sábado, 6 de dezembro de 2008



07 de dezembro de 2008
N° 15812 - MARTHA MEDEIROS


A mulher independente

Estava autografando meu livro na Feira quando uma senhora alta, elegante, já bem madura, chegou sorridente pra mim e disse: Te acho uma mulher fenomenal.

Eu, toda sorrisos, tomei o livro que ela tinha em mãos e me preparei para escrever uma dedicatória bem carinhosa. Ela então complementou: Mas eu não queria ser casada contigo tu és muito independente!.

Concluí a dedicatória, agradeci a gentil presença dela, enquanto que meu coração começou a bater de forma mais lenta. “O que estou sentindo?”, perguntei a mim mesma, em silêncio. Tristeza, respondi a mim mesma, em silêncio, enquanto a próxima pessoa da fila se aproximava.

Em que eu seria mais independente do que qualquer outra mulher? Quase todas as que conheço trabalham, ganham seu próprio sustento, defendem suas opiniões e votam em seus próprios candidatos. Algumas não gostam de ir ao cinema sozinha, já eu não me importo. Poucas moraram sozinhas antes de casar, eu morei. Quase nenhuma, que eu lembre, viajou sozinha, eu já. E nisso consta toda minha independência, o que não me parece suficiente para assustar ninguém.

Fico imaginando que essa tal “mulher independente”, aos olhos dos outros, pareça ser uma pessoa que nunca precise de ninguém, que nunca peça apoio, que jamais chore, que não tenha dúvidas, que não valorize um cafuné. Enfim, um bloco de cimento.

Quando eu comecei a ter idade pra sonhar com independência, passei a ler afoitamente os livros de Marina Colasanti – foram eles que me ensinaram a importância de abrir mão de tutelas e a se colocar na vida com uma postura própria, autônoma, mas nem por isso menos amorosa e sensível.

Independência nada mais é do que ter poder de escolha. Conceder-se a liberdade de ir e vir, atendendo suas necessidades e vontades próprias, mas sem dispensar a magia de se viver um grande amor. Independência não é sinônimo de solidão. É sinônimo de honestidade: estou onde quero, com quem quero, porque quero.

Sobre a questão da independência afugentar os homens, Marina Colasanti brincava: “Se isso for verdade, então ficarão longe de nós os competitivos, os que sonham com mulheres submissas, os que não são muito seguros de si. Que ótima triagem”.

Infelizmente, a ameaça que aquela senhora acredita que as independentes representam não é um pensamento arcaico: no aqui e agora ainda há quem acredite que ser um bibelô (ou fazer-se de) tem lá suas vantagens. Eu não vejo quais.

Acredito que a independência feminina é estimulante, alegre, desafiadora, vital, enfim, uma qualidade que promove movimentação e avanço à sociedade como um todo e aos familiares e amigos em particular.

“Eu preciso de você” talvez seja uma frase que os homens estejam escutando pouco de nós, e isso talvez lhes esteja fazendo falta. Por outro lado, nunca o “eu amo você” foi pronunciado com tanta verdade.

Um ótimo domingo especialmente para você.

Diogo Mainardi

Cof, cof, cof...

"Tenho expectorado continuamente desde setembro, quando meu menorzinho me passou uma tosse. Posso não entender nada de recessão, mas me considero um especialista em matéria de expectoração"

Benjamin Steinbruch, dono da CSN, publicou na Folha de S.Paulo um artigo intitulado "Expectadores da recessão". Assim mesmo: "expectadores" com "xis". Tenho expectorado continuamente desde setembro, quando meu menorzinho me passou uma tosse. Posso não entender nada de recessão, mas me considero um especialista em matéria de expectoração.

Por isso, o artigo de Benjamin Steinbruch me fez refletir profundamente. Dá para expectorar uma recessão? Interpretei da seguinte maneira: cada pneumococo é um keynesiano em potencial, com seus estratagemas para contaminar os organismos do estado e sufocar as vias respiratórias da economia. É isso?

Se entendi direito, Benjamin Steinbruch pertence ao partido dos pneumococos keynesianos. Cito um trecho de seu artigo: "Até a semana passada, pacotes para estimular investimentos e consumo num total de 3 trilhões de dólares já haviam sido anunciados por diferentes governos.

No Brasil, o caminho é o mesmo. Uma vez que não temos por aqui nenhum problema de solidez no sistema financeiro, a tarefa é direcionar recursos a empreendedores públicos ou privados que efetivamente tenham coragem e competência para gastá-los de forma produtiva".

Cof, cof, cof. Considerando todos os recursos que, nos últimos anos, o BNDES direcionou à CSN, como os 900 milhões de reais para a Nova Transnordestina ou os 300 milhões de reais para o Porto de Sepetiba, Benjamin Steinbruch só pode ser um desses corajosos e competentes empreendedores privados que, segundo ele próprio, teriam de ser contemplados com ainda mais dinheiro público.

Pergunte ao senador petista Aloizio Mercadante o que ele pensa sobre o assunto. Aposto que ele concorda.

Achei que os keynesianos fossem mais obsoletos do que as escarradeiras dos tuberculosos, para continuar com a analogia pulmonar. Mas me enganei. Eles voltaram.

E em sua forma mais agressiva: a dos keynesianos em causa própria, como o presidente da GM, nos Estados Unidos, ou o presidente da CSN, no Brasil. Benjamin Steinbruch, o Hans Castorp da siderurgia nacional, internado em seu sanatório de verbas do BNDES – sim,

Thomas Mann, A Montanha Mágica –, conclui seu artigo recomendando que os recursos públicos "sejam realmente gastos e não fiquem debaixo dos colchões de apavorados expectadores da recessão".

Como eu sou apenas um espectador comum – um espectador com "esse" –, aconselho o governo a fazer o contrário: é melhor ficar sentado na platéia, de mãos dadas com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e assistir aos desdobramentos do espetáculo, deixando o dinheiro prudentemente debaixo do colchão.

E se um keynesiano em causa própria expectorar em sua orelha, na poltrona de trás, afaste-o imediatamente: ele é contagioso.

Lya Luft

Do horror brota a grandeza

"Na hora da tragédia, a solidariedade – que só floresce na dor – vem com força. Em algum lugar, alguém, um desconhecido que jamais iremos ver, abre os braços e diz: irmão. Essa era a palavra que, só ela, poderia nos salvar. E foi pronunciada"

Uma quadrilha de dez a quinze terroristas, meninada em torno de 20 anos, toma de assalto a lendária Bombaim, na Índia, hoje Mumbai, e sai matando a torto e a direito. Simples assim.

Com armas pesadas e moderníssimas, o bando mata sorrindo, segundo testemunhas. Entra em lugares apinhados e famosos, também na cozinha de um hotel de muitas estrelas. Um grupo de jovens chefs com animação e capricho prepara jantares para hóspedes e outros clientes.

Os meninos terroristas entram, sorriem e fuzilam todo o grupo. Saem pelo imenso hotel matando, e, depois de algumas horas (foram dias inteiros!!!), há lugares onde o assoalho é escorregadio de tanto sangue.

Até hoje não sei se tudo ficou esclarecido, pois as notícias eram vagas e confusas, e a matança dos inocentes, vasta e desordenada para quem recebia as notícias, parece que foi muito bem preparada:

havia meses a gangue assassina treinava, preparava, sondava terreno, ia se instalando nos próprios hotéis escolhidos, levando armamentos e preparando salas de comando com sofisticados recursos.

Enquanto isso, ali junto, pais de família, crianças, mulheres grávidas, simples empregados e altos funcionários, da modesta faxineira ao mais bem-posto milionário, viviam sua vidinha ou vidona, sem imaginar que sua morte espreitava com um belo sorriso num rosto de garotão.

A vida tem dessas coisas, não temos lá grande controle sobre ela, corremos muitas vezes como animais confusos para o matadouro.

Ilustração Atômica Studio

Há mais tragédias na lista do momento, como aqui ao lado, na bela, ensolarada, mágica Santa Catarina, onde meus filhos quando meninos iam surfar e eu mesma já experimentei momentos de beleza e serenidade, de pura alegria.

Agora, nesse suposto paraíso, o tsunami – relatava uma jovem vitimada pelo horror – não era água e espuma, mas lama, barro, pedras enormes, arrastando casas, árvores, corpos de gente e de bichos. Pessoas foram enterradas no quintal ou na hortinha, pois nada mais sobrava, nem um metro de terra firme.

Alguns desaparecidos jamais serão achados. Povoados não poderão ser reconstruídos, pois o terreno simplesmente sumiu. Famílias para sempre destroçadas, para todo o sempre, sem sentido, sem aviso, sem entender nada. Não há o que dizer.

Mas não é apenas isso a nossa vida: é também a revelação da grandeza humana, uma onda incessante de generosidade e compaixão.

