sábado, 15 de agosto de 2009



16 de agosto de 2009
N° 16064 - MARTHA MEDEIROS


Batalha entre duas generosidades

Quando vejo reportagens femininas que buscam desvendar o que as mulheres levam na bolsa, sempre me surpreende a falta de um objeto de uso fundamental. Está lá o batom, o celular, o iPod, mas e um livro? Nem pensar?

O mercado editorial já assimilou a potencialidade dos pockets books e, até onde sei, eles vendem bem. Como não venderiam? São pequenos, baratos e oferecem títulos de primeira. Eu sempre carrego um dentro da bolsa, porque nunca se sabe quando terei que encarar uma fila ou uma sala de espera.

O último livro que andou partilhando a intimidade da minha bolsa foi A Felicidade Conjugal, de Tolstoi. Com essa obra, o russo, além de exterminar de vez a discussão boba sobre diferenças entre literatura feminina e masculina (a gente jura que é uma mulher escrevendo), consegue revelar de forma brilhante (e ao mesmo tempo perturbadora) o segredo que mantém tantos casais unidos.

Conclusão dele: homens se sacrificam, mulheres se sacrificam, e fica mais tempo junto o casal que tiver o maior potencial de generosidade.

Parece, mas não é uma notícia tão alentadora. É literariamente bonito, daria uma boa novela das seis, mas, de minha parte, meu sonho não é um homem que sacrifique seus desejos em detrimento dos meus, e vice-versa.

O que Tolstoi define elegantemente como uma “batalha entre duas generosidades”, nós, os mundanos, chamamos de “concessões”. Essa palavra mais sugere uma batalha jurídica do que de generosidade, mas é tudo a mesma coisa.

Óbvio que temos que conceder. O tempo inteiro, desde que nascemos. A começar pelo âmbito familiar, ainda que nesse ringue as regras sejam criadas coletivamente. Já quando casamos com o senhor fulano de tal, ou com a dona sicrana da silva, que vieram sabe-se lá de onde e amparados por quais fundamentos, a concessão vira o calcanhar de Aquiles do contrato. Ele adora dançar, você odeia música alta.

Ela adora natureza, você não suporta passarinho. Mas se amam, olha que situação. Quem cede quanto?

A felicidade conjugal só sobrevive quando os dois dão sua cota de sacrifício da forma menos dolorida possível. Ninguém morre se tiver que dançar um pouquinho ou se tiver que passar um final de semana no sítio, isso é cláusula previamente acertada e nem comporta a rigidez da palavra “sacrifício”.

Mas e se você tiver que enfrentar uns “nunca mais” pela frente? E se os seus sonhos de juventude tiverem que ser enterrados? E se o seu trabalho ficar comprometido? E se sua vida virar um palco e você tiver que assumir um personagem 24 horas por dia?

E se sentir saudades de alguém que você já não é mais? Não pense que isso é dramatismo. É mais comum do que se imagina. Tem pessoas que renunciam a si mesmas e só percebem isso quando não há mais retorno possível.

Generosidade, mesmo, é você permitir e incentivar que o amor da sua vida seja exatamente como ele é, e ele retribuir na mesma moeda, sem querer mudar você nem um naquinho assim.

Mas esse romance ainda está para ser escrito.

Um lindo domingo para você. Ah e aproveites. Não fiques tristinha assim. Vc é tão forte quanto aparenta ser.


As 1 001 utilidades de uma marca

O caso da Bombril é um exemplo de como uma marca sólida
pode salvar uma empresa até das mais profundas crises

Cíntia Borsato - Lailson Santos

TENTATIVA DE LIMPAR A CASA
Ronaldo Ferreira, hoje no comando: corte de custos e executivos no lugar dos amigos

A Bombril está comemorando: registrou um lucro de 84 milhões de reais no primeiro semestre de 2009. Não se trata de um resultado como qualquer outro. É a primeira boa notícia em muitos anos - e o primeiro sinal palpável de que uma crise que, muitos apostavam, obrigaria a empresa a fechar as portas pode estar se revertendo.

O processo de decadência começou na década de 80 - mas atingiu seu auge entre 2002 e 2006, quando a Bombril chegou a paralisar a produção por falta de dinheiro para comprar matéria-prima. Nesse longo período, sucederam-se episódios negativos, como a guerra por poder travada entre os herdeiros, que chegaram a trocar socos e xingamentos nos corredores da fábrica de São Bernardo do Campo, desvios de dinheiro e uma coleção de fraudes financeiras.

De 2006 para cá, teve início uma reestruturação radical, capitaneada por um dos três herdeiros, o economista Ronaldo Sampaio Ferreira, o único que ainda está lá. Nos quadros de administração, parentes e amigos foram substituídos por executivos tarimbados, que renegociaram uma dívida astronômica, frearam gastos e enxugaram custos fixos, além de trazer à Bombril novas práticas de gestão e governança corporativa.

Certamente, a empresa não teria permanecido viva se não estivesse apoiada numa marca tão forte, criada pelo comerciante Roberto Sampaio Ferreira em 1948 e até hoje sinônimo do produto que é, de longe, seu carro-chefe: a lã de aço. Diz o consultor René Werner: "Por mais trapalhadas que houvesse na empresa, elas nunca respingaram na marca".

Divulgação


O MESMO ROSTO

Carlos Moreno, na década de 70: 31 anos no ar

Marcas valiosas ajudam a explicar a longevidade de algumas das mais antigas empresas brasileiras, como, por exemplo, Hering e Lupo (veja reportagem). Mas nenhuma marca nacional, seja qual for o setor de atuação da companhia, é mais sólida do que a Bombril. Isso se vê em números. Suas lãs de aço chegam a 80% das casas brasileiras, um recorde para qualquer setor.

Trata-se ainda do segundo artigo de limpeza mais vendido no país, atrás apenas do sabão em pó Omo (da multinacional Unilever). Em nenhum outro lugar do mundo a lã de aço foi tão assimilada quanto no Brasil, que concentra dois terços do mercado mundial desse produto. A razão é cultural. Os brasileiros revelam um apreço pelo brilho na limpeza como ninguém mais, segundo mostram as pesquisas.

Além disso, conferiram vários usos à tal lã, como afixá-la à antena da televisão para melhorar a imagem e até servir de adubo para plantas. Nos anos 70, um produto parecido surgiu no Brasil - mas vinha com detergente, tal qual nos Estados Unidos, e não vingou. A antiga versão já havia sido incorporada aos hábitos locais. Conclui Alexandre Zogbi, da consultoria Interbrand: "A Bombril é um daqueles casos raros em que um vínculo emocional liga as pessoas a um produto - e à sua marca".

No ápice da crise, em 2003, foi justamente a marca que salvou a empresa do pior. Sem crédito na praça e com 570 títulos protestados, a Bombril precisou demitir 30% de seus funcionários e paralisou a produção. "Só se via gente ociosa.

O silêncio das máquinas era o maior sinal da decadência", recorda-se a gerente de novos produtos, Adelice de Moraes, há 33 anos lá. Nesse tempo, os executivos da Bombril batiam à porta das grandes redes de supermercados e atacadistas, implorando para que fizessem compras antecipadas e mais: que pagassem à vista. Em troca, concediam-lhes descontos graúdos.

Havia um detalhe peculiar nessa transação: com prateleiras abarrotadas de Bombril, os supermercados não colocavam à venda a nova mercadoria. Ela ficava armazenada em depósitos. Por que, então, essas redes seguiam comprando mais e mais lãs de aço? "Para manter a Bombril de pé", explica Hélio Mariz de Carvalho, da consultoria FutureBrand, que acompanhou o caso. "Se a empresa morresse, provavelmente desapareceria com ela uma marca que atrai gente às lojas."

Lailson Santos


MUDANÇAS NA FÁBRICA

Vendendo menos lã de aço, a saída é diversificar

A história da dívida da Bombril - de 450 milhões de reais só de impostos devidos à União, mais a quantia relativa a multas por operações financeiras irregulares, cujo valor ainda se discute na Justiça - remete a meados dos anos 80. Foi quando o governo federal incluiu a lã de aço na cesta básica. Poderia ter sido bom, caso o preço não fosse tabelado e tão baixo.

Para piorar, o valor do produto ainda se depreciava com a inflação de dois dígitos, e a empresa perdia dinheiro, o que se agravou nos anos seguintes, aí por má administração. Nesse contexto, o italiano Sergio Cragnotti, então dono da Cirio, até hoje uma das marcas mais conhecidas do ramo de alimentos na Europa, comprou a Bombril dos irmãos Ferreira. A gestão do empresário italiano foi decisiva para levar a Bombril ao fundo do poço.

Ele liderou uma série de transações financeiras duvidosas. Por algumas delas, é acusado de lavagem de dinheiro. Cragnotti retirava dinheiro da Bombril e com ele simulava, por meio de contratos falsos, comprar títulos da dívida americana. Numa outra operação, fez ainda a Bombril arrematar a Cirio - fraude em que o comprador e o vendedor são a mesma pessoa, mais conhecida no mercado como "Zé com Zé".

Mesmo assim, a Bombril continuou, por um bom tempo, a obter crédito e a captar dinheiro no mercado de ações, no qual havia ingressado em 1984. "Isso só foi possível porque, naquela época, a fiscalização das empresas na bolsa era bem menos vigilante", diz o economista Maílson da Nóbrega.

Em 2003, já com uma maior transparência do sistema e a má situação da Bombril cristalina, as ações da companhia chegaram à sua pior cotação na década - 2,80 reais. Hoje, o valor é de 6 reais.

"É um milagre a Bombril ter sobrevivido, ela era o avesso de uma empresa moderna", diz o economista José Bacellar, um dos três administradores apontados pela Justiça para gerir a companhia depois do escândalo Cragnotti. Sobre esse período, ele incluiu um capítulo no livro A Surdez das Empresas, que fala de sua experiência na reestruturação de empresas. Lançado recentemente, o livro foi alvo de uma ação legal e chegou a ser retirado das prateleiras.

O autor da ação foi Ronaldo Sampaio Ferreira .- que decidiu reassumir o comando da empresa e tem feito tudo para proteger sua imagem.

Colecionador de carros de luxo, como o Mercedes 300 SL, uma raridade, e criador de gado, Ronaldo reconhece que é capaz de atos inconsequentes. "Sou um apaixonado por novidades", comenta. Ele aprendeu a manter os pés no chão a um custo alto. A palavra do dia hoje na Bombril é diversificar a linha de produtos. Não é apenas por causa da concorrência.

A Bombril, que já teve 90% do mercado de lã de aço no Brasil, agora detém uma fatia de 70% (os outros 30% estão nas mãos da Hypermarcas, dona da Assolan). A diversificação é também necessária porque a procura pelo produto tende a encolher - caiu 10% somente no ano passado. Os hábitos de consumo estão mudando.

As panelas de hoje não precisam mais ser areadas. As televisões tampouco têm antena. Mais preocupadas em manter as unhas benfeitas, as mulheres começaram a buscar produtos de limpeza até com hidratante. Para manter sua tão valiosa marca, a Bombril tem pela frente o desafio de adequar-se aos novos tempos.


Cheque ao bispo

O Ministério Público de São Paulo acusa Edir Macedo e mais nove integrantes da Igreja Universal de usar o dinheiro de doações de fiéis para fazer negócios
e engordar o próprio patrimônio

Laura Diniz - Jose Patricio/AE



AGORA, RÉU

Fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo é acusado de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro

Há 32 anos, os templos da Igreja Universal do Reino de Deus recebem ricos e pobres, crédulos e descrentes, doentes, despossuídos e desesperados. A todos a igreja oferece consolo e, muitas vezes, também uma porta de saída para escapar do vício, do crime e da solidão.

