sábado, 12 de julho de 2008



12 de julho de 2008
N° 15660 - Nilson Souza


Boas notícias

Às vezes, parece mesmo que os políticos são todos iguais. Na Romênia, os senadores aprovaram na semana passada uma lei que obriga as estações de rádio e televisão do país a divulgar notícias positivas e negativas em igual proporção.

O autor do projeto disse que seu objetivo é melhorar o clima geral e oferecer ao público a oportunidade de ter uma visão equilibrada da vida cotidiana. Se os fatos mostrarem o contrário, como dizia Nelson Rodrigues, pior para os fatos.

Além da interferência indevida no direito dos cidadãos de conhecer a verdade inteira, por pior que ela seja, os parlamentares do país do Drácula largaram um pepino nas mãos dos jornalistas: encontrar notícias boas em número suficiente para promover o desejado equilíbrio.

Comecemos pela definição mais clássica de notícia, feita por um jornalista americano no início do século 19: "Quando um cachorro morde uma pessoa, isto não é notícia. Mas quando uma pessoa morde um cachorro, isto é notícia". Neste caso, na visão dos senhores parlamentares, tanto a notícia quanto a não-notícia entrariam no lado negativo.

Como contrabalançar? Jornalista não inventa notícia. Pelo menos, não deveria. E as pessoas não querem saber apenas dos acontecimentos normais. Querem conhecer o diferente, o inusitado, o surpreendente.

E fatos positivos com tais ingredientes são raros. Não acho que seja apenas por morbidez que o público consome noticiário sobre tragédias e escândalos. É, muito mais, porque tais fatos mexem com a imaginação e com as emoções das pessoas.

Jornais só com boas notícias já foram tentados muitas vezes, mas sempre acabaram na pior notícia para eles: a falência.

O poeta Affonso Romano de SantAnna, que esteve recentemente por aqui para participar do Fronteiras do Pensamento, conta que na década de 60, quando trabalhava no Diário de Minas, ele e seus colegas de Redação resolveram fazer uma brincadeira de 1º de abril.

Reproduziram a primeira página do jornal na capa do segundo caderno, com desenho igual, mas apenas com boas notícias, todas inventadas:

Descoberta a cura do câncer, Valeriodoce (time mineiro) ganha o Mundial de Clubes etc. Alguns leitores acharam graça, mas vários outros ficaram muito decepcionados quando se deram conta de que tudo não passava de um bem-humorado logro.

As pessoas não gostam de ser enganadas, nem de brincadeira.

Por isso, o melhor e o mais honesto é retratar a realidade exatamente como ela é. Sem disfarces nem imposições. Ao contrário do que pensam os políticos romenos, a tentativa de interferir na vida das pessoas com um decreto autoritário não é uma notícia boa.

sexta-feira, 11 de julho de 2008



11 de julho de 2008
N° 15659 - Liberato Vieira da Cunha


Uma garota na neblina

É raro ver desfilando em meio à paisagem gris de inverno um instante de pura beleza.

Foi o que me aconteceu no último sábado na que é talvez a mais larga avenida de Porto Alegre. O sinal fechou e os carros pararam comportados para assistir à passagem de uma única pedestre.

Era uma garota de uns 20 anos, meio surreal em sua travessia. Vestia roupas coloridas que contrastavam com o cinza da manhã.

Puxava uma dessas pequenas malas dotadas de rodas que se vê muito nos aeroportos. Não tinha pressa.

Cruzou descansada as quatro pistas que se projetavam à minha frente e, quando transpôs o canteiro que separava as pistas opostas, incendiou-se de luz. Uma ponta de sol havia rompido a cerração e pousado nela, revestindo-a de uma extraordinária lindeza.

Quase perdi a respiração ao vê-la assim tão bela, atravessando, perfeita e descuidada, o outro trecho da perimetral. E iluminada seguiu rumo à calçada, que foi quando a perdi. O sinal havia aberto e os carros arrancavam, apressados.

Quem não arrancou fui eu. Isto é, meu carro moveu-se, tomou outras ruas, dobrou esquinas, subiu ladeiras, parou em sinais, mas dentro de mim persistia intacta a claridade da menina em toda a sua formosura.

Percebo que usei a palavra formosura, que soa antiquada como uma serenata antiga, mas não encontro outra para descrever o que presenciei. Aquela garota encantou meu dia e me fez prisioneiro de perguntas sem resposta.

De onde vinha? De uma primeira noite de amor com seu enamorado? Para onde ia? Pegar um avião vermelho que a alçasse sobre as nuvens, lá onde tudo é azul?

O que a tornava tão linda, a ponto de convocar o sol para dentro das névoas de julho? A magia de sua formosura?

Nunca saberei. Sei no entanto o bastante: por um momento desceu a primavera sobre este inverno.

Ótima sexta-feira e um excelente fim de semana

quinta-feira, 10 de julho de 2008





Relato de uma Professora:

Semana passada comprei um produto que custou R$ 1,58. Dei à balconista R$ 2,00 e peguei na minha bolsa 8 centavos, para evitar receber ainda mais moedas.

A balconista pegou o dinheiro e ficou olhando para a máquina registradora, aparentemente sem saber o que fazer.

Tentei explicar que ela tinha que me dar 50 centavos de troco, mas ela não se convenceu e chamou o gerente para ajudá-la. Ficou com lágrimas nos olhos enquanto o gerente tentava explicar e ela aparentemente continuava sem entender. Por que estou contando isso?

Porque me dei conta da evolução do ensino de matemática desde 1950, que foi assim:

1. Ensino de matemática em 1950:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de
produção desse carro de lenha é igual a 4/5 do preço de venda .
Qual é o lucro?

2. Ensino de matemática em 1970:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de
produção desse carro de lenha é igual a 4/5 do preço de venda ou R$ 80,00.
Qual é o lucro?

3. Ensino de matemática em 1980:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de
produção desse carro de lenha é R$ 80,00. Qual é o lucro?

4. Ensino de matemática em 1990:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de
produção desse carro de lenha é R$ 80,00. Escolha a resposta certa, que
indica o lucro:
( )R$ 20,00 ( )R$40,00 ( )R$60,00 ( )R$80,00 ( )R$100,00

5. Ensino de matemática em 2000:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de
produção desse carro de lenha é R$ 80,00. O lucro é de R$ 20,00.
Está certo?
( )SIM ( ) NÃO

6. Ensino de matemática em 2007:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$100,00. O custo de
produção é R$ 80,00. Se você souber ler coloque um X no R$ 20,00.
( )R$ 20,00 ( )R$40,00 ( )R$60,00 ( )R$80,00 ( )R$100,00

Recebido da minha amiga Tania Lyra, que aliás sempre encaminha umas preciosidades - Uma ótima quinta feira para todos nós

quarta-feira, 9 de julho de 2008



09 de julho de 2008
N° 15657 - Martha Medeiros


Sobre alguns beijos

Já deve ter acontecido com você também. É o seguinte: você se considera uma pessoa de cabeça aberta, até que um fato qualquer lhe causa algum desconforto e você não entende: ué, o que está havendo comigo?

Pois aconteceu quando vi a foto da Daniela Mercury beijando uma outra cantora que eu não conhecia, Alline Rosa. O beijo aconteceu durante a gravação de um DVD da banda Cheiro de Amor, em que elas dividiram o palco.

Quando terminaram de cantar uma música juntas, Daniela se ajoelhou em frente a sua anfitriã e em seguida se levantou e tascou-lhe um beijão na boca.

Grande novidade. Muito antes disso, Madonna e Britney Spears fizeram o mesmo, e desde então só vem aumentando a troca de bitocas em público, para deleite dos fotógrafos.

Luiza Brunet com Adriane Galisteu, Adriane Galisteu com Hebe, Hebe com Gil, Gil com Lulu Santos, Lulu Santos com não-sei-quem, e daí? Vou ficar chocadinha agora?

Nunca dei a mínima. Mas o beijo da Daniela Mercury me surpreendeu, e eu fiquei surpreendida por ter me surpreendido. Um momento de entusiasmo sob os holofotes, uma performance corriqueira, um beijo a mais no showbiz, qual a diferença?

Preconceito contra a homossexualidade não era, já cansei de defender o respeito à diversidade sexual, e essa questão nem entrou em pauta, era só uma cena para os flashes, uma brincadeira, nada mais. O que me incomodou, então?

Me incomodou o fato de que eu estou me transformando numa caretona, só pode ser isso. Eu tinha uma idéia de que a Daniela Mercury era uma mulher imune à propagação de factóides.

Sempre admirei pessoas que se preservam, que não se expõem desnecessariamente, que mantém um certo mistério. Santa nostalgia. Isso já não existe.

Há muito que trocamos o sensacional pelo sensacionalismo. Amanhã o João Gilberto poderá dar um beijo na boca do Chico Buarque e isso só provará que o mundo está mais alegre e desestressado. E que eu parei no tempo.

Ainda sobre beijo, agora sob outro aspecto. A Argentina é um país de homens viris. Uma demonstração clara disso é que lá os homens se cumprimentam com um beijo no rosto.

Parentes e amigos se beijam a cada vez que se encontram na rua ou num bar. Eu acho uma imagem bonita de se ver.