Pessoas simples de Santa Catarina doam o essencial; acolhem em sua casa vizinhos ou desconhecidos que tudo perderam e, em boa parte, jamais vão recuperar. Gente modesta do país inteiro se mobiliza e as estradas (muitas nem existem mais) seriam insuficientes para esse tráfego de humanidade.

Empregadas domésticas dão um de seus três pares de sapatos usados; crianças dão dois de seus cinco brinquedos; famílias doam um colchão e dormem apertadas; gente manda uma lata de leite em pó e bota mais água na caneca de seus filhos.

Isso tem de valer mais do que todo o frio horror da natureza, descontrolada em parte pela nossa irresponsabilidade, ganância e despreparo, e pela fatalidade que nos ronda.

Tem de valer mais do que a perversão dos terroristas que mataram sorrindo, mais até do que a desgraça de milhares de pessoas que nada tinham a ver com isso, aqui e no outro lado do mundo: o rabino idealista com sua mulher, os garçons e camareiras, os casais em lua-de-mel, os velhos em sua primeira viagem juntos, os empresários ocupados e os funcionários esforçados, os agricultores e professoras, os namorados, as grávidas, os bebezinhos.

Na hora da tragédia, aqui e lá, a solidariedade – que só floresce na dor – vem com força. Estamos na sombra, estamos no abismo, doentes, sofridos, perdidos, órfãos e enlutados, sem ter nem para onde voltar – mas, em algum lugar, alguém, um desconhecido que jamais iremos ver, ou o vizinho próximo, no fim desse horrendo túnel, abre os braços e diz: irmão.

Essa era a palavra que, só ela, poderia nos salvar. E foi pronunciada.

Lya Luft é escritora


Guerra das bonecas

Barbie leva a melhor e Bratz podem sumir após Natal

Decisão da justiça americana ordena que MGA pare de produzir e comercializar as bonecas Bratz, que já renderam US$ 3,1 bilhões desde seu lançamento em 2001

As bonecas Bratz correm o risco de ser banidas das lojas de brinquedos dos Estados Unidos, depois que um tribunal de justiça federal americano proibiu esta semana a MGA Entertainment de fabricar a rival da Barbie. A decisão foi divulgada somente nesta sexta-feira (5/12).



A corte tomou a decisão depois que a Mattel, a maior fabricante de brinquedos do mundo e criadora da Barbie, ganhou uma causa de infração de copyright contra a MGA em agosto.

Uma juíza federal da Califórnia proibiu a MGA de vender e produzir todos os 40 modelos de bonecas multi-étnicas que fazem parte da linha Bratz.

Mas deu prazo à MGA para retirar suas bonecas de todas as lojas logo depois do Natal.

No processo, que se arrastou por meses, o designer Carter Bryant foi considerado culpado por ter desenvolvido a boneca Bratz para a MGA, enquanto ainda trabalhava para a Mattel.

A MGA já apelou, alegando que isso afetará muito a empresa, já que a Bratz é o brinquedo mais vendido da companhia. Em junho, as vendas da Bratz atingiram US$ 3,1 bilhões nos EUA desde o lançamento em 2001. As vendas da Barbie, ainda o brinquedo mais popular da América, caíram 15% em 2007.

A Mattel acha que a rival MGA não deveria lucrar em cima da desonestidade. A empresa já ganhou indenização de US$ 100 milhões em agosto, por conta da quebra de direitos de copyright e mais US$ 90 milhões por quebra de contrato. Se a MGA não conseguir recorrer a tempo, a Mattel pode usar a decisão como base para tirar as Bratz das prateleiras de todas as lojas do mundo.

A marca Bratz tem sido responsável pela queda nas vendas da Barbie desde seu lançamento em 2001. De acordo com números não oficiais, as bonecas Bratz respondem por 40% do mercado total de bonecas nos EUA.

Em 2005, as vendas globais dos produtos Bratz alcançaram US$ 2 bilhões.

Claudia Leitte, por Carlinhos Brown
Uma artista como só o Brasil produz
Redação Época


Guerra das bonecas

Barbie leva a melhor e Bratz podem sumir após Natal

Decisão da justiça americana ordena que MGA pare de produzir e comercializar as bonecas Bratz, que já renderam US$ 3,1 bilhões desde seu lançamento em 2001

As bonecas Bratz correm o risco de ser banidas das lojas de brinquedos dos Estados Unidos, depois que um tribunal de justiça federal americano proibiu esta semana a MGA Entertainment de fabricar a rival da Barbie. A decisão foi divulgada somente nesta sexta-feira (5/12).



A corte tomou a decisão depois que a Mattel, a maior fabricante de brinquedos do mundo e criadora da Barbie, ganhou uma causa de infração de copyright contra a MGA em agosto.

Uma juíza federal da Califórnia proibiu a MGA de vender e produzir todos os 40 modelos de bonecas multi-étnicas que fazem parte da linha Bratz.

Mas deu prazo à MGA para retirar suas bonecas de todas as lojas logo depois do Natal.

No processo, que se arrastou por meses, o designer Carter Bryant foi considerado culpado por ter desenvolvido a boneca Bratz para a MGA, enquanto ainda trabalhava para a Mattel.

A MGA já apelou, alegando que isso afetará muito a empresa, já que a Bratz é o brinquedo mais vendido da companhia. Em junho, as vendas da Bratz atingiram US$ 3,1 bilhões nos EUA desde o lançamento em 2001. As vendas da Barbie, ainda o brinquedo mais popular da América, caíram 15% em 2007.

A Mattel acha que a rival MGA não deveria lucrar em cima da desonestidade. A empresa já ganhou indenização de US$ 100 milhões em agosto, por conta da quebra de direitos de copyright e mais US$ 90 milhões por quebra de contrato. Se a MGA não conseguir recorrer a tempo, a Mattel pode usar a decisão como base para tirar as Bratz das prateleiras de todas as lojas do mundo.

A marca Bratz tem sido responsável pela queda nas vendas da Barbie desde seu lançamento em 2001. De acordo com números não oficiais, as bonecas Bratz respondem por 40% do mercado total de bonecas nos EUA.

Em 2005, as vendas globais dos produtos Bratz alcançaram US$ 2 bilhões.

Ídolos & Heróis – E da reportagem de capa da Época deste fim de semana escolhemos a Claudia aí abaixo dentre os brasileiros destaques de 2008

Claudia Leitte

Claudia Leitte é um clássico da miscigenação brasileira. Meio carioca e meio baiana, é uma pessoa do mundo.

Tem o maior suingue negro-afro, canta com percussão de forma única. Ao mesmo tempo, tem aquele rostinho de mulher da Baixa Escandinávia. Só o Brasil consegue produzir alguém como Claudia Leitte.

Ela é a prova de que o preconceito não pegou na música brasileira. Claudia expõe a cultura da Bahia de forma elegante e contemporânea.

Afirma para o Brasil que a música do país é a melhor para ser ouvida no mundo inteiro. Além de tudo, é corajosa: é muito difícil, com sua ascensão atual, conceber uma criança. Claudia é um orgulho para a Bahia. Feliz tudo para Claudia!

Carlinhos Brown, cantor e compositor


06 de dezembro de 2008
N° 15811 - NILSON SOUZA

Por que corremos?

Não gosto de dezembro. Sei que é um mês igual aos outros, tem chuva e sol, tem dias iluminados e sombrios, tem noites escuras e estreladas. Esta semana, inclusive, fomos contemplados por uma magnífica conjugação da Lua com Júpiter e Vênus, formando um desenho inesperado e lindo no céu do Rio Grande.

Minha bronca, portanto, não é com a natureza deste mês que foi colocado no final do calendário por pura convenção.

O problema são as pessoas. Elas enlouquecem no último mês do ano. Correm como se o mundo – e não o ano – fosse acabar. Ficam nervosas, brigam no trânsito, empurram-se nas lojas, compram o que não precisam, cometem excessos, bebem demais e raciocinam de menos.

Os habitantes de dezembro são uns trogloditas.

Melhor dizendo, são demasiado civilizados. Outro dia li um texto sobre nossos ancestrais pré-históricos e concluí que eles eram bem mais parceiros e solidários do que o homem moderno.

Até por necessidade, para se proteger dos perigos daqueles tempos primitivos, para enfrentar animais ferozes e o medo do desconhecido, formavam grupos, ajudavam-se mutuamente. Embora dependessem da força física para sobreviver, aprenderam a ser criativos e habilidosos.

Basta imaginar, por exemplo, o primeiro homem que dominou a arte de fazer fogo, debruçado sobre um montinho de palha, assoprando levemente para que a faísca resultante do atrito das pedrinhas virasse a chama que ele, orgulhosamente, transformaria em fogueira para aquecer a tribo.

Quem teria paciência para uma proeza dessas neste mundo de tecnologia, urgência e competição?

