sábado, 24 de outubro de 2009

A Time e a revolução silenciosa das mulheres tristes

qui, 22/10/09
por Martha Mendonça | categoria Uncategorized
| tags felicidade, mulher, pesquisa


Em meados de setembro, fiz um post aqui no blog sobre a pesquisa americana que eu havia lido no New York Times e mostrava o crescimento da insatisfação das mulheres em relação à vida.

De acordo com os dados do estudo O Paradoxo do Declínio da Felicidade Feminina, elas estavam menos felizes do que as mulheres da década de 70, quando a série de pesquisas começou a ser feita.

O post causou debate e acabei fazendo uma matéria na ÉPOCA - Por que as mulheres são tão tristes? -, que também está rendendo muita leitura e comentários em nosso site.

Esta semana, a Time, para muitos a revista semanal mais importante do mundo, dedicou sua capa ao assunto. De onde vem esse paradoxo: se as mulheres nunca tiveram tanta liberdade, tantas opções, por que estão tão insatisfeitas?

É justamente a complexidade do mundo de hoje - quanto mais expectativas, mais chances de decepção? Ou as duplas, triplas jornadas estão pesando demais sobre nossos ombros? “Uma revolução silenciosa mudou o status da mulher americana“, diz a Time.

Em maio de 1972 - tempo em que, segundo a pesquisa, as mulheres eram mais felizes -, a revista também dedicou uma edição às mulheres, que estavam na efervescência de sua emancipação. “Onde ela está e para onde vai?”, pergunta a matéria principal.

Na capa, uma cabeça de mulher transparente mostra o que há por dentro: filhos, casamento, trabalho, feminismo, livros, consumo, troféus (e até um bob de cabelo, coisa que não se vê mais). Ou seja: muita coisa.

Mesmo achando bastante estranha essa ideia da infelicidade (e não me sentindo assim de forma alguma), tenho a sensação de que pode se tratar mesmo da semente de uma revolução silenciosa, como diz a Time.

Alguma coisa está fora da ordem. Isso não significa que tenhamos que esvaziar nossas gavetas do trabalho e passar a ficar em casa com as crianças. Mas certamente há algo a ser debatido e, talvez, modificado.

Talvez não seja algo em bloco, mas um ajuste individual, de cada uma. A ideia de que o que é melhor para cada mulher é sabido apenas por ela e deve ser seguido sem medo dos padrões, obrigações e expectativas de quem está em volta e da sociedade.

A certeza de que não há fórmulas para a vida e nem rigidez para o que vem a ser ”uma grande mulher”.

Você concorda? 


24 de outubro de 2009 | N° 16134
NILSON SOUZA


A n j o s

Outro dia, a governadora do nosso amado Rio Grande arrancou risinhos irônicos dos seus governados, inclusive deste descrente cronista, ao afirmar que alguns anjos lhe tinham dito para não viajar aos Estados Unidos porque alguém (possivelmente um anjo mau) preparava um golpe no Estado.

Não saiu a viagem, não saiu o golpe e ficou a dúvida: a tucana estaria falando sério quando atribuiu aos chamados seres de luz a autoria do aviso ou estaria nos gozando como na história do pufe verde-kiwi? Para buscar uma resposta, recorri à literatura, consultei gente que já virou anjo e anjos travestidos de gente.

A inspirada Clarice Lispector absolveria a nossa polêmica governante:

– Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam – sentenciou a autora de A Hora da Estrela.

Já o eterno Drummond (“E como ficou chato ser moderno, agora serei eterno”) garante que não foi o seu anjo torto o informante, até mesmo porque, se fosse chamado a palpitar, ele provavelmente repetiria a sua conhecida advertência:

– No meio do caminho tem uma casa, tem uma casa no meio do caminho.

Talvez tenha sido o anjo de Chico Buarque, que também parafraseou o poeta de Itabira numa de suas canções:

– Quando nasci, veio um anjo safado/ O chato dum querubim/ E decretou que eu tava predestinado/ A ser errado assim.

Deve ter sido ele. Pelo menos, a governadora anda repetindo uma de suas estrofes nas entrelinhas de suas enigmáticas declarações:

– Já de saída a minha estrada entortou/ Mas vou até o fim.

Em contraponto, outras mulheres da terra, como a presidente do Cpers e a deputada relatora do frustrado impeachment, parecem preferir o personagem da mineira Adélia Prado:

– Quando nasci, um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira.

Neste Rio Grande de tantas bandeiras antagônicas, talvez fosse bom a gente prestar atenção na mensagem de um de nossos mais ilustres vizinhos, o argentino Jorge Luis Borges:

– Fazer o bem ao teu inimigo pode ser obra de justiça e não é árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de homens.

Me faz lembrar uma conterrânea sua que conheci certa vez em Mar del Plata. Quando lhe pedi desculpas por ter que voltar-lhe as costas durante uma situação de trabalho, ela retrucou com voz doce:

– Los angeles no tienen espalda.

Depois, me presenteou com um pacote de alfajores. Então, olhando para aquela argentina linda e gentil, me ocorreu um pensamento em castelhano:

– Pero que los hay, los hay.


24 de outubro de 2009 | N° 16134
PAULO SANT’ANA


Felizes dos avós!

Pelo amor de Deus, não me entendam mal, que eu já ando pisando em ovos toda vez que digo verdades polêmicas ou não muito bem visíveis. Mas é forçoso dizer que um homem ou uma mulher só podem ser felizes quando tiverem netos. Não serão felizes se só têm filhos.

Pausa.

Agora a explicação: são tantas as atribulações que os filhos dão aos pais que verdadeiramente os amarem, que não há tempo de eles os curtirem com contentamento.

Melhor explicando: os pais passam a vida inteira trabalhando para sustentar seus filhos e encaminhá-los na vida. Gastam toda a sua vigília e têm atormentado seu sono pela preocupação com a formação e o futuro de seus filhos.

Acabam não tendo tempo na vida para colher os frutos dessa semeadura toda, percorrem toda a existência num turbilhão de tarefas e façanhas dirigidas todas ao benefício de seus filhos, esquecem-se de si próprios e não raro se tornam infelizes por este fardo colossal e inarredável.

Repito: não me entendem mal, que eu amo meus filhos e sei bem o quanto é bom ter filhos.

É que o ângulo sob o qual estou abordando essa questão é outro. E agora o lado inverso: os avós, estes sim têm tudo para obter felicidade junto a seus netos. Diz o ditado que os netos são filhos com açúcar. E todo o ditado contém uma verdade.

Para começar, os avós só vão se encontrar com os netos, quase sempre, em sábados, domingos, feriados, dias de aniversário. Isto é, já os pegam arrumadinhos, perfumados, felizes, felicidade esta que é imediata e automaticamente transmitida ao avô e à avó.

Em segundo lugar, quando os avós começam a brincar com os netos, não lhes assalta nesse momento feliz o que toma conta dos pais no mesmo instante: a preocupação com o dia seguinte, quando as crianças têm de ir para a escola, as crianças estão mal em matemática ou português, têm, segunda-feira, de se submeter a um exame médico e outras mumunhas.

Nada desse universo preocupante pertence aos avós. É tudo atribuição incômoda dos pais.

Acho que nesta altura os meus melhores leitores, aqueles que mantêm comigo esta relação divina de entrarem em colóquio com o que escrevo aqui todos os dias, me entenderam e não caíram em confusão, deixando de me aprovar.

A felicidade é, portanto, muito mais propícia aos avós que aos pais. Na relação custo-benefício, o custo é dos pais, o benefício é dos avós.

Por isso é que são mais tendentes a serem felizes os avós do que os pais. E eu sou pai e avô, tenho autoridade para afirmar isso.

Mas a minha maior autoridade não deriva disso. Deriva, isto sim, do fato inesquecível de que já fui ao mesmo tempo filho e neto, ao tempo em que coexistiam meu pai e minha avó. E dei muito mais alegria, àquela época, à minha avó do que ao meu pai.

Claro que me entenderam hoje os meus leitores neste tema delicado! Não posso acreditar que houve alguém que não me entendeu e vá protestar!

Crônica publicada em 20 de maio de 2000


24 de outubro de 2009 | N° 16134
CLÁUDIA LAITANO


Comer e rezar, beber e jogar

Mulher recém-separada (ou com o casamento em crise) parte em férias para as ilhas gregas (ou para uma charmosa vila na Toscana ou para qualquer outra paisagem exótica e deslumbrante ao gosto do freguês) e lá reencontra a alegria de viver nos braços de um ardente amante latino (jamais um suíço ou um finlandês, por exemplo).

Você já leu esse livro, já viu esse filme ou assistiu a essa peça. Essa é a história, entre tantas outras, de Shirley Valentine – espetáculo que esteve em cartaz em Porto Alegre no último fim de semana.

O sucesso mais recente desse gênero, que a gente podia apelidar de “on the road romântico” , é Comer, Rezar, Amar, de Elizabeth Gilbert, best-seller com mais de 4 milhões de exemplares vendidos que está sendo filmado na Indonésia. No filme, Julia Roberts interpreta a balzaquiana em crise que busca o autoconhecimento em cenários “exóticos” – para americanos, qualquer coisa localizada a leste de Londres – e acaba se apaixonando por um amante latino (no livro, um brasileiro; no filme, o ator espanhol Javier Bardem).

Não li Comer, Rezar, Amar (nem a crise existencial mais profunda ou o amante latino mais ardente me levariam a percorrer o mundo em busca do segundo item), mas achei muito divertido quando fiquei sabendo que havia sido lançada uma debochada versão masculina do livro – e com um título que promete resumir as ambições mais profundas de seu público-alvo.

Beber, Jogar, F@#er, de Andrew Gottlieb, pega carona no best-seller nos mínimos detalhes – da capa à estrutura dos capítulos, incluindo o final romântico ideal para a adaptação para o cinema.

Descansando lado a lado na prateleira de um hipotético casal de leitores (há literalmente “vendas casadas”, com desconto, em oferta nas livrarias), o conjunto oferece uma curiosa galeria de estereótipos de ambos os sexos – além de ser um desafio para qualquer harmonia conjugal.

De um lado, a mulher que aspira à elevação espiritual e ao amor romântico. Do outro, o homem que sonha em se divertir sem regras, enchendo a cara com os amigos e fazendo sexo à vontade e sem compromisso.

Lidos em conjunto, os títulos podem ser vistos como complementares ou contraditórios – dependendo do ponto de vista. Comer e beber aparentemente fazem parte da mesma comunhão à mesa, mas enquanto o prazer feminino de desfrutar uma bela refeição remete a jantares românticos ou à família, a bebida da fantasia masculina não é o cálice de vinho degustado lentamente, mas a alegre noitada com a turma de amigos (sem mulheres atrapalhando, de preferência).

Amor e sexo podiam muito bem se complementar (e não é para discutir a relação que elas pensam no amante latino), mas o casamento não combina com a fantasia de variedade infinita deles. Dois a zero para a discórdia.

Sobram rezar e jogar. Bom, de quem reza, se diz que “tem” fé, e de quem joga que “faz” fé – mas provavelmente apenas os jogadores muito endividados conseguem fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Três a zero.

E a mulher daquele hipotético casal acaba de fazer as malas para a Itália.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009



21 de outubro de 2009 | N° 16131
MARTHA MEDEIROS


Insultos e piadas ruins

Dois episódios foram bastante comentados semana passada, ambos definidos como insultuosos. Um deles foi uma brincadeira que a apresentadora Sabrina Sato, do Pânico na TV, armou para o senador Eduardo Suplicy.

Ele foi convidado a vestir uma sunga vermelha de super-herói. Notório boa paz, Suplicy vestiu a sunga por cima do terno, o que bastou para o corregedor-geral do Senado, Romeu Tuma, abrir uma investigação para definir se houve quebra de decoro parlamentar. Anteontem, Tuma voltou atrás.

Outro assunto foi o vídeo que Maitê Proença gravou para o programa Saia Justa, em que ela aparece em Portugal tirando um sarro dos lusitanos. Conseguiu desagradar lá e aqui também, já que muitos brasileiros colocaram o vídeo na rede acompanhado de ofensas múltiplas à atriz.

Ambas as reações me pareceram superdimensionadas. Suplicy tem aquele jeito bobo e acaba pagando uns micos desnecessários, mas, até onde se sabe, é um político honesto – a Corregedoria- Geral certamente tem casos mais sérios de quebra de decoro pra investigar.

E Maitê gravou um vídeo adolescente. Não estava traçando um perfil oficial dos portugueses, e sim valendo-se da prática mundial de perder o amigo, mas não perder a piada. Foi deselegante? Até foi, mas só porque o Saia Justa não é catalogado como um programa de humor. Se o Casseta e Planeta tivesse produzido o mesmo vídeo, ninguém acharia nada de mais.

Muita gente se defende de suas grosserias dizendo: eu estava apenas brincando. E sabemos que estavam. É fácil perceber quando alguém está tentando promover diversão à custa de um comentário ou de um ato.

Isso não impede que esse alguém tenha péssimo gosto para brincadeiras, e acabe ofendendo. Nem todo mundo tem desconfiômetro. Mas não se pode colocar os maus piadistas no mesmo rol daqueles que agridem com a intenção explícita de detonar com o bem-estar do outro.

Eu me sinto insultada cada vez que pago uma exorbitância de imposto e sigo sem segurança para sair às ruas. Me sinto insultada por políticos falastrões que não se importam com seus eleitores.

Me sinto insultada por quem mente e comete injustiças para salvar a própria pele. Em contrapartida, não me sinto insultada quando falam mal de brasileiros, de mulheres, de publicitários, de colorados ou de qualquer categoria a que eu pertença, porque sei que são generalizações, não uma acusação individual. Relativizo justamente porque a intenção é fazer graça, mesmo que não tenha graça nenhuma. Só a falta de humor é que cria mártires.

Ninguém precisa aplaudir grosserias, deselegâncias e palhaçadas. O ideal seria que vivêssemos no melhor dos mundos, mas pra isso Deus teria que começar o trabalho dele do zero.

Como eu duvido que ele ponha a mão nessa maçaroca de novo, nós mesmos é que temos que aprender a brigar pelo que é sério, e não gastar nossa cólera por causa de algumas piadas ruins, sejam elas protagonizadas por um senador meio crianção ou por uma participante de um programa de amenidades.

Tem gente que se sente insultada até pela felicidade dos outros, não tem? Então cuidado. Mantenhamos nosso direito à crítica, mas controlemos a paranoia.

Uma linda quarta-feira para você.

terça-feira, 20 de outubro de 2009



20 de outubro de 2009 | N° 16130AlertaVoltar para a edição de hoje
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA

Em preto e branco

Há um aroma que tem o poder de me devolver instantaneamente à infância. É o cheiro de livros novos. No mês de março dos longínquos Anos Dourados, você passava em seu colégio e lhe davam uma lista de tudo o que iria precisar para voltar à sala de aula.

Então era só ir à Rua da Praia e passar na Companhia Editora Nacional ou na Globo e aprovisionar-se de lápis, caneta, tesoura, cartolina, e naturalmente de todos os compêndios que seu curso iria exigir.

Tudo recendia a novo, mas nada tanto quanto os volumes zero quilômetro de português, matemática, história ou geografia. Sinto agora, neste momento em que escrevo, a fragrância daquelas capas virgens, que iriam me acompanhar por todo o ano escolar. E é claro que me bate também uma saudade de idades a que nunca mais voltarei.

Me lembro disso porque acabo de ler na Veja que o Brasil está na rota do Kindle. Não se trata de nenhum bombom, mas de um e-reader, ou leitor eletrônico, um prodígio de 585 dólares, que se conecta à rede de telefonia celular de uma imensa estante digital, aí incluído o último romance de Dan Brown.

Os consumidores potenciais desse lançamento da Amazon são 90 milhões de pessoas. A meta é óbvia: oferecer um sucedâneo ao livro.

É a própria revista aliás que descreve magistralmente este último produto. É um objeto impresso em papel. Funciona sem bateria, dispensa o manual do usuário, suporta quedas, é barato e pode ser substituído a um custo mínimo.

É, portanto, uma invenção tecnologicamente perfeita. Não por acaso, atravessou mais de 500 anos como o mais simples e prático instrumento para o registro e a transmissão de ideias. Ao que acrescentaria eu que igualmente para a comunicação de sentimentos, desejos e abstrações.

O Kindle, cujo nome deriva dos verbos acender e iluminar, em inglês, passará, além do Brasil, a ser comercializado em 99 países. Só nos Estados Unidos, já vendeu mais de um milhão de unidades.