Aqui no Brasil esse hábito ainda está engatinhando, mas quando vejo pai e filho se beijando, ou um amigo beijando outro, automaticamente penso: é um homem de classe. Não sei se isso me redime da caretice ou se agora não adianta mais, já sou um caso perdido.

sábado, 5 de julho de 2008



06 de julho de 2008
N° 15654 - Martha Medeiros


Quando menos se espera

Algumas revistas, de vez em quando, resolvem dar uma facilitada para seus leitores e publicam matérias revelando qual é o melhor lugar para paquerar, assim como o melhor horário e os melhores alvos. "Onde, quando e quem", tudo de mão beijada para quem está à procura de um amor.

Não custa fazer o teste. Vá até o bar sugerido, na hora em que estiver mais lotado, e selecione seu objetivo conforme orientação da revista: alguém com determinada idade, modo de vestir, jeito de segurar o copo, tudo como foi indicado. Encontrou?

Agora espere o garçom acordá-la e avisar que o bar está fechando, baby. Você pegou no sono e não aconteceu na-da.

Não estou fazendo pouco da sua solidão, eu bem que estava torcendo por você, mas a maldita experiência ensina: quando a ansiedade é grande, as chances são mínimas.

Portanto, dê um tempo para as dicas dos outros e arrisque seguir as minhas. Pois é, eu também sei palpitar sobre o "onde, quando e quem". Principalmente quando estou sem assunto.

Onde menos se espera. É esse o lugar. Não é preciso fornecer endereço, bairro, CEP, até porque você não tem que ir a lugar algum.

Onde menos se espera pode ser exatamente aí onde você está. Na fila do banco, numa farmácia, dentro da igreja, na ante-sala de um consultório, numa reunião de condomínio, na parada de ônibus, numa clínica veterinária, até mesmo dentro da sua própria casa. Juro, o amor pode bater à porta, conheço casos.

Por exemplo, você está esperando um eletricista e, de repente, o eletricista vem acompanhado do arquiteto responsável pela obra. Blim-blom, e seu destino está traçado. O que nos leva ao parágrafo seguinte.

Quando menos se espera. É este o melhor horário. Mas há riscos. Digamos que o arquiteto bateu à porta quando você havia se programado para passar o dia trabalhando em casa, e, portanto, estava parecendo um molambo. Sabe o que é um molambo? Um pedaço de pano velho.

Você escolheu pra vestir a coisa mais medonha e surrada que encontrou no armário e deixou para lavar o cabelo só no dia seguinte, quando pretendia ir a um bar procurar um amor e aquela coisa toda.

A gente nunca sabe quando vai ser nosso dia de sorte, mas pode ter certeza de que ele não será anunciado com antecedência.

Por isso, é bom estar sempre arrumadinha, mesmo que seja para descer até à garagem do prédio para buscar o celular que você esqueceu dentro do carro. Sabe como é, entre o seu apartamento e a garagem existe algo chamado elevador. Humm.

Por fim, quem! Quem menos se espera. Você fica de olho no dono da festa, mas é o pai dele - mais charmoso que o filho, aliás - que vem perguntar se você usa o MSN. Você encasqueta de querer ser mulher de jogador de futebol e cai um professor de literatura na sua rede.

Você cumprimenta, toda alegrinha, o sujeito que cruza diariamente com você nas suas caminhadas de sábado, mas é o cara barrigudinho que lava o carro ali por perto que costuma avaliá-la com olhos mais atentos. Pode não ser animador, mas assim é a vida: você mira no plano A, mas é sempre o plano B que vinga.

Conclusão? Deixe de ser óbvia e tire os olhos do arquiteto. O eletricista é que é um homão, trabalha no que gosta, lê nas horas de folga, está solteiro e com a agenda lotada - ou você ainda não confia na ascensão dos prestadores de serviço?

O arquiteto está matando cachorro a grito e ainda vai te pedir um troco pro ônibus.

Diogo Mainardi

O país do Zé Pretinho

"O lulismo se especializou em surrupiar as glórias nacionais. Agora está tentando surrupiar a principal delas: o nosso longo histórico de alegre e sincera subalternidade.

É bom lembrar: nós já éramos obstinadamente servis antes de Lula, e permaneceremos assim depois dele" Lula - ?

É isso que consta na lista de pagamentos do empreiteiro Zuleido Veras, dono da Gautama, preso no ano passado. O nome de Roseana Sarney, que também faz parte da lista, é seguido por um número: 200 000. O nome do tio de Roseana, o "Gaguinho", é seguido por outro número, bem mais modesto: 30 000. E Lula?

Lula, no momento em que a lista foi feita, no começo da última campanha eleitoral, ainda era um ponto a ser respondido. Um ponto particularmente importante, sublinhado.

Ninguém sabe se Lula acabou recebendo algum número da Gautama. Pior: ninguém se interessou em saber.

Duas semanas atrás, VEJA reproduziu a lista de pagamentos do empreiteiro, que está em poder da PF, contendo o nome de Lula. O resto da imprensa ignorou o assunto. O Congresso Nacional ignorou o assunto. Os leitores ignoraram o assunto.

A idéia de que é perfeitamente inútil continuar a denunciar Lula se alastrou por aí. Leio uns dez blogueiros amargurados por dia dizendo que ele é imune a tudo.

Que o Brasil está rendido. Que está entorpecido. Que está em coma. Na falta de outros argumentos, esse acabou se transformando também no maior fator de orgulho para os lulistas.

Eles sempre se gabam do fato de Lula conseguir manter-se imensamente popular a despeito de todas as ilegalidades de que é acusado. Mas esse é um grande embuste. E eu me recuso a aceitá-lo.

O lulismo se especializou em surrupiar as glórias nacionais. Agora está tentando surrupiar a principal delas: o nosso longo histórico de alegre e sincera subalternidade.

É bom lembrar: nós já éramos obstinadamente servis antes de Lula, e permaneceremos assim depois dele.

Quem Lula pensa que é? Em 1937, Getúlio Vargas deu seu golpe de estado. Poucos meses depois, os sambistas se acotovelavam para determinar quem conseguia lamber as botas do ditador de maneira mais degradante:

Surgiu Getúlio Vargas,
O presidente brasileiro,
Que entre seus filhos
Como um herói foi o primeiro.

Essa marchinha foi composta por Zé Pretinho. Encontrei-a na página da internet do ministro da Propaganda de Lula, Franklin Martins, um dos maiores estudiosos do nosso cancioneiro político.

É muito apropriado que, nestes últimos anos, Franklin Martins tenha se tornado um símbolo do adesismo da imprensa lulista, um Zé Pretinho do jornalismo.

Recomendo uma atenta consulta à sua página. Há desde a ode à Petrobras ("Brasil, meu Brasil / Vais crescer ainda mais / Com a Petrobras") até a embolada em defesa da prática do nepotismo ("O meu irmão / Pru sê um moço de talento / Punha no Saninhamento"), que deve ser especialmente estimada por Franklin Martins.

Quando algum lulista vier importuná-lo ostentando a popularidade de Lula, pegue o bandolim e entoe o sambinha getulista:

Brasil, meu Brasil de verde mar,
Gigante que desperta de um sono secular.
Brasil, orgulho do brasileiro,
Tens no leme do teu barco
Um herói por timoneiro.

Ponto de vista: Lya Luft

Três destinos femininos

"Neste país, a fronteira entre justo e injusto, verdadeiro e falso, correto e maldoso precisa ser urgentemente restabelecida"

Ayaan Hirsi Ali, uma jovem política e escritora somaliana, naturalizada holandesa e residente nos Estados Unidos, disse numa palestra que "as verdadeiras fronteiras são as do pensamento". Referia-se a toda sorte de discriminação e preconceito que tanta violência e desgraça geram.

Vitimada desde criança por um fanatismo brutal, destinada a casar com um homem que não conhecia, conseguiu fugir e acabou uma figura admirada no mundo inteiro. Jurada de morte por certos grupos muçulmanos em seu país de origem, ela só pode circular com forte segurança.

Olhei aquela quase-menina tranqüila, mas de olhar profundo e muito atento. Pensei no quanto, por qualquer bobagem, nos fazemos de vítimas, enquanto aquela jovem não apenas sobrevive, mas age e se afirma: sem desejo de vingança e sem o detestável espírito de mártir, que produz o ressentimento mais maligno.

Acabo de emprestar minha voz para o documentário sobre outro fato espantoso, o das Noivas do Cordeiro. Um vilarejo com esse nome, perto de Belo Horizonte, é habitado por algumas famílias – mais mulheres, pois os homens têm de buscar fora o sustento de seus filhos e só vão para casa nos fins de semana. Elas vivem ainda hoje isoladas e discriminadas de uma forma cruel.

Por serem bandidas? Não. Uma antepassada delas foi excomungada pela Igreja há mais de 100 anos, por haver tentado ser um pouco feliz com seu novo companheiro. Como era casada, foi execrada pelos fariseus de plantão. A maldição atingiria quatro gerações de seus descendentes.

Ilustração Atômica Studio

Tiveram muitas filhas, que geraram muitos filhos, com os rapazes que ousaram delas se aproximar.