Já ouvi dizer que as pessoas correm desta maneira no período de festas na ilusão de alcançar uma miragem fugidia chamada felicidade. Por isso, forçam confraternizações, tentam participar de todas as baladas, obrigam-se a trocar presentes e votos de sucesso. A maioria, porém, alcança apenas a frustração.

Talvez pela singela razão de que a verdadeira felicidade é feita de tênues momentos de paz, de breves instantes de ternura familiar, de pequenas gentilezas entre amigos. Na inevitável escaramuça de dezembro, quase não nos sobra tempo para a simplicidade.

O consolo é que o mês da ansiedade passa como um trem de alta velocidade. Querendo ou não, somos todos passageiros. E a alternativa que nos resta, como ensinou Mario Quintana, é seguir em frente, jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

Aproveite o sábado - Um excelente fim de semana com muito sol aí dentro de você e lá fora.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008



03 de dezembro de 2008
N° 15808 - MARTHA MEDEIROS


Se “acham” e se perdem

Tem se falado muito em Woody Allen em função do sucesso que Vicky Cristina Barcelona tem feito, e também por causa do livro de entrevistas que acaba de ser lançado, em que o jornalista Eric Lax reúne, em quase 500 páginas, as diversas conversas que teve com o diretor desde que ele começou a dirigir seus primeiros filmes, há mais de 40 anos. Estou lendo o livro e percebe-se que Allen, nessa longa trajetória, mantém-se o mesmo sujeito desencanado.

Desencanado? Aquele paranóico?

Não estou falando das neuras, fobias e ansiedades que o diretor nunca escondeu de ninguém e nas quais se baseou para criar roteiros formidáveis. Estou falando sobre ser desencanado da fama.

Desencanado dessa necessidade que tantos artistas têm de se apresentar ao mundo como semideuses. Woody Allen só marcou presença na capa das revistas de fofoca uma vez: quando se separou da atriz Mia Farrow para se casar com a filha adotiva que essa teve com o primeiro marido.

A asiática Soon-Yi era uma adolescente, e o escândalo estava armado. Woody Allen foi tratado como pedófilo e apostava-se que a tara seria passageira, mas o casal segue junto até hoje e os ânimos se acalmaram: não era tara, era amor. Que decepção.

Afora esse episódio polêmico, Allen é notícia apenas pelos seus filmes. Não freqüenta baladas e não tem o ego inflado. Ao contrário: sua maior excentricidade é ser tímido e se espantar quando o chamam de gênio.

Cada vez me convenço mais de que aqueles que são gênios são os únicos que conseguem prescindir da autopromoção excessiva e manter-se com os dois pés fincados no solo. É por duvidarem de si mesmos que evoluem a cada dia.

Esse assunto me ocorreu porque, numa recente viagem a trabalho, passei 24 horas em companhia de uma produtora de eventos e ouvi histórias incríveis.

Soube de atrizes de terceiro escalão que cobram R$ 70 mil para fazer a apresentação de um seminário (um boa-tarde na entrada e um boa-noite na saída:

R$ 70 mil!), atores mal saídos das fraldas que exigem mordomias de veteranos, sem falar no que a gente sabe pelos jornais – atrizes histéricas pela falta de comida light no camarim e megastars exigindo que troquem todos os assentos dos vasos sanitários por onde irá passar com sua turnê – e nada de comida nativa, eca.

Podem? Claro. A graça da coisa talvez seja essa. Já que são perseguidos por paparazzi, já que têm sua vida íntima investigada, já que não podem caminhar num parque sossegados, compensam agindo como seres de outro planeta e tendo acessos risíveis de megalomania.

Mas eu ainda prefiro rir das piadas inteligentes que Woody Allen insere em seus filmes, aqueles que ele dirige entre um acesso de modéstia e outro.

Aproveite o dia - Tenhamos todos uma ótima quarta-feira

sábado, 29 de novembro de 2008



30 de novembro de 2008
N° 15805 - MARTHA MEDEIROS


Capturados

Um dos DVDs mais legais a que assisti este ano foi A Vida por Trás das Lentes, documentário sobre a carreira da fotógrafa americana Annie Leibovitz.

Tive a oportunidade, também, de ver em Paris a exposição que registra todas as fases de sua trajetória, começando pelas fotos que fazia da família, passando pela fase roqueira (quando foi a principal fotógrafa da revista Rolling Stones), até a consagração na Vanity Fair.

Considero fotografia uma arte, pela capacidade que tem de capturar a alma do fotografado e revelar a nós algo que nosso olho não consegue enxergar.

Lembro que, na minha infância, meu pai não deixava passar um único evento sem fotos: Natal, aniversários, piqueniques na praia. Click, click, click.

Ficávamos um tempão parados, eu, meu irmão e minha mãe, três estátuas sorridentes, esperando o momento de ele encontrar o melhor ângulo, o melhor foco, a melhor luz, para então clicar. Máquina digital, naquela época, era coisa da família Jetson.

Também tirei muitas fotos de minhas filhas quando eram pequenas e guardo inúmeros registros de viagens e de alguns passeios, encontros, momentos que não acontecem todo dia.

Até aí tudo dentro de uma certa normalidade, e sou tendenciosa como todos: a gente acha que só a maneira como vivemos é que é normal. Mas o normal evoluiu muito de uns tempos pra cá.

Hoje, com um celular na mão, você documenta partos, tsunâmis, incêndios, transas, shows e crimes cometidos bem na sua frente. Inclusive, algum crime por ventura cometido por você.

Me pergunto: se você não documentar suas experiências e emoções, elas deixam de existir? Você deixa de existir? Não deveria, mas dá a impressão que sim.

Num surto catastrofista, imagino que em breve deletaremos da nossa memória tudo aquilo que não estiver documentado. Se eu quiser lembrar de uma viagem ou de uma festa, não conseguirei, a não ser que a tenha fotografado e filmado.

O momento em que seu namorado lhe pediu em casamento, aquela caminhada que deu sozinha à beira-mar, o mergulho noturno, o café da manhã na cama enquanto viam um filme do Chaplin, a declaração de amor no meio da estrada – se você não fotografou nada disso, será que aconteceu mesmo? Você ainda consegue lembrar da vida sem a ajuda de aparelhos?

Minhas duas últimas viagens ao Exterior foram feitas sem máquina fotográfica ou celular na bagagem. Fui e voltei sem uma única foto, o que para muitos talvez signifique “ela não foi”. Mas fui. A vida também acontece sem provas documentais.

Ainda Annie Leibovitz: entre seus inúmeros flagrantes, constam os momentos finais de seu pai e da escritora Susan Sontag, as duas pessoas que ela mais amou. As fotos de ambos, cada um na sua hora, agonizando, estão na exposição e no DVD.

Annie Leibovitz é uma artista, e suas lentes são seus olhos, ela não dissocia vida e trabalho, mas admito que senti, mesmo havendo consentimento dos fotografados, uma invasão na intimidade mais secreta de cada um, que é a solidão. Louvável como registro jornalístico, mas desnecessário como despedida pessoal.

Tudo isso para dizer que certas ocasiões ainda me parecem suficientemente fortes para resistirem intactas na nossa lembrança, e apenas nela.

Um ótimo domigo e um excelente início de semana.


Administradores de esquerda

"Em 500 anos de história, nunca tivemos equipes de administradores elaborando programas de governo"

Quando elogiei uma declaração de Dilma Rousseff, em VEJA de 21 de março de 2007, usei a expressão "administradores de esquerda", que intrigou muita gente.

Principalmente aqueles que pensam só existir administradores de direita. Achar que só existem administradores de direita no mundo é um preconceito e um insulto aos 2 milhões de administradores deste país. Para começar, administração é uma ciência neutra, como a engenharia e a medicina.

O que não impede que haja administradores de direita, de esquerda e de centro-esquerda, como de fato acontece. Em segundo lugar, há tempos existe no Brasil a carreira de administração pública, que de direita não tem nada.

De fato, administradores de direita são encontrados em empresas controladas por empresários de direita. Mas a maioria dos administradores é de centro e centro-esquerda, embora nem todos se definam assim.

São aqueles que administram empresas "sem dono", são aqueles que administram empresas de capital aberto e democrático, são os administradores socialmente responsáveis, que estão crescendo em número e poder. Foram eles que lutaram pela pulverização do capital, enfraquecendo assim o controlador capitalista, que foi a primeira ação da esquerda de fato vitoriosa.

Foram os primeiros a criar fundos de aposentadoria para trabalhadores, que hoje controlam 40% do capital americano. Foram os primeiros a criar planos de saúde aos trabalhadores. Foram os precursores do movimento de responsabilidade social das empresas brasileiras.

Ilustração Atômica Studio

No 3° Congresso Internacional de Responsabilidade Social de 1998, havia somente três administradores representando o Brasil.

