sábado, 13 de dezembro de 2025


13 de Dezembro de 2025
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Leite é cobrado a se apresentar como opção para o Planalto

Em meio ao impasse causado no centro pela candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) a presidente, renasceu entre adeptos da social- democracia um movimento para colocar o governador Eduardo Leite (PSD) no jogo. Nesse grupo estão pessoas ligadas ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, líderes do movimento Derrubando Muros, empresários e até integrantes do PSD que não querem ficar sem alternativa se o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) não for candidato.

No início da semana, quando esteve no Rio de Janeiro para uma palestra na Casa das Garças, a convite do Instituto de Estudos de Política Econômica, Leite foi instado a se apresentar como concorrente, para ocupar o vazio deixado pela falta de um nome sem ligação com o lulismo e o bolsonarismo. Na plateia, estavam figuras como Pérsio Arida, Armínio Fraga, Pedro Malan, Gustavo Franco, Edemar Bacha, Paulo Hartung e Elena Landau.

Depois do debate sobre desenvolvimento, Leite foi jantar na casa de Bacha com Hartung, Malan e o ex-secretário da Fazenda Aod Cunha.

Arida foi o primeiro a se manifestar. Disse que Leite era o candidato que a maioria dos presentes queria ver viabilizado. Ex-governador do Espírito Santo e hoje companheiro de partido de Leite, Hartung foi um dos mais enfáticos, dizendo que o gaúcho não pode se encolher.

O governador disse que sempre esteve à disposição do PSD, mas conhece a posição de Gilberto Kassab, que ainda tem esperança de ver Tarcísio candidato. Kassab também já disse que, se Tarcísio não concorrer a presidente, a segunda cartada é o governador do Paraná, Ratinho Júnior. Leite seria a terceira opção.

"Opção moderna"

Em outra frente, o deputado Roberto Freire (Cidadania-PE) tem usado as redes sociais para defender a candidatura de Leite como "uma opção moderna para o Brasil do século 21".

- Quando Kassab convidou o Cidadania para formar uma federação com o PSD, eu disse a ele que nossa única condição seria ter Eduardo Leite como candidato a presidente - contou Freire à coluna. _

Continuidade, a palavra-chave que transformou Medellín, na Colômbia

Acostumado a ciceronear comitivas de prefeitos brasileiros que vão a Medellín, na Colômbia, em busca de receita para a transformação de cidades, o cientista político Jean Tromme magnetizou a plateia do Granpal Summit, na sexta-feira, em Porto Alegre. Belga de nascimento, ele acompanhou a transformação de Medellín, de cidade mais violenta do mundo a exemplo de inovação urbana e social em três décadas.

Ao Gaúcha Atualidade, Jean disse que não há fórmula mágica, mas um trabalho contínuo que não sofre interrupção com as trocas de governo - lá não existe reeleição, mas o prefeito eleito não ousa mexer no que está dando certo.

- Para nós, os recursos públicos são sagrados. Cada centavo tem de ser investido na população. Não toleramos a corrupção - disse o cientista político, que é também administrador.

Em outro momento, explicou que as autoridades de Medellín foram buscar iniciativas bem-sucedidas em outros países e adaptaram-nas à realidade de uma cidade montanhosa, que não tem praia e afugentava turistas pela violência:

- Pegamos os bondinhos das estações de esqui e tropicalizamos para atender às necessidades de mobilidade das pessoas. Pusemos escadas rolantes ao ar livre para facilitar o deslocamento de quem vive nas periferias. Investimentos em educação, cultura e esporte, para capturar os jovens e fomentar a inovação. Não foi uma coisa isolada. _

Em Porto Alegre, Nikolas pede apoio dos empresários à direita

Convidado pela Fecomércio para uma palestra-almoço sobre comunicação na sexta-feira, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) começou dizendo que evitaria falar de política, mas acabou fazendo um apelo aos empresários gaúchos para que apoiem as candidaturas da direita em 2026.

Nikolas afirmou que o Brasil "está em uma guerra" e por isso sugere que os empresários façam "sacrifícios":

- Óbvio que vão te perseguir (se doar dinheiro para campanha). Você não entendeu que estamos numa guerra? Ou você quer ir para uma guerra sem sacrifício? Quem disse que você veio a este mundo para ser feliz? _

Mais uma derrota para a coleção de Eduardo Bolsonaro

Se pensasse com o cérebro, e não com o fígado, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) não estaria acumulando derrotas em seu sonho americano às avessas. Nos nove meses em que está nos EUA, Eduardo gestou fracasso atrás de fracasso. Mitômano, achou que o presidente da maior economia do mundo daria mais atenção às fantasias dele do que aos interesses dos americanos. Comemorou cedo demais o resultado de suas conspirações contra o Brasil e deu com os burros n?água.

A coleção de fracassos começou quando Trump disse na ONU que teve "uma química excelente" com Lula. Depois veio o encontro na Malásia, a revogação de parte das tarifas e, por fim, a exclusão de Alexandre de Moraes da Lei Magnitsky.

Como queimou as pontes, Eduardo agora não tem como voltar para o Brasil. Por excesso de faltas, vai perder o mandato. Não se sabe como vai se sustentar em solo americano. E ainda perdeu para o irmão mais velho a condição de candidato preferencial da família Bolsonaro. 

Bônus garantido

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) decidiu que juízes e juízas federais têm o direito de receber gratificação extra mesmo quando estiverem em licença-maternidade, paternidade ou por adoção. A Gratificação por Exercício Cumulativo de Jurisdição é paga aos magistrados que acumulam trabalho ou lidam com grande volume de processos. Até então, o pagamento ficava suspenso durante as licenças. _

A nova diretoria da Associação dos Procuradores do Estado (Apergs) tomará posse para o biênio 2026-2027 em solenidade na segunda-feira. A entidade será presidida pela procuradora Patricia Bernardi Dall?Acqua.

POLÍTICA E PODER

sábado, 6 de dezembro de 2025


06 de Dezembro de 2025
MARTHA MEDEIROS

Que dia da semana é hoje?

Pessoas muito idosas não têm essa bênção de apenas 20 segundos de desconexão. "Que dia é hoje?", perguntam a si mesmos ao acordar, e a angústia da desinformação se prolonga. O que tenho mesmo que fazer? Alguém chegará? É uma torturante sensação de abandono. O que vai ser de mim sem poder confiar em mim? Por isso, precisam estar sempre acompanhadas por familiares ou cuidadores que as devolvam ao seu eixo central, situando-as no tempo e espaço, mesmo que isso leve algumas horas. Dependendo do comprometimento neurológico, os ponteiros do relógio avançam e a segurança não vem. Sorte dos idosos que conseguem relaxar e entregar-se a quem zela por eles. Os ansiosos se desesperam.

Neste exato momento, são 9h30 de um sábado ensolarado, vou escrever mais um pouco e depois almoçar com minha mãe no restaurante preferido dela, onde ela pede sempre a mesma coisa e damos as mesmas risadas. À tarde tentarei terminar este texto, mas o mais provável é que eu o deixe pela metade e vá jogar conversa fora com minha filha, que não mora no Brasil e veio nos visitar. É sábado, como já disse. Posso terminar o texto amanhã. Não me importo de transformar o domingo em um valoroso dia útil.

Afinal, é bom ou é ruim desconsiderar o dia da semana em que se está?

Quando é minha vez de visitar esta filha, aterrisso no país em que ela mora e, automaticamente, as quintas-feiras, as sextas, as segundas deixam de existir. Todos os dias são sábados, e cada sábado é diferente do outro. O espírito do dia é que me conduz. Não há uma rotina ordenando o que devo ou não devo fazer, não existe a rigidez do horário em que devo sair da cama. Os compromissos são outros - um brunch com um amigo, visitar um museu, pedalar pela cidade. 

