sábado, 20 de setembro de 2025


Risco dispara na Argentina, e ministro nega calote

Depois que o dólar furou o teto da meta combinada com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a crise na Argentina se agrava. Para tentar evitar que a cotação se distancie muito, o governo voltou a adotar limites de negociação da moeda americana - o chamado "cepo" - para diretores, gerentes, acionistas que tenham mais de 5% do capital de bancos e financeiras autorizados a operar no mercado oficial (e familiares).

A mudança de escala da crise aparece no salto das manchetes de veículos especializados, como o Ambito, para os de informação geral, como Clarín e La Nación. A tensão fez o ministro da Economia, Luis Caputo, tentar tranquilizar o mercado. Afirmou, na quinta-feira, que está atuando para garantir os pagamentos dos próximos compromissos internacionais do país.

- Não ?defaulteamos? em 2023, quando chegamos e havia só duas escovas de dentes. Se acreditam que vamos fazê-lo na situação atual, saibam que não - afirmou um também tenso Caputo.

Tenta acalmar uma situação estressada, mas quando o ministro da Economia precisa dizer publicamente que não vai dar calote, é porque o risco é elevado.

Risco país e dólar em 1,5 mil (pontos e pesos)

O risco país, que vinha subindo desde a derrota do atual presidente, Javier Milei, nas eleições da província de Buenos Aires, disparou. Chegou na sexta-feira a 1,5 mil pontos, máxima em um ano, mesma cotação atingida na quinta-feira por alguns tipos de câmbio. Desde a derrota eleitoral, acumula alta de quase 60%. O principal índice da bolsa argentina, o S&P Merval, acumula tombo de quase 30% só em setembro, em dólares. No mesmo dia, Milei afirmou que negocia um empréstimo com os EUA.

Na frente política, a situação não está muito melhor: Milei enfrenta resistências no Congresso para aprovar projetos de novos cortes de gastos. No próximo mês, haverá eleição legislativa nacional em meio a essa tensão.

Por isso, não se descartam mudanças no regime cambial. Segundo a consultoria econômica 1816, citada pelo jornal Ambito, há risco de que as reservas líquidas do Banco Central da República Argentina (BCRA) voltem ao negativo em fevereiro de 2026. _

A bolsa bateu na sexta-feira um novo recorde nominal ao alcançar 145,8 mil pontos, fruto de variação de 0,25% para cima. O dólar voltou a ficar parado, com investidores realizando lucros (embolsando ganhos obtidos até agora).

Churras no apê

O bairro Petrópolis pode ser considerado o mais gaudério de Porto Alegre, ao menos em termos de mercado imobiliário. É que a região tem 4.236 imóveis à venda com churrasqueira, 65,9% a mais do que o segundo colocado, o bairro Menino Deus, com 2.553.

O levantamento é da startup Amostrando, que ajuda avaliadores imobiliários e fez pesquisa com curiosidades do setor para comemorar o mês marcado pelo Dia do Gaúcho. Ao todo, Porto Alegre tem 60.147 imóveis com churrasqueira à venda. _

Das bandejas ao metro quadrado

Com R$ 1,5 bilhão em vendas acumuladas ao longo dos seus seis anos de existência, a Urban Company, fundada por Babiton Espíndola, que atuava como garçom antes de entrar no mercado imobiliário, terá sua primeira unidade fora de Porto Alegre, em Canoas. Com investimento de R$ 1 milhão, deve gerar cerca de 50 empregos.

A Urban Company começou em uma sala de 20 m2 em Porto Alegre, com 14 funcionários. Com duas unidades na Capital, prevê chegar a R$ 450 milhões em vendas neste ano na Região Metropolitana. _

Com Supremo, com tudo?

Voltaram ao centro da cena política nacional o ex-presidente Michel Temer e o deputado federal Aécio Neves (MG-PSDB), como conselheiros do deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), que vai elaborar o texto do projeto de anistia - ou da dosimetria.

Nos bastidores, existem sinais de acordo para "pacificar" o país que envolvem integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF). Difícil não lembrar do "acordo com o Supremo, com tudo" que precisava de Temer, segundo o então senador Romero Jucá (MDB-AP), para barrar a Lava Jato em abril de 2016.

No Brasil, a história não se repete nem dá voltas, tomba. Anistias não são ruins por envolver cidadãos de uma ou outra força política. São negativas por reforçar o conceito de impunidade já tão entranhado na cultura nacional. Com essa possibilidade, não importa quantos crimes se cometam ou quantas regras legais se quebrem: sempre há a expectativa de um perdão.

O Brasil precisa de pacificação, de fato. Mas sem aspas. Para ser de verdade, exige comprometimento de todos, sem impunidade para quem depredou patrimônio nacional ou se envolveu em tentativa de golpe de Estado. E que todos convivam com seus adversários políticos, sem ver em quem pensa diferente um inimigo. Desse cenário, ainda estamos longe. _

GPS DA ECONOMIA 


20 de Setembro de 2025
EM FOCO - Rodrigo Lopes*

EM FOCO

Três anos após o início da invasão das tropas russas, Rodrigo Lopes, jornalista e colunista de ZH, viajou à Ucrânia. Nesta reportagem, ele descreve como os ucranianos em Kiev criaram uma rotina mesmo sob a ameaça de ataques de mísseis e drones

O dia a dia à sombra da guerra

São 9h40min (3h40min em Brasília) em um dos principais acessos rodoviários a Kiev, ou Kyiv, como preferem os ucranianos - e essa não é só uma questão estilística. Para a população, que desde 24 de fevereiro de 2022 vê seu país correr o risco de desaparecer do mapa, adotar a escrita e a pronúncia dos antepassados (e não o Kiev, derivado do russo, os agressores) é uma reafirmação da identidade nacional, da Ucrânia independente e soberana.

É uma terça-feira comum na cidade fundada no século 5 e que mistura, na arquitetura, raízes da Rus de Kiev, um grande reino medieval entre os mares Báltico e Negro, onde hoje estão localizadas Ucrânia, Belarus e a porção europeia da Rússia, igrejas ortodoxas em estilo bizantino, o classicismo herdado do império czarista, até os blocos de concreto do período soviético e as construções modernas da Ucrânia independente.

Há congestionamentos, moradores frequentam uma feira de frutas e verduras na entrada da capital e, na Praça Maidan, onde retumba a alma da resistência ucraniana, trabalhadores brotam da estação de metrô, para chegar ao trabalho.

Próximo ao Monumento da Independência, alguns pedestres se permitem uma rápida reverência no labirinto de bandeiras ucranianas, nas cores amarelo e azul, permeadas por fotografias dos soldados (considerados heróis) que tombaram nestes três anos e sete meses de guerra com a Rússia.

Quarenta minutos atrás, na cidade de Lviv, a cerca de 500 quilômetros de Kiev, como fazem todos os dias, às 9h, os moradores pararam, em um minuto de silêncio em homenagem aos mortos. A pausa, obedecida sob o comando dos alto-falantes, é contada, segundo a segundo, por uma batida seca como a de um martelo no metal. Estejam onde estiverem, na recepção do hotel, no caixa do supermercado, todos param e ficam de pé. Depois, voltam a seus afazeres.

É assim o dia a dia nas duas maiores cidades da Ucrânia. Kiev tem avenidas largas e grandes parques. Mistura o brutalismo da era soviética com prédios tecnológicos, como o NSC Olimpiyskiy, casa do Dynamo Kiev. É movimentada, moderna. A luz do outono a deixa mais brilhante e colorida. Na capital que Vladimir Putin sonhava conquistar em três dias, o som da guerra não ecoa pelo matraquear dos fuzis, como em Kharkiv, Zaporizhzhia e Dnipro - transformadas em campos de batalha, onde nacos de terra são disputados palmo a palmo pelo exército russo e as forças armadas ucranianas, com auxílio de voluntários dos dois lados. Aqui, a 600 quilômetros do front, o risco são os mísseis e os drones disparados pela Rússia. _

Cicatrizes do conflito também são visíveis

Na rotina quase normal das duas cidades, as marcas do conflito são sutis: aparecem no rombo que rasga a fachada de prédios, como o do Gabinete de Ministros, sede administrativa do governo, atingido entre o sexto e o sétimo andares no dia 7.