Este seu colunista, o administrador Oded Grajew, criador do Instituto Ethos de Responsabilidade Social, e Henrique Meirelles, mais um desses administradores (do Coppead, Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação em Administração de Empresas da Universidade Federal do Rio de Janeiro) injustamente tachados de ser de direita.

Se Meirelles fosse de direita, não aceitaria um cargo no governo do PT, muito menos seria precursor de um movimento de humanização das empresas como esse.

Um dos grandes erros da Revolução Socialista de 1917 foi que ela eliminou, destituiu e expulsou todos os administradores da União Soviética. Dizimaram o segundo escalão da nação. Machiavel recomendava eliminar somente o primeiro escalão.

"Em meados de abril de 1918 os administradores haviam sido totalmente eliminados", orgulha-se um historiador da revolução de 1917, já que eles eram considerados lacaios do capitalismo. Acabaram também com todos os gerentes, supervisores, chefes de seção, bem como contadores e auditores, considerados "espiões" do capitalismo. O restante fugiu a tempo.

Incentivaram a autogestão, o que supõe que administradores não acrescentam valor algum à sociedade. Destruíram os sistemas de avaliação de desempenho, e a produção despencou logo em seguida. Foi esse erro que deu início à desorganização e à corrupção que ainda persiste na Rússia.

O erro foi esquecer que o socialismo precisa ser tão bem administrado quanto o capitalismo, algo que muitos intelectuais brasileiros também esqueceram. Muitos nem sequer conhecem um único administrador.

Nos Estados Unidos, a esquerda americana encabeçada por Harvard fazia justamente o contrário. Criava uma escola de administração em 1908 para formar e apoiar o "administrador socialmente responsável". Incentivaram e deram prestígio àqueles que fariam a oposição ao empresariado capitalista da época.

Infelizmente, o Brasil seguiu a linha da esquerda soviética e não a da esquerda americana. Nossos intelectuais, em vez de apoiar, demonizam o administrador nos seus textos, na mídia, nas novelas, retratando-os como fordistas, desumanos e "lacaios do capitalismo".

Movimentos sociais que alijam administradores do seu seio estão fadados ao fracasso. Por incrível que pareça, nunca tivemos equipes de administradores elaborando programas de governo, em 500 anos de história.

A esquerda raramente coloca administradores de esquerda e centro-esquerda para ser ministros, para administrar este país. Algo que a esquerda brasileira, a mais moderna pelo menos, deveria seriamente repensar.

Stephen Kanitz é administrador - www.kanitz.com.br
"Quero fazer muito sexo”

Com esse anúncio, publicado num jornal, uma sexagenária atraiu 63 interessados – e realizou o desejo com quatro deles
Martha Mendonça

JANE

Hoje, com 75 anos, ela afirma que não precisa mais publicar anúncios para fazer sexo – mas diz ter se divertido muito com os parceiros que atenderam a seu apelo

A professora aposentada Jane Juska tinha 66 anos e um jejum sexual que durava três décadas quando decidiu publicar um anúncio incomum num jornal de literatura de Nova York: “Antes de completar 67 anos – no próximo mês de março –, eu gostaria de fazer muito sexo com um homem de quem eu goste”.

Jane, então divorciada e já com um filho adulto, imaginou que no máximo dois ou três homens dariam retorno. Mas sua caixa postal recebeu 63 respostas. Ela escolheu alguns dos candidatos e marcou encontros para conhecê-los pessoalmente.

Fez sexo com quatro deles (um de cada vez). O ato de coragem só não foi maior que, anos depois, contar suas aventuras no livro Uma Mulher de Vida Airada – Memórias de Amor e Sexo depois dos 60 (Editora Rocco), que chega ao Brasil nesta semana.

Jane afirma que antes de publicar o anúncio se perguntava se nunca mais teria um homem – e essa dúvida fez soar um alarme.

“A maioria das pessoas de idade, em especial as mulheres, têm medo de correr riscos”, diz. “Preferi agir a esperar que alguma coisa acontecesse”. Antes de publicar o anúncio, ela havia tentado outras formas de despertar o interesse em potenciais parceiros. Freqüentou bares e festas, em vão.

Quando percebeu que a idade não era sua aliada numa paquera, desistiu. Ela diz ter acreditado que era melhor o celibato que a humilhação. A ousadia de publicar o anúncio mudou sua vida.

Quando as respostas dos pretendentes começaram a chegar, Jane teve o luxo de poder escolher. Ela separou as cartas, como conta no livro, em montinhos de sim, não e talvez.

Escolheu os mais originais e equilibrados – já que sua caixa postal recebeu até mensagens pornográficas e fotografias de nu frontal.

Em pouco tempo, ela deixou de lado a educação vitoriana do Meio-Oeste americano, a dor dos fracassos amorosos, os problemas de excesso de peso e da queda pela bebida para seguir até o aeroporto onde esperaria o primeiro candidato.

“Foi o momento em que tive mais medo. Quase desmaiei quando vi que ele carregava uma caixa com objetos que faziam barulho. Pensei: ‘São brinquedos sadomasoquistas!’. Depois, descobri que eram garrafas de vinho”, diz.

O parceiro mais jovem que ela encontrou tinha 32 anos e era a cara de David Duchovny, de Arquivo X

Depois de Jonah, de 82 anos – o primeiro –, não parou mais com os encontros. Jane não mede palavras para relatá-los.

Um dos candidatos, mal se apresentaram, pegou em seu traseiro. Outro pediu que ela apoiasse seus seios na mesa do restaurante – e os apalpou. Houve até quem tenha roubado sua calcinha.

Ela também fala de masturbação e gosta de expor seu desejo pelo sexo masculino, fazendo referências ao corpo dos homens, em especial o traseiro.

A maioria deles beirava ou passava dos 60 anos. Mas houve Graham, de 32, segundo ela um sósia do galã David Duchovny, de Arquivo X, que depois se tornou um grande amigo.

“Eu me diverti muito”, afirma. No meio de tanta diversão, apaixonou-se. Robert, porém, tinha outro relacionamento – além de dores insuportáveis na coluna, o que tornava o sexo mais difícil.

Uma Mulher de Vida Airada não fala só dos encontros sexuais de Jane, mas de sua vida e escolhas.

Do relacionamento com os pais à paixão pela literatura, do divórcio às aulas de redação para presidiários, Jane dá o pano de fundo para a maior aventura de sua vida, mostrando que a terceira idade não precisa ser um tempo apenas de renúncias e lembranças.

Hoje, aos 75 anos e colhendo os frutos de seu livro, lançado no mundo inteiro, ela diz que continua em atividade. “Já não preciso mais de anúncios”, afirma.


ERROS CLÁSSICOS

Tenho espírito maligno. Adoro os erros dos outros. Especialmente os erros dos filósofos clássicos. Adoro lembrar detalhes sórdidos citados por um historiador secundário chamado Will Durant.

A humanidade, mesmo nos seus melhores momentos, foi terrível. Em Atenas, até hoje elogiada por sua democracia, de 400 mil habitantes, 250 mil eram escravos. Mulheres e estrangeiros também não contavam.

Aristóteles, o primeiro grande observador científico, achava que o homem possui oito costelas de cada lado. Já a mulher teria menos dentes que o homem. Talvez o homossexualismo dominante entre os gregos explique essas falhas de pesquisa de campo do gênio.

Spinoza, um dos filósofos mais em voga atualmente, via no medo e na esperança as explicações para as ações humanas. Era um determinista.

Apesar disso, considerava importante castigar os hereges, 'sem ódio', sendo importante, depois, perdoá-los por serem ignorantes. Meu filósofo predileto, o mal-humorado Schopenhauer, via as mulheres como seres de cabelos compridos e idéias curtas. O amor, segundo ele, é o resultado da ação dos instintos em busca do parceiro ideal para a reprodução.

Cada um procuraria no outro aquilo que não tem para legar ao rebento. As mulheres, tendo beleza, buscariam nos homens, mesmo feios, coragem, energia, determinação e atitude.

Schopenhauer não podia imaginar uma sociedade na qual o sexo, protegido por anticoncepcionais, não estivesse voltado para a reprodução.

Nos estudos sobre a metafísica do amor, o filósofo definiu que os homens preferem mulheres entre 18 e 28 anos, faixa ideal para ter filhos, com bom esqueleto, fundamental para carregar um filhote, mesmo com um rosto feio. Já as mulheres teriam predileção por homens de 35 anos, com uma boa situação financeira.

Pés pequenos e dentes fortes também contariam muito, pois os dentes, bem entendido, permitem uma boa alimentação.

Pobre filósofo, não podia prever a era das top models. Mulheres muito altas estavam para ele entre as menos admiradas pelos homens. Errou feio. Salvo se, como dizem as más línguas, a valorização das taquaras seja típica dos heterodoxos que mandam na moda.

