobre ele, raramente.

Estamos quase "condenados" ao uso do clichê. Pode ser atenuado, parcialmente evitado, porém, como um parente indesejável, ele surge de "mala e cuia" (um clichê regional) a sua soleira. A gíria ou o palavrão cumprem o desiderato do Eclesiastes: tudo tem seu tempo e sua hora. A volta do recalcado, ele, o lugar-comum, repara a rachadura da parede discursiva e aplaina o que faltava escrever ou dizer.

Fico em dúvida sobre dar um exemplo final menos delicado, todavia divertido. Peço desculpas e, se o dileto amigo e a iluminada amiga forem muito sensíveis, advirto que interrompam a leitura por aqui. Se seguir, que o faça por "sua conta e risco". Tive um bom professor de estilo e de escrita. Austero, evitava termos chulos e se pronunciava de forma muito sóbria. Um dia (talvez fosse cansaço, o sol a pino ou o desgaste de material das sinapses) ele ouviu uma réplica de um aluno que escrevera "via de regra". "Por que o senhor riscou de vermelho?" 

O mestre empertigou-se, mexeu nos óculos, mirou o infrator e disse de forma direta: "É uma expressão expletiva, nada acrescenta. Retire-a e verá que não faz falta. Via de regra é vazia". Meu colega, mais rebelde do que inspirado, redarguiu. Insistiu que era bela e boa. Lançou nova investida: "Não poderia deixar de ser expletiva?". O professor desistiu dos caminhos semânticos e disse: "Sim, quando for vagina, aí ?via de regra? será fática". Se você não entendeu logo, alegre-se. Nós só rimos depois de um tempo. Manter a esperança será um clichê?

LEANDRO KARNAL


21 DE MARÇO DE 2020
COM A PALAVRA

É PRECISO JUNTAR FORÇAS GLOBALMENTECONTRA O CORONAVÍRUS.

CAROLINA BATISTA, médica, 43 anos Com experiência de assistência em epidemias ao redor do mundo, é a única brasileira no conselho internacional da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF)

A entrevista estava marcada para as 15h de 3 de março. Falaríamos com a médica Carolina Batista sobre seu trabalho de assistência humanitária na Líbia, onde chegou em um barco de pescadores em meio à guerra, na Somália, país no qual atuou em apoio às vítimas de mutilação genital, e na Grécia, porta de entrada na Europa dos refugiados dos conflitos no Oriente Médio e na África. Mas, uma hora e meia antes, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o coronavírus uma pandemia, mudando de patamar a reação global contra a disseminação da doença. 

Formada na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, com mestrado pelo Instituto de Saúde Pública e Tropical Suíço, de Basel (Suíça), Carolina sabe os impactos que a falta de coordenação diante de grandes crises de saúde pública pode provocar em seres humanos. Nesta entrevista, ela avalia o avanço do coronavírus, alertando para que a doença não alimente o preconceito e a xenofobia. Apesar da preocupação, a profissional está otimista em relação à união de esforços globais para conter a doença.

COMO MÉDICA ESPECIALISTA EM ASSISTÊNCIA HUMANITÁRIA, TENDO TRABALHADO EM MEIO A GUERRAS E CATÁSTROFES, COMO A SENHORA AVALIA A PANDEMIA DO CORONAVÍRUS E A REAÇÃO DOS GOVERNOS?

A gente tem seguido muito de perto a situação. Estamos conversando com autoridades, Organização Mundial da Saúde (OMS), com autoridades na China, vendo se há algo que a gente possa fazer para atuar no sistema de vigilância ou para doação de materiais não perecíveis, para apoiar no combate à epidemia. O Médico Sem Fronteiras (MSF) tem grande presença na Itália. As medidas para evitar o contágio são simples, mas complexas. Porque é uma doença que tem uma alta taxa de contágio, existe grande risco mesmo em pessoas assintomáticas, e hoje, claro, as fronteiras são muito permeáveis no mundo todo. A organização tem tentado monitorar ao máximo, passando informações a nossas equipes que estão em mais de 70 países e recebendo informações em tempo real sobre medidas de proteção, como pode-se lidar com casos suspeitos, e, principalmente, tentando fazer com que toda essa discussão e enorme atenção da mídia não tirem do foco também o nosso objetivo maior que é prestar atenção a outros pacientes, que estão morrendo de sarampo, que sofrem com a situação da Síria, que escalona e se deteriora a cada dia, com mais de 1 milhão de pessoas deslocadas apenas internamente.

VOCÊS TÊM EXPERIÊNCIA EM COMBATE A EPIDEMIAS, COMO O EBOLA E O SARAMPO NA ÁFRICA. O QUE MAIS PODE SER FEITO, ESPECIALMENTE COM RELAÇÃO A PESSOAS MAIS VULNERÁVEIS?

Estamos tentando fazer com que nossos centros estejam bem equipados, com pessoas preparadas para receberem o potencial aumento do fluxo de pacientes com infecção do coronavírus, mas ao mesmo tempo fazer com que esse alarme não tire o foco do trabalho. A gente está lidando com questões de vida e morte. Temos uma posição privilegiada ao saber lidar com epidemias e uma capacidade de resposta grande. O nosso papel no momento talvez seja como multiplicador de capacidade de respostas, fazendo treinamentos. Estamos analisando isso, sem tentar substituir governos que tenham capacidade de resposta.

A SENHORA ACHA QUE A ATENÇÃO QUE ESTÁ SENDO DADA AO CORONAVÍRUS ESTÁ ADEQUADA À EMERGÊNCIA?