Estão nas estátuas e monumentos envelopados, nas barricadas improvisadas com concreto e sacos de areia, em frente a edifícios e nos passos apressados dos pedestres quando o toque de recolher se aproxima.

Há regras, normas e leis específicas a serem observadas. É proibido filmar ou divulgar fotos e vídeos de movimentos militares ucranianos, locais de ataques ou bombardeios, nomes de ruas, paradas de ônibus, lojas, fábricas, instalações civis e militares. As penalidades são de até 12 anos de prisão.

As imagens que ilustram esta reportagem, por exemplo, do buraco aberto por um drone russo na sede do Gabinete de Ministros, só puderam ser divulgadas depois que os jornalistas deixaram o país - assim como boa parte do conteúdo lá gravado. É uma tática para não revelar ao inimigo dados sensíveis que possam ser usados como alvo.

O país vive sob lei marcial: só é permitido transitar pelas ruas entre 6h e meia-noite. É recomendado baixar, no celular, um aplicativo chamado Air Alert, que permite rastrear alarmes de ataques aéreos no mapa da Ucrânia em tempo real e que faz disparar uma sirene diante de uma iminente ofensiva.

Engana-se quem pensa que o governo move-se todo na batida do esforço de guerra. Obras, como a ampliação da rodovia entre Lviv e a fronteira polonesa, estão a pleno, há o lançamento de uma plataforma digital para a área da educação e estratégias para aumentar as exportações de trigo, milho e cevada. Como disse a ZH uma autoridade do governo, é preciso que o país continue existindo quando a guerra terminar. _

Cansaço, persistência e revolta com a situação

A relativa normalidade com que os ucranianos convivem com o conflito aparece em diferentes falas dos moradores.

- Não vou para o abrigo, se um míssil quer nos atingir, que atinja. É meu país e não vou embora - conta uma jovem que prefere não se identificar, refletindo um sentimento ouvido com frequência em Kiev e que resume cansaço, negação e revolta.

Para ela, mostrar que a vida está o mais normal possível é uma forma de enviar uma mensagem aos russos de que eles não conseguiram quebrar a alma do país. Mas também é uma oportunidade de sinalizar aos compatriotas no front de que alguém os espera.

Outra ucraniana, Olena Vladyka, 29 anos, morou na capital, onde mantém o apartamento. Desde o início do conflito, mudou-se com o marido para Lviv. Ela reflete sobre a aparente ambiguidade de viver em meio à guerra - entre a normalidade cotidiana e a constante ameaça:

- Um dia, você está em um restaurante: vida normal. No outro, vai para o abrigo: é a guerra. Para nós, não está dividido. Aceitamos que vivemos no meio da guerra.

Olena dirige uma agência especializada na busca genealógica, voltada à identificação de parentes de brasileiros na Ucrânia. De tempos em tempos, viaja para o Exterior. Esteve no Brasil, e, nestes dias de setembro, iria à Grécia. Seu marido, em idade militar, está proibido de sair da Ucrânia.

Advogado, até agora não foi chamado a lutar. Os primeiros a pegarem em armas foram homens com experiência em combate ou voluntários.

É o caso de Alexander Nosachenko, executivo que trabalha para uma empresa de gestão de investimentos, que trocou o terno e a gravata pelo uniforme militar quando o confronto começou. Mandou a família para o Exterior. Atuou em um grupo de atiradores de elite para ajudar a defender Kiev. Atualmente, de volta ao mundo corporativo, vive esse sentimento: a guerra segue, pessoas continuam perdendo suas vidas, mas a rotina coexiste:

- Kyiv está 600 quilômetros distante do front, mas, ao mesmo tempo, temos drones e mísseis russos atacando a cidade. Basicamente, você não pode pensar durante todo o tempo na guerra. As pessoas desfrutam a vida em paz. Ao mesmo tempo, depois de uma hora, estão ajudando os amigos e familiares no front, enviando-lhes o que precisam.

"Temos de lutar"

A família de Alex retornou a Kiev, e os filhos, à escola:

- Quando você vai dormir, não importa onde esteja, não há 100% de garantias de que irá acordar no outro dia. Há muita chance de que um míssil de cruzeiro ou balístico, que atingem grandes velocidades, não seja interceptado, ou de que um drone caia em uma rua, em uma casa. Mas não temos outra chance. Temos de lutar. _

Resiliência está presente até nos eventos

Certa resiliência é evidente nos eventos. A Premier League da Ucrânia, principal competição de futebol, só recomeçou este ano, depois de mais de três de suspensão. Na semana em que ZH esteve na Ucrânia, ocorreu a 5ª Cúpula de Primeiras-Damas e Cavalheiros, que reuniu autoridades de Áustria, Dinamarca, Estônia, Lituânia, Finlândia, Sérvia e Alemanha.

Os discursos no palco de um antigo arsenal transformado em centro de eventos foram silenciados pelas sirenes.

Às 11h (5h em Brasília), de forma ordenada, os palestrantes e a plateia caminharam até os abrigos localizados no subterrâneo.

Conversa tranquila

ZH ficou refugiada no mesmo recinto em que estava Olena Zelensky, mulher do presidente Volodimir Zelensky, e outras primeiras-damas. Sentadas à mesa, elas conversavam calmamente, enquanto seguranças as rodeavam, até que as sirenes cessassem. Passados 15 minutos, a mestre de cerimônia foi até a delegação e anunciou que o perigo havia passado. A nós, coube ficar de olho no aplicativo, a indicar que a região de Kiev havia deixado de ser vermelha. _

*Viajou a convite da União Europeia.


Trump quer voltar ao Afeganistão; Talibã rejeita

O presidente dos EUA, Donald Trump, durante sua viagem a Londres, disse que seu governo está estudando retomar o controle da Base Aérea de Bagram, no Afeganistão. Principal espaço militar dos norte-americanos no país durante duas décadas, o local foi entregue ao Exército afegão pouco antes de o Talibã assumir o poder em 2021.

O anúncio, no entanto, provocou uma reação imediata em Cabul, capital afegã. O governo talibã afirmou que não permitirá a presença militar estrangeira no território.

A intenção de Trump reacendeu memórias da guerra mais longa travada pelos EUA. O conflito, iniciado por George W. Bush em 2001 após os ataques da Al Qaeda em 11 de setembro, foi encerrado em 2021 por Joe Biden com uma retirada apressada e, considerada por especialistas, desastrosa.

O episódio da devolução tem um sabor amargo para Trump, isso porque o movimento da retirada das tropas foi iniciado pelo republicano durante seu primeiro mandato (2017-2021). Em fevereiro de 2020, começaram as tratativas, contudo, Trump não conseguiu implementar a ação a tempo em seu mandato, e Biden "herdou" o processo.

O fato marcou Trump profundamente, tanto que, em um debate em 2024, o republicano classificou a retirada protagonizada pelo democrata como "o dia mais vergonhoso da história" dos EUA.

Retirada norte-americana

Um ano antes, em julho de 2023, o Departamento de Estado divulgou relatório que revelou que as decisões dos governos Trump e Biden de retirar as tropas tiveram consequências prejudiciais. O documento apontou "deficiências condenatórias do governo Biden que levaram à mortal e caótica retirada dos EUA".

A saída foi tão apressada que armas e uniformes americanos foram abandonados no local, resultando, inclusive, em vídeos de soldados do Talibã exibindo os equipamentos. Um relatório do Departamento de Defesa de 2022 apontou que US$ 7 bilhões em equipamentos militares foram abandonados após a retirada. Entre os itens, estão 78 aeronaves, 9,5 mil munições ar-terra, 40 mil veículos, mais de 300 mil armas, equipamentos de comunicação e outros materiais.

No início deste mês, Trump disse que o governo Biden foi "muito estúpido". _

Foco na China

A intenção presidencial de retornar à base, no entanto, não é nova. Informações da CNN Internacional indicam que Trump vem pressionando autoridades de segurança há meses para encontrar uma maneira de retomar o local. Porém, o foco nem seria o espaço em si, mas sim a proximidade com a China. O próprio republicano disse na quinta-feira que Bagram fica perto de onde a China fabrica seus mísseis.

