sábado, 15 de novembro de 2008



16 de novembro de 2008
N° 15791 - MARTHA MEDEIROS


O mundo dos vivos

Quando alguém morre, costuma-se dizer que não faz mais parte do mundo dos vivos. Me pergunto: é preciso morrer pra deixar de fazer parte do mundo dos vivos? Não são poucos os zumbis que andam por aí. Quantos de nós, que nos autoproclamamos vivos pelo simples fato de ainda estarmos respirando, realmente honramos o verbo viver?

Nem todos mantêm residência no mundo dos vivos. E não sabem o que estão perdendo.

No mundo dos vivos todos sentem alguma coisa. Uns sentem uma felicidade transbordante, outros estão sofrendo por amor, alguns ficam indignados, outros não conseguem conter o entusiasmo, há os que têm medo da estagnação e há aqueles que venceram esse medo e enfrentaram seus demônios.

No mundo dos vivos, não há um único habitante que diga para si mesmo: não estou sentindo nada. Se não está sentindo nada, ora, não está vivo.

No mundo dos vivos todos pensam por conta própria. Para isso, cultivam um hábito elementar: lêem. E não lêem qualquer coisa só por passatempo.

Lêem livros que abrem suas mentes, livros que estimulam sua imaginação, que os fazem rir e que os fazem ficar chocados, que os ajudam a reconhecer em si o que estava escondido, livros que provocam, livros que ousam, livros que lêem os leitores por dentro.

No mundo dos vivos, não há um único habitante que despreze o conhecimento e o acesso a novas percepções. Se despreza, ora, não está vivo.

No mundo dos vivos, além de se ler muito, reverencia-se a arte em todas as suas manifestações. As pessoas compreendem que arte é a prática do desrespeito, ótima definição que li num livro de Mario Sergio Cortella.

Respeitam-se as leis, mas aplaude-se a transgressão, o questionamento incessante, a inovação, a diferença, o inusitado. No mundo dos vivos não há um único habitante que não se sinta estimulado por aquilo que lhe inquieta. Se não se estimula, ora, não está vivo.

No mundo dos vivos, o tédio não é aceito como algo normal e inevitável. A repetição de atitudes não é considerada uma proteção, e sim um mau sintoma. Os preconceitos não são encorajados.

Do mesmo modo que há problemas, sabe-se que há soluções. No mundos dos vivos, cada dia é um presente a ser aproveitado. O que passa na tevê é entretenimento barato, o luxo está na realidade, qualquer uma que tenhamos criado com autenticidade e coragem.

No mundo dos vivos, há mais perguntas que respostas, mais audácia que conformismo, engata-se mais a primeira do que a ré. Não há um único habitante que consola-se com a própria incapacidade, ao contrário: estudar, aprender e tentar são sinônimos de viver.

Os zumbis habitam outro mundo, e não vivem: vagam.

Aproveite o domingo - Uma ótima semana

Carlos Giffoni

Quer ficar assim?

Desista. Para isso tem de contratar a personal trainer de Madonna e fazer ginástica extenuante e regime de fome

PEQUENA MESTRA

Tracy, em pose de artista: "Não trabalho com gente preguiçosa"

Quando desembarcar no Brasil em dezembro, para shows no Rio de Janeiro e em São Paulo, Madonna poderá até aproveitar a solteirice recém-adquirida, mas a companhia mais consistente (na verdade, músculo puro) será Tracy Anderson, a personal trainer de quem não desgruda, sobretudo durante as turnês.

Como exige seu ofício, Tracy, 33 anos, é uma propaganda ambulante de si mesma. Baixinha, parece insignificante na foto abaixo. Mas, mostrada em ação como na foto maior, a ex-bailarina de 1,52 metro e 44 quilos vira um fenômeno de pernas poderosas, braços esculpidos e barriga tão negativa que parece que vai encostar na coluna vertebral.

Tracy assumiu o treinamento de Madonna há dois anos e fez o impossível: esmerilhou ainda mais o corpo de uma bailarina e malhadora compulsiva que tem o compromisso perante o palco mundial de sempre fazer mais e melhor.

Chegou até a cantora por meio de uma amiga a quem prestava serviço, a atriz Gwyneth Paltrow, outro inacreditável caso de evolução estética. Por intermédio das duas clientes famosas, encarou um terceiro e bem maior desafio, o representado pela estilista Stella McCartney, cuja silhueta mais cheia já conseguiu afinar consideravelmente.

O que faz de Tracy uma instrutora tão especial? Um método de exercícios (e dieta, se precisar) que reúne intensidade brutal e muita variedade de movimentos, trabalhando em particular a musculatura periférica, de forma a deixar o corpo feminino esculpido com precisão, mas sem o jeitão pesado de quem malha demais.


"Eu tenho a sorte de conhecer dança e coreografia. Apoiada nesse conhecimento, e também em pesquisas e estudos, sou capaz de inventar equipamentos e movimentos que vão formar o corpo que a cliente quer", afirmou a VEJA, com modéstia inversamente proporcional à altura.

"Consigo olhar para uma pessoa e saber exatamente do que ela precisa. Exijo o compromisso de treinar seis dias por semana, umas duas horas por dia. Se esse esquema for seguido, os resultados são imediatos. Reduzo qualquer manequim 44 para 36."

Tracy é dona de uma academia de ginástica em Los Angeles desde 2004 (pretende abrir outra em Nova York em 2009).

Chama-a pelo nome mais chique de "estúdio" e resume em poucas palavras o que atraiu a clientela famosa: "Todo mundo começou a ver resultados incríveis". Inclusive Gwyneth, que em 2006, com 9 irremovíveis quilos a mais decorrentes da gravidez do segundo filho, recorreu a seus préstimos, gostou, indicou para as amigas e mudou a vida da treinadora.

No estúdio, os alunos têm aulas particulares – mensalidade de 575 dólares, ou 1 300 reais – num aparelho cheio de molas e cordas chamado Hybrid Body Reformer, que Tracy projetou e para o qual criou cerca de 3.000 movimentos.

Um dos talentos dela é justamente inventar exercícios, quase todos baseados em seus tempos de balé, e depois adaptá-los à esteira, aos levantamentos de peso, aos abdominais e às frenéticas coreografias que preconiza. Nascida em Indiana, Tracy foi à meca dos aspirantes a artista, Nova York, decidida a fazer carreira na dança.

O sonho gorou quando engordou 15 quilos. Na busca de meios de voltar à forma ("Nada que existia no mundo funcionava comigo"), pesquisou durante dez anos, desenvolveu seu próprio método e mudou-se para o mundo da educação física.

Sempre por perto das três meninas poderosas, Madonna, Gwyneth e Stella, Tracy está solteira e tem um filho de 10 anos. Não se mete de jeito nenhum no divórcio da cantora, cercado de boatos de que a dedicação dela à malhação era tamanha que não abria espaço às obrigações conjugais com o ex, Guy Ritchie.

Mas, de forma geral, o que Tracy acha melhor, sexo ou ginástica? "No momento, ginástica", responde. Jura que adora comer, embora o cardápio seja desanimador.

"Barrinhas de cereal, que, além de gostosas, são muito nutritivas"; sucos verdes "com muita cenoura, espinafre e repolho"; bebidas energéticas ("Sou viciada"); e à noite pratos leves, "como uma salada com salmão ou frango".

Passa a maior parte do tempo em Nova York e Londres, cuidando das clientes famosas, mas agora o mundo dela gira inteiramente em torno de Madonna. Seu dia começa às 7 horas e acaba por volta de meia-noite, dividido entre a manhã com o filho, depois treino pessoal e, por fim, a ocupação principal – Madonna, Madonna e Madonna.

"Tenho de exercitá-la e cuidar da preparação para suas apresentações quase toda noite", diz. Para a cliente de 50 anos com corpinho fenomenalmente esculpido de 30, só tem elogios: "Ela é extremamente talentosa e dedicada. Eu não trabalho com gente preguiçosa". Dá para perceber.

Claudio de Moura Castro

Ônibus é educação?

"A globalização é vista como ameaça. Mas aprender com o que deu certo em outras partes também é globalização"

Um prefeito do Vale do Jequitinhonha fez questão de me mostrar seus dois ônibus escolares, recém-importados dos Estados Unidos. Com eles, eliminava as escolas rurais de classes multisseriadas.

Ou seja, escolas com apenas uma sala de aula reunindo alunos de várias séries no mesmo espaço. Pior, obrigando a única professora a lidar ao mesmo tempo com alunos de diferentes níveis de conhecimento.

Faz mais de um século que as escolas começaram a separar os alunos de acordo com o ano em que ingressaram. Isso permitiu ensinar a cada grupo o que corresponde ao seu nível de avanço. É a escola que conhecemos. O que hoje parece uma invenção trivial trouxe uma pequena revolução.

