segunda-feira, 20 de outubro de 2025

18 de Outubro de 2025
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Tensão entre EUA e Venezuela faz Exército ficar atento

O Exército Brasileiro deve manter parte das tropas que participaram da Operação Atlas recentemente na Amazônia, devido ao recrudescimento da tensão entre Estados Unidos e Venezuela. A coluna apurou que inclusive o Sistema Astros, baseado em Goiás e deslocado para o exercício, ficará na região até, pelo menos, a realização da COP30, em Belém, no Pará.

O Astros fica baseado no Comando de Artilharia do Exército, em Formosa, Goiás. É um sistema de lançadores múltiplos de foguetes e mísseis, montado sobre veículos, que permite à artilharia realizar ataques de saturação em larga escala, com grande mobilidade e alcance. É considerado um dos sistemas mais avançados em sua categoria no mundo.

Na quinta-feira, os Estados Unidos voltaram a atacar uma embarcação que supostamente transportava drogas no mar do Caribe, próximo à costa do país sul-americano. Essas ações têm sido frequentes, desde que o presidente Donald Trump deslocou navios de guerra para a região sob o argumento de combate ao narcotráfico.

O clima ficou ainda mais tenso nos últimos dias depois que o jornal The New York Times informou, com exclusividade, que a Casa Branca deu ordem à CIA para operar no país com objetivo de derrubar Nicolás Maduro. O governo venezuelano anunciou que teria posicionado tropas em locais estratégicos diante da aproximação dos navios americanos.

Entre os dias 2 e 11 de outubro, as Forças Armadas brasileiras realizaram a Operação Atlas na Amazônia. O exercício, que envolveu Exército, Marinha e Aeronáutica, já estava previsto. Ocorreu a cerca de 30 quilômetros da fronteira com a Venezuela. Por isso, o governo brasileiro fez questão de reforçar junto aos dois governos - de Maduro e de Trump - que o grande deslocamento de efetivo militar não fosse associado diretamente à escalada da atual crise entre os dois países. O exercício militar foi criado para preparar as Forças Armadas para a atuação na COP30.

O Comando Militar do Sul (CMS) informou que as tropas de RS, Santa Catarina e Paraná que participaram da operação já iniciaram a desmobilização. O retorno se dará a partir de Manaus, com destino a Belém, com uso de balsa em alguns trechos, e, depois, por via terrestre. _

Despedida ao gaúcho que atuou na guerra entre Rússia e Ucrânia

O gaúcho que atuava como voluntário na guerra entre Ucrânia e Rússia e morreu no início do mês, Tailon Ruppenthal, de 41 anos, foi velado e sepultado na sexta-feira em Três Coroas, no Vale do Paranhana.

Ruppenthal havia se juntado às forças ucranianas em julho para lutar contra a Rússia. Ex-soldado do Exército, o gaúcho atuou no início dos anos 2000 na missão de paz da ONU no Haiti. Ele atuava como operador de drones na cidade ucraniana de Dnipro, onde foi atingido por uma explosão causada por um drone russo. _

Tropas do sul do Brasil serão responsáveis pelo 22º contingente da Operação Acolhida, ação humanitária do governo brasileiro iniciada em março de 2018 com o objetivo de receber, abrigar e interiorizar refugiados e migrantes venezuelanos que entram no Brasil em decorrência da crise na Venezuela. São cerca de 270 militares do Comando Militar do Sul (CMS) que cumprirão missão em Boa Vista e Pacaraima, em Roraima.

Ação climática nos municípios do RS

Apenas três dos 497 municípios do Rio Grande do Sul dispõem de Plano de Ação Climática. São eles: Porto Alegre, Canoas e São Leopoldo.

Os gestores dessas prefeituras reportaram que têm o plano no Roadmap Climática, ferramenta da Secretaria Estado de Meio Ambiente e Infraestrutura lançada na COP29, em Baku, no Azerbaijão, no ano passado. Outros três municípios também disseram dispor da estratégia, mas anexaram documentos, como planos de contingência.

O baixo número e a confusão dos termos demonstram desconhecimento ou pouco valor dado pelas prefeituras gaúchas ao tema. _

Redução de filas de colonoscopia

Diante de uma fila de mais de 20 mil pessoas aguardando por exames de colonoscopia em Porto Alegre, a prefeitura lançou um edital em busca de novos prestadores de serviço para os procedimentos. A iniciativa visa captar R$ 250 mil.

O objetivo, além de reduzir filas, é credenciar instituições interessadas em prestar o serviço de forma complementar à rede municipal. Atualmente, a tabela do SUS estabelece um repasse de apenas R$ 112,66 por colonoscopia. Com o novo edital, o município poderá garantir o pagamento de R$ 681,65 por exame - valor de referência de mercado e mais compatível com o custo real do procedimento. _

Coisas diferentes

Plano de Ação Climática traça metas e estratégias de longo prazo para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, se adaptar às mudanças do clima e promover um desenvolvimento urbano sustentável. Já o Plano de Contingência, ações emergenciais e operacionais para responder a desastres climáticos extremos, como enchentes, secas, deslizamentos e ondas de calor. O primeiro é um plano de transformação estrutural, enquanto o segundo, de gerenciamento de crise. 

Dupla correção

A coluna errou. A eleição brasileira monitorada pela CIA, agência de inteligência americana, e comprovada em documentos dos Estados Unidos foi a de 1989, e não de 1998, como publicado na edição de sexta-feira.

Além disso, o ditador do Panamá à época da invasão americana, em 1989, era Manuel Noriega, e não Daniel Ortega como publicado neste espaço.

Pedimos desculpas aos leitores do Informe Especial. 

INFORME ESPECIAL

sexta-feira, 17 de outubro de 2025


17 de Outubro de 2025
CARPINEJAR

Lotação remodelada

Acreditava-se que os aplicativos de corrida matariam o táxi, mas atingiram mesmo a lotação.

Ela garantia um preço intermediário entre o ônibus e o táxi, e atendia lacunas de rotas, horários e regiões de menor demanda. Quem buscava um pouco de conforto, rumo ao trabalho, encontrava seu refúgio na tradicional frota laranja, com uma listra em azul-marinho.

Por um longo tempo, fui adepto incondicional de seu serviço na disputa por um dos 21 assentos. Minha linha era a João Abbott, que cobria as ruas internas de Petrópolis e me levava ao Centro. Eu acabava sendo um dos últimos passageiros - aquele que dormia na janela, que dependia de um cutucão para não perder o destino. As cortinas marrons-escuras possibilitavam uma irresistível atmosfera onírica de quarto fechado.

Quando as pessoas estavam muito atrasadas, recorriam a esse meio mais acessível, que trafegava fora dos corredores.

Entre as mordomias do transporte, em comparação com o ônibus: ele não parava somente na parada. Você subia de onde estivesse e descia onde desejasse, dentro do itinerário fixo. Poderia ser apanhado ao caminhar pelo bairro. Bastava levantar o dedo. No meu caso, eu ficava a uma esquina de minha residência. Andava a pé uma única quadra.

O veículo disponibilizava ar-condicionado, enquanto o padrão ainda se resumia ao vidro aberto. Dava para se sentir em um shopping nos dias escaldantes de verão. Não havia cobrador: o motorista descontava a passagem no momento em que você se preparava para sair. A ausência de roleta simbolizava um tratamento personalizado. O pagamento se estabelecia na confiança. Vigorava uma relação de credibilidade. Alguns quitavam o bilhete antes para não sofrer com o troco depois.