Fundaram uma comunidade singular em tudo: pela duração desse isolamento e pela dimensão de sua luta para provar que são dignas de respeito e afeto. São mulheres de idade ou bem jovens, saudáveis, cara limpa, sorriso aberto, numa fraternidade e cumplicidade comoventes.

Ali tudo é de todos, todas se ajudam, todas suportam juntas o isolamento e as calúnias. "Cuidado, lá vêm elas!", comenta-se quando chegam a outro povoado ou à capital para alguma compra necessária. T

udo lhes é dificultado: escola, atendimento médico e qualquer direito de cidadania. Os rapazes que com elas se relacionam, quando vão à cidade, são atormentados com insultos do tipo:

"Como se atreve a deixar sua mulher? Todo mundo sabe que elas não prestam. Meu amigo outro dia esteve lá, e foi uma farra".

Nos depoimentos, algumas choraram relatando a dureza dessa situação. Que talvez esteja acabando, pois, com muito trabalho e desejo de progredir, elas conseguiram instalar televisão e começam a conhecer o mundo. Botaram também a internet, outra janela para fora de sua condenação.

Finalmente, elegeram uma vereadora, fundaram uma associação e, após quatro gerações, talvez possam ser olhadas com o respeito que merecem mais do que tantas pessoas daqui de fora. O que vão ganhar na realidade, para além dos limites de seu delicioso e feliz povoado?

Tenho minhas dúvidas sobre as vantagens todas: vão conhecer corrupção e omissão, logro e malogro, frivolidade, violência e competição desleal.

Imagino que seja inevitável libertarem-se da difamação e serem integradas ao mundo. Mas quem sabe seria melhor botar o país inteiro dentro daquele vilarejo, vivendo de maneira simples, limpa, fraterna e feliz?

Não posso encerrar sem mencionar Ruth Cardoso. Uma das pessoas mais discretas e dignas entre nós.

Intelectual respeitada e generosa cuidadora dos desvalidos, que fundou o Comunidade Solidária, verdadeiro berço de iniciativas como o Bolsa Família, apenas com outros contornos – amparar, mas preparando para que os favorecidos logo possam ganhar seu sustento.

Pois essa verdadeira dama, em seus últimos meses, com a saúde frágil, foi achacada por quem pretendia (talvez ainda pretenda) expor suas contas e de seu marido, procurando ali algumas das tão comuns falcatruas atuais.

Neste país, a fronteira entre justo e injusto, verdadeiro e falso, correto e maldoso precisa ser urgentemente restabelecida.

Lya Luft é escritora
A aurora dos cinqüentões

Eles têm experiência e vitalidade.

Em vez de esperarem passivamente pela velhice, criam seus próprios negócios, estudam para manter a mente ativa e enveredar por outra profissão. Também se divertem na intimidade. No Brasil de hoje, o 50 é o novo 40

Quando se trata de desfrutar a vida com as vantagens da maturidade, mas a uma distância ainda segura dos desconfortos da velhice, o 50 é o novo 40.

Ou, dito de outra maneira: a combinação de experiência e vitalidade que até pouco tempo atrás caracterizava os quarentões agora também distingue homens e mulheres que ultrapassaram a barreira dos 50 anos.

A explicação de fundo para isso é, digamos, de saúde pública: as pessoas estão vivendo mais, e envelhecem melhor. As conseqüências da mudança são as mais diversas. Fazem-se sentir no mercado de trabalho, nas universidades, na vida privada.

As próximas páginas mostram que, hoje, cinqüentões trocam de bom grado o pijama de aposentado (ou a perspectiva iminente de vesti-lo) pela ousadia de abrir uma empresa – ou então preenchem vagas de destaque, e muito bem remuneradas, num mercado carente de mão-de-obra qualificada. Seu contingente aumenta nas carteiras do ensino superior, no qual eles são calouros com pinta de veteranos.

E, como não poderia deixar de ser, gente madura que faz ioga, musculação ou corrida, ainda que não exiba as formas extraordinárias da cinqüentona Madonna, fica bem mais à vontade entre quatro paredes.

As reportagens a seguir confirmam, enfim, que um número crescente de pessoas dá valor à bagagem de vida que acumularam. Como disse o satirista inglês P.G. Wodehouse, elas sabem que não existe cura verdadeira para os cabelos grisalhos – e, por isso mesmo, fazem deles o melhor uso possível.

Velhice? fica para mais tarde

Com cuidados estéticos, alimentação saudável e atividade física, quem faz 50 anos (e não parece) adia a hora de envelhecer

Silvia Rogar e Sandra Brasil

Tony Barson/Wireimagem/Getty Images

Old girl, jamais: fanática por exercício físico e empenhada em disfarçar todo e qualquer sinal da idade, Madonna chega ao meio século em pleno palco, pulando, dançando, cantando e se contorcendo de maneira insinuante

No dia 23 de agosto, Madonna estará dançando, pulando e se contorcendo de maneira insinuante em Cardiff, País de Gales, a primeira parada de sua turnê com o novo show, Sticky & Sweet, que vai até o fim de novembro.

Será, a essa altura, uma senhora de 50 anos, idade que completa uma semana antes, no dia 16. Isto mesmo: Madonna, a loira de músculos definidos, magérrima e conservadíssima, é cinqüentona.

Sua figura é produto de uma dose excepcional de disciplina (e de exercícios), mas estar bem na sua idade não tem nada de incomum. Só no mundo dos artistas, onde imagem não é tudo mas chega perto, também acabam de dobrar o cabo dos 50 anos as atrizes Sharon Stone (em março) e Michelle Pfeiffer (em abril), beldades de parar o trânsito em qualquer tapete vermelho.

Ultrapassou a mesma barreira no ano passado a atriz Christiane Torloni, que na novela das 7 da Rede Globo, Beleza Pura, disputa com a própria filha o amor de Guilherme (Edson Celulari, 50 em março).

Como comprovam as contas do dermatologista, da academia e da farmácia, as mulheres precisam se dedicar com afinco à missão de estar bem na metade da vida. Homens, um pouco menos, para a eterna inveja delas.

Como cabelo grisalho e rugas discretas nunca foram impedimento para o sucesso social masculino, permanecem galãs apesar (ou por causa) da idade madura os irresistíveis Pierce Brosnan, um poço de charme aos 55, Richard Gere, inalterável jeitinho carente aos 58, e José Mayer, que, aos 59 e longe de sua melhor forma (por força do papel, ressalte-se), anda aos beijos com Juliana Paes em A Favorita, folhetim das 8 da Globo.

Com ou sem muito esforço, o fato é que a população de meia-idade (termo, por sinal, cada vez mais impopular) envelhece (mais impopular ainda) com muito menos marcas, internas e externas, do que seus pais.

Reginaldo Teixeira
Lalo Yasky/Wireimage/Getty Image




Galã em qualquer situação: Mayer, 59, faz papel de hippie desleixado. Mesmo assim, beija Juliana Paes Quanto mais velho, melhor: Gere, 58, rugas e cabelo branco. E as mulheres ainda querem pôr no colo

Cinqüentões hoje adotam hábitos alimentares mais saudáveis (quem é do grupo e não usa adoçante, inclusive na caipirinha, levante a mão) e põem o corpo para trabalhar, em academias e em treinos de corrida.

"A turma na faixa dos 50 anos foi a que mais cresceu nas nossas escolas. Em 1993, essas pessoas representavam menos de 4% do total. Hoje são 13%", diz Richard Bilton, presidente da Companhia Athletica, a maior rede de academias do Brasil.

Ao cuidarem da forma, os atletas maduros incrementam sua vida social. Em outras palavras: treino físico também é badalação. A corrida é seguida de jantar com os amigos – quando não significa uma viagem em grupo.

Danilo Borges
A vaidade compensa: Christiane, 51, disputa o mesmo homem com a filha (na novela). Deve ganhar

Lailson Santos

Arvorismo nas horas vagas: Flor, 53, e Silva, 55, namoraram, se separaram, se reencontraram, voltaram a namorar, foram morar juntos e vão se casar. "Quero ter saúde para curtir tudo o que pudermos por mais trinta, quarenta anos", diz ela

"Minha mulher não quer saber de correr, mas adora me acompanhar nas viagens", diz o executivo gaúcho Paulo Tonding, 54 anos, corredor há quatro. Tonding aderiu a esse esporte por recomendação médica – era hipertenso e tinha colesterol alto.

"De cada dez pessoas com mais de 50 que nos procuram, oito foram aconselhadas pelo médico a perder peso e praticar atividade física", observa o preparador físico Mario Sergio Andrade Silva, dono da Run&Fun, de São Paulo, onde 11% dos alunos estão nessa faixa de idade.

"Eles são os mais dedicados, porque sabem o que querem", diz Andrade Silva. Tonding, por exemplo, quer acumular medalhas de participação: já tem 83, entre elas as de cinco meias maratonas e as de três maratonas inteiras.

No momento, prepara-se para a maratona de Nova York, em novembro, para onde embarca com a mulher, Jussara, o filho, a filha e namorados. "Eles me aplaudem na chegada e eu ofereço a eles uma semana de turismo", diz.