A urgência é pelo encantamento com a vida, e não com a sina da sobrevivência. Que diferença faz qual é o dia da semana para quem está flanando em Paris? Às vezes, os melhores fins de semana caem numa terça-feira, como já disse a escritora Leila Ferreira. Viagens: em contraponto à nossa rotina repetitiva, elas funcionam, metaforicamente, como os 20 segundos sagrados em que não pertencemos a nenhuma engrenagem, somente ao comando da alma.

Do que concluo: ando pensando demais. Hora de fazer as malas. 

MARTHA MEDEIROS


A Reuters é uma das agências de notícias mais respeitadas no mundo. Segundo o jornalista, "no final do ano passado documentos internos projetaram que 10% do faturamento anual se deve à divulgação de propagandas, de itens proibidos e de golpes". Esses 10% correspondem a estratosféricos US$ 16 bilhões.

Os documentos revisados pela Reuters mostraram que a Meta deixou de identificar e de apagar uma avalanche de anúncios fraudulentos que expõem bilhões de usuários a esquemas criminosos de investimentos financeiros, cassinos online ilegais e à venda de remédios falsos.

Em relação aos crimes contra a saúde pública brasileira cometidos em parceria com a Meta, quadrilhas de estelionatários se apropriaram de minha imagem com tanta facilidade que chegaram a colocar à venda um curso na internet para interessados em aprender a falsificar minha voz por inteligência artificial, com a finalidade de vender tratamentos falsos. Uma matéria publicada no Uol pela jornalista Isabela Aleixo mostrou que os vigaristas tinham mais de 600 alunos matriculados.

Como já expliquei nesta coluna, fiz uma denúncia ao Ministério Público de São Paulo e pedi os préstimos do escritório de advocacia Bottini e Tamasauskas na tentativa de descobrir quem são esses meliantes. É tarefa inglória, porque a Meta se recusa a identificá-los e a legislação brasileira ainda não está preparada para enquadrá-la em nosso código penal.

Enquanto isso, milhares de pessoas ingênuas caem em golpes que as fazem comprar comprimidos de conteúdo desconhecido que apregoam curar diabetes, dor nas costas, neuropatias periféricas ou hipertensão, além de uma infinidade de suplementos alimentares inúteis e do abecedário completo de vitaminas.

A matéria da Reuters continua: "Muitas dessas fraudes partem de anunciantes suficientemente suspeitos para serem detectados pelos sistemas internos de segurança da Meta. Mas a companhia só os proíbe quando seus sistemas automatizados estimam em pelo menos 95%, o grau de certeza de que se trata de fraude".

E, mais grave: quando o usuário da rede clica numa dessas propagandas-golpe, passa a receber outras da mesma espécie, graças à aplicação dos algoritmos personalizados que se baseiam nos interesses do usuário. É um esquema armado para otimizar os lucros da empresa em sociedade com golpistas para tomar dinheiro de pessoas de boa fé.

O repórter entrevistou Sandeep Abraham, que trabalhou na Meta como investigador de segurança: "Se os legisladores não toleram que os bancos lucrem com fraudes, não deveriam tolerá-las na área da tecnologia".

Anos atrás, quando começaram a aparecer os vídeos fake usando minha imagem, tentei inúmeras vezes pedir que os tirassem do ar. Santa inocência, imaginei que tratava com gente honesta e bem intencionada. Nas raríssimas vezes em que se dignavam a responder, uma mensagem automática dizia que o vídeo obedecia às regras estabelecidas pela plataforma. Nunca derrubaram uma propaganda falsa sequer.

Na investigação da Reuters, Jeff Horowitz afirma que um documento de 2003 indica que a Meta estava ignorando a vasta maioria das queixas contra golpes: "Os funcionários da área de segurança da empresa estimavam que naquele ano os usuários do Instagram e do Facebook tenham documentado cerca de 100 mil propagandas falsas e tentativas de golpe, por semana. A Meta ignorou ou rejeitou incorretamente 96% deles".

Você poderá pensar: com tantos vídeos que chegam até eles todos os dias, deve ser impossível separar o joio do trigo. Há mais de 10 anos, tenho um canal com mais de 4 milhões de inscritos no YouTube. De acordo com o ChatGPT, as estimativas mais confiáveis são de que o YouTube publique de 2,5 milhões a 3 milhões de vídeos por dia. Nunca vi uma propaganda falsa em meu nome. Por duas ou três vezes nesses anos todos, comunicamos alguma incorreção que foi imediatamente retirada.

Se a tecnologia do YouTube consegue identificar e eliminar golpes com tamanha eficiência, por que o mesmo não acontece com o Instagram e o Facebook? A resposta está nos US$ 16 bilhões anuais que a plataforma fatura com eles. 

Drauzio Varella 


06 de Dezembro de 2025
J.J. CAMARGO

A credencial de permanência só será concedida aos que preservaram intacta a autocrítica e, desapegados de compromissos e obrigações, ainda sejam capazes de pensar por conta própria. Se o foco central do relato é a delação, a análise das características pessoais dos delatores exige uma independência de sentimentos que não existirá se o leitor estiver emocionalmente comprometido ou, pior ainda, na condição degradante de materialmente devedor.

A queixa habitual de que foram abandonados pelos seus superiores em um momento crítico de suas vidas deve ser ignorada, porque serve menos como justificativa e mais como evidência de fraqueza ou covardia. A traição deliberada dos antigos parceiros, que ingenuamente lhes confiaram segredos em nome de uma amizade superestimada, já seria desprezível, mesmo antes do descaramento de assumir a intenção explícita de salvar a própria pele.

A política brasileira, com a sua inesgotável capacidade de parir tipos nefastos, se excedeu ao produzir, nas últimas décadas, duas dessas tristes figuras, oriundas de facções diferentes, mas com a mesma pobreza de caráter. Nos dois casos, o estrago inicial foi devastador, ainda que os desfechos a longo prazo tenham sido diferentes, por conta dessa característica da justiça em países subdesenvolvidos: não há entre os nossos juízes o constrangimento de tratar a Carta Magna como uma extensão de sua própria vontade, adequando-a, monocraticamente, à conveniência momentânea.

O caso mais antigo envolveu o delator em um esquema de corrupção sem precedentes na bem ranqueada política brasileira, e, segundo seus adversários propagaram, tratou-se do maior escândalo envolvendo um governo ao longo da história. Provavelmente houve algum exagero, dada a nossa obsessão de sermos campeões mundiais em alguma coisa, especialmente depois que o orgulho pelo nosso futebol minguou.

De qualquer maneira, houve devolução dos milhões retidos, e recentemente foi replicada uma prática inusitada, introduzida no nosso país com grande sucesso: a descondenação, com anulação de todas as penas. E por quê? Porque sim. No caso mais recente, as acusações eram originais e sem denúncia de roubo, como já estávamos acostumados, não havia o que devolver. E a pena foi amenizada correspondendo ao prometido durante os interrogatórios plenos de humanismo e enriquecida por um item jocoso: o condenado não pode manter contato com os delatados! E a troco de quê manteria?

