sábado, 11 de outubro de 2008


Marcelo Bernardes, de Nova York

Queremos adotar mais uma criança"

Em entrevista a ÉPOCA, Angelina Jolie confirma que ela e Brad Pitt querem aumentar a prole e não descartam adotar uma criança sul-americana.

A ex-bad girl e atual miss generosidade também explica por que gosta de filmes de ação e se emociona ao lembrar da mãe, morta há dois anos

MULHERÃO, MÃEZONA

A atriz mais bela de Hollywood diz que sua imagem na mídia é irreal: “Meus filhos é que dirão quem eu sou”São 11 da manhã de um domingo. entro no elevador do hotel Waldorf-Astoria, quando alguém grita: “Por favor, segure a porta!”.

É Angelina Jolie. Ela usa um vestido de alcinha violeta, que acentua o volume dos seios, e segura um copo de café com leite gelado.

Durante o trajeto até o 18º andar, Angelina fala a seu maquiador sobre uma proeza de Brad (Brad Pitt, com quem vive desde 2005): calibrar o iPod com “surpreendentes” escolhas musicais.

A atriz mais cobiçada do planeta, que assanha os tablóides com a exótica combinação de mulher fatal, embaixadora de refugiados e mãe de seis crianças (três adotadas), não se importa com falar da vida pessoal na frente de estranhos.

Só no 18º andar, o quarto reservado para a entrevista com ÉPOCA, me apresento. Durante uma hora de conversa, ela disse que ainda amamenta os gêmeos Vivienne Marcheline e Knox Leon, nascidos em julho.

E ficou com os olhos embaçados ao falar da mãe, morta em 2007. Angelina diz tê-la reencontrado espiritualmente nas filmagens de A Troca, de Clint Eastwood. O filme estreará em janeiro no Brasil.

Angelina interpreta Christine Collins, uma mãe que vai ao trabalho e deixa o filho sozinho. Quando volta, não o encontra. A investigação deflagra uma luta contra a polícia corrupta de Los Angeles. É o melhor papel de sua carreira.

ÉPOCA – A princípio, você não queria estrelar o filme A Troca. Por quê?

Angelina Jolie – A história funciona como um filme de horror para qualquer mãe. Depois de ler o roteiro, tive muita dificuldade para dormir. Não queria lidar com uma personagem que me faria pensar que meus filhos poderiam um dia sumir para sempre.

Não estava a fim de passar por essa ansiedade. Durante as filmagens, meus filhos reclamaram, dizendo que eu estava muito pegajosa, que eu os amassava com tantos abraços e beijos (risos).

ÉPOCA – O que a fez mudar de idéia?

Angelina – Peguei-me várias vezes contando a história de A Troca para o Brad (Pitt) e para outras pessoas. Era uma história que não saía de minha cabeça. O filme não é só sobre a vitimização dessa mulher, mas também sobre justiça e democracia.

A personagem se levanta e desafia todas as pessoas que a manipularam. O roteiro também me fez lembrar muito de minha mãe, que morreu no ano passado.

ÉPOCA – Você parece se emocionar sempre que fala de sua mãe (a atriz Marcheline Bertrand). Como descreve o relacionamento que tinha com ela?

Angelina – Minha mãe era uma pessoa muito calma. Ela falava baixinho, como se sussurrasse. O nome dela era Marcheline, mas todo mundo a chamava de “marshmallow” (risos). Era impossível para ela alterar a voz ou praguejar, mesmo quando me mandava arrumar a bagunça do meu quarto.

Eu queria sempre fazê-la feliz. Ao mesmo tempo, ela virava uma fera quando alguém fazia alguma coisa contra mim ou contra meu irmão (o também ator James Haven). Quando o Brad viu A Troca, ele disse que minha interpretação o fez lembrar de minha mãe (risos).

Fazer esse filme resultou em uma experiência catártica, pois, desde que minha mãe morreu, eu evitava olhar uma foto de nós duas juntas. Acabei fazendo as pazes com isso. Foi como tê-la a meu lado o tempo todo, com ela me reconfortando.


11 de outubro de 2008
N° 15755 - NILSON SOUZA


Crianças para sempre

Parada de ônibus, sete da manhã. Dois passageiros esperam, solitários e silenciosos.

Passo no meu passo de caminhante matinal, como recomenda o doutor Moriguchi. Pisando firme, movimentando os braços, concentrado no percurso e na minha própria respiração. Mas meus olhos se desviam para o casal madrugador que aguarda o ônibus. Observo-os, curioso.

É uma mãe, intuo, acompanhada por um rapaz de idade indefinida. Ela tem um mapa indecifrável de sulcos no rosto. Ele tem um inconfundível olhar oblíquo, fixado no nada. Estão de mãos dadas, ele sereno, ela vigilante.

– Pobre mãe! – comento com meus botões, e sigo adiante.

Mas não deixo de pensar naquelas pessoas. Sempre me comovo quando vejo mães ou pais acompanhando filhos portadores de deficiência. Fico imaginando que só mesmo o mistério do amor incondicional explica tamanha abnegação.

Passei a valorizar ainda mais essas heróicas criaturas no dia em que conheci uma instituição que abriga pessoas especiais, abandonadas por suas famílias. Confesso que na primeira vez levei um choque ao ver aqueles homens e mulheres condenados a ser crianças para sempre.

Depois, ao visitá-los outras vezes, deixei de vê-los com olhos de espanto e percebi que são seres humanos mais humanos do que muitos dos que consideramos normais.

Meus últimos preconceitos se desfizeram no dia em que conversei com a mãe de uma menina com síndrome de Down e ouvi dela a seguinte declaração:

– Minha filha é uma bênção.

Então ela me disse que tinha sofrido bastante no início, quando descobriu que sua criança não era igual às outras. Com o tempo, porém, foi percebendo o quanto ela era sensível, carente de seu afeto, amorosa e feliz.

Passou, então, a compartilhar de cada etapa do seu desenvolvimento, a vibrar junto a cada pequena conquista, a valorizar coisas simples que só os puros de espírito conseguem identificar.

Nem sempre é assim. Às vezes, as pessoas não estão preparadas para enfrentar o acidente genético que interrompe seus sonhos de gerar seres belos, perfeitos e inteligentes. Então, optam pela fuga da responsabilidade. Não as condeno.

Cada um sabe a carga que é capaz de suportar. Desconfio, porém, que muitas delas talvez tenham desperdiçado a oportunidade de transformar uma eventual desventura na bênção de segurar a mão do filho por toda a vida.

Ainda que com chuva, um ótimo sábado e um excelente fim de semana.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008



10 de outubro de 2008
N° 15754 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Um traço de ternura

Foi na esquina de uma avenida da Cidade Baixa. Havia ali uma feira de antigüidades mais ou menos modernas. Senhoras que eram passeadas por seus poodles. Marmanjos que ameaçavam cuidar dos carros. Pombas que ensaiavam vôos rasantes sobre os transeuntes.

E havia o pai e o filho.

O pai tinha uns 30 anos e toda uma experiência de mundo. Vestia roupas gastas que já não lhe serviam e trazia uma barba de três dias. O filho não devia ter mais de dois anos e trajava uns panos que em alguma época haviam sido um macacão branco.

Estavam no entanto acompanhados, naquela encruzilhada de duas avenidas movimentadas, da aura de algo incomum nas cidades grandes: um traço de ternura.

O pai se dirigia ao filho como quem tentasse lhe explicar o universo. Falava-lhe da diferença entre as pessoas que são donas de casas e carros e as que não são, das que dispõem do que comer pelas manhãs, tardes e noites, das que padecem de fome, das que sofrem de desesperança, das que são pobres, embora essa não seja sua culpa, das que são açoitadas pelo frio e pela solidão e pelo medo.

O filho ouvia, um pouco triste porque seu pai estava triste, mas em outros instantes distraído pelo vôo livre de uma borboleta, pelo canto de um pássaro no alto de uma árvore imensa, pelo jeito com que um gato se espreguiçava em cima de um muro.

As borboletas nasceram para voar? – se indagava. Os pássaros conhecem todas as músicas? Os gatos são preguiçosos porque não dormem?

Foi bem nesse momento que apareceram umas damas severas na companhia de uns homens sérios e fardados e começaram a fazer umas perguntas ao pai.

Ele poderia apresentar a certidão A? Ele poderia exibir o certificado B? Ele poderia mostrar o atestado C?

O pai não podia, pois nunca se dera bem com essa questão de papéis. E então se aproximaram do filho, que se fingiu distraído com um pássaro, um gato, uma borboleta.

Uma ótima sexta-feira e um excelente fim de semana.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008



08 de outubro de 2008
N° 15752 - MARTHA MEDEIROS


Se o Gabeira ganhar

“Sempre fomos amigos, ele é uma pessoa capaz e não pretendo vencer a qualquer preço.” O autor dessa frase é Fernando Gabeira, avisando que não engrossará o tom da campanha para enfrentar Eduardo Paes no segundo turno pela prefeitura do Rio.

Infelizmente, algumas mulheres e homens íntegros costumam dar férias para sua integridade durante campanhas eleitorais. Nessa hora, todo mundo vira leão e quer devorar o outro. Imagine um candidato admitir, antes do resultado final, que o adversário é um homem capaz.