É um vírus que a gente está conhecendo agora, quase como se fosse uma pessoa que está chegando ao nosso círculo. A taxa de contágio é extremamente elevada. A letalidade é razoável. A combinação desses dois fatores, propagação rápida com taxa de letalidade que não é baixa, preocupa. O mundo está preocupado. A OMS lançou esse anúncio de pandemia. Que bom. Isso significa que os diferentes atores ao redor do mundo agora têm um alicerce em comum para trabalhar, juntar forças: alguns desenvolvendo vacinas, outros fazendo testes... E é preciso juntar forças globalmente contra o coronavírus. A China está fazendo ensaios clínicos com pequenos grupos de pessoas. Já estão testando utilizar antivirais e até antimaláricos para tratar esse vírus. Quando a gente está frente a algo que não conhece, fica assustado. Mas há lições que podemos aprender: quando há algo com essa dimensão, na qual diferentes grupos, setor privado, países, OMS, laboratórios colocam-se na mesma mesa para buscar uma solução, conseguimos uma resposta bem mais acelerada. O avanço que já houve para o desenvolvimento de uma vacina, em semanas, é inspirador. Geralmente, isso demora anos.

SE OLHARMOS EPIDEMIAS DO PASSADO, COMO A GRIPE ESPANHOLA, PODEMOS FICAR MAIS OTIMISTAS TANTO COM RELAÇÃO AOS AVANÇOS DA CIÊNCIA QUANDO DOS ORGANISMOS MULTILATERAIS? A GOVERNANÇA GLOBAL ESTÁ MELHOR PREPARADA?

Existe uma grande lição aí, tentando comparar com doenças negligenciadas ou com o ebola, que têm um padrão de estudo clínico ou de vacinas elevado: as exigências de tempo para você atingir os objetivos são muito altas, mas, em uma crise como a atual, vê-se que podem ser flexibilizadas. Quando existe algo que atrai a atenção, existe toda uma movimentação para que os tempos sejam acelerados. Talvez a gente não precise um corte de "x" mil pacientes, mas bem menos do que isso nos testes. Talvez a gente possa aceitar os resultados aproximados, flexibilizando as exigências. Se a governança mundial está boa ou não, só o tempo irá mostrar. Mas uma coisa já é clara: há algo a aprender aí. Gostaria muito de ver algo assim também para doenças que afetam pessoas esquecidas pelo mundo. No caso da vacina do ebola, a gente teve de esperar muito, mesmo sendo a segunda maior epidemia do mundo, que está chegando ao fim no Congo depois de mais de 2 mil mortes. A gente tinha uma vacina potencial para o ebola desde a década de 1990, mas, por falta de incentivo, não levamos adiante até que se declarasse uma epidemia com essa dimensão.

NO CASO DO EBOLA, A REAÇÃO DA OMS FOI TARDIA. DIANTE DO CORONAVÍRUS, O OCIDENTE SÓ ACORDOU PARA A DOENÇA QUANDO ELA CHEGOU À EUROPA. A SENHORA PERCEBE DIFERENÇA COM RELAÇÃO A DOENÇAS NA ÁFRICA?

O MSF está bem posicionado como organização porque a nossa zona de trabalho está justamente nos locais onde há menos investimento. É difícil afirmar, mas acho que sim: há uma valorização diferenciada ao se medir o peso ou o impacto em uma região e outra. Se a gente olhar os grandes relatórios de instituições que demonstram quanto investimento é feito para cada doença, infelizmente a gente vai ver que doenças que são confinadas a grupos isolados, apesar de serem números importantes, atraem pouco interesse mercadológico. São percebidas como doenças pouco rentáveis. Todas essas situações de epidemias agudas nos dão uma grande oportunidade de se redesenhar o modelo de investimento em saúde, a coordenação entre os diferentes atores para que possamos ter a certeza de que o que rege os investimentos ou a atenção não é onde essas doenças ocorrem, mas sim as necessidades das pessoas.

DOENÇAS QUE NÃO CHAMAM ATENÇÃO OU NÃO TÊM GRANDE IMPACTO MIDIÁTICO NÃO MOBILIZAM O DESENVOLVIMENTO DE VACINAS?

O próprio nome "doenças negligenciadas" já é uma aceitação de como as grandes instituições e os poderes privado e público as tratam. Não são as doenças que são negligenciadas; são as pessoas. Há doenças que, apesar de afetarem um número importante de pessoas, entre 1 bilhão e 2 bilhões, mais do que um sexto da população mundial, são negligenciadas. Não são doenças raras, com poucos números. São doenças que afetam pessoas em diferentes partes do mundo, de todos os continentes, na sua maioria pobres, com pouco acesso à saúde, vítimas de conflitos, de deslocamento forçado. Há muito pouco investimento em pesquisa para medicamentos e ferramentas de saúde para hanseníase, leishmaniose, esquistossomose e doença de Chagas, por exemplo.

SÃO POUCO LUCRATIVAS DO PONTO DE VISTA DA INDÚSTRIA FARMACÊUTICA?

Essas doenças atraem pouco investimento porque são vistas como doenças não lucrativas do ponto de vista mercadológico. Do final da década de 1970 ao início da de 2000, menos de 1% de todos os medicamentos registrados no mundo era para essas doenças que citei e mais a malária. Ou seja, é um desequilíbrio fatal. No momento em que a gente sequencia o genoma, consegue fazer tantas pesquisas tão inspiradoras, é importante que nos organizemos para mudar isso.

A SENHORA COMENTA QUE QUESTÕES DE SAÚDE MUITAS VEZES SERVEM PARA JUSTIFICAR MEDIDAS RESTRITIVAS, DE CONTROLE MIGRATÓRIO. A SAÚDE PASSA A SER VISTA COMO UM PROBLEMA DE SEGURANÇA?