Mas cobra caro por isso. Baseada numa particular Teologia da Prosperidade, a Universal, fundada e chefiada pelo bispo Edir Macedo, prega que a maior expressão da fé são as oferendas de dinheiro à igreja (e também de carros, casas e cheques pré-datados).

A ideia de que, "quanto mais se doa, mais Deus dá de volta", levada ao paroxismo pela eloquência dos bem treinados pastores da Universal, já fez com que almas crédulas arruinassem suas finanças, seu casamento, sua vida. O Código Penal, contudo, não alcança práticas religiosas. Em linhas gerais, se um brasileiro quiser doar tudo o que tem a qualquer igreja, estará livre para isso.

E quem receber a doação também não encontrará empecilhos na legislação. O que não se pode é tapear a lei – e é precisamente isso o que vêm fazendo Macedo e outros nove integrantes da cúpula da Universal, segundo uma peça de acusação elaborada por promotores do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo.

A partir da denúncia oferecida pelo Gaeco, e aceita pela Justiça na última segunda-feira, Macedo e seu grupo tornaram-se réus em um processo criminal sob as pesadas suspeitas de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro.

Com base numa investigação de dois anos, o MP afirma que Macedo e seu grupo se converteram em uma organização criminosa ao usar as doações de fiéis para engordar seu próprio patrimônio – no caso do bispo, nada desprezível.

Além de dono de 90% da Rede Record, Macedo e a mulher, Ester Eunice Rangel Bezerra (ela, dona dos outros 10% da emissora, segundo aparece no contrato de concessão), têm uma coleção de imóveis que incluem, apurou VEJA, dois apartamentos em condomínios de luxo em Miami, nos Estados Unidos: o primeiro, em nome de Ester, foi comprado em 2006 e está avaliado em 2,1 milhões de dólares.

O segundo, registrado em nome do casal, foi adquirido no ano passado e custou mais do que o dobro do primeiro: 4,7 milhões de dólares. Ambos ficam na Collins Avenue, um dos endereços mais sofisticados da cidade.

Segundo a denúncia do MP, além de enganar os fiéis embolsando o dinheiro que deveria ter destinação religiosa, a Universal burla o Fisco ao aproveitar-se de sua imunidade tributária e fazer transações comerciais. A imunidade fiscal assegurada pela Constituição às igrejas baseia-se no princípio de que seu patrimônio, renda e serviços visam à atividade religiosa, e não ao lucro. Quando o dinheiro dos fiéis é usado para comprar empresas e jatinhos – caso dos pastores da Universal, segundo o MP –, a Justiça tem de ser acionada.

Em 1997, uma auditoria da Receita Federal sobre as contas da Universal já havia produzido um relatório defendendo que ela perdesse a imunidade fiscal, uma vez que vinha fazendo uso do benefício para ganhar dinheiro. Dez anos mais tarde, ao analisar a situação de cinco igrejas evangélicas, entre elas a Universal, a mesma Receita chegou a iniciar um estudo para regulamentar o uso das doações de dinheiro originário da fé (livre de tributos) em empreendimentos tributáveis.

O projeto não foi adiante. Para o advogado da Universal, Arthur Lavigne, a denúncia do Gaeco apenas reúne tudo o que já foi dito contra a igreja desde 1992. Nesses dezessete anos, diz ele, houve mais de dez processos contra a Universal, e apenas dois estão em andamento, incluindo o que foi aceito pela Justiça na semana passada.

As primeiras investigações sobre as atividades de Edir Macedo e seu grupo na Igreja Universal começaram dois anos antes da investida da Receita. Em 1995, depois da divulgação de um vídeo em que Macedo aparecia ensinando pastores a arrancar dinheiro de fiéis, autoridades federais deram início a uma varredura nas atividades da igreja, mas, até agora, poucas irregularidades haviam sido comprovadas.

A diferença entre essas investigações anteriores e o trabalho do Gaeco é que, desta vez, os promotores conseguiram mapear o caminho do dinheiro, desde as doações dos fiéis até a compra de duas emissoras de TV, um prédio e um jatinho modelo Cessna, por 2,5 milhões de reais.

Entre 2001 e 2008, a Universal, segundo os promotores, amealhou 8 bilhões de reais de seus cerca de 8 milhões de seguidores. Metade dessa dinheirama foi parar em contas bancárias da igreja por meio de 4 015 depósitos em espécie – direto das sacolinhas dos dízimos. A outra metade chegou, principalmente, por meio de transferências eletrônicas provenientes de filiais da igreja espalhadas pelo país.

A partir daí, o esquema funcionava da seguinte maneira, de acordo com a acusação: a maior parte do dinheiro era repassada, a título de "pagamentos", para empresas de fachada controladas por integrantes do grupo, a Cremo Empreendimentos e a Unimetro Empreendimentos. Ambas movimentaram, entre 2004 e 2005, mais de 70 milhões de reais, ainda que não tenham oferecido no período nenhum serviço ou produto, segundo atesta a Secretaria da Fazenda de São Paulo.

Da Cremo e da Unimetro, o dinheiro dos fiéis era enviado para empresas sediadas em paraísos fiscais: a Investholding, nas Ilhas Cayman, e a CableInvest, nas Ilhas do Canal. De lá, retornava ao Brasil disfarçado de empréstimos para pessoas ligadas à Universal, que usavam os valores para transações nada religiosas. Apesar do emaranhado trajeto percorrido pelo dinheiro, ele, na verdade, nunca saiu das mãos da cúpula da Universal.

A Cremo é de propriedade da Unimetro – que, por sua vez, pertence às duas empresas sediadas no exterior. No Brasil, a Investholding e a Cableinvest são representadas por Alba Maria da Costa e Osvaldo Sciorilli, executivos da Universal, ligados a diversas empresas do grupo e réus no processo. Assim como o chefe, Alba e também Maurício Albuquerque e Silva, ex-diretor da Cremo e da Unimetro, são proprietários de imóveis em Miami.

O Gaeco sustenta que foi esse o esquema usado pela igreja para comprar, por exemplo, a TV Record do Rio de Janeiro e a TV Itajaí, de Santa Catarina. Ao todo, o império de comunicação da Universal reúne 23 emissoras de TV, 42 emissoras de rádio e várias outras empresas. O do bispo prospera na mesma medida. Em 2007, ele se esmerava na construção de uma casa de 2 000 metros quadrados em Campos do Jordão (SP), no valor de 6 milhões de reais.

Naquele tempo, já era proprietário de outra casa na mesma cidade, comprada onze anos antes por 600 000 dólares. Somem-se a isso os imóveis de Miami e não restará dúvida de que Macedo é um abençoado. Resta saber se à luz da lei tanta prosperidade também poderá ser comemorada.

Jose Patricio/AE e Marcos Fernades


CASA DE DEUS, CASA DO BISPO
Um dos templos da Universal em Belo Horizonte e a casa construída por Edir Macedo em Campos do Jordão


Meninas querem namorar mais que meninos

Aos 13 anos, elas já pensam em exclusividade, enquanto eles se preocupam com a liberdade, diz pesquisa
Nádia Mariano



As garotas brasileiras de 8 anos para cima já se preocupam com fidelidade no namoro. Cada vez mais precoces, elas têm preocupações de gente grande: querem compromisso, mas os garotos não abrem mão da liberdade. Para eles, o namoro pode prejudicar o contato com os amigos.

Aos olhos desses adolescentes, não são atitude prematuras para a idade. É uma tendência geral, constatada em uma pesquisa com mil pré-adolescentes e adolescentes brasileiros, com idades entre 8 e 14 anos, de todas as regiões do Brasil, feita pelo canal de TV Boomerang.

Para a alegria momentânea de pais e mães, apenas 13% das meninas de 13 e 14 anos dizem ter namorado. Entre os meninos da mesma idade, 23% afirmam o mesmo. Alguns começam cedo (a namorar ou a pegar mentira): na faixa dos 8 aos 10 anos, 2% das meninas e 15% dos meninos dizem namorar.

Apesar de expectativas diferentes para o amor, garotos e garotas concordam plenamente em outros pontos. Uma delas é a impossibilidade de sair de casa sem celular – pensam assim 61% das meninas e metade dos meninos. O tocador de MP3 também tem de ir junto: 26% dos garotos e 23% das garotas disseram não por o pé fora de casa sem o aparelho.

Nem só de namoro e consumismo vive esse grupo. Para 48%, o programa mais divertido que existe é bater papo online com os amigos. E, pelo menos na hora de responder a pesquisa, eles mostraram gostar da companhia dos pais: 43% consideram assistir televisão com a família o mais divertido dos programas.

O guia mundial da infidelidade

Uma jornalista americana pesquisa oito países para descobrir como e por que as pessoas traem – e como seus parceiros reagem. No Brasil...
Fernanda Colavitti

A Rússia, por várias razões, é outro país peculiar. Depois de 72 anos de comunismo, a religiosidade e o sentimento de pecado foram quase abolidos. Quando desapareceu também a repressão do regime, no início dos anos 90, a sociedade caiu na farra. Hoje em dia, os russos – homens e mulheres – se orgulham da desenvoltura com a qual traem.

“Foi o único lugar que eu visitei em que as pessoas se vangloriam de ser infiéis”, diz Pamela. O Brasil não entrou na pesquisa do livro, mas certamente teríamos algo a ensinar. Por aqui, 21% dos homens casados ou que vivem com companheiras e 11% das mulheres na mesma situação disseram ter relações sexuais extraconjugais.

O levantamento nacional foi divulgado no mês passado pelo Ministério da Saúde. Esses índices nos aproximam dos africanos e nos deixam a quilômetros de países como Estados Unidos, França e Itália, onde cerca de 3,7% dos homens e 3,1% das mulheres admitem enganar seus parceiros. No Brasil, a cultura sexual é bem mais liberal. “Se o parceiro não souber, não existe culpa.

Ela só aparece quando o caso é descoberto”, diz a antropóloga carioca Mirian Goldenberg, autora do livro Infiel. “Eu não diria nem que é culpa, mas sim arrependimento. O importante não é ser fiel, mas o outro acreditar que você é.” Nesse ponto, somos parecidos com os franceses e totalmente diferentes dos americanos.

A socióloga paulistana que prefere ser identificada como Cláudia, de 45 anos, é um exemplo dessa maneira de lidar com a infidelidade. Casada há 20 anos, ela mantém um caso extraconjugal há dez, com um colega de trabalho, também casado.

O affair começou quando ela estava na faculdade e seguiu depois do casamento dela. E dele. Ela diz que se dá bem com o marido, mas que o amante é uma história à parte: alguém com quem ela se dá bem intelectual e sexualmente e que a tira da rotina do casamento. “É o lado leve. Você está junto só para fazer coisas agradáveis.

É uma espécie de lado B meu”, diz ela. E é justamente por isso que Cláudia diz não ter conflitos internos. “Considero isso uma parte totalmente separada da minha vida oficial, que não interfere no meu casamento. Não sinto peso na consciência”, diz ela, que, inclusive, mantém um blog onde conta suas aventuras amorosas.

Outro estereótipo que não se confirma na prática é o do machão inflexível, que não perdoa jamais uma traição. “Eles são capazes de superar sim, contanto que os outros não saibam. O maior problema masculino é a imagem de corno, não a traição propriamente dita.

Eles geralmente não querem terminar a relação”, diz Mirian. Exatamente como o empresário paranaense Gustavo, de 30 anos. Ele descobriu que sua atual mulher e então namorada o tinha traído algumas vezes, inclusive com um ex-namorado de quem sempre desconfiou.