Inevitavelmente, a boa disposição aos 50 anos produz ondas gigantes no mar dos relacionamentos, como comprovam a explosão de casamentos (mais 113% eles, mais 131% elas) e a de separações (mais 55% no total) nos últimos dez anos (veja o quadro). "É uma mudança que acompanha o aumento da expectativa de vida", diz a psiquiatra Carmita Abdo, da Universidade de São Paulo.

Carmita publicou no ano passado os resultados de uma pesquisa realizada com 10 161 pessoas com idade média de 52 anos. Pois 96,8% dos homens e 77,6% das mulheres se disseram sexualmente ativos nos doze meses anteriores. "Como um cinqüentão não aparenta a idade, nem se sente velho, sua vida afetiva está em aberto.

Ele precisa reinventar continuamente um casamento que ainda vai durar décadas, ou buscar novos caminhos", afirma a psiquiatra. Entre as mulheres, as mudanças são mais notáveis. "Elas estão mais confiantes e confortáveis.

A grande novidade está na palavra ‘opção’. Hoje as mulheres de 50 podem escolher o que querem fazer", diz a psicóloga americana Nancy Etcoff, professora da Universidade Harvard, que coordenou uma pesquisa entre quase 1 500 mulheres de 50 a 64 anos em nove países, inclusive o Brasil, encomendada pela Dove, marca de produtos de higiene e beleza, para identificar a imagem que elas têm de si mesmas. Conclusão: a imagem é positiva, embora morram de medo de engordar.

E elas juram que têm orgulho da idade (veja o quadro).

Lailson Santos
Arvorismo nas horas vagas: Flor, 53, e Silva, 55, namoraram, se separaram, se reencontraram, voltaram a namorar, foram morar juntos e vão se casar. "Quero ter saúde para curtir tudo o que pudermos por mais trinta, quarenta anos", diz ela

Boa forma, boa viagem:

Tonding, 54, treina corrida, coleciona medalhas e se prepara para a maratona de Nova York, para onde vai com a família toda. "Eles me aplaudem na chegada e eu ofereço a eles uma semana de turismo", diz

Exemplo da disposição para encarar mudanças radicais, a paulistana Flor Mascarenhas, maquiadora de filmes publicitários, 53 anos, de bem com a idade ("Não ando mais de minissaia, mas também não me escondo num tailleur"), reencontrou há quatro anos um namorado da adolescência, o analista de sistemas Antônio Carlos da Silva, 55 – ela, sozinha, ele enredado num casamento malsucedido.

Silva se separou, foram morar juntos e neste ano, pela primeira vez, Flor vai se casar no papel. "Casar marcará esse reinício de vida", resume Silva, que com a mulher pratica mergulho e arvorismo nos fins de semana.

"Quero ter saúde para curtir tudo o que pudermos por mais trinta, quarenta anos", diz ela. E assim, pouco a pouco, o caminho já andado se transforma em alvorada de uma longa e profícua segunda metade da vida.




Paulo Moreira Leite e Murilo Ramos

A luta de Meirelles contra a nova inflação

Diante de um cenário global turbulento, o Brasil enfrenta o desafio de conter a alta dos preços sem comprometer as conquistas recentes da economia. Para isso, o BC deverá subir o juro. Mas será que o resto do governo fará sua parte?

Meirelles em seu gabinete, em Brasília. Na prateleira, o artigo de um admirador que o chamou de heróiNo 20º andar do Edifício do Banco Central, onde fica o gabinete do engenheiro Henrique Meirelles, presidente do BC, avista-se uma das mais belas paisagens de Brasília. O cenário combina a arquitetura modernista da cidade com a vegetação original do Cerrado brasileiro – sob um céu de azul magnífico.

Numa das estantes da sala de reuniões, uma pequena moldura guardou para a eternidade a carta de um admirador. O texto é um legítimo troféu de guerra. Mencionando as críticas que a CUT, o PT, o MST e toda a sopa de letras da base do governo fizeram a Henrique Meirelles desde sua posse no Banco Central, um cidadão comum lembrou a contínua prosperidade alcançada pela economia brasileira nos últimos anos para fazer uma confissão.

“Estou perplexo”, escreveu, em agosto de 2007. “Gênio ou louco? Em qualquer dessas opções, (Henrique Meirelles) é o herói da gestão Lula”.

Comandante da taxa de juro, a mais poderosa e rápida arma que o capitalismo inventou para controlar a alta de preços no curto prazo, nos últimos três meses Henrique Meirelles foi colocado diante da primeira ameaça grave que a economia globalizada oferece ao Brasil desde a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Planalto, em janeiro de 2003.

Encerrando uma temporada de ventos favoráveis, mercado em alta e elevação do poder de consumo, a economia mundial enfrenta uma mudança ampla e radical, que já produz reflexos no Brasil.

A alta dos preços preocupa a dona de casa, os assalariados de olho nos empregos e os empresários ocupados em preservar seus investimentos. Nesse ambiente novo e imprevisível, Meirelles tem a missão prioritária de proteger o dinheiro dos brasileiros e impedir o retorno da inflação – mas sem destruir as conquistas recentes da economia.

Num esforço para encarar um desafio que poderá definir o destino do governo Lula em 2010, é possível acompanhar a agenda de Meirelles pelos retratos em seu gabinete no BC. Perto de uma janela, avistam-se fotos da festa junina de 2007, na Granja do Torto. Numa delas, Meirelles dança quadrilha com a primeira-dama Marisa.

Noutra, o presidente Lula, Meirelles e as respectivas mulheres estão sentados num sofá. Inútil perguntar por imagens semelhantes da festa junina de 2008. Não há. Meirelles estava em Lucerna, na Suíça, participando de um seminário sobre as perspectivas cada vez mais ásperas da economia internacional.

"É viável que o Brasil possa costear essa onda. Mas terá de trabalhar" - Paulo Guedes, economista

São encontros demorados e informais, em que os mandarins da globalização trocam impressões, fazem confidências – e se reúnem em momentos de preocupação e perplexidade. Disciplinado e correto, Meirelles não dá entrevistas nem faz revelações sobre tais eventos.

Um dos personagens mais curiosos nessas ocasiões costuma ser o presidente do banco central da Arábia Saudita. Há dois anos ele não consegue fazer uma previsão acertada sobre o preço do oxigênio negro que garante a vida de todos os habitantes de seus país.

Suas estimativas sempre ficam abaixo da realidade. Isso dá uma idéia das incertezas que envolvem o petróleo e afetam desde o transporte de pessoas e mercadorias até a produção de plástico, a indústria e os fertilizantes.

De uns tempos para cá, essas conversas têm sido cada vez mais preocupantes, em relatos que acumulam sinais de turbulência, insegurança e risco em vários pontos do planeta. O número de países com inflação na casa de dois dígitos já não é desprezível.

São 53 nações, que precisam alimentar, abrigar e dar emprego a 3 bilhões de seres humanos. Envolvida por um pântano de créditos artificiais e balanços de ficção, a economia americana arrasta-se como um animal ferido e desorientado, incapaz de emitir sinais seguros de recuperação.

Estimulado pelo apetite dos países asiáticos – a começar pela China – e também pelos programas de etanol e bioenergia dos países desenvolvidos, o preço dos alimentos enfrenta uma situação de superaquecimento que o professor Fernando Homem de Melo, da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo, define como “a maior alta de preços da história do capitalismo”.

"Aqui o problema é de política fiscal. Há tempos esse cenário se desenha" - Gustavo Franco, ex-presidente

do BC“A inflação é um problema que vai concentrar as atenções nos próximos 18 meses em todo o mundo”, diz Paulo Leme, do Goldman Sachs, um dos maiores bancos de investimento do mundo.

É bom entender que, na pura matemática, o Brasil está longe de constituir uma pré-catástrofe. Pelos números atuais, a inflação deverá chegar ao fim do ano no patamar de 6,5% – número ainda dentro da meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional.

A economia cresce na faixa de 5%, um motivo de alegria geral. O problema é o que se vê nas prateleiras de supermercados. Ali, a dança de preços lembra uma situação que o país imaginava pertencer às paginas dos livros de História (leia a reportagem).

Em Natal, no Rio Grande do Norte, a cesta básica já subiu 51,82% em um ano. Em Belo Horizonte, 42,34%. No Rio de Janeiro, 36,25%, e em São Paulo, 30,83%. Só para ter uma idéia do significado desses números.

Um dos orgulhos do atual governo, o salário mínimo, está fixado em R$ 415, patamar mais alto desde sua criação, por Getúlio Vargas. Em 1o de maio, a elevação foi de 9,21% – ou menos de um terço do aumento da cesta básica em São Paulo, menos de um quinto do salto ocorrido em Natal.

A alta dos alimentos não tem origem na economia brasileira. O país produz quase toda a comida que consome, mas a alta no mercado internacional afeta o Brasil do mesmo jeito – pois os preços da exportação passam a ser mais vantajosos, reduzindo a oferta no mercado interno.

“Nesse cenário, é natural que os grandes produtores prefiram exportar para quem paga melhor. E os preços aqui sobem junto”, afirma Roberto Dias, gerente do supermercado Futurama, loja de Pinheiros.