A gente vê isso ser usado como forma de valorizar diferentes grupos ou justificar retaliações, restrições e medidas coercivas. O barco do MSF, o Ocean Viking, que presta atenção e salvamento às vítimas que tentam cruzar o Mediterrâneo, tinha entrado em quarentena na Sicília (após o desembarque de 276 pessoas resgatadas no mar nos dias anteriores). Você pode pensar: há risco. Mas quantos outros barcos passam ali? Instrumentaliza-se isso para criminalizar essas pessoas. Sempre, ao longo da história da saúde pública, isso se repetiu diante de casos de epidemias agudas. Pessoas com tuberculose eram totalmente isoladas. Temos de ter o cuidado de olhar para a história para não cometer os mesmos erros. Com relação ao coronavírus, a gente vai aprendendo ao longo do desenrolar da própria epidemia. Temos de ter cuidado para não abordar diferentes grupos de forma diferente: "Podemos receber essas pessoas, aquelas não; a gente não quer esse grupo aqui", "vamos aproveitar para tomar medidas mais drásticas evitando que cheguem perto de nós". A saúde não pode ser instrumentalizada como forma de potencializar preconceitos, vulnerabilidades e exclusões.

NOS ÚLTIMOS TEMPOS, DOENÇAS QUE ESTAVAM ERRADICADAS, COMO O SARAMPO, REAPARECERAM. COMO A SENHORA AVALIA OS MOVIMENTOS ANTIVACINA E A IDEOLOGIZAÇÃO DO TEMA?

Extremamente preocupante. Se há uma ferramenta que no último século mudou a mortalidade no mundo foram as vacinas. No início de 1900 e ao longo das décadas, havia grande quantidade de casos de sarampo. Isso decresceu de maneira superimportante. Doenças como a poliomielite, hoje, pouquíssimos países ainda a têm. É uma demonstração do sucesso da vacinação. E agora... Só em 2019, mais de 6 mil crianças morreram no Congo por complicações do sarampo. Mais de 300 mil casos foram reportados no ano passado nessa região. No Brasil, esse é um tópico de atenção.

COMO A SENHORA VÊ O MOVIMENTO ANTIVACINA NO BRASIL?

Vejo campanhas, anúncios, um esforço do Ministério da Saúde diante de qualquer ação que venha a questionar a eficácia da vacina. Sou sempre a favor de usar as histórias das pessoas. Lembro que, quando eu era pequena, via pessoas na família. Lembro de uma prima que havia tido pólio quando criança. Era supertriste ver aquela pessoa com uma deficiência física significativa. É importante que a gente tente ter relatos dessas pessoas, porque, se não entendemos a consequência de uma coisa, fica mais fácil cair em um discurso que não é baseado em evidência científica. Existe algo chamado vacina, que é relativamente fácil de se fazer uso no Brasil. Não estou falando de contextos complicadíssimos como aqueles em que o MSF atua. No Brasil, a gente tem de ter um cuidado especial com relação à questão migratória, de fluxo de pessoas chegando da Venezuela. Ter cuidado para que não se instrumentalize isso, usando a questão para reforçar discursos xenófobos, preconceituosos, "essas pessoas estão trazendo doenças". Trabalhei em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. Para a gente chegar a algumas aldeias, tinha de ficar de dois a três dias em uma canoa. E a gente conseguia vacinar as pessoas. Ao invés de cair na armadilha desse discurso, de fechar fronteiras, devemos pensar como a gente pode colocar em prática anos de experiência, toda uma expertise de pessoas extremamente comprometidas no Brasil, nos ministérios, nas ONGs e entidades que trabalham com saúde pública como instrumentos de detenção e controle da emergência dessas doenças.

TRABALHAR COM AJUDA HUMANITÁRIA, EM REGIÕES DE CONFLITO E CATÁSTROFE SEMPRE FOI UM SONHO SEU?

Sou médica, natural de Niterói (RJ), estudei graduação na Universidade Federal Fluminense (UFF), sempre com um olhar para a assistência humanitária. Eu fazia Engenharia Química. Meu pai é jornalista. Um dia, estava em casa e meu pai chegou com uma revista Marie Claire na qual havia uma entrevista com uma médica e uma enfermeira de MSF. Na época, não tinha ninguém no Brasil do MSF. Tive aquele chamado: "Nossa, quero fazer isso na vida". Aquilo ditou muito como foi minha trajetória de vida. Decidi que ia fazer vestibular para Medicina e entrei na faculdade com esse foco. Queria fazer medicina humanitária, ser instrumento para levar ajuda, atenção médica às pessoas excluídas do mundo. Onde houvesse necessidade, eu queria atuar.

E COMO CHEGOU AO MSF?

Me formei no Brasil, trabalhei em Santa Catarina como médica de família, sempre optei em trabalhar com atenção primária ou em locais onde não havia muitos recursos. Depois, fui para a Amazônia, onde fiquei quase cinco anos trabalhando com indígenas na fronteira com a Colômbia. Foi uma grande escola de vida: tratei malária, fiz procedimentos cirúrgicos sem muita estrutura. Vejo como uma "pós-graduação em medicina humana". Aprendi muito com as pessoas do lugar, tanto indígenas quanto profissionais de saúde que me mostraram que, lá, a doença tinha outra explicação, outra interpretação. Consegui uma bolsa, fui fazer mestrado fora. Estudei no Instituto Tropical Suíço, em Basel, depois na Bélgica, um pouco de gestão de projetos. Depois, entrei para o MSF. Para mim, era importante estar muito bem preparada. Queria estar armada com as melhores ferramentas possíveis do entendimento médico, humanitário. Quando entrei no MSF, em 2007, fiz minha primeira missão em um contexto extremamente difícil, a Somália. Então, tudo fez sentido.

COMO É O SEU DIA A DIA? AINDA VAI PARA O FRONT OU É UM TRABALHO MAIS DE COORDENAÇÃO?