Com a concorrência digital, no início do Uber há 10 anos - principalmente na fase romântica da sua implementação, com balas e água, porta do carro aberta, pinta de chofer, tudo por menos de R$ 10 -, sua clientela se dispersou, rareou, desapareceu. Não se obtinham as mesmas vantagens do custo-benefício.

A facilidade de ser pego em casa pelo Uber instaurou seu período de ostracismo. Ninguém mais queria correr atrás do micro-ônibus. Tornou-se um ídolo sem fãs, de plateia vazia. Criado em 1977, com heroicas kômbis que buzinavam para atrair curiosos, parecia ter entrado em extinção.

A escassez das cédulas e moedas agravou o seu isolamento. Preferiam-se deslocamentos a partir do cartão de crédito cadastrado.

Num movimento de resgate de uma época de ouro, a Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (SMMU) pretende ressuscitar o táxi-lotação em novo formato. Até o nome será diferente: Serviço de Transporte Público Coletivo Complementar de Passageiros, instituído por decreto publicado no Diário Oficial da cidade (Dopa).

Com o valor da tarifa em R$ 8 - três reais a mais do que o ônibus -, mas com a comodidade própria de uma van, a lotação terá apoio logístico para recuperar seu protagonismo no cenário urbano e afetivo da Capital. Quem sabe a nostalgia não atraia de volta os seus velhos seguidores, como eu, agora com o uso moderno do Pix?

O que não pode é haver demora na transferência de cada usuário, aguardando a bendita confirmação para seguir adiante, sob o risco de a lotação se transformar num pinga-pinga. Aliás, oferecer internet durante a viagem é uma alternativa para revitalizar o setor e acelerar o desembarque. _

CARPINEJAR

17 de Outubro de 2025
OPINIÃO RBS

Escolha sem os melhores critérios

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em seu terceiro mandato, está na iminência de fazer a 11ª indicação de um ministro para o Supremo Tribunal Federal (STF). A vaga foi aberta com a aposentadoria antecipada da Corte de Luís Roberto Barroso, formalizada com a publicação do ato no Diário Oficial na União, na quarta-feira. Ao que parece, Lula vai desperdiçar a oportunidade de ajudar a começar a dissipar a imagem que existe em parte significativa da sociedade brasileira de um Supremo mais político e menos técnico e plural.

O principal critério recente, usado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e por Lula, na atual gestão, é garantir que o ungido, em retribuição à escolha, não causará dissabores pessoais e ao governo. São premissas pouco republicanas e muito distantes das que idealmente deveriam nortear a seleção de nomes para o tribunal mais importante do país. O resultado é a continuação do desgaste do STF, que passa a ser mais percebido como parte da disputa política do que guardião da Constituição.

O considerado favorito de Lula é o advogado-geral da União, Jorge Messias. É servidor de carreira da AGU, mas tem vínculos conhecidos com gestões petistas. Seria uma definição baseada essencialmente na confiança pessoal de Lula no colaborador. Poderia ainda incluir um cálculo eleitoral. Messias é evangélico. Isso teria o potencial de diminuir as resistências desse segmento crescente da população ao PT.

A segunda opção seria o senador - e advogado - Rodrigo Pacheco (PSD-MG), último presidente da Casa e aliado de Lula no parlamento. Ajudaria na governabilidade, por ser o preferido do atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e ter trânsito em todo o Congresso. Teria uma aprovação folgada de seu nome no Senado. Pacheco e Messias, portanto, têm vínculos com o chefe do Executivo, assim como as duas indicações anteriores de Lula, o seu advogado pessoal Cristiano Zanin e o seu ex-ministro da Justiça Flávio Dino. O STF tem hoje quatro escolhidos por Lula.

A Constituição prevê que os designados devem ser brasileiros natos, ter entre 35 e 70 anos, notável saber jurídico e reputação ilibada. Em relação ao conhecimento e à imagem pessoal, não há regras mais objetivas. Ainda assim, Presidências da República anteriores, como as do próprio Lula nos anos 2000, buscaram dar maior diversidade à Corte, e não apenas de pensamento. São do petista as indicações de Cármen Lúcia, a segunda mulher da história do Supremo, e de Joaquim Barbosa, o primeiro negro a presidi-lo. Este, porém, relator do caso do Mensalão, foi algoz do governo à época, situação que Lula não quer arriscar a ver repetida.

Seria saudável institucionalmente uma escolha que refletisse independência e apartidarismo e espelhasse melhor a composição da população brasileira. Não é razoável, por exemplo, que em 134 anos de existência o STF registre só três mulheres ministras. A provável opção de Lula, no entanto, parece priorizar os seus interesses políticos. Assim, ficam fortalecidos os juízos de que a disputa pelo poder passa bem mais do que deveria pela Corte. É mais uma consequência da radicalização que tantos malefícios traz para o país. 

OPINIÃO RBS

17 de Outubro de 2025
GPS DA ECONOMIA - Marta Sfredo

Baixa expectativa, grandes esperanças

O esperado encontro entre o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o secretário de Estado americano, Marco Rubio, confirmou o que se previa: nada concreto, mas grandes esperanças. A expectativa era baixa sobre anúncios de mudanças. Esperava-se que avançasse para definir a pauta que será debatida, em algum momento, entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva. Principalmente, que não inviabilizasse esse encontro. Desse ponto de vista, parece ter obtido sucesso. Já é muito.

Presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Haroldo Ferreira avalia que pode ser o "primeiro passo" para retomar a taxa universal de 10%.

- O bom é que o canal de diálogo, que estava truncado, agora está aberto. O mundo ideal seria a notícia de retirada, mas sabemos que é difícil, ainda vai haver algumas rodadas.

Diretora-executiva da Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel), Cândida Cervieri observa que o Brasil deve apresentar argumentos técnicos para retirada da sobretaxa.

- É o início da negociação, quando as partes técnicas abrem o diálogo e começam a trabalhar de forma técnica.

Ex-secretário de Comércio Exterior, Welber Barral disse que o papel da reunião, já agendada para ter só uma hora, é exatamente preparar um encontro de cúpula. _

Mais promessas, menos dólares

O secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou que a ajuda à Argentina pode duplicar: além do swap cambial, haveria também um empréstimo de US$ 20 bilhões. Como o primeiro instrumento anunciado não envolve dinheiro novo, só uma troca de pesos por dólares, era um ponto fraco em um sistema tão desafiado.

É tudo tão fora do normal que na quarta, dia do anúncio de Bessent, o mercado de câmbio não se animou: tanto a cotação oficial quanto a paralela subiram, em vez de cair. Para ontem, havia expectativa de anúncios. Não vieram, e subiram tanto o dólar oficial (1.425 pesos) quanto o paralelo (1.470 pesos), embora ambos com discrição. _

Rombo nos Correios constrange governo

O novo buraco de R$ 20 bilhões exposto pela intervenção da Casa Civil na gestão dos Correios, que gerou prejuízo acumulado de R$ 4,4 bilhões só no primeiro semestre, constrange o governo Lula e desafia a expectativa de equilíbrio fiscal. A perda corresponde ao triplo (222% maior) da registrada no mesmo período de 2024. Uma das alegações é que a taxação das compras em sites estrangeiros abalou uma das principais receitas. Não justifica as cifras.