Apesar de sua reação explosiva – ele diz que, para não dar um soco na cara da namorada, esmurrou a parede e quebrou a mão –, ele continuou o namoro. “Como eu não era carinhoso, atencioso, motivos que ela alegou para me trair, e a gente brigava muito, resolvi assumir um pouco da culpa nisso tudo e segui em frente”, diz ele. Apesar das brigas e desconfianças, continuaram juntos e casaram.

Aí veio a segunda traição. Gustavo diz que foi em um período no qual ele estava trabalhando muito e não tinha tempo para a mulher, que acabou transando com um colega de trabalho.

Ele descobriu por meio da mulher do tal colega. “Dessa vez já estava vacinado. Não foi terrível, mas foi bem difícil. Pensei em me separar, mas, como ela insistiu muito, chorou, implorou, e como eu a amo, perdoei mais uma vez”, diz. Gustavo diz que não superou: “Fico com a pulga atrás da orelha, pensando que pode acontecer de novo”.

Pamela conclui seu estudo dizendo que, apesar de a monogamia ser o ideal em quase todo o mundo, as pessoas tendem a aceitar que é normal para pessoas casadas ter pequenos flertes e atrações e, às vezes, algo mais. Isso não quer dizer que a infidelidade não machuque e cause prejuízos emocionais.

Por isso ela aconselha a fazer como os franceses: “Encare a traição como uma parte desagradável do conto de fadas, não como o fim da história”.


15 de agosto de 2009
N° 16063 - NILSON SOUZA


Receita de felicidade

No meio de toda esta bronca de gripe sem cura e políticos sem vergonha, surge um brasileiro com a receita da felicidade. Isso mesmo, o homem tem 72 anos, está feliz com a idade que tem, com a vida que tem, com a família, com o trabalho e com a perspectiva de futuro.

Mais do que isso: não se importa em transmitir sua fórmula para quem quiser adotá-la. Vamos primeiro examinar sua mensagem. Depois dou o nome do santo.

Sobre envelhecer: Ele diz que, quando se chega aos 50 anos, o melhor está pela frente. Lembra que algumas pessoas ficam envergonhadas de perder algumas de suas características, de ter limitações físicas, e esquecem que estão adquirindo mais conhecimento, mais sabedoria, maior capacidade para administrar a vida e os relacionamentos.

Sobre condição física: Recomenda nunca se descuidar da musculação, para evitar a sarcopenia (que é a perda de massa muscular com o envelhecimento). Diz que não é preciso malhar loucamente. Basta caminhar, correr um pouco, evitar andar como enceradeira, pois pernas fortes previnem tombos, que são fatais para os idosos.

Sobre condição mental: Lembra que é muito importante fazer coisas novas, aprender algo novo. Ele mesmo está estudando francês para manter o cérebro ativo e conservar a capacidade mental.

Sobre a finitude: O nosso conselheiro diz que é preciso estar preparado para a vida acabar a qualquer momento, mas sentencia: “Você tem que acreditar que é eterno”.

Sobre escolhas: Sugere que se escolha sempre ser feliz, e que se balize o resto das coisas por esta escolha. Diz: balize o seu esporte, balize o seu trabalho, na medida do possível, o seu lazer e sua vida familiar.

Sobre estresse: Alerta que as pessoas devem ter noção de que não se pode evitar totalmente o estresse, mas lembra que é possível administrá-lo, controlá-lo. E garante que uma vida sem um pouco de estresse não tem graça.

Sobre comer e beber: Conta que substituiu o refrigerante pelo vinho moderado, mas que também gosta de pizza, lasanha, churrasco. Assegura que quem pratica atividade física e tem uma vida saudável não prescinde das coisas boas da vida.

Quem é este brasileiro que ousa ser feliz numa hora dessas? Ele se chama Abílio Diniz, é um dos empresários mais ricos do país, dono da rede de supermercados Pão de Açúcar.
Tem fortuna, é verdade, mas jura que a felicidade chegou antes do dinheiro, pois o negócio da família já andou perto da falência e ele mesmo já viveu no Exterior sem recurso algum. De qualquer maneira, os conselhos são de graça.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009



12 de agosto de 2009
N° 16060 - MARTHA MEDEIROS


Escuta telefônica revelada

Todo ano, bem nesta época, recebo uma ligação telefônica de um representante da Câmara Rio-Grandense do Livro e o diálogo é sempre o mesmo. Sou comunicada de que meu nome foi lembrado para concorrer ao título de patrona da Feira do Livro de Porto Alegre e eu agradeço, porém recuso.

Há muito tempo que isso acontece secretamente, nos bastidores, mas hoje resolvi abrir essa escuta, em minha defesa.

– Martha, é a Jussara, tudo bem?

– Oi, Jussara!! (nesse momento, eu começo a rir e ela também, porque já sabemos o que vem pela frente).

– Você sabe por que estou te ligando, não sabe?

– Sei, Ju. E você sabe a minha posição, né?

– Mas eu não posso ficar sem te comunicar. Os livreiros admiram teu trabalho e sempre sugerem teu nome como uma das candidatas a patrona.

– Jussara, agradeça a cada um deles, diga que isso muito me honra. Todos sabem o quanto eu prezo a Feira, tenho uma afeição por esse evento que vem de muito antes de eu sonhar em ser escritora.

– Então por que você não topa?

– Vá que eu seja eleita? Antigamente, o patrono tocava a sineta, dizia meia dúzia de palavras, circulava entre as barracas de vez em quando e só aparecia de novo para o encerramento.

Agora, o patrono passou a ter responsabilidade executiva. Precisa participar de todos os debates, recepcionar convidados de fora, dar 3.642 entrevistas, prestigiar todos os lançamentos, opinar sobre a literatura do século 14, sobre o comportamento sexual da Capitu, sobre as obras publicadas no Senegal, sobre a influência do (incompreensível), enfim, o patrono tem que se esquecer da família e se mudar de mala e cuia pra Feira por 15 dias.

Eu não tenho a menor condição. E não é só por falta de tempo: é por falta de conteúdo. Não possuo conhecimento literário para assumir esse compromisso.

– Você está exagerando.

– Juro. Calhou de eu viver de escrever, mas não sei teorizar sobre esse ofício. Prefiro conversar sobre filmes, viagens, moda, música, relações amorosas. Sou mundana demais pra ser patrona, Jussara.

– Tá, um dia a gente te convence.

– Olha, quando eu não precisar mais ir ao supermercado, nem levar filha ao colégio, nem ir a sapataria, lavanderia, padaria, academia, e estiver sem namorado, prometo reconsiderar.

(ambas riem)

– Sério, Jussara, obrigada. E transmita esse agradecimento a todos os livreiros.

– Vou fazer isso, guria. Um beijo e até lá. (desligam)

Eu não pretendia quebrar esse sigilo, mas não podia continuar calada diante da suspeita de eu menosprezar a Feira. Desdém, nunca. Agora se sabe: é covardia mesmo.

Então, parabéns a Airton Ortiz, Carlos Urbim, Juremir Machado da Silva, Luís Augusto Fischer e Regina Zilberman, candidatos deste ano. Já que todos são merecedores, que vença aquele que tiver o melhor preparo físico.

Uma excelente quarta-feira para você - Aproveite o Dia Internacional do sofá e as férias compulsórias de inverno que vão chegando ao fim.

terça-feira, 11 de agosto de 2009



11 de agosto de 2009
N° 16059 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Em companhia de uma dama

Talvez porque escrevo numa tarde chuvosa, fria e cinzenta, me refugio em uma manhã de minha última viagem à Europa. Depois de uma semana de rígida programação, em que todos os segundos eram preenchidos por solenidades, visitas obrigatórias, palestras e debates, se abria diante de mim um dia inteiramente livre.

Dormi mais do que eu tinha direito, tomei um longo banho com água gostosamente tépida, encarei um breakfast preparado por um cozinheiro cordon bleu e saí à rua. Fazia um dia ensolarado, luminoso, sereno – um convite a você abraçar todas as coisas boas da vida.

Preciso caminhar – considerei – e saí vencendo calçadas e quarteirões, como se ali começassem todos os rumos do universo.

E então, de repente, sem o menor aviso prévio, a rua que eu trilhava se transformou numa avenida floral. As pistas privativas dos carros e dos ônibus se alargaram, convertendo-se num imenso prado.

Não falo aqui desses prados onde correm jóqueis e cavalos. Trato de aleias, canteiros, jardins, onde repousava a alegria de viver.

Dei um ponto e vírgula em minha jornada, puxei a máquina fotográfica, comecei a retratar a lindíssima paisagem circundante.

Foi quando percebi que não estava só. Do lado oposto do gramado florido me sorriam duas damas: a loira de uns 30 e poucos anos e a menina ruiva de uns 10, que devia ser sua filha. Foi a mãe que fez um gesto que dispensava tradução: eu queria que elas me fotografassem naquele cenário encantador? Disse que sim com a cabeça e elas pediram emprestada minha câmera e me transformaram alegre e ternamente em seu modelo.

Acabo de revisitar as fotos.

Aqui estou eu contra o fundo rosado de uma cerejeira. Aqui estou eu cercado de longe por montanhas de cumes brancos, que devem ser os Alpes. Aqui estou eu na insólita companhia de um parceiro impressentido: um mínimo esquilo.

E aqui estou eu ao lado de uma dama que não é nenhuma das duas que me fotografam.

Faz sol, bate leve meu coração, e eu sou inclinado a crer que essa dama é aquela que chamam de felicidade.

Uma linda terça-feira, especialmente para você que ainda continua com suas férias compulsórias de inverno

domingo, 9 de agosto de 2009



09 de agosto de 2009
N° 16057 - MARTHA MEDEIROS


Os pais no cinema

E m meio a tantas boas comédias que o cinema nacional vem produzindo, é bacana saber que o drama continua mantendo seu espaço, e tendo ótimos representantes, como é o caso de À Deriva, filme de Heitor Dhalia que estreará em breve com Débora Bloch, Vincent Cassel e a estreante Laura Neiva formando uma família à beira da desestruturação.

O fato de a história privilegiar o ponto de vista da adolescente Filipa, de 14 anos, faz toda a diferença: é a inocência e a tragédia sendo apresentadas: muito prazer.

Assisti também Quando Você Viu Seu Pai Pela Última Vez?, filme britânico com Jim Broadbent e Colin Firth, que narra a visita de um filho quarentão ao pai que está em estado terminal. Um acerto de contas com o passado, já que a relação entre eles nunca foi de total camaradagem, nem poderia: um pai malandro e dominador que adorava provocar seu guri romântico e sensível.

Os dois filmes mostram adolescentes perplexos diante da desconstrução da imagem que faziam dos próprios pais. Ambos os roteiros se concentram no turning point que se dá quando descobrimos que nossos super-heróis não são tão super assim: têm fraquezas, defeitos e um comportamento que, se um dia provocou orgulho, pode vir a nos envergonhar. Alguém consegue passar batido por essa mudança radical de perspectiva?

A adolescência ainda é considerada apenas uma fase de desbunde e de pequenas transgressões assistidas, mas é bem mais do que isso. Não só é o momento em que se começa a abandonar a infância e a entrar no mundo adulto, mas também o momento em que passamos a enxergar o que não gostaríamos de ver – ganhamos uma amplitude de horizonte que nos tonteia.

A realidade cai no nosso colo de forma abrupta, agora fazemos parte da vida pra valer, é hora de começar a cuidar de nós mesmos, e então? Preparados?

Ninguém nunca está suficientemente preparado para descobrir que o amor é cheio de sutilezas, e que nossos pais, assim como nós, possuem desejos secretos e são capazes de abafá-los, mas também são capazes de não abafá-los, levando seus impulsos às últimas consequências, a despeito de tudo e de todos, incluindo os filhos.