05 de julho de 2008
N° 15653 - Nilson Souza


A máquina do apocalipse

Li uma reportagem sobre o acelerador de partículas que os cientistas pretendem acionar na Suíça antes do final do ano e me veio à cabeça este verso de Jorge Drexler, que nos próximos dias se apresentará em Porto Alegre:

"No somos más/ que una gota de luz,/ una estrella fugaz,/ una chispa, tan solo,/ em la edad del cielo..."

Somos mesmo quase nada diante da grandiosidade do universo, mas somos bem pretensiosos. Agora mesmo, vamos tentar reproduzir na experiência científica referida o momento da criação do mundo, por meio do experimento mais ousado da história da física.

A idéia é recriar, num gigantesco equipamento enterrado no solo europeu, o badalado Big Bang - a explosão inicial que a ciência identifica como origem de tudo o que existe, em contraposição ao criacionismo religioso.

O que buscam os cientistas com o tal acelerador? Um troço inimaginável para qualquer cérebro normal. Uma coisa ínfima conhecida pelos físicos como "Bóson de Higgs", que seria a partícula original da transformação de energia em massa.

Segundo li, o tal bóson, se aparecer, não durará mais do que algumas frações de segundo. Mas será o suficiente para comprovar a teoria científica da criação explosiva do mundo. Os especialistas em átomos estão bem excitados.

Mas já apareceram alguns agourentos para dizer que pode dar tudo errado, que o tal acelerador tende a criar um buraco negro capaz de engolir tudo o que já foi criado.

Ou seja: uma vez acionada a máquina do começo do mundo, produziria o seu fim, seríamos todos sugados para a invisibilidade eterna, levando conosco o planeta inteiro, casas, automóveis, cidades, continentes, a Lua, as estrelas, a galáxia inteira.

Dizem os especialistas que os tais buracos são terríveis e insaciáveis, concentram tamanha força gravitacional que nem a luz lhes escapa. Ou seja, até o final do ano poderemos todos ser condenados a viver para sempre na escuridão.

Vá entender uma maluquice dessas!

Prefiro a teoria romântica de Jorge Drexler. Não somos mais que uma piada de Deus, diz o inspirado cantor uruguaio na sua bela canção Edad del Cielo. Ele certamente vai cantá-la no próximo dia 21, no Teatro do Bourbon Country.

Acho que devemos ir lá, antes que o acelerador do apocalipse seja acionado.

quinta-feira, 3 de julho de 2008



SOBRE A LEI SECA

É incrível como o brasileiro pode ser cínico e duvidar de coisas sagradas.

Por exemplo, da lei. Conheço gente que, embora apoiando a Lei Seca para quem vai dirigir, garante estar sentindo o cheiro de que ela não vai pegar.

É um cheiro de álcool. Há quem duvide até da idoneidade dos nossos policiais e jure que vai ter guarda fazendo plantão em porta de boate com uma pergunta na ponta do bafômetro: 'Com nota ou sem nota?'.

Os mais explícitos dirão, segundo essas más línguas, 'prefere pagar R$ 900 ou 50 pilas?'. Não creio que funcione assim. Deve ser mais sutil.

Esse pessoal cético acha que de noite todos os gatos são pardos e bêbados, o que facilitaria um entendimento com base no toma-lá-dá-cá ou no toma-lá-e-dá-aqui. Se bebeu, cara, tem que pagar.

Se a lei realmente for aplicada, pensem bem, todos os problemas do Estado estarão resolvidos. Basta colocar um fiscal na frente de cada bar, boate, restaurante e bordel. A coleta de dinheiro será extraordinária.

Além disso, não haverá mais desemprego. Será necessário um verdadeiro exército de controladores. Dizem que já funcionou em outros países. O princípio é bom.

Tem especialista afirmando que o importante não é o controle de cada motorista, mas a punição prevista em caso de acidentes graves. Em conseqüência, haverá um efeito dissuasivo, sem contar a possibilidade de punir realmente os infratores.

O problema, contudo, são os efeitos perversos: indústria da multa e corrupção. Dos males, sustentam alguns, o menor. É comum ouvir motoristas bradar contra a indústria da multa. Quando perguntados, porém, se cometeram as infrações, não têm como negar.
A vida, enfim, está ficando organizada.

O sujeito vai ao bar, mas não bebe nem fuma. No restaurante, come salada e evita alimentos gordurosos. Parece que o principal efeito da nova lei será o incentivo às festas em casa. Um retorno à família. Só que o anfitrião terá de aceitar que muitos convidados fiquem para dormir.

Claro que tudo isso é bom para os táxis. Os mais otimistas garantem que essa lei obrigará o Brasil a investir em metrôs. É o único jeito de transportar em segurança todos os bêbados de cada noite.

Outra hipótese é de uma influência sobre os casamentos, com o crescimento do número dos casais em que só um saberá dirigir.

Talvez, sem querer, o Brasil esteja descobrindo a solução para os engarrafamentos. Não, não dá para se entusiasmar, os engarrafamentos noturnos ainda são bastante raros.

Certos casais vão usar um sistema de rodízio. Um dia, bebe a mulher, no outro, bebe o marido.

No caso de um deles ser abstêmio, o outro terá mais chances de virar alcoólatra. Todos podem imaginar a cena: o marido bebendo todas, e a mulher, pacientemente, esperando para levá-lo para casa.

O contrário também pode ser imaginado. Difícil é crer que aconteça. Sem dúvida, essa lei vai contribuir para melhorar a parceria entre marido e mulher. Eu sou totalmente a favor dessa lei.

Já era a favor da proibição da venda de bebidas alcoólicas em estádios de futebol. Não tem outro jeito. Tenho todas as razões para ser favorável a esse tipo de legislação. Defendo a vida. Sem contar que não sei dirigir. Nem pretendo aprender.

Carro é um trambolho: tem o estacionamento, há sempre um ladrão de olho, taxas, tem de levar no mecânico, passa-se a vida trocando e pagando o carro. Pensando bem, a partir de agora, a vantagem de ter carro é não poder beber.

juremir@correiodopovo.com.br

Ainda que com chuva que seja uma excelente quinta-feira para todos nós.

sábado, 28 de junho de 2008



29 de junho de 2008
N° 15647 - Martha Medeiros


Compro, logo existo

Uma amiga acabou de chegar de Londres. Adorou, lógico. Mas ela disse que os preços estão um escândalo, uma exorbitância. Pensei: então é pra lá que eu vou.

Explico: eu também cheguei de viagem, estive em Buenos Aires, e os preços por lá estão igualmente um escândalo... de tão baixos! Algum problema nisso? Sim, há um problema nisso.

Óbvio que é sensacional ter transporte público barato (uma viagem de metrô está por cerca de R$ 0,60 e qualquer corrida de táxi dentro dos bairros mais procurados não custa mais do que R$ 5).

Nada como tomar um bom vinho sem ter vontade de chorar quando chega a conta, e comprar um casaco pra vida toda pagando três vezes menos o valor que pagaríamos aqui.

O problema? Já digo.

Quem gosta de viajar, mas gosta mesmo, aproveita seu tempo para caminhar pela cidade, apreciar prédios históricos, conhecer parques, entrar em livrarias, visitar museus e galerias de arte, vasculhar lojas de discos atrás de alguma novidade, jantar bem, ir a espetáculos e tomar um café com calma em algum lugar charmoso enquanto observa os transeuntes. Claro, fazer umas comprinhas também está no roteiro.

O problema, enfim: numa cidade com preços atraentes como Buenos Aires todo o resto (museus, shows, parques, cafés) fica para quando sobrar tempo - no caso de. O objetivo passa a ser comprar. Ir a todos os shoppings. Gastar até o último centavo, trazer tudo o que puder, abandonar-se à compulsão.

Eu, que estou longe de ser uma consumista crônica e me orgulho do meu comedimento, também fiquei impressionada com os preços argentinos. Uma pessoa controlada faz o quê?

Aproveita uma tarde para comprar o que precisa e segue seus dias curtindo o que a cidade tem a oferecer em termos culturais, ambientais, artísticos.

A questão é saber diferenciar o que se precisa e o que não se precisa, e se formos honestos, chegaremos à conclusão de que não precisamos nem da metade do que consumimos.

Eu gosto de bugigangas, e minhas compras em viagem quase sempre se restringem a artigos de papelaria, acessórios (pulseiras, echarpes) e algum artesanato, são os meus suvenires habituais, coisinhas coloridas e inventivas que me fazem lembrar da viagem pra sempre.

Mas se você entra em surto por causa de preço bom, vai encher três malas extras de coisas volumosas que, tudo bem, são baratas, mas que também são encontradas em Porto Alegre, e em Porto Alegre você nem olharia para elas, não importa quanto custassem.

Teve um momento em que me vi dentro de uma loja revirando cabides e me deu um estalo: o que estou fazendo aqui? Que ânsia é essa de "aproveitar" os preços?

Tenho que aproveitar a cidade, o meu tempo livre, a minha companhia, o meu olhar estrangeiro, a minha sede de informação, a minha curiosidade, e não me sobrecarregar de sacolas. É preciso estabelecer uma fronteira entre se apaixonar de verdade por um artigo e se apaixonar por comprar, simplesmente.

Da próxima vez, Londres. É perfeito. Olha-se algumas vitrinas, suspira-se e toca-se em frente até um dos arrebatadores parques da cidade para fazer um belo e barato piquenique.