O plano foi anunciado pelo novo presidente da empresa pública, Emmanoel Schmidt Rondon, que assumiu há 21 dias. Inclui renegociação com fornecedores, busca de novas receitas e um plano de demissão voluntária financiado por dinheiro novo. .

O plano é buscar R$ 10 bilhões ainda neste ano com Banco do Brasil e Caixa e bancos privados, mais outro tanto em 2026. Para isso, é necessária garantia da União, o que significa que o risco da má gestão pode desembocar no mesmo lugar de sempre, o bolso do pagador de impostos. A crise não surgiu agora, mas em um país tão cheio de necessidades, ter mantido uma gestão desastrosa por tanto tempo exige explicações. _

Entrevista - Bruno Mandelli

Diretor do Sindicato Nacional dos Trabalhadores do IBGE (Assibge)

"Se houvesse problema de credibilidade, apontaríamos"

Quem a Assibge representa?

É um sindicato nacional dos servidores do IBGE, representa servidores ativos, aposentados, efetivos e temporários. Temos cerca de 6 mil filiados.

Qual a discordância em relação à mudança no estatuto?

A mudança pleiteada pela direção caminha no sentido de concentrar poder na presidência do IBGE em detrimento das áreas técnicas. A minuta retira do estatuto a previsão de como seriam estruturadas as diretorias. E sem determinação, o presidente do IBGE teria liberdade para, a qualquer momento, criar novas diretorias, fundir, trocar atribuições. O entendimento é bastante consensual no corpo técnico.

A Assibge é contra qualquer mudança no estatuto ou contra a proposta?

A proposta apresentada tem pontos muito graves. Então, não estamos trabalhando para emendar a proposta, mas não temos objeção à mudança de estatuto.

Não reconhecem a justificativa de que a revisão visa a permitir a modernização do IBGE?

A mudança proposta não tem nenhum traço de modernização. É bastante arcaica. O IBGE tem dificuldades de exercer o papel de coordenador, mas a mudança de estatuto não é o caminho.

As discordâncias colocam a credibilidade em risco?

Se houvesse qualquer indício de problema de credibilidade nos dados, nós apontaríamos. Não queremos que nossas críticas coloquem dúvida sobre os dados que são produzidos hoje pela instituição. Agora, o processo de fragilização do IBGE pode gerar dúvidas sobre a qualidade dos dados no futuro. _

GPS DA ECONOMIA


17 de Outubro de 2025
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Ação da CIA na Venezuela é opção para fazer sangrar o regime Maduro por dentro

Monitorar atividades em outros países - em especial aquelas que possam ser contrárias aos interesses americanos - é função principal da CIA. Mesmo atividades no RS já foram observadas com lente de aumento em diferentes momentos históricos, como eu e o colega Carlos Rollsing noticiamos em várias reportagens do GDI: atividades comunistas na Avenida Voluntários da Pátria, o movimento da Legalidade e seu mentor, o governador Leonel Brizola, e a eleição de 1998, entre outros momentos confirmados por documentos oficiais.

Do monitoramento ao sinal verde para operar em solo estrangeiro é um caminho que exige um processo interno na cadeia de comando do governo americano, que encontra clímax no Salão Oval. Publicada originalmente pelo The New York Times, a notícia de que Donald Trump autorizou a CIA a conduzir operações secretas na Venezuela pode ser vista por dois vieses: um da mera ação psicológica, de impor medo ao rival, forçando-o a capitular, ou de elevar a pressão a ponto de motivar um levante na caserna. Afinal, se a operação é sigilosa, qual o interesse do governo ao torná-la pública?

Também pode ser os dois. Uma operação militar tradicional teria custos muito mais elevados do ponto de vista financeiro e em vidas. Obviamente, as capacidades militares bolivarianas são infinitamente inferiores à maior potência militar do planeta, mas as consequências sempre trazem, de volta, os fantasmas do Vietnã e do Iraque - principalmente em um cenário no qual Maduro armou civis.

Até que ponto essas pessoas, com exceção das milícias, estariam dispostas a morrer pelo regime é uma incógnita. Sendo assim, uma operação de inteligência acaba sendo, para Trump, uma opção mais viável: fazer o regime sangrar por dentro. _

Reunião entre EUA e Ucrânia

Em nota, a embaixada ucraniana nos EUA afirmou que os "principais tópicos da visita incluem o fortalecimento da defesa aérea da Ucrânia, o aumento da resiliência do nosso setor energético, a expansão das capacidades de longo alcance e a exploração de sanções adicionais à Rússia".

Um dos tópicos será o possível envio de mísseis tomahawk à Ucrânia. O fato gerou apreensão do governo russo, já que os artefatos são de longo e potente alcance e poderiam fortalecer o poderio militar ucraniano.

Ontem, Donald Trump e Vladimir Putin concordaram em convocar reunião de funcionários de alto nível na próxima semana. Em publicação no Truth Social, Trump disse que ele e Putin se encontrariam em Budapeste.

"Acredito, de fato, que o sucesso no Oriente Médio ajudará em nossas negociações para o fim da guerra com a Rússia/Ucrânia" disse Trump. _

Panamá

A presença militar americana na costa venezuelana é a maior desde que os EUA invadiram o Panamá, em 1989, para depor o presidente Daniel Ortega, na época também acusado pelos EUA de ser um narcotraficante.

"Arco de Trump" em Washington

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresentou na quarta-feira uma maquete do seu mais novo projeto arquitetônico para Washington. Trata-se de uma obra triunfal que está sendo chamada informalmente de "Arco de Trump", pela similaridade com o Arco do Triunfo de Paris.

A previsão é de que a obra seja concluída a tempo da celebração do 250º aniversário do país, comemorado no ano que vem. Apesar de Trump não ter informado quanto custará o arco ou como ele será financiado, a proposta foi apresentada durante um jantar na Casa Branca para agradecer a bilionários e grandes empresas pelas doações a outras projetos arquitetônicos do republicano.

A obra deverá ser instalada na entrada da Ponte Memorial de Arlington, de frente para o Lincoln Memorial. No topo, o arco contará com uma figura dourada da Estátua da Liberdade. _

Os próximos ministros perto da aposentadoria no STF

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso anunciou, recentemente, sua aposentadoria. A decisão foi antecipada, já que, caso seguisse o regimento, o magistrado só sairia em 2033.

O STF é formado por 11 ministros. De acordo com o regimento, um ministro deve se aposentar ao completar 75 anos. Não fosse pela saída antecipada de Barroso, essa rodada de mudanças na Corte só teria início em abril de 2028. _

Confira a lista

Luiz Fux: tem 72 anos e se aposentará em abril de 2028.

Cármen Lúcia: tem 71 anos e se aposentará em abril de 2029.

Gilmar Mendes: tem 69 anos e se aposentará em dezembro de 2030.

Edson Fachin: tem 67 anos e se aposentará em fevereiro de 2033.

Luís Roberto Barroso: tem 67 anos e solicitou aposentadoria antecipada. Sua aposentadoria compulsória seria em março de 2033.

Dias Toffoli: tem 57 anos e se aposentará em novembro de 2042.

Flávio Dino: tem 57 anos e se aposentará em abril de 2043.

Alexandre de Moraes: tem 57 anos e se aposentará em dezembro de 2043.

Kassio Nunes Marques: tem 53 anos e se aposentará em maio de 2047.

André Mendonça: tem 52 anos e se aposentará em dezembro de 2047.

