sábado, 3 de outubro de 2026

03 de Outubro de 2026
MARCELO RECH

Tudo pelo almoço grátis

Depois de acompanhar de perto eleições há 46 anos, me dei conta de que não entendo nada de aritmética primária. Deve ser por isso que não compreendo como muitos candidatos conseguirão, sem revelar o truque mágico, cumprir as promessas de não elevar impostos, reduzir voluntariamente receitas e aumentar despesas, tudo ao mesmo tempo.

Eu supunha que nem na Suíça seria recomendável engordar despesas e ceifar impostos simultaneamente. O que dizer então destes trópicos, onde a União caminha na borda do abismo fiscal e os Estados vivem uma penúria de dar dó? Na minha modesta compreensão, no Brasil de orçamentos públicos esgualepados só haveria duas formas de gastar mais sem contrapartida em mais impostos. A primeira seria uma insólita arrancada no crescimento econômico, uma hipótese que, diante da inércia sobre as causas do travamento, tem chance similar à de enriquecer com o jogo do tigrinho. 

A outra é colocar mais dívida na dívida, que, aliás, é o que vem ocorrendo. Como o governo gasta além da conta e deve cada vez mais, os juros ficam nas alturas, o que, por sua vez, represa o crescimento, em um círculo vicioso que só será quebrado quando houver consecutivos e robustos superávits fiscais.

À exceção de alguns poucos candidatos em andrajos nas pesquisas, ninguém arrisca falar em sacrifícios ou perda de benefícios e privilégios. Nada de novo. Sinceramente, a falta de sinceridade é compreensível. Desviar do assunto quando as candidaturas são cobradas sobre suas magias fiscais é uma demagogia aceita passivamente pela imensa maioria dos eleitores. Eleição após eleição, quer-se acreditar, no Brasil, que existe almoço grátis. O candidato que disser o contrário, bau-baus.

Como o eleitorado vai na linha do me engana que eu gosto, é sintomático que um singular governador a passar a navalha em ano eleitoral não seja político. Ocupante do Palácio Guanabara desde março, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Ricardo Couto de Castro, assumiu a função no vácuo criado pela renúncia do governador Cláudio Castro, da vacância do vice e do impedimento do presidente da Assembleia. 

Dedica-se, desde então, a cancelar contratos estapafúrdios, a fechar secretarias e a demitir funcionários fantasmas e milhares de comissionados inúteis. Com o freio na roubalheira e nos desperdícios, o governador interino pretende economizar R$ 5 bilhões até o fim do ano.

No primeiro semestre, a arrecadação de ICMS do Rio saltou 17,2%, de longe a melhor performance do país. O desembargador fez, sim, a mágica: cortou despesas e elevou receitas, combatendo principalmente a sonegação dos combustíveis. Sua sorte é que não precisa distribuir afagos e nem engabelar os eleitores. 

MARCELO RECH

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