A semelhança nos dois casos fica por conta da verdadeira pena: o ostracismo, espontaneamente imposto pela vergonha da traição. E com seu algoz indefectível: o espelho. _

J.J. CAMARGO

06 de Dezembro de 2025
PARA VER - Ticiano Osório

O filme "Bugonia" (2025), em cartaz nos cinemas, reúne três nomes que já viraram figurinhas carimbadas no Oscar: a atriz Emma Stone e o ator Jesse Plemons, ambos estadunidenses de 37 anos, e o diretor grego Yorgos Lanthimos, 52

Aliens e teorias da conspiração

Três nomes que já se tornaram assíduos nas cerimônias do Oscar estão reunidos em Bugonia (2025). No filme em cartaz nos cinemas de Porto Alegre, Yorgos Lanthimos dirige a atriz Emma Stone e o ator Jesse Plemons.

O grego Lanthimos é o diretor de Dente Canino (2009), que disputou o Oscar internacional. Depois, ele concorreu ao prêmio de roteiro original, por O Lagosta (2016), e recebeu duas indicações nas categorias de melhor filme, como um dos produtores, e melhor direção, por A Favorita (2018) e Pobres Criaturas (2023).

Stone ganhou duas vezes o Oscar de melhor atriz, por La La Land (2016) e Pobres Criaturas, e foi indicada como coadjuvante por Birdman (2014) e A Favorita.

Plemons só concorreu uma vez, como coadjuvante em Ataque dos Cães (2021). Mas na última década atuou em sete indicados ao Oscar de melhor filme: Ponte dos Espiões (2015), The Post: A Guerra Secreta (2017), Vice (2018), O Irlandês (2019), Judas e o Messias Negro (2020), Ataque dos Cães e Assassinos da Lua das Flores (2023).

Os três já haviam trabalhado juntos em Tipos de Gentileza (2024), que deu a Jesse Plemons o prêmio de ator no Festival de Cannes, mas foi solenemente - e merecidamente - ignorado no Oscar. O mesmo não deve - e nem deveria - acontecer com Bugonia, comédia ácida baseada em Save the Green Planet! (2003), do sul-coreano Jang Joon-hwan.

Bugonia talvez seja a obra mais acessível de Yorgos Lanthimos, cineasta célebre por provocar desconforto, choque ou perplexidade. Mas continua sendo um filme de Lanthimos: tem um olhar misantropo e um pé no bizarro, combina senso de humor com pessimismo, crueldade e violência, examina e ridiculariza as dinâmicas e as figuras de poder.

Emma Stone encarna Michelle Feuer, CEO de uma grande farmacêutica. Capas de revistas mostram que Michelle é uma estrela do mundo dos executivos. Já no trabalho, é o pavor da área de RH. Na empresa, em nome do suposto bem-estar dos empregados, ela estabelece que todos podem ir embora às 17h30min - a não ser que estejam ocupados, tenham coisas a fazer, metas a cumprir etc. O horário de encerrar o expediente não é obrigatório: o funcionário "fica livre para decidir". O timing cômico da atriz deixa cada ponderação mais perversa.

Michelle é sequestrada pelo apicultor Teddy (Jesse Plemons) e seu primo autista, Don (vivido por Aidan Delbis, que tem autismo). Não há pedido de resgate.

Teddy acredita que Michelle é uma alienígena disfarçada, vinda do planeta Andromeda em missão maléfica. Os andromedanos estariam dizimando as abelhas, que, com seu trabalho de polinização, respondem por um terço da produção global de alimentos - "É como sexo, mas mais limpo", compara o personagem de Plemons. "Ninguém se machuca."

Os dois primos se prepararam fisicamente e "limparam o cache psíquico" para o sequestro. No cativeiro, eles cortam todo o cabelo de Michelle (Stone teve sua cabeça raspada de verdade) e besuntam seu corpo com um creme anti-histamínico, para impedi-la de enviar um sinal de socorro. Simultaneamente, Teddy exige que ela marque uma audiência com o imperador andromedano.

Não convém avançar na sinopse, mas vale dizer que há cenas perturbadoras, sobretudo quando combinadas à música de Jerskin Fendrix. Os diálogos refletem sobre o capitalismo, a polarização política e o comportamento humano - ou talvez a desumanização decorrente da ganância e do radicalismo. O enredo satiriza a tendência de nos escorarmos no chamado viés de confirmação, ou seja, buscamos e interpretamos informações que validam crenças já existentes, ignorando ou minimizando as evidências contrárias.

O filme vai ao encontro do que o pesquisador canadense Marc-André Argentino, especialista em terrorismo, extremismo violento e combate à radicalização, disse em entrevista à repórter Isabella Sander, de Zero Hora. Para ele, o movimento de extrema direita QAnon "criou uma população mais vulnerável a teorias conspiratórias" - que vão de "eleições roubadas" à associação entre o uso de Tylenol e o autismo. "É qualquer narrativa que reforce sua visão de mundo", resumiu.

Quando Don pergunta ao primo se ele tem certeza de que Michelle é uma E.T., Teddy responde: "Os sinais estão claros. Mas você só nota se estiver procurando". O apicultor também prefere achar um único culpado para os seus problemas e os do mundo, desconsiderando - de propósito ou por visão obtusa - que quase sempre as razões são multifatoriais. Não à toa, a certa altura Michelle dá-se por vencida em um debate natimorto como muitos que ocorrem nas redes sociais: "Não posso mudar sua opinião". 

PARA VER

06 de Dezembro de 2025
DIVERSÃO E ARTE

DIVERSÃO E ARTE

Música

Esteban apresenta carreira solo

Ex-baixista da banda Fresno (à dir.), Esteban faz show que une influências da música latina e do rock norte-americano, domingo, às 20h30min, no Bar Opinião. Ingressos via plataforma Sympla.

Literatura - Lançamento e contação de histórias

Beta Simon (à dir.) participa, sábado, às 12h30min, da ação BPE + Cultura, em frente à Biblioteca Pública do Estado. Na ocasião, ocorre o lançamento de seu novo livro. Entrada franca.

Adaptação - Releitura de clássico dos Irmãos Grimm

O Teatro Simões Lopes Neto, no Multipalco Eva Sopher, recebe a peça João e Maria, sábado e domingo, às 18h. Os ingressos estão disponíveis em theatrosaopedro.rs.gov.br.

Família Ramil revisita clássicos

Show - Quando: domingo, às 20h

Onde: no Auditório Araújo Vianna (Av. Osvaldo Aranha, 685), na Capital

Kleiton, Kledir, Vitor, Ian, Gutcha, Thiago e João Ramil retornam com o projeto Casa Ramil ao palco do Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre, neste domingo, às 20h.

No repertório, interpretam suas próprias composições, como Deu pra ti, Estrela, Estrela, Artigo 5º, Amora, Vira Virou e Deixando o pago.

Os ingressos estão disponíveis a partir de R$ 120 (meia- entrada), R$ 130 (solidário) e R$ 240 (inteiro), via plataforma Sympla, com taxas. _

Teatro

Versão moderna de clássico infantil

? Está em cartaz no domingo, às 19h, o espetáculo Alice no País das Maravilhas no Teatro de Câmara Túlio Piva (Rua da República, 575), na Capital. A adaptação é do Ciaquê Centro de Sapateado, escola e produtora especializado em sapateado. Ingressos a R$ 70 (meia-entrada) e R$ 140 (inteiro), via plataforma Sympla, com taxas. _

Evento - Roda de samba ao pôr do sol

? A Fundação Iberê (Av. Padre Cacique, 2.000) e o Café Iberê, na Capital, celebram o fim de 2025 com uma roda de samba ao pôr do sol neste domingo, a partir das 17h30min. Quem comanda a apresentação é a cantora Rê Adegas, com um repertório dedicado a grandes nomes do samba, como Cartola, Dona Ivone Lara e Jorge Aragão. Entrada franca. 

sábado, 22 de novembro de 2025


22 de Novembro de 2025
DRAUZIO VARELLA

O STF e os aditivos saborizantes no cigarro

Misturar ao fumo produtos químicos com gosto de chocolate, sorvete de creme, framboesa e outros sabores ao gosto da criançada é perversidade inominável. Lidar com vendedores de drogas ilícitas é tarefa complexa, como demonstraram os acontecimentos recentes no Rio de Janeiro. Enquanto houver dependentes químicos dispostos a qualquer sacrifício para comprá-las, existirão traficantes decididos a correr riscos para vendê-las.