Cristiano Zanin: tem 49 anos e se aposentará em novembro de 2050.

INFORME ESPECIAL

sábado, 11 de outubro de 2025


11 de Outubro de 2025
MARTHA MEDEIROS

Match ao vivo

Dois braços se roçam em meio a um jantar, sem que ninguém em volta perceba. O calor de um corpo e do outro, um acontecimento entre dois silêncios, uma faísca entre dois nadas: promessa de infinito em poucas horas. Posso te dar uma carona?

Dentro do carro, os sussurros substituindo a conversa que se deve evitar sobre parentes, fraturas antigas do coração, se ele passou sempre por média ou se ela quebrou um braço no colégio, dois nomes que não demorarão a ser esquecidos, duas bocas que nunca mais se encontrarão, a improbabilidade tornada real e aliada, dois corpos sem idade, um resto de adolescência se infiltrando na maturidade, dois estranhos olhando-se nos olhos sem se reconhecer, mas confirmando o mistério de estar vivo, um piano tocando em sua cabeça, na cabeça dele talvez uma guitarra, na cabeça do mundo tudo é quietude e sofreguidão.

Um quarto onde os dois são forasteiros, uma cama de lugar nenhum, lençóis que não se sabe quem vai lavar, paredes surdas, mudas, ninguém viu ou verá, ninguém comentará. As roupas no chão serão juntadas, uma a uma, quando terminar, o jeans surrado dele, seu sutiã desbotado, não havia como prever, ambos vestidos para um dia comum, impossível adivinhar.

Os amigos saberão com detalhes ampliados, você audaciosa até o limite, ele destemido até o fim, tudo é mais quente quando imaginado, e a manhã logo virá para apartar, recolocar a vida em seu lugar, você levando os filhos na escola, ele levando o cão no veterinário.

Nem um, nem outro planeja uma segunda vez, porque as dores, porque os sonhos, porque a distância, porque os traumas, porque as expectativas que nunca se realizam, guardadas ficarão as poucas palavras e os beijos tantos, o parêntese incendiário entre uma quinta-feira qualquer e uma sexta como as outras, aquele pedaço de existência que nada prometia e fluiu. O tom rouco da voz, os cabelos enroscados nos dedos, a noite que ninguém viu quando caiu, uma cidade onde nenhum dos dois tinha endereço, ninguém onde cair morto, um hotel no alto de um morro, rimando com céu.

E de manhã o estrangeirismo, seu café com açúcar? Um banho rápido, o barulho da água caindo sobre ombros definidos, congratulados, a noite foi de uma elegância ardente, será que ele usará minha escova de dente?

Cabelos molhados e minutos finais, toca um jazz suave vindo do quarto ao lado. Ambos precisam retornar, cada um, a seu lugar, foi bom, foi ótimo, minha linda, meu lindo, obrigada, voltaremos a nos encontrar? O sim entre sorrisos fingidos, devolvidos à razão, até o alarme soar, até a bateria acabar, até o avião decolar, sim, claro, te amo, te amo, até nunca mais. 

MARTHA MEDEIROS

11 de Outubro de 2025
SARA BODOWSKY

Dia das Crianças - Brunch solidário

Quer comemorar o domingo dos pequenos em grande estilo, com diversão e também solidariedade? Neste domingo, o Hilton Porto Alegre celebra o Dia das Crianças com um brunch especial no restaurante Clos Du Moulin. Além do cardápio elaborado e característico, o evento ainda vai oferecer atividades para o público infantil.

E quem vier para o brunch é convidado a participar de uma campanha de arrecadação de brinquedos em apoio à Fundação Pão dos Pobres - o hotel oferece 20% de desconto para quem contribuir com um brinquedo novo ou em bom estado (lembrem que bom estado é praticamente novo, certo?).

O menu do brunch traz uma fusão entre café da manhã e almoço, com opções que vão de pães artesanais, panquecas e tapiocas feitas na hora a pratos quentes como filé mignon, salmão e risotos. A mesa de sobremesas oferece tortas, brigadeiros, cheesecake e pavlova de frutas vermelhas. Enquanto isso, os pequenos poderão aproveitar oficinas e brincadeiras organizadas conforme a faixa etária, incluindo teatro de fantoches, slime e gincanas temáticas.

O brunch acontece das 12h às 15h30, no restaurante Clos Du Moulin, no 5º andar do Hilton Porto Alegre (Rua Olavo Barreto Viana, 18 - Moinhos de Vento). Os valores são de R$ 169 + 10% para adultos e R$ 66,50 + 10% para crianças de 6 a 12 anos. Reservas pelo telefone (51) 98164-1038. _

Espetáculo - O urso de Erico

O Urso com Música na Barriga sempre foi um dos meus livros preferidos de Erico Verissimo, entre tantas histórias lúdicas que foram construindo, aos poucos, a leitora que sou hoje.

Por isso, é uma alegria saber que o Teatro Oficina Olga Reverbel, no Multipalco Eva Sopher, recebe, neste sábado e domingo, o espetáculo infantil inspirado nessa obra!

A montagem da Cia Atimonautas celebra o Dia das Crianças e os 120 anos do escritor gaúcho com uma história divertida e sensível sobre afetos, diferenças e a importância de expressar sentimentos. Com direção de Arlete Cunha, a peça utiliza bonecos, marionetes e recursos do teatro de animação para dar vida à história do pequeno Urso-Maluco e de seu irmão, o Urso-com-Música-na-Barriga, que se comunica por sons melodiosos vindos da barriga.

As apresentações integram o festival Legado, que segue até o dia 21 de novembro e explora diversas facetas da obra de Erico Verissimo ou por ele inspiradas, como quadrinhos, teatro e literatura, ocupando também o Teatro Simões Lopes Neto e a Casa da Memória Unimed Federação/RS. Os ingressos para O Urso com Música na Barriga custam entre R$ 20 e R$ 40 e podem ser adquiridos no site www.theatrosaopedro.rs.gov.br. _

Em Gramado - Cultura e gastronomia

Na próxima quinta-feira começa, em Gramado, mais uma edição do Festival de Cultura e Gastronomia, com mais de 100 atrações - incluindo opções inéditas. A 17º edição do evento acontece até o dia 15 de outubro em uma megaestrutura montada no Lago Joaquina Rita Bier e terá entrada gratuita, todos os dias, das 11h às 22h.

Nessa estrutura central estarão reunidos 12 restaurantes que servirão pratos criados para o evento. No mesmo lugar, os visitantes poderão explorar dois sofisticados espaços de vinhos, uma área dedicada a cervejarias artesanais, uma ilha de drinks e um café com a primeira torrefação de Gramado.

Além da gastronomia - que também é cultura! - estão previstas 50 apresentações teatrais, 34 shows que vão do jazz à música tradicionalista, e danças típicas. Ainda vão rolar aulas-shows gratuitas no local.

E para quem é entusiasta da alta gastronomia, o restaurante Primrose, do Castelo Saint Andrews, e a Casa Lugano sediarão Festins com chefs convidados.

É possível comprar antecipadamente os pratos (e evitar fila) pelo site festivaldeculturaegastrono- miadegramado.zerofila.com.br/cardapio. _

Dica saborosa - Queijo maturado

Atenção, apaixonados por queijo! Peguem essa dica da Queijaria Tradição, uma agroindústria familiar de Nova Petrópolis: o Insano, um queijo maturado em cachaça de amburana. Que mistura espetacular em boca - um finalzinho que traz canela e alguma coisa de baunilha, sem perder o sabor característico do queijo colonial produzido com leite cru.