Boa parte do que Schopenhauer escreveu não se aproveita. Basta pensar nesta pérola: 'Foi necessário que a inteligência do homem se achasse obscurecida pelo amor para que chamasse belo a esse sexo de pequena estatura, ombros estreitos, ancas largas e pernas curtas'.

Em contrapartida, afirmou que a vida de cada um oscila entre a dor e o tédio. O grande mal que tortura cada homem é o desejo. Só aquilo que não se tem alcança valor incontestável.

'Sentimos a dor, mas não a ausência da dor. Sentimos a inquietação, mas não a ausência da inquietação, o temor, mas não a segurança. Sentimos o desejo e o anelo como sentimos a fome e a sede.' Schopenhauer vai ao extremo: 'Se um Deus fez este mundo, eu não gostaria de ser esse Deus: a miséria do mundo me esfacelaria o coração'.

Garante que, se o criador fosse um demônio, não faltaria um acusador para dizer-lhe: 'Como ousaste interromper o repouso sagrado do nada para fazer surgir uma tal massa de desgraça e de angústias?'. Toda essa amargura é o resultado da falta de amor materno.

A mãe de Arthur só queria fazer festa. Schop não viu sereia alguma num doce balanço a caminho do mar. A simples vista de Gisele Bündchen teria mudado metade da sua filosofia. Mas acertou, como sabem os publicitários, no essencial: o ponto frágil da humanidade é o desejo.

juremir@correiodopovo.com.br

Um ótimo sábado e um excelente fm de semana - Gostei do texto endosso as palavras do Juremir


29 de novembro de 2008
N° 15804 - A CENA MÉDICA | MOACYR SCLIAR


A história de um estigma

Porto Alegre sediou, nesta semana, um importante evento médico, o Congresso de Hansenologia. Congresso de quê? – estranharão vocês. Hansenologia é a parte da medicina que estuda a hanseníase, o termo científico para lepra.

Por disposição legal, no Brasil esta última palavra não pode ser usada em documentos oficiais. Isto reflete a existência de um dos mais antigos estigmas da história da humanidade.

O Antigo Testamento menciona uma doença conhecida como tzaraat, palavra em geral traduzida como lepra, ainda que outras doenças de pele pudessem estar incluídas neste rótulo.

O diagnóstico estava a cargo do sacerdote; médicos à época não eram figuras muito freqüentes e nem muito confiáveis. Além disso, o diagnóstico da lepra não era exatamente um procedimento médico; nenhum tratamento, mesmo tentativo, era instituído. O objetivo era rotular o paciente como “puro” ou “impuro”.

E, se se tratava de “impureza”, via-se nas lesões a evidência do castigo divino do qual a pele era um alvo habitual. Por que a pele? Em primeiro lugar, porque a pele é visível. Uma doença dos rins, por exemplo, dificilmente serviria como estigma. As lesões da hanseníase, às vezes deformantes, saltam aos olhos.

Além disso, trata-se de doença contagiosa (muito pouco contagiosa, mas contagiosa, de qualquer maneira) de modo que contrai-la levantava a suspeita de contato corporal – de sacanagem, em outras palavras.

Que o tabu funcionou, mostra-o o fato de que o cristianismo também o endossou.O modelo de diagnóstico era semelhante ao do Antigo Testamento, mas ficava a cargo de uma comissão, composta de um bispo, vários clérigos e também um leproso, considerado especialista na matéria.

Rotulado o examinando como leproso, procedia-se ao processo de exclusão: ele era envolto em uma mortalha, e rezava-se uma missa de réquiem; os presentes jogavam terra sobre o excluído que era conduzido a um dos muitos leprosários (quase 20 mil na Europa), administrados e cuidados por ordens religiosas.

O leprosário de Itapoã, aqui no RS, surgiu relativamente tarde, em 1940, e hoje está praticamente desativado.

Com o final da Idade Média, e por razões que não são bem claras, o problema da lepra diminuiu consideravelmente. No final do século 19 foi identificado, pelo cientista norueguês Gerhard Armaur Hansen (daí o nome hanseníase) o bacilo causador da doença; a partir daí desenvolveu-se um tratamento que, na imensa maioria dos casos, resulta em cura.

Mas o estigma persistiu por algum tempo e gerou a medida politicamente correta de evitar a palavra lepra. O que causou alguns problemas. Os pacientes não sabiam o que é hanseníase, e o médico tinha de traduzir: “É a antiga lepra”. Ou seja: de alguma forma a palavra era dita.

Estigmas vêm e vão, e disto temos vários exemplos. Num passado ainda recente, a palavra “colono” era depreciativa; hoje é motivo de orgulho. A eleição de Barack Obama pode ajudar a acabar com o tom pejorativo com o qual os racistas pronunciavam a palavra negro.

É uma lição que a história nos ensina: de alguma maneira, a humanidade avança. Avança graças à ciência, avança graças ao bom senso. Aos poucos, trocamos o estigma pela lógica. O que é um benefício para muita gente.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008



A PROFESSORA E A FAXINEIRA

Era uma vez um estado que se considerava culto, politizado e desenvolvido. Acima da média das demais unidades da Federação. Um dia, uma professora e uma faxineira encontraram-se numa parada de ônibus. A professora estava triste. Ganhava pouco.

Lamentava, com o cartão eletrônico, não poder mais vender as fichas de ônibus para arredondar o fim do mês. O governo não queria pagar o piso nacional fixado em lei para o magistério.

Ela havia seguido os colegas numa greve desesperada de final de ano. Por causa disso, estava prestes a perder 15 dias do seu parco salário. O governo fazia a chantagem de sempre e jogava a sociedade contra os professores, alegando prejuízo às crianças. A faxineira perguntou:

– Quem é mais importante para a sociedade, eu, que deixo uma casa como um brinco, passo, lavo e, muitas vezes, cozinho, ou quem ensina nossos filhos a ler e a escrever?

A professora hesitou. Não queria ofender a faxineira. Mas estava convencida de que o seu papel era mais importante. Afinal, estudara para exercer a sua profissão, da qual toda a estrutura social depende.

– Eu também passo, lavo, cozinho e deixo a minha casa como um brinco – disse a professora em tom conciliador. – Faço isso depois de ter ensinado um dia inteiro.

– Não seja por isso – emendou a faxineira. – Eu também tenho uma dupla jornada de trabalho. Passo, lavo e cozinho para a minha família depois de ter passado, lavado e cozinhado para a família dos outros.

– Não duvido disso – admitiu a professora. – Mas as coisas têm valores diferentes. Cada atividade tem a sua função social. Mas existem diferenças e hierarquias.

– Eu ganho R$ 80,00 por faxina, chego a fazer duas num dia, não dependo do Estado e não levo trabalho para casa – disparou a faxineira, que era meio neoliberal e completamente cética.

– Quanto você ganha por dia? A professora ficou vermelha. Gaguejou. Fez as contas. Finalmente, muito constrangida, confessou:
– Bem, com a complementação, ganho uns R$ 30,00 por dia.

– E você teve de estudar pra ganhar 30 pilas por dia? Não tem lógica esse negócio. Como pode ganhar menos quem se preparou mais? Por que não faz faxina? Tem vergonha?

Chocada, a professora teve um sobressalto de dignidade. Empertigou-se. Por fim, defendeu-se chorosa: – Eu amo o meu trabalho. Nasci para isso. É uma missão. – Enquanto pensar assim, vai ganhar menos.

– As duas coisas são verdadeiras. O magistério é profissão e missão. Mesmo que o salário seja baixo, continua sendo uma atividade especial, que exige amor.

A faxineira sorriu. Havia algum cinismo no seu sorriso. Não se pode confiar em faxineiras neoliberais.

– Vai ver que sou faxineira por isso. Não entendo essa história. Todo mundo diz que a educação é tudo, mas os professores ganham menos do que nós.

Nunca ouvi alguém falar que ser faxineira é um sacerdócio, uma missão ou atividade essencial. Ninguém nos dá valor em discursos. – É uma questão complexa. Somos muitos professores...

– Policiais e professores deviam demitir-se em massa – radicalizou a faxineira, que era também meio anarquista e de faca na bota. – Se não tiver professor e policial, os salários vão aumentar. A sociedade vai acordar.

Foi a vez de a professora rir com certo cinismo. Não disse coisa alguma por elegância. Limitou-se a pensar: – Como são ingênuas as faxineiras e cruéis os governantes.

juremir@correiodopovo.com.br

quarta-feira, 26 de novembro de 2008



26 de novembro de 2008
N° 15801 - MARTHA MEDEIROS


Saga Lusa

O que Chico Buarque, Vitor Ramil, Caetano Veloso, Arnaldo Antunes, Thedy Correa, Duca Leindecker, Fernanda Takai, Gabriel o Pensador, Kledir Ramil e Nei Lisboa têm em comum? Acertou, são escritores. Todos eles lançaram livros, já que são familiarizados com a palavra desde que iniciaram aquela outra atividade, a música.