Por essas e outras é que a grande novidade desta eleição foi a votação expressiva de Gabeira, a despeito de todos os preconceitos que poderiam barrar a alavancagem de sua candidatura. Isso, por si só, já é uma vitória do Brasil – não só do Rio de Janeiro.

Se Gabeira ganhar, será a prova de que o brasileiro está votando de forma mais consciente e que cansou de ficar se lamentando em balcão de bar, repetindo a ladainha de que político é tudo igual.

Se Gabeira ganhar, saberemos que existe uma parcela da população que não tem medo de quem possui uma mentalidade aberta e que está apostando em novos horizontes, em quem tem experiência não só política, mas de vida.

Se Gabeira ganhar, finalmente teremos em um cargo público um homem que conversa com o eleitor feito gente grande, dizendo exatamente o que pensa, em vez de apelar para discursos fleumáticos e repetitivos, entulhado de jargões.

Se Gabeira ganhar, vai ser a recompensa merecida por ele ter peitado Severino Cavalcanti, dando nele um cala-boca que todos nós gostaríamos de ter dado na ocasião do “mensalinho”.

Se Gabeira ganhar, não será apenas o deputado federal que assumirá o cargo, mas também o escritor e jornalista que tantas vezes defendeu as liberdades individuais, os direitos humanos, as formas alternativas de viver em sociedade e que possui uma consciência ecológica que vem de muito antes disso virar moda.

Muitos políticos – inclusive Fogaça e Maria do Rosário, que disputarão o segundo turno aqui em Porto Alegre – já eliminaram a pose de super-heróis e a prosa característica dos “profissionais” do ramo, aqueles que dizem apenas o que o eleitor quer ouvir, sem compromisso com a viabilidade do que está sendo dito.

Mas Fernando Gabeira, pela projeção nacional que tem e pela cidade problemática que pretende governar, é o fato eleitoral de 2008.

É interesse de todos que o Rio resolva suas dificuldades, e que a política brasileira espane a caretice e ganhe um perfil mais corajoso e cosmopolita.

Se ele será um bom prefeito, caso vença? Não tenho bola de cristal. Mas ter superado a desconfiança diante da sua biografia incomum já é motivo para comemorarmos.

sábado, 4 de outubro de 2008



05 de outubro de 2008
N° 15749 - MARTHA MEDEIROS


Temos escolha

No interessante livro Homem Lento, de J.M. Coetzee, há uma passagem que me marcou. É um confronto verbal entre o personagem principal do livro, um homem de mais de 60 anos que teve uma perna amputada depois de um acidente de bicicleta, e um garoto adolescente.

Ambos estão no sombrio e decadente apartamento do velho, que resmunga: “Eu fui ultrapassado pelo tempo. Este apartamento e tudo o que existe dentro dele foi ultrapassado pelo tempo”.

O garoto pergunta se ele não gosta de coisas novas. O velho (que nem é tão velho) responde: “Isso tudo um dia foi novo. Tudo no mundo um dia foi novo. Até eu fui novo. Na hora em que nasci, eu era a coisa mais moderna da face da Terra”.

Nada é tão moderno quanto nós ao nascermos. Sublinhei.

Prosseguindo o diálogo, o garoto então comenta, como quem não quer nada, que um dia foi visitar o avô para mostrar como funcionava um computador. O avô era bem velho e também tinha sido ultrapassado pelo tempo. Hoje fazia compras pela internet, enviava e-mails, recebia fotos.

“E daí?”, pergunta o mal-humorado sem perna.

“Daí que dá pra escolher”.

Eis uma frase, uma verdade, um verso: dá pra escolher. Todo dia, ao levantar da cama, eu procuro me lembrar: dá pra escolher. Nem eu nem você estamos jogados ao léu, nas mãos do destino.

Não temos controle sobre tudo, mas dá pra escolher entre ter amigos ou viver recluso, dá pra escolher entre privilegiar um amor ou ter vários casos superficiais, dá pra escolher entre participar ativamente de um projeto que alavanque nosso bem-estar ou ficar de fora apenas criticando, dá pra escolher entre se refugiar num lugar tranqüilo ou aprender a lidar com o stress urbano, dá pra escolher entre levar a vida com bom humor ou levar a vida na ponta da faca.

Tudo é uma escolha, inclusive ser velho ou ser jovem, e isto não se resolve apenas numa clínica de estética. Todas as nossas escolhas passam pelo estado de espírito.

É ele que vai determinar se vamos viver uma vida mais simples ou mais complicada, mais solitária ou mais social, mais produtiva ou mais lerda.

Dá pra escolher entre ser carnívora ou vegetariana, entre fumar ou não, entre correr na praia ou ficar um pouco mais na cama, entre jogar paciência ou ler um livro, entre amores serenos ou amores turbulentos. Se a escolha será acertada, aí já é outro assunto, o futuro vai dizer.

Pensando bem, acertos e erros nem estão em pauta aqui. O que importa é ter consciência de que ficar sentado esperando que a vida escolha por nós não é uma opção confortável como parece. Descansados da silva, vem o tempo e crau: nos ultrapassa.

Infelizmente não poderei votar hoje porque estou longe do meu domicílio eleitoral – vou cumprir meu dever no segundo turno, se houver.

Mas se você vai votar, não esqueça que dá pra escolher entre quem repete o mesmo discurso automático e quem apresenta soluções realizáveis.

Entre quem tem apego ao poder e quem tem consciência social. Entre quem quer trabalhar só para si mesmo e seu partido, e quem quer trabalhar pela cidade. Não vá pelos outros, não vá por pesquisas: vá pela sua cabeça. Bom voto.

Um excelente domingo, especialmente a você e vote consciente.

André Petry

Sarah Palin, o erro

" Sarah Palin está preparada para presidir os EUA? As pesquisas dizem que não. Dá para entender. Quando abre a boca, Sarah Palin faz Bush parecer um Sócrates"

Sarah Palin é um fenômeno estrondoso, raro. Quando compareceu à convenção republicana, roubou a cena, hipnotizou a platéia e levantou John McCain nas pesquisas eleitorais.

Os comícios republicanos, que sempre tiveram mais espaço que gente, começaram a lotar. Ela é um sucesso na Wikipédia (6 milhões de consultas no seu verbete em um mês) e no YouTube (4,5 milhões de acessos a um vídeo em que é satirizada por uma comediante).

Na quinta-feira, Sarah ficou frente a frente com o veterano democrata Joe Biden, no primeiro e último debate entre candidatos a vice. Sua presença fez a audiência disparar. Nunca um debate entre vices chamara tanta atenção. Sarah Palin é um fenômeno estrondoso, raro.

E sua escolha pode ter sido o erro fatal de McCain.

Primeiro, porque o que interessava aos republicanos era transformar a campanha num plebiscito sobre o democrata Barack Obama. Era o que estava acontecendo.

Quando Sarah entrou em cena, com seu carisma e exuberância, mudou a dinâmica da disputa. Obama deixou de ser a novidade, o jovem, o negro. Também havia, do outro lado, uma novidade, uma jovem, uma mulher. Parecia bom para os republicanos.

O problema é que, ao se colocar no centro do palco, deslocando a atenção plebiscitária de Obama, Sarah jogou luz sobre si mesma. E aí começa o outro aspecto do erro de McCain: quanto mais o eleitor conhece Sarah Palin, menos confia nela.

Depois de sua aparição nacional, 45% achavam-na despreparada para, eventualmente, virar presidente. Na semana passada, eram 60%. Os republicanos esperneiam. Dizem que há uma campanha da imprensa para desqualificá-la (soa familiar?). Numa entrevista, Sarah não soube dizer qual é a importância de governar o estado americano (o Alasca) mais próximo da Rússia.

Não soube mencionar uma decisão da Suprema Corte da qual discorde, além da que legalizou o aborto nos anos 70. Com tamanho potencial autodestrutivo, seria preciso orquestrar uma campanha para desqualificá-la?

Do debate, Sarah saiu elogiada porque seu desempenho não foi desastroso, e não dizimou a candidatura de McCain, como alguns republicanos temiam. É divertido um candidato ser aplaudido porque não deu vexame.

Sarah Palin entrou na chapa de McCain com dois objetivos. Um era atrair o voto feminino de democratas e independentes insatisfeitas com a derrota de Hillary Clinton – o que ela não conseguiu.

O outro objetivo era energizar os republicanos da direita religiosa que torciam o nariz para McCain – o que ela conseguiu.

O problema é que o eleitor começou a levá-la a sério. E começou a perguntar: além de tentar cabalar o voto feminino e açular os instintos mais regressivos da direita religiosa, Sarah está preparada para presidir os EUA em caso de morte ou renúncia do titular?

As pesquisas mostram que a resposta majoritária é não. Dá para entender. Quando abre a boca, Sarah Palin faz o presidente George W. Bush parecer um Sócrates.

colunadopetry@abril.com.br

Stephen Kanitz

As vantagens da democracia negativa

"Cresce a cada eleição a sensação de que a democracia não está funcionando, e só permanece como instituição na falta
de melhor opção"

As 37 formas de democracia listadas na Wikipédia são basicamente variações sobre o mesmo tema: eleitores votam diretamente nas questões que lhes interessam, como na Grécia, ou votam em representantes que vão administrar e decidir por eles, como no Brasil.