A Tradição é uma queijaria reconhecida em todo o Brasil. Mas, veja que curioso, meu primeiro contato foi passando pela frente do local, no interior de Nova Petrópolis. A palavra "Queijaria" me ganhou, entrei, fiz compras e saí encantada!

E já que coloquei a curiosidade em você, querido leitor, aproveita e já conhece também o queijo tipo Imperial (um dos meus preferidos) e o doce de leite premiado da Tradição. É possível adquirir os produtos pelo perfil do Instagram @queijaria_tradicao ou pelo WhatsApp (54) 98425-3476. _

SARA BODOWSKY

11 de Outubro de 2025
ANDRESSA XAVIER

Odeio patinete

Não costumo usar a palavra ódio a esmo, mas, veja bem, precisava chamar atenção para o problema da proliferação de patinetes. Eles estão por toda parte, como um pesadelo para os pedestres. As calçadas de Porto Alegre por si só já seriam suficientes para incomodar quem anda por aí. É buraco, desnível, piso escorregadio, degrau inesperado. A experiência fica mais complicada se você estiver pilotando um carrinho de bebê. Isso sem falar nas pessoas com deficiência, que precisam adivinhar por onde devem ou não passar. Cadeirantes penam sem as rampas nas esquinas, ou pior, rampa de um lado, mas do outro um degrau alto. Tem construções novas com esse erro básico. Só observamos isso quando precisamos usar.

Mas voltemos aos patinetes. Dia desses, ao tentar atravessar na faixa de pedestres, na Zona Sul, precisei desviar de cerca de 20 patinetes, alguns caídos, como se fossem peças de jogo de dominó após um peteleco em uma das extremidades. Os usuários simplesmente jogaram o equipamento onde pararam de usar, mesmo que tenha sido em cima do acesso à faixa ou tomando toda a calçada. 

Mas não é só isso. Os patinetes, caro leitor, são feitos para uma pessoa utilizar para seus deslocamentos. Uma. Singular. Não é para pai e filho, não é para casais fazendo selfie, não é para o cachorro no colo. Não deveria ser para crianças, já que pode passar dos 30 quilômetros por hora e seria irresponsável deixar um menor de idade utilizar um veículo nessa velocidade. Para as crianças existem os de brinquedo, com a segurança necessária e itens como capacete e joelheira.

Em outra situação recente que presenciei, dois adolescentes passaram com seus patinetes alugados no meio da pracinha. Da pracinha! Cheia de crianças pequenas. Não atropelaram ninguém por uma sorte enorme. A menina até balançou, não chegou a cair, mas precisou desviar a cabeça para não bater em um dos brinquedos. Aí eu pergunto: por que alguém corta uma praça com chão de areia, num domingo à tarde, de patinete? Por quê? Eram duas criaturas desgovernadas em um local absolutamente inapropriado.

Eu teria zero problema com eles se houvesse um lugar para o patinete transitar, operado por adultos sozinhos, estacionado em lugares próprios para isso e que não tranquem o passeio público nem deixem as pessoas receosas de que vai surgir um, do nada, onde não deve. É louvável que seja usado para o lazer ou como meio de transporte rápido e não poluente. Ótimo, maravilhoso e sustentável. No fim das contas é o uso errado que me incomoda tanto. O pobre do patinete paga a conta da irritação com as pessoas que não respeitam regras e espaços. 

ANDRESSA XAVIER

11 de Outubro de 2025
MARCELO RECH

O xadrez de 2026

A um ano das eleições presidenciais de 2026, estamos assim: Lula corre lépido e faceiro em campo aberto, enquanto a direita se desintegra e atola em uma avalanche de candidaturas, vaidades e intrigas. Esse quadro significa que Lula está com a mão no quarto mandato? Longe disso. Há uma série de variáveis que ainda não se encaixaram para desenhar o mapa político do ano que vem.

Um fato crítico é o nome a ser consagrado por Jair Bolsonaro para comandar a tropa da direita rumo a um provável segundo turno. Mesmo com a bola mais murcha, Bolsonaro é o grande eleitor do partido anti-Lula. Em retiro forçado, o ex-presidente se mostra errático: ora dá sinais de que prefere como sucessor o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ora que poderá indicar Flávio Bolsonaro para carregar o cetro da família. O resultado é uma guerra literalmente fratricida nas fileiras da direita, com Eduardo Bolsonaro ameaçando se lançar por conta própria por outro partido que não o PL.

Foi o 03 e sua desastrada movimentação pelas sanções contra o Brasil que contribuíram para vitaminar Lula e uma esquerda que andavam sem rumo. Com a pecha de traidor da pátria e após a química de Lula e Trump, Eduardo já não tem o que perder. É porque sabe muito sobre muitos que os aliados de outrora não o cutucam com vara curta. A vida de Jair Bolsonaro no exílio domiciliar não é fácil: além de administrar as ambições dos filhos com duas ex-mulheres, precisa lidar com os planos da atual, Michelle, que volta e meia se lança candidata a presidente.

Outra variável é Tarcísio de Freitas. Mesmo com o sinal verde de seu mentor para disputar a Presidência, ele não abriria mão de uma provável reeleição ao Palácio dos Bandeirantes se as portas da esperança do Planalto não estiverem escancaradas. Caso Lula siga nadando de braçada com a isenção do IR até R$ 5 mil e uma pauta populista que não para de engordar, sobrariam então duas frentes para encará-lo.

A primeira seria um governador de direita com boa avaliação e trânsito para além do bolsonarismo. Ratinho Jr., do Paraná, opção número 1 pós-Tarcísio decidida pelo cacique do PSD, Gilberto Kassab, tem mostrado mais viabilidade eleitoral do que Ronaldo Caiado, de Goiás. A segunda pode ser uma candidatura que ainda não ganhou visibilidade ou que sequer é cogitada.

Uma pesquisa da ONG More in Common em parceria com a Quaest identificou que 54% dos brasileiros não se enquadram nos grupos polarizados entre Lula e Bolsonaro. São os chamados invisíveis, porque não se manifestam nas redes e nem vão a protestos. Grande parte dos invisíveis se abstém de votar ou vota nulo e branco, mas a fatia flutuante é suficientemente numerosa para decidir uma eleição. É aí que se encontra a possibilidade de uma surpresa em 2026. 

MARCELO RECH

Um Nobel da Paz pela democracia

Uma das consequências da escolha da venezuelana María Corina Machado para o Prêmio Nobel da Paz de 2025 é fazer a comunidade internacional, em meio a tantos conflitos e turbulências nos quatro cantos do globo, também voltar as atenções para os arbítrios do regime de Nicolás Maduro. A láurea, afinal, não desperta apenas a curiosidade sobre a trajetória da líder oposicionista, mas faz com que sejam relembrados todos os abusos da autocracia chavista, como as graves violações de direitos humanos, as eleições de fachada, o domínio do Legislativo e do Judiciário e uma crise econômica crônica que forçou o êxodo de mais de 8 milhões de cidadãos.

O Comitê Norueguês do Nobel explicou na sexta-feira que premiou María Corina pelos esforços incansáveis na busca pelos direitos dos venezuelanos e pelo empenho "para alcançar uma transição justa e pacífica da ditadura para a democracia". Não há dúvida sobre o destemor da ex-deputada ao decidir se manter no país, ainda que na clandestinidade, apesar do risco que corre. Só com muita coragem é possível continuar a enfrentar um governo que prende adversários ao bel-prazer e é acusado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU de barbáries contra opositores, como estupros e execuções extrajudiciais.