Apesar de não haver muitos detalhes sobre como seria essa operação, especialistas já apontam que traria alto custo para os EUA e para a geopolítica. _

"Negociação do acordo Mercosul-UE está concluída", afirma ministro

O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, disse na sexta-feira que a negociação do acordo comercial entre o Mercosul e União Europeia (UE) está concluída, restando apenas as assinaturas.

Para isso, é necessário que o texto seja traduzido para as línguas dos países membros e aprovado pelo Conselho Europeu. O ministro reuniu-se com a alta-representante para Política Externa e Segurança da UE, Kaja Kallas.

Segundo ela, no entanto, não há prazo para a conclusão da discussão no conselho.

Antes, o presidente Lula recebeu Kallas. Segundo o ministro, foram discutidos temas como a defesa do multilateralismo. _

Estônia diz que caças russos invadiram o espaço aéreo

A Estônia acusou a Rússia de invadir seu espaço aéreo com três jatos de combate. O ato, na sexta-feira, foi classificado pelo governo estoniano como "uma audácia sem precedentes". Esta é a terceira movimentação russa contra um país membro da Otan em dez dias.

Três caças russos MiG-31 entraram no espaço aéreo do país sobre o Golfo da Finlândia sem permissão e permaneceram lá por 12 minutos.

- A Rússia já violou o espaço aéreo da Estônia quatro vezes este ano, o que é inaceitável. Mas a incursão de hoje, envolvendo três caças entrando em nosso espaço aéreo, é de uma audácia sem precedentes - disse o ministro das Relações Exteriores da Estônia, Margus Tsahkna.

No dia 10, drones de ataque russos invadiram o espaço aéreo da Polônia. Posteriormente, no dia 13, o governo da Romênia afirmou que um drone russo violou seu espaço aéreo durante um ataque à Ucrânia.

Allison Hart, porta-voz da aliança, disse que o ato "é outro exemplo do comportamento imprudente da Rússia". _

Falando em Afeganistão, o Talibã anunciou a proibição de 140 livros escritos por mulheres nas universidades do país. A medida abrange texto sobre direitos humanos, das mulheres e pensamentos políticos ocidentais.

CNBB critica a PEC da Blindagem

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) criticou a aprovação da chamada PEC da Blindagem.

O comunicado, divulgado na quinta-feira, ressalta que "a sociedade deve permanecer atenta e vigilante, cobrando de cada representante (...) o compromisso com a ética, a responsabilidade e a defesa da democracia".

A nota também questiona: "Quem protegerá a sociedade brasileira das incongruências do próprio Congresso Nacional?". 

Evento antifacista tem nova data

Cancelada por causa da enchente de 2024, a Conferência Internacional Antifascista de Porto Alegre terá uma nova data: o evento ocorrerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026. Na próxima terça-feira, a organização retomará os trabalhos para a realização do encontro, com a presença de referências internacionais no assunto.

A Conferência Internacional Antifascista reúne movimentos, partidos e entidades sociais de 31 países em cinco continentes. _

INFORME ESPECIAL 

segunda-feira, 15 de setembro de 2025


15 de Setembro de 2025
CARPINEJAR

O fim do mundo chegou

Espiritualmente, a sensação é de fim de mundo. Estamos tão estremecidos que nem reparamos no quanto nos tornamos desumanos. No início do século passado, o bardo inglês T. S. Eliot vaticinou o nosso esgotamento no poema Os Homens Vazios: o mundo termina não com um estrondo, mas com um suspiro.

Não são as bombas que vão exterminar a espécie, mas a ausência de compaixão. O suspiro de que fala Eliot seria a mais profunda resignação. O completo conformismo. A inércia da cordialidade. A passividade atroz do amor ao pior. Quando banalizamos a maldade e nos acostumamos à violência.

Assim como ninguém ouve o suspiro, a extinção também passa invisível, imperceptível.

Não nos damos conta de que o Apocalipse vem acontecendo. Já superamos as sete cartas, os sete selos, as sete trombetas, os sete flagelos. Já não há mais como conviver. Já não há nem o código de decência entre os desafetos.

Não mais toleramos as diferenças. Não mais conseguimos conversar. Basta a pessoa se encontrar ideologicamente no campo contrário que logo é demonizada, cancelada, perseguida, linchada. Não se medem esforços para apagá-la em definitivo. A polarização roubou a harmonia dos contrários.

Não importa se a vítima é pai, mãe, filho, esposa, marido, jovem, idoso, trabalhador, virtuoso, só se é de esquerda ou de direita.

O debate público não tem mais a abstração plural de ideias, tudo é levado para a intimidade, para a ponta da faca, para o descrédito da privacidade, para a agressão à família. Não se vê mais fidalguia entre opositores com aperto de mão, naquela admiração pela retórica, pela argumentação de pontos de vista antagônicos.

Lembro a postura de Leonel Brizola, que se digladiava com fúria com Antonio Carlos Magalhães no fim dos anos 80 e início dos 90. Quando descia da tribuna, ele não deixava de cumprimentar o rival. Teria dito, de forma anedótica: "Política se faz no plenário, mas respeito é pessoal". O trabalhismo e o coronelismo sabiam se comunicar.

Ou a transição de governo do tucano Fernando Henrique Cardoso ao petista Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003. Apesar da dura campanha anterior, FHC recebeu Lula no Planalto e conduziu uma cerimônia excepcional, elogiada internacionalmente, sem criar obstáculos administrativos. Lula, por sua vez, afirmou que herdava um país estável economicamente graças ao Plano Real e chegou a destacar José Serra, o candidato derrotado: "Foi um adversário leal".

Ou o exemplo do saudoso Ulysses Guimarães, na disputa pela Presidência da República no Colégio Eleitoral (1985). O líder do MDB pegava pesado com Maluf, expoente do PDS, mas Ulysses sempre reconheceu publicamente a astúcia e a inteligência política de Maluf.

Hoje vigora um ódio brutal, sem limites, uma selvageria que despedaçou a educação e os bons modos. São bolhas virtuais furando as demais bolhas, num sabão pegajoso de enxofre. Liberdade de expressão se transformou em sinônimo de ataques, de calúnia, de difamação. O fair play foi abolido mesmo nas doenças e nas perdas.

Agora nem a morte do outro é poupada. Velórios e enterros viraram comícios e carnavais da oposição. Festejam-se assassinatos e atentados, chacinas e massacres.

Escuta-se com horror o coro da carnificina: "já vai tarde".

O silêncio sagrado do pesar, os pêsames com os enlutados, a reverência à finitude desapareceram. Não sobrou nenhuma pedra ética da civilização. 

CARPINEJAR

15 de Setembro de 2025
CLÁUDIA LAITANO

O papel do jornal

Em 2016, comemorei o Oscar de melhor filme por motivos estritamente corporativistas. Spotlight não é uma obra-prima (na lista do New York Times dos cem melhores do século 21, ficou na sexagésima-sexta posição), mas conta uma história que, por motivos óbvios, sempre me comove: jornalistas fazendo bom jornalismo.

Nem todos os filmes sobre o dia a dia de uma redação são sobre grandes reportagens investigativas como a narrada em Spotlight. O gênero "vida de jornalista" é tão vasto que comporta subgêneros. Amo os dramas clássicos, como Cidadão Kane e A Montanha dos Sete Abutres, mas também as comédias elegantes, como Jejum de Amor e A Mulher do Ano. Gosto de jornalistas cobrindo guerras (O Ano em que Vivemos em Perigo) e de jovens repórteres correndo atrás de estrelas do rock (Quase Famosos). 

Adoro jornalões de papel mudando o curso da História (Todos os Homens do Presidente) e filmes que mostram os bastidores de telejornais (Network). Não me importa que a trama seja de suspense (The Parallax View), surrealista (The French Dispatch) ou quase colada no noticiário (como o filme Ela Disse e a série The Newsroom): se tem jornalista trabalhando, já é um bom motivo para assistir.