Afinal, a garotada está se divertindo tanto que mal consegue perceber o que se passa em volta, não é assim? Pais preferem acreditar que adolescentes só enxergam o próprio umbigo, quando na verdade os moleques são providos de uma antena de alcance supersônico.

Só que ainda não possuem as ferramentas necessárias para racionalizar sobre o que estão descobrindo. Então sentem. Sentem feito loucos, sentem com 100% de potência emocional. E ainda são rotulados de rebeldes sem causa, quando causa é o que mais lhes sobra.

Tanto À Deriva como Quando Você Viu Seu Pai Pela Última Vez? nos lembram o quanto nossos pais foram e são fundamentais em nossas vidas, mas não a ponto de impedir o espanto juvenil.

Mas esse espanto tem tudo para voltar a trilhar o caminho do deslumbramento: no filme Tinha que ser Você, que esteve recentemente em cartaz, Dustin Hoffman, no papel de um pai distante, consegue resgatar a intimidade com a filha no dia do casamento dela.

Mais uma vez o cinema mostrando que essa relação sempre tumultuada entre pais e filhos depende apenas de se deixar o orgulho de lado e abrir espaço para um afeto que não pode nunca faltar.

sábado, 8 de agosto de 2009


Lya Luft

Brasileiro não gosta de ler?

A meninada precisa ser seduzida. Ler pode ser divertido e interessante, pode entusiasmar, distrair e dar prazer

Ilustração Atômica Studio

Não é a primeira vez que falo nesse assunto, o da quantidade assustadora de analfabetos deste nosso Brasil.

Não sei bem a cifra oficial, e não acredito muito em cifras oficiais. Primeiro, precisa ser esclarecida a questão do que é analfabetismo. E, para mim, alfabetizado não é quem assina o nome, talvez embaixo de um documento, mas quem assina um documento que conseguiu ler e... entender.

A imensa maioria dos ditos meramente alfabetizados não está nessa lista, portanto são analfabetos – um dado melancólico para qualquer país civilizado. Nem sempre um povo leitor interessa a um governo (falo de algum país ficcional), pois quem lê é informado, e vai votar com relativa lucidez. Ler e escrever faz parte de ser gente.

Sempre fui de muito ler, não por virtude, mas porque em nossa casa livro era um objeto cotidiano, como o pão e o leite. Lembro de minhas avós de livro na mão quando não estavam lidando na casa. Minha cama de menina e mocinha era embutida em prateleiras.

Criança insone, meu conforto nas noites intermináveis era acender o abajur, estender a mão, e ali estavam os meus amigos. Algumas vezes acordei minha mãe esquecendo a hora e dando risadas com a boneca Emília, de Monteiro Lobato, meu ídolo em criança: fazia mil artes e todo mundo achava graça.

E a escola não conseguiu estragar esse meu amor pelas histórias e pelas palavras. Digo isso com um pouco de ironia, mas sem nenhuma depreciação ao excelente colégio onde estudei, quando criança e adolescente, que muito me preparou para o mundo maior que eu conheceria saindo de minha cidadezinha aos 18 anos.

Falo da impropriedade, que talvez exista até hoje (e que não era culpa das escolas, mas dos programas educacionais), de fazer adolescentes ler os clássicos brasileiros, os românticos, seja o que for, quando eles ainda nem têm o prazer da leitura.

Qualquer menino ou menina se assusta ao ler Macedo, Alencar e outros: vai achar enfadonho, não vai entender, não vai se entusiasmar. Para mim esses programas cometem um pecado básico e fatal, afastando da leitura estudantes ainda imaturos.

Como ler é um hábito raro entre nós, e a meninada chega ao colégio achando livro uma coisa quase esquisita, e leitura uma chatice, talvez ela precise ser seduzida: percebendo que ler pode ser divertido, interessante, pode entusiasmar, distrair, dar prazer. Eu sugiro crônicas, pois temos grandes cronistas no Brasil, a começar por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, além dos vivos como Verissimo e outros tantos.

Além disso, cada um deve descobrir o que gosta de ler, e vai gostar, talvez, pela vida afora. Não é preciso que todos amem os clássicos nem apreciem romance ou poesia. Há quem goste de ler sobre esportes, explorações, viagens, astronáutica ou astronomia, história, artes, computação, seja o que for.

O que é preciso é ler. Revista serve, jornal é ótimo, qualquer coisa que nos faça exercitar esse órgão tão esquecido: o cérebro. Lendo a gente aprende até sem sentir, cresce, fica mais poderoso e mais forte como indivíduo, mais integrado no mundo, mais curioso, mais ligado.

Mas para isso é preciso, primeiro, alfabetizar-se, e não só lá pelo ensino médio, como ainda ocorre. Os primeiros anos são fundamentais não apenas por serem os primeiros, mas por construírem a base do que seremos, faremos e aprenderemos depois.

Ali nasce a atitude em relação ao nosso lugar no mundo, escolhas pessoais e profissionais, pela vida afora. Por isso, esses primeiros anos, em que se aprende a ler e a escrever, deviam ser estimulantes, firmes, fortes e eficientes (não perversamente severos).

Já se faz um grande trabalho de leitura em muitas escolas. Mas, naquelas em que com 9 ou 10 anos o aluno ainda não usa com naturalidade a língua materna, pouco se pode esperar. E não há como se queixar depois, com a eterna reclamação de que brasileiro não gosta de ler: essa porta nem lhe foi aberta.

Lya Luft é escritora

Um gostoso sábado e um fantástico fim de semana


Computação sem fronteiras

A "nuvem" é um espaço de processamento e armazenamento de dados que não depende de nenhuma máquina específica para existir. Ela vai mudar a economia e o cotidiano – e permitir que qualquer objeto esteja ligado à internet

Carlos Rydlewski - Montagem sobre fotos Lailson Ssantos e IstockPhoto



CIENTISTA VIRTUAL

Pela internet, o fotógrafo Fábio Bustamente doa o tempo ocioso de seu computador para processar dados de pesquisas de Harvard: "Eu acreditava que ser voluntário era ajudar em creches. Mas isso é diferente. É surreal"

A internet é onipresente na vida de bilhões de pessoas, mas poucas delas são capazes de dizer o que exatamente a define. A resposta mais rápida – ela é uma rede mundial de computadores – dá conta de apenas uma parte do fenômeno. Fica faltando definir o que é uma rede de computadores.

Quando se responde a isso, chega-se perto de entender o que a internet realmente é e por que ela tem potencial para revolucionar a vida contemporânea ainda mais dramaticamente do que fez até agora, menos de duas décadas depois do início de sua popularização.

A característica fundamental da rede mundial chamada internet é a maneira pela qual os computadores se interligam e se identificam uns aos outros. Computadores são identificados individualmente por seu número de IP, sigla em inglês para protocolo de internet.

O IP, com a ajuda de outros protocolos, revela o endereço de rede do usuário, o tempo que passou conectado, se utilizou recursos como blogs e redes sociais, ou quais sites visitou. Nenhum outro meio anterior à internet exigiu do usuário a entrega de tantas informações para permitir o acesso a uma rede de comunicação. Isso pode ter um lado ruim para a privacidade, mas também abre uma fronteira de integração e de uso racional de recursos sem igual para a humanidade.

É isso que, no fundo, define a internet. Essa é sua grande promessa.

Otavio Dias de Oliveira

AMBIENTE ASSÉPTICO



Data center da Tivit, em São Paulo: dentro dele, "máquinas-fantasma" se formam de acordo com as demandas dos clientes

Atualmente, a rede mundial congrega 1,5 bilhão de computadores de todos os tipos e tamanhos, telefones celulares e até alguns televisores e geladeiras. Dentro de dez anos, estarão conectados à rede 7 trilhões de computadores, celulares, geladeiras, mas também aviões, carros, torradeiras, aspiradores de pó, torneiras, interruptores de luz, as próprias lâmpadas – cada objeto com seu IP individual, cada um encaminhando à rede, em tempo real, informações sobre seu funcionamento.

Mais alguns anos, com o barateamento dos chips e a cobertura universal sem fio de cada metro quadrado do planeta, poderão estar conectados à internet cada animal doméstico e seu dono, cada pé de sapato ou tênis.

Em mais um passo rumo ao futuro previsível, estarão na rede não apenas os calçados, mas os músculos cardíacos ou o cérebro das pessoas – cada um fornecendo à rede, em tempo real, informações sobre o consumo de calorias ou eventuais doenças.

Não é difícil imaginar o avanço se médicos pudessem saber, instante a instante, de cada pessoa que sofre um ataque cardíaco no mundo. E se ao mesmo tempo eles tivessem informações sobre a raça e a idade do paciente, se ele estava correndo ou em repouso, que tipo de comida guardava na geladeira ou que espécie de interação teve antes que o dispositivo captasse a falta de sangue oxigenado a algum vital músculo cardíaco?

Os médicos teriam acesso instantaneamente a dados que hoje só as pesquisas epidemiológicas com anos ou até décadas de duração podem fornecer.

A evolução da internet narrada até aqui nada tem de ficção científica. É um quadro que os avanços tecnológicos do presente permitem prever com os dois pés firmemente plantados no chão. A chave do futuro é saber utilizar com prudência e sabedoria tanta informação.

No presente, estamos aprendendo a armazená-la e processá-la. São os primeiros passos para o mundo surpreendente descrito acima. E não são passos. São saltos. O primeiro foi a própria internet. O segundo, mais recente, é descrito pelos especialistas como "computação em nuvem". É dela que trata esta reportagem, que abre o Especial VEJA Vida Digital.

A computação em nuvem veio para ficar. Por enquanto não existe uma denominação menos estranha para ela, portanto, é melhor nos acostumarmos. Do que se trata, exatamente? A computação em nuvem é mais ou menos o que sua mãe faz com as roupas sujas que você deixou espalhadas no chão do quarto e, dias depois, como que por encanto, encontra no armário limpas, passadas, cheirosas e cuidadosamente dobradas nas gavetas certas, sem que você tenha ideia de como isso aconteceu.

A computação em nuvem faz isso com seus arquivos de internet – ela os armazena – e com suas necessidades de processamento – ela roda seus programas sem que você precise sequer estar com seu PC ligado.

Isso significa que uma porção crescente das informações digitais produzidas por pessoas e empresas está sendo processada e guardada em descomunais centros de computação espalhados pelo mundo, mas conectados entre si. Diz Ray Ozzie, substituto de Bill Gates no desenvolvimento de softwares da Microsoft: "A era da nuvem já começou. Terá um impacto revolucionário na maneira como as pessoas lidam com a tecnologia e vai determinar a história da computação nos próximos cinquenta anos".

Mesmo sem saber, você pode estar nas nuvens. Quem mantém fotos no Flickr, ou salva textos e planilhas no Google Docs, recorre a serviços de armazenamento de dados que operam na nuvem.

A vantagem é poder acessar os arquivos de qualquer lugar: a informação não está "trancada" na memória de um computador. Para a grande massa de indivíduos, essa é a novidade mais importante imediatamente trazida pela nuvem. Ela marca o fim de um universo digital "PC-cêntrico". Computadores de grande memória e poder de processamento ainda terão sua utilidade em casa – mas, definitivamente, não serão indispensáveis.

Não é por outro motivo que os netbooks, baratos e compactos, mas invariavelmente equipados com sistemas sem fio de conexão à internet, são as máquinas com as projeções de venda mais vistosas para os próximos anos (a previsão é que, só neste ano, as vendas aumentem 80%, oito vezes o ritmo de crescimento de computadores maiores).

O poder de computação já não está aprisionado numa caixa de metal. Finalmente, o slogan criado pelo cientista americano John Gage para a Sun Microsystems, em 1984, tem um sentido palpável: "A rede é o computador".