Crescem a cada eleição a desilusão e a sensação de que a democracia não está funcionando, e só permanece como instituição "porque não há forma melhor".

Existe uma outra forma de democracia, que não é listada na Wikipédia, e que vou chamar de democracia negativa. Ela existe, e já foi implantada milhares de vezes, normalmente nas empresas de capital aberto.

Ilustração Atômica Studio

Nelas, os acionistas não elegem seus representantes nem votam nas questões do dia-a-dia empresarial. O presidente, e algumas vezes toda a diretoria, é escolhido por um conselho de acionistas composto de presidentes de outras empresas, líderes comunitários e especialistas.

Essa escolha é feita levando-se em conta a capacidade administrativa dos candidatos, a experiência prática efetiva e a escolaridade técnica. Amador não entra. Muitas vezes é um funcionário com anos de casa, que já sabe exatamente o que deve ser feito, desde o primeiro dia.

Na democracia negativa o presidente não é eleito pelas promessas de campanha ou pelas suas projeções de lucro. Os acionistas nem têm como escolher o mais charmoso, o mais simpático ou o mais mentiroso.

Os acionistas, os legítimos donos da empresa, apesar de qualificados, sabem que não têm tempo para analisar cada um dos candidatos, e sabem que escolher no tapa, na semana anterior, não é uma boa decisão. Sabem também que não têm as competências necessárias para decidir quem seria o melhor administrador da "máquina" com todas as suas peculiaridades.

Não se vêem campanhas eleitorais nessas empresas, que não gastam fortunas em eleições, embora sejam justamente as que mais dinheiro teriam para isso. O conselho de administração escolhe quem é bom no batente e não quem é bom de voto.

Nas democracias negativas existe, sim, o direito de voto, mas se vota contra, daí o nome. Os acionistas têm o direito de chamar uma assembléia extraordinária a qualquer momento e demitir o presidente (mal) escolhido – o que acontece com freqüência.

Demite-se também o conselho que o escolheu. Hoje em dia, na democracia, também se vota contra, especialmente no segundo turno, cada vez com mais freqüência, o que gera enorme frustração na população, para a alegria do candidato eleito. Nenhum conselho de empresas escolhe o menos ruim para tocar a companhia, como muitas vezes fazemos.

Não confunda com o impeachment, em que há a exigência de um crime definido. Na democracia negativa basta os acionistas mudarem de idéia ou ficarem insatisfeitos. Poderíamos caminhar na direção de uma democracia negativa no Brasil, aproveitando o espírito desse conceito, sem ter de copiar o que as empresas de capital aberto fazem. Poderíamos reconhecer os votos nulo e em branco como sendo votos contra.

Se 50% dos votos fossem em branco, mostrando nossa insatisfação com os candidatos apresentados pelos caciques políticos sem nenhum critério profissional, nova eleição seria convocada com novos candidatos, até acertarmos.

Outra característica da democracia negativa que poderíamos facilmente adotar é a obrigatoriedade de um mestrado em administração de todo candidato a um cargo executivo.

Atualmente a democracia legitima profissionais de outras áreas a exercer ilegalmente a profissão de administrador, quando deveria ser o contrário.

Alguém que está disposto a ser prefeito ou governador por oito anos não tem desculpa para não estudar e se preparar por dois anos num mestrado de administração.

Amadorismo sai caro. Curiosamente, 23 milhões de brasileiros já aceitam a democracia negativa, acionistas que são da Petrobras, da Vale e de outras companhias.

Precisamos discutir e aprimorar a nossa democracia, reduzir as promessas e a gastança, e melhorar a qualidade dos candidatos para estancar a visível deterioração dessa preciosa instituição.

Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)


Padroeiro da ecologia, São Francisco de Assis levava vida despojada

Santo sonhava em ser cavaleiro, mas não conseguiu servir à guerra. Ele pregava fidelidade ao evangelho e amor à natureza. Foto: Isabela Noronha/G1

Frei abençoa cão no Santuário São Francisco de Assis, em São Paulo, em 4 de outubro de 2007 (Foto: Isabela Noronha/G1)Nascido em 1181, em Assis, na Itália, Francisco de Assis sonhava em ser cavaleiro, mas logo percebeu que não conseguiria servir à guerra.

Filho de um comerciante, ele decidiu então mudar de vida e abrir mão de todos os bens materiais para seguir o evangelho de Jesus Cristo, segundo a Igreja Católica, que comemora neste sábado (4) o Dia de São Francisco de Assis.

À Igreja, São Francisco de Assis pregava mais fidelidade ao evangelho, e foi com base nessas escrituras que ele optou pelo voto de pobreza, que caracterizaria mais tarde a Ordem Franciscana. O santo considerado patrono da ecologia dedicou sua vida à idéia de uma irmandade que integrasse todos os homens, a natureza e os animais.

São Pedro foi primeiro apóstolo escolhido por Jesus, diz Igreja São João morreu defendendo a fidelidade Santo Antônio é casamenteiro porque ajudava mulheres a arrumar dote Mensagem de paz é lembrada no dia de Nossa Senhora de Fátima Devotos celebram nesta quarta-feira o dia de São Jorge

“São Francisco de Assis pregava a paz entre as relações humanas e considerava que os animais e todos os elementos da natureza faziam parte da mesma rede, da mesma irmandade diante de Deus”, afirma ao G1 frei Luiz Henrique Ferreira de Aquino, vigário paroquial da Paróquia São Francisco de Assis, na Vila Clementino, em São Paulo.

De acordo com Ferreira, São Francisco de Assis não pretendia ser seguido em sua escolha de vida despojada, mas aceitou a criação natural da Ordem Franciscana, que comemora, em 2008, 800 anos de existência.

“Ele dizia que queria seguir Jesus porque Cristo foi pobre quando esteve entre nós. Essa é uma das verdades que seguimos também na Ordem”, diz o frei.

São Francisco morreu em 1225 ou 1226. Dois anos antes de morrer, já doente e cego, ele escreveu o Cântico do Irmão Sol, no qual, segundo Ferreira, o santo louva todos os elementos da natureza.

“Durante toda a sua vida ele tentou integrar os seres humanos e a natureza como irmãos em Deus e o hino retrata isso”, diz Ferreira.

Os frades franciscanos de todo o mundo celebram a morte de São Francisco de Assis com uma missa na sexta-feira (3). Neste sábado, as paróquias realizam a festa de São Francisco e a bênção de animais de estimação que podem ser levados à igreja.

A Paróquia São Francisco de Assis, na Vila Clementino, terá também uma feira de adoção de animais e atendimento clínico e veterinário gratuito durante a celebração do dia de seu santo padroeiro.


04 de outubro de 2008
N° 15748 - NILSON SOUZA


Com açúcar

Eduardo Galeano, o uruguaio que escreve pelos cotovelos, e sempre bem, disse em recente entrevista que a página em branco (no papel ou na tela do computador) ainda lhe causa terror. O nosso Verissimo tem uma explicação igualmente desconcertante para o seu incomparável talento de escritor e cronista.

Diz que sua inspiração é o pânico – o pânico do prazo de entrega dos textos que assina em jornais e revistas. Sempre que enfrento estas duas situações, a página em branco e o horário de fechamento desta crônica, penso nesses monstros sagrados da escrita e nas suas curiosas confissões.

Mas quem realmente me estimula a seguir em frente é a Valeska de Assis, esposa de outro mestre das letras, o reconhecido romancista Luiz Antônio de Assis Brasil.

Galeano nem sabe da minha existência, Verissimo talvez até se detenha de vez em quando neste espaço quando olha a programação de cinema aos sábados.

Mas Valeska, que também transita com desenvoltura pelo mundo das palavras e ministra concorridas oficinas de texto, sempre encontra tempo para ler o que escrevo e para me mandar uma mensagem de carinho e incentivo.

Generosa, ela pinça uma expressão ou um parágrafo menos rotineiro e dispara e-mails açucarados de simpatia. Escrever – concluo por experiência própria – também é uma questão de auto-estima.

Outro dia recebi na editoria de Opinião um interessante artigo de um professor de filosofia sobre o sofrimento dos torcedores de futebol. Quando seu time perde, ele conta, fica pouco produtivo, foge-lhe a inspiração, custa a se recuperar.

Parece exagero, mas a frustração de uma expectativa, por menor que seja, tem o poder de nos abater. Somos assim, movidos a motivação. Uma reprimenda estraga o nosso dia. Um elogio nos eleva o espírito e nos faz ver a vida com olhos de crença e esperança.

Só não podemos nos deixar enganar: muitas vezes a crítica é mais importante do que o elogio.

Sem qualquer desconsideração às gentilezas de minha leitora e amiga, sempre aprendi mais com as críticas do que com eventuais louvações. Fico, evidentemente, envaidecido com o carinho de suas mensagens.

Mas elas servem, acima de tudo, para me lembrar que um sorriso, uma palavra gentil, um elogio sincero, um gesto de atenção, todas essas coisas simples, têm o poder de dar sentido e encanto à vida.

Ótimo sábado e um excelente fim de semana.