Quando a série The Paper estreou aqui nos Estados Unidos, no início de setembro, eu tinha, portanto, dois bons motivos para querer conferir: o cenário é a redação de um pequeno jornal quase falido e, mais importante, a produção é um spinoff da série The Office (2005 - 2013), uma das minhas favoritas. Logo no início, deu para perceber que a nova série não seria tão engraçada quanto a original, apesar do exato mesmo formato de pseudodocumentário e das muitas piscadelas para os fãs de Michael Scott (Steve Carell) e seus colegas de escritório. 

À medida em que ia assistindo aos episódios, fui notando que não apenas eu não estava achando muita graça como estava começando a ficar deprimida. Era para ser uma comédia, mas, na verdade, a série narra uma história dramática que ainda está se desenrolando: a crise do jornalismo, não apenas como modelo de negócio, mas como maneira de pensar o mundo. The Paper talvez seja a primeira obra do gênero "vida de jornalista" a colocar esse drama em primeiro plano, ainda que de forma irônica.

A abertura da série brinca com o fato de que, no inglês, a mesma palavra, "paper", significa tanto "jornal" quanto "papel". Vemos jornais usados para embrulhar o peixe, forrar janelas e cobrir bandejas sendo descartados na lata de lixo onde se lê a palavra "paper". Como se a iminente extinção do suporte físico, que muitos de nós ainda amamos, fosse o prenúncio de um destino muito mais trágico: um futuro em que o próprio jornalismo seja considerado descartável. _

O conteúdo desta coluna reflete a opinião do autor

CLÁUDIA LAITANO



15 de Setembro de 2025
GPS DA ECONOMIA - Marta Sfredo

Respostas capitais - Caito Maia

Fundador da Chilli Beans e da Ótica Chilli Beans, jurado do programa de empreendedorismo "Shark Tank Brasil"

"O mundo não aceita mais marcas vazias"

Um dos maiores empresários do país, Maia também é popular por ser jurado do programa "Shark Tank Brasil". Nesta entrevista, recorda a história da Chilli Beans, destaca a importância do conceito ESG no mercado atual e avalia a polêmica gerada após afirmar que mudaria a moeda usada em negócios com a China.

Antes da Chilli Beans, você fundou a Blue Velvet. Como avalia a importância das lições deixadas?

Ter a experiência da Blue Velvet antes da Chilli Beans foi um baita aprendizado. A Chilli já veio com um outro olhar. Entendi que uma marca forte e relevante é o que faz a diferença. Se naquele momento lá atrás eu não tivesse tido dificuldades, não aprenderia essa lição na marra, e a Chilli Beans talvez nem existisse como a gente conhece hoje. Passar por obstáculos não é só inevitável no empreendedorismo, é fundamental para o crescimento da gente. É assim que nasce resiliência, criatividade e humildade para construir algo com propósito.

Como você explica, hoje, o sucesso da Chilli Beans?

O caminho que fez a Chilli Beans decolar foi bem certeiro: diversidade, acessibilidade e criatividade. Misturamos música, moda, arte e estilo num produto acessível e com design. Contamos histórias, lançamos coleções com frequência e trazemos marcas e personagens da cultura pop que o público ama.

A Chilli Beans também é conhecida pelas franquias. Na sua visão, quais são as principais vantagens ao se investir nesse modelo?

O modelo de franquia foi um acelerador do nosso crescimento, nos permitiu escalar a marca para vários pontos do Brasil. O nosso país é um dos mais avançados do mundo no mercado de franquias, temos uma legislação forte, a ABF (Associação Brasileira de Franchising) é uma entidade sensacional e o brasileiro tem a veia empreendedora. É uma das formas seguras de entrar no empreendedorismo: você não está sozinho, tem apoio e um caminho já validado, diminuindo os riscos de empreender.

Como você avalia a importância atual da conexão de empresas e marcas como conceito ESG?

Hoje, o mundo não aceita mais marcas vazias. ESG não é modinha: é obrigação. Há alguns anos, fomos para a China desenvolver materiais ecológicos e hoje somos uma das marcas de óculos mais sustentáveis do mundo. Incorporamos a linha Eco em várias coleções, com modelos feitos de capim-prado, plástico retirado do fundo do mar e materiais biodegradáveis. Nosso modelo de contêiner, o Eco Chilli, também é feito de material reciclado e movido a energia solar.

Você também ganhou popularidade por ser jurado do "Shark Tank Brasil". Como avalia a experiência?

Entrar no Shark Tank foi uma curva de aprendizado. Conheci gente com brilho no olho, ideias sensacionais e pude contribuir para além do capital. Retornar na 10ª temporada dá um gás para fomentar o empreendedorismo acessível e real.

Quais são os principais negócios que você mantém no Rio Grande do Sul atualmente?

O mercado do Rio Grande do Sul é um dos maiores para a gente. Já temos 65 pontos de venda no Estado, 35 da Chilli Beans e 30 da Ótica Chilli Beans, e o plano é ampliar essa rede. O consumidor gaúcho é um dos mais antenados do Brasil e adora novidades, ao mesmo tempo em que é bastante exigente. Inclusive, isso nos permite lançar novidades e fazer projetos-piloto no Estado. Já estive em centenas de cidades por aí, visitando lojas e palestrando em eventos. Adoro a energia do povo gaúcho.

Como foi o processo de decisão para deixar de usar dólares nos negócios da Chilli Beans com a China?

Identificamos uma oportunidade de reduzir custos de importação e evitar que os produtos chegassem mais caros ao consumidor. Se não tivéssemos tomado essa decisão, haveria impacto direto na margem e na inflação dos preços. Quero reforçar que não se trata de questão política, mas de gestão de negócio. Olhamos para aquilo que está no nosso controle: custo, logística e operação. E encontramos um caminho que faz sentido para a Chilli Beans. 

Colaborou Mathias Boni - GPS DA ECONOMIA



15 de Setembro de 2025
INFORME ESPECIAL - Vitor Netto

Em artigo, Lula manda recado para Trump

O presidente Lula assinou ontem um artigo no jornal norte-americano The New York Times, no qual enviou um recado a Donald Trump, afirmando que está aberto a negociar com os Estados Unidos, mas não abre mão da democracia e da soberania do Brasil.

Logo no início do artigo, Lula explicou que decidiu escrevê-lo para "estabelecer um diálogo aberto e franco com o presidente dos Estados Unidos". Segundo o brasileiro, é possível reconhecer como legítimas as motivações para a recuperação de empregos nos EUA e a reindustrialização ao aplicar tarifas sobre produtos brasileiros, mas considera que "ações unilaterais contra Estados prescrevem o remédio errado".

O brasileiro afirmou que o governo americano está utilizando tarifas e a Lei Magnitsky como forma de buscar impunidade ao ex-presidente Jair Bolsonaro, "que orquestrou uma tentativa fracassada em 8 de Janeiro de 2023, em um esforço para subverter a vontade popular expressa nas urnas", afirmou no artigo.

Condenação de Bolsonaro

Lula também fez elogios ao STF pelo resultado do julgamento que resultou na condenação de Bolsonaro. Ele destacou que não se trata de uma "caça às bruxas" - como dito anteriormente pelo secretário de Estado, Marco Rubio, e pelo próprio Trump -, mas sim que a decisão foi tomada em conformidade com a Constituição Brasileira de 1988.

Criticando a acusação do governo Trump de perseguição e censura perpetrada pelo sistema judiciário brasileiro a empresas de tecnologia americana, Lula afirmou que são "alegações falsas" e que todas as plataformas digitais, nacionais ou estrangeiras, "estão sujeitas às mesmas leis no Brasil".

Até o Pix, que foi alvo de críticas por parte dos estadunidenses, também foi mencionado no artigo de Lula. Segundo o presidente brasileiro, as alegações de práticas desleais do Brasil no comércio digital e nos serviços de pagamento são infundadas. "Não podemos ser penalizados por criar um mecanismo rápido, gratuito e seguro que facilita as transações e estimula a economia", afirmou.

Por fim, Lula disse que não há diferenças ideológicas que impeçam os dois governos de trabalharem juntos em objetivos comuns. Ele afirmou, também, que está aberto a qualquer negociação que possa trazer benefícios mútuos, mas enfatizou que "a democracia e a soberania do Brasil não estão em pauta". 