A Unesco e o Banco Mundial revisaram as pesquisas sobre o desempenho das escolas multisseriadas na África, na Ásia e em outras regiões pobres. Quase sempre os resultados obtidos nessas escolas são amplamente inferiores aos das seriadas. Portanto, devemos louvar o prefeito, por haver comprado seus ônibus.

Será? Em conversa com Thorsten Husen, considerado o decano dos educadores europeus, perguntei-lhe o que achava das escolas multisseriadas. Ele me ofereceu dois comentários. O primeiro é que havia estudado em uma, na zona rural da Suécia. O segundo é que não se sentia absolutamente prejudicado por haver freqüentado tal escola. O ensino era, pelo menos, tão bom como o das outras.

Ilustração Atômica Studio

Ainda hoje, sem exceções, todos os países europeus adotam essas escolas. Seu número é significativo. Os Estados Unidos e o Canadá também. Há muitas escolas assim, e elas voltaram a se expandir nas últimas duas décadas. No mundo, cerca de 30% das escolas têm três salas ou menos.

No Canadá, 16% dos alunos estudam em classes multisseriadas. Ainda mais relevante, nos países mais ricos, as avaliações revelam resultados obtidos nessas escolas em nada inferiores aos das outras, como já havia indicado Husen. Podem até ser melhores. E são respeitadas. Não sofrem preconceitos, como aqui. Aliás, entre nós, são preconceitos quase sempre justificados, pois apresentam pior desempenho.

Perpetuou-se nos países mais pobres a idéia de que a escola multisseriada é um ícone do atraso educativo. Só se justifica quando não há densidade demográfica para preencher várias salas nem recursos para os ônibus. Mas não serão os ônibus um grande equívoco? O prefeito gastou um dinheiro que não precisava?

Milhares de outros prefeitos oneram as despesas da educação rural com transporte. Os ônibus, freqüentemente, dobram os custos por aluno. Curiosa situação: os europeus, ricos e gastadores com o ensino, adotam escolas com apenas uma sala, misturando todas as séries. Nós, pobretões, desdenhamos essas escolas e corremos a comprar os ônibus que permitem recolher a meninada toda e juntá-la em uma unidade maior, com a seriação convencional.

O enigma é de simples solução. Faz mais de 100 anos que estamos lidando com escolas em que, para cada série, há uma sala. Com a experiência, já secular, aprendemos a lidar com elas. Em contraste, rigorosamente nada conhecemos das técnicas de manejo de escolas multisseriadas. Não é surpresa que a improvisação inevitável dê maus resultados.

Os professores não têm idéia do que fazer. Os países bem-sucedidos com essas escolas desenvolveram soluções eficientes que permitem manejar as turmas com pleno sucesso. E essas técnicas são tradicionalmente ensinadas nos cursos de formação de professores.

Complicadas demais? Vejam as áreas rurais da Colômbia, onde nasceu a Escuela Nueva, programa para escolas multisseriadas. Lá foi feito substancial investimento para desenhar os métodos e técnicas apropriados.

E valeu a pena, pois o rendimento dos alunos é superior ao apresentado pelos que estudam em escolas urbanas. Deu tão certo que a Escuela Nueva está sendo adotada na zona urbana.

E, se consegue sucesso nas montanhas de Cali, teria de funcionar no Brasil. Já há algumas réplicas, nos estados do Norte e Nordeste.

E em vários casos elas funcionam muito bem. A globalização é vista como ameaça. Mas aprender com o que deu certo alhures também é globalização.

Claudio de Moura Castro é economista

Rodrigo Cardoso e Carina Rabelo

Elas estão traindo mais

Na geração até 25 anos, metade das mulheres assume que já foi infiel e o ambiente de trabalho é o local que mais favorece as escapadas

INSATISFEITA CARLA TRAIU O MARIDO PORQUE ESTAVA INFELIZ COM SUA VIDA SEXUAL

Fim do expediente. Ela recolhe a papelada da mesa, desliga o computador e sai com a nécessaire a tiracolo em direção ao banheiro. Lá, do alto de seu 1,78 metro, ajeita a meiacalça antes de caminhar sem pressa para a frente do espelho.

De olhos bem abertos, começa conferindo um tom mais vivo às bochechas alvas e termina escovando os cabelos castanho-claros até quase a cintura. Faltava apenas o batom, que ela sacou da bolsa e calmamente deslizou apenas no lábio inferior, que, por compressão, tingiu o superior.

Do lado de fora da empresa, o rapaz que a aguarda dentro do carro vê a hora no relógio e examina o movimento ao redor antes de checar o penteado no retrovisor. Tudo pronto, ela dá o passo final com uma mensagem enviada pelo celular, enquanto desce as escadas: "Oi, amor, vou entrar em uma reunião aqui no trabalho e chegarei mais tarde em casa."

O que há de novo no comportamento feminino descrito acima? Não é a mulher protagonizar uma história de infidelidade. Clássicos da literatura, como Anna Karenina, de Tolstoi, e Madame Bovary, de Flaubert, provam que o comportamento é antigo.

A novidade, segundo especialistas, é o fato de a traição praticada por elas estar cada vez mais freqüente - e não se revelar apenas no divã do terapeuta. Dados inéditos do estudo Mosaico Brasil 2008, coordenado pela psiquiatra Carmita Abdo, do Projeto Sexualidade (ProSex) da USP, revelam que cada vez mais as brasileiras pulam a cerca.

Foram ouvidas 8.200 pessoas em dez capitais (leia quadro à pág. 70). Basta um olhar sobre três gerações para ficar claro que o padrão de infidelidade delas vem se modificando. Das entrevistadas acima de 70 anos, apenas 22% confessaram ter tido alguma relação extraconjugal.

O índice sobe para 34,7% para as mulheres entre 41 e 50 anos e atinge o pico de 49,5% entre as de 18 a 25 anos. "A traição masculina ainda é maior, mas está estável. Já a praticada pela mulher tem crescido", afirma Carmita, autora de Descobrimento sexual do Brasil. Nos consultórios, a sensação é a mesma.

Especialista em relacionamento amoroso, o psicólogo Aílton Amélio da Silva, da USP, vai ainda mais longe. Para ele, a brasileira trai pouco. "As oportunidades aparecem diariamente e encontram- se pessoas bonitas o tempo inteiro", diz ele, autor do livro Para viver um grande amor. "Mas, se antigamente havia uma agulha no palheiro, hoje, com certeza, há três."

Não é à toa que o jardim do vizinho tem parecido mais interessante aos olhos do sexo feminino. O cenário atual é amplamente favorável e a liberação sexual atingiu um patamar único na história, com maridos apavorados queixando-se para o terapeuta que a esposa quer manter relações sexuais todo dia.

"Eu não tinha mais sexo em casa. Meu marido não dava conta", diz a gerente de banco paulista Carla* (*nomes fictícios), de 27 anos, que foi casada por cinco anos.

Ela trocou o marido pelo amante depois de passar dois anos mantendo um relacionamento extraconjugal. "Fiquei carente e com quem vou conversar? Com o cara que eu via todo dia: passei a me relacionar com o dono do restaurante onde eu almoçava", conta.

Especialistas no assunto afirmam que, à luz da percepção social, compreendem-se mais as escapadas femininas, apesar de o machismo ainda imperar. Não são poucos os casos em que a Justiça brasileira determinou o pagamento de uma quantia em dinheiro, como dano moral, para homens que provam ter sido traídos.

"As pessoas estão mais corajosas para tomar atitudes. A separação é uma penalidade do adultério. O dano moral é quando o adultério expõe o outro ao vexame, à hostilidade pública e ao desrespeito", explica a advogada carioca Tânia Pereira da Silva, professora da Uerj e membro do Instituto Brasileiro de Direito de Família (Ibdfam).

Há uma reviravolta histórica a se considerar também. Se antes à mulher cabia o dever de se entregar a um único homem e passar o tempo cuidando dos filhos e do lar, hoje o quadro é outro.

Houve uma queda significativa da taxa de natalidade, conquistada principalmente com a chegada dos anticoncepcionais, e a mulher, livre das amarras domésticas, optou por passar mais tempo nos escritórios e em viagens de trabalho ao lado de outros homens.

Estar em contato com o sexo oposto a maior parte do dia pode ser como riscar um fósforo ao lado de uma bomba de gasolina. É o que mostra uma pesquisa feita pela sexóloga americana Shere Hite. Segundo ela, 60% das pessoas que trabalham juntas já tiveram um envolvimento amoroso entre si.

Foi assim que a diretora de mar keting carioca Amanda* traiu o marido. "Fiquei com um amigo que trabalhava comigo na festa de final de ano da empresa, em uma boate. Cheguei em casa e meu marido estava dormindo. Deitei ao seu lado e ele nunca desconfiou", diz ela.

Com oito anos de relacionamento - metade deles casada -, a diretora de marketing pediu a separação poucos meses depois de ir para a cama com o colega de trabalho.