Há quem torça o nariz: agora qualquer um escreve! Sorte deles, porque não é qualquer escritor que pode fazer o caminho inverso: subir num palco e cantar direitinho.

Pois abram alas para mais uma forasteira no mundo das letras: Adriana Calcanhotto acaba de lançar Saga Lusa, uma viagem lisérgica que narra os dias em que saiu da casinha durante uma turnê em Portugal, tudo por causa de uma overdose de remédios que quase lhe custou a vida – mas que espertamente, ela “curou” com literatura da boa.

Quando eu digo por aí que escrever é terapêutico, sei que estou chafurdando num clichê mais que reprisado, mas o que é um clichê senão uma verdade mil vezes repetida? Escrever cura. Só que nem todo ser humano que se aventura nesse tipo de tratamento consegue um resultado acima da média.

Muitas vezes, o jorro de palavras deve ser mantido no anonimato, o que se quer apenas é que a catarse ajude a recuperar a saúde mental perdida. Mas quando vale a pena compartilhar, ave! Que a arte seja espalhada.

O livro de Adriana é uma viagem no melhor dos sentidos – ao menos para nós, leitores, porque para ela foi violento. Dias inteiros sem dormir, dificuldade de comunicação, o pânico de não conseguir “voltar”, pesadelos, delírios, shows cancelados e Lisboa vista por trás da janela de um hospital, sem poder ser desfrutada – perder a consciência nem sempre é um barato, pode ser um tremendo desconforto.

Mas Adriana tinha duas armas poderosas contra suas alucinações: bom humor e um laptop. E se pôs a escrever tudo o que estava lhe ocorrendo, de uma forma tão divertida, que a gente até pensa: essa guria está inventando. Não estava, mas se estivesse, maior ainda o seu mérito.

Adriana é elegante em suas composições e demonstra, com Saga Lusa, ser elegante também em suas decomposições.

Desestruturada, maluca, revoltada, não importa: consegue rir de si mesma e isso é a prova maior da grandeza de uma pessoa, qualquer pessoa. É nessas reações de humor e inteligência diante do desconhecido que se pode dizer: o mundo tem jeito.

Muita água, muita calma nessa hora, e tudo se resolve. Olha, Adriana, não chego a desejar outros surtos reais, mas os irreais podem ser provocados sem danos à sua integridade. Cante e escreva: esgote-se em seu incrível talento.

Nico Nicolaiewsky ainda não escreveu nenhum livro, mas enquanto não entra pra turma, aproveite que ele está de volta ao Theatro São Pedro com o show Onde Está o Amor?, no próximo sábado e domingo. Uma viagem, também.

Aproveite a quarta-feira - Um excelente dia para você.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008



24 de novembro de 2008
N° 15799 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


O colecionador de livros

Os escritores são alvo preferencial de perguntas indiscretas.

São as que me faz Y., uma leitora que quer saber como trato minha biblioteca, como a formei e se compro livros ou ganho. Y. pretende organizar sua própria biblioteca e acha que sou uma espécie de autoridade na matéria, por causa de uma crônica que escrevi aqui o outro dia.

Ledo engano, Y. Para começo de conversa, minha biblioteca é herdada. Tive um pai e uma mãe que amavam os livros, e uma das primeiras paisagens que guardo na memória são arranha-céus impressos ocupando todo um escritório da casa da Rua Sete, em Cachoeira.

Como muitas dessas obras eram de Direito, acabaram desterradas em sucessivas mudanças.

Mas por essa altura eu já tinha sido contaminado pelo vírus do colecionador. Tudo o que sobrava das mesadas, ou, mais tarde, dos primeiros salários, era gasto, em ataques de invencível prodigalidade, nos balcões das livrarias.

Cheguei a morar num apartamento em que peças inteiras, mais os corredores, eram tomados por fatias da literatura universal.

Ao me mudar para este em que vivo, tomei uma resolução heróica. Reservei um único lance para as prateleiras. Foram todas construídas a capricho – sem esquecer vidros protetores – por um emérito carpinteiro desta praça.

Aí sucedeu o drama. O número de meus livros era superior ao espaço disponível nas estantes, problema que resolvi da forma mais simples.

Elegi os volumes de que não queria me separar – uma das decisões mais difíceis de minha vida de leitor – e doei os restantes para escolas e para o Mensageiro da Caridade.

Hoje meus livros passam bem, obrigado, Y. São disciplinadamente divididos pelo país de origem, por gênero, por época e por autor.

Sei onde está cada um nas ordenadas fileiras que vão do chão ao teto. Ganho muitos de presente, mas não perdi o vício de comprar outros tantos. Faço novas doações de tempos em tempos.

Algum dia não haverá lugar para mais. Mas te prometo desde já, Y., que não faltará espaço para a tua primeira coletânea de poemas.

Ótima segunda-feira e uma excelente semana

sábado, 22 de novembro de 2008



23 de novembro de 2008
N° 15798 - MARTHA MEDEIROS


De biquíni no shopping

Lá nos idos de 1997, quando alguns dos meus leitores ainda eram crianças, eu escrevi uma crônica chamada Provação, uma palavra que significa sofrimento e infortúnio. E o assunto era era sobre isso mesmo. Sobre a provação (ato de provar) biquínis em lojas. Sofrimento. Infortúnio.

Se eu precisasse fazer uma lista das coisas que menos gosto na vida, ela não seria muito extensa, pois vim ao mundo com uma boa dose de benevolência, mas “experimentar roupa” certamente constaria desse rol.

Por exemplo, já me apaixonei por alguns vestidos expostos nas vitrines, porém não costumo levar o caso de amor adiante: só de imaginar o ritual de aproximação me dá uma preguiça oceânica.

Ter que entrar numa cabine, tirar os sapatos, a calça, a camiseta, o blusão (imagine que é inverno), colocar a peça nova sem poder retirar a etiqueta, a atendente esperando ansiosa do outro lado da cortina, a luz estourada do provador realçando todas as deficiências da sua epiderme, o espelho não sendo muito caridoso com seus quadris (engraçado, ontem eu não estava assim redonda) e seus pensamentos avisando: você não tem bolsa que combine com esse vestido, criatura!

Esqueça, não serviu. Tire tudo, recoloque seus muafos (suas roupas envelheceram 10 anos nos últimos 10 minutos), enfrente a cara de decepção da atendente e volte correndo pra casa. No trajeto você lembrará: que gênia eu sou, sigo sem um único trapo para usar hoje à noite, e a festa é lá em casa, pra que bolsa?

Tudo café pequeno diante da tarefa inglória de provar biquínis. Sei que você não quer falar sobre isso, mas é preciso, estamos em plena época do suplício, o verão está batendo à porta. Aposto 10 contra um que você passará o Réveillon em alguma praia. Vai ter que comprar pelo menos um biquíni novo. Unzinho só. Não dá pra escapar.

Então, ao trabalho: coloque um sorriso no rosto e finja que é a coisa mais normal do mundo ficar nua dentro de um provador minúsculo forrado de espelhos por todos os lados, mostrando você de frente, de costas e de lado em sua infinita brancura glacial. Sim, você ainda não está bronzeada.

Segue leitosa, o que não valoriza nada o biquíni que está provando, mas tudo bem, abstraia, pense que é final de fevereiro e que até sua alma já está torrada. Agora é só torcer para que a parte de cima sirva e a parte de baixo também, o que é praticamente um milagre.

Eu abençôo todas as lojas que vendem as partes do biquíni de forma avulsa, permitindo que a gente misture estampas e troque os tamanhos. P em cima, GG embaixo. Acertei? Claro que não, logo se vê que me falta silicone – inclusive no cérebro.

Quem não nasceu Ana Hickmann aqui faz, aqui paga e aqui se diverte, porque só rindo de certas provações femininas.

Um excelente domingo especialmente para você.

Diogo Mainardi

Penso, mas existo?

"Se Descartes ordena, estou pronto a me sacrificar. Ele determinou meus investimentos na bolsa de valores por meio do livro Os Axiomas de Zurique, de um certo Max Gunther"

Descartes pode me arruinar. Ele mesmo, René Descartes, o pensador francês do século XVII, do Discurso do Método. Na última semana, ele se materializou em meu escritório, com aquele seu aspecto de lateral-direito do Boca Juniors, e ordenou que eu aplicasse imediatamente todas as minhas economias na bolsa de valores. O que fiz? Fechei os olhos e obedeci.

Eu já tinha pensado em fazer o mesmo em meados de outubro, quando Warren Buffett, num artigo para o New York Times, anunciou que aplicaria todo o seu dinheiro no mercado acionário dos Estados Unidos.