Consumo consciente: Rui Spohr, preocupado em viabilizar projetos de inclusão social, colocou à venda uma camiseta confeccionada por ele onde se lê a frase: "A sofisticada originalidade do simples".

Quem comprar a camiseta, estará contribuindo para a Instituição Kinder, que presta atendimento educacional a crianças e adolescentes com deficiências múltiplas. Maiores informações no site http://estilistaruispohr.blogspot.com

Excelente domingo, um ótimo início de semana e um Feliz mês de julho.

Diogo Mainardi

O flanelinha dos ares

"Em 22 de agosto de 2006, Roberto Teixeira foi recebido no Palácio do Planalto. Perguntei por que a Varig teria pago as suas despesas da viagem a Brasília. Ele respondeu candidamente que ‘aproveitava as idas aos tribunais e passava no Planalto’"

22 de agosto de 2006. Lula está no Palácio do Planalto. Agenda do dia:

12:30 Lakshmi Mittal

15:30 Senadora Chikage Oogi

16:00 Conselho Brasil x Japão

Dá para encaixar um encontro com Roberto Teixeira? Dá. Sempre dá. Roberto Teixeira foi recebido por Lula. Segundo ele, tratou-se de uma mera visita de cortesia. Nada a ver com seu trabalho para a Varig. Nesse caso, porém, por que é que a Varig teria pago as suas despesas da viagem a Brasília?

Foi o que eu perguntei a Roberto Teixeira, por meio de sua assessoria de imprensa. Ele respondeu candidamente que "aproveitava as idas aos tribunais e passava no Planalto". Isto mesmo: a Varig pode ter bancado seu encontro com Lula, mas o propósito da viagem era outro.

Denise Abreu, no dia de seu depoimento, entregou ao Senado Federal uma mala abarrotada de documentos. Estou com cópias de alguns deles na minha frente. Referem-se às duas semanas que antecederam o encontro de Roberto Teixeira com Lula, no Palácio do Planalto.

Em 10 de agosto, a Anac decidiu cancelar os "hotrans" e os "slots" da Varig. No dia seguinte, esse cancelamento foi comunicado oficialmente a Cristiano Martins, genro de Roberto Teixeira.

Os "hotrans" e os "slots" da Varig em Congonhas eram o que a companhia aérea tinha de mais valioso. Em torno deles, desencadeou-se uma batalha. De um lado, a Anac. Do outro, Roberto Teixeira e o Palácio do Planalto. "Hotrans" e "slots" correspondem às vagas nos aeroportos. Roberto Teixeira brigou pela posse dessas vagas, como um flanelinha dos ares.

Em 16 de agosto, Cristiano Martins remeteu à Anac o plano de negócios da empresa, que incluía "hotrans" e "slots". Em 17 de agosto, Valeska Teixeira protocolou na Anac um pedido de registro da companhia.

Nesse período, ocorreu aquilo que, na diretoria da Anac, se tornou conhecido como Dia do Bife: um encontro de mais de oito horas, no Palácio do Planalto, coordenado pela secretária executiva de Dilma Rousseff, Erenice Guerra. Ela pressionou para que a Anac concedesse imediatamente um certificado homologando a Varig.

O coronel Jorge Velozo usou a imagem do cozimento de um bife para ilustrar a impossibilidade de queimar etapas a fim de acelerar o processo. Longe do microfone, o coronel Jorge Velozo confirma os detalhes intimidatórios do Dia do Bife. Eu testemunhei isso. Perto do microfone, ele é muito mais acanhado.

Em 22 de agosto, a Anac se reuniu para determinar a abertura do processo licitatório dos "hotrans" e dos "slots" da Varig. No mesmo dia, Roberto Teixeira deu um pulinho no Palácio do Planalto, para se encontrar com Lula. O que aconteceu depois disso?

O juiz Luiz Roberto Ayoub acolheu um recurso apresentado pelo compadre do presidente e desautorizou a Anac, alegando a necessidade de dar um "tratamento excepcional" à Varig. Em 24 de agosto, ele mandou intimar toda a diretoria da Anac.

O flanelinha dos ares garantiu suas vagas em Congonhas. Honorários: 5 milhões de dólares.

Ponto de vista: Claudio de Moura Castro

O Senai na mira do governo

"É um risco trocar um operador historicamente bem-sucedido pela ingerência de outro com folha corrida muito mais incerta. Arriscamo-nos a passar de cavalo para burro"

Ilustração Atômica Studio

Depois de conhecerem o Senai em São Paulo, diretores de escolas de formação profissional da Alemanha mencionaram em seus relatórios que não seria apropriado oferecer cooperação técnica às escolas visitadas.

No máximo, poderiam trocar experiências. Em minha passagem pela OIT e pelo Banco Mundial, o Senai era sempre citado como o exemplo mais eloqüente de boa formação profissional em país do Terceiro Mundo. Visitei dezenas de suas escolas e somente nos doutorados o Brasil oferece qualidade equivalente.

Nos dias que correm, duelam o governo e o Senai. Mais uma tentativa de estatização? Ou de arrancar uma lasca do seu orçamento? O MEC quer ensinar ao "Sistema S" como operar suas escolas?

Como as propostas não são escritas, fica tudo meio no ar. Disputa de poder com sindicatos patronais? Exumação tardia das controvérsias entre soluções privadas e públicas? Talvez os fatos iluminem as batalhas políticas e ideológicas.

Afirma-se que o "Sistema S" não deveria cobrar dos técnicos (o que ocorre em alguns estados), e sim oferecer-lhes ensino gratuito, uma vez que recebe verbas públicas. Esse argumento é tolo. Justificadamente, para poder oferecer mais cursos, o sistema passou a cobrar das empresas e de alunos capazes de pagar.

Mas usa todo o tributo compulsório para oferecer cursos gratuitos ou subsidiados a 1,1 milhão de operários. Comprometidos os recursos, não há como oferecer mais gratuidade. Para cada técnico dispensado de cobrança seria necessário tirar vários operários do sistema.

Um argumento politicamente explosivo é o de que as federações surripiam recursos do Senai, permitindo-se mordomias espantosas. Tal promiscuidade é injustificável.

Felizmente, os gastos do Senai são rotineiramente examinados pelo Tribunal de Contas da União e pelos órgãos estaduais correspondentes. Como nos últimos cinco anos não foram impugnados vazamentos para federações, se eles existem, a falha é dos tribunais.

A guerra dos números ainda não tem vencedores. O Senai é acusado pelo MEC de ser mais caro (por aluno/hora) que os técnicos e universidades federais. Dados do Senai revelam equívocos nas estimativas do MEC que, quando corrigidos, mostram o Senai menos caro, mesmo sem incluir os aposentados do MEC (que, para economistas, são um custo inalienável).

Ainda assim, o Senai ofereceu no ano passado 100 000 atendimentos às empresas, faz pesquisa aplicada, patenteia e mantém equipamentos de última geração em suas escolas.

O MEC propõe criar um fundo com o orçamento do "Sistema S" para ser distribuído de acordo com os méritos de cada curso, medidos por testes que vai preparar. Na teoria, parece interessante (aliás, por que o governo não aplica o sistema antes em suas próprias universidades e com seus próprios técnicos e tecnólogos? Ou no FAT?).

Na prática, há cursos profissionalizantes para centenas de ocupações, cada um podendo ser oferecido em diversos níveis. Não há como o MEC realizar 2 milhões de testes profissionais em oficinas, sobretudo porque jamais fez algum. Tampouco o Ministério do Trabalho conseguiu fazer certificação ocupacional, depois de trombetear suas intenções por décadas.

Por outro lado, a prática consagrada internacionalmente é avaliar os cursos pela empregabilidade efetiva dos graduados e pelo desempenho nos empregos. Sob tais critérios, o "Sistema S" mostra bons resultados. Mas isso jamais foi praticado pelo MEC, que desconhece o destino dos graduados de suas escolas técnicas e universidades.

Obviamente, o "Sistema S" tem falhas que precisam ser impiedosamente cobradas. O Senai e o Senac acumularam uma sólida reputação, mas são teimosos como mulas e respondem lentamente. O Sebrae é criativo, mas com altos e baixos.

Como o Sesi e o Sesc não oferecem formação profissional, para alguns são uma relíquia do papel paternalista dos empresários no Estado Novo. Por que, por exemplo, seus orçamentos são superiores aos do Senai e do Senac?

É um risco trocar um operador historicamente bem-sucedido pela ingerência de outro com folha corrida muito mais incerta. Arriscamo-nos a passar de cavalo para burro. Mas, se as ameaças servirem para corrigir as falhas do "Sistema S", não terão sido em vão.

Claudio de Moura Castro é economista - Claudio&Moura&Castro@cmcastro.com.br


A nova era dos nômades digitais

Como a tecnologia da mobilidade está mudando nossos hábitos e nosso estilo de vida
Luciana Vicária e Thais Ferreira



O travesseiro da universitária Cibele Lima, de 23 anos, vibra às 6h30 todas as manhãs. E não pára de tremer até que ela aperte uma tecla verde localizada debaixo dele.

O confortável travesseiro de espuma não é a última novidade tecnológica do mercado. Tampouco tem alarme. Mas embaixo dele repousa um despertador especial: seu celular.