A paternidade da expressão "computação em nuvem" é incerta. Mas a ideia, ainda que em formato rudimentar, remonta a 1961. Foi esboçada pelo especialista em inteligência artificial John McCarthy, então professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Numa palestra, ele descreveu um modelo de computação oferecido como um serviço semelhante ao de distribuição de energia. Algumas centrais, como usinas, forneceriam o processamento e armazenamento de dados para as residências e as empresas. É isso que está ocorrendo atualmente – graças ao surgimento de equipamentos e tecnologias (como a banda larga) ainda desconhecidos nos anos 60.

Na base da computação em nuvem encontram-se os data centers – imensos aglomerados de computadores conectados em rede. Alguns data centers reúnem milhares de servidores (aparelhos pouco mais potentes que um PC) enfileirados em longos corredores.

O ambiente é asséptico, a temperatura é mantida permanentemente a 21 graus e o único movimento perceptível é o de pequenas luzes brilhando nas máquinas, indicando que as conexões com a web estão ativas. Segundo estimativa do Data Center Map, existem cerca de 1 000 data centers de grande e médio porte espalhados pelo mundo.

Reunidos, ocupariam uma área equivalente a 278 campos de futebol. Todos os gigantes da tecnologia – Google, Microsoft, Amazon, IBM, HP – mantêm estruturas desse tipo em várias localidades.

O Google sustenta pelo menos 36 centrais dispersas pelo mundo e tem planos de construir novas unidades sobre balsas, em pleno mar, para aproveitar a energia gerada pelas ondas (os data centers são consumidores frenéticos de energia).

Newscom



O FUTURO, AGORA

Nova Songdo, na Coreia do Sul: 25 bilhões de dólares para criar uma cidade onde quase tudo terá um chip embutido

Os data centers estão longe de ser novidade. O termo popularizou-se nos anos 90, mas máquinas confinadas em salas frias existem desde a década de 60. No modelo convencional, grupos de computadores eram alocados para realizar diferentes tarefas: um, por exemplo, se incumbia da folha de pagamento de um banco, outro da contabilidade. Redistribuir as funções entre os grupos de máquinas era caro e trabalhoso.

Por essa razão, havia grande ociosidade. Até 80% da capacidade de processamento não era utilizada em certos períodos. A tecnologia que transformou esses parques de computadores em nuvem foi a virtualização.

Ela permite gerenciar o poder de um data center, fazendo com que todos os processadores e todas as memórias funcionem como um só. Mais que isso: ela cria sistemas virtuais ou "máquinas-fantasma" que destinam poder de processamento a determinados fins quando ele é necessário.

Quando a tarefa é cumprida, o sistema virtual desaparece, liberando os servidores para outras funções. Assim, por exemplo, no horário de abertura das agências bancárias, boa parte do poder de processamento dos grandes data centers é destinada a elas.

À noite, ele se volta para sites de entretenimento. Não é por outro motivo que a Amazon batizou o seu serviço de nuvem de Elastic Compute Cloud: o espaço de armazenamento ou processamento de dados destinado a cada cliente pode encolher ou se ampliar, conforme a demanda.

Essa elasticidade é um dos motivos por que a nuvem será revolucionária para os negócios. As empresas não precisarão mais gastar fortunas para montar estruturas de tecnologia que caducam rapidamente. Elas usarão a estrutura oferecida pela IBM ou pela Amazon.

A consultoria Gartner estima que esse negócio tenha movimentado 46 bilhões de dólares em 2008. Em cinco anos, o mesmo valor será triplicado – atingirá 150 bilhões de dólares. Em 2008, a Nasdaq, a bolsa americana de firmas de tecnologia, criou um sistema com dados sobre milhares de ações. Se tivesse de bancar a infraestrutura, teria investido 7 milhões de dólares. Gastou somente 100 dólares recorrendo aos serviços de nuvem.

No fim de 2007, o diário The New York Times digitalizou e tornou disponíveis na web 71 anos de reportagens, feitas entre 1851 e 1922. Pagou 240 dólares para hospedá-las na rede. Outra novidade: hoje, em vez de imobilizar recursos na compra de PCs, companhias podem contar com desktops virtuais. Os funcionários ganham um monitor e um teclado, enquanto o sistema operacional roda na nuvem.

Trata-se de outra mudança substancial, dessa vez em relação aos softwares. Antes produtos, eles agora se tornam serviços. Não são mais comprados; paga-se uma taxa para ter acesso a eles pela internet. "Esse mercado deve crescer de 500 000 usuários em 2009 para 49 milhões em 2013", disse a VEJA Mark Margevicius, vice-presidente de pesquisa da Gartner. "O faturamento com softwares saltará de 6,4 bilhões de dólares em 2008 para 14 bilhões em 2012."

A nuvem é um fator de democratização das oportunidades de negócio. Ela significa que qualquer empreendedor pode ter um supercomputador – ainda que virtual – à sua disposição. Iniciativas inovadoras como o Facebook, criado por um grupo de estudantes de Harvard em 2004, jamais teriam prosperado sem o grande poder computacional, associado a custos módicos, oferecido pela nuvem.

A Camiseteria, sediada no Rio, é um exemplo caseiro desse fenômeno. Criada em 2005, a empresa vende camisetas. Fecha 99% dos negócios pela internet e usa a rede como ferramenta de marketing.

Sem a nuvem, não teria saído do papel. Para garantir o acesso de 15 000 pessoas por dia ao site, a empresa gasta 1 500 reais por mês. "Esse é um décimo do custo que teríamos com uma rede própria de computadores", diz Fabio Seixas, 34 anos, um dos sócios da companhia.

A ciência também se beneficia da nuvem. A IBM, por exemplo, mantém um sistema que conecta 1,2 milhão de computadores de voluntários espalhados por 200 países. Quando ligados, mas ociosos, esses PCs processam minúsculos fragmentos de nove estudos científicos. Há pesquisas sobre temas variados. Do desenvolvimento de uma variedade de arroz mais nutritiva à criação de painéis solares mais eficientes do que os empregados atualmente.

Em rede, o poder computacional dessas máquinas equivale a mais de 200.000 anos de processamento de um PC comum isolado. Um data center localizado em Boston, nos Estados Unidos, coordena as operações. Pode dividir tarefas e trocar informações com outros onze data centers da empresa, distribuídos pelos cinco continentes – um deles está localizado no Brasil, em Hortolândia, a 110 quilômetros de São Paulo.

A chave de todo o processo, obviamente, é a internet. O fotógrafo paulistano Fábio Bustamante, de 31 anos, participa do programa. "Colaborar numa pesquisa científica de alcance global, ao lado de milhões de pessoas em todo o mundo, me dá uma ótima sensação.

É surreal", diz ele. Qual o resultado dessa ação conjunta? Quem comenta é Alán Aspuru-Guzik, professor de química na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, à frente do projeto de desenvolvimento de novos painéis solares. "Sem o sistema da IBM, minha pesquisa seria realizada em 22 anos. Agora, pode ser concluída em dois. É um avanço espetacular", diz ele.

Ernani d’Almeida



OPORTUNIDADES NA NUVEM

Fabio Seixas, cuja empresa gasta 1 500 reais por mês com serviços da nuvem: "É um décimo do custo que teríamos
com uma rede própria de computadores"

A nuvem deverá trazer maior eficiência e racionalidade para grandes sistemas urbanos que se utilizarem dela. Essa será uma das consequências, por exemplo, do mundo das "coisas que falam" mencionado no início desta reportagem. Em teste nos Estados Unidos e na Europa, chips ligados a tomadas elétricas permitirão que a energia em determinado ponto de uma casa (ou empresa) seja desligada a distância, pela internet.

Tal ferramenta amplia o controle sobre aparelhos gastões, como ar-condicionado, refrigeradores e máquinas de lavar roupa. Cidades verdes construídas com esse aparato tecnológico podem economizar 75% de energia em relação aos centros urbanos desprovidos de conectividade. Gigantes como GE, Siemens e IBM investem pesadamente no maquinário que cria as chamadas redes elétricas inteligentes (smart grids).

A Cisco, empresa líder no fornecimento de máquinas que distribuem o tráfego na web (os roteadores), estima que a venda de equipamentos e softwares para essas redes movimentará 20 bilhões de dólares em cinco anos.

A experiência mais ampla com ambientes totalmente digitalizados acontecerá em Nova Songdo, cidade que está sendo erguida na Coreia do Sul, com inauguração prevista para 2014 e planejamento de John Kim, ex-projetista-chefe do Yahoo!.

As obras, com custo previsto de 25 bilhões de dólares, estão sendo tocadas por um consórcio de trinta empresas e se espalham por uma área de 6 quilômetros quadrados, o equivalente a 735 campos de futebol. O espaço abrigará 65 000 moradores e outras 300 000 pessoas que trabalharão no município.

Quase tudo em Nova Songdo, apelidada de U-City ("u" de ubíqua ou onipresente), terá um chip embutido. Projetos de residências inteligentes preveem a inclusão de até 2 000 desses dispositivos numa casa. Embalagens recicláveis serão chipadas. Quando o lixo for descartado adequadamente, o cidadão poderá receber um crédito tributário. Os automóveis também serão permanentemente monitorados.

"As informações enviadas pelos carros vão permitir a identificação de engarrafamentos antes que aconteçam", diz Marcelo Ehalt, diretor da Cisco, empresa que participa do projeto coreano.

Como sempre acontece nas revoluções tecnológicas, o surgimento da nuvem desperta temores e apreensão. Boa parte deles tem a ver com segurança e privacidade (veja reportagem na pág. 78).

Num artigo publicado recentemente no jornal The New York Times, Jonathan Zittrain, professor de direito em Harvard e autor do livro O Futuro da Internet – E Como Evitá-lo, observou que informações armazenadas on-line têm menor proteção tanto na prática quanto do ponto de vista legal.

"Antigamente, bandidos tinham de se apossar de um computador para descobrir nossos segredos; com a nuvem, só precisam se apossar de uma senha", escreveu ele. Segundo Zittrain, a nuvem pode ser ainda mais perigosa sob regimes autoritários: "Exceto por transações bancárias e de comércio eletrônico, o tráfego da internet raramente tem a encriptação necessária para protegê-lo de olhares curiosos".

A maioria dos fatos mencionados nesta reportagem, contudo, tem claras implicações benéficas. As possibilidades da nuvem mal começam a ser divisadas. Como diz Irving Wladawsky-Berger, um visionário que atuou 37 anos na IBM, essa nova tecnologia pode ser comparada à explosão de vida do período cambriano, ocorrida há 540 milhões de anos: subitamente, várias trilhas se abriram para a evolução.


Do paraíso fiscal para o Brasil

Justiça brasileira determina sequestro de bens de oito envolvidos no caso Alstom. Um deles teria US$ 10 milhões em contas na Suíça
LEANDRO LOYOLA

Investigado há um ano, o caso que envolve as suspeitas de pagamento de propina da empresa francesa Alstom para funcionários públicos do governo de São Paulo começa a produzir punições concretas. A Justiça determinou na quinta-feira (6), o sequestro de bens de oito pessoas acusadas de participação no esquema.

Os mais atingidos são o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Róbson Marinho, e o ex-secretário de Transportes Metropolitanos Jorge Fagali Neto. Marinho teria o equivalente a US$ 1 milhão depositados em contas na Suíça. Fagali, de acordo com o Ministério Público do Estado de São Paulo, teria cerca de US$ 10 milhões em bancos na Suíça.

SOB INVESTIGAÇÃO

O conselheiro do Tribunal de Contas do Estado Róbson Marinho teria o equivalente a US$ 1 milhão depositados em contas na SuíçaA Alstom é acusada na Suíça, na França e no Brasil de ter pago propina a funcionários públicos e políticos para vencer licitações durante os governos de Luiz Antônio Fleury, Mário Covas e Geraldo Alckmin.