Ele ditou uma regra simples para orientar os investimentos na bolsa de valores: "Tenha medo quando os outros estão gananciosos, e seja ganancioso quando os outros estão com medo".

Do dia em que o artigo de Warren Buffett foi publicado até este momento, o Dow Jones já despencou mais de 15%. Em vez de contrariar o senso comum, obedecendo à regra de Warren Buffett, tive medo quando os outros tiveram medo e me dei tremendamente bem.

Mas Warren Buffett é Warren Buffett e Descartes é Descartes. Em latim, o truísmo soaria melhor. Se Descartes ordena, estou pronto a me sacrificar.

Ele determinou meus investimentos na bolsa de valores por meio do livro Os Axiomas de Zurique, de um certo Max Gunther. Retificando: ele determinou meus investimentos na bolsa de valores por meio de um trecho do press release de Os Axiomas de Zurique, porque nem precisei ler o livro.

O trecho dizia que, para especular com sucesso na bolsa de valores, é preciso fazer como Descartes, duvidando sempre das verdades estabelecidas. Dito de outra maneira: se todos estão fugindo da bolsa de valores, pode ser uma boa oportunidade para entrar nela. O que eu fiz? Entrei.

"Penso, logo existo." Em latim, soa melhor: "Cogito, ergo sum". Segundo Os Axiomas de Zurique, o principal enunciado de Descartes sugere que o investidor pense por conta própria. Eu fiz o oposto: deixei que Descartes pensasse por mim. Assim como as ações da Aracruz, a metafísica cartesiana atingiu um novo mínimo.

A única certeza que eu tenho é: "Descartes pensa por mim, logo Descartes existe". A rigor, nem isso. Eu só posso afirmar sem titubear o seguinte: "O vulgarizador de Descartes me meteu nessa baita enrascada da bolsa de valores, logo o vulgarizador de Descartes existe".

De fato, seguindo o método de Descartes, nada impede que eu seja apenas um produto da mente de Max Gunther, o autor de Os Axiomas de Zurique. Nesse caso, quem arcará com o prejuízo não serei eu, e sim ele.

Quem terá de mendigar nas ruas não serão meus filhos, e sim os dele. Por isso, para mim não importa se os aloprados do governo brasileiro decidiram aumentar o salário dos servidores em mais de 40 bilhões de reais. Com toda a probabilidade, eu nem existo.

Lya Luft

Uma panela de água e sal

"Não acredito em grandes mudanças neste tempo de ideologias confusas e cabeças loucas, mas tenho esperança em algumas transformações individuais"

O habitual rio de desgraças nos chega pelos jornais e TVs: política e polícia, mediocridade geral e alienação particular, todo o drama humano – não insolúvel, mas nunca resolvido. A crise atual, que mal começa e vai piorar, tem de um lado o medo, de outro a arrogância, e produz férias forçadas ou desemprego.

Tem gente que ainda diz que não há crise. Tem gente cortando despesas e tremendo nas bases do otimismo, por modesto que ele seja. Tem gente mandando a gente deixar de bobagem e consumir. Que fazer?

Ilustração Atômica Studio

Os vinte grandes do mundo – em parte responsáveis pelo que nos atinge – almoçam em torno de uma mesa luxuosa num intervalo do seu jogo de vantagens, poder e enganos.

Num país vizinho, uma mãe de 20 anos com cara de anciã e menos de 1,5 metro de altura, com um bando de filhos mirrados, segura um bebê, o único que vagamente sorri. Indagada sobre o que tem em casa para lhes dar de comer, a mãe responde olhando para o jornalista: "Hoje é uma panela com água e sal".

Fala quase num tom de quem pede desculpas. A panela aparece, realmente fumega no fogãozinho de pedras dentro do casebre. Desligo o noticioso como se fosse um filme obsceno – é um filme obsceno. Mas ligo outra vez: é preciso saber.

Notícias da pobreza brasileira: crianças comendo nos lixões, mais famílias meio anãs porque desnutridas, um menino esquelético de belíssimos olhos escuros cansado de carregar água ladeira acima – baldes de água leitosa tirada de uma poça barrenta.

Enquanto isso, trilhões em dinheiro circulam pelos mercados (Vou receber e-mails repetindo que empobrecer os ricos não ajuda aos pobres: nem todos entendem o que escrevo, mas botar a cara na janela é para isso também.).

Não acredito em grandes mudanças neste tempo de ideologias confusas e cabeças loucas, em que a gente muda de partido ou de ideal como quem compra um celular novinho. Mas tenho esperança em algumas transformações individuais.

Talvez esteja me tornando ferrenhamente individualista, não por egoísmo, mas por esperar que cada um tente fazer a sua pequena parte. Trabalho de formiguinha: se alguém pagar à empregada o melhor que pode pagar, em vez de lhe dar o mínimo que a lei exige, alguma coisa já mudou.

Se, em vez de querermos atordoadamente ter e aparecer, participar e pertencer e sobressair, pensarmos em alegria e afetos; se acreditarmos que o bom e o belo são possíveis, apesar de tudo; se conseguirmos ser um pouco menos cegos e arrogantes, quem sabe começaremos a cair na real e a ajeitar a ordem do mundo que anda tão torta.

Um pai de aluno, numa escola onde estive, estava preocupado com "o excesso de possibilidades que se oferecem a jovens e crianças", e com razão. Isso é tão preocupante quanto a vasta miséria.

A desigualdade sempre vai existir, pois não somos bonecos feitos em série: haverá os menos talentosos, os mais inteligentes, os mais enérgicos e os menos capazes. Mas aquela mãe com seus filhos esqueléticos não precisava existir.

Agora, na televisão, três crianças, de 5, 7 e 8 anos, três lindas menininhas, enchem pequenos baldes com areia. Não é para brincar: elas estão, diz o irmão de uns 12 anos, "trabalhando". Ajudam a família carregando areia morro acima, a prefeitura do seu vilarejo paga por isso.

Não é no Brasil, mas é perto, e, com certeza, por aqui temos esse tipo de crime. Essa gente não pensa em crise: do nascimento à morte, sua vida é uma escuridão de fundo de poço. Para eles, o que conta é a dor da barriga sem comida e a da alma sem esperança.

Desligo a TV e vou cuidar da vida. Carrego, mais do que o caos nas finanças do mundo, o palavrório dos vinte figurões e as dificuldades que se avolumam.

Aquela mãe de metro e meio com seus sete filhos tristes. O pano de fundo é uma fumegante panela de água com sal, toda a sua refeição para esse dia.

Lya Luft é escritora


Um teto para quem precisa

A ONG Um teto para meu país, criada no Chile e presente no Brasil há pouco mais de um ano, reúne jovens de classe média alta para construir casas de madeira em favelas da América Latina
Margarida Telles

Rosana Maria da Silva espera a construção de sua nova casaRosana Maria da Silva olha tensa para o espaço vazio onde ficava o seu barraco e, instintivamente, protege com as mãos a barriga de nove meses de gravidez.

À sua frente, dez jovens que ela não conhece discutem, empolgados, sobre o melhor lugar para posicionar uma tora de madeira chamada de piloti. Eles não são da Projecta, favela espremida entre indústrias de Guarulhos, na Grande São Paulo, perto do Aeroporto de Cumbica.

Vieram de regiões nobres da cidade, e a maioria cursa a universidade. No início do mês, em vez de aproveitarem o final de semana para se divertir, foram construir casas na favela.

Quem os reuniu foi a ONG Um teto para meu país, entidade nascida no Chile que, há pouco mais de um ano no Brasil, já ergueu 131 habitações em áreas carentes, principalmente na Grande São Paulo, com a ajuda de cerca de 500 voluntários.

Três dias antes de receber seu novo lar, Rosana ainda estava numa lista de espera para conseguir uma das casas emergenciais, de madeira, erguidas sobre palafitas e que resistem por cerca de cinco anos.

Na véspera da construção, a jovem de 20 anos foi procurada por voluntários com a notícia de que ela poderia receber a casa. Não haveria mais o mutirão na Vila dos Sapos, favela perto da Projecta, devido a uma briga de gangues. Rosana não hesitou ao aceitar a demolição de seu antigo barraco.

“Não fiquei com medo, pois não tinha muito a perder”, diz a dona-de-casa, que já tem um filho de dois anos. A renda da família vem do marido, caminhoneiro, e raramente passa dos R$ 300. “Espero que, com essa casa, as coisas melhorem um pouco”, afirma.

O objetivo do Teto, como é conhecida a ONG, é justamente promover a interação entre pessoas que normalmente não se relacionariam. Mas nem todos os moradores de uma favela reagem com a mesma confiança que Rosana depositou em jovens que não pertencem àquele ambiente.

Uma semana antes do início do mutirão, alguns voluntários geralmente vão para a favela, avaliar os terrenos onde serão erguidas as casas e aproveitam para conversar com a comunidade, tentando garantir uma boa convivência.