04 de outubro de 2008
N° 15748 - CLÁUDIA LAITANO


Queda que os eleitores têm para os tolos

Entre os muitos lançamentos e relançamentos que aproveitam a renovada atenção dos leitores para a obra de Machado de Assis neste ano de centenário, um livrinho que se lê no Brique, entre um gole de chimarrão e um abanico para os conhecidos, guarda algumas reflexões que podem ser especialmente úteis neste fim de semana – tanto para mulheres que estão selecionando pretendentes quanto para os eleitores que ainda não escolheram seus candidatos.

Trata-se de Queda que as Mulheres Têm para os Tolos, pequeno ensaio satírico que tem sido objeto de uma animada polêmica entre machadianos desde que foi publicado, em 1861, quando Machado tinha apenas 22 anos.

A dúvida diz respeito à autoria do texto: seria realmente uma tradução, como aparecia na folha de rosto da primeira edição, sem o nome de um autor, ou um texto original do suposto tradutor – então ainda um jovenzinho com mais talento do que fama?

Hoje, parece não haver mais dúvida: o ensaio é mesmo uma tradução do texto de um belga chamado Victor Hénaux, como comprova a edição bilíngüe lançada agora pela editora Unicamp (que, obviamente, coloca o nome do tradutor famoso bem grande na capa, enquanto o do autor desconhecido aparece no pé, em letras miúdas).

Traduções sem a identificação da autoria original eram comuns na época, e como o escritor belga não conquistou um décimo da fama do seu tradutor brasileiro, estava aberto o caminho para a confusão.

Esclarecida a questão da autoria, permanece a polêmica em torno do conteúdo. Como o próprio autor reconhece na primeira página do ensaio, falar do amor das mulheres pelos tolos é arriscar-se a comprar briga com a maioria de um e de outro sexo.

O título, abertamente misógino na superfície, na verdade obriga o leitor do sexo masculino a encaixar-se em uma de duas posições igualmente pouco confortáveis: fracassado nas lides amorosas, porém sábio, ou partido disputadíssimo, ainda que rematado bobalhão.

Aos que não titubeariam em bandear-se para o segundo time, se tivessem escolha, o autor adverte: “A toleima é mais do que uma superioridade ordinária: é um dom, é uma graça, é um selo divino. O tolo não se faz, nasce feito”.

É preciso esclarecer que “tolo”, para Hénaux/Machado, opõe-se a “homem de espírito”. Em uma versão contemporânea, a tradução mais aproximada do sentido original do texto talvez fosse a dupla canalha/homem sincero.

A bronca do autor não é com os parvos, como o título provocador parece sugerir, mas com os homens que não levam nem a mulher nem o amor a sério – e também, evidentemente, com as moças que caem na conversa fiada do galanteador.

O homem de espírito ama muito e para sempre. O tolo desfaz-se das amantes sem pena nem esforço. O homem de espírito fala a verdade, sem calcular o efeito que ela possa ter. O tolo mente, finge, dissimula – e o remorso nunca o atormenta.

Políticos, como os amantes, podem ser “tolos” ou “homens de espírito”. Distinguir um do outro nem sempre é fácil – e mesmo se os desonestos trouxessem no pescoço uma plaqueta advertindo “não pretendo fazer nada disso que estou prometendo” ainda haveria quem se deixasse seduzir pela fala envolvente, pelas promessas mirabolantes, pelas maneiras gentis.

Pois o eleitor descuidado corre o risco de agir exatamente como uma donzela ingênua do século 19. Para continuar acreditando na política, é preciso saber encontrar os homens e mulheres de espírito em meio a todos os outros – eis nossa missão, nada simples, na votação de amanhã.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008



03 de outubro de 2008
N° 15747 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Memórias de um escritor

A história que melhor se conta é a história da própria vida. Acabei de comprovar mais uma vez essa verdade percorrendo as 228 páginas de Memórias de um Escritor de Província, de Sérgio da Costa Franco.

O gênero é pouco cultivado no Brasil. No Rio Grande, tanto quanto me lembre de momento, só se destacam mesmo Borges de Medeiros e seu Tempo e A Aliança Liberal e a Revolução de 1930, de João Neves da Fontoura, e Solo de Clarineta, de Erico Verissimo.

Mas há um divisor de águas entre essas obras. João Neves, sem deixar de lado o pronome eu, transita de uma narrativa pessoal, a de sua mocidade, para um painel dos fatos e das coisas deste Estado e deste país, que se confunde com a História. Já Erico é predominantemente confessional, embora sem esquecer a sua circunstância.

Sérgio, por seu turno, segue esta última escola, e com tal maestria, que prende o leitor a cada frase, parágrafo e capítulo. É assim que o acompanhamos de Jaguarão, onde seu pai foi barbaramente assassinado, à transferência para Porto Alegre, cenário de uma drástica mudança de vida.

A família de classe média alta teve de contentar-se com um porão na Rua Gen. Cipriano Ferreira, no Centro, e logo com um bangalô na José de Alencar, no Menino Deus.

A descrição dessa infância no final dos anos 30 é um dos pontos altos das memórias. Não me atrevo a tentar reprisá-las, nem reinventar os mínimos apartamentos que se seguiram, pois esta não é uma crônica de recriação do que já está exemplarmente escrito.

Não me tenta também imergir na aventura juvenil do Partido Comunista. Sinto apenas alguma vontade de reproduzir o absurdo incidente da prisão de Sérgio pelos emissários da redentora. Mas igualmente disso nada direi, ou privarei você que me lê dos detalhes de um episódio de insensatez.

As Memórias de um Escritor de Província são antes de tudo ricas de detalhes e acontecimentos.

A única coisa que lhes falta são páginas a mais. Pois, quando se chega ao trecho final, vem junto o impulso de retornar às primeiras linhas.

Uma ótima sexta-feira, especialmente a você e um ótimo fim de semana.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008



01 de outubro de 2008
N° 15745- MARTHA MEDEIROS


O submundo

No meio do filme, duas senhoras levantaram e deixaram a sala. Resolveram ir embora. Pena. A gente nunca entende quando alguém não gosta de algo que a gente adora, e eu estava adorando Linha de Passe.

Algumas pessoas rejeitam filmes em que não há nenhum ator famoso ou que só mostrem locais feios e pobres. É exatamente o caso do mais recente filme de Walter Salles e Daniela Thomas, cuja história se passa numa periferia de São Paulo e cujo único ator vagamente conhecido é Vinicius Oliveira, o garoto que contracenou com Fernanda Montenegro em Central do Brasil, e que hoje é um homem feito.

A atriz principal do filme é a nada glamurosa, porém extraordinária Sandra Corveloni, que só saiu do anonimato depois que ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes, desbancando Julianne Moore e Angelina Jolie.

Filme sem uma estética global, sem Zona Sul? Rapidamente lembramos de Cidade de Deus ou Tropa de Elite, dois filmes eletrizantes que nos deixaram sem fala em algumas cenas.

Nos instantes iniciais de Linha de Passe, eu esperava a qualquer momento uma cena de extrema violência, condicionada a pensar que periferia brasileira é sinônimo de submundo, lugar onde agem os criminosos. Que disparate.

Em Linha de Passe não há submundo: há o mundo. E, nele, uma família de quatro irmãos criados por uma mãe que é empregada doméstica e está grávida do quinto filho, de pai desconhecido. Todos ferrados, lógico.

Um dos filhos quer ser jogador de futebol, única via para ser “alguém”. O outro procura um rumo numa igreja evangélica.

O outro é motoboy. O menorzinho é obcecado em conhecer o pai: só sabe que ele é motorista de ônibus. E a mãe, com seu barrigão, está prestes a perder o emprego, já que não tem carteira assinada.

Ninguém é mau, ninguém é anjo: são criaturas reais. Cada um se movimenta de acordo com as oportunidades que aparecem. Todos se deixam levar por grandezas e fraquezas.

Não há degradação de valores nem superexposição de violência e de sexo para retratar a realidade de quem vive à margem. Simplesmente mostra cada um defendendo o seu. Todos errando e acertando – no caso do filme, errando mais por ingenuidade e desespero do que por mau-caratismo.

Isso é importante, pois costumamos julgar muito rápido quem está no desvio. Palavras como malandro, vagabundo ou ordinária saem de nossas bocas de forma rápida e implacável, como se a vida não fosse uma soma de fatores que nos levam a fazer escolhas boas e outras nem tanto.

O futebol está presente no filme o tempo todo. A analogia funciona. Aqui fora, prestamos atenção apenas nos titulares, sem perceber o povaréu que fica no banco, aguardando ser chamado nem que seja para jogar os minutos finais do segundo tempo e tentar virar o jogo da própria vida.

No entanto, essa maioria continuará se ferrando por absoluta falta de chance. Não há submundo algum.

Há o mundo verdadeiro de Linha de Passe, que não apresenta uma saída redentora nem um desfecho trágico. As duas senhoras que saíram no meio do filme, afinal, não perderam tanto: essa é mesmo uma história que não tem fim.

Aproveite a quarta-feira - Brinque, namore, use as prerrogativas do Dia Internacional do sofá

sábado, 27 de setembro de 2008



28 de setembro de 2008
N° 15742 - MARTHA MEDEIROS


Longa vida aos famintos

A fome é o flagelo número 1 do mundo.

Todos querem combater a fome na África, na Ásia, no Brasil, em todos os cantos onde possa haver uma criança que não usufrua do direito de se alimentar e crescer. Fome zero. De democratas a ditadores, a intenção é única: erradicá-la. Não há como manter um ser vivo com fome.

