Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes
Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora de produção nacional. A adesão é instantânea, quase inexplicável, numa bariátrica da consciência coletiva.
A aquisição dos medicamentos cresceu 23,2% no primeiro semestre deste ano. Somente no mês de junho, foram comercializadas 368 mil unidades. A pílula azul desbravou o caminho mercadológico para essa onda de procura. Quem diria: o responsável por elevar a libido gerou o rascunho da aceitação pública dos inibidores de apetite. Um para mais, outro para menos.
As canetas de semaglutida e tirzepatida operam na plataforma financeira como o Viagra em 1998: uma explosão de vendas impulsionada por consumidores dispostos a pagar do próprio bolso pelo medicamento, sem nenhuma cobertura de planos de saúde ou subsídio do governo.
Surgiu até uma nova expressão para a magreza súbita: "rosto de Ozempic". Quando o rosto murcha rapidamente. É uma epidemia. Todo mundo possui um conhecido ou familiar que usa um dos remédios.
Eles ajudam a neutralizar a fome porque imitam hormônios do intestino que mandam sinais para o cérebro. Provocam menos vontade de comer, retardam o esvaziamento do estômago e intensificam a sensação de saciedade.
Minha apreensão não é em relação a eles, mas à perigosa automedicação. Não é possível aumentar as doses por bel-prazer, tentando acelerar o processo para fazer bonito em alguma festa ou durante uma viagem.
Tomar remédio por conta é uma temeridade. Pode causar dor abdominal, constipação, diarreia, vômitos, náusea e fadiga, além de consequências adversas que exigem acompanhamento médico.
Agora quem sofre com os efeitos colaterais da disseminação das canetas são os restaurantes. Não sei qual será a sina dos rodízios, em especial churrascarias, pizzarias e galeterias. Banquetes livres estão ameaçados pela contenção da gula.
Não haverá mais sentido para o trânsito de espetos, para a abundância de massas. Perde-se o folclore de abrir o cinto para insistir em mais uma fornada e caber mais um pouco.
Uma pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, realizada com 1.417 estabelecimentos em todo o país, revelou que 61% dos endereços perceberam mudanças no consumo. Caíram drasticamente os pedidos de pratos principais e sobremesas.
Diminuiu, e muito, a quantidade de comida. As taras destinadas a pesar a refeição nos buffets a quilo resultam absolutamente modestas. A porção correspondente a uma só pessoa passou a ser dividida. Existe uma tendência por uma alimentação mais leve.
Ocorreu, também, a debandada considerável de clientes que almoçavam ou jantavam fora. Numa enquete feita pelo banco UBS com pacientes que utilizam medicamentos análogos de GLP-1, constatou-se que um terço deles prefere comer em casa.
Proprietários do setor gastronômico começam a pensar em reduzir as guarnições do serviço à la carte. Para evitar o desperdício. Para frear os gastos.
Apenas espero que não se repita o que aconteceu nos supermercados, com a manutenção dos preços em embalagens menores. Sabão em pó, amaciante e papel higiênico frequentemente apresentam queda de volume por valores semelhantes aos de antigamente. Diversos produtos com 1 litro acabaram achatados para 900 ml, 800 ml ou menos, numa prática chamada de reduflação.
Não mereço que os pratos emagreçam junto. Não tenho culpa. Continuo com a ansiedade da infância. _

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