O mesmo acontece no comércio das drogas lícitas. O caso dos vendedores de nicotina, droga causadora de uma das dependências mais avassaladoras, é semelhante. A diferença é que os primeiros ficam sujeitos à repressão policial e às masmorras que chamamos de presídios, em nosso país, enquanto os outros podem andar de terno e gravata e fazer propaganda com liberalidade, para viciar nossas crianças e adolescentes.

Quando fiz 17 anos, acendi o primeiro cigarro e cai nas garras dos fornecedores, dependência química que me subjugou por 19 anos, no ritmo de um maço por dia.

Por ridículo que possa parecer, naquele tempo começávamos a fumar sem saber sequer que fazia mal. Éramos estúpidos? Talvez, mas a indústria tabaqueira é quem dava as cartas nos meios de comunicação de massa. Pobre do jornal, da revista, da estação de rádio ou de TV que ousasse publicar ou levar ao ar uma notícia ou entrevista que explicasse a relação causal entre fumo, câncer, ataques cardíacos, AVCs e outras doenças graves. A insubordinação era punida com o corte imediato das verbas publicitárias.

A peso de ouro, as propagandas exibiam mulheres encantadoras em poses sensuais, jovens praticando esportes e homens na maturidade em iates ou cavalgando corcéis fogosos. As marcas eram associadas ao sucesso, à liberdade, à força física e à saúde. Graças a essa estratégia perversa, viciaram em nicotina milhões de crianças e adolescentes em nosso país. Cerca de 90% dos usuários tinham menos de 18 anos (proporção que se mantém até hoje). Não é à toa que a Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o tabagismo como doença pediátrica.

Em combinação com essas armadilhas, os fabricantes implantaram a estratégia de acrescentar aditivos ao fumo, para disfarçar o sabor aversivo da fumaça. Misturar ao fumo produtos químicos com gosto de chocolate, sorvete de creme, framboesa e outros sabores ao gosto da criançada - além do mentol para trazer sensação de frescor à garganta irritada pela fumaça - é perversidade inominável.

As quantidades desses aditivos em cada cigarro são altas. Faltam estudos para avaliar os subprodutos resultantes de sua combustão. Alguns deles têm atividade carcinogênica documentada em sistemas experimentais. Certamente, fumar cigarros com aditivos é ainda mais perigoso.

Em 2012, com base numa infinidade de evidências científicas, a Anvisa proibiu o uso de saborizantes nos produtos de tabaco. Desde então, a aplicação dessa norma da agência tem sido adiada por conta de ações judiciais movidas pela indústria do fumo e seus asseclas. Atualmente, mais de 40 delas tramitam na Justiça, numa demonstração clara da participação dos fabricantes. A consequência do esforço para impedir que a norma da Anvisa seja obedecida foi o registro de mais de 1,1 mil produtos de tabaco com aditivos para serem comercializados no mercado brasileiro.

Esse absurdo foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF), instância em que o ministro Cristiano Zanin pediu vistas do processo, há alguns meses. Como o prazo para a devolução está para se esgotar, o julgamento será retomado.

Duvido que haja uma só leitora ou leitor da coluna de hoje que aprove um crime desses, cometido contra nossas crianças e nossos adolescentes com a única finalidade de torná-los dependentes químicos de uma droga legalizada que lhes trará sofrimentos pelo resto da vida e morte precoce. Os estudos mostram que o cigarro encurta em média 10 anos a vida de uma mulher, e 12 anos a de um homem.

Em 37 anos de convívio com usuários de crack nas cadeias de São Paulo, aprendi que é mais difícil largar do cigarro do que do crack. Em 50 anos tratando de pacientes com câncer, cansei de ver gente esclarecida morrer sem conseguir se livrar dessa praga. Como ex-fumante, experimentei na pele o desespero que a abstinência de nicotina provoca no dependente.

A indústria do fumo comete crimes continuados contra a saúde pública há pelo menos um século. Caberá aos ministros do Supremo decidir se vão dar cobertura a mais este. 

DRAUZIO VARELLA

22 de Novembro de 2025
J.J. CAMARGO

A figura do cuidador

Um dos pilares no trabalho de um médico é o acolhimento explícito, que gera a certeza da permanência como derradeira retaguarda. "Às vezes, o maior ato médico é simplesmente não ir embora." (Luke Fildes)

A futilidade das relações pessoais pode se expressar de várias maneiras. Em nenhuma situação ela é tão danosa como quando um dos envolvidos está fragilizado. A Maria Amélia provou um modelo cruel porque, além do descaso, ainda viveu uma terrível reversão de expectativa. E a mim sobrou a má sorte de ter indicado o algoz do seu ingênuo entusiasmo.

- Na semana passada, com uma crise de dor que não passava, estive no consultório três vezes, e ele foi um amor. Até que chegou a sexta-feira! - disse ela. - Depois de uma pausa para recompor fôlego e ânimo, ela completou: - Insegura pela demora em superar a crise, e assustada pela proximidade do fim de semana, perguntei: o senhor poderia fazer o favor de me dar o número do seu celular para alguma emergência? Ele mudou o tom de voz e, irritado, me disse: "Crises fora de hora se tratam em emergências. Que aliás, existem para isso!".

Dei um tempo em silêncio e esperei que ela anunciasse que tinha terminado o desabafo. Não tinha. Ela ainda estava com a indignação a meio pescoço:

- Enquanto aparentemente escrevia o endereço da tal emergência, ele conseguiu ser mais cruel quando disse com ar de deboche: "Quem sabe a senhora trata de melhorar para não precisar mais de nenhuma consulta?". Levantei, girei nos calcanhares e fui embora, furiosa.

O comentário final mostrou que ao menos o senso de humor estava de volta, intacto: - Caminhando a passos largos a caminho de casa, descobri que a raiva aumenta muito a força das minhas pernas.

Não tendo justificativa possível, me limitei a ouvir, esta que é última atitude solidária diante do absurdo. Tudo mais que se dissesse perdera o sentido, porque aquele olhar afiado de "esse tipo nunca mais" estava sacramentado pela violação de um dos pilares do cuidado do outro, que só completa se for incondicional: o acolhimento explícito, que gera a certeza da permanência como derradeira retaguarda.

E o cotidiano está repleto desses exemplos didáticos, em que a presença do cuidador é essencial e inadiável. Com mais ou menos glamour, mas com o mesmo significado para os envolvidos, isso ocorreu no naufrágio do Titanic com o comandante priorizando a saída dos passageiros, ou no pouso do avião avariado no Rio Hudson em Nova York, ou, bem recentemente, no incêndio bizarro em Porto Alegre de um ônibus lotado de estudantes de Vacaria, em que todos sobreviveram ilesos, porque a fuga foi orientada por um dos meninos com treinamento de bombeiro mirim. E no final da fila estava ela, a guardiã natural dos nossos filhotes, e última a sair: a professora, anônima, indefectível e silenciosa.

Sem crachá, muitas vezes fica difícil identificar esses invisíveis que circulam por aí, sem alarde, saciados pelo fascínio de cuidar do outro. 