Posto isso, passo para o terreno das metáforas, que sempre nos coloca frente a frente com a ambigüidade das situações. Tendo pão e manteiga à mesa, um copo de leite, alguma proteína e vitamina, ainda assim uma criatura bem alimentada pode seguir faminta e isso lhe salvar a vida.

Não há razão para se existir com fome, mas tampouco sem fome. Alguma fome é necessária. É o que nos dá energia para levantar todos os dias.

Você tem fome de quê, perguntava uma letra de rock. De paixão, responde a maioria. Há milhares de casais que se amam e que não compreendem a razão de seguirem insatisfeitos, já que a vida lhes foi tão boa e generosa. Falta-lhes paixão, que é coisa bem diferente de amor.

Paixão mantém a falta de gravidade do corpo, os pés longe do chão, a vida de ponta cabeça, prazer e vertigem, o sim e o não convivendo no mesmo espaço de tempo. Paixão: a causa de tantos desacertos comemorados com champanha, depois das lágrimas.

A raridade de sentir-se vivo como nunca se desejou conscientemente, porque a gente sabe o tamanho da encrenca. Paixão é uma fome hemorrágica: de sangue e coração. Milhares morrem pela carência, e outros tanto vivem justamente por mantê-la como uma gula feroz: é a fome mais gloriosa.

E há a fome de vida, que é ainda mais aguda. Além de incorporar a fome por paixão, inclui a fome contraditória por liberdade, e também a fome por conhecimento, a fome pelo êxtase, a fome de sol.

Uma pessoa que atingiu a saciedade não percebe que jaz embaixo da terra, ainda que mantenha-se como um zumbi caminhando sobre ela. Morre-se de fome, mas também morre-se por não ter fome.

A fome é mais violenta que o desejo. Este está aliado à vontade, é uma intenção que mistura o emocional com o racional, já que a gente deseja com o cérebro também.

A fome, ao contrário, não pensa. Não dialoga, não negocia. É instintiva, febril. A fome é um grito de “eu quero”, “eu preciso”, sem levar em consideração tudo o que está ao redor. A fome nos expulsa da sociedade, nos desloca de toda civilização e nos isenta de todos os pecados.

Voltamos à natureza mais primitiva. A luta por esse tipo de sobrevivência nos redime de qualquer culpa e de qualquer racionalidade.

É uma necessidade vital. Como se fôssemos ursos, leoas, guepardos. Não há lei regendo nossas ações predatórias, de subsistência. Você precisa, você luta, e se tiver sorte, vence.

Olho para os lados e vejo pessoas atracadas em pratos de macarrão, sem fome alguma. Devorando carnes, bolos, doces, sem que a vida lhes pareça igualmente suculenta.

Não vão morrer de fome de comida, mas alguns correm o risco de morrer antes do tempo, saciados pelo seu vazio.


Paula Neiva e Roberta de Abreu Lima - Lew Robertson/Corbis/Latinstock

Já sobrou para a lagosta

Queda no consumo do crustáceo é sinal de que a próxima vítima pode ser o mercado de luxo

A preço de picanha

A crise econômica fez com que os americanos passassem a consumir menos lagosta. O aumento da oferta derrubou o preço da iguaria nos Estados Unidos em 25%.

No Brasil, que exporta 85% de sua produção para os EUA, o preço caiu pela metade – nos supermercados brasileiros, compra-se lagosta a preço de carne de primeira

Ainda não se sabe ao certo como a crise financeira nos Estados Unidos vai afetar o Brasil, mas pelo menos um benefício ela trouxe aos apreciadores da boa mesa – o preço da lagosta caiu pela metade nos supermercados brasileiros. Já é possível comprá-la pelo mesmo valor da picanha ou outra carne de primeira.

A explicação para isso está nos mecanismos do mercado. Diante da turbulência na economia, os americanos têm contido os gastos com produtos caros e supérfluos, como a lagosta.

A demanda em baixa fez com que seu preço despencasse 25% nos EUA desde o início do ano. O país passou a importar menos o pescado e a pagar menos por ele. O Brasil costuma exportar para os Estados Unidos 85% de sua produção de lagosta.

Com a retração dos importadores americanos, os produtores brasileiros começaram a direcionar maior quantidade do produto para o consumo interno. Resultado: o crustáceo ficou mais acessível também no Brasil.

"A lagosta é um alimento de celebração, consumido em ocasiões especiais. Se a economia vai mal, as pessoas deixam de comprá-la", disse a VEJA Bob Bayer, diretor do Instituto da Lagosta da Universidade de Maine.

Peter Kramer/AP


A crise das bolsas

Quinta Avenida, em Nova York: algumas das lojas mais caras da cidade anteciparam as liquidações

Se o que acontece com a lagosta se estender a outros produtos caros, a próxima vítima da crise deverá ser o mercado de luxo, aquele nicho de roupas, veículos e objetos pessoais que custam uma fábula, mas têm um público fiel que não se importa em sacar do cartão de crédito seja qual for o valor estampado na etiqueta.

Desde o início da década, após amargar uma retração passageira com os atentados de 11 de setembro, o mercado de luxo vem crescendo à razão de 15% ao ano.

De modo geral, o segmento é considerado um dos menos vulneráveis às trepidações da economia. Agora, começam a soprar os primeiros ventos de que a crise pode atingi-lo em cheio.

Lojas de Nova York especializadas em artigos de luxo, como a Saks Fifth Avenue e a Neiman Marcus, vêem seu faturamento aumentar a ritmo mais lento. No caso dessa última, as vendas no primeiro semestre deste ano não aumentaram em comparação com o mesmo período do ano passado.

Outra rede do gênero, a Nordstrom, teve faturamento 6% menor nos primeiros quatro meses de 2008 com relação ao mesmo período de 2007. Muitas delas anteciparam as liquidações de fim de estação deste ano.

Spencer Platt/AFP


Baixa velocidade

Feira de carros luxuosos montada em Manhattan: a venda dos modelos mais caros encolheu 10% nos EUA neste ano

Os primeiros clientes a fugir das lojas que vendem artigos de luxo não são os milionários, mas aqueles que podem comprar um ou outro objeto de desejo.

Na joalheria Tiffany & Co., celebrizada no filme Bonequinha de Luxo, a queda mais acentuada nas vendas ocorreu com as jóias que custam até 10 000 dólares.

O comércio de alianças de 50 000 dólares ou mais continua estável. O mercado de carros de luxo nos Estados Unidos, por sua vez, encolheu 10% entre janeiro e agosto deste ano em comparação com o mesmo período do ano passado.

A BMW projeta vender nos EUA, neste ano, 40 000 veículos a menos do que o inicialmente previsto. Segundo os analistas de mercado, embora a crise ainda não tenha afetado os produtos destinados aos muito ricos, pode ser questão de tempo para que isso aconteça.

"Esses consumidores geralmente são imunes às crises, mas desta vez seus investimentos podem estar ameaçados, e isso os deixa duplamente alertas", disse a VEJA o consultor americano Edward Henderson, especialista no setor de varejo da agência internacional de avaliação de risco Moody’s.

Divulgação


Vão-se os anéis

Jóia da Tiffany: alianças de até 10 000 dólares estão encalhadas

À medida que se espalham pelo mundo, os reflexos da crise americana forçam os consumidores a mudar de hábitos. Na França, 3.000 restaurantes fecharam as portas nos primeiros quatro meses deste ano – no mesmo período, as redes de fast-food triplicaram suas vendas.

Segundo os sindicatos que representam esses estabelecimentos, os hábitos dos clientes à mesa também se tornaram mais frugais, de modo a diminuir o valor da conta ao fim da refeição.

No caso do mercado de artigos de luxo, a crise que se avizinha no Primeiro Mundo pode ser benéfica para o Brasil, e não apenas por baratear o preço da lagosta.

Diz o empresário Carlos Ferreirinha, consultor especializado em mercado de luxo: "A prioridade dos grandes conglomerados desse segmento sempre foram os mercados americano e japonês.

Agora, para se estabilizar, eles contam também com os mercados emergentes, como a China e o Brasil. Isso poderá trazer mais investimentos para o país nos próximos anos".

Lya Luft

Somos um país de analfabetos

"A verdadeira democracia tem de oferecer a todos o direito de saber ler e escrever, pensar, questionar e escolher"

Segundo pesquisa do confiável IBGE, estamos num vergonhoso lugar entre os países da América Latina, no que diz respeito à alfabetização. O que nos faltou e tanto nos falta ainda? Posso dizer que tem sobrado ufanismo.

Não somos os melhores, não somos invulneráveis, somos um país emergente, com riquezas ainda nem descobertas, outras mal administradas.

Somos um povo resistente e forte, capaz de uma alegria e fraternidade que as quadrilhas, o narcotráfico e a assustadora violência atuais não diminuem. Um povo com uma rara capacidade de improvisação positiva, esperança e honradez.

Ilustração Atômica Studio

O sonho de morar fora daqui para escapar não vale. Na velha e sisuda Europa não há um sol como este. Recordo meu espanto na primeira estada por lá, num verão, vendo o sol oblíquo e pálido.