Não fosse a determinação de Maduro para se manter no poder custe o que custar, até para escapar da punição por seus crimes em série, é provável que María Corina fosse hoje a presidente da Venezuela. Ela foi a vencedora das primárias da oposição em 2023 para ser a desafiante do presidente - no cargo desde 2013 - nas eleições no ano passado. Mas, em uma manobra farsesca, a Suprema Corte do país a declarou impedida de concorrer, em roteiro semelhante ao imposto a outros adversários políticos. Ao fim, Maduro foi à disputa em julho do ano passado com Edmundo González Urrutia e se declarou vencedor em um pleito com fartíssimos sinais de fraude.

A premiação a María Corina terá ainda maior valor se servir de motivação para opositores e descontentes com o regime se organizarem e se mobilizarem ainda mais para buscar formas de fazer a Venezuela voltar a viver sob um Estado democrático de direito. Também tem o poder de constranger as alas mais jurássicas da esquerda latino-americana, presentes também no Brasil, que, movidas pelo espírito embolorado da época da guerra fria, seguem condescendentes com a opressão de Maduro. O Nobel da Paz é uma chancela sobre os méritos de quem não se intimida com uma ditadura e um imunizante contra tentativas de diminuir o peso da distinção por viés ideológico. Governos tiranos são sempre deploráveis, pouco importa a coloração política.

É de se esperar que o reconhecimento pela primeira vez conferido a uma mulher da América do Sul colabore para uma futura mudança de ares na Venezuela, tanto pelo entusiasmo interno como por uma maior pressão da comunidade internacional por vias diplomáticas. Mas sem que se recorra à violência ou a qualquer intervenção armada. É temerária, por exemplo, a ameaça militar norte-americana que paira no Mar do Caribe. Afinal, como sublinhou o comitê do Nobel, os méritos de María Corina estão nos esforços para uma transição pacífica para a democracia. Essa é a mensagem.  



11 de Outubro de 2025
GPS DA ECONOMIA - Marta Sfredo

Dólar dispara com fiscal, setor privado e Trump

Depois de operar perto das mínimas deste ano por semanas, o dólar saltou 2,38% na sexta-feira, para R$ 5,503. A bolsa caiu 0,73% e perdeu outro patamar, ficando em 140,6 mil pontos. Um comportamento tão diferente do que vinha ocorrendo nos últimos meses no mercado não teve uma só causa, mas ao menos três.

Uma é o novo estresse fiscal do Brasil, com necessidade de tapar o buraco da medida provisória que a Câmara dos Deputados deixou caducar há poucos dias. A percepção de piora se acentuou com o lançamento do programa habitacional do governo federal, que depende de liberação de empréstimos compulsórios.

Ainda pesou uma intensa saída de investidores externos. Segundo o jornal Valor Econômico, há confirmação de venda maciça de títulos da dívida da Raízen, empresa que resultou de associação entre o grupo brasileiro Cosan e a petroleira anglo-holandesa Shell. A causa seria risco de perda de grau de investimento. A dívida da Raízen é de R$ 49,5 bilhões, 4,5 vezes sua geração anual de caixa.

Acúmulo de desafios

O terceiro eixo foi nova ameaça feita por Donald Trump à China. O presidente dos Estados Unidos não gostou de controles adotados na exportação de terras raras. Depois do fechamento do mercado no Brasil, anunciou alíquota de 100% contra a China a partir de 1º de novembro. Tenta forçar uma negociação, será preciso acompanhar.

Nos próximos dias, há um acúmulo de desafios para o governo brasileiro. Está prevista a votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026. No mês passado, o Tribunal de Contas da União (TCU) decidiu que a sistemática inclusão da margem de tolerância da meta de resultado primário para definir cortes é "incompatível com o regime jurídico-fiscal vigente".

É esperado um recurso, que deve ser enviado justo quando todos esses problemas tendem a se concentrar.

E a situação se complica por 2026 ser ano eleitoral. Em tese, o pagamento de emendas parlamentares teria de ser feito até junho. A conta prevista, apenas com as chamadas "emendas Pix" e as das áreas de saúde e assistência social, está ao redor de R$ 50 bilhões. Não é troco em qualquer denominação. _

Conforme o BNDES, o crédito aprovado para exportadores do RS afetados por tarifaço soma R$ 679 milhões em pouco menos de um mês. Equivale a 17% do total para o Estado que representou 4,6% das vendas aos EUA em 2024.

Dolarização à argentina?

Havia um dilema na Argentina: os Estados Unidos condicionavam ajuda financeira à vitória de Javier Milei nas eleições parlamentares do dia 26, mas atender a essa exigência era difícil com o desgaste do governo e o dólar em disparada.

Na quinta-feira, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, reafirmou a disposição de fazer swap cambial de US$ 20 bilhões (troca de moeda) e adotou medida tão inusitada que evidencia o tamanho da crise: comprou pesos argentinos.

- Incrível. Jamais visto - disse Alfredo Romano, da Romano Group, de serviços tributários e auditoria, ao site econômico argentino Ámbito.

À Fox News, Bessent defendeu a iniciativa com uma explicação igualmente rara para governos:

- Não é um resgate. É comprar barato e vender caro.

Até a Fox News quis saber o que os EUA ganhariam, e Bessent alegou que cidadãos americanos serão recompensados porque Milei "está comprometido a tirar a China da Argentina".

Na quinta, papéis de empresas argentinas negociados em Nova York decolaram 27,3%, e títulos nacionais em dólares saltaram 9,3%. Na sexta, feriado na Argentina, os bônus mantiveram alta, mas os recibos de ações recuaram, sem apagar os ganhos da véspera. Reportagem do Ámbito aponta alta probabilidade de dolarização depois das eleições. _

Ruas da Capital com imóveis de R$ 2 mi

Um estudo da Loft identifica que há 10 ruas em Porto Alegre com preço médio próximo ao novo teto do SFH, de R$ 2,25 milhões. O bairro com mais vias com valores nessa faixa é o Bela Vista, com três.

via R$ MILHÕES

Rua Jaraguá 2,2

Av. Guaporé 2

Rua 14 de Julho 2

Eng. Olavo Nunes 1,9

Rua Cândido Silveira 1,9

"Xerife" adverte

A Instituição Fiscal Independente (IFI), conhecida como "xerife das contas públicas", advertiu para "necessidade urgente de se repensar toda a dinâmica fiscal e estrutura de gastos" em nota técnica publicada na sexta-feira. Conforme a entidade, a recusa da Câmara dos Deputados de apreciar a MP que elevaria impostos é novo sinal de que o reequilíbrio fiscal não terá "ambiente político-institucional favorável" pela via de "aumento significativo do nível de tributação". A IFI ressalva que isso não quer dizer que seja inadmissível a "redistribuição da carga". _

GPS DA ECONOMIA

11 de Outubro de 2025
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Coronel Ikeda é o candidato natural à sucessão de Caron

Substituições na área da segurança pública não costumam ser fáceis, principalmente porque costumam ocorrer em momentos de crise. Não é o caso da saída do secretário Sandro Caron, que pediu demissão porque recebeu uma proposta irrecusável do setor privado e vai se mudar para São Paulo.