Na Projecta, o mecânico Mauro Fernando da Silva, que vive lá há 13 anos e atua como um líder comunitário, teve papel fundamental nessa integração.

“No começo, tive dificuldades em convencer os moradores a confiar nos voluntários. Minha mulher e eu tivemos que dar apoio, inclusive emprestando dinheiro, para que as coisas andassem”, diz Silva.

No Brasil, a casa-padrão erguida pelos voluntários do Teto tem um custo de cerca de R$ 3,4 mil. O dinheiro costuma ser doado por empresas. No entanto, se tiver condições, a família que recebe a casa, escolhida com base na renda e no tipo de moradia, paga 10% desse valor. Normalmente, um grupo de dez jovens é formado para cada casa construída.

No mutirão da Projecta, os voluntários ergueram seis habitações no lugar dos barracos. Ninguém tinha muita experiência em construção civil, embora alguns fossem estudantes de engenharia e arquitetura. Assim, os mais experientes treinavam os novatos.

Voluntários constroem casa na favela ProjectaConforme as casas iam sendo erguidas, diminuía a resistência dos moradores. Aos poucos, eles começavam a conversar, se dispunham a ajudar e ofereciam café com bolachas de água e sal.

As refeições eram feitas na casa de amigos ou parentes dos que iam receber as casas de 18 m². À noite, os voluntários dormiram numa escola pública cedida pela prefeitura de Guarulhos.

Esta não foi a primeira vez que o Teto foi à favela Projecta. Em julho, a família de Maria do Socorro Lima, que tem oito filhos, foi uma das beneficiadas.

E ela faz questão de mostrar sua gratidão pelo trabalho dos jovens. “Agora eu tenho uma casa que não pinga, não entra chuva, que não tem o risco de dar um vento e eu encontrar os meus filhos soterrados.

Antes, as crianças ficavam doentes de tanto rato, mas agora eles não sobem mais.”

A auto-estima de Maria aumentou tanto com a nova casa que ela decidiu procurar o ex-marido para cobrar a pensão de seus filhos. “Se desconhecidos ajudaram tanto os meus filhos, o mínimo que o pai deles pode fazer é ajudar também.”


PAPATA DOS PEDÁGIOS

Eu acredito no que leio nos jornais. Sou ingênuo? Não sei. Acredito e fico perplexo. Chego a passar horas refletindo sobre as notícias do dia. Tenho muito tempo livre. Ontem, por exemplo, fiquei ensimesmado com o que li neste nosso intrépido Correio do Povo: 'Yeda vai a Brasília apelar ao ministro pelos pedágios'.

Não me espantei, como faria certamente um francês, com o tratamento informal dado à governadora do Estado, chamada pelo nome, como uma velha amiga, mas com o conteúdo mesmo da informação.

Não li em lugar algum uma manchete assim: 'Yeda apela ao ministro pelos professores'. Fiquei sabendo, ao contrário, que a governadora insiste em não abonar as faltas dos grevistas do magistério estadual.

O Brasil é um país clonado. Tudo possui um duplo. Pagamos previdência pública e privada, segurança pública e privada, educação pública e privada. Os impostos funcionam como pedágios pagos ao Estado.

Visto que não funcionam corretamente, metemos novamente a mão no bolso para resolver nossos problemas com serviços privados. O Estado vende dificuldades. A iniciativa privada cobra pelas facilidades. Um não vive sem o outro. Tem pedágio para tudo.

Conheço um sujeito que paga pedágio para visitar a amante. Ela mora no fundo de um pátio. Para atravessar o corredor que leva ao local do 'crime', sem provocar escândalo, o cara paga sem reclamar. A estradinha não é grande coisa, mas dá para o gasto.

Outra notícia que me chamou a atenção foi esta: 'Pont diz que proposta é negociata'. O deputado Raul Pont foi, referindo-se à prorrogação dos pedágios, ainda mais longe: 'Se mantido este processo, estaremos diante de uma das maiores negociatas que já se viu neste Estado. A CPI do Detran vai ser bobagem perto disso.

Esse vai ser o maior escândalo que este Estado já viveu, com esta negociata para beneficiar cinco ou seis concessionárias'. Fiquei atônito. Não sou amigo de Raul Pont. Sempre o considerei um homem sério.

Acredito no que ele diz. Procurei no Aurelião o termo negociata: 'Negócio em que há logro ou trapaça. Negócio irregular, suspeito. Mamata, papata'.

Será que vão processar o deputado Raul Pont? Ele está dizendo que tem mutreta no caminho dos gaúchos? Eu ando muito por essas estradas pedagiadas. São boazinhas. Nenhuma parece um tapete mágico. Funcionam. Ao menos.

Pensei em ligar para Raul Pont. Não tenho o seu número de telefone. Consultei novamente o dicionário. Cheguei à conclusão de que ele só podia estar falando em 'papata'. Não devia estar pensando em trapaça. Eu sou muito lógico.

Só pode ser 'papata'. Estou convencido de que Raul Pont quis dizer que 'estamos diante de uma das maiores papatas que já se viu neste Estado'.

Eu nunca tinha ouvido falar em papata. Achei que era batata. Imaginei batata como uma metáfora para pepino ou abacaxi. Seria, digamos, uma influência de Luiz Inácio no terreno das imagens inusitadas. Continuei a pesquisar. Papata é papata.

Folheei assustado o amansa-burro. Cheguei, enfim, ao vocábulo papata. Ele é definido economicamente: negociata. É um círculo vicioso. Como os pedágios.

Paga-se para entrar e sair. Tenho certeza de que, em juízo, Raul Pont não hesitaria. Estava falando em papata, cujo sentido original foi desvirtuado com o tempo. É batata!

juremir@correiodopovo.com.br

Ótimo sábado e um excelente fim de semana

quarta-feira, 19 de novembro de 2008



19 de novembro de 2008
N° 15794 - MARTHA MEDEIROS


Insatisfação crônica

Que sou caidíssima por Woody Allen, todos sabem, e que arrasto uma asa para Pedro Almodóvar, também não é segredo. Então pode-se imaginar o quanto saí satisfeita do cinema depois de assistir Vicky Cristina Barcelona. Satisfação, aliás, que os personagens do filme não parecem alcançar.

Pudera: Doug que amava Vicky que amava Juan Antonio que amava Maria Elena que amava Cristina que não amava ninguém. O happy end nunca passou tão longe de uma história.

Que história? Duas jovens americanas resolvem passar férias na Espanha. Uma está noiva de um homem padrão e não quer saber de aventuras, a outra está para o que der e vier, basta que surja um guapo bem disposto, e surge: um pintor que traz na bagagem uma separação mal resolvida com uma tresloucada e que resolve seduzir as duas turistas, mesmo com a ex-esposa na cola. Salve-se quem puder.

Mas não é um filme sobre desencontros. Ao contrário, é um filme sobre buscas. Dessa vez, Allen se permitiu ir além de si próprio: colocou pinceladas de uma ousadia almodovariana e, se eu não andei vendo coisas, há no roteiro algo de Truffaut também.

O resultado é um filme universal, como universal tem sido a nossa insaciedade.

Num tempo nem tão distante, você podia fantasiar o que bem entendesse, desde que seguisse o manual de instruções: casar e ter filhos. Se, mais tarde, acontecesse o imprevisto de uma frustração extrema, que se procurasse alguma saída, mas sem estardalhaço.

Essa é a situação da anfitriã das turistas no filme, uma senhora casada há uns bons 40 anos que, mesmo ainda amando o marido, sonha com uma grande paixão, mas declara-se impossibilitada de rescrever sua própria história - sente que o tempo dela passou.

Já Vicky e Cristina têm o tempo jogando a favor e vivem numa sociedade que não cessa de manter bem alto o nível de excitação geral. Internet, cinema, novelas, revistas, livros, música: tudo nos conduz a pensar que a vida não tem o menor sentido se a gente não sentir prazer 25 horas por dia.

E onde se esconde esse tal de prazer? Se você procurá-lo num casamento, estará renunciando às outras alternativas. Se, ao contrário, passar em revista todo homem ou mulher que lhe der um sorriso promissor, tampouco terá garantia de encontrar o que procura.

O que é que a gente procura? A tal festa no outro apartamento, a tal grama mais verde do vizinho, o tal êxtase que parece estar sempre na outra margem do rio.

Numa recente entrevista, Woody Allen disse que, de certa forma, tinha intenção de provocar tristeza com Vicky Cristina Barcelona.

Ainda que o filme tenha mesmo um toquezinho melancólico, Allen é elegante e engraçado em qualquer situação, e o que ele consegue, como sempre, é apenas (apenas?) nos mostrar como é megalômano o projeto de alcançar a plenitude dos sentidos. Mas a gente não aprende e vai morrer tentando.

Aproveite o dia - Uma ótima quarta-feira.