Em encontro da fraternidade, a imagem de Francisco

O Vaticano e a prefeitura de Roma sediaram a terceira edição do Encontro Mundial sobre a Fraternidade Humana. Líderes religiosos, diretores das maiores empresas de comunicação do mundo e premiados com o Nobel participaram do encontro. O ponto alto ocorreu à noite, quando milhares de pessoas na Praça de São Pedro assistiram ao concerto Graça para o Mundo.

Em um clima de fraternidade, e ao som do canto de Andrea Bocelli, luzes de drones sincronizadas projetaram a imagem do papa Francisco, criador dos encontros sobre a fraternidade humana, após a publicação da encíclica Fratelli Tutti, em 2020. _

Números de países confirmados para a COP30 divergem

O governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), divulgou nas suas redes sociais na sexta-feira que a ONU havia confirmado a participação de 140 nações na COP30. No entanto, esse número é diferente da contagem realizada pela Secretaria Extraordinária da COP30 (Secop).

O órgão confirmou à coluna ontem que o número de países que já resolveram a hospedagem - tanto pelas acomodações da plataforma oficial quanto fora dela - é de 71.

Por fora, a coluna apurou com fontes próximas à organização que o Pará tem divulgado números com base nos registros feitos pelos países no site da UNFCCC, órgão da ONU responsável pela organização das conferências. Porém, esses registros correspondem à lista de delegações que devem solicitar credenciamento, ou seja, são nomes pré-inscritos e não presenças já confirmadas no evento em novembro.

Já a Secop considera o número de países que já resolveram sua estadia em Belém - com reserva e pagamento efetuado. _

Ontem, milhares de fiéis foram até a Praça de São Pedro para celebrar o aniversário de 70 anos do papa Leão XIV.

França alerta hospitais para receber feridos de guerra

Um comunicado do Ministério da Saúde da França, de julho, ganhou repercussão nas últimas semanas na imprensa local. Trata-se de uma carta do governo orientando hospitais do país a se prepararem para um possível empenho militar em larga escala até março de 2026.

O documento aponta que a França poderá receber milhares de soldados em um eventual conflito de grandes proporções na Europa.

A carta foi publicada inicialmente pelo jornal Le Canard Enchaîné e repercutida por veículos como Le Figaro, o semanário Le Journal du Dimanche e o britânico The Independent. Segundo o Le Canard Enchaîné, entre 10 mil e 50 mil soldados podem ser internados nos próximos 180 dias.

Governo não nega

Questionada pela emissora BFMTV, a ministra da Saúde, Catherine Vautrin, não negou a existência do documento. Limitou-se a afirmar que os hospitais estão em constante preparação para epidemias e que seria "perfeitamente normal que se antecipe a crises".

Não ficou claro a qual guerra ou a quais militares a nota se refere. No entanto, o presidente francês, Emmanuel Macron, tem atuado de forma ativa para um acordo de paz entre Rússia e Ucrânia. _

Venezuela em treinamento

No sábado, centenas de venezuelanos atenderam ao chamado do presidente Nicolás Maduro para participar de um fim de semana de treinamentos.

Ainda na sexta-feira, o líder da Venezuela convocou reservistas, milicianos e jovens que se alistaram para receber treinamento e aprender "a atirar". O objetivo é que os membros da Milícia Bolivariana estejam prontos para combater ameaças dos Estados Unidos. _

INFORME ESPECIAL 

sábado, 6 de setembro de 2025



06 de Setembro de 2025
CARPINEJAR

Um novelo de terror e suspense

A vida de uma mulher poderia ter sido poupada.

Se não houvesse sempre a flexibilidade do Judiciário em abrandar sentenças de homicidas condenados. Se não houvesse a progressão das penas por bom comportamento, até porque todo psicopata de mente perturbada é capaz de dissimular retidão, fingir arrependimento e persuadir qualquer psicotécnico de sua conversão. Se não houvesse a prática institucional das saidinhas. Se não houvesse a desculpa eterna da superlotação dos presídios e da ausência de vagas.

O homem que deixou uma mala no guarda-volumes da rodoviária de Porto Alegre com um cadáver feminino deveria estar preso. Não era para estar circulando normalmente entre nós. Não era para ver a luz do sol tão cedo.

Foi condenado em 2018 por matar a mãe Vilma Jardim, 76 anos - por ironia, no Dia das Mães - e concretar o corpo dela dentro de um armário num apartamento no bairro Mont?Serrat, em 2015.

Como ocorreu a soltura antecipada de alguém que assassinou uma idosa com 13 golpes de faca, a figura materna que o colocou no mundo, durante data comemorativa, sem precedentes, e friamente a escondeu no armário, com cimento?

Uma reincidência não se fazia temerária? Não se avaliou essa hipótese?

O publicitário Ricardo Jardim, 66 anos, recebeu o veredito de 28 anos de prisão por esse crime hediondo, mas progrediu para o regime semiaberto no ano passado e aproveitou o relaxamento da vigilância para abraçar as ruas e não aparecer mais para o pernoite prisional.

Nem portava tornozeleira eletrônica, numa brincadeira macabra com a impunidade e com a segurança de nossas existências.

Só cumpriu nove anos da sua sentença, contando desde a prisão em 2015. Saiu cerca de seis meses antes dos 40% do período total - na época de sua condenação, vigorava ainda o início da remissão por conduta carcerária após 40%. Já com a mudança recente na legislação penal, de julho de 2025, atos violentos de natureza semelhante não teriam a mesma sorte: dependeriam de 80% da pena cumprida para a progressão de regime.

Ele circulava livre e imperceptível pelos supermercados e farmácias, tomava café pelos bairros, mantinha aparência inofensiva, interagia em chats de relacionamento, com perfil ativo procurando parceiras, como se fosse um simpático e educado aposentado de boné e barba grisalha em busca do amor eterno.

Não duvido que eu tenha passado por ele e o cumprimentado. Tudo é possível.

A questão paradoxal é que ele facilitou sua identificação. Tanto que largou o tronco humano de sua namorada na rodoviária, um dos pontos mais frequentados da Capital, com amplo monitoramento por câmeras.

Para aumentar a complexidade do tabuleiro de xadrez, a cabeça da vítima não foi localizada. O suspeito dividiu os restos mortais entre a bagagem aberta na segunda-feira e outras partes encontradas no bairro Santo Antônio, na Zona Leste, em 13 de agosto. Intriga também a perícia nos cortes, no esquartejamento de modo asséptico, que sugere experiência na área da saúde, na truculência meticulosamente estudada para não permitir as impressões digitais.

Porto Alegre se depara com um novelo de terror e suspense que parece não ter fim. O que merece fim é dar liberdade para quem é historicamente perigoso. Não é que nossas leis são suaves, jamais são executadas com rigor, ao pé da letra.

Os homicídios são negócios lucrativos. Recebe-se de castigo o equivalente a uma pena perpétua, cumpre-se apenas um sexto dela e se ganha o perdão muito antes da própria velhice. O morto tem sempre mais tempo debaixo da terra do que o assassino na cela. _

CARPINEJAR


06 DE SETEMBRO DE 2025
COM A PALAVRA - Peter Diamandis

Empreendedor e especialista em inteligência artificial, inovação e pensamento futurista

"Os próximos anos ofuscarão os últimos cem"

Norte-americano de origem grega, Peter Diamandis, 64 anos, esteve em Porto Alegre em agosto para ministrar palestra sobre desenvolvimento tecnológico e o futuro da humanidade. Ao longo de sua carreira, fundou dezenas de empresas ligadas a áreas como tecnologia espacial, saúde e educação, com destaque para a conhecida Singularity University, sediada na Califórnia.

Mathias Boni - 

O senhor e seu parceiro Ray Kurzweil têm dito que o mundo será um lugar "irreconhecível" até 2038. Pode desenvolver um pouco essa ideia?

Kurzweil e eu usamos "irreconhecível" porque a mudança exponencial não é linear - é enganosa e, por vezes, disruptiva. Até 2038, agentes de IA, energia limpa abundante, educação sob demanda, transporte totalmente autônomo e avanços em biotecnologia parecerão normais. Imagine tradução de idiomas em tempo real em seus óculos de realidade aumentada, tutores personalizados para cada criança, robôs tão comuns quanto smartphones e um custo marginal quase zero para conhecimento, mão de obra e energia. Teremos a capacidade de projetar vida sintética, reverter aspectos do envelhecimento e colonizar o espaço. A chave é a convergência: IA, robótica, biotecnologia, nanotecnologia e tecnologia espacial não estão apenas avançando, estão se amplificando mutuamente. É por isso que os próximos 15 anos ofuscarão os últimos cem em termos de transformação social.