Quando chegou, Caron não encontrou terra arrasada no Rio Grande do Sul. Foi bem mais fácil do que sua missão anterior, como secretário da Segurança do Ceará, um Estado que vivia o auge da crise do enfrentamento das facções que queimavam ônibus e tocavam o terror no Estado.

Aqui, Caron encontrou o programa RS Seguro, elogiado até pelo ministro Gilmar Mendes do Supremo Tribunal Federal (STF), um trabalho de integração das forças de segurança que derrubou os índices de criminalidade em geral e os homicídios em particular.

Fossem outros tempos, o governador Eduardo Leite estaria correndo atrás de outro delegado da Polícia Federal, de um político ou de quem quer que não fosse da Brigada Militar ou da Polícia Civil. Hoje as corporações estão maduras para aceitar que o secretário seja da Brigada ou da Polícia Civil sem crise de ciúme.

O delegado Ranolfo Vieira Júnior foi o primeiro secretário de Leite pela condição singular de ser também vice-governador e só saiu quando assumiu o Piratini, no início de 2022. Hoje, o número 2 de Caron é o coronel Mario Ikeda, ex-comandante da BM e que tem todas as credenciais para assumir a chefia.

Pronto para a transição

O próprio Caron está convencido de que não existe mais essa disputa corporativa e que Ikeda tem todas as condições para substituí-lo, se esse for o desejo do governador.

- Estou pronto para fazer a transição, tão logo o governador escolha meu substituto - disse.

Caron vai se licenciar da Polícia Federal por três anos, até completar o tempo para a aposentadoria. Ele diz que a decisão de sair não foi fácil, mas conversou com a família e todos concordaram que depois de cinco anos como secretário está na hora de ter uma vida mais previsível e com mais tempo para os filhos de 13 e 15 anos. _

Moradia, a aposta de Lula para bandeira do último ano de mandato

Há quase um século, o então presidente Washington Luís pronunciou, na inauguração da rodovia Rio-Petrópolis: "Governar é construir estradas". A um ano de disputar a oitava eleição presidencial, o presidente Lula poderia dizer que governar é facilitar a aquisição da casa própria.

Lula aprendeu que o sonho da casa própria continua mais vivo do que nunca. Na sexta-feira, anunciou um novo modelo de crédito imobiliário para o país. O programa mira a classe média, já que para os pobres existem vários programas sob a bandeira do Minha Casa, Minha Vida.

É possível que venha a ser carimbado como eleitoreiro, mas esse tipo de crítica não cola com a população em geral.

O risco político é o programa esbarrar na falta de recursos, como já esbarra hoje o financiamento imobiliário de um modo geral, e se transformar em frustração. _

Leite torna-se cidadão da "terra dos presidentes"

A celebração dos 343 anos de São Borja, completados na sexta-feira, teve sentimento especial para Eduardo Leite. Na primeira agenda no município desde 2021, Leite recebeu o título de cidadão são-borjense, proposto em 2022 por Tiago Cadó (PDT), quando o deputado ainda era vereador da cidade.

Leite, que tenta se cacifar para disputar a Presidência em 2026, disse, em uma rede social, que agora faz parte da história da "terra dos presidentes", apelido dado a São Borja por ser a cidade natal de Getúlio Vargas e João Goulart. "Obrigado pela homenagem! Seguirei sempre firme para honrar nossa história e cultura", escreveu. _

Ospa cobra o plano de carreira

Desde que assumiu a presidência da Fundação Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, o médico Gilberto Schwartsmann trabalha para garantir aos músicos um plano de carreira com salários competitivos que impeçam os desfalques a cada vez que se abre um concurso em outros Estados.

Com a aproximação do final do ano e preocupados com a falta de notícias, os músicos encaminharam uma carta ao governo, mostrando que os salários da instituição estão entre os mais baixos pagos por orquestras do mesmo porte.

A secretária de Planejamento, Danielle Calazans, alega que o assunto ainda está em estudo e que está sendo analisada não só a parte da carreira, mas também a estrutura da orquestra. _

Engenheiros agrônomos

O Sindicato dos Servidores de Nível Superior (Sintergs) divulgou nota na qual critica o fato de engenheiros agrônomos estarem sendo designados pelo governo do Estado para executar e fiscalizar obras de recuperação de estradas vicinais afetadas pela enchente de 2024. A alegação é de que esta função deveria ser realizada por engenheiros civis.

A Secretaria de Agricultura alega que está amparada em decisão normativa do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea) de 2002. _

Prestes a completar um ano, a Invest RS já tem muito o que celebrar. A agência criada para divulgar e alavancar o mercado do RS acompanha as negociações de uma carteira de investimentos no Estado que chega aos R$ 20 bilhões, dos quais R$ 6 bilhões atraídos diretamente pela empresa.

POLÍTICA E PODER

11 de Outubro de 2025
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

O espaço do agronegócio brasileiro na COP30

Na COP30, que ocorre em Belém, a partir de 10 de novembro, pela primeira vez na história das conferências, a agropecuária terá um espaço para receber visitantes, realizar painéis e mostrar exemplos da produção agropecuária, pautados em respostas sustentáveis e de mitigação às mudanças climáticas na Amazônia e nos diversos biomas do país.

O espaço foi batizado como AgriZone, em referência às áreas oficiais da COP - a BlueZone, onde ocorrem as reuniões diplomáticas, e a GreenZone, aberta à sociedade civil. A Agrizone não é oficial, mas foi chancelada pela organização da COP30.

O local ficará em um terreno da Embrapa Amazônia Oriental, em Belém, em uma área de 3 mil hectares distante cerca de dois quilômetros do Parque da Cidade, local dos eventos oficiais da COP. Cada dia será reservado a uma atividade agropecuária: proteína, grãos, frutas, por exemplo. E temas transversais, como segurança energética, alimentar, mitigação, agricultura de carbono. Todos os biomas estarão representados no espaço.

Alguns exemplos das práticas que o setor pretende exibir: integração lavoura-pecuária-floresta, métodos de recuperação de pastagens e fórmulas de fixação de nitrogênio no solo. Essas iniciativas sustentáveis são comuns dos visitantes da Expointer e Expodireto, no Rio Grande do Sul, mas costumam receber pouca exposição nas COP. A ideia é utilizar o evento como vitrine, de forma a tirar o agro de uma posição defensiva às críticas de ambientalistas e, sobretudo, melhorar a comunicação com a sociedade. 

Estado reduziu emissões em 15%

O Rio Grande do Sul reduziu em 15% suas emissões líquidas e em 13% as emissões brutas de gás carbônico (CO2). O período analisado é de cinco anos, entre 2018 e 2023, e consta de um estudo do Iclei, principal associação mundial de governos locais e subnacionais dedicados ao desenvolvimento sustentável.

Emissões brutas são todas as emissões de gases de efeito estufa liberadas diretamente para a atmosfera por uma atividade, país ou setor, sem descontar remoções ou compensações. Inclui queima de combustíveis fósseis e desmatamento, por exemplo.

As líquidas são calculadas a partir das emissões brutas menos o que foi compensado ou removido da atmosfera por meio de reflorestamento, tecnologias de captura de carbono, preservação de florestas.

O Acordo de Paris e as conferências do clima, as COP, costumam considerar emissões líquidas nas metas - por isso, a coluna destaca a redução de 15% pelo Estado.

