A presença é especialmente forte entre empresários do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo. O Paraná aparece com destaque pela proximidade geográfica e pela integração econômica com o Paraguai. Já Santa Catarina e Rio Grande do Sul, segundo a Cebras-PY, levam ao país vizinho empresas com base industrial consolidada que buscam ampliar a competitividade.
Um exemplo gaúcho é a Be8, empresa do setor de biocombustíveis que mantém operação em La Paloma, no Paraguai. No local, a companhia atua com processamento de soja, produção de farelo e fabricação de biodiesel. De acordo com o vice-presidente de Operações da Be8, Leandro Zat, a decisão de investir no país foi motivada por um conjunto de fatores ligados ao ambiente de negócios.
“O ambiente de negócio do Paraguai foi algo que nos chamou a atenção. Além da carga tributária muito distinta em comparação com o Brasil, o custo de energia elétrica também é um fator bem importante, porque dá uma dimensão sobre a competitividade”, afirma.
Segundo Zat, o custo do megawatt no Brasil fica próximo de US$ 35, enquanto no Paraguai está abaixo de US$ 20. A disponibilidade de energia de base hídrica, a menor burocracia e a agilidade nos processos também pesaram na decisão. Outro ponto citado pelo executivo é a mão de obra jovem: conforme ele, cerca de 60% da força de trabalho paraguaia tem menos de 30 anos.
A operação da Be8 no Paraguai emprega cerca de 90 pessoas. Para Zat, a experiência é positiva. “Nós avaliamos como positivo, por isso acreditamos e temos trabalhado também para fazer novos investimentos no Paraguai”, diz.
Apesar das vantagens, a instalação no país vizinho exige adaptação. O executivo cita como desafios o entendimento da cultura local, da legislação, do sistema tributário e até da língua, já que o Guarani também é idioma oficial no Paraguai.
Karina Ferreira, da Cebras-PY, reforça que muitos empresários chegam imaginando que basta replicar o modelo brasileiro, quando o processo exige planejamento e compreensão do ambiente local. “O principal desafio é compreender que o Paraguai possui sua própria legislação, cultura empresarial e dinâmica de negócios”, afirma.
Para o professor da Escola de Negócios da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs), Gustavo de Moraes, o movimento de empresas brasileiras em direção ao Paraguai deve ser entendido dentro de uma tendência global de deslocamento produtivo em busca de menores custos. Ele cita como exemplos a migração de operações dos Estados Unidos para o México após o Nafta e, mais recentemente, a transferência de empresas da China para países como Vietnã, Indonésia e Bangladesh.
No caso brasileiro, segundo Moraes, o Paraguai se tornou atrativo principalmente pela simplicidade tributária, menor carga fiscal, energia barata, mão de obra de custo mais baixo e maior facilidade regulatória. “O Paraguai não precisou fazer grandes esforços para atrair essas empresas. Em muitos casos, o que ocorre é que o Brasil se tornou mais caro e mais complexo do ponto de vista tributário, regulatório e trabalhista”, avalia.
Conforme o professor, o fenômeno não significa necessariamente o desaparecimento da indústria brasileira, mas um deslocamento de parte da produção. "Em muitos casos, as decisões estratégicas, financeiras e comerciais permanecem no Brasil, enquanto etapas produtivas passam a ser realizadas no Paraguai. O mercado consumidor brasileiro continua sendo central para boa parte dessas companhias", pondera.
Ainda assim, o avanço paraguaio acende um alerta para a competitividade brasileira. "A tendência é de continuidade desse deslocamento se o Brasil não simplificar processos, reduzir burocracias e enfrentar seus custos de conformidade legal e tributária", conclui o professor.
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