A empresa era – e ainda é – fornecedora de trens para o Metrô e equipamentos para usinas hidrelétricas. De acordo com as investigações dos promotores, Jorge Fagali Neto e Róbson Marinho estariam, até agora, entre os maiores beneficiados por esquema de subornar funcionários.

Segundo investigações feitas na Suíça, Fagali teria o equivalente a US$ 10 milhões em contas no país. As autoridades do país bloquearam US$ 7,5 milhões deste total porque os valores seriam “incompatíveis” com a sua renda. Fagali trabalhou na Cesp e foi secretário de Transportes Metropolitanos durante o governo de Luiz Antônio Fleury Filho (1991-95). De acordo com seu advogado, Belisário Santos Júnior, Fagali afirmou ao Ministério Público nunca ter participado de qualquer contratação relacionada à Alstom.

A decisão judicial bloqueia também US$ 1 milhão que estariam depositados em contas do conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Róbson Marinho, na Suíça. Antes de chegar ao Tribunal, Marinho foi secretário de Governo do governador Mário Covas (1995-2001). No inquérito, Marinho é acusado de ter recebido propina para ajudar a Alstom em um negócio de R$ 110 milhões. Marinho nega ter conta na Suíça ou em qualquer outro país no exterior.

A juíza Maria Gabriella Pavlópoulos Spaolonzi, da 13ª Vara da Fazenda Pública, em São Paulo, concedeu liminar a um pedido feito pelos promotores Sílvio Marques, Saad Mazloum e Mário Sarrubbo, do Ministério Público do Estado de São Paulo.

Ela determinou também o sequestro dos bens de 12 empresas e pediu cópias de documentos de dois processos sobre o caso, que correm na Suíça e na França. De acordo com os promotores, os documentos vão ajudar a esclarecer o caso no Brasil.

O objetivo da ação dos promotores é recuperar o dinheiro que teria sido pago como propina. Um outro inquérito, criminal, para responsabilizar os acusados, é conduzido no Ministério Público Federal pelo procurador Rodrigo de Grandis.


08 de agosto de 2009
N° 16056 - NILSON SOUZA


O mensageiro alado

Em tempos de internet e de comunicação instantânea, é de uma ironia desconcertante esta notícia sobre o uso de pombos-correios por criminosos.

A ave bíblica, que teria retornado à Arca de Noé com o sinal de que as águas estavam baixando, ganha agora a incumbência de levar telefones celulares e carregadores de bateria para o interior dos presídios. O inusitado transporte aéreo de equipamento eletrônico equivale a usar o tambor dos índios para enviar um e-mail.

E não é só o paradoxo tecnológico que intriga. Também causa perplexidade o fato de um pássaro que sempre simbolizou a paz estar agora a serviço do crime.

Evidentemente, não é culpa da pobre ave, como sugeriu outro dia o nosso cartunista Iotti numa divertida charge em que o papai pombo, com seu uniforme de carteiro, passava uma carraspana no filhote desviado para o mau caminho. Os bandidos é que estão se aproveitando da mansidão e do senso de direção do bichinho.

Ao contrário do que muita gente pensa, os pombos-correios não levam mensagens para um determinado destino. Eles apenas voltam para casa. Normalmente são transportados do lugar de origem para pontos distantes e então retornam para o pombal, onde sabem que encontrarão abrigo, alimento e outros membros do bando – palavra bem adequada para a situação.

Significa que os pombos transportadores de celular devem estar sendo criados no próprio presídio ou na sua vizinhança. Mais uma ironia: é provável que o mensageiro da liberdade more na porta do cárcere. Pelo menos, a natureza lhe deu asas para excursões pelos céus de Porto Alegre.

Os pombos são, historicamente, prestativos. Nas duas guerras mundiais, essas aves eram o principal recurso de comunicação das tropas que lutavam na frente de batalha. Até pouco tempo atrás, o exército russo ainda mantinha uma divisão para pombos-correios.

Mas a tecnologia desempregou os bichinhos, como fez com tantas outras categorias de trabalhadores que não se adaptaram à era digital. Restou-lhes, portanto, essa atividade alternativa de prestar serviço ao crime.

Ou a aposentadoria, que também pode ser uma situação de risco, como se viu outro dia com aquela pomba do Parcão que foi sugada por uma tartaruga faminta.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009



05 de agosto de 2009
N° 16053 - MARTHA MEDEIROS


Poesia numa hora dessas?

Peguei emprestada a expressão que o Verissimo usa para apresentar seus poemas. É que eu quero falar justamente sobre poesia, um assunto que me parece emergencial, apesar de que tudo leve a crer que não é o momento.

Gente morrendo por causa da gripe H1N1, o Sarney e seu “daqui não saio, daqui ninguém me tira”, e ainda por cima o Fernandão indo jogar no Goiás. Francamente: poesia numa hora dessas?

Me explico. Estive no Rio no último final de semana para, entre outros compromissos, participar de um recital poético organizado pela escritora e atriz Elisa Lucinda em sua Casa Poema. A Casa Poema nada mais é do que uma utopia levada a cabo.

Elisa sustenta uma casa antiga em Botafogo onde ela ensina pessoas a ler poesia, dizer poesia (o verbo “declamar” é proibido) e gostar de poesia. Promove bate-papos com escritores, faz audições públicas da obra de inúmeros autores brasileiros, abre espaço para pequenas apresentações e para sessões de autógrafos, tudo de forma muito afetiva e sem luxo.

Só pelos serviços prestados, a Casa Poema deveria ser tombada pelo patrimônio histórico, mas vou mais longe: Elisa deveria ser tombada junto, porque o que ela faz é suprir uma carência dos nossos currículos escolares: ela educa para a sensibilidade e os sentidos.

Elisa me deu de presente o livro que transcreve o encontro que ela teve na mesma Casa Poema com o escritor Rubem Alves. Bom programa para estas férias estendidas: corra e adquira o seu, foi lançado pela editora 7 Mares.

Nesse livro, Elisa e Rubem discutem sobre o desserviço que é obrigar uma criança a ler um livro que não gosta, sobre o poder que a arte tem de transfigurar maus destinos, sobre o quanto a poesia pode ensinar tudo (geografia, história, matemática) e como não há jeito de se reter conhecimento se não houver emoção.

E eles vão mais longe: acusam aqueles professores que empurram livros goela abaixo de seus alunos sem eles mesmos estarem “tomados” pela beleza e importância do que estão recomendando, e aí não conseguem ensinar o prazer da leitura. Aliás, é bom lembrar que isso deve começar em casa. Não é à toa que as crianças que ouviram seus pais contando histórias são as que, quando adultas, mais se sentem atraídas pelo universo mágico da literatura.

Escutar um poema. Falar um poema em voz alta. Perceber seu ritmo, sua música, sua comunicabilidade. Elisa Lucinda tem o talento de transformar qualquer verso em algo fácil e acessível. Ela prova por a + b que poesia não precisa ser um troço chato.

Quando uma amiga lhe telefona contando sobre uma dor íntima, Elisa saca na hora um poema para ajudá-la a entender melhor o que está sentindo. Elisa é uma outra espécie de doutora: prescreve poesia. Um Tamiflu emocional que ela distribui generosamente.

Mas poesia logo agora que a bruxa está solta no espaço aéreo, que há censura aos veículos de comunicação na Venezuela e em jornal paulista também, que os políticos estão perdendo as estribeiras e que o Fernandão, insisto, assinou contrato com o Goiás? Pois é, me pareceu um momento oportuno.

Aproveite o Dia Internacional do sofá - Uma ótima quarta-feira para você.

terça-feira, 4 de agosto de 2009



04 de agosto de 2009
N° 16052 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Um homem plural

Foi Lauro Schirmer quem me apresentou o melhor de Milan Kundera. Foi também ele quem me aproximou da obra de Elias Canetti. Conto isso para revelar que o jornalista que nos deixou na outra semana era dono de uma inteligência plural.

Tínhamos a mesma origem: a cidade de Cachoeira e o Jornal do Povo, que como ele completou 80 anos. Quando o antigo Correio do Povo saiu momentaneamente do ar, Lauro telefonou para a minha casa e me convidou para ser editorialista de Zero Hora, mais cronista e um dos produtores do caderno Cultura.

Aceitei com um certo receio, pois em toda a minha vida eu só tinha escrito um editorial. Confessei isso mesmo ao homem que tinha transformado ZH em um dos cinco principais jornais do país. Lauro Schirmer sorriu e disse: “Tu sabes escrever editoriais. Apenas não sabes que sabes”.

De nossa convivência diária a partir dali aprendi que ele não era somente o mais capaz dos diretores de Redação que conheci – era também o mais culto, dono de um texto envolvente, como o que ficou registrado em seus artigos e livros.

Não falávamos apenas sobre jornalismo, as páginas de opinião ou sobre os fatos que ZH ia abordar, mas sobre música, cinema, teatro, filosofia e literatura. E não esquecíamos o universo circundante – Lauro tinha sempre uma palavra sobre o mundo vário da Redação e suas constelações.

Uma vez nos encontramos em Berlim – ele e Celia, sua mulher e minha cara amiga, cumpriam um roteiro operístico. Foram dias extremamente agradáveis, marcados especialmente por espetáculos inesquecíveis na Philharmonie.

E agora, de repente, em uma madrugada fria, Lauro se vai. As últimas homenagens que recebeu no Solar dos Câmara foram uma consagração – desde as altas autoridades aos colegas e amigos que o tinham como um mestre de vida.

Me lembrei, em meio àquela multidão, das noites de sábado em que recebia, no belo apartamento da Avenida Nilo Peçanha, os companheiros de ofício e de singradura.

E recordei que tinha um raro senso de hospitalidade, sabia distribuir entre os presentes às reuniões, mais do que um cálice de vinho, sua experiência inimitável dos mares da confraternização e da alegria.

Bem pelas previsões teremos um lindo dia de sol lá fora. Que ai dentro de seu coraçãozinho também exista esse clima.

sábado, 1 de agosto de 2009



02 de agosto de 2009
N° 16050 - MARTHA MEDEIROS


A melhor coisa que não me aconteceu

A ntes do ator Daniel Craig ser confirmado como o novo James Bond do cinema, havia uma onda de boatos que prenunciava Clive Owen no papel.

Lendo uma entrevista com Owen, ele disse que essa foi a melhor coisa que nunca lhe aconteceu, pois quanto mais ele negava a informação, mais se falava sobre ele.

É uma maneira de se divertir com o destino, mas a frase que ele usou é tão boa que deixemos o bonitão pra lá e vamos adiante: qual foi a melhor coisa que nunca lhe aconteceu?

Comigo, acho que foi aos 14 anos de idade. Eu iria para a Disney com a família e alguns primos. Estava ansiosa pela viagem, quase não dormia à noite. Seria minha primeira vez no Exterior, um acontecimento.

No entanto, uns 10 dias antes de embarcar, o governo estabeleceu um tal imposto compulsório que tornou a viagem proibitiva. Fim de sonho: não haveria grana para bancar a aventura. Os passaportes novinhos em folha foram para o fundo da gaveta e eu passei mais uma noite sem dormir, só que dessa vez de tristeza.

Era julho e minhas férias escolares se resumiriam a ficar em casa. Porém, haveria uma excursão do colégio para a Bahia, e muitas de minhas colegas de aula iriam. Pensei: nada mal como prêmio de consolação, trocar o Mickey pelo Pelourinho. O preço era uma merreca se comparado a uma viagem aos States.

De ônibus até Salvador, imperdível! Virei, mexi, implorei, consegui a última vaga e fui. Resultado: voltei com meia dúzia de amizades tão fortalecidas que, até hoje, somos como irmãs.