Antes do rompimento, encarava cada vez mais horas extras e saía com amigas com freqüência para não ter de voltar logo para casa. "Meu casamento já não tinha mais sentido", justifica Amanda, hoje, aos 39 anos.


15 de novembro de 2008
N° 15790 - NILSON SOUZA


Instantes

Nenhuma música é tão doce quanto o riso de uma criança.

Dia desses, passeava pelo centro de Porto Alegre quando vi uma mãe retirando os sapatos do seu menino para que ele caminhasse na praça colorida pelas pétalas dos jacarandás e guapuruvus. O piá pisou nas flores despedaçadas e riu um imenso riso, solto e cristalino, como se sentisse a mais prazerosa das cócegas.

Foi só um instante de magia, mas alegrou o meu dia. E me fez lembrar um trecho do célebre poema da norte-americana Nadine Stair, equivocadamente atribuído ao argentino Borges: “Se pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono...”

Há quem torça o nariz para a singeleza do texto, mas não havia legenda mais adequada para aquela cena matinal: o pequeno príncipe do cotidiano, com o seu riso de fonte, contagiava quem estivesse por perto.

Cheguei de alma leve ao trabalho e testemunhei outro momento especial no elevador. O sujeito que entrou atrás de mim segurou a porta aberta para dar passagem a um casal de jovens, ele e ela carregando pesados pacotes de jornais. Como os passageiros não podiam usar as mãos para pressionar o botão do andar desejado, o homem perguntou com um vozeirão de locutor esportivo:

– Para onde, mulato?

Quando o rapaz disse que iriam “para o quarto”, o cidadão desatou num riso malicioso que encheu o elevador e espalhou-se pelo corredor no momento em que os dois jovens desembarcaram constrangidos.

O terceiro instante diferenciado daquele dia ocorreu num lugar ainda mais inusitado, o banheiro do prédio. O rapaz que limpava pias e sanitários assobiava o hino de seu clube preferido.

E trabalhava com entusiasmo, embalado pelo som do próprio sopro, talvez imaginando-se no estádio que nunca freqüentou, vassoura-bandeira nas mãos, a bola-balde rolando na direção do gol adversário e ele dançando na imaginária arquibancada a solitária dança dos vencedores.

Ninguém é feliz o tempo inteiro, sei disso. Mas a vida também não precisa ser um vale de lágrimas.

Ao observar três personagens comuns de um dia absolutamente rotineiro, renovei minha certeza de que a verdadeira felicidade consiste em saborear pequenos momentos, em compartilhar os breves risos dos nossos semelhantes ou mesmo em acompanhar os primeiros passos de um menino descalço sobre um tapete de flores.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008



12 de novembro de 2008
N° 15787 - MARTHA MEDEIROS


Literatura menor

Um estudante de Letras me solicitou uma entrevista por e-mail que, prontamente, aceitei responder. A primeira pergunta: “A literatura de mercado é literatura mesmo?”.

Depois de 18 livros publicados, pela primeira vez entrei numa lista nacional de best-sellers. Se eu tivesse complexo de perseguição, poderia achar que fui escolhida para essa entrevista para que o garoto recebesse, direto da fonte, um panorama da pior literatura do mundo. Ainda bem que minha auto-estima está ok.

Imagino que “literatura de mercado” seja aquela que vende bem, ao contrário da literatura “artística”, que mofa nas estantes. Será? Até onde sei, toda literatura é de mercado, e dela fazem parte tanto os livros bem escritos quanto os mal escritos. Se vende, é ruim? Se não vende, é bom? Me parece um pouco simplista. Segunda pergunta:

“Qual a razão do sucesso desse tipo de literatura?”.

Creio que os leitores preferem ler algo que entendam e que seja de seu gosto, mas vá discutir gosto. O que é preciso lembrar é que um autor não produz esse tipo de literatura de caso pensado.

Alguns acreditam que basta escrever um texto fácil, de identificação imediata, e depois é só aguardar as moedas caindo na piscina, feito um tio Patinhas.

Fosse moleza assim, os “escritores artísticos” se valeriam do mesmo truque (criando um pseudônimo, lógico) e ficariam milionários da noite pro dia. Por que isso não acontece? Porque cada um escreve do jeito que sabe. Eu não sei escrever como Clarice Lispector.

Se soubesse, era o que estaria fazendo. Ninguém escreve fácil de propósito, só para estourar. Ou teríamos um Paulo Coelho em cada esquina. Quem não gostaria de possuir um apartamento em Paris onde é possível praticar arco e flecha no corredor?

Há os que exercem o dom da comunicabilidade sem abrir mão da sua honestidade artística. Não há nenhuma garantia de qualidade nisso, mas não se pode duvidar do caráter de quem vende direitinho.

“Acredita que a literatura de mercado tem como mérito a formação de novos leitores?” Sem dúvida. Eu, por exemplo, virei uma leitora através de Monteiro Lobato, que era muito popular quando eu era criança, o que o enquadraria em literatura de mercado, suponho.

“A literatura menor pode incentivar leituras de obras maiores?”

Sim, um leitor pode começar lendo a mim e chegar a García Márquez. Mas o que importa é que tenha prazer pela leitura, o que já é um avanço num país de iletrados, onde milhões de pessoas nunca seguraram um livro.

“A literatura séria está fadada ao desaparecimento?”

Vivemos na eterna expectativa do apocalipse. A humanidade é viciada em previsões catastróficas, sempre profetizando o fim do sublime.

Humildemente, acho que ninguém tem procuração para sacramentar o que é “sério” – e muito menos para tornar essa seriedade inquestionável. Já ouvi o genial Ferreira Gullar dizer que acha Beckett um chatonildo.

Ou seja, é importante estudar teoria da literatura, desde que ninguém seja catequizado. Opinião pessoal também conta.

Ótima quarta-feira - Aproveite o dia

segunda-feira, 10 de novembro de 2008



10 de novembro de 2008
N° 15785 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Da fama e do dinheiro

Success. É com essa brevíssima palavra que Somerset Maugham conta a si mesmo, em seu diário (A Writer’s Notebook), que se tornara rico e famoso do dia para a noite. Quatro de suas peças atraíam multidões aos teatros de Londres e lhe rendiam, há precisamente cem anos, 750 libras por semana, uma fortuna em qualquer moeda na época.

Eis aí um tema que sempre me despertou curiosidade. A trajetória de alguém deve ser medida por seu êxito e sua fortuna no caminho que escolheu? No caso do velho bruxo inglês não sucedeu exatamente assim.

Ganhou rios de dinheiro num gênero ao qual não atribuía grande importância: a dramaturgia. Era um romancista e – quilômetros além disso – um contista.

Os críticos jamais lhe perdoaram um deslize: converteu-se num milionário com o produto de seus livros. Ainda existe aliás uma bem orquestrada conspiração para sentenciá-lo ao posto de um escriba de terceira categoria.

Creio que Erico Verissimo e a Editora Globo foram dos raros a intuir, no Brasil da década de 30, que o autor de O Fio da Navalha e O Tesouro se alinhava à estirpe de um Fielding ou de um Maupassant.

Esses tempos, procurei visitar a Villa Mauresque, sua casa na Riviera Francesa. Dois obstáculos me impediram a entrada: os muros da mansão e um guia americano, cavalheiro que demonstrou tanto interesse pela literatura quanto eu tenho pela malacologia.

Mas aqui dou meia-volta e retomo o prumo destas poucas e maltraçadas. Não, não creio que o êxito e a riqueza devam ser norte e guia da jornada de um escritor. Maugham observou apenas a esse respeito que o dinheiro é o sexto sentido que nos permite desfrutar melhor dos outros cinco.

Acumular cabedais e aplausos é por vezes questão de sorte ou de berço. Bem mais raramente, o prêmio ao talento ou ao gênio.

William Somerset Maugham é hoje recordado por uma dezenas de criações imortais, a começar por Servidão Humana, não pelo requinte de Villa Mauresque, a tonelagem de seu iate ou o número de Rolls Royces estacionados em sua garagem. Tenho visto velhos exemplares de suas obras nos balaios da Feira. Há sempre compradores para eles.

O que me leva a pensar que o destino é um deus caprichoso. Recompensa com a glória quem jamais sonhou com ela e trata a pão e água quem lhe vota a mais intensa paixão.

Uma ótima segunda-feira e uma excelente semana.

sábado, 8 de novembro de 2008



09 de novembro de 2008
N° 15784 - MARTHA MEDEIROS


Caça às bruxas

É uma cena clássica: o homem vê um belo exemplar de fêmea caminhando pela calçada. Ela está de costas pra ele. Um corpo ótimo, cabeleira até a cintura. Uma gatinha. Então ele passa por ela, vira para ver o rosto e surpresa: não é uma gatinha, é uma mulher de mais de 40 anos. De corpo ótimo e cabeleira até a cintura, e daí?