Tento morar no Rio (risos). É um trabalho que inclui muitas viagens. Estive na Grécia, visitando nossos projetos com refugiados lá. Durante quatro anos, fui diretora médica de MSF no Brasil, depois membro do conselho do MSF no Brasil e, desde o ano passado, no conselho internacional. Para mim, é uma honra, pensando naquela moça novinha que sonhou fazer parte dessa organização. Foi a primeira vez que alguém do chamado sul global foi eleito. É uma honra ser um pouco porta-voz do Brasil e da nossa região. A gente ajuda na tomada de decisões, nas reflexões políticas, nas escolhas do MSF, mas vejo o conselho internacional, sobretudo, como o órgão para o qual o MSF presta contas. E, sim, felizmente, esse trabalho inclui idas ao front. Agora, estive na Grécia, vou voltar para lá mês no que vem e vou ficar um tempo na ilha de Lesbos. E, provavelmente no meio do ano, devo ir para algum projeto, talvez em algum país da África, no Sahel, que também é um contexto bastante complexo. É uma posição que sempre vai estimular que a gente esteja no front, porque nos ajuda a ter legitimidade no que a gente decide, para estar sempre em contato com as pessoas que fazem parte da organização, do médico que está no terreno. Entender a perspectiva daquele paciente. Hoje, a gente passa por um momento de extrema complexidade na ajuda humanitária, com, inclusive, a criminalização da ajuda humanitária. A gente vê organizações sendo expulsas de alguns países, com dificuldade de entrar em alguns contextos.

EM QUE CASOS A SENHORA OBSERVA ISSO?

Na região do Sahel, no deserto africano. A gente consegue, ainda, porque temos um grande trunfo que é ser uma organização neutra e imparcial. Nossos fundos não vêm de governos, de grandes instituições que são malvistas ou de forma suspeitosa por algum dos lados de uma situação de conflito. Não faz muito tempo, uma organização francesa teve de suspender suas atividades no Níger sob alegação de que estava prestando serviço a grupos terroristas. Você certamente acompanhou, nos últimos anos, estruturas médicas nossas sendo bombardeadas por grupos distintos.

ATÉ A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL, HOSPITAIS, MÉDICOS, AMBULÂNCIAS ERAM QUASE INTOCÁVEIS. POR QUE ISSO MUDOU?

Existe hoje o aumento da intolerância a diferentes grupos, que foram responsáveis direta ou indiretamente por situações vistas pelos olhos do mundo como terrorismo. Hoje se vê, do ponto de vista das grandes instituições do Ocidente, que existe uma definição mais clara de um perfil daqueles grupos que causam medo: associados a ações mais extremas. Do outro lado, há também grupos vistos como mais extremos que acham que ONGs e instituições que estão nesse contexto para prestar atenção médico-humanitária são instrumentalizadas pelo grande poder ocidental. E isso coloca as organizações entre a cruz e a espada, em uma situação bastante exposta e vulnerável.

RODRIGO LOPES

21 DE MARÇO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

TRIAGEM NOS AEROPORTOS

Medir a temperatura na testa, com termômetros que parecem revólveres, é um método impreciso
A cena do termômetro apontado para a testa do passageiro que desembarca no aeroporto tem se repetido em vários países. Faz parte da triagem para identificar pessoas com febre, tosse e falta de ar, sintomas associados ao coronavírus causador da doença covid-19.

Países mais radicais proíbem a entrada ou colocam em quarentena cidadãos vindos de áreas com surtos da doença. Dennis Normile, na revista Science, diz que "triagens na entrada e saída podem parecer tranquilizadoras, mas a experiência com outras epidemias mostra que é extremamente raro detectarem passageiros infectados". Como exemplo, cita o caso de oito viajantes infectados na Itália que passaram incólumes pela fiscalização do aeroporto de Xangai. Cabe perguntar qual seria o impacto na epidemia chinesa, caso tivessem sido identificados no aeroporto.

Em entrevista para a Science, Ben Cowling, epidemiologista da Universidade de Hong Kong, considera que a triagem serve no máximo para atrasar por alguns dias a chegada do vírus num determinado país e mostrar que o governo faz o possível para proteger a população. Os que defendem a triagem na saída do país de origem consideram a medida necessária para impedir que pessoas doentes disseminem o vírus em outras regiões. Os defensores da triagem no aeroporto de destino consideram que é uma oportunidade para o viajante entrar em contato com o sistema de saúde, receber informações sobre a doença e orientações sobre o que deve ser feito em caso de surgir sintomas.

De qualquer forma, o número de diagnósticos feitos no aeroportos do mundo é insignificante. Os Estados Unidos, que obrigam a passar pela triagem em 11 aeroportos todos os cidadãos e residentes que estiveram na China nos últimos 14 dias, identificaram apenas um caso.

Medir a temperatura na testa, com termômetros que parecem revólveres, é um método impreciso, porque eles medem a temperatura da pele, eventualmente diversa daquela do resto do corpo. Além disso, o passageiro afebril pode estar sob efeito de antitérmicos ou no período assintomático de incubação que, no caso do atual coronavírus, pode chegar a duas semanas.

Outras epidemias mostraram como falham esses métodos de triagem. Durante o surto de Ebola, virose com período de incubação de dois dias a três semanas, nenhum caso foi diagnosticado em 16 meses entre os 300 mil passageiros que embarcaram nos aeroportos de Serra Leoa, Guiné e Libéria, países assolados pela doença. Dois viajantes desenvolveram sintomas quando já estavam no Exterior.

Japão e China organizaram programas rigorosos de triagem durante a epidemia de gripe H1N1, sem resultados. Na epidemia de Sars, causada por outro coronavírus, o Canadá investiu 5,7 milhões de dólares canadenses na triagem de passageiros que chegavam no país, sem conter a epidemia. Os australianos calcularam que cada caso detectado pela triagem na epidemia de H1N1, em 2009, custou 50 mil dólares canadenses para os cofres públicos.

DRAUZIO VARELLA


21 DE MARÇO DE 2020
BRUNA LOMBARDI

A PANDEMIA E UMA REFLEXÃO

Nesse momento alarmante que vivemos, com suas consequências e significados, compartilho com vocês essa reflexão da psicóloga italiana Francesca Morelli, que reflete o pensamento da nossa Rede Felicidade, buscando novos ângulos e perspectivas para o nosso cotidiano:

"Eu acho que o universo tem sua maneira de restaurar as coisas para equilibrá-las de acordo com suas próprias leis, quando elas são alteradas. Os tempos em que vivemos, cheios de paradoxos, alimentam o pensamento.