Tenho certeza de que se eu não houvesse viajado com elas, eu jamais teria entrado para o grupo que pertenço com orgulho até hoje. A Disney foi a melhor coisa que nunca me aconteceu.

Fico imaginando as histórias que podem não ter acontecido com você. Namorar uma pessoa por oito anos e romper dias antes de subir ao altar: não ter casado pode ter sido a melhor coisa que nunca lhe aconteceu, vá saber o que o destino lhe ofereceu em troca. Ou você não ter passado num concurso.

Nunca ter recebido a ligação que tanto esperava. Nunca ter recuperado um objeto perdido que o deixava preso a lembranças paralisantes.

Ter ficado com fama de ter sido o grande amor de uma modelo espetacular: na verdade, ela nunca olhou pra você, mas um mal-entendido fez com que muitos acreditassem na lenda e até hoje você recebe os dividendos: foi a melhor coisa que nunca lhe aconteceu.

É uma visão generosa da vida: imaginar que os não acontecimentos fizeram diferença, que você está onde está não só por causa das escolhas que fez, mas também pelas especulações que nunca se confirmaram.

Ao manter esse caráter desestressado, eliminamos a palavra derrota do nosso vocabulário e a alma fica mais aliviada, o que não é pouca coisa nesse mundo em que tanta gente parece pesar toneladas devido ao mau humor e ao pessimismo.

Cá entre nós, viajar de Porto Alegre até Salvador de ônibus para passar três dias e voltar, e achar isso uma beleza, é a prova de que ter o espírito aberto funciona.

Ainda que com previsão de chuva e nuvens cinzas no céu, Um lindo domingo para você.


O dever da família

As dez principais descobertas dos especialistas sobre quando e como os pais podem ajudar a despertar nos filhos a curiosidade intelectual e fazê-los alcançar um desempenho melhor nos estudos

1. Ter livros em casa

E, no caso de filhos pequenos, ler para eles. O hábito, cultivado desde cedo, faz aumentar o vocabulário de forma espantosa. Segundo estudo do americano James Heckman, prêmio Nobel de economia, uma criança de 8 anos que recebeu esse tipo de estímulo a partir dos 3 domina cerca de 12 000 palavras – o triplo de um aluno sem o mesmo empurrão.

A diferença se faz sentir na assimilação de conhecimento em todas as áreas. Ao analisar o fato de a Finlândia aparecer sempre na primeira posição nos rankings de educação, um estudo da OCDE confirma: o incentivo precoce à leitura em casa tem um papel decisivo.



2. Reservar um lugar tranquilo para os estudos

A ideia é cuidar para que o ambiente ofereça o mínimo necessário: mesa, cadeira, boa iluminação e distância da televisão. Já na pré-escola, os pais podem definir o local e incentivar seu uso diário. Os benefícios, já quantificados, são os esperados: concentrado, o aluno aprende mais e erra menos.









3. Zelar pelo cumprimento da lição

Ainda que a criança seja pequena e a tarefa, bem fácil, é importante mostrar a relevância dela com gestos simples, como pedir para olhar o dever pronto ao chegar em casa. Até cerca de 10 anos, monitorar diariamente a execução da lição não é excessivo. Ao contrário. Esse é o momento de começar a sedimentar uma rotina de estudos, com horário e local, mesmo que seja mais uma brincadeira. Um relatório da OCDE não deixa dúvidas quanto às vantagens. Os melhores alunos no mundo todo levam a sério o dever de casa.






4. Orientar, mas jamais dar a resposta certa

Solucionar o problema é uma tentação frequente dos pais quando são acionados a ajudar na tarefa de casa. Não funciona. O que dá certo, isso sim, é recomendar uma leitura mais atenta do enunciado, tentar provocar uma nova reflexão sobre o assunto e, no caso de filhos mais velhos, sugerir uma boa fonte de pesquisas. Se o erro persistir, deixe-o lá. Já se sabe que a correção do professor é decisiva para a fixação da resposta certa.

5. Preservar o tempo livre

Muitos pais, ávidos por proporcionar o maior número de oportunidades aos filhos, lotam sua agenda de atividades fora da escola. O resultado é que sobra pouco tempo para brincar, esse também um momento sabidamente precioso para o aprendizado. Na escola, por sua vez, crianças com rotinas atribuladas demais costumam demonstrar cansaço, o que frequentemente compromete o próprio rendimento.

6. Comparecer à reunião de pais

Mesmo que seja muitas vezes enfadonha, ela proporciona no mínimo uma chance de sentir o ambiente na escola, saber da experiência dos demais alunos e tomar contato com a visão de outros pais. A ida a esses encontros tem ainda um efeito colateral menos visível, mas já bastante estudado: a presença dos pais é uma demonstração de interesse que contribui para o envolvimento dos filhos com a escola.








7. Conversar sobre a escola

A manifestação de interesse, por si só, é um indicativo do valor dado à educação pela família. Os efeitos são ainda maiores quando o estudo é tratado como algo agradável e aplicável à vida prática, e não um fardo. Uma recente compilação de estudos, consolidada por um centro de pesquisas do governo americano, mostra que um pai que consegue produzir esse tipo de ambiente em casa aumenta em até 40% as chances de o filho se tornar um bom aluno.







8. Monitorar o boletim

No caso de um resultado ruim, o melhor a fazer é definir um plano para melhorar o desempenho – mas não sem antes consultar a escola e avisar o filho de que está fazendo isso. O objetivo aí é estabelecer, junto com o colégio, uma estratégia para reverter a situação e saber qual será, exatamente, sua participação.

Está mais do que provado que castigo, nesse caso, não funciona. Só diminui o grau de autoconfiança, já baixa, e agrava o desinteresse pelos estudos.

9. Procurar o colégio no começo do ano

É a ocasião em que cabe perguntar, pelo menos em linhas gerais, o que a escola pretende ensinar em cada matéria. Trata-se do mínimo para poder acompanhar tais metas e, se preciso, cobrar sua execução.

10. Não fazer pressão na hora do vestibular

O excesso de pressão por parte da família só atrapalha no momento mais tenso na vida de um estudante. À mesa do jantar, os pais darão uma boa contribuição ao evitar falar apenas disso. Mas podem ajudar mais, principalmente zelando para que o ambiente de casa na hora do estudo não fique barulhento demais e para que o filho não se comprometa com muitas atividades.

O lazer, no entanto, não deve ser suprimido. É o que dizem os especialistas e os próprios campeões no vestibular: em 2008, os mais bem colocados em dez áreas mantiveram uma pesada rotina de estudos, mas, pelo menos no fim de semana, preservaram algum tempo livre.


O próximo passo

"Conseguir uma educação de qualidade é possível, como demonstraram os muitos países que deram esse salto"

Ilustração Atômica Studio

É preciso entender que em educação, como em outros setores, há etapas a ser vencidas. Enquanto faltam escolas, construí-las tem um impacto fulgurante nas estatísticas. Mas essas escolas são apenas caricaturas se lhes faltam livros, equipamentos e professores. Suprir essas lacunas resulta também num grande salto na matrícula e na qualidade.

O passo seguinte é ter professores minimamente preparados, uma administração central operante, currículos claros e não estar em greve todos os meses (seja de quem for a culpa). Esses aperfeiçoamentos trazem ainda bons frutos na qualidade e na deserção.

Mas, daí para a frente, os erros e deficiências vão se tornando menos óbvios, as correções mais sutis e o seu impacto resvaladiço. As mudanças fáceis já foram feitas, restam aquelas politicamente mais conflitantes. Ou seja, mais se avança, mais difíceis se tornam os avanços subsequentes.

Faz algumas décadas, estávamos vergonhosamente distantes de países como Chile, Argentina e Uruguai – os menos ruins da América Latina. Na verdade, as matrículas eram inferiores às da Bolívia e do Paraguai. A um ritmo espantosamente rápido, conseguimos nos aproximar do nível de matrícula do Chile, da Argentina e do Uruguai.

Nenhum outro país latino-americano avançou tão depressa nas últimas décadas. Não é pouca coisa. De fato, a partir da década de 90, acelera-se a expansão do nosso ensino, com a clara liderança dos estados mais prósperos. Crescem Minas, Rio Grande do Sul e Paraná, mais do que os outros. Norte e Nordeste permanecem travados.

Mais para o fim da década, começam a avançar os retardatários. Ao fim do milênio, a universalização da matrícula é obtida. O desafio maior passa a ser a qualidade. Não obstante, tanto na matrícula quanto na qualidade, começamos a patinar, avançamos pouco ou estagnamos. Depois que fizemos o fácil, os próximos passos são mais árduos e de impacto mais diáfano.

A última rodada do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) mostra que começamos a encontrar problemas para avançar. Estacionaram estados tradicionalmente com melhores resultados, como Minas, Rio Grande do Sul e São Paulo.

Em contraste, só avançam os estados do Norte, os mais atrasados. Ou seja, progridem apenas aqueles em que o mais simples ainda estava por fazer. Travam aqueles cujas falhas não estão mais em erros grosseiros, mas em desvios menos óbvios. Conhecemos os problemas. Precisamos lidar com muitos professores que apenas parecem ensinar, porque aprenderam em arremedos de faculdade.

De fato, os professores não aprendem a dar aulas. Nos primeiros anos, seus alunos são cobaias. Não há prêmios para quem faz certo ou puxões de orelha para os incompetentes e negligentes. A administração é perfeita no papel, mas capenga na implementação. O currículo é para gênios ou é ambíguo – ou ambos.

Em muitas redes educativas, a politicagem ainda não foi expulsa da escola. O tempo de classe é insuficiente na regra formal e ainda menor depois que se descontam feriados, festas, greves, atrasos e perdas de tempo de todos os tipos. E por aí afora. Para resolver esses problemas, não teremos sucesso sem pisar nos calos dos que resistem às mudanças.

Em resumo, é relativamente fácil chegar a uma educação medíocre para todos ou quase todos (embora isso nos tenha consumido cinco séculos). O grande problema é que hoje os números mostram estagnação da matrícula, evasão elevada – sobretudo no ensino médio – e qualidade sem avanços substanciais.

O desafio é conseguir uma educação de qualidade. Que é possível demonstraram os muitos países que deram esse salto. Alguns são até mais pobres do que o Brasil, e quase todos os ricos eram mais pobres quando deram esse salto.

O grande trunfo do país é a existência de uma avaliação escola por escola. Prova Brasil, Ideb e Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) mostram exatamente onde estamos e quanto avançamos – que se calem os palpiteiros. Esperamos que essa avaliação indique os progressos a ser obtidos em um futuro próximo.

Porque nunca houve tanta atenção e mobilização social em prol da nossa educação. Não podemos contar com reformas voluntaristas, frutos do idealismo e destemor de um ou outro. Somente uma exigência irrecusável da nossa sociedade será capaz de empurrar o sistema educativo para a frente e para enfrentar as mudanças politicamente penosas.

Claudio de Moura Castro é economista


Suze Orman, a celebridade das finanças

Ela xinga, dá bronca e intimida. Mas, ao traduzir o mundo das finanças, a consultora Suze Orman se tornou uma das figuras mais populares dos EUA
José Fucs

SEM MISTÉRIO

Orman, de 57 anos, publicou nove livros, que venderam um total de 11 milhões de exemplares. A simplicidade de sua mensagem fez dela um fenômeno de massaEla não é uma rainha da música pop nem atriz de Hollywood. Também não ganha a vida na arena esportiva nem apareceu nua em capas de revistas masculinas.

Sua matéria-prima são os números e as questões financeiras do dia a dia. Mas, apesar de tratar de um assunto árido para a maioria das pessoas, a consultora Suze Orman tornou-se uma celebridade. Ela é hoje uma das figuras mais populares dos Estados Unidos.

É a Suze Orman que centenas de milhares de americanos – especialmente mulheres – recorrem quando querem opiniões sobre o que fazer com seu dinheiro. Até o governo recorreu a ela no ano passado, no auge da atual crise econômica, quando produziu um anúncio para divulgar o aumento da cobertura do seguro de depósitos bancários e explicar o significado prático da medida.

Cada palestra sua – ela dá duas ou três por mês – custa US$ 80 mil. Para efeito de comparação, o ex-vice-presidente Al Gore, hoje um porta-voz do movimento contra o aquecimento global, cobra US$ 100 mil por palestra. O diretor de cinema Spike Lee e o jornalista Bob Woodward, que desvendou o caso Watergate nos anos 70, ganham de US$ 25 mil a US$ 40 mil.

Loira, de olhos azuis, quase sempre bronzeada e com um sorriso tão perfeito que parece produzido em laboratório, Orman, de 57 anos, transformou-se num fenômeno de mídia. Em junho, foi tema de uma reportagem de capa da revista de domingo do New York Times. “Com a crise econômica, a guru das finanças pessoais ganhou a atenção da América”, diz a reportagem. “Ela se tornou uma espécie de consultor nacional confiável.”

Seu programa semanal de meia hora na TV, The Suze Orman show, está no ar há apenas um ano, mas já é um dos líderes de audiência da TV por assinatura CBNC, especializada em economia e negócios. Ela também é uma das campeãs de vendas do canal de compras QVC, com o programa Suze Orman financial freedom (A liberdade financeira de Suze Orman) .

Num único dia, chegou a faturar US$ 1 milhão com a venda de seus livros e kits de planejamento financeiro, que custam US$ 48 cada um. Seu talento para falar sobre temas financeiros para o grande público já lhe rendeu dois Emmys, o maior prêmio da TV americana.

Orman participa com frequência do programa da apresentadora-estrela Oprah Winfrey, voltado para o público feminino. Há cerca de dez anos, ela assina também uma seção fixa – Ask Suze (Pergunte a Suze) – na revista de Oprah, O.

Seus nove livros de autoajuda financeira (nenhum publicado no Brasil) já venderam um total de 11 milhões de cópias (leia o quadro na próxima pág.). O mais recente, lançado em janeiro – Suze Orman’s 2009 action plan (O plano de ação de Suze Orman para 2009) –, traz orientações para os leitores administrarem com eficiência suas finanças em meio à crise global. Já vendeu 950 mil cópias e teve 2 milhões de donwloads oferecidos por Oprah em seu programa de TV durante uma semana.

O sucesso de Orman se deve, em boa medida, ao apoio que teve de Oprah desde que lançou seu primeiro livro, há 15 anos. Mas ela dificilmente teria se mantido em evidência por tanto tempo se não tivesse brilho próprio. Mesmo num país em que há um consultor financeiro pessoal em cada esquina, Orman conquistou uma legião de fãs graças a sua capacidade de traduzir o complexo mundo das finanças para a linguagem do cidadão comum.

Ao contrário de muitos financistas, ela não ficou famosa por uma grande tacada na Bolsa ou por falar mal das políticas econômicas do governo. É a simplicidade de sua mensagem que a faz tão popular. Controle seus gastos. Fuja das dívidas. Cuide de seu carro. Fique de olho na aposentadoria. Um de seus bordões mais conhecidos é: “Você está brincando comigo?”.

Em seus comentários sobre finanças pessoais, Orman também carrega na emoção. Muitas vezes, sua linguagem é dura e deixa seus interlocutores constrangidos. Oprah costuma referir-se a seus problemas como “surras”(smackdowns, em inglês).

“Sinto pena de vocês”, disse Orman recentemente no programa de Oprah ao dar orientações para um casal em dificuldades financeiras. A dupla estava desempregada, não tinha seguro-saúde, carregava uma hipoteca com saldo maior que o valor de mercado do imóvel e só conseguia pagar as contas com o auxílio de seus 29 cartões de crédito.

“Gostaria de dizer que sinto empatia por vocês, porque perderam o emprego, estão vivendo um grande estresse e não têm seguro-saúde para seus filhos. Mas vocês são duas pessoas orgulhosas, que vivem num mundo de mentiras, gastando dinheiro com esse imóvel que vocês dizem que podem comprar.”

Com o sucesso que alcançou em seus quase 30 anos de trabalho na área financeira, Orman diz ter amealhado um patrimônio financeiro estimado hoje – com a queda dos preços das ações e de outros ativos – em cerca de US$ 20 milhões.

Muita gente acredita que ela tenha bem mais que isso. Possui também imóveis que valem alguns milhões, como um apartamento de 400 metros quadrados no Plaza, um condomínio luxuoso em Nova York, e uma casa em Fort Lauderdale, na Flórida.

No início de 2007, Orman decidiu “sair do armário”. Revelou ao The New York Times que é lésbica. Disse que estava casada desde 2000 com sua parceira Kathy Travis, ex-executiva da Ogilvy & Mather, uma das maiores agências de publicidade do mundo, hoje sua empresária.

Na entrevista, quando a jornalista Deborah Solomone lhe perguntou se ela era casada, Orman respondeu: “Estou numa relação com vida”. A jornalista perguntou o que isso significava, e Orman disse: “K.T. é a minha parceira de vida. K.T. são as iniciais de Kathy Travis. Estou com ela há sete anos. Nunca tive um relacionamento com um homem em toda a minha vida. Aos 55 anos, ainda sou virgem”.

Orman disse que gostaria de poder casar legalmente com a parceira e reclamou do impacto financeiro que essa restrição poderá ter em suas vidas. “Nós duas temos milhões de dólares em nossos nomes”, diz. “E me dá raiva saber que, quando eu morrer, K.T. vai perder 50% de tudo o que eu tenho para a Receita Federal. Ou vice-versa.”


01 de agosto de 2009
N° 16049 - NILSON SOUZA


O injuriado

Estamos novamente em agosto, que rima com... Por favor, não completem. Venho ouvindo isto desde que me conheço por gente e sempre fico indignado. Tá bem, nasci em agosto, é uma indignação em causa própria.

Sei que a história registra algumas desgraças neste mês que os romanos dedicaram ao imperador Augusto, incluindo-se aí as duas bombas atômicas, mas todos os meses do ano têm as suas tragédias.

É frio por aqui nesta época, isso também é verdade. E julho? Quem não congelou nesta semana que está terminando? Nem por isso ouvi algum detrator dizendo que julho rima com, digamos, entulho, barulho, engulho, embrulho ou qualquer outra palavra depreciativa.

Mas agosto não escapa. Começou com os descobridores desta pátria amada. As mulheres portuguesas não se casavam em agosto, porque era o mês escolhido pelos marinheiros para zarpar à procura de novas terras. Aquelas que se arriscavam a subir ao altar neste oitavo mês do ano arriscavam-se também a ficar sozinhas, sem lua-de-mel e até mesmo sem o maridão, caso a caravela naufragasse.

A superstição de não se casar em agosto estendeu-se aos negócios, à mudança de casa e a qualquer coisa muito significativa. Ou se antecipava, ou se adiava. Para completar, um engraçadinho fez a rima e nós, os agostinos, nos danamos.

Já tentei reabilitar agosto algumas vezes, lembrando que neste mês também ocorrem coisas boas, as pessoas se aconchegam, nasce gente charmosa, temos um dia todinho para os pais, há flores que podem ser plantadas nestes dias em que o inverno começa a preparar sua bagagem para sair de cena.

Em agosto, por exemplo, planta-se a açucena, que inspirou Thiago de Mello a escrever estes versos lindos: “Quando acariciei o teu dorso,/ campo de trigo dourado,/ minha mão ficou pequena/ como uma flor de açucena/ que delicada desmaia/ sob o peso do orvalho./ Mas meu coração cresceu/ e cantou como um menino/ deslumbrado pelo brilho/ estrelado dos teus olhos”. Os poetas, felizmente, não silenciam em agosto.

O injuriado agosto é, na verdade, um mês de dias luminosos, de azul profundo no céu, de transição serena para a primavera em nosso hemisfério. Este mês que começa hoje pode ser bom ou mau, dependerá do que faremos para preencher os seus 31 dias.

Como advogado de defesa, abro com este habeas corpus preventivo na esperança de que os difamadores se contenham, esqueçam as rimas e as superstições. E façam como os navegadores portugueses: procurem descobrir novos mundos em agosto.


01 de agosto de 2009
N° 16049 - CLÁUDIA LAITANO


Otimismo vigilante

Em todos os relatos sobre famílias judias que abandonaram a Europa ainda no início dos anos 30, pouco antes de a situação realmente se agravar, sempre me surpreendeu a capacidade dessas pessoas não apenas para pressentir o perigo que se aproximava, mas também para abrir mão do conforto e da aparente segurança em nome de algo que, naquele momento, não passava de uma “intuição” histórica – a ascensão do nazismo e suas possíveis consequências.

Independentemente do curso que a história tomou, é curioso imaginar que exista uma variável mais decisiva do que a informação ou a disposição para deixar tudo para trás para explicar por que duas pessoas, diante do exato mesmo quadro, podem tomar atitudes tão extremas quanto abandonar o próprio país ou simplesmente não fazer nada e esperar.

Pessimismo ou otimismo inatos, uma inclinação de temperamento que nos leva para um ou outro lado em diferentes situações sem que a gente saiba exatamente por que, talvez influenciem nossa visão de mundo e nossas atitudes muito mais do que a gente imagina.
O exemplo de uma guerra pode parecer extremo, mas em um país como o Brasil infelizmente não são tão raras assim as situações em que somos obrigados a lidar com o peso de uma ameaça permanente sobre nossas famílias. Pergunte a qualquer criança com pouco mais de cinco anos do que ela tem medo e é provável que ela responda que não é do bicho-papão, mas de assaltante.

As notícias estão nos jornais todos os dias, e a maioria das famílias tem um caso relativamente próximo de violência, mas são poucos os que optam por medidas extremas como abandonar o país ou proibir os adolescentes de sair de casa à noite.

Talvez porque esse seja um tipo de medo que, para o bem e para o mal, todos aprendemos a incorporar ao nosso dia a dia – tanto os que veem perigo em tudo quanto os que insistem em superar os próprios temores. Ignorar o perigo é impossível, mas tornar-se prisioneiro dele é pior ainda.

A violência é uma ameaça difusa, da qual não podemos ter a ilusão de nos proteger lavando várias vezes as mãos ou cobrindo o rosto com uma máscara. Já a epidemia da gripe A nos oferece um inimigo com profilaxia conhecida – invisível, mas remediável. Para algumas pessoas, é reconfortante traçar estratégias para combater a gripe – nem todos os nossos problemas estão condicionados a um ciclo de vida de apenas sete dias.

Evidentemente, informação, canja de galinha e cuidados básicos para evitar a contaminação são necessários. Mas, de novo, talvez não seja uma escolha exclusivamente racional decidir-se entre o pânico e a serenidade. As pessoas simplesmente reagem de formas diferentes às ameaças: algumas com cautela, outras com alarme.

Como membro do time menos alarmista – por orientação inata para o otimismo (ainda que vigilante) e baseada no que a maioria dos especialistas têm dito até agora – lamento que as crianças não estejam voltando às escolas na próxima segunda-feira.

Perde-se a oportunidade de tratar a doença (e a saúde) em sala de aula, tumultua-se a rotina das famílias e o calendário escolar sem que isso traga, na minha opinião leiga, nenhuma garantia de que as crianças estão mais protegidas indo ao cinema, passeando no shopping ou brincando na casa do amiguinho. Ignorar o perigo é impossível, mas tornar-se prisioneiro dele pode ser pior ainda.