Daí que essa cena me parece meio macabra. Um homem maduro não se importaria, mas um garoto de 17 se sente enganado, já que se convencionou que mulheres, depois de uma certa idade, precisam tomar juízo e aparar as melenas, caso contrário, correm o risco de receber uma vassoura e um caldeirão de presente.

Ainda assim, mesmo com toda a campanha para que os cabelos subam à medida que o corpo cai, é um sacrilégio pedir que as mulheres tosem os cabelos por força da “adeqüação”. Ora, que os cortem por causa da moda, da tendência, da renovação, mas não por imposição social.

Legislando em causa própria de novo?

Pois é. Nasci carequinha, e carequinha fiquei por anos, apenas com umas mechinhas ralas, pífias, com as quais eu nada podia fazer. Na adolescência, o cabelo não era lá muito farto também. Não crescia. Eu olhava para aquelas meninas de cabelão liso, escorrido, brilhoso, e pensava que Deus não era justo. Foi mais ou menos nessa época que abandonei a Igreja e comecei a rezar pelo Capilax.

Mais tarde, só bem mais tarde, é que meu cabelo cresceu e apareceu, e eu fiz as pazes com o Senhor. Finalmente longo, eu podia fazer o que bem quisesse com ele, de rabo-de-cavalo a coque, mas eu quase sempre o deixava solto, e solto ele seguiu comigo. Hoje, não chego a ser uma rapunzel, mas ainda o mantenho abaixo do ombro.

Cortar não precisaria ser uma idéia torturante. Bastaria a gente se inspirar no que acontece no outro lado do mundo. Na Europa, o cabelo comprido foi abolido das cabeças femininas. Em Londres, não há uma única mulher com fartura capilar. Nenhuma. Todas elas possuem um visual moderno, limpo e atualizado. Não se avista uma única Perla num raio de mil quilômetros.

Cabelão é coisa de peruana, mexicana, brasileira. Os homens gostam, dizem. E a gente se apega, faz trança, joga para um lado, puxa para trás: um exagero de cabelo, bem a nosso gosto latino.

Pra quê? Não é para manter a juventude, já que cabelo curto é que remoça. Só pode ser por amor às tradições. Apego ao passado. Culto à Iracema. Uma alma ancestral.

Ou é por covardia, mesmo.

Com que idade você acha que uma mulher deve se livrar das suas melenas históricas? Se você responder que nunca, eu pego minha vassoura e vou aí agradecer pessoalmente.

Excelente domingo, especialmente a você

quarta-feira, 5 de novembro de 2008



05 de novembro de 2008
N° 15780 - MARTHA MEDEIROS


O isopor e a neve

Aconteceu comigo. Eu, que trabalho em casa, senti uma necessidade súbita de sair, atravessar paredes, ganhar as ruas por alguns minutos, a fim de renovar o fôlego para continuar a escrever.

Precisava enviar uma correspondência e resolvi: vou a pé até uma agência dos Correios, tem uma a cinco quadras de onde moro. Fui.

Cheguei lá, não sem antes ter sido quase atropelada, foi por um triz. Despachei a carta, saí da agência e foi então que eu vi: um caminhão havia deixado cair no meio da rua um saco enorme cheio de isopor. O caminhão seguiu seu rumo sem perceber o rastro que ficou pra trás.

Em segundos, aquele isopor em lâminas foi se transformando em pedaços miúdos. Os carros passavam por cima e o isopor se desintegrava em partículas que se movimentavam para cima e para os lados em câmera lenta, de tão leves.

Parei, porque se eu atravessasse a rua de novo, não haveria uma segunda chance: seria atropelada de fato. Eu não estava mais em mim. Via nevar em Porto Alegre no meio de uma tarde de novembro. Neve de isopor.

Qualquer semelhança com Beleza Americana é, sim, uma feliz coincidência. Se você viu o filme, não pode ter esquecido aquela cena. Um saco plástico vazio sendo movimentado pelo vento durante alguns minutos.

Apenas a câmera e o saco plástico dançando em slow motion diante dos nossos olhos. Certamente, uma das cenas mais bonitas e poéticas que já vi no cinema.

Foi bem assim. Pedacinhos de isopor que pareciam flocos de neve dançavam sobre o asfalto numa tarde abafada de Porto Alegre. Carros velozes passavam por cima, e os isopores ali, flutuando lentamente, alheios à pressa urbana. O que significava aquilo?

Nada.

Por isso o estranhamento. Por isso a singeleza. As coisas sem significado são tão raras, acontecimentos gratuitos costumam ser tão despercebidos, que, se você percebe, ganha o dia.

Foi uma cena real, não de cinema, e por isso não teve trilha sonora, os motores dos automóveis violavam o silêncio, mas dentro da minha cabeça ouvi música clássica por alguns segundos, encantada com a neve no asfalto.

Aí o isopor foi se dispersando, se dispersando, e eu comecei a me sentir uma idiota parada no meio da calçada, inerte, como se tivesse testemunhado um atropelamento. Metaforicamente, é o que havia acontecido. Eu havia sido atropelada.

Não um atropelamento como quase havia ocorrido minutos antes, quando um carro tirou um fininho de mim em plena faixa de segurança, mas foi outro tipo de atropelo:

fiquei paralisada por ter sido platéia de um pouco de poesia no meio de uma tarde de um dia útil, que se mostrou útil justamente quando parei de trabalhar.

Voltei pra casa e escrevi este texto sem propósito, em homenagem à neve que também não era neve.

Você tem todos os motivos pra duvidar, mas meu livro Doidas e Santas reúne crônicas bem mais inspiradas que esta. Estarei autografando amanhã na Feira do Livro, às 18h30min. Apareça.

Ótima quarta-feira - Aproveite, ame, namore - Tenhamos todos um ótimo dia.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008



03 de novembro de 2008
N° 15778 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Pássaros de primavera

Há qualquer coisa neste apartamento onde me abrigo que atrai aladas dinastias de visitantes. Por sucessivas primaveras, isto aqui foi a pista de aterrissagem de tico-ticos, pardais e cambacicas, o palco de sua dança nupcial, o jardim de infância de seus filhotes. Depois, chegou o turno das andorinhas.

Vindas de distantes terras ou nascidas pelas vizinhanças – já que os descuidos que votamos à ronda das estações acabaram subvertendo suas migrações de antigamente –, passaram a me dar o prazer de sua companhia. Não sei quantas gerações desses pássaros de um belíssimo azul-noturno aprenderam a conhecer os mistérios da vida e do universo numa mínima sacada oculta desta casa.

Eram, não duvido, linhagens de uma mesma e imensa família. Nunca lhes pedi certidão de nascimento, mas aprendi a conhecê-las – avós, pais, filhos –, ou por certa parecença de visual e modos, ou por um certo jeito de sorrir que tinham.

Após, sobrevieram uns tempos ásperos. Desertaram-se as sacadas e jardins de meus hóspedes habituais – suponho que foram cantar todos em outras freguesias. Eis senão contudo que, numa manhã do último setembro, havendo levantado mais cedo para concluir um chatíssimo trabalho, escutei de repente arrulhos.

Arrulhos – me apresso a esclarecer – são uma fala ou conversa meiga, terna, carinhosa. Era, outra vez, um diálogo de pássaros. Não me perguntem como pude adjetivá-lo. Essas coisas não se aprendem, essas coisas são espontâneas. Me lembro que pensei: tem aves arrulhando de novo neste apartamento, e isto é bom. Refletido o que, fui cuidar de minha tarefa.

Meus atuais hóspedes formam um par com decidida queda para o romantismo. Já na antemanhã identifico suas declarações de mútuo amor e desejo.

Tem dias em que me pergunto se não serão parte de um sonho. Há outros em que me indago se não serão capítulos de minhas próprias, idas lembranças.

O resto é segredo. Nem consegui ver qualquer dos pássaros – embora os imagine índigo-blue – nem faço remota noção de seu nome ou de sua definição ornitológica.

Isso, aliás, nem importa. Na real, importa mesmo é que voltou a ser primavera por estas alturas da Rua Duque.

Ótima segunda-feira e uma excelente semana para todos nós.

sábado, 1 de novembro de 2008



02 de novembro de 2008 | N° 15777AlertaVoltar para a edição de hojeMARTHA MEDEIROSmar­thamedeiros@terra.com.br

Nadismo e tudismo

N o final de semana passado fui à festa de comemoração dos 30 anos de formatura do colégio Bom Conselho. As dinossauras estão todas bonitas e em forma, aviso antes das piadinhas.

A gente se divertiu à beça, mas o grande momento foi o discurso da Irmã Nazaré, que nos idos tempos escolares controlava quem matava aula e outros crimes dessa natureza, e que hoje, aos 85 anos, esbanja lucidez, energia e bom humor. Qual o segredo da sua vitalidade, Irmã?