Cibele não sabe explicar por que o coloca ali. Diz que se sente bem em tê-lo ao alcance das mãos. “Sinto por ele o mesmo que sentia por minha boneca favorita, que eu costumava levar para o berço”, diz. “Ele me dá segurança.”

O celular de Cibele fica ligado dia e noite. A bateria, segundo ela, acabou no máximo três vezes nos últimos 365 dias. Ficar sem ele é um sacrifício, diz Cibele. Ela ainda se lembra, em detalhes, do dia em que passou 12 horas longe de seu celular: “Era como se eu vivesse uma profunda crise de abstinência”.

A jovem esqueceu o aparelho em casa. Só se deu conta quando já estava dentro do ônibus, a caminho da faculdade. Passou o dia sem falar com as pessoas. De vez em quando andava de um lado para o outro, vasculhava a bolsa. “Eu até ouvia ele tocar baixinho. Mas acho que era minha imaginação.”

Para Cibele, o celular é o objeto mais importante na vida. É mais valioso que seus documentos, que o relógio de pulso e até que sua câmera fotográfica. Ela não está sozinha: 18% dos brasileiros se sentem viciados em seus celulares, de acordo com a empresa de pesquisas Ipsos, num estudo divulgado com exclusividade por ÉPOCA.

A taxa é superior à de vários países desenvolvidos. A pesquisa, realizada com 6 mil pessoas de todas as classes sociais, avalia o impacto da mobilidade no cotidiano. Ela replicou aqui um levantamento feito em cinco países da Europa: Reino Unido, Sué­cia, Espanha, Alemanha e França.

As respostas às questões elaboradas pela London School of Economics and Political Science, o mais importante centro de pesquisas e debates políticos da Europa, mostram como o celular está modificando comportamentos da sociedade.

Os brasileiros na faixa de 16 a 24 anos fazem 30% mais ligações e mandam 50% mais mensagens de texto que a geração de 45 a 59 anos. Entre as pessoas de meia-idade, 11% dizem que se sentem indesejadas se o celular não toca pelo menos uma vez por dia. Esse sentimento é relatado por 30% dos jovens.

A média geral dos brasileiros é 22%. “Os jovens estão na ponta de um novo estilo de comportamento, que deve virar o padrão nas próximas décadas”, diz a socióloga americana Noelle Chesley, da Universidade Cambridge, que estuda como as gerações reagem diferentemente à tecnologia.

A principal característica da nova geração é sua mobilidade. A partir do momento em que não faz mais diferença estar em algum lugar para ter, a todo momento, acesso a serviços, pessoas ou informações, mudamos o jeito de nos relacionar com o espaço.

O antropólogo James Katz, chefe do Departamento de Comunicação da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos, compara os novos usuários de celular às tribos tuaregues que cruzam o Saara em cima de seus camelos. “Somos nômades modernos”, diz.

A diferença, segundo ele, é que os tuaregues estão à procura de novas pastagens para o gado. E os nômades modernos estão em busca de novos espaços físicos para estudar, trabalhar e se relacionar.


28 de junho de 2008
N° 15646 - Nilson Souza


Ele

Recebemos esta semana em nossa Redação a visita do escritor Sergio Faraco e ele nos contou coisas chocantes sobre o ofício de escriba. Disse, por exemplo, que jamais sabe como serão os finais de seus inexcedíveis contos quando começa a escrevê-los.

Deu a entender que se deixa conduzir pelo texto, como se fosse um principiante e não o reconhecido autor de histórias antológicas que todos admiramos. Pior, e suprema heresia nesta era tecnológica: confessou que redige tudo à mão primeiro e só depois se aproxima cautelosamente do computador para dar o trato final.

A garotada da assistência arregalou os olhos, incrédula. Mas o mais espantoso de seu relato, pelo menos para mim que fui o autor de uma pergunta sobre o tipo de retorno que ele espera do público, foi esta revelação:

- Eu não me importo nem um pouco com o que o leitor pensa daquilo que escrevo!

Neste momento da preleção, nós, os mais calejados, também ficamos arregalados. Aprendi no meu longínquo curso de Jornalismo, pela voz do saudoso professor Ernesto Corrêa, uma lição inesquecível em uma frase, que ele disse ter copiado da parede da redação de um jornal norte-americano:

- Lembre-se que você está escrevendo para ELE!

O ele maiúsculo, explicou-nos o irreverente mestre na ocasião, significava o leitor. Significa você, que está me lendo agora. Escrevo meus textos jornalísticos e também estas crônicas bissextas para que você leia.

Sei, tem muita gente que escreve para as gavetas, já fiz muito disso também, mas acredito que mesmo esses autores voluntariamente anônimos têm lá no fundo de suas tímidas almas a certeza de que um dia alguém os lerá.

Ops, não vou começar a filosofar agora. Volto a Faraco e à sua quase arrogante declaração. Para dizer que ele tem uma justificativa plausível para a sua aparente indiferença pelo leitor.

- Não dou a mínima para críticas ou elogios simplesmente porque sempre procuro fazer o melhor.

Como seu leitor, e conhecendo sua obsessiva busca pela palavra exata, pela frase perfeita, pela mensagem ao mesmo tempo concisa e emocionante, eu poderia atestar que ele sempre consegue fazer o melhor.

Mas, como respeito demais o meu leitor e tenho a pretensão de que o desavisado escriba possa estar entre os poucos que chegaram ao final deste texto, não vou aborrecê-lo com observações tão desimportantes.

sexta-feira, 27 de junho de 2008



27 de junho de 2008
N° 15645 - Liberato Vieira da Cunha


Um disco de vinil

Um dia meu pai chegou em casa com um pequeno milagre. Um único disco, comprado na Casa Coates, continha uma sinfonia inteira de Beethoven.

- É um long-play - explicou.

E mais do que explicar, provou, colocando na eletrola a orquestra inteira da NBC, regida por aquele mágico chamado Arturo Toscanini.

Ensinou-nos então que, diversamente de nossa já alentada coleção de discos 78 RPM, aquele girava em 33 RPM, pois era gravado em microssulcos.

Não foi um exemplar solitário. Não demorou e éramos proprietários de uma larga seleção de elepês, a maioria dos quais dedicados à música clássica.

Sou dono até hoje de uma modesta amostra de discos de vinil, na maior parte devotados à música popular. Só aqui nesta sala onde escrevo, tem uns 50, número que se multiplica na estante do corredor.

Não sei se é ilusão minha, mas me parece que reproduzem músicas mais pura e autenticamente do que os giros dos CDs. Mas talvez não seja.

Leio em ZH que os elepês têm mesmo melhor qualidade de som. Leio mais, nesta boa reportagem de Gabriel Brust. Há mais de uma década a internet mostrou que a informação não precisava de mais de um meio físico isolado para ser armazenada. Podia correr por fios de forma epidérmica, aí incluída a música.

Isso significa na prática que está decretada a morte do CD, em benefício da ascensão e glória do MP3.

Mas não é improvável que dentro em breve me cheguem os primeiros sinais da agonia do MP3. As coisas mudam, a muitas rotações por minuto, neste começo de milênio.

Mas de algo estou seguro. O long-play, o elepê, o disco de vinil vão sobreviver.

Há lojas, nesta Porto Alegre, que continuam a vendê-los, tanto os antigos quanto os novos. Há pessoas, nesta Porto Alegre, que têm seus corações tocados de nostalgia.

Há gentes, como você e eu, que não aprenderam a resistir aos apelos de algumas capas, como esta que tenho agora na mão. Pois nela se resumem o jeito e o espírito das músicas dos Anos Dourados.

Ótima sexta-feira e um excelente fim de semana para todos nós.

quinta-feira, 26 de junho de 2008



O GRANDE CULPADO

ARTE PEDRO DREHER SOBRE FOTOS CP MEMÓRIA
Depois do meu texto radical da última segunda-feira, em que revelei toda a minha desconfiança em relação aos políticos, o deputado Germano Bonow me telefonou. Gentilmente, ele me lembrou que faltava um elo na cadeia de responsabilidade apresentada por mim: o eleitor.

Destacou ainda que, neste ano de eleições municipais, o eleitor poderá, se quiser, arrumar a casa. Não haverá desculpas. Nesse tipo de pleito, de proximidade, cada eleitor poderá recompensar ou punir bons e maus candidatos sabendo quem é cada um, o que faz, de onde vem e o que pretende.

Como não é politicamente correto dizer que os eleitores não sabem votar, fica combinado que eles o fazem em conhecimento de causa. São, portanto, co-responsáveis por aqueles que elegem. Como em 'O Pequeno Príncipe', cada um é responsável pela raposa que cativa.

Eu já propus que prefeitos, governadores e até o presidente da República sejam responsáveis pelos atos ilícitos dos seus secretários e ministros sabendo ou não previamente dos seus golpes. Vou ampliar agora a minha idéia de responsabilidade moral, que já era uma extensão da responsabilidade fiscal, para uma responsabilidade eleitoral.

Toda vez que um político roubar, mesmo que seja para financiar campanha, dez, cem ou mil dos seus eleitores devem ser sorteados para o acompanhar na cadeia. Se houver reincidência, a punição será dobrada. No caso de reincidência do eleitor, ou seja, votar de novo num ladrão, a pena será triplicada.