J.J. CAMARGO

Foco

Parece coreografia de piscina de resort. Todos para a direita, todos para a esquerda. Mãos para o alto, balança a cintura, dobra a perna. O Congresso tem vivido dias de dançar conforme a música tocada nas redes sociais. Na tentativa de responder a tudo, apressa debates e, muitas vezes, os abandona com a mesma rapidez com que um story desaparece do Instagram.

Quando o youtuber Felca escancarou o que muitos se recusavam a enxergar, o holofote ficou por semanas sobre a adultização de crianças e adolescentes. O tema, antes empurrado na fila, virou pauta urgente. Projeto votado, aprovado e transformado em lei para proteger menores no ambiente digital. É positivo tirar assuntos relevantes da gaveta, mas também revela que foi preciso um maestro externo para que a priorização acontecesse.

A operação da Polícia Federal que expôs a roubalheira comandada de dentro do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) nos últimos anos exigiu que governo e Congresso corressem atrás de informações e até de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Neste mesmo ano, a fila do INSS chegou ao maior patamar. O esforço para conter a corrupção acabou travando ainda mais a razão de existir do órgão, que há tempos não atende a população como deveria.

O vento também soprou forte sobre outro assunto urgente. Só depois de uma megaoperação policial no Rio de Janeiro contra o Comando Vermelho, com mais de uma centena de mortos e outra de presos, o Congresso voltou a olhar para o endurecimento de penas contra facções criminosas. Foi preciso o choque das imagens e dos números para que o projeto, parado havia meses, voltasse a andar. Por outro lado, as fraudes do Banco Master e do BRB, mostradas nessa semana, ainda não geraram essa reação dos parlamentares brasileiros.

Mesmo assim, prefiro olhar o lado bom. Talvez Brasília esteja finalmente ouvindo e enxergando o que acontece fora do mundo mágico dos privilégios próprios. O Brasil precisa de uma agenda estratégica, que mire o que é prioridade agora e também o que será fundamental nos próximos anos. É necessário escutar o que a população quer e precisa, e não apenas o que viraliza no calor do momento. Não são debates de três minutos nem vídeos com milhões de visualizações que vão fazer o futuro do nosso país.

Sabemos que 2026 terá pauta única. A eleição para Câmara, Senado, Presidência, Assembleias e governos estaduais vai tomar conta de todo o debate nacional. Até lá, o desafio é que os passos dessa dança não sigam apenas o ritmo da internet, mas o ritmo real do país. _

ANDRESSA XAVIER 


22 de Novembro de 2025
EUGÊNIO ESBER

Washington, temos um problema

O relator do projeto de lei antifacção, aprovado nesta semana por ampla margem de votos na Câmara dos Deputados, não ousou enquadrar multinacionais do crime, como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, como "organizações terroristas". Não foi por falta de convicção do deputado Guilherme Derrite (PP-SP), e sim porque o consórcio STF-PT é terminantemente contra, alegando - acredite se quiser - risco à soberania brasileira. A Argentina e o Paraguai, em exemplo que deve ser seguido por outras nações vizinhas, não tiveram esse receio. 

Logo que a polícia do Rio travou um confronto armado com o Comando Vermelho, que eliminou 117 e prendeu outros 121 bandidos que depuseram seus fuzis de guerra, os presidentes Santiago Peña e Javier Milei anunciaram medidas que consideram o PCC e o CV aquilo que de fato são - organizações terroristas. Com isso, reforçam medidas de controle na fronteira com o Brasil e dizem ao mundo livre que têm real interesse em contar com a cooperação internacional para não se tornarem narcoestados como a Venezuela, hoje cercada por uma impressionante força militar que recebeu de Donald Trump a missão de desalojar do poder "El Súper Bigote" Nicolás Maduro, presidente ilegítimo do país e apontado por Washington como chefe do Cartel de los Soles.

O projeto de Derrite traz avanços inegáveis para o combate aos faccionados e, principalmente, aos seus líderes, imputando-lhes um novo tipo de crime, o "domínio social estruturado". É quando a facção controla um território e impõe suas próprias regras à população local. Um quarto da população brasileira já vive sob a lei do crime e do seu bárbaro tribunal, e surpreende que só agora, meio século depois da tomada dos morros do Rio pelo tráfico e a expansão deste Estado paralelo para outros Estados e países, a lei brasileira trate objetivamente deste câncer. 

O projeto antifacção barra as saidinhas e a progressão para o regime semiaberto, isola os líderes, impõe penas de até 66 anos, monitora conversas dos presos com seus advogados, acaba com visitas íntimas e extingue o pagamento de auxílio-reclusão.

O texto deve ser desidratado no Senado, submisso a Lula. Ele próprio, no momento da sanção, poderá mutilar mais algumas partes do projeto; e, mesmo que o Congresso derrube seus vetos, restará o STF, hoje uma espécie de petismo de toga. Alguma esperança? Sim. Da Justiça dos EUA, que neste momento ouve a confissão de traficantes dos cartéis venezuelano e mexicano sobre suas conexões. Washington, que já registra a presença do CV e do PCC em boa parte do território norte-americano, virá atrás dos narcoterroristas e dos seus poderosos patrocinadores, onde quer que se abriguem.

Lá, o crime não compensa. _

EUGÊNIO ESBER

22 de Novembro de 2025
MARCELO RECH

Master escândalo no ar

Prepara a pipoca que a nova novela do Brasil real já começou. Será difícil bater uma campeã de audiência como a Lava-Jato, mas o fuzuê no Banco Master tem todos os ingredientes para despertar uma torrente de emoções capaz de reviver alguns dos melhores momentos do mar de lama que volta e meia sacode a política nacional.

Primeiro, o flagra no Master tem como personagem central um vilão clássico de Hollywood: Daniel Vorcaro, o herdeiro ganancioso que não mede atitudes para a escalada social. De jogada em jogada, ele se torna, aos 42 anos, protagonista do disputado teatro de escândalos nacionais. No passado, o papel já foi desempenhado por Marcelo Odebrecht e Eike Batista, ambos com larga experiência em celas da Polícia Federal e que hoje levam vidas discretas.

Vorcaro, não. Sua rotina de exuberâncias pode ser reconstituída aqui e ali pelas redes sociais. Em 2023, no auge da ostentação novo-riquista, ele consumiu R$ 15 milhões na festa de 15 anos da filha, em Nova Lima, perto de Belo Horizonte. Segundo jornais locais, Vorcaro pavimentou um quilômetro de rua até a mansão onde se esbaldaram 500 convidados. Para não se incomodar com os vizinhos, o nosso filantropo reservou para eles suítes em hotéis cinco estrelas de BH durante o fim de semana.

A vida pessoal de Vorcaro preencheria muitos capítulos. Suas festas, como a de um camarote na Marquês de Sapucaí neste ano, e os investimentos particulares, como o prédio do Hotel Fasano Itaim, em São Paulo, e um pedação do Atlético Mineiro, renderiam boas cenas, mas o lado pessoa física não é o eixo do script. Embora o deslumbramento de Daniel com a súbita fortuna produza narizes torcidos em banqueiros que sabem o valor do recato, a pimenta que interessa ao país é como as conexões políticas de Vorcaro postergaram a manutenção do castelo de cartas que ele havia construído.

À esquerda, à direita e ao centro, personagens políticos se revezam na proximidade com Vorcaro e seus interesses econômicos. Nesta sinopse, não cabem os nomes e as circunstâncias em que desfilarão nomes estrelados do mundo jurídico, político e empresarial ao longo do roteiro que se desenha. Alguns terão de dar muitas explicações, como o BRB e o governo do Distrito Federal, que o controla, bem como o fundo de pensão dos servidores do Rio, o RioPrevidência, e o governador Claudio Castro.