Como o senhor avalia o estado atual do avanço no desenvolvimento da IA? Está surpreso com o uso diário generalizado de ferramentas de IA pela população?

Acabamos de cruzar um limiar. A IA deixou de responder perguntas e passou a executar tarefas multietapas de forma autônoma. O que mais me empolga é a capacidade de acelerar a própria ciência, pois, da descoberta de medicamentos à modelagem climática, a IA está reduzindo os prazos de décadas para meses. Contudo, ainda estamos na fase da "televisão em preto e branco", uma etapa primitiva em comparação com onde estaremos em uma década. O uso generalizado de IA no dia a dia da população não me surpreende, já era esperado. Da mesma forma que o smartphone se tornou uma extensão do nosso corpo, a IA está se tornando uma extensão da nossa mente.

O que o senhor acha que a IA será capaz de fazer, dentro de cinco ou 10 anos, que não consegue executar hoje ainda?

Dentro de uma década, a IA será uma verdadeira "parceira especializada". Ela administrará negócios de forma autônoma, projetará novos materiais, personalizará tratamentos médicos de acordo com o seu genoma e atuará como uma professora 24 horas por dia, sete dias por semana, fluente no seu estilo de aprendizagem. Ela gerenciará cadeias de suprimentos inteiras, conduzirá pesquisas científicas e até negociará acordos internacionais. O GPT-5 de hoje parece inteligente, mas é um triciclo comparado à nave espacial que está se construindo.

O que a população em geral deve fazer para se adaptar melhor a essas mudanças?

Primeiro, deve-se adotar uma mentalidade que priorize a IA, aprendendo a usar ferramentas de IA no trabalho e na sua vida pessoal. Segundo, as pessoas devem se tornar aprendizes constantes, se mantendo extremamente curiosos. Metade das habilidades profissionais atuais estará obsoleta em cinco anos. Terceiro, é importante otimizar sua saúde para ter energia e acuidade cognitiva para se adaptar. Quarto, construir uma rede forte é fundamental, pois em tempos de mudanças rápidas, quem você conhece é tão importante quanto o que você sabe. E, finalmente, deve-se desenvolver uma mentalidade de "moonshot", se concentrando em desafios e objetivos ousados e significativos, porque o pensamento pequeno não sobreviverá em um mundo de crescimento exponencial.

Muitas pessoas têm medo do avanço da inteligência artificial e da tecnologia como um todo, acreditando que os humanos podem perder o controle. O senhor tem alguma preocupação?

Estou mais preocupado com o uso indevido por humanos do que com a IA "decidindo" nos prejudicar. Os riscos são reais: desinformação em larga escala, concentração de poder, choques de automação na economia e sistemas frágeis na tomada de decisões críticas. Minha receita para dirimir esses riscos é transparência, auditorias independentes, ampla alfabetização em IA, concorrência aberta e padrões globais de segurança.

Como o senhor avalia os desafios regulatórios relacionados ao desenvolvimento da IA e da tecnologia nos EUA e no mundo?

O desafio é equilibrar inovação e segurança. O excesso de regulamentação corre o risco de retardar avanços benéficos. Por outro lado, a falta de regulamentação corre o risco de causar danos. Sou a favor da regulamentação de aplicações (como a IA é usada) em vez de algoritmos (como ela é construída). Sandboxes (prática de segurança cibernética em que você executa código, observa, analisa e codifica em um ambiente seguro e isolado) para experimentação segura, responsabilização por danos e cooperação internacional são fundamentais.

O senhor também sempre teve grande interesse pela exploração espacial. Como avalia esse processo globalmente hoje?

Estamos em uma nova corrida espacial, desta vez, impulsionada por foguetes reutilizáveis, capital privado e participação global. Missões governamentais à Lua, no período de 2028 a 2030, levarão a viagens comerciais à Lua provavelmente no início ou meados da década de 2030. Já missões tripuladas a Marte devem ocorrer em meados da década de 2030 e início da década de 2040. Uma colônia autossustentável em Marte? Seria necessário um esforço de várias décadas, mas é provável. Marte oferece independência, a Lua oferece proximidade, e ambos fazem parte da expansão da humanidade em direção ao sistema solar.

Como o avanço tecnológico também pode contribuir para o enfrentamento da crise climática e ajudar a preservar o planeta?

A tecnologia é a nossa maior alavanca para a proteção do clima. Redes otimizadas por IA, energias renováveis baratas, fusão, novos materiais para captura de carbono, agricultura de precisão e proteínas alternativas. O desafio da questão climática é urgente, mas o pensamento da abundância nos diz que podemos enfrentá-lo e, ao mesmo tempo, desenvolver melhorias para a saúde, a educação e a prosperidade. 

Como você avalia o ecossistema de inovação e desenvolvimento tecnológico do Brasil?

O potencial de inovação do Brasil é enorme. Fintechs e pagamentos instantâneos de classe mundial, talentos em IA e desenvolvimento, liderança em tecnologia agrícola, bioinovação a partir de biodiversidade incomparável, enorme potencial solar e eólico e geografia espacial estratégica, como Alcântara. Com regras estáveis e empreendedorismo ousado, o Brasil pode se tornar um polo global de abundância. Além disso, o Brasil é um país rico em energia, o que deve ser capaz de atrair data centers para serem construídos em áreas adjacentes a usinas de energia. 


06 de Setembro de 2025
MARCELO RECH

Um golpe na ética militar

O artigo 28 do Estatuto dos Militares determina que os integrantes das Forças Armadas devem "amar a verdade" e ter "a responsabilidade como fundamento da dignidade pessoal". Por mais custosos que sejam, estes são princípios básicos da carreira militar - e que deveriam ser levados inclusive para a reserva. Não é o que se ouviu até agora da quase totalidade dos oficiais acusados pela conspirata que já começaram a ser ou ainda serão julgados no STF.

Em maio de 2023, no texto "A Sina de Cid", esta coluna questionava o que aconteceria se e quando o ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, então na prisão, começasse a falar a verdade. A colaboração premiada de Cid acabou se tornando o mais vívido relato dos bastidores da tentativa de quartelada que contagiou parte do alto escalão do governo Bolsonaro e se espraiou até por oficiais da ativa que, insubordinados, redigiram um manifesto pela intervenção militar.

Não amar a verdade e não assumir responsabilidades na insurreição abortada equivale a pisar no código de honra militar. O caso do general Walter Braga Netto é emblemático. A quebra de sigilo de seu celular mostrou, com todas as vogais e consoantes, como ele instruía um pau-mandado a desancar colegas do Alto Comando do Exército e o comandante da Aeronáutica, que resistiam a embarcar no golpe. Pois, sem corar, o general afirmou em seu depoimento que jamais ordenou ou coordenou ataques a antigos companheiros de farda, enquanto seu advogado cria a única versão de defesa possível, a de uma fraude nos prints.

Braga Netto, assim como outros próceres do Ancien Régime, é um réu acuado. Mas a postura não faz jus à biografia que o conduziu às suas quatro estrelas e ao código de ética que deve pautar a vida durante e depois da farda. Também seria salutar à verdade que o ex-ministro da Defesa Paulo Sérgio Nogueira desse detalhes sobre como tentava demover Bolsonaro de adotar "medidas de exceção", como admitiu seu advogado no julgamento.

A quebra de hierarquia, a indisciplina e a traição aos preceitos da caserna legados por Bolsonaro quase desencadearam uma luta fratricida entre comandos militares. A ordem e a estabilidade acabaram garantidas pela maioria dos generais de quatro estrelas de então, que, mesmo sem simpatias por Lula, se aferraram ao lado da legalidade democrática.