Lá não se ri, não se abraça como aqui. Eles trabalham mais e ganham mais, é verdade. A pobreza por lá é menos pobre porque, se fosse miserável, morreriam todos de frio na primeira nevasca.

O salário-desemprego é tão bom que, infelizmente, muitos decidem viver só com ele: o mercado de trabalho lá também é cruel, e com os estrangeiros, nem se fala. Em muitas coisas somos muito melhores.

Mas somos um país analfabeto. Alfabetizado não é, já disse e escrevo freqüentemente, aquele que assina seu nome, mas quem assina um documento que leu e compreendeu.

A verdadeira democracia tem de oferecer a todos esse direito, pois ler e escrever, como pensar, questionar e escolher, é um direito. É questão de dignidade.

Quando eu era professora universitária, na década de 70, já recebíamos nas faculdades vários alunos que mal conseguiam escrever uma frase e expor um pensamento claro. "Eu sei, mas não sei dizer nem escrever isso" é uma desculpa pobre.

Não preciso ser intelectual, mas devo poder redigir ao menos um breve texto decente e claro. Preciso ser bem alfabetizado, isto é, usar meu instrumento de expressão completo, falado e escrito, dentro do meu nível de vida e do nível de vida do meu grupo.

Para isso, é essencial uma boa escola desde os primeiros anos, dever inarredável do estado. Não me digam que todas as comunidades têm escolas e que estas têm o necessário para um ensino razoável, para que até o mais pobre e esquecido no mais esquecido e pobre recanto possa se tornar um cidadão inteiro e digno, com acesso à leitura e à escrita, isto é, à informação.

Um sujeito capaz de fazer boas escolhas de vida, pronto para se sustentar e que, na grave hora de votar, sabe o que está fazendo.

Enquanto alardeamos façanhas, descobertas, ganhos e crescimento econômico, a situação nesse campo está cada vez pior. Muito menos pessoas se alfabetizam de verdade; dos poucos que chegam ao 2º grau e dos pouquíssimos que vão à universidade, muitos não saem de lá realmente formados.

Entram na profissão incapazes de produzir um breve texto claro. São desinteressados da leitura, mal falam direito. Não conseguem se informar nem questionar o mundo. Pouco lhes foi dado, pouquíssimo lhes foi exigido.

A única saída para tamanha calamidade está no maior interesse pelo que há de mais importante num país: a educação. E isso só vai começar quando lhe derem os maiores orçamentos.

Assim se mudará o Brasil, o resto é conversa fiada. Investir nisso significa criar mais oportunidades de trabalho: muito mais gente capacitada a obter salário decente. Significa saúde: gente mais bem informada não adoece por ignorância, isolamento e falta de higiene.

Se ao estado cabe nos ajudar a ser capazes de saber, entender, questionar e escolher nossa vida, é nas famílias, quando podem comprar livros, que tudo começa. "Quantos livros você tem em casa, quantos leu este mês?

E jornal?", pergunto, quando me dizem que os filhos não gostam de ler. Família tem a ver com moralidade, atenção e afeto, mas também com a necessária instrumentação para o filho assumir um lugar decente no mundo. Nascemos nela, nela vivemos.

Mas com ela também fazemos parte de um país que nos deve, a todos, uma educação ótima. Ela trará consigo muito de tudo aquilo que nos falta.

Lya Luft é escritora

Um ótimo sábado e um Feliz Fim de Semana


...depois, querida, ganharemos o mundo”

A profética frase de Machado de Assis faz parte de um conjunto inédito de cartas que ÉPOCA revela com exclusividade. Hoje, o maior escritor brasileiro começa a ser reconhecido em todo o mundo
Luis antônio Giron

MATURIDADE?

A fotografia de Machado de Assis por Marc Ferrez tem a data presumida de 1890. Mas o modelo parece ter menos de 50 anos, comparado à imagem das fotos das próximas páginasNos cem anos de sua morte, comemorados nesta segunda-feira, 29 de setembro, Machado de Assis ainda é capaz de provocar surpresas.

Sua extensa obra – nove romances, 200 contos, uma dezena de peças de teatro, cinco coletâneas de poemas e milhares de crônicas – está praticamente canonizada e o torna, indiscutivelmente, o maior escritor do Brasil.

Mas quem é esse gênio? É o austero fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL)? O monstro cerebral pessimista e sarcástico como o descreviam os modernistas? Ou o herói do povo, como defendiam os primeiros socialistas?

Embora os estudos machadianos tenham gerado dezenas de milhares de títulos – Machado é o ramo do conhecimento literário brasileiro mais estudado –, sua vida permanece envolta em mistérios, em especial os anos de juventude.

Como um sujeito pobre e mestiço, numa sociedade ainda escravagista, conseguiu se tornar o mestre da cultura brasileira?

ÉPOCA teve acesso, com exclusividade, a um conjunto de cartas ainda inéditas de Machado, que ajudam a responder a essas perguntas e a desvendar o enigma machadiano. “Pela primeira vez, podemos compreender o fluxo da correspondência de Machado, suas amizades, amores, relação com a política de seu tempo e preocupações filosóficas”, diz o ensaísta e diplomata Sérgio Paulo Rouanet, da ABL.

Rouanet coordena o projeto mais arrojado do centenário de Machado: organizar em ordem cronológica toda a correspondência do escritor, tanto a escrita por ele como a recebida por ele ao longo de 50 anos de vida intelectual.

O primeiro volume do trabalho, Correspondência de Machado de Assis, Tomo I (1860-1869) , sairá em outubro. São 90 cartas. O segundo, previsto para 2009, contém oito centenas de cartas e cobre os 40 anos restantes.

O Machado de Assis que emerge dessas cartas é um personagem novo, distante dos estereótipos que nos habituamos a estudar na escola. Trata-se de um dândi, um jornalista e poeta empolgado com a frenética vida social e boêmia do Rio de Janeiro imperial. Ele sai com atrizes de teatro, conta suas aventuras aos amigos, divide confidências e dá conselhos.

Num sinal de que estava bem à frente de seu tempo, sugere à noiva a leitura de um compêndio feminista. A um amigo distante, filosofa sobre a podridão do comportamento humano e a vida na cidade.

De modo maroto, esquiva-se das ordens dos caciques políticos que chefiam o jornal em que trabalha, o Diário do Rio de Janeiro. Ele é um Machado que, mais que tudo, desce do monumento da academia e vai às ruas, rejuvenescido.

A ÍNTEGRA DAS CARTAS

As duas cartas manuscritas de Machado a Carolina que restaram da correspondência íntima do casal foram reencontradas há um mês no Museu da República, do Rio de Janeiro.

A investigação que descobriu esse novo personagem mundano começou há dois anos, sem outra intenção que ordenar um material desconhecido.

Rouanet convidou as pesquisadoras Irene Moutinho e Silvia Eleuterio para sair à cata de cartas em arquivos e bibliotecas. Logo, as surpresas e os textos inéditos começaram a vir à tona – e esse novo Machado, mais jovem e impetuoso, começou a ganhar corpo.

Uma das principais descobertas feitas por Irene está no texto de uma das duas cartas íntimas que restaram de Machado a Carolina, então sua noiva. Elas foram escritas no mesmo dia, 2 de março de 1869, quando Carolina estava em Petrópolis para tomar conta do irmão, o jornalista e poeta – e amigo de Machado – Faustino Xavier de Novaes (1820-1869).

Faustino sofria de distúrbios mentais e morreria em agosto. “Machadinho”, como Machado assinava sua correspondência a Carolina, estava aflito por reencontrar a amada.

Derramou-se em declarações e elogios a ela, numa letra apressada e nada legível. Perto da conclusão, uma palavra soava estranha a quem se acostumara com uma versão que fora divulgada em 1939, no Catálogo da Exposição do Centenário de Machado de Assis, repetida até hoje.

O trecho da carta que embatucou a pesquisadora dizia: “depois... depois, querida, queimaremos o mundo, porque só é verdadeiramente senhor do mundo quem está acima das suas glórias fofas e das suas ambições estéreis”.

O convite de Machadinho para a queimada planetária soava esquisito. “Havia algo de errado”, diz Irene. Acostumada com manuscritos, ela foi à caça dos originais, dados como perdidos.

Encontrou o documento no Museu da República, no Rio de Janeiro. As duas cartas foram doadas à instituição pela sobrinha de Machado, Laura Braga da Costa.

Irene fez a cópia das cartas e comparou-as com os textos impressos. “Notei discrepâncias e deduzi, pela análise dos garranchos, que tudo apontava para ‘ganharemos’, e não ‘queimaremos’”, afirma Irene. A carta, corrigida, ganhou um novo sentido.

Machadinho declara premonitoriamente a sua “Carola”: “...depois, querida, ganharemos o mundo”. “A sensação foi de alívio”, diz Rouanet. “Nosso Machado não era incendiário aos 30 anos, nem fez um convite terrorista a Carolina!”

AMOR DEFINITIVO

A portuguesa Carolina (em foto de c. 1890) casou-se com Machado de Assis (acima, aos 25 anos) em 1869. Ela foi trazida do Porto depois de uma suposta desilusão amorosa. Viveram juntos por 35 anos

O desejo de Machado está se cumprindo. Hoje, ele começa a conquistar o mundo. Os simpósios internacionais sobre sua obra, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, atraem a atenção de acadêmicos respeitáveis.