Um queria porque queria meter o pé na jaca do Master e foi barrado pelo Banco Central. O outro enfiou ali R$ 2,6 bilhões do dinheirinho dos servidores, dos quais um terço quando o banco já resfolegava. Ah, e a cena de Daniel Vorcaro sendo preso em Guarulhos prestes a embarcar em um dos seus três jatinhos terá de ser cortada. É plágio do final de Vale Tudo. Nem tudo vale. _

MARCELO RECH

22 de Novembro de 2025
PANORAMA NO RS

PANORAMA NO RS

Informalidade no Estado já atinge 1,8 milhão de trabalhadores

No Rio Grande do Sul, o desemprego atingiu o menor patamar dos últimos 13 anos. Por outro lado, atuação sem registro permanece no mesmo nível há quase uma década, cerca de 31,2% da população. Especialista aponta falta de orientação sobre processo de formalização

Em meio às movimentadas ruas de Porto Alegre, o motorista de aplicativos André Luis Silva do Nascimento, 33 anos, enfrentou um acidente de trânsito. Foi esse fato que o fez refletir sobre o desamparo da informalidade.

Há dois anos sem carteira assinada, ele encontrou nas entregas uma forma de manter as contas em dia. Entretanto, o trabalho sem registro não lhe garante acesso a benefícios sociais nem à aposentadoria por tempo de contribuição. A realidade vivida por André reflete o que enfrentam 1,8 milhão de gaúchos que atuam na informalidade.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados no segundo trimestre de 2025, o desemprego no Rio Grande do Sul atingiu a menor taxa dos últimos 13 anos. Por outro lado, a taxa de informalidade permanece estável há quase uma década, cerca de 31,2% da população.

De acordo com Walter Rodrigues, coordenador da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua) no Rio Grande do Sul, o número de pessoas sendo contratadas vem aumentando, o que ajuda a reduzir o desemprego. Porém, esse crescimento não acontece de forma similar em todos os setores da economia.

- Nós temos ramos da economia, como a indústria, por exemplo, onde há uma maior formalidade, mas cresce menos do que outros ramos. Já comércio e serviços têm um crescimento maior de emprego, porém a formalização é menor, enquanto a informalidade é maior. Então, os setores da economia que mais crescem são justamente aqueles onde há maior informalidade - pontua o pesquisador do IBGE.

Por isso, mesmo com a queda do desemprego, a informalidade diminui lentamente. No RS, por exemplo, 266 mil pessoas seguem desempregadas.

Reflexos

Logo após ser demitido, André começou a trabalhar 12 horas por dia como motoboy, atuando com aplicativos de entrega para sustentar a família. Sua esposa também estava desempregada.

A partir do acidente de moto, ele não teve apenas um choque físico, também sofreu um impacto psicológico. Então, reparou que deveria regularizar sua situação profissional:

- Quando sofri o acidente, me deu um estalo. Se eu me acidentar, eu não vou ter ali um recurso, algum valor, até eu poder voltar a trabalhar. Nosso serviço é perigoso, o risco de não voltar para casa é diário.

Na sua visão, parte dos trabalhadores informais não conhece ou não tem acesso a informações que os auxiliem a sair da informalidade.

O mesmo pensa a professora de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Wendy Carraro:

- Microempreendedor Individual (MEI), por exemplo, veio como uma forma de se apoiar um empreendedor, uma pessoa que trabalha de forma informal, mas tem uma "formalização". A gente pode ter mais orientações sobre isso. Precisamos educar melhor as pessoas. A informalidade acaba causando uma certa insegurança. Ao formalizar, mesmo como MEI, a pessoa tem pelo menos uma segurança.

André afirma que só conseguiu entender como se organizar financeiramente após alguns meses, já que sua renda não era mais mensal, e sim, diária.

- Essa é uma das maiores barreiras iniciais, porque tu acaba pegando dinheiro todos os dias. Tu tens que saber administrar aquele dinheiro, saber juntar, guardar, para poder pagar uma conta, uma conta maior. Foi um desafio bem grande pra mim e só agora eu estou conseguindo me organizar melhor - reflete. _

Esta reportagem foi produzida por Madu Ferreira, aluna de Jornalismo na PUCRS, que está entre os 5 vencedores da edição 2025 do projeto Primeira Pauta RBS

Economia para equilibrar as contas

Cleyton Oliveira dos Santos, 36 anos, encontrou nas sinaleiras uma forma de sustento, após ser demitido de um emprego na área da saúde. Já são mais de seis anos trabalhando como vendedor ambulante em um cruzamento da Capital.

Seu primeiro produto foi a paçoquinha. Hoje, as opções aumentaram e vão desde água mineral até aromatizantes de carro. Ele chega ao semáforo das avenidas Borges de Medeiros e Ipiranga às 6h30min e, às 10h, segue para a segunda jornada: entregador de delivery.

Nesta área, atua há um ano, quando ampliou sua jornada buscando investir no sonho de montar o próprio negócio em um ponto comercial. Técnico em Administração, Cleyton afirma que sempre soube controlar suas despesas e que, para tirar férias, o segredo é saber equilibrar:

- Eu tiro um mês. O segredo do empreendedorismo é você saber controlar o salário. Eu tenho uma logística em cima disso, sou um cara super econômico. Procuro sempre me equilibrar - conclui, enquanto espera o sinal fechar para seguir com as vendas.

Apesar da flexibilidade, da renda mais alta do que o salário mínimo e de um paralelo com o empreendedorismo, a informalidade nem sempre gera benefícios para o indivíduo e para o Estado.

Segundo a economista Wendy Carraro, o governo deixa de arrecadar impostos e contribuições previdenciárias que garantiriam direitos básicos e investimentos públicos. Por outro lado, o trabalhador perde a proteção garantida pela CLT, a contribuição ao INSS e o acesso a benefícios que só existem na formalidade.

Ela explica que, muitas vezes, a própria situação econômica leva trabalhadores e empregadores a optarem por esse tipo de vínculo, já que a formalização pode representar custos mais altos. 

quinta-feira, 20 de novembro de 2025


20 de Novembro de 2025
CARPINEJAR

Ladaia?

Não tem quem não fique estarrecido de angústia ao assistir a um rapaz de 29 anos, em surto, ser morto com quatro tiros por soldados da Brigada Militar, na frente de sua família atônita, no bairro Parque Santa Fé, na zona norte de Porto Alegre, em 15 de setembro.

As imagens da câmera corporal de um policial militar são conflitantes com a tese de legítima defesa. Mesmo cumprindo o protocolo de uso diferenciado e progressivo da força, feito da tentativa de diálogo e da aplicação do choque, nada sugere ameaça real para os disparos de arma de fogo.

A vítima, desarmada e vulnerável, tinha esquizofrenia e estava sob efeito de entorpecentes quando enfrentou mais uma de suas crises. Ela se mostrava mais disposta a ser agressiva contra si do que contra os outros. Inclusive provocava, num ato extremo de se ver livre do sofrimento:  Atira em mim, atira em mim. A mãe, Evolmara, não entendeu a truculência, a inversão absoluta do cuidado:

- Eu chamei vocês para ajudar! Ainda mais porque pedir ajuda para a corporação era uma situação recorrente. A mãe relatou que já havia solicitado o auxílio da BM para conter o filho e que não houve qualquer anomalia ou agressão nas ocorrências anteriores.

Técnica de enfermagem, recém acalmara o filho no quarto quando os agentes chegaram gritando e apontando o taser para o abdômen do homem, numa abordagem que não condiz com a frágil saúde mental do envolvido.