– Eu não me preocupo. Eu me ocupo.

Não posso deixar de lembrar dessa resposta ao escrever sobre o assunto de capa de hoje, o Nadismo, prática difundida pelo Marcelo Bohrer, que prega a importância de não se fazer nada por alguns minutos durante o dia.

É uma proposta original e bem-vinda, porque a gente sabe o quanto é importante dar uma parada e quebrar o ritmo alucinante da nossa rotina, mas acredito que também é possível conjugar o verbo “fazer” com “relaxar”.

Meu nadismo só acontece, pra valer, durante o sono. Do momento que acordo em diante, nunca fico ao léu.

Quando não estou trabalhando ou envolvida com outra atividade obrigatória, estou lendo um livro, estou fazendo palavras cruzadas, estou revendo fotos, estou conversando com uma amiga, estou arrumando meus armários, estou assistindo a um DVD, estou retocando o esmalte das unhas, estou baixando músicas no meu iPod,

estou namorando, estou tomando um banho relaxante, estou conversando com minhas filhas, estou caminhando no parque, estou tomando um chá, estou assistindo a uma entrevista na tevê, estou me bronzeando, estou regando as flores.

Sou adepta de um nadismo produtivo, que me relaxa mais do que se eu estivesse sentada olhando para o infinito, inerte. Até lavar louça me parece algo repousante e terapêutico.

Ativar-me não faz de mim uma ansiosa, porque me ocupo com coisas que me dão prazer. Luxo, para mim, é dar bom uso às minhas horas, e consigo isso inclusive trabalhando. A minha revolução particular se deu através da prática de um “tudismo” focado no meu bem-estar e no das pessoas que convivem comigo.

Eu sei que pareço uma pessoa excessivamente plugada, e tenho realmente uma série de compromissos a cumprir, mas não sou refém deles: aprendi a dizer não, e digo.

Ter que ganhar dinheiro nunca me escravizou, e mesmo tendo contas pra pagar, como todos, não me sinto intimada a fazer coisas que não gosto. Nunca fui ambiciosa a ponto de me esgotar.

Aos que não têm pleno domínio do seu tempo, recomendo o livro do Marcelo e suas dicas para desacelerar, mas, por enquanto, não sinto necessidade de marcar um horário para me desconectar do mundo.

Meu esforço, ao contrário, deveria ser para me reconectar, porque minha mente anda cada vez mais afastada de tudo o que estressa.

Se filosofia e religião possuem algum parentesco - e acredito que possuem -, vou me manter discípula da filósofa Irmã Nazaré, me ocupando com coisas simples para viver mais e melhor, amém.

Um ótimo domingo especialmente a você.


A terra não agüenta

A humanidade já consome mais recursos naturais do que o planeta é capaz de repor. O colapso é visível nas florestas, oceanos e rios. O ritmo atual de consumo é uma ameaça para a prosperidade futura da humanidade

Roberta de Abreu Lima e Vanessa Vieira

Montagem com foto de William Whitehurst/Corbis



A exploração dos recursos naturais da Terra permite à humanidade atingir patamares de conforto cada vez maiores. Diante da abundância de riquezas proporcionada pela natureza, sempre se aproveitou como se o dote fosse inesgotável.

Essa visão foi reformulada. Hoje se sabe que a maioria dos recursos naturais dos quais o homem depende para manter seu padrão de vida pode desaparecer num prazo relativamente curto – e que é urgente evitar o desperdício.

Um relatório publicado na semana passada pela ONG World Wildlife Fund dá a dimensão de como a exploração dos recursos da Terra saiu do controle e das conseqüências que isso pode ter no futuro.

O estudo mostra que o atual padrão de consumo de recursos naturais pela humanidade supera em 30% a capacidade do planeta de recuperá-los. Ou seja, a natureza não mais dá conta de repor tudo o que o bicho-homem tira dela.

A conta da ONG foi feita da seguinte forma. Primeiro, estimou-se a quantidade de terra, água e ar necessária para produzir os bens e serviços utilizados pelas populações e para absorver o lixo que elas geram durante um ano.

A seguir, esses valores foram transformados em hectares e o resultado dividido pelo número de habitantes do planeta. Chegou-se à conclusão de que cada habitante usa 2,7 hectares do planeta por ano. Nesta conta, o brasileiro utiliza 2,4 hectares.

De acordo com a análise, para usar os recursos sem provocar danos irreversíveis à natureza, seria preciso que cada habitante utilizasse, no máximo, 2,1 hectares. Se o homem continuar a explorar a natureza sem dar tempo para que ela se restabeleça, em 2030 serão necessários recursos equivalentes a dois planetas Terra para atender ao padrão de consumo.

Essa perspectiva, conclui o relatório, é uma ameaça à prosperidade futura da humanidade, com impacto no preço dos alimentos e da energia.

Nos últimos 45 anos, a demanda pelos recursos naturais do planeta dobrou. Esse aumento se deve, principalmente, à elevação do padrão de vida das nações ricas e emergentes e ao crescimento demográfico dos países pobres.

A população africana triplicou nas últimas quatro décadas. O crescimento econômico dos países em desenvolvimento, como a China e a Índia, vem aumentando em ritmo frenético a necessidade de matérias-primas para as indústrias.

China e Estados Unidos, juntos, consomem quase metade das riquezas naturais da Terra. O impacto ambiental da China se explica pela demanda de sua imensa população e, nos Estados Unidos, pelo elevado nível de consumo.

Nas contas da World Wildlife Fund, enquanto o chinês usa 2,1 hectares do planeta, o americano chega a utilizar 9,4 hectares. Se todos os habitantes do planeta tivessem o mesmo padrão de vida dos americanos, seriam necessárias quatro Terras e meia para suprir suas necessidades.

A exploração abusiva do planeta já tem conseqüências visíveis. A cada ano, uma área de floresta equivalente a duas vezes o território da Holanda desaparece. Metade dos rios do mundo está contaminada por esgoto, agrotóxicos e lixo industrial.

A degradação e a pesca predatória ameaçam reduzir em 90% a oferta de peixes utilizados para a alimentação. As emissões de CO2 cresceram em ritmo geométrico nas últimas décadas, provocando o aumento da temperatura do globo.

Evitar uma catástrofe planetária é possível. O grande desafio é conciliar o desenvolvimento dos países com a preservação dos recursos naturais. Para isso, segundo os especialistas, são necessárias soluções tecnológicas e políticas.

"Os governos precisam criar medidas que assegurem a adoção de hábitos sustentáveis, em vez de apenas esperar que as pessoas o façam voluntariamente", disse a VEJA o antropólogo americano Richard Walker, especialista em desenvolvimento sustentável da Universidade Indiana, nos Estados Unidos.

O engenheiro agrônomo uruguaio Juan Izquierdo, do Programa das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, propõe que se concedam incentivos e subsídios a agricultores que produzam de forma sustentável.

Diz ele: "Hoje, a produtividade de uma lavoura é calculada com base nos quilos de alimento produzidos por hectare.

No futuro, deverá ser baseada na capacidade de economizar recursos escassos, como a água". Como mostra o relatório da World Wildlife Fund, é preciso evitar a todo custo que se usem mais recursos do que a natureza é capaz de repor.

Stephen Kanitz

O fim dos homens alfa

"Na próxima crise, tenha mais cuidado

com o poder de persuasão e sedução dos homens que querem aparecer"

A crise mundial que estamos presenciando é um fenômeno conhecido por zoólogos como o estouro da manada. Ela ocorre quando os machos alfa se assustam por alguma razão, seja um vulto de leão, um relâmpago ou um trovão.

Sem analisar a situação por um segundo, fogem em pânico, na esperança de que comido será o bezerro retardatário. As fêmeas, surpresas, fogem atrás, seguindo "o nobre exemplo" do macho alfa em disparada.

Os primeiros a sair gritando "fogo", numa casa de espetáculos, e dizendo que "200 bancos americanos vão quebrar e o mundo vai derreter" foram os machos alfa. O alfa dos alfas, o diretor-geral do FMI, saiu a público afirmando que as bolsas iriam derreter 20% em dois dias, algo que uma pessoa na sua posição jamais poderia dizer.

Boa parte daqueles que saíram resgatando fundos de investimento foram pessoas inocentes, que confiavam nos profissionais do Fed e do FMI. Mas, se eles mesmos estão em pânico, o pânico se espalha.

O macho alfa sobrevive usando a força bruta, e não a inteligência. Ele quer e detém o poder. É sedutor, aprende a falar bem, acha que sexo se consegue ou com poesia ou mentindo descaradamente. Numa crise, são os homens alfa os mais interessados em aparecer, no rádio ou na televisão, que, devido à concorrência, baixam seu padrão de seleção.