Críticos de alta reputação, como os americanos Harold Bloom e Susan Sontag e o inglês John Gledson, elevaram-no ao patamar dos gênios.

Em seu livro Gênio, de 2003, Bloom define Machado como “um milagre”, por ter conseguido fugir de sua situação social e histórica para criar uma ficção universal.

Seus livros foram traduzidos para 14 idiomas, a maior parte na década passada. Há, nos EUA, um entusiasmo por novas traduções.

A glória mundial de Machado será enriquecida pela redescoberta de suas cartas. Elas contêm mistérios que mostram a complexidade da relação amorosa entre Machado e Carolina. Uma das charadas da primeira carta está no terceiro parágrafo.

Ele diz: “Sofreste tanto que até perdeste a consciência do teu império; estás pronta a obedecer; admiras-te de seres obedecida”. Soa cifrado. E as únicas explicações que poderiam elucidar o enigma estariam nas demais cartas íntimas, queimadas após a morte de Machado.
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A ÍNTEGRA DAS CARTAS

As duas cartas manuscritas de Machado a Carolina que restaram da correspondência íntima do casal foram reencontradas há um mês no Museu da República, do Rio de Janeiro.

Para: CAROLINA AUGUSTA XAVIER DE NOVAIS
Fonte: MUSEU DA REPÚBLICA. Arquivo Histórico. Manuscrito original.
[Rio de Janeiro,] 2 de março [de 1869].
Minha Carola.


Já a esta hora deves ter em mão a carta que te mandei hoje mesmo, em resposta às duas que ontem recebi. Nela foi explicada a razão de não teres carta no domingo; deves ter recebido duas na segunda-feira.

Queres saber o que fiz no domingo? Trabalhei e estive em casa. Saudades de minha Carolina, tive-as como podes imaginar, e mais ainda, estive aflito, como te contei, por não ter tido cartas tuas durante dois dias. Afirmo-te que foi um dos mais tristes que tenho passado.

Para imaginares a minha aflição, basta ver que cheguei a suspeitar oposição do Faustino, como te referi numa das minhas últimas cartas. Era mais do que uma injustiça, era uma tolice.

Vê lá; justamente quando eu estava a criar estes castelos no ar, o bom Faustino conversava a meu respeito com a Adelaide1 e parecia aprovar as minhas intenções (perdão, as nossas intenções!)

Não era de esperar outra coisa do Faustino; foi sempre amigo meu, amigo verdadeiro, dos poucos que, no meu coração, têm sobrevivido às circunstâncias e ao tempo. Deus lhe conserve os dias e lhe restitua a saúde para assistir à minha e à tua felicidade.

Contou-me hoje o Araújo2 que, encontrando-se num dos carros que fazem viagem para Botafogo e Laranjeiras, com o Miguel, este lhe dissera que andava procurando casa por ter alugado a outra. Não sei se essa casa que ele procura é só para ele, se para toda a família.

Achei conveniente comunicar-te isto; não sei se já sabes alguma coisa a este respeito. No entanto, espero também a tua resposta ao que te mandei dizer na carta de ontem – relativamente à mudança.

Dizes que, quando lês algum livro, ouves unicamente as minhas palavras, e que eu te apareço em tudo e em toda a parte? É então certo que eu ocupo o teu pensamento e a tua vida? Já mo disseste tanta vez, e eu sempre a perguntar-te a mesma coisa, tamanha me parece esta felicidade. Pois, olha; eu queria que lesses um livro que eu acabei de ler

1 Adelaide Xavier de Novais, irmã de Carolina, que viera para o Brasil pouco depois desta. (IM)

2 Provavelmente o amigo comum Manuel de Araújo*. (IM)

3 La Famille - la Mère (1865), segundo Massa (1995). Obra do polígrafo francês Eugène Pelletan (1813-1884), por quem Machado teve grande admiração desde muito jovem. Dedicou-lhe o poema “O Progresso (Hino à Mocidade)” e citou-o inúmeras vezes.

A respeito de suas idéias progressistas sobre a emancipação feminina, escreveu, em crônica publicada pelo Diário do Rio de Janeiro (21/11/1861):


há dias; intitula-se: A família3. Hei de comprar um exemplar para lermos em nossa casa como uma espécie de Bíblia sagrada. É um livro sério, elevado e profundo; a simples leitura dele dá vontade de casar.

Faltam quatro dias; daqui a quatro dias terás lá a melhor carta que eu te poderei mandar, que é a minha própria pessoa, e ao mesmo tempo lerei o melhor (...)4.

“Pretende Eugène Pelletan que a mulher, com o andar dos tempos, há de vir a exercer no mundo um papel político. Sem entrar na investigação filosófica da profecia, a que dá uma tal ou qual razão a existência de certas mulheres da sociedade grega e da sociedade francesa, eu direi que é esse um fato que eu desejava ver realizado, em maior plenitude do que pensa o autor da Profession de Foi.

Eu quisera uma nação, onde a organização política e administrativa parasse nas mãos do sexo amável, onde, desde a chave dos poderes até o último lugar de amanuense, tudo fosse ocupado por essa formosa metade da humanidade. O sistema político seria eletivo.

A beleza e o espírito seriam as qualidades requeridas para os altos cargos do estado, e aos homens competiria exclusivamente o direito de votar. / Que fantasia! Mas, enquanto esperamos a realização dessa linda quimera, à mulher cabem outros papéis, que se não satisfazem a inspiração de um humorista, podem contentar plenamente o espírito de um filósofo e de um cristão.” (IM)

4 Esta carta, incompleta, e a anterior – tão emocionantes – são o que restou da correspondência de Machado e Carolina. Ambas pertenceram à sobrinha e afilhada do casal, e herdeira universal de Machado, Laura Braga da Costa, mais tarde Laura Leitão de Carvalho (1894-1988).

Concordam os biógrafos ao afirmar que, a pedido expresso do escritor, após seu falecimento fossem destruídos os papéis e outras recordações de sua companheira. Porém, um relato de Herculano Borges da Fonseca (1960) altera um pouco essa versão. Referindo-se ao pequeno móvel queimado com as relíquias, diz o autor:

“O famoso móvel, comprado por Carolina com suas economias mensais, foi mandado entregar por Machado às irmãs Pinto da Costa, que moravam perto, com instruções para que estas o dessem a minha tia, Fanny de Araújo, então residente na rua Moura Brasil, a quem Machado e Carolina votavam excepcional afeição.

Sua vontade foi cumprida. Entretanto, jamais consegui apurar, com certeza, se Machado quisera as cartas queimadas ou não. / Sempre ouvi contar que tia Fanny o fizera para que olhos estranhos não profanassem o santuário de amor doméstico do casal;

sempre ouvi observações de pessoas que ficaram inconsoláveis com o zelo excessivo de minha tia que, espontaneamente ou cumprindo instruções de Machado, agira em relação a ele e a Carolina, pensando mais nos grandes amigos que no escritor.

De qualquer forma, recatado como foi, estou certo de que o autor do Memorial de Aires ratificaria, com um sorriso irônico, aquela deliberação, que veio privar-nos, os bisbilhoteiros da posteridade, do maior e mais saboroso quitute e da mais preciosa relíquia de seu pequeno mundo.

Revista da Sociedade dos Amigos de Machado de Assis n.º 3, 1960. (IM)

sexta-feira, 26 de setembro de 2008



26 de setembro de 2008
N° 15740 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Breve ensaio de eternidade

Nunca estou só nesta sala. Me acompanha sempre a galeria de retratos que reuni ao longo dos anos e que são cúmplices testemunhas de minha vida.

Tudo começou como um jogo do acaso. Encontrei, depois de muito perdida, uma foto minha e de meus pais. Eles sorriem para mim. Eu, nos meus três meses de idade, me volto para um flagrante da vida irreal, talvez um gato, talvez uma andorinha, talvez ainda uma gota de chuva, pois faz agosto e o inverno é rigoroso.

Rigorosa será também minha vida, mas naquele instante de nada sei. Creio também nem suspeitar, nas sucessivas fotos que fui redescobrindo, em que estamos de novo os três – e logo somos quatro e cinco e seis.

E já que éramos múltiplos – e tão unidos em festas de aniversário, momentos de alegria, encontros de improviso –, decidi juntar todas essas fotos e emoldurá-las. Mas aí me bateram as perguntas inaugurais: Quem sou? De onde venho? Para onde vou?

Tentei respondê-las abrindo as gavetas do passado. Estes são meus avós. Aqueles ali não, são meus bisavós, meus trisavós, os pais de meus trisavós. E a todos dei competente moldura, embora algumas fotos estivessem tão desmaiadas quanto uma lembrança que sente de repente a tentação do eclipse.

A esta altura já tinha reservado nesta sala duas prateleiras para abrigar os recém-chegados de ontem e anteontem. Sobravam espaços – e abri a galeria de hoje. Hoje somos assim, logo não teremos idéia de como seremos. E amanhã?

Providenciei imediatamente a ala do futuro, prontamente preenchida com as fotos de meus filhos e de meus netos. Há um problema com os meus netos: estão sempre crescendo.

Mas como ainda sobram pequenas alamedas nas estantes, resolvi que vou ocupá-las com o seu florescimento. Nunca estou só nesta sala.