Eu ouvi seu depoimento completamente marejado no programa Gaúcha Entrevista:

- Eles dois envergonham a corporação e o Estado do Rio Grande do Sul. Respeito todos os demais profissionais, mas esses dois são assassinos do meu filho. No fatídico dia, a família realizou 21 chamadas para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), sem ambulância disponível no momento, e para a Brigada, que apareceu primeiro.

O contexto indicava a necessidade de acompanhamento por um psiquiatra ou por um médico, não de confronto com força física e imposição imediata para o suspeito se entregar.

O jovem não contava com noção do entorno, não dispunha de discernimento para captar e acatar as ordens, numa realidade paralela de distorção. Nem todas as abordagens são de combate à violência. Ninguém na cena estava em perigo, a não ser aquele ser adoecido, carente de amparo e acolhimento.

Ele queria abrigo, paz, normalidade. Seus parentes confiaram na segurança pública. Mas a equipe parecia precisar tanto de internação quanto a vítima. A grandeza da Brigada Militar não pode ser reduzida a essa intervenção.

A conversa final entre os agentes, rindo de volta ao batente, torna tudo mais chocante, com a banalização de um óbito incompreensível, injusto. - Não tinha o que fazer. - A gente só atende ocorrência ladaia, eu sou para-raio de ladaia.

Tinha o que fazer, e o mínimo não foi feito. 

CARPINEJAR

20 de Novembro de 2025
OPINIÃO RBS

Justiça não é desforra

Aproxima-se um momento que exigirá maturidade das instituições, dos indivíduos que as constituem e da sociedade brasileira. O Supremo Tribunal Federal (STF) publicou na terça-feira o acórdão da decisão que negou os primeiros recursos do ex-presidente Jair Bolsonaro contra a condenação a 27 anos de prisão por liderar uma tentativa de golpe para reverter o resultado da eleição para o Planalto em 2022. Desta forma, está aberto o prazo para que seus advogados lancem mão dos derradeiros instrumentos de defesa possíveis junto à Corte. 

A expectativa no mundo jurídico, no entanto, é a de que os novos pedidos de esclarecimentos da decisão ou de reanálise do mérito sejam rapidamente analisados e negados pelo ministro Alexandre de Moraes, por considerá-los mera manobra protelatória. Assim, é provável que, nos próximos dias, Moraes determine que Bolsonaro comece a cumprir a sua pena. Conforme a decisão da 1ª Turma do Supremo, em regime fechado.

Compete ao próprio ministro, espécie de inimigo número 1 do bolsonarismo, definir onde o ex-presidente ficará recluso. Espera-se que Moraes decida amparado pela lei e pela sensatez. Isso inclui observar particularidades igualmente previstas nas normas penais, como a condição de saúde, e também a isonomia em relação a outros ex-presidentes condenados e presos. Bolsonaro, hoje em prisão preventiva domiciliar, necessita de cuidados médicos e hospitalares recorrentes.

De qualquer forma, entre as opções especuladas como primeiro destino do ex-presidente estão uma cela em uma ala reservada na Penitenciária da Papuda, a carceragem da PM do Distrito Federal conhecida como Papudinha, um recinto especial na Polícia Federal (PF) ou em um quartel do Exército. Seus defensores vão tentar manter o regime domiciliar.

É dever reforçar que, a despeito de aspectos criticáveis na condução do processo pelo STF, o julgamento teve ampla legitimidade. Provas materiais, testemunhos e a sequência de atos cometidos à luz do dia por Bolsonaro e seus colaboradores por longo período não deixam dúvidas: o país beirou uma ruptura institucional. Com a condenação de Bolsonaro e cúmplices, rompeu-se com o passado de leniência com golpes. Ficou o recado de que o destino do Brasil é a manutenção do Estado democrático de direito. Quem atenta contra a soberania do voto deve ser punido. Mas justiça não é desforra.

Deve-se lembrar o tratamento a outros ex-presidentes. Em 2018, Luiz Inácio Lula da Silva ficou em uma "sala especial" na Superintendência da PF em Curitiba, sem nunca formalizar pedido de domiciliar. Em maio deste ano, após uma semana em uma ala reservada de um presídio em Maceió, Fernando Collor de Mello foi autorizado por Alexandre de Moraes a cumprir pena em prisão domiciliar por sofrer de doenças graves e pela idade avançada (75 anos), razões que asseguraram o benefício em caráter humanitário. 

Na Argentina, a ex-presidente Cristina Kirchner, sentenciada por corrupção, por ter mais de 70 anos obteve o direito de cumprir pena em casa. Bolsonaro, debilitado por problemas crônicos de saúde decorrentes da facada que levou em 2018, cirurgias e outras intervenções, preenche requisito para a prisão domiciliar. Ainda que em sua residência, não deixaria de estar submetido à privação da liberdade. 



20 de Novembro de 2025
GPS DA ECONOMIA - Marta Sfredo

Master já deflagrou mudanças no FGC

A quantidade de compradores de CDBs superfaturados do banco Master levou o aplicativo do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) ao topo do ranking de aplicativos mais baixados por brasileiros na terça-feira. Nas contas do próprio fundo, até 1,6 milhão de aplicadores terão direito a compensação de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ.

Isso significa que o fundo terá de desembolsar R$ 41 bilhões de seu total de patrimônio de R$ 160 bilhões, dos quais R$ 122 bilhões são de recursos líquidos em caixa - todos dados oficiais do FGC. Por isso, o caso Master não é um evento, digamos, regular. Vai consumir 33,6% do volume de dinheiro disponível no instrumento que ajuda a garantir a confiança no sistema financeiro nacional. Esse terço gasto terá de ser recuperado, o que significa um custo a mais no sistema.

Os bancos vão depositar, mas não precisa muito exercício mental para saber para onde vai a conta final: os consumidores de produtos financeiros mais cautelosos vão pagar pela aventura de Daniel Vorcaro como banqueiro. E de seus clientes que apostaram em seus CDBs que pagavam muito acima da média de mercado, mesmo os que foram alertados sobre os riscos envolvidos.

Se é verdade que boa parte dos clientes não tinha a mínima ideia de como o banco pretendia pagar um rendimento tão acima da média, outros tinham consciência de que isso não se sustentaria no tempo. Logo depois do anúncio da venda do Master, o Conselho Monetário Nacional (CMN) ajustou as regras do FGC. As mudanças deveriam valer a partir de 1º de junho de 2026. Com o tranco da movimentação bilionária, podem ser antecipadas.

Risco maior, contribuição maior

O principal objetivo das mudanças é desencorajar práticas agressivas na captação de recursos, caso da promessa de retorno mais alto do que a média do mercado. Na prática, instituições com alta alavancagem - empréstimos acima de 10 vezes o valor de seu patrimônio líquido ajustado - terão de aumentar sua contribuição para o FGC. Hoje, os bancos pagam 0,01% ao mês do total dos depósitos que podem ser protegidos pelo fundo. Quem quiser ter perfil mais arriscado teria taxa duplicada, chamada de "contribuição adicional". _

Compliance zero

A operação da Polícia Federal que envolveu sete mandados de prisão e 25 de busca e apreensão é chamada Compliance Zero. A expressão vem do termo em inglês usado no universo empresarial, não só no financeiro, para designar o conjunto de práticas que garantem o cumprimento de leis, regulamentos, normas éticas e políticas internas. Ao definir os dois alvos - Master e BRB - como zero, a PF indica que era inexistente nos dois bancos.