Eles tratam primeiro de salvar a própria pele. Raramente pensam nos mais fracos, como gostam de afirmar, muito menos procuram acalmá-los.

Nenhum alfa brasileiro saiu acalmando os investidores brasileiros ou estrangeiros, mostrando-lhes que o Brasil não tinha esse tal de "subprime", nem "alavancagem financeira", nem bancos com prejuízo, prestes a quebrar. Só disseram que a crise iria piorar e atingiria o Brasil, profecia que se cumpriu.

Nenhum alfa brasileiro saiu apresentando fatos concretos, informando que nossos bancos financiam governo, e não imóveis, que nosso crédito ao consumidor não passa dos 36% do PIB, contra os 160% do americano, que metade dos bancos já era estatal, que o momento era para comprar ações dos alfas apavorados, e não para sair vendendo junto.

"Será pior do que 1929", berrava o professor Nouriel Roubini, encantado com sua súbita notoriedade, correndo de entrevista em entrevista. "Será igual a 1929", afirmava o antigo alfa aposentado Alan Greenspan, quando o correto teria sido o silêncio.

Ilustração Atômica Studio

O desemprego nos Estados Unidos não chegará aos 24% de 1929 nem 4.000 bancos quebrarão. E, mesmo que 4.000 bancos quebrassem, o dinheiro hoje está em fundos DI, e não em contas remuneradas.

Os fundos DI e de investimento estão no nome dos cotistas, e não dos bancos. Eles conseguiram, com suas previsões, provocar uma corrida aos fundos de investimento, e não aos bancos, como em 1929.

As fotos do professor Roubini rodeado de mulheres são sintomáticas de alguém que quer ser associado aos alfas, ao contrário das fotos de Hank Paulson e Sheila Bair, do FDIC (a agência federal de seguro de depósitos), tentando conter o estouro da manada.

Como nessas horas nossos instintos são parecidos com os dos animais, machos alfa contaminam gente inocente. O homem ômega e a maioria das mulheres têm coisas mais importantes a fazer no meio de uma crise, como cuidar das crianças e das finanças em perigo, do que dar entrevistas.

Não se culpe por ter-se deixado levar por homens que você achou que eram mais inteligentes do que você. A crise caminhará para o fim quando os alfas cansarem de correr.

Na próxima crise, tenha mais cuidado com o poder de persuasão e sedução dos homens que querem aparecer.

Aplique seu dinheiro com homens ômega mais velhos, preferencialmente avós experientes, gente que não se abala com crises, pois já as viu acontecer muitas vezes. Ignore solenemente os homens alfa, daqui por diante.

Eles são um atraso evolutivo e estão em extinção. Vire a página, mude de canal. Ouça mais aquele homem ômega que você tem em casa, aquele que não se desesperou, correndo e berrando "fogo" numa casa de espetáculos.

Confie naquele que lhe deu apoio e proteção, naquele que se preocupa com os retardatários e que ficou ao seu lado. Eles são os verdadeiros "machos" da história da humanidade, o resto é balela e encenação.

Stephen Kanitz é administrador www.kanitz.com.br

José Antonio Lima

Cuidado: você pode estar tomando um placebo

Pesquisa americana mostra que 50% dos médicos receitam com freqüência placebos ou remédios sem eficácia comprovada. A prática é difundida, mas sofre críticas do ponto de vista ético e da saúde pública

Imagine que você está com uma forte dor, desmarca compromissos, falta no trabalho e corre para o médico em busca de ajuda.

No consultório, a sua expectativa é receber um remédio que fará o incômodo passar, mas existe uma grande chance, de 50% segundo um estudo divulgado na semana passada, de que o médico prescreva uma droga inócua – os placebos – ou um medicamento sem eficiência comprovada.

Em ambos os casos, a intenção é que você sinta o efeito placebo – aquele em que a simples impressão de ser medicado produz uma reação psicológica positiva que se reflete em uma melhora real no estado de saúde do paciente.

Esse tipo de prática é comum na medicina há séculos e tem sucesso relativo para determinados tipos de doentes, mas é questionada tanto do ponto de vista ético como da saúde pública.

"Dar um placebo ou um remédio que não tem eficácia provada sem o paciente saber não é ético", diz Décio Mion, coordenador do Núcleo de Apoio à Pesquisa Clínica do Hospital das Clínicas, da Universidade de São Paulo. "O médico não pode se sentir onipotente".

Duas das justificativas para dar esse tipo de medicamento são a pressa e o descaso com pacientes mais complicados, como os que têm algum nível de hipocondria.

"Para esse tipo de médico, o paciente incomoda. Parece que é muito mais fácil dar um remédio do que explicar o que pode estar causando problemas ao doente", afirma Antonio Carlos Lopes, professor titular de Clínica Médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Segundo Mion, uma motivação mais nobre para usar esse tipo de recurso é o resultado de algumas pesquisas. Em testes com pacientes hipertensos, por exemplo, chega a 20% o número de pessoas que conseguem normalizar a pressão tomando apenas placebos.

Conta muito para isso, explica Mion, o fato de a hipertensão ser uma doença com um forte componente emocional – e suscetível, portanto, ao efeito placebo.

Ainda que esse efeito positivo tenha sido demonstrado empiricamente, o uso de placebos é controlado em quase todo o mundo. No Brasil, a restrição foi ampliada em 22 de outubro deste ano pelo Conselho Federal de Medicina.

O texto da entidade proíbe a participação de médicos em pesquisas que utilizem placebo quando houver disponível tratamento eficaz já conhecido.

Para as pesquisas, a fiscalização funciona, mas o problema é quando os placebos são substituídos por remédios ineficazes. Nesses casos, não há controle.

Pesquisa

Na semana passada, pesquisadores das universidades de Chicago, Harvard e do National Institutes of Health, um dos órgãos de pesquisa mais respeitados dos Estados Unidos, publicaram no British Medical Journal (BMJ) um levantamento feito com clínicos gerais e reumatologistas, médicos que tratam com freqüência pacientes com condições clínicas debilitantes, e que são difíceis de diagnosticar.

Segundo os dados, 50% dos 679 médicos entrevistados confirmaram que receitam drogas sem efeito comprovado aos pacientes. Quase 70% dizem que o medicamento é "potencialmente benéfico, mas não usado tipicamente para a sua condição".

A pesquisa revelou que, dos remédios receitados, apenas 5% são os placebos usados em pesquisas – pílulas de açúcar (2%) e injeções salinas (3%). O grosso é formado por analgésicos que podem ser comprados em farmácias, vitaminas e até sedativos e antibióticos.

Para os médicos contrários à prática, a prescrição desse tipo de medicamento amplia o problema. "Quanto às vitaminas, não há tanto problema, mas o caso do antibiótico é ainda mais grave, pois pode criar resistência no paciente e dificultar tratamentos futuros", diz Décio Mion, do Hospital das Clínicas.

Quanto aos sedativos, o perigo é que uma pessoa medicada com um remédio desse tipo fique sonolenta, e não possa fazer atividades como dirigir ou trabalhar com materiais perigosos.

O que é preciso fazer então para escapar desse tipo de receita? Talvez o melhor seja procurar um médico que valorize a relação com o paciente.

"Muitas vezes um médico que tenha carisma, postura e esteja disponível para o paciente pode resolver o problema sem usar medicamentos, especialmente quando questões emocionais estão envolvidas", diz Antonio Carlos Lopes, da Unifesp.

Mas um outro dado da pesquisa mostra que as críticas e a polêmica acerca do tema não devem diminuir a quantidade de médicos que fazem esse tipo de prescrição.

Enquanto 50% dos entrevistados receitam placebos e remédios sem eficácia comprovada, 62% acreditam que essa prática é eticamente aceitável. Ao que parece, mesmo que os pacientes tentem evitar essa situação, a decisão está nas mãos apenas dos médicos.


01 de novembro de 2008
N° 15776 - NILSON SOUZA


A casa de livros

Muito legal o anúncio da Feira, que mostra um sobrado construído inteiramente de livros. O visitante é recebido na escada por Raul Pompéia e José Clemente Pozenato, ingressa numa área edificada sobre um alicerce de Hemingways, Camões e Joyces, com uma guarnição de obras de Thomas Mann e Dante Alighieri.

Pára diante de uma porta de Ericos, observa uma parede inteira de Nabokovs e Conrads, e pode subir para um segundo andar de Tolstois ou até para um telhado de Cervantes.

Estão todos lá, os autores da História e de muitas histórias, e devem estar lá, também, seus personagens surpreendentes, emocionantes, inesquecíveis.

Mesmo sem ter visitado o seu interior, tenho certeza de que se trata de uma casa bem-assombrada – freqüentada por heróis e vilões, mas principalmente por pessoas comuns. E são essas pessoas do povo, gente como a gente, que constituem a matéria-prima da literatura.