Alguns deles, junto com suas famílias, foram e ainda são atacados como "melancias" - verdes por fora e vermelhos por dentro. A baboseira só demonstra o grau de radicalismo que segue consumindo a razão e a capacidade de discernimento dos mais fanatizados. Que o julgamento no STF sirva ao menos para sepultar os resquícios de golpismo que sobrevivem em bolsões que deviam estar arquivados no passado. 

MARCELO RECH

Os demônios

Mentes perturbadas têm comportamentos semelhantes. No livro O Demônio da Cidade Branca, H. H. Holmes chama atenção do mundo pela frieza e método. Depois se entendeu que aquele seria o primeiro serial killer conhecido na história. Construiu em Chicago, durante a Feira Mundial de 1893, um hotel que era, na prática, um castelo da morte. Passagens secretas, câmaras de gás, mesas de dissecação e crematório estavam escondidos no prédio. Enquanto todos viam Chicago nascer e mostrar a modernidade ao mundo, Holmes arquitetava seus crimes e ao mesmo tempo aparecia como homem importante na sociedade norte-americana.

Poderia citar mais dezenas de casos de crimes e criminosos que ficaram conhecidos porque, não satisfeitos em matar, querem causar, chamar atenção, provocar as autoridades e a sociedade. Depois de começar o ano sob os holofotes do caso do bolo envenenado, o Rio Grande do Sul viu nos últimos dias outro caso macabro. O da mala. O primeiro saco com restos de um corpo encontrado na rua parecia mais um recado entre facções ou manchete de um jornal mexicano de cidades onde as pessoas são esquartejadas também no ciclo dos cartéis. O complemento seria ainda mais horroroso, com o cheiro forte chamando atenção para uma mala deixada na rodoviária de Porto Alegre e o encontro de outras partes de um cadáver feminino.

Os cortes precisos indicavam alguém experiente na área da saúde. Ou com uma mente diabólica que sabe usar a técnica para o mal. Os próximos detalhes são estarrecedores. A polícia seguiu as câmeras de segurança e chegou ao homem de boné, máscara cirúrgica e luvas que carregou a mala. Tudo cuidadosamente planejado.

Como se não fosse o bastante, o criminoso identificado tinha outro horror no currículo. Matou a própria mãe, mandou fazer um móvel e concretou o corpo no apartamento onde moravam. Foi condenado a 28 anos de prisão por isso. Se estivesse cumprindo a pena, não teria matado a mulher da mala. Mas teve brecha na lei, na interpretação, no bom comportamento e na falta de vaga no sistema carcerário. O assassino voltou para o convívio e para outra cena de crime que ele criaria.

O homem, Ricardo Jardim, um publicitário que circulava como bem entendia até ser novamente preso nesta semana pelo crime mais recente do qual temos notícia. Ele não é um personagem de novela, mas alguém que circulava entre nós, atravessando ruas, tomando cafés, ocupando o espaço da cidade como qualquer outro. Até fazer mais uma vítima. Até ser descoberto pela Polícia Civil.

Resta agora saber se dessa vez seguirá preso ou se pelo bom comportamento na cadeia poderá mais uma vez cometer crimes em liberdade. O demônio pode estar na próxima esquina. _

ANDRESSA XAVIER 


06 de Setembro de 2025
OPINIÃO RBS

Resultado da mobilização do campo

Logo após a virada do ano, no auge do verão, tornava-se nítido para os produtores gaúchos de grãos que a falta de chuva prejudicaria mais uma colheita. Um novo revés surgia no horizonte. Com ele, a impossibilidade de milhares de agricultores de honrar os compromissos financeiros que já se avolumavam pela sequência recente de frustrações de safras. Diante do risco de uma quebradeira no campo, foi deflagrada no Estado a movimentação por uma renegociação ampla das dívidas e ressurgiu o termo securitização, referência à grande repactuação de débitos rurais dos anos 1990.

Muitos meses depois, ainda que o fôlego oferecido pelo governo federal tenha ficado distante da demanda original dos produtores e da abrangência necessária, deve-se reconhecer que a mobilização gerou consequências. Na sexta-feira, na abertura oficial da Expointer, os agricultores gaúchos conheceram os termos da Medida Provisória do governo federal destinada a uma renegociação que, pelos cálculos do Planalto, deve alcançar até 100 mil produtores de todo o Brasil, mas notadamente do RS, Estado que de longe é o mais castigado pela fúria do clima. São R$ 12 bilhões em recursos, com prazos de até nove anos para pagar e carência de um ano e juro de 6% ao ano para pequenos agricultores, 8% para os médios e 10% para os grandes.

As condições oferecidas não são as desejadas pelo campo. Ficam muito aquém das duas iniciativas legislativas do Congresso. A ideia original da securitização, era nítido, não se viabilizaria pelo alto custo fiscal. A do uso do Fundo Social do Pré-Sal, aprovada na Câmara e em tramitação no Senado, tem forte oposição do governo. Em ambas a disponibilização de recursos era maior, o juro era mais módico e os prazos de pagamento mais largos. Ainda assim, foram instrumentos essenciais para sensibilizar sobre o drama do superendividamento do campo no Estado por fatores que os agricultores não podem controlar.

O governo Lula, desde o começo das mobilizações, demostrava pouco empenho em oferecer uma alternativa concreta para o problema. Ainda que os projetos de lei apoiados por agricultores, bancada gaúcha e entidades tivessem viabilidade questionável, tiveram o mérito de forçar o Planalto a vir para a mesa de negociações. A pressão dos produtores, portanto, foi decisiva para formatação do auxílio prometido, que chega nos termos possíveis, após avanço nas tratativas nos últimos dias.

As dificuldades, no entanto, ainda não podem ser consideradas sanadas. É preciso conhecer os detalhes da MP e ver como se dará o acesso dos agricultores que poderão sair da condição de inadimplentes e ter condições de se preparar para a nova safra.

Também é vital reconhecer que novas estiagens e enchentes virão. É preciso se preparar para uma maior recorrência de eventos climáticos extremos. É essencial, onde for possível, buscar a irrigação ou ao menos adotar práticas agronômicas que minimizem os efeitos da falta de chuva no solo. Deve-se evitar que, daqui a alguns anos, a agonia se repita. 


BC aperta a segurança após três ataques que envolvem Pix

Depois de três ataques envolvendo o Pix e o sistema financeiro nacional, o Banco Central (BC) anunciou na sexta-feira novas regras para evitar problemas desse tipo. Conforme o presidente do BC, Gabriel Galípolo, são medidas para dar mais segurança a todo o sistema, assim como para os clientes. E afirmou que é a forma de enfrentar a migração do crime organizado de furto de carteira e assalto a agências bancárias para roubo de senha e invasão de sistemas de tecnologia.

- Como houve associação de fintechs e da Faria Lima, é preciso dizer que ambas são vítimas do crime organizado. Tanto os bancos incumbentes (tradicionais) quanto os novos são responsáveis por uma inclusão fantástica (da população) ao sistema financeiro - afirmou Galípolo.

O aperto das normas do BC envolve, principalmente, limite de operações com TED e Pix a R$ 15 mil em instituições de pagamento não autorizadas e as que se conectam ao Sistema Financeiro Nacional via Prestadores de Serviços de Tecnologia da Informação (PSTI). Conforme Galípolo, está prevista revisão contínua das regras, na medida do avanço das tentativas de ataque.

O maior dos ataques foi em julho, à C&M Software, com estimativa de desvio de até R$ 1 bilhão. Em agosto, houve outro com foco na Sinqia, avaliado em R$ 420 milhões, e o mais recente ocorreu no banco digital gaúcho Monbank, envolvendo R$ 4,9 milhões.

Conforme o BC, as novas medidas não envolvem apenas supervisão posterior, também serão preventivas: as operações acima de R$ 15 mil não autorizadas, por exemplo, serão automaticamente travadas por sistemas de segurança.

Instituições de pagamento não autorizadas?

Para dar espaço à inovação que permitiu o surgimento de fintechs (financeiras que atuam com uso de tecnologia), o BC permitiu a existência de vários tipos de empresas para dar mais competitividade e inclusão ao mercado. O prazo para a regularização completa dessas empresas, que se encerraria em 2029, foi antecipado para maio de 2026, e não poderão se credenciar novas nesse modelo. As que já estiverem prestando serviços e tenham pedido de autorização indeferido terão de encerrar atividades em até 30 dias. A vigência da medida é imediata. _

A bolsa subiu mais de 1% e fechou acima dos 142 mil pontos pela primeira vez na história, quebrando novo recorde na sexta-feira. O dólar caiu 0,64%, para R$ 5,414. Tudo porque os EUA geraram menos empregos do que o previsto e devem ter corte no juro.