O RS está abaixo da média nacional de toneladas de CO2 emitidas por habitante - com 7 tCO2e/hab, frente à média brasileira de 9,6 tCO2e/hab. Os dados foram apresentados na quinta-feira durante a 12ª Reunião do Fórum Gaúcho de Mudanças Climáticas, que ocorreu na Fiergs. _

RS em Belém

O foco da participação da secretária estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura, Marjorie Kauffmann, na COP30, será reconstrução do RS: a importância da adaptação para que se tenha estruturas mais fortes implementadas para reduzir os impactos negativos das mudanças climáticas.

O Estado participou pela primeira vez das conferências do clima na COP26, em Glasgow (Escócia), em 2021. Esteve também nas COP27 (Egito), COP28 (Emirados Árabes Unidos) e COP29 (Azerbaijão).

A agenda de Marjorie na COP30 ainda está sendo fechada. O governador Eduardo Leite confirma a presença na conferência de Belém, mas ainda não definiu os dias em que estará presente no evento. _

O escritor e colunista gaúcho Fabrício Carpinejar será uma das atrações da MOVE.25, tradicional conferência internacional de liderança que ocorre em Luanda, Angola. No sábado, ele apresentará a palestra "Transformação pelo afeto: que ninguém seja invisível ao seu lado".

Agradecimentos a Trump em Israel

Duas das principais cidades de Israel, Tel Aviv e Jerusalém, amanheceram na sexta-feira com mensagens de agradecimento ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após o governo israelense e o Hamas aprovarem o plano de cessar-fogo proposto pelo americano.

O republicano também afirmou que pretende viajar para o Oriente Médio na próxima semana. _

INFORME ESPECIAL

sábado, 4 de outubro de 2025

04/10/2025 - 15h46min
Martha Medeiros

Quem tem medo da vida não experimenta

Teme parecer ridícula e não flerta, não se declara, não arrisca. O que faz uma pessoa ficar enlatada em um avião por 11 horas, desembarcar num lugar desconhecido, comer e beber pagando uma exorbitância em euros, para então voltar para casa percorrendo as mesmas cansativas 11 horas, agora com um monte de dívida no cartão?

Parece irracional, mas a morte é mais irracional ainda: irá nos tirar de cena a qualquer minuto, contra a nossa vontade. Como se rebate essa afronta? Com irracionalidades como o amor, o êxtase, as surpresas. Atravessamos a famosa faixa de pedestre de Abbey Road escutando Beatles nos fones de ouvido porque a morte está à espreita, é assim que a combatemos. Nos emocionando. Nos divertindo.

Encontrando os mesmos amigos uma, duas, mil vezes, para reforçar o afeto. Se apaixonando, para andar na corda bamba. Assistindo a uma ópera, mesmo preferindo o rock. Lutando pelo bem-estar dos outros e participando de movimentos pacifistas, para deixar um mundo melhor lá adiante, quando não estivermos mais aqui.

Criando arte, trilhando montanhas, fazendo filhos, não evitando os livros que nos fazem chorar, não fugindo de nada que nos faça sentir. A morte é absurda, fominha, violenta? Contra-atacamos com um entusiasmo afrontoso.

É preciso ser desassombrado em relação à morte. Se damos a ela muito cartaz, acabamos com medo da vida. Surtar com imprevistos, não falar com estranhos, ser incapaz de se encantar com o novo. Não viajar. Apegar-se de forma lunática à família como se ela fosse o único refúgio protegido. A paralisia e o tédio falsificam a ideia de tranquilidade. Quem tem medo da vida não experimenta. Teme parecer ridícula e não flerta, não se declara, não arrisca.

Perde o valor do tempo e consagra todos os dias à mesma rotina, às mesmas falas e hábitos. Religião deixa de ser um conforto espiritual para ser um escudo, a pessoa dá procuração aos santos para agirem como opressores e assim evita a tentação de uma alegria que arrebate – o “muito” lhe assusta.

Ter consciência plena da morte impulsiona nossos desejos hoje mesmo, não fazemos estoque para a eternidade. Encoraja nosso autoconhecimento e nos ajuda a descobrir do que somos capazes, alargando nossas coragens. A morte só terá uma única chance de nos vencer, e vai ter que lutar. A troco de quê dar a ela várias vitórias por dia?

Para escapar da morte, a gente muda, volta a estudar, reforça uma opinião e abandona outra, funda uma banda, estica os limites, elege um novo país preferido, um ano é mar, outro ano é deserto, dribla a morte, dribla de novo, retarda a hora de ela atacar – olé! 

Já quem tem medo da vida, em nome de uma ilusória sensação de paz, se esconde embaixo das cobertas e apaga a luz mais cedo.


04 de Outubro de 2025
EUGÊNIO ESBER

Os tiranetes não passarão

Em 22 de fevereiro de 1988, o presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Ulysses Guimarães, abriu uma votação histórica para que o Brasil decidisse se marcharia em paz rumo ao futuro ou ficaria preso à guerra política e ao risco de confronto armado entre cidadãos brasileiros, que nas décadas anteriores havia enlutado famílias de civis e de militares. 

O país havia passado, em 1979, por uma anistia ampla, geral e irrestrita afiançada pelo então presidente da República, João Baptista Figueiredo. Último general-presidente a exercer o poder desde o início do regime civil-militar instaurado em 1964 com o apoio de governadores e de jornais influentes, Figueiredo sofria pressões, de dentro e de fora da caserna, para que o projeto de anistia não incluísse Leonel Brizola. 

O jornalista Alexandre Garcia, porta-voz da Presidência da República na época, conta que Figueiredo foi muito claro - ou a anistia valeria para todos, de ambos os lados, ou não valeria para ninguém. Testemunha vivíssima daqueles dias tensos, Alexandre relata que Figueiredo e Brizola firmaram um pacto de honra em que cada um trataria de controlar os seus radicais para tornar possível a reconciliação. Ambos cumpriram a palavra, e os crimes cometidos por militares, e pelos oposicionistas que optaram pela luta armada e por ações terroristas, foram anistiados.

Por baixo das cinzas do pacto de 1979, porém, ainda restaram brasas de ressentimento dos dois lados. E elas reacenderam na já mencionada sessão que Ulysses presidiu, em 1988, para dar os contornos finais ao texto que estabeleceria, na nova Constituição da República, os limites e possibilidades da concessão de anistia. O que seria aceitável anistiar, no futuro? O que não seria? 

Carlos Alberto Caó, ativista do movimento negro e filiado ao PDT de Brizola, propôs que crimes políticos não fossem excluídos da possibilidade de anistia pelo Congresso Nacional. Tudo se resolveu no voto. E, por 281 a 120, Caó conseguiu retirar do projeto de texto constitucional a proibição de anistia para "a ação de grupos armados, civis e militares, contra a ordem constitucional e o Estado democrático". Entre os votos favoráveis à tese reconciliadora de Caó figuram Lula, Fernando Henrique Cardoso, Michel Temer e Mário Covas, entre outros.

Portanto, a atual proposta de anistia ampla e sem exclusões, que retroceda a 2019, marco inaugural do ditadura do Supremo Tribunal Federal, é plenamente aceitável à luz da Constituição Federal e é de competência exclusiva do Congresso Nacional. Assim decidiram os constituintes de 1988. Negar esta obviedade, como tentam fazer Gilmar, Moraes, Barroso e Dino, é rasgar a fantasia de juristas e assumir a identidade de tiranetes.

Não passarão. 

EUGÊNIO ESBER