Pegue, por exemplo, um velho pescador solitário, entre com ele no mar atrás de um marlim disposto a lutar incansavelmente por sua vida de peixe, e você terá um romance épico e inesquecível.

Na casa dos livros impera um fantasma poderoso chamado Imaginação. Haja criatividade para construir tantos mundos de letras, na forma de contos, crônicas, poesias e romances, que enchem páginas e páginas de informação e ficção.

Quem lê tanto livro em tempos de realidade virtual? Difícil saber, mas a verdade é que esse objeto medieval, quase tosco se comparado com a parafernália tecnológica dos nossos tempos, continua atraindo a atenção e a curiosidade das pessoas.

Borges, que deve estar em algum desvão daquela casa encantada, definiu magistralmente esta invenção humana: “Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensão do seu corpo... Mas o livro é outra coisa, o livro é um extensão da memória e da imaginação”.

Há, também, uma outra simbologia na construção de livros arquitetada pela Agência Matriz para convencer o público de que ler realmente enriquece.

A casa é a proteção, é o refúgio, é o lugar onde buscamos o descanso, o alimento, o afeto e o sonho. Nada mais adequado do que uma casa de histórias encadernadas, portanto.

Abrir um livro equivale a abrir uma janela para a vida, para a luz, para o infinito, para a inigualável aventura do conhecimento.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008



29 de outubro de 2008
N° 15773 - MARTHA MEDEIROS


O anjo e o diabo

A cena é recorrente em desenhos animados e filmes publicitários. Uma pessoa está na dúvida entre seguir um caminho ou outro. Subitamente, escuta a voz de um anjinho assoprando boas dicas em um de seus ouvidos.

No instante seguinte, escuta a voz de um diabinho recomendando selvagerias. O anjinho geralmente está certo, mas as dicas dele são desprovidas de adrenalina. O diabinho geralmente está errado, mas possui idéias excitantes. A quem obedecer?

O anjinho diz para um cara: “Que história é essa de sair do trabalho no meio da tarde? Você sempre foi responsável, não coloque em risco sua boa imagem por causa de uma aventura”.

O diabinho contra-argumenta: “Ninguém vai morrer se você sair mais cedo – e a bonitona que você conheceu quer pegar um avião logo mais à noite: e se ela for a mulher da sua vida?”.

O anjinho: “Esquece isso, você perderá a chance de ser promovido por causa de uma escapulida que vai pegar supermal com seu chefe” .

O diabinho: “Seu chefe não tem aquelas pernas!!”.

O anjo e o diabo brigam incessantemente, e essa é uma das razões pelas quais a vida pode ser divertida: se a gente tivesse certeza de tudo, qual seria a graça?

Eu geralmente sigo os conselhos do meu anjo porque ele enxerga a longo prazo. O diabo tem mais humor e mais ousadia, mas ele não prevê conseqüências, vive o agora, o imediato: sempre acha que vamos morrer amanhã. Não é diabo à toa.

São dois grilos falantes que não decidem por nós, mas nos ajudam a tomar atitudes razoavelmente equilibradas. Geralmente eu aproveito um pouco do que cada um deles me sussurra e transformo em outra coisa, em um terceiro pensamento: o meu.

Essa história de anjinho e diabinho me veio à cabeça por causa do Lindemberg, o sujeito que manteve em cativeiro as meninas Eloá e Nayara no seqüestro mais destrambelhado do ano.

Ao se comunicar com os policiais, ele avisava que tinha um anjo e um diabo orientando-o. Pode-se imaginar que o anjo pedia que ele liberasse as meninas, enquanto que o diabo lhe sugeria detonar com tudo.

A gente sabe a quem ele deu ouvidos. Nem ao anjo nem ao diabo, pois são apenas duas figuras metafóricas da nossa consciência, e que consciência tinha aquele desajustado? Ele seguiu a orientação do seu abandono.

Agiu conforme o que recebeu da vida: um pai e uma mãe que por nenhum momento deram as caras, nem durante, nem depois do seqüestro, e pior: tudo indica que nem antes.

Anjinhos e diabinhos nos divertem e instigam, mas a gente conduz nossos atos, a sério, de acordo com os sussurros que nos chegam da infância. Se não vem nada de lá, só nos resta detonar com tudo.

O meu anjo está avisando que não posso perder o show do Frejat, sexta, dia 31, na Reitoria da UFRGS, ainda mais que seu disco novo, Intimidade entre Estranhos, traz nossa primeira parceria musical.

Adivinha o que o diabo me sussurrou: que vai também! Então, todo mundo lá.

Aproveite a quarta-feira - Namore - Ame - Uma ótima quarta-feira a todos nós.


29 de outubro de 2008
N° 15773 - DIANA CORSO


Amores brutos

“Quem ama não mata”. Essa era a frase das feministas, décadas atrás, protestando contra a matança de mulheres pelos seus homens. A afirmação é convincente, mas será que se trata de amor nesses casos?

O Brasil inteiro assistiu a jovem Eloá, 15 anos, ser seqüestrada e assassinada pelo seu ex-namorado Lindemberg, 22 anos. Sobre as trapalhadas policiais que redundaram no desastre só teria a opinar que a atuação sistemática de algum psi (psiquiatra, psicólogo, psicanalista) nas negociações teria melhores chances do que o telefonema da Ana Maria Braga.

O amor não é desinteressado, só dizemos “eu te amo” para ouvir, no mínimo, “eu também”. Amamos para ser amados, mas as relações amorosas possibilitam também a construção e o reconhecimento da identidade sexual: só serei homem ou mulher de verdade se houver alguém que me deseje, que satisfaça seus anseios em mim e comigo.

Na lógica masculina mais corrente, uma mulher que está satisfeita na relação confirma a virilidade do parceiro. Se ela o deixa, é como se lhe negasse a potência, se o substitui, é como se ele perdesse a disputa, comparado ao novo amor.

Por isso os homens podem ficar bem violentos nos fins dos relacionamentos ou em uma simples cena de ciúme: está em jogo sua identidade. Para certos homens, fraquejar em sua potência não é um tropeço, pode ser vivido como uma ameaça de destruição.

Por isso, muitas vezes, aquele que foi traído mata a mulher, eliminando aquela que deveria mantê-lo homem, mas fez o contrário. O fato de sua mulher gozar com outro seria, para esses machos, o mesmo que feminilizá-los, submetendo-os ao domínio do novo escolhido.

A atitude de Lindemberg baseia-se nessa lógica. Ele promoveu uma encenação patológica, acompanhada pela audiência em tempo real, daquilo que deveria manter-se apenas na fantasia.

Ele matou Eloá pelas razões acima: ela não devia seguir vivendo sem amá-lo e jamais deveria entregar seu coração para outro homem.

Óbvio que uma menina de 15 anos sequer suspeita que sua vida amorosa possa tomar esse rumo. Quanto a nós, que vimos o rapaz demarcar seu território viril como um bicho furioso e acuado, podemos tentar compreender, sem jamais perdoar, a fonte dessa loucura.

Além de perguntar-se sobre a segurança, o papel do Estado, da polícia, da mídia, da família, vale no mínimo questionar-nos por que, para certos homens, sua identidade é algo que pode se decidir na ponta do cano do revólver.

Esse nunca nega fogo, não brocha e, infelizmente, não há dúvida: Eloá nunca pertencerá a outro homem.

terça-feira, 28 de outubro de 2008



DEPOIS DAS ELEIÇÕES

Ufa! Passou a eleição. Agora já se pode novamente falar de política. Mulher e futebol terão de dividir as atenções. Durante o tempo que durou a campanha eleitoral, o jornalismo de opinião ficou amordaçado. Só a propaganda, quer dizer, a autopropaganda teve espaço na mídia.

Os políticos, que legislam em causa própria, inventaram leis que os protegem da opinião da imprensa ao longo da temporada de caça aos eleitores. Podem dizer o que bem entendem sem contestação externa.

O jogo é deles e só entre eles pode haver réplica e tréplica. Os jornalistas viram mediadores em debates tediosos. Cabe-lhes passar a palavra ou levantar a bola para o candidato chutar. É como se um clube de futebol, na semana anterior a uma decisão importante, ganhasse imunidade contra a crítica para não prejudicar o desempenho e assegurar a neutralidade.

Aproveitei, nesse tempo de censura, para tratar do assunto que mais entendo: eu. Quando cansava de mim, abordava a crise norte-americana. Claro que estava cheio de opiniões sobre os candidatos. Como não podiam ser utilizadas, acabei esquecendo-as.

A política, como o futebol, é cheia de clichês que só permanecem por falta de outra coisa para se dizer. Por exemplo, diz-se que no Brasil os partidos não têm a menor importância, que se vota em pessoas, não em partidos.

