sábado, 11 de julho de 2026

11 de Julho de 2026
CARPINEJAR

O primeiro celular, o princípio do vício

Minha casa é um museu. Guardo grande parte dos celulares que usei. Foram tão cúmplices de meus segredos que não me desapeguei deles.

Formam uma fila indiana que vai diminuindo de tamanho, até caberem na palma da mão.

Meu primeiro celular, no final dos anos 1990, era semelhante a um radinho de pilha, com antena. Um trabuco, um tijolão, que não entrava no bolso e precisava ser carregado na cintura. Pesava quase meio quilo.

Quem me via de longe achava que eu estava armado. A bateria não durava nem um dia. O visor monocromático cinza não apresentava nenhum atrativo, como um computador antigo, como um aquário de água suja, sem fotos, sem animações. Exibia apenas números, nomes e menus extremamente simples.

Os botões altos, de borracha, afundavam com um toque mais firme e repetiam as operações.

Mandar mensagens envolvia um trabalho incomensurável de catar milho. Na ausência de WhatsApp, recorríamos ao SMS. Poucos contavam com celular, então o recurso não adiantava. A comunicação se mostrava restrita, basicamente limitada a ligações.

Na época, foi um deslumbramento poder telefonar de um dispositivo móvel, não mais me prendendo à extensão de um fio na parede. Eu me sentia importante, livre, com uma privacidade inédita. Pena que as chamadas caíam com frequência ou sequer se efetuavam. Eu tentava discar várias vezes.

Meu modelo de estreia foi um Motorola, que fechava o teclado com uma tampinha.

Quando ele tocava no restaurante - com um bipe eletrônico desprovido de melodia, um "Briiip? Briiip? Briiip?" agudo, metálico, e uma pequena pausa -, os olhares se voltavam para mim. Virava o alvo da atenção. Desfrutava de um luxo, agora capaz de ser encontrado em qualquer lugar. Experimentava a sensação de estar recebendo uma visita. Jamais recuperarei a mesma alegria com as novidades poderosas da atualidade. Testemunhava a transição do mundo analógico para o digital. Vivia um Big Bang de comportamento, uma revolução anárquica dos hábitos.

O que me incomodava é que tinha me tornado um orelhão. Os amigos me confundiam com um telefone público e pediam emprestado meu xodó para transmitir recados à família. Eu gastava mais pelos outros do que por mim na fatura do mês.

Aos poucos, o celular migrou para versões compactas e com mais tecnologia. No fim da década seguinte, adotei o BlackBerry, fingindo ser um executivo do mercado financeiro. Os e-mails chegavam instantaneamente. Mudei a minha maneira de digitar, num teclado QWERTY completo, mais largo do que o de um celular comum. O desenho abaulado fazia com que o polegar deslizasse rapidamente. Eu não mais olhava para teclar, numa velocidade surpreendente. Mantinha a impressão de que levava o escritório comigo.

Havia uma bolinha central, o trackball, uma minúscula esfera, algo como um mouse invertido, que me permitia controlar a tela e rolar em todas as direções. Se antes eu nadava, passei a navegar. A imersão irreversível, a hipnose da telinha, a compulsão de permanecer on-line começaram exatamente com aquele aparelhinho prateado.

Ele piscava sobre a cabeceira da cama. Piscava durante uma reunião. Piscava no cinema. Piscava enquanto eu realizava as refeições.

O ponto luminoso insaciável inaugurou em mim uma ansiedade esquisita: sempre existia alguém esperando uma resposta. Não conseguia mais me distrair para a vida. Não conseguia mais ficar desconectado.

Fui abduzido, como todos, pelas luzes da virtualidade. Pagamos o preço da conquista com a dependência. 

CARPINEJAR

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