Numa época em que as mudanças climáticas atingem níveis preocupantes devido aos desastres naturais que estão ocorrendo, a China em primeiro lugar e muitos outros países depois são forçados a bloquear; a economia entra em colapso, mas a poluição diminui consideravelmente. A qualidade do ar que respiramos melhora, usamos máscaras, mas ainda respiramos.

Em um momento histórico em que certas políticas e ideologias discriminatórias estão surgindo em todo o mundo, aparece um vírus que nos faz experimentar que, num piscar de olhos, podemos nos tornar os discriminados, aqueles que não têm permissão para atravessar a fronteira, aqueles que transmitem doenças. Mesmo sendo branco, ocidental e com todos os tipos de luxos baratos que temos ao nosso alcance.

Em uma sociedade baseada na produtividade e no consumo, na qual todos passamos 14 horas por dia correndo, não sabemos muito bem para onde, sem descanso, sem pausa, de repente somos forçados a parar. Recolhidos em casa, dia após dia. Contando as horas de um período do qual perdemos o valor, se não for medido em algum tipo de remuneração ou em dinheiro. Ainda sabemos como usar nosso tempo sem uma finalidade específica?

No momento em que os pais, por motivos maiores, costumam delegar seus filhos a outras pessoas e instituições, o Coronavírus força as escolas a fecharem e nos obriga a buscar soluções alternativas, coloca os pais juntos aos seus filhos. Nos obriga a sermos família novamente.

Numa dimensão em que as relações interpessoais, a comunicação, a socialização, são realizadas no espaço virtual das redes sociais, dando-nos a falsa ilusão de proximidade, esse vírus nos tira a proximidade verdadeira e real: sem toques , beijos, abraços, tudo deve ser feito à distância, na frieza da falta de contato. Quanto de nós damos a esses gestos seu verdadeiro significado?

Numa fase social em que o pensamento sobre si mesmo se tornou a norma, esse vírus nos envia uma mensagem clara: a única maneira de sair disso é fazer ressurgir em nós a sensação de ajuda ao próximo, de pertencer a um coletivo, ser responsável e fazer parte de algo maior, que por sua vez, é responsável por nós. Corresponsabilidade: sentir que suas ações influenciam no destino das pessoas ao seu redor e que você também depende delas.

Vamos parar de procurar culpados ou nos perguntar por que isso aconteceu e começar a pensar sobre o que podemos aprender com tudo isso. Todos temos muito em que refletir e nos empenhar. Com o universo e suas leis, parece que a humanidade já está bastante endividada e que essa epidemia está chegando para nos explicar, a um preço caro".

Bruna Lombardi escreve a cada 15 dias neste espaço. Na próxima semana, leia a coluna de Monja Coen.

BRUNA LOMBARDI


21 DE MARÇO DE 2020
SAUDE MENTAL

O FIM DA ONIPOTÊNCIA E DA IGNORÂNCIA

O CORONAVÍRUS NÃO RESPEITOU CASTAS, REAFIRMOU A FORÇA DA NATUREZA E PODE, PELO SOFRIMENTO CAUSADO, DIMINUIR O DESPREZO PELA CIÊNCIA, ESCREVE PSICANALISTA

A sociedade em que vivemos está mais para castas do que para classes. Nela, a desgraça está destinada a alguns, enquanto outros têm inclusive o privilégio de ignorá-la. A atual contaminação não somente ignora essas fronteiras como começou vitimando aqueles cujo poder aquisitivo fazia supor que tinham o corpo fechado, os lugares higiênicos e os recursos médicos para se proteger.

Frente a esse vírus, não há privilegiados. Talvez a experiência dessa trágica igualdade ensine um pouco sobre o preço de viver sem pensar nos menos favorecidos. Não há como sair dessa sem pensar em saúde pública, no sentido de todos contribuírem para diminuir a disseminação da doença. Somente investimentos públicos maciços podem garantir mais vidas, assim como atitudes coletivas de consciência e solidariedade. Ninguém tem como se dar bem sozinho nesta. Espero que saiamos desta confusão, os que sobrevivermos, com o egoísmo individualista no mínimo abalado.

Tendemos à onipotência e os poderes imaginários que atribuímos à tecnologia, ao mundo digital. Suas supostas maravilhas parecem colocar a humanidade aos pés da máquina e dos que melhor a utilizam. Até que tropeçamos na realidade do corpo, da morte, de todas as limitações que a fantasia digital vende como transponíveis. Descobrimo-nos, então, dependendo da verdadeira ciência, que pode até beneficiar-se muito de recursos tecnológicos (que ela mesma criou), mas em seu trabalho é cautelosa e lenta. Suas descobertas salvam e transformam vidas, mas ela não é mágica.

Não nos acomodamos bem com a medida humana das coisas, desejamos crer em poderes divinos, certezas eternas, só assim nos sentimos seguros. Por isso mantemos uma relação ambivalente com os que possuem os conhecimentos dos quais neste momento dependemos para sobreviver. Acredito que todo esse sofrimento possa diminuir a paixão pela ignorância e o desprezo pelos estudiosos.

Na relação com a natureza, deve acontecer negociação semelhante. As plantas e os animais não podem ser convertidos em bens para nosso uso indiscriminadamente. Quando um desequilíbrio como um vírus animal dizima humanos, torna-se visível nossa fragilidade frente à natureza poderosa e autônoma em seus desígnios. É possível negar os efeitos de nossa intervenção irresponsável, pois carece algum raciocínio para ligar nossos atos de agressão ao ecossistema às desgraças que eles provocam. Já uma pandemia, como o coronavírus, deixa explícita a fragilidade desses animais tão prepotentes que são os humanos. Talvez aprendamos, se não a respeitar, pelo menos a temer a natureza.

QUE SOCIEDADE VAI EMERGIR DA PANDEMIA?