Como se explica, então, que o PMDB ficou com 1.201 prefeituras? Como se explica que PSDB, PP e PT venham em seguida, com um lote considerável de administrações? Será que o PMDB teve a sorte de contar com as boas pessoas na maioria dos municípios brasileiros? Eu voto, quando não anulo solenemente por falta de opção, em pessoas e não vejo problema nisso. Partido, como a fidelidade, é uma instituição do século XIX. Vai passar.

No Rio de Janeiro, Fernando Gabeira, candidato acima de qualquer suspeita, foi derrotado, talvez por isso mesmo, pelo quase desconhecido Eduardo Paes, que passou de severo crítico do governo federal a apoiado pelo presidente da República. Um candidato que muda de lado é mais habitual e certamente parece mais confiável. Excesso de coerência assusta. A 'pessoa' Gabeira perdeu a vaga de prefeito para o PMDB.

Nem o seu charme, nem a história do militante contra a ditadura e de ex-guerrilheiro de tanga de crochê, nem a sua postura corajosa e transparente nestes últimos anos de mensalão e máscaras caídas seduziram a maioria dos eleitores. Em torno de 900 mil foram à praia, ou a algum lugar semelhante, e não votaram. Os cariocas são especialistas em eleger nulidades ou em seguir a ordem dos seus caciques. O Rio é um curral com vista para o mar.

Porto Alegre ficou limpa durante a campanha. Tão limpa que nem parece ter passado por uma disputa eleitoral. Eu preferiria que estivesse mais suja. Campanha eleitoral é como sexo. Exijo certa meleca. Ou é fria. A nova lei valoriza a campanha asséptica e cirúrgica. Hospitalar.

Cada vez mais, o único canal de comunicação entre o eleitor e os candidatos é a mídia. Tudo gravado, produzido, maquiado, corrigido com programas de computador e arrumado para vender o produto sem suas rugas e imperfeições. É o triunfo absoluto do marketing.

A campanha é um comercial entre dois blocos de ficção. Enfim, passou, estamos livres, podemos até, se quisermos, abrir os nossos votos. Como é bom, depois de meses de silêncio político, ter novamente direito à expressão. Cheguei a pensar que Obama era candidato no Brasil. Era só a ele e a McCain que se podia criticar.

juremir@correiodopovo.com.br

Uma excelente terça-feira para todos nós

sábado, 25 de outubro de 2008



26 de outubro de 2008
N° 15770 - MARTHA MEDEIROS


Educação para o divórcio

Estou lendo O Quebra-Cabeça da Sexualidade, do professor espanhol José Antonio Marina. No livro, o autor diz que considera preocupante que os jovens estejam recebendo dos pais a experiência do fracasso amoroso.

Ao ver a quantidade de casais que se separam, a garotada vai perdendo a expectativa de ter, no futuro, uma relação saudável e sem conflito. Desencantam-se.

Creio que esteja acontecendo mesmo. Hoje o casamento já não é a ambição número 1 de muitos adolescentes, e um pouco disso se deve à descrença de que o matrimônio seja uma via para a felicidade. Se fosse, por que tanta gente se separaria?

O casamento tem sofrido tanta propaganda negativa que é preciso uma reação da sociedade: está na hora de passarmos a idéia, para nossos filhos, de que uma relação não traz apenas privações, tédio e brigas, mas traz também muita realização, estabilidade, parceria, intimidade, gratificações.

Casar é muito bom. Como fazê-los acreditar nisso, se as estatísticas apontam um crescimento incessante no número de divórcios?

Um profissional do assunto deu uma entrevista para Zero Hora alguns dias atrás (o nome dele, mil desculpas, não recordo) e disse que está na hora de educarmos os filhos desde cedo para que a idéia de separação seja acatada como algo que faz parte do casamento.

Ou seja, quando os pirralhinhos perguntarem: “Mamãe, você ficará casada com o papai para sempre?”, a resposta pode ser: “Enquanto a gente se amar, continuaremos juntos – senão vamos virar amigos, o que também é muito bom”.

Isso pode parecer chocante para quem jurou na frente do padre que iria ficar casado até o fim dos dias, mas há que se rever certas fórmulas – a começar por esse juramento que mais parece uma punição do que um ideal romântico.

Está na hora de um pouco de realismo: hoje vivemos bem mais do que antigamente, com mais saúde, mais informação e mais oportunidades.

Deve ser bastante confortável e satisfatório ficar casado com a mesma pessoa por 40 ou 50 anos, mas se a relação durar apenas 10 ou 15, é bom que a gurizada saiba: não é um fiasco. É normal.

A normalidade das coisas se adapta aos costumes. Vagarosamente, mas se adapta. Se continuarmos insistindo na idéia de que o verdadeiro amor não acaba, as crianças vão achar que o mundo adulto é habitado por incompetentes que não sabem procurar sua alma gêmea e que sofrem em demasia. Vão querer isso para elas? Fora de cogitação.

Pra evitar essa fuga em massa do casamento, a saída é, como sempre, a honestidade. Seguir educando para o “eterno” é uma incongruência.

Ninguém fica no mesmo emprego pra sempre, ninguém mora na mesma rua pra sempre, ninguém pode prometer uma estabilidade vitalícia em relação a nada, e se a maioria das mudanças é considerada uma evolução, um aperfeiçoamento, uma busca por novos horizontes, por que o casamento não pode ser visto dessa mesma forma descomplicada e sem stress?

A frustração sempre é gerada por expectativas que não se realizam. Se nossos filhos são criados com a idéia de que pai e mãe viverão juntos para sempre, uma separação sempre será mais traumática e eles também temerão “fracassar” quando chegar a vez deles.

Se, ao contrário, souberem desde cedo que adultos podem viver duas ou três relações estáveis durante uma vida, essa nova ética dos relacionamentos será absorvida de forma mais tranqüila e eles seguirão entusiasmados pelo amor, que é o que precisa ser mantido, em benefício da saúde emocional de todos nós.

Excelente domingo - Vote consciente - e uma semana iluminada para você.

sábado, 18 de outubro de 2008



19 de outubro de 2008
N° 15763 - MARTHA MEDEIROS


Gente fina

Gente fina é politica-mente correta? Se for, não sou gente fina, porque fico muito impaciente com certas cortesias exageradas. Por exemplo, outro dia estava no aeroporto e uma voz no alto-falante convidou a embarcar os passageiros da melhor idade.

Se eu tivesse cem anos, entenderia que todos deveriam passar na minha frente. Que melhor idade? Claro que alguém pode estar mais satisfeito aos 80 anos do que quando tinha 40, mas isso é levar em conta o específico.

Na hora de generalizar, sejamos menos franciscanos. Milhares de pessoas idosas têm a cabeça ótima e estão realizadas, mas se tiverem bom humor, vão dispensar o consolo: pô, melhor idade é provocação.

O mesmo sobre magros e gordos. Cada um faz o que bem entender com o próprio corpo. Comer com liberdade é um direito e ninguém tem que se sacrificar para atender a um padrão estético, mas que ser magro é melhor do que ser gordo, é.

Pra saúde é melhor, pra se vestir é melhor, pra se locomover é melhor, pra dançar é melhor. Não quer dizer que um gordo não seja feliz. Geralmente, são felizes à beça, mais do que muito varapau.

Mas se fosse possível escolher entre ser magro e ser gordo sem nenhum efeito colateral de felicidade ou infelicidade, sem nenhum esforço, só no abracadabra, todo mundo iria querer ser magro, assim como todo mundo preferiria se cristalizar entre os 30 e os 50 anos. Eu acho. A não ser que eu esteja louca, o que é uma hipótese a considerar.

Porém, melhor que tudo é ser gente fina. Finíssima. Isso nada tem a ver com a tendência atual de ser seca, de parecer um esqueleto ambulante. Gente fina é outra coisa.

Gente fina é aquela que é tão especial que a gente nem percebe se é gorda, magra, velha, moça, loira, morena, alta ou baixa. Ela é gente fina, ou seja, está acima de qualquer classificação. Todos a querem por perto.

Tem um astral leve, mas sabe aprofundar as questões quando necessário. É simpática, mas não bobalhona. É uma pessoa direita, mas não escravizada pelos certos e errados: sabe transgredir sem agredir. Gente fina é aquela que é generosa, mas não banana.

Te ajuda, mas permite que você cresça sozinho. Gente fina diz mais sim do que não, e faz isso naturalmente, não é para agradar. Gente fina se sente confortável em qualquer ambiente: num boteco de beira de estrada e num castelo no interior da Escócia.

Gente fina não julga ninguém – tem opinião, apenas. Um novo começo de era, com gente fina, elegante e sincera. O que mais se pode querer? Gente fina não esnoba, não humilha, não trapaceia, não compete e, como o próprio nome diz, não engrossa.

Não veio ao mundo pra colocar areia no projeto dos outros. Ela não pesa, mesmo sendo gorda, e não é leviana, mesmo sendo magra. Gente fina é que tinha que virar tendência. Porque, colocando na balança, é quem faz a diferença.