O eleitor é como a carta roubada da história de Edgar Allan Poe: está em cima da lareira e ninguém a vê por se encontrar num lugar óbvio. O culpado é quem elege. Claro que isso pode se tornar apenas um álibi para eleitos cínicos, ainda mais que essa parece ser uma qualidade essencial em política.

O único defeito dessa idéia é que, como político não vai para a cadeia, os eleitores também serão dispensados de cumprir pena. Há um ponto positivo: não acontecerá a explosão definitiva da população carcerária.

Talvez seja o caso de aceitar a sugestão de um leitor meu bastante antenado: parar de acusar os políticos de desvio de milhões de reais ou dólares. Isso absolve qualquer um.

Roubar muito é sinal de prosperidade, de ambição e de espírito empreendedor. O negócio é denunciá-los por roubo de pote de margarina. Aí é uma questão de princípio. Quem rouba pouco, lesa o alheio e dissemina maus hábitos. Em lugar de receber ou divulgar gravações, a mídia devia conferir o material das câmeras dos supermercados.

Como estou numa fase generosa, dando sugestões gratuitas, aqui vai mais uma proposta: cassar direitos políticos. Isso já existe? Não. Proponho cassar direitos políticos de eleitor que votar duas vezes num mesmo candidato corrupto.

Essa medida de profilaxia surtiria efeito a médio prazo. Outra possibilidade seria o título de eleitor com pontos, a exemplo da carteira de motorista. Cada vez que o eleitor votasse num salafrário, perderia pontos no título, até ter o documento cassado.

Nas carteiras de motorista, porém, tem gente que cobra para assumir infrações alheias. Duvido que alguém pague para transferir pontos perdidos do seu título de eleitor. O contrário seria mais provável.

Uma coisa me parece irrefutável: quem vota em ladrão conhecido, com culpa no cartório e na mídia, tem direito de ser roubado. É como assinar cheque em branco para político. Já imaginaram?

juremir@correiodopovo.com.br

Mesmo com chuva que promete chegar logo, pois que, já é real nas redondezas, que tenhamos todos uma ótima quinta-feira.

quarta-feira, 25 de junho de 2008



25 de junho de 2008
N° 15643 - Martha Medeiros

O vinho ou o carro

Uma coisa que me incomoda é andar de táxi numa cidade estranha. Me sinto impotente, já que o motorista, se for desonesto, pode dar voltas desnecessárias para aumentar o preço da corrida. Recentemente estive fora do país e tive a sensação de que havia sido roubada, mas provar como? Por que não pedi para descer antes? Porque não tinha certeza.

Agora vai ser diferente, porque vou andar de táxi na minha própria cidade, coisa que faço pouco. Daqui pra frente, irei e voltarei da casa de minhas amigas de táxi, irei e voltarei dos restaurantes de táxi, irei e voltarei das festas de táxi.

E a única vantagem é que os trajetos me serão familiares e não serei ludibriada, porque, afora isso, que xaropice. Em vez de ficar bem instalada no meu carro, com ar-condicionado, ouvindo meu som e dando carona para os amigos, vou virar refém de alguma cooperativa. Tudo porque eu adoro um bom vinho e me recuso a jantar tomando refrigerante ou água.

Eu bebo e pretendo continuar bebendo. Nunca provoquei um acidente sério, jamais dirigi na contramão ou fiz alguma insanidade nas ruas.

Do que se conclui que meu anjo da guarda está merecendo um aumento de salário. Ou que minhas doses não são tão exageradas assim. Mas agora não existe mais o conceito de exagero. Tolerância zero.

O Congresso aprovou a lei que torna todo acidente causado por motorista alcoolizado em um crime doloso, com intenção de matar. A sociedade aplaude, mas quem é a sociedade?

Não é uma entidade abstrata. Não é aquele pessoal que mora no edifício da esquina. É você, sou eu, criaturas civilizadas e de bom caráter, que se reúnem em torno de uma mesa para celebrar a vida tomando alguns drinques e que voltam pra casa ligeiramente mais alegres do que saíram, sem nenhuma intenção de matar - tanto que nunca matamos.

Porém, as estatísticas de violência no trânsito estão aí para provar que as infrações estão quase sempre associadas a bebida. Eu poderia estar citando, como praxe, os moleques que entornam um engradado de cerveja e depois voam a 120 km/h em vias urbanas só para se sentirem machos em seus possantes carros, essa coisa estúpida que a gente vê acontecer a toda hora.

Mas não: dessa vez estou virando o gatilho das palavras para mim mesma, que tenho idade mais que madura, uma consciência mais que formada, uma auto-estima bem resolvida, e que mesmo não tendo necessidades exibicionistas e respeitando meus limites, ainda assim já poderia ter provocado algum incidente num fim de festa. Bastaria uma única vez e babaus.

Para mim, vai ser uma difícil mudança de hábito. Gosto de dirigir, gosto de me sentir independente, e as pessoas com quem saio também gostam. Mas acabou esse conforto: freqüentarei os restaurantes perto da minha casa, de onde posso voltar a pé, ou virarei assídua dos táxis nas poucas vezes em que saio à noite.

Não há outra saída. E me ofereço como exemplo justamente para não perpetuar a hipocrisia de levantarmos a voz contra os problemas (função comum de colunistas e repórteres) esquecendo de fazer nossa parte para combatê-los.

Ninguém mais é inocente.

Eu não vivo sem um bom vinho, mas vou aprender a viver sem carro quando for preciso. A contragosto. Mas é uma questão de coerência com o que sempre preguei.

Bem, meus amigos, hoje tem sol e um céu azul embora o friozinho permaneça. Que tenhamos todos uma ótima quarta-feira. Aproveite, namore hoje, afinal é o Dia Internacional do Sofá.

domingo, 22 de junho de 2008


DANUZA LEÃO

No que dá ter juízo

Uma turma de desanimados, pois não temos mais coragem de beber além da conta, de falar bobagens

TENHO OUVIDO, cada vez mais, homens e mulheres reclamando da vida, dizendo que estão achando tudo chato, que são pouquíssimas as pessoas com quem querem conversar; sair, nem pensar.

Uma vez a cada 15 dias, para não virar bicho do mato de vez, aceitam ir jantar fora com dois, três amigos, e voltam dizendo "eu não tinha nada que ter ido, já sabia que ia ser uma chatice, da próxima não vou mais".

Jantares com mais gente, esses não há hipótese, e se houver pessoas famosas por serem interessantíssimas, mas que você não conhece, aí é que não vai mesmo.

Não há show de Chico Buarque, João Gilberto, Caetano, que entusiasme essa gente. Ah, o flanelinha, ah, a multidão, ah, a confusão da saída;

e se alguém propusesse que um desses cantores fizesse um show só para ele, alguma desculpa seria arranjada para não querer. A única coisa que os agrada é ficar em casa, vendo televisão ou lendo um livro, de preferência sós.

Mas os que trabalham em alguma coisa interessante têm uma saída: falar de trabalho. A vida vai ficando cada vez mais difícil, as pessoas cada vez mais sós, mas nem por isso infelizes. Qualquer coisa, menos estar com gente.
Dá para entender? Pensando bem, até que dá.

Houve um tempo em que essas mesmas pessoas eram a alegria das festas; dançavam, diziam bobagens, eram engraçadas, todo mundo gostava delas, o telefone não parava de tocar, e a vida era muito divertida.

O que aconteceu então? A idade que chegou? Não necessariamente, pois existem reclusos em todas as faixas etárias. As festas são menos animadas? Para eles são, mas há gente que não perde uma e acha todas ótimas.

Mas então que história é essa de não querer sair, não querer ver gente, não querer conhecer ninguém novo, nem -e sobretudo- Gisele Bündchen? Ah, os mistérios dessa vida.

Aí comecei a prestar atenção a essas pessoas, para saber em que elas mudaram -sim, porque está claro que foram elas que mudaram. O mundo continua o mesmo.

Lembrei de cada uma delas, pensando que nenhuma tinha responsabilidades, empresas, mulher, ex-mulher, filho. Todos podiam ir à praia, e há alguma coisa mais irresponsável do que passar a manhã pegando sol e dando um bom mergulho? E uma pessoa queimada de sol pode ser infeliz? Abaixo os dermatologistas, em primeiro lugar a felicidade.

Qual foi a mudança que aconteceu com cada um deles, que se tornaram preocupados com o futuro, com a bolsa, se subiu ou desceu, com os países asiáticos, com o futuro da China?

É que naqueles ótimos tempos ninguém tinha juízo. A vida corria mansa, sem uma só preocupação com o o futuro -futuro? E isso existia?-, mas com o tempo fomos ficando responsáveis e ganhando juízo.

De tanto ouvir nossos pais dizendo "essa menina precisa criar juízo", criamos, e somos hoje uma turma de desanimados, quase deprimidos, pois não temos mais coragem de falar bobagens, cobiçar ostensivamente a mulher do próximo, beber além da conta, dar um grande vexame, e sobretudo, sobretudo, deixar de ir ao trabalho numa quarta-feira para ir à praia, porque criamos juízo.

Como era bom o tempo em que não tínhamos nenhum.

danuza.leao@uol.com.br