Em dia de cautela no mercado, o dólar avançou 0,38%, a R$ 5,338. Investidores esperam com ansiedade dados da economia dos EUA que serão liberados hoje, em pleno feriado. Vão fazer preço no Brasil na sexta-feira.

13 produtos exportados do RS aos EUA têm redução de tarifa

A decisão de Donald Trump de suspender a "tarifa recíproca" de 10% só se aplica a 13 produtos exportados do RS para os EUA. Considerando os envios do Brasil todo ao mercado americano, a medida afeta 65 bens. O levantamento é do núcleo de Competitividade, Economia Regional e Internacional da Unisinos, com base em análise preliminar da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Em 2024, as exportações gaúchas desses 13 produtos somaram US$ 43,7 milhões, 2,4% do total enviado pelo Estado para os EUA no ano passado.

Um desses 13 itens, o suco de laranja, ficou livre de qualquer taxa de importação, porque já estava isento do tarifaço aplicado sobre o Brasil. Os outros 12 passaram a ter alíquota total reduzida, mas ainda vão enfrentar taxação de 40%.

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), nos três primeiros meses de tarifaço, as exportações do RS para os EUA caíram 34% em relação ao mesmo período do ano anterior. Essa queda representa perda de US$ 155,6 milhões. _

produto US$ milhões

Carne bovina cong. 22,1

Processados de bovino 17,1

Extratos de café 1,9

Sucos de laranja cong. 1,1

Mate 0,6

Sucos de outros cítricos 0,6

Bebidas não-alcoólicas 0,2

Sementes 0,02

Geleias de frutas 0,01

Chá verde 0,01

Frutas de casca rija 0,005

Chá preto 0,0005

Fécula de mandioca 0,0005

Por que demorou a intervenção do BC?

Depois da liquidação do Master e da prisão de seu proprietário, Daniel Vorcaro, Banco Central (BC) e Polícia Federal (PF) passaram a expor os motivos das duas medidas. Mesmo em um país tristemente habituado a fraudes, essas surpreendem. Uma das mais espantosas é a do "esquema" da fraude que permitiu injeção de R$ 16,5 bilhões de um banco público, o Banco de Brasília (BRB), dos quais R$ 12,2 bilhões foram totalmente sem lastro, conforme a PF.

Nesse caso, segundo a investigação, "sem lastro" significa uma planilha, sem qualquer base real, de operações de crédito consignado inexistentes que o Master teria "vendido" ao BRB em troca dos repasses feitos para dar sobrevida ao banco privado. Essa foi a causa do afastamento, por decisão judicial, do presidente, Paulo Henrique Costa, e do diretor financeiro do banco público, Dario Oswaldo Garcia Júnior. Para deixar claro: os R$ 12 bilhões em operações de crédito não existiam, foram "fabricados" no papel.

A fraude é tão grosseira que fez muitos brasileiros perguntarem por que o BC não tomou antes a decisão de liquidar o Master. Uma das explicações é que, depois de descoberto, o esquema parece tosco, mas estava embrulhado em vários fundos com participação em outros fundos, em cascata. Só começou a ser desvendado quando foi feita a inusitada proposta de compra de um bancão por um banquinho. O BC pediu documentação para justificar a transação e, depois de remover muitas camadas, chegou a essa peça reveladora.

Nos cinco meses que separam o anúncio de venda, em 31 de março, ao veto definitivo do BC para a operação, em 3 de setembro, não houve só abertura técnica de fundos.

- A pressão política foi gigantesca no Banco Central - explicitou ainda na terça-feira o presidente da Associação de Auditores do BC, Thiago Cavalcanti.

Até agora, só se sabe que houve um projeto de lei apresentado em regime de urgência para permitir que diretores do BC fossem demitidos pelo Congresso, como a coluna relatou.

Se o Brasil conhecerá todas as conexões políticas do Master que levaram a esse absurdo legislativo, vai depender muito do liquidante do banco privado. Até agora, não foram quebrados sigilos, nem bancários nem os chamados "telemáticos" - aplicativos de mensagens, telefones. Caso a investigação avance o suficiente, 2026 será um ano eleitoral movimentado. _

GPS DA ECONOMIA

 20 de Novembro de 2025
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Conexões de Vorcaro precisam ser esmiuçadas

O feriadão do Dia da Consciência Negra será de desassossego para os políticos que negociaram com Daniel Vorcaro, o dono do falecido Banco Master, ou que trabalharam para aprovar leis que favorecessem a continuidade das falcatruas. O primeiro com motivos de sobra para perder o sono é o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha. Ele não tem como dizer que não sabia das tramoias feitas pelo Banco Regional de Brasília, o BRB, que só não comprou o Master porque o Banco Central foi responsável e impediu o negócio.

Quando a Polícia Federal (PF) juntar todas as partes do quebra-cabeças se conseguirá entender que interesses levaram a direção do BRB a tentar comprar um banco quebrado, fazendo uma operação fictícia de R$ 12 bilhões. O presidente do banco estadual foi afastado pela Justiça, mas a responsabilidade do governador ainda está sendo apurada.

Outro político que tem motivos para perder o sono é o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, e os gestores do fundo de previdência dos servidores estaduais que resolveram investir no Master um valor superior aos R$ 250 mil garantidos em caso de quebra. Quem arcará com o prejuízo? Não podem ser os servidores do Rio de Janeiro.

A PF ainda terá de dissecar as relações do dono do Master com políticos de diferentes partidos no Congresso. Em agosto do ano passado, o presidente do PP, Ciro Nogueira, defendeu os interesses do Master propondo um aumento na cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por conta. Seria o cúmulo da ingenuidade imaginar que quem fez esse movimento agiu por inspiração divina ou pressentimento de que bancos quebrariam e deixariam clientes endinheirados na mão.

No podcast O Assunto, o jornalista Estevão Taiar, do Valor Econômico, deu as pistas da teia de relações políticas que Vorcaro construiu em Brasília com "amigos" à esquerda e à direita. Na lista de poderosos de quem Vorcaro se aproximou está o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, e o ministro da Casa Civil, Rui Costa, um dos homens mais poderosos do governo Lula. 

Assembleia reconhece atuação em favor da comunidade negra

Durante sessão solene alusiva ao Dia da Consciência Negra, a Assembleia Legislativa realizou ontem a entrega do Troféu Deputado Carlos Santos e do Prêmio Zumbi dos Palmares a personalidades ou entidades com atuação em favor da comunidade negra em diversas áreas.

Na sequência, deputados de diversas bancadas se revezaram na tribuna para falar sobre a importância da data e os desafios da população negra - que, pela primeira vez, conta com uma bancada no Parlamento gaúcho. 

Racha na direita faz Progressistas voltar atenção aos Estados

Ciro está em pé de guerra com a direita desde que travou embate com Eduardo Bolsonaro há algumas semanas.

Apesar de indicar um afastamento do PL, do Republicanos e do Novo, o presidente do PP no RS e pré-candidato a governador, Covatti Filho, está confiante de que o movimento não vai afetar as negociações locais. 

Leite manda revogar sigilo em relação a voos com aeronaves

Filha de Lilian Celiberti terá exposição em Porto Alegre

Atropelo a lei estadual

O projeto aprovado pela Câmara de Porto Alegre que libera as bebidas alcoólicas nos estádios agrada a torcedores, e clubes, mas não tem aval das forças de segurança. Foi por isso que diversas tentativas de revogação da lei estadual não prosperaram. A Assembleia chegou a aprovar um projeto, mas foi vetado. O prefeito Sebastião Melo deveria fazer o mesmo, já que uma lei municipal não pode se sobrepor a uma norma estadual. 

POLÍTICA E PODER