"Gostaria de acreditar que uma sociedade mais unida, mais integrada, mais empática. Certamente o coronavírus não irá transformar o mundo, tampouco a imensa diversidade tão complexa dos seres humanos. Mas ele já está nos relembrando que somos um planeta único, um sistema integrado, que o ser humano é igualmente vulnerável sendo chinês ou americano, com mais ou menos dinheiro, branco ou negro. O vírus também nos lembra que o ser humano consegue rapidamente se articular, buscar respostas, mas que também sobrevive se desacelerar, que tem capacidade de se preocupar e cuidar e acima de tudo ser criativo e pode cantar e brincar. Que isso permaneça! Que não seja um privilégio só dos tempos de crise!"

GIULIANA CHIAPIN

Psicóloga 

"É importante que uns tentem ajudar os outros. Vivemos tempos que requerem solidariedade. Solidariedade é o contrário do neoliberalismo que há anos e anos buscam nos impor. Tudo o que aprendemos sobre Estado mínimo estava errado. Imaginar o amanhã é o desafio que passa por aprender já o quão decisivo são a educação pública, a saúde pública, com o fantástico SUS que os últimos governos vêm atacando ao minguar as verbas. A hora não é de fanatismo político ou religioso, a hora é de os cientistas desenvolverem novas vacinas, e a hora é dos artistas que precisam inventar como chegar aos seus públicos pelas redes sociais. A hora é de a civilização crescer, amadurecer e mobilizar suas forças de integração, ao contrário dos últimos anos, nos quais Trump e outros líderes fizeram guerra. O vírus, hoje, adoece, às vezes mata, gera tristeza, mas novos caminhos serão criados como foram no passado. De algo estou seguro: os mais ricos, os ricos e os letrados ou não têm de aprender mais sobre a importância da solidariedade. É tempo de aprender que o futuro da humanidade passa pela solidariedade e não por acumular milhões e bilhões como o triste Tio Patinhas."

ABRÃO SLAVUTZKY

Psicanalistai 

Uma coisa é uma sociedade que gostaria que emergisse: mais solidária, mais consciente da sua responsabilidade com o coletivo, que desse mais valor a investimentos de longo prazo, como atenção a saneamento, saúde básica e educação, em vez de deixar-se guiar pela montanha-russa dos mercados financeiros. Tenho minhas dúvidas de que isso mude por essa crise que, embora de dimensões globais, ao que tudo indica deve passar em questão de meses. Talvez saiamos dela como uma sociedade que lava mais as mãos, usa mais álcool gel, beija menos e evita aglomerações ao menos por um tempo. Não sei se as marcas dessa crise serão profundas o suficiente para haver mudanças radicais; desejo que sim, desconfio que não. Tem circulado na internet um vídeo de cinco anos atrás no qual, após a crise do ebola mais letal, mas menos contagioso , Bill Gates alertava para os perigos de uma outra epidemia viral e desenhava estratégias relativamente simples, mas importantes de serem adotadas pelos governos. Não aconteceu.

BATEU O TÉDIO? CRESÇA!

Cinemas fechados, shows cancelados, novelas interrompidas, campeonatos esportivos paralisados, bares e boates suspensos. A diversão como a conhecíamos mudou. Durante a pandemia de coronavírus, ganham força entretenimentos solitários - há quem esteja redescobrindo a leitura, por exemplo. Mas mesmo esses, em algum momento, buscarão a coletividade. Postam nas redes sociais os livros que estão lendo, dão indicações, pedem outras.

- Tem aquele ditado, quem não é visto não é lembrado. Não queremos desaparecer. O ser humano só se acredita vivo quando alguém sabe de sua existência. Pensar que alguém se importa com o que fiz é o que nos move às redes - comenta a psicanalista Diana Corso.

Sem os palcos, sem as ruas, artistas como Chris Martin, da banda Coldplay, Miley Cyrus e John Legend têm usado o Instagram para entreter seus fãs. Diana vê com ressalvas:

- Onde é que está escrito que a gente tem de se divertir o tempo todo? Estamos ingressando num tempo que se compara ao de uma guerra. Vamos sofrer privações. Entre elas, a das diversões, públicas ou não. Não adianta se atirar no chão da loja de brinquedos que não vamos ganhar a boneca.

Seu marido, o também psicanalista Mário Corso, entra na conversa para arrematar:


- As pessoas andam infantilizadas, mas o mundo é duro. Há uma mensagem maravilhosa que vem circulando, aquela que diz nossos avós foram chamados para a guerra; a nós, só estão pedindo que a gente fique em casa, no sofá. É isso. Está na hora de crescer e deixar de ser criança. Não dá para ficar fazendo festinha o tempo inteiro, como o (presidente) Bolsonaro fez no domingo (quando, com suspeita de que pudesse estar com coronavírus, não seguiu a orientação de evitar aglomerações e contato físico, cumprimentando manifestantes e posando para selfies). Eis alguém que pensa que ninguém tem o direito de opinar sobre seu gozo.

PAULO GLEICH - Psicanalista  - *Psicanalista - DIANA CORSO*

21 DE MARÇO DE 2020
EM FAMÍLIA

O DECÁLOGO DO EQUILÍBRIO

É importante informar aos colegas de trabalho quando será a melhor hora para agendar chamadas e reuniões. Talvez seja durante a soneca do filho ou no final da tarde, quando um dos pais estiver mais aliviado dos afazeres e puder tomar conta do pequeno.

Procure replicar em casa a disciplina e os horários que a criança tem na escola, pois isso facilitará a adaptação dela a uma nova rotina.

Proponha brincadeiras e desafios aos filhos, com metas e prazos, para que eles fiquem envolvidos durante um tempo maior e permitam que você trabalhe.

Você pode trabalhar no mesmo local onde o seu filho brinca, mas certifique-se de que a atividade paralela não atrapalhe sua concentração e o foco no trabalho.

O diálogo é importante neste momento. Explique à criança que este é um período diferente e temporário, em que as famílias terão de ficar em casa e reunidas por um tempo prolongado, e que também precisa da ajuda deles para que a coisa funcione.