Nela está a imagem de minha vida e de todas as vidas que vieram antes de mim – a de quantos recém estão aportando a este breve ensaio de eternidade.

Ótima sexta-feira e um excelente fim de semana

quarta-feira, 24 de setembro de 2008



24 de setembro de 2008
N° 15737 - MARTHA MEDEIROS


Os créditos finais

A gente pode catalogar as pessoas através de vários critérios.

Uma vez a jornalista Monica Waldvogel disse que classifica a população em dois grupos: os que estacionam seu carro na primeira vaga que aparece, mesmo que esteja a cem metros do local onde se deseja ir, e aqueles que vão até a frente do local, certos de que conseguirão uma vaga bem ali – e conseguem.

Claro que isso diz muito sobre a determinação, o positivismo e a autoconfiança de alguém.

E eu, como demarcaria as fronteiras entre os grupos? Fui ao cinema esta semana e cheguei à conclusão de que também existem duas espécies bem distintas: as que levantam da poltrona assim que o filme acaba e aquelas que ficam sentadas lendo todos os créditos finais, e só então deixam a sala.

Não existe, claramente, um julgamento maniqueísta entre os dois grupos da Monica. Os que estacionam na primeira vaga que surge podem ser considerados precavidos, responsáveis, planejados.

E os que arriscam e vão com o carro até a frente do local onde desejam ir podem ser considerados ousados, seguros, otimistas. Nos dois casos, o juízo de valor é positivo.

Mas, no caso dos créditos finais dos filmes, não é bem assim.

Os que saem no momento em que o filme acaba demonstram não ter o menor interesse pela ficha técnica, não estão nem aí para o trabalho que cada profissional teve para que aquele filme ficasse bacana do jeito que ficou.

Não faz a menor diferença o nome dos dublês, ou dos figurantes, ou o playlist da trilha sonora.

Quem sai imediatamente do cinema é apressado, não quer perder tempo. Curtiu o filme e agora não vê a hora de buscar o carro no estacionamento e ir jantar, ou voltar pra casa.

Não é exatamente um pecador, uma pessoa de má índole – de jeito nenhum. Mas é diferente daquele que esperou mais cinco minutos dentro da sala.

Quem fica sentado vendo os créditos finais é uma pessoa, antes de tudo, calma. Ulalá, será que isso ainda existe, pessoas calmas? Ela não está aflita pra sair do estado de encantamento que o filme provocou.

E tem uma curiosidade quase infantil de enxergar por trás das cortinas, espiar os bastidores, saber o nome daquele anônimo que fez papel de guarda de trânsito, ou o nome daquela loirinha que fez uma ponta como garçonete.

E será que aquele ator que fez uma rápida aparição de três minutos é mesmo quem se está pensando? Basta aguardar os créditos e conferir.

E tem mais: quem espera os créditos sabe que pode haver uma recompensa. Alguma cena reveladora lá no finalzinho dos créditos. Ou cenas do making of. Tem acontecido muito isso.

Eu fui assistir recentemente Quando Estou Amando, filme francês com o estupendo Gerard Depardieu e a gracinha Cécile de France e, aviso, não se deve sair antes dos créditos finais. Mas achei o filme tão arrastado que saí.

Pois é. Se pareceu que eu iria me classificar como uma boa criatura que espera as luzes se acenderem, foi só impressão. Estou no grupo dos que se mandam assim que o filme acaba. Lembro de apenas dois filmes que me prenderam na cadeira após o término:

Magnólia e Fale com Ela, e isso porque eu estava impressionada demais para conseguir me mover. Não foi por curiosidade com a ficha técnica, e sim porque uma avalanche emocional me deteve.

Na maioria das vezes, escapulo assim que termina a última cena. Eu sei, ansiedade é um defeito. Mas digo, em meu favor, que sou do tipo que dirige o carro até bem em frente onde pretendo ir e, miraculosamente, consigo vaga.

Portanto, sou uma otimista: defeitos podem ser corrigidos.

Ótima quarta-feira, especialmente a você.

domingo, 21 de setembro de 2008


FERREIRA GULLAR

Onde andarás?

Buenos Aires já foi uma alegria; a América Latina, mesmo sem Helena, fazia sentir-se menos infeliz

COMEÇO A TE esperar, gritou ela da janela do apartamento, quando ele saiu do prédio e iniciou o caminho sem volta para o outro lado do mundo.

Seu tempo em Moscou havia se esgotado, mas deixar Helena, separar-se dela para sempre, era como morrer e, ainda assim, seguia em frente pisando um chão coberto de neve naquela noite gelada. Foi quando ouviu o ruído de passos atrás de si e voltou-se. Ela se jogou sobre ele, abraçou-o e beijou-o chorando.

Em seguida, sem que ele tivesse tempo de dizer qualquer palavra, deixou-o e voltou correndo para a entrada do edifício, onde sumiu. Ele rebentou em soluços e retomou seu caminho.

Até chegar à "abchejite", ainda no metrô, a frase de Helena não lhe saía da cabeça: "Começo a te esperar". Por que dissera aquilo, se sabia que nunca mais se veriam? Talvez o disse para tornar possível uma última esperança, já que ninguém suporta o fim arbitrário de um amor feliz.

Ao chegar a seu quarto, lá encontrou um grupo de amigos, que o esperavam com cerveja e vodka para se despedirem dele festivamente. Queriam saber onde estivera até aquela hora da noite, mas ele apenas sorriu e nada revelou.

Puseram na vitrola um disco de samba, ele tomou um porre-mãe e só acordou de manhã, quando bateram à porta do quarto.

Era um funcionário do PCUS, que o levaria para o aeroporto. Como um zumbi, trocou de roupa, pegou a maleta que já estava feita, desceu pelo elevador e entrou no carro que o esperava à porta da casa de estudantes.

Como um zumbi, entrou no avião e adormeceu. Só acordou quando aterrizava em Roma, era como se acordasse de um sonho, que durara dois anos, e era agora devolvido à realidade.

Chegou ao hotel, trancou-se no quarto e, deitado na cama, abandonou-se à derrota: chorou sem aflição, sem desespero, as lágrimas descendo-lhe dos olhos e ensopando-lhe a camisa.

Nada fez para parar o choro, disposto que estava a chorar tudo o que devia chorar, até não mais ter lágrimas nem necessidade.

Quando terminou, sentiu-se aliviado e vazio, um morto-vivo, que se ergueu, lavou o rosto e voltou a sentar-se na cama. Ainda bem que, na manhã seguinte, voaria para Santiago do Chile.

Na verdade, o vôo era Roma-Buenos Aires e pareceu não terminar. Nunca. Sentiu um misto de melancolia e consolo, quando o comandante informou que o avião bordejava a costa brasileira.

Consolou-se com o fato de que sobrevoava o Brasil e que, lá embaixo, estavam seus filhos, sua mulher, seus amigos, sua gente. Mas doía-lhe saber que não poderia descer em nenhuma daquelas cidades, muito menos no Rio, e voltar para casa. Por quanto tempo ainda teria que suportar o exílio?

De qualquer modo, chegar a Buenos Aires já foi uma alegria, sentiu-se quase em casa. Calle Florida, Corrientes já lhe eram familiares. Estar na América Latina, mesmo sem Helena, fazia sentir-se menos infeliz.

Em Santiago, a situação era ameaçadora, pois os inimigos do governo Allende o boicotavam, comprando tudo nos supermercados e deixando a população sem alimentos suficientes.Uma greve de transportes parara o país, ao mesmo tempo que a ameaça de golpe militar pairava no ar.

Em meio a esses problemas, ainda sentia a falta de Helena a tal ponto, que, certa tarde, ao cruzar uma avenida do centro da cidade, ele a viu entrar numa loja. Seu coração quase explode.

Entrou na loja, mas não a encontrou; ao sair, viu que ela seguia pela calçada em meio aos transeuntes. Foi atrás dela, empurrando as pessoas que lhe dificultavam a passagem, mas de nada adiantou: uma esquina adiante, ela tomou um táxi e seguiu nele.

Desapontado, voltou para o apartamento onde morava, na Providência. Só então se deu conta de que não podia ser ela, tudo aquilo não era mais que um delírio.

Passaram-se os meses, a situação política se agravou e um golpe derrubou Allende e o levou ao suicídio. Conseguiu sair do Chile para a Argentina, depois para o Peru e Buenos Aires, de novo.

A vida seguiu adiante, envolta em sustos e desespero, até que, finalmente, voltou para o Brasil. Recompôs sua vida, retomou suas ocupações e esqueceu Helena.

Anos mais tarde, porém, ao ver um filme sobre a vida de Luis Carlos Prestes, depara-se, surpreso, com ela, a mesma daqueles anos, linda, falando e rindo na casa dele, em Moscou.

Onde andará ela, hoje? perguntou a si mesmo. Àquela altura, já a URSS se acabara e, certamente, ela, que sonhava conhecer o mundo, deveria ter saído de lá.

Telefonou para um amigo, que também estivera em Moscou, e soube que ela fora para Cuba, donde seguira para Madri. Depois disso, ninguém teve mais notícia dela.

Neste domingo de vento frio e chuva fina nesta Porto e que por isso não está nada alegre...Também me pergunto: onde andarás..?