Exportando para os EUA mesmo com tarifa de 50%

Na contramão da maioria, uma multinacional com unidade no RS segue exportando normalmente para os EUA mesmo com tarifa de 50%. Trata-se da Stihl, indústria de máquinas de origem alemã que produz cilindros em sua fábrica de São Leopoldo que vão para 162 países, separados ou dentro de equipamentos. Essas peças essenciais para o funcionamento de máquinas e equipamentos são os únicos itens exportados diretamente aos EUA da unidade gaúcha.

- Embora seja uma peça importante, a alma do equipamento, no custo do produto final, lá nos EUA, tem impacto de 3% no preço final - diz Claudio Guenther, presidente da Stihl Brasil.

Além do baixo impacto no custo final dos equipamentos que vai compor, os cilindros da Stihl tiveram outra ajuda na continuidade dos embarques. A unidade do Brasil não exporta de forma direta a pontos de venda americanos, mas para a Stihl Inc., outro negócio na multinacional nos EUA. _

Crédito de R$ 30 bi a partir do dia 15

Depois da publicação da medida provisória que autoriza abertura de crédito extraordinário de R$ 30 bilhões no Diário Oficial da União de terça-feira, aprovações de financiamento devem começar a ocorrer até o dia 15, dentro de pouco mais de uma semana.

Os empréstimos são para exportadores em dificuldades com o tarifaço sobre o Brasil. A prioridade será para as que tenham no mínimo 5% das vendas ao Exterior impactadas pela alíquota de 50% no período de julho de 2024 a junho de 2025.

As taxas de juro já foram definidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), e vão de 1% a 5% ao ano, variando conforme o tipo de operação e do porte da empresa. O custo máximo é equivalente a um terço da Selic e pouco acima do juro básico americano (4,25%).

Como de hábito, é exigida situação regular na Receita Federal e na Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN). Não poderá se candidatar empresa em recuperação judicial ou extrajudicial, falência ou liquidação, a menos que exista plano de recuperação aprovado judicialmente. _

GPS DA ECONOMIA

06 de Setembro de 2025
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Pacote de Lula ajuda a reduzir tensão

A presença do ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, representando o governo federal ao lado do colega Paulo Teixeira, do Desenvolvimento Agrário, na Expointer reduziu em parte a tensão entre os produtores rurais.

Na véspera, o clima era de indignação pela informação de que Fávaro estaria no Amapá, em vez de vir ao Rio Grande do Sul na sexta-feira. Alertado para o prejuízo que a ausência do ministro causaria, o presidente Lula chamou sua equipe para discutir o pacote de ajuda aos agricultores e determinou que os ministros viessem à Expointer.

Do palanque das autoridades, os ministros e demais convidados viram uma cena marcante: coroas de flores e balões pretos representando cada um dos agricultores que se suicidaram nos últimos meses. Os organizadores da manifestação atribuem as mortes à depressão provocada pelo endividamento e pela falta de perspectiva de pagar os financiamentos depois de sucessivos problemas de estiagem e de excesso de chuva.

Fávaro anunciou oficialmente as medidas que a coluna havia adiantado - linhas de crédito subsidiado, com juros de 6% para os pequenos, 8% para os médios e 10% para os grandes produtores, com um ano de carência e pagamento em nove anos.

Quantia extra

O valor é de R$ 12 bilhões, o que significa R$ 2 bilhões a mais do que o valor previsto na véspera por deputados que acompanharam as discussões sobre o conteúdo da medida provisória assinada pelo presidente Lula (leia mais na página 15).

Como na saúde, tudo o que se fizer na agricultura será considerado pouco. As medidas do governo foram consideradas insuficientes, até porque políticos ligados ao agronegócio venderam a ilusão de uma securitização mais ampla, com pagamento em até 20 anos. _

ALIÁS

Apesar das vaias aos ministros Carlos Fávaro e Paulo Teixeira, o governo federal acertou ao mandar os dois representantes à Expointer para anunciar a renegociação das dívidas. A falta de civilidade de uma minoria ruidosa não pode se sobrepor ao interesse público e servir de pretexto para boicotar uma exposição com a história e o peso da Expointer.

Reação de Leite às vaias foi firme, sem esconder a irritação

Acostumado desde o primeiro ano de mandato a surfar na Expointer sem ser incomodado, o governador Eduardo Leite viveu uma situação diferente nesta que deve ser a sua última feira no comando do Piratini - se for candidato em 2026, terá de renunciar no início de abril.

Leite foi vaiado durante todo o seu discurso de seis minutos na abertura da Expointer por produtores rurais - instrumentalizados por políticos de direita, que transformaram a arquibancada ao lado do palanque em arena política.

Em resposta às vaias, Leite falou mais alto do que costuma falar e nos gestos não conseguiu esconder a irritação.

A interlocutores, disse estar incomodado pois sempre ouviu as demandas dos agricultores, anunciou medidas de socorro dentro dos limites de recursos do Estado e apoiou a proposta de utilização de recursos do fundo social para a renegociação das dívidas. _

Julgamento de Bolsonaro foi um não assunto na Expointer

Na semana em que começou o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe, havia um temor latente entre os organizadores da Expointer: de que o evento fosse contaminado pela radicalização.

Mas, ao contrário dos anos em que foi candidato ou presidente, não se viram camisetas, bonés, cartazes ou faixas com o nome de Bolsonaro nos cinco dias anteriores à abertura oficial. Era como se em Brasília não estivesse ocorrendo o julgamento do ex-presidente.

Nas rodas de conversas, a política se fez presente, mas com o setor dando sinais de que já assimilou a inelegibilidade de Bolsonaro e que o nome da vez é o do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas - que foi convidado a vir por Eduardo Leite, mas preferiu concentrar-se em Brasília e trabalhar pelo projeto de anistia. _

Auditora do TCE é convidada para integrar conselho da ONU

A auditora Andréia de Oliveira dos Santos, do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS), foi selecionada para integrar o Conselho de Auditores da ONU - organismo responsável por conduzir auditorias internas nas finanças das entidades das Nações Unidas, incluindo fundos, programas e missões de paz.

A seleção foi conduzida pelo Tribunal de Contas da União (TCU), em parceria com a Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon).

- Sinto-me muito honrada. É a primeira vez que a gente vai ter essa representatividade no cenário internacional - celebra.

A auditora gaúcha estará acompanhada de Gabriela Flávia Ribeiro Mendes, auditora do Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia (TCM-BA), que também foi selecionada.

O TCE-RS avalia que a participação no Conselho de Auditores da ONU representa um "marco de projeção internacional" para o tribunal, e reforça o "compromisso com a excelência no controle externo". _

Deputados formalizam o que já era prática na Assembleia

A pouco mais de um ano da eleição, sete parlamentares resolveram montar um "bloco de oposição de direita ao governo Eduardo Leite" na Assembleia Legislativa, formalizando o que na prática marca a atuação do grupo desde o início de 2023.

Integram o bloco os deputados Felipe Camozzato (Novo), Cláudio Branchieri (Podemos), Capitão Martim, Delegado Zucco e Gustavo Victorino (Republicanos) e Paparico Bacchi e Kelly Moraes (PL).

O Novo, que antes se declarava independente, virou um apêndice do PL. E o Republicanos se dividiu entre o governo e a oposição - o que não significa que nas futuras votações essa divisão se reproduza sem alteração.

- Não temos pretensão para ser do contra tudo e contra todos, pelo contrário, queremos oferecer uma visão alternativa - declara Camozzato, que vai liderar o grupo.

Batizado de O RS pode mais, o bloco é a materialização de uma aliança que está sendo encaminhada para a eleição de 2026. _

A direção do PSOL esclarece que não aderiu ao movimento liderado pelo ex-governador Tarso Genro para garantir a unidade da esquerda na eleição de 2026.

POLÍTICA E PODER