Excepcionalmente, pode ser necessário flexibilizar as regras de tempo conectado a telas e eletrônicos. Se é possível obter 30 minutos ininterruptos para trabalhar enquanto os filhos assistem a um programa, aproveite para usar essa carta na manga quando for necessário.

Se os pequenos ainda cochilam regularmente, ótimo - é possível aproveitar esse tempo para atender uma ligação ou acompanhar o e-mail. Se são maiores, pode ser válido definir uma expectativa de que eles passem um tempo no quarto relaxando ou ouvindo um audiolivro, por exemplo.

Aceite que talvez haja uma redução na sua produtividade neste período. Não adianta se culpar caso perceba que o ritmo ou a qualidade de seu trabalho caia nos primeiros dias; isso é parte do processo.

Se ambos os pais estão trabalhando em casa, é interessante programar momentos de uma ou duas horas por dia para que cada um se dedique ao trabalho, enquanto o outro cuida da criança.

Se outros membros da família ou filhos maiores estiverem disponíveis, é importante pedir a ajuda para levar as crianças para tomar um ar ou brincar na sala da família.

Fontes: Glória Tassinari Yacoub, especialista em produtividade e mercado de trabalho, e Vanessa D?Angelo, head de Marketing para a América Latina da LogMeln, empresa pública de software que oferece soluções de comunicação unificada e colaboração.


21 DE MARÇO DE 2020
J.J. CAMARGO

INFORMAÇÃO QUE NÃO AJUDA ATRAPALHA

Alguém, falando do papel dos médicos nessa pandemia, lembrou o episódio do Titanic, em que a banda seguia tocando enquanto o navio afundava. E concluiu: nós somos a banda

A vida do editor de notícias está cada vez mais enroscada. De um lado, a preocupação de não ser ultrapassado pelo concorrente que pode anunciar a qualquer momento uma notícia importante. Do outro, a responsabilidade de separar a verdade deste lixo que inunda o submundo da informação, em que há uma disputa acirrada para ver quem produz a notícia falsa mais crível. Quando a má informação mexe com saúde, o imaginário popular multiplica o dano, confirmando que a velocidade de disseminação da estupidez é infinitamente superior à de qualquer vírus. E igualmente não tem vacina.

Como as notícias têm sido rotineiramente trágicas, há nesta enxurrada de informações o risco verdadeiro de induzir ao que podemos chamar de "intoxicação de desgraça". E, então, o cidadão comum abandona o telejornal e migra para o BBB, onde predomina a idiotia, mas temos que admitir que o nível de estresse é quase zero. Digo quase porque a escolha do líder sempre gera alguma ansiedade. Se esse quadro desperta tensão nos leigos que ouvem as novas, mas acham que não têm nenhum compromisso de mudar o desenrolar dos acontecimentos (porque, afinal, isso é responsabilidade dos "homens lá de cima"), imagine-se a angústia de quem tem de decidir como lidar com uma realidade que insiste em ser dramática.

A busca desse equilíbrio tem revelado admirável maturidade e profissionalismo dos gestores do Ministério da Saúde, liderados por Luiz Henrique Mandetta, que vêm fazendo um trabalho de extrema competência, para que ninguém tenha a pretensão de acusá-los de negligência, e mantendo a serenidade para impedir o pânico, que é vizinho de porta da ignorância. Quando o New England Journal of Medicine, o semanário médico mais conceituado do mundo, publicou os dados clínicos dos primeiros 1.099 pacientes, oriundos de 30 províncias chinesas, algumas coisas ficaram evidentes: desses enfermos, 5% foram internados em UTI, 2,3% necessitaram de respiração artificial e 1,4% morreram.

A relativa tranquilidade de constatar-se que era menos letal, por exemplo, do que o influenza H1N1 ignorou, num primeiro momento, uma característica muito peculiar da covid-19: ele tem uma grande capacidade de disseminação, traduzida pela velocidade com que se alastrou pela Europa, rompendo barreiras sanitárias com rapidez incomum. A evolução no Brasil foi característica: primeiro, os casos de viajantes chegados da Ásia ou Europa, depois seus convivas, e por fim pessoas que nem viajaram, que conheceram quem tenha viajado. Percebeu-se então que a observação inicial de que há necessidade de UTI para só 5% dos contaminados poderá representar grave preocupação, se muitas pessoas foram contaminadas em curto período, porque então os 5% poderão comprometer as reservas de leitos de UTIs disponíveis. E aqui uma conclamação: os ingressos para espectadores estão esgotados, todos precisam ajudar.

Como toda a epidemia viral é autolimitada, essa também passará, e a previsão é de que as coisas se normalizem em quatro meses. Até lá, a nossa parte é desacelerar a progressão da doença, e para isso, temos que: lavar as mãos depois que tocar em superfícies que foram tocadas por outras pessoas, evitar aglomerados, usar máscara quando for inevitável a circulação em locares congestionados, e proteger nossos velhinhos, mantendo-os em casa, porque eles são os mais vulneráveis, especialmente os portadores de doenças crônicas como diabete, cardiopatia e enfisema. Se conseguirmos evitar que a curva de aumento dos contaminados seja tão ascendente, daremos conta de oferecer tratamento adequado a todos os futuros pacientes. Com esses cuidados, quando a primavera chegar, estaremos outra vez saudáveis e livres para compensar, com exagero, todos os abraços por ora reprimidos.

J.J. CAMARGO


21 DE MARÇO DE 2020
DAVID COIMBRA

Ninguém espirra!

A Marcinha foi ao supermercado na sexta-feira e um cara espirrou nas costas dela. Sério. O sujeito ESPIRROU! Quem é mau-caráter a ponto de espirrar numa hora dessas? Hoje em dia, ninguém que tem bom senso espirra. Ninguém espirra, ninguém espirra!

Ela ficou lá, dura na fila do caixa, sentindo o úmido das gotículas venenosas do bandido escorrendo-lhe ombros abaixo, sem saber o que fazer, se saía correndo, se chamava a gerência, se ligava para os bombeiros, se gritava pela polícia. Chegou em casa em pânico:

- O que que eu faço? O QUE QUE EU FAÇO???

Meti-a em um banho de 35 minutos. Li que a água a 56°C mata o desgranido do vírus. O problema é que a água a 56°C queima a pele humana. Em todo caso, ela usou bastante sabão e tudo mais, talvez até detergente. Saiu imaculada feito uma freira, vermelha de tanto ter se esfregado.

Depois, fiquei pensando na roupa. Qual é mesmo o tempo de sobrevivência do bicho no tecido de pano? Sei que a superfície em que ele se sente melhor é o aço inoxidável. Para mim, essa informação foi uma surpresa e, para dizer a verdade, produziu-me certa decepção com o aço inoxidável, que achava tão asséptico, tão lisinho.

Deveríamos queimar a roupa, como os medievos faziam no tempo da peste negra? A Marcinha não aprovou essa ideia radical, ela gosta daquela roupa. Assim, deixamos tudo ao ar livre, ventilando, à espera de que o maldito morra de uma vez, intoxicado de puro oxigênio.

Que tempos.

Eu, após todos esses percalços, decidi que nunca mais vou pôr a mão no rosto. Nunca mais. Juro. As últimas 24 horas têm sido um tormento, devido a essa minha deliberação. Meus olhos coçam, minha testa coça, os cantos da boca coçam, não fazia ideia de como o rosto pode coçar. Mas o pior é o nariz. Por que o nariz coça tanto?

Minha irmã Silvia, a simples menção da palavra "barata" faz com que ela sinta violenta coceira no nariz. Quando éramos pequenos, eu ficava repetindo para ela:

- Barata, barata, barata!

E ela coçava o nariz em desespero, implorando:

- Para! Para!

Hoje, não lhe diria "barata", porque ela coçaria o nariz e assim poderia contrair o nefando.

Será que conseguirei atravessar a existência sem colocar a mão no rosto? Não poderei mais tirar aquelas fotos de escritores. Você sabe como são as fotos de escritores. Estão sempre nas orelhas dos livros: o escritor apoia o queixo na mão e olha para a câmera com olhar de fastio.

O olhar blasé é muito importante para a carreira de um escritor, porque lhe confere superioridade intelectual. O escritor é um sábio, ele conhece as verdades do mundo e se aborrece com a platitude da massa ignara. Sonhava em publicar uma foto dessas em um livro, mas agora não posso mais, agora não encosto a mão no rosto nem que me deem um barril de álcool gel. Pelo menos sei levantar a sobrancelha esquerda. Uma sobrancelha erguida também é sinal de inteligência. A propósito, acabo de levantar a sobrancelha esquerda para treinar para a foto do meu próximo livro e adivinha o que aconteceu: ela está coçando! Oh, como uma sobrancelha esquerda pode coçar tanto? Até quando esse vírus vai nos escravizar?

DAVID COIMBRA


21 DE MARÇO DE 2020
VARIANDO

Vivendo um teste civilizatório

Um dia, um aluno perguntou à antropóloga americana Margaret Mead qual seria, na opinião dela, a primeira evidência de civilização.

Provavelmente ele esperava que ela falasse de um artefato: uma clava, um anzol, pedras lascadas para cortar, uma lança, cestos para carregar comida. Os arqueólogos divergem sobre o alcance da importância dessas conquistas. E quais seriam propriamente humanas, já que a pedra, como martelo ou bigorna, é utilizada por macacos para abrir frutas e sementes.

Ela surpreende falando de um esqueleto de 15 mil anos encontrado por arqueólogos, cujo fêmur tinha cicatrizado. Ou seja, o osso do sujeito quebrou e voltou a soldar. Na natureza, osso quebrado é sentença de morte.

Portanto, o dono desse fêmur teve alguém que o cuidou, abrigou, trouxe-lhe comida e água até sarar. Isso significa no mínimo sete semanas. Como foi numa época antes da agricultura, tratava-se de um caçador-coletor. Sabemos que esses povos não produzem excedentes, comem o que conseguem no dia. Provavelmente teve uma rede de cuidadores.

Para Mead, a solidariedade seria a marca inicial do que nos fez civilizados. Portanto, teríamos a evidência nesse osso que se recuperou. A história é tão redondinha que dá para desconfiar, mas encontra-se num livro do médico americano Ira Byock, referência em cuidados paliativos.

Zygmunt Bauman, filósofo polonês, dizia medir uma civilização pela maneira como ela tratava os seus mais vulneráveis. Quanto mais cuidados dispensados aos que mais precisam, mas civilizada ele a considerava.

Não é à toa que o nazismo é o exemplo de inferno na terra, pois eles exterminavam justamente seus mais frágeis. Sociedade de zero compaixão. Pessoas não aptas eram mortas, isso incluía doentes mentais, crianças com paralisia cerebral, sindrômicos, enfim, fizeram uma faxina em todos não produtivos. E, se fossem viáveis economicamente mas homossexuais, judeus, ou ciganos, eliminação também.

Se esses pensadores têm razão, hoje estamos passando por um teste civilizatório: a maneira como vamos lidar com os nossos mais vulneráveis na atual crise. Estou me referindo aos mais velhos, que são as vítimas preferenciais da covid-19.

A irresponsabilidade em não seguir as regras básicas de prevenção irá nos mostrar duas coisas: ou o analfabetismo científico, ou o desdém para com a coletividade em geral. No segundo caso, especialmente um desrespeito aos idosos.

Está na mão, não só dos governantes, o controle sobre o número total de vítimas. Este é o momento em que vamos descobrir o quanto realmente somos civilizados, cuidando daqueles que um dia nos ampararam. No fundo, entender o que devemos fazer, e seguir estritamente as recomendações, mostrará o quanto amamos e respeitamos nossos pais e avós.

MÁRIO CORSO