É um portento. Espelha uma civilização movida a bits e bytes. E no entanto os e-readers só decolaram depois que conseguiram imitar, eletronicamente, a impressão tradicional, feita no papel. A tela dos leitores é formada por milhares de pequenas cápsulas com pigmentos claros e escuros. No total, há 16 tons de cinza.

Já não sei quanto a outras cores. Pois um simples livro daqueles comprados no começo do ano podia ser preto e branco.

Mas nele cabia toda a sabedoria do universo.

Bem de volta ao nosso aqui e agora. Que a terça-feira seja ótima para quem trabalha e para quem está de folga.

sábado, 10 de outubro de 2009



Sua majestade, a criança

Tem se falado muito na falta de limites das crianças de hoje. A garotada manda e desmanda nos pais e estes, sentindo-se culpados pelo pouco tempo que ficam em casa, aceitam a troca de hierarquia – hoje os adultos é que recebem ordens e reprimendas, e não demora serão colocados de castigo.

Segundo os pedagogos, precisamos voltar a dizer não para a pirralhada. É a ausência do não que faz com que meninas saiam de madrugada sem avisar para onde estão indo, garotos peguem o carro do pai sem ter habilitação e todos sejam estimulados a consumir descontroladamente, a não dar explicações e a viver sem custódia. Mas onde encontrar energia para discutir com filho?

Pai e mãe se jogam no sofá e pensam: “Façam o que bem entender, desde que nos deixem quietos vendo a novela”.

Alguns adultos defendem-se dizendo que é impossível dar limites, vigiar e orientar, tendo que sair de manhã para o batente e voltar à noite demolidos pelo cansaço. Compreendo, é complicado mesmo.

Se existe uma liberalidade e agressividade maior hoje entre as crianças, é claro que o fato de as mulheres terem entrado no mercado de trabalho e deixado em aberto o posto de rainhas do lar tem algo a ver com isso. Mas nem me passa pela cabeça estimular um meia-volta, volver. A sociedade avançou com a participação das mulheres e esse é um caminho sem retorno. O que compromete o destino de uma criança é não ter sido amada. E muitas não foram, mesmo com os pais por perto.

A falta de amor é a origem de grande parte das neuroses, psicoses e desvios de conduta. Uma criança que não se sentiu amada pode cometer erros de avaliação sobre si própria e cometer desvarios para alcançar uma autoestima que está sempre fora de alcance.

Não adianta o pai e a mãe passarem a mão na cabeça do filhote de vez em quando e repetir um “eu te amo” automático. A criança precisa se sentir amada de verdade, e as demonstrações não se dão apenas com beijos e abraços, e tampouco com proibições sem justa causa.

O “não deixo, não pode” tem que ser argumentado. “Não deixo e não pode porque....” Tem que gastar o latim. Explicar. E prestar atenção no filho, controlar seus hábitos, perceber seus silêncios, demonstrar interesse pelo que ele faz, pelo que ele pensa, quem são seus amigos, quais suas aptidões, do que ele se ressente, o que está calando, por que está chorando, se sua rebeldia é uma maneira de pedir socorro, se está precisando conversar, se o que tem sentido é demasiado pesado pra ele, se precisa repartir suas dores, se está sendo bem acolhido pela escola,

se não estão exigindo dele mais do que ele pode dar, se não foram transferidas responsabilidades para ele que são incompatíveis com sua idade, se há como entender e aceitar seus desejos, se ele está arriscando a própria vida e precisa de freio, se estamos deixando ele sonhar alto demais, se estamos induzindo que ele sonhe de menos, se ele está recebendo os estímulos certos ou desenvolvendo preconceitos generalizados.

Dá uma trabalheira, mas isso é amar.

Algumas crianças são criadas por empregadas, ou seja, são terceirizadas e depois o psiquiatra que junte os cacos. Com amor, ao contrário, toda criança sente-se ilustríssima, majestade, vossa excelência, sem fazer mau uso do cargo.

Será confiante e segura como um rei, não se violentará para agradar os outros (usando drogas ou imitando o que os outros fazem para ser aceita num grupo). Será o que é, afinada com o próprio eixo. E se transformará num adulto bem resolvido, porque a lembrança da infância terá deixado nela a dimensão da importância que ela tem.

Bem a viagem pela TAP ainda é muito gostosa, haja vista a janta que servem com vários cardápios ainda para escolher, bem como o café da manhã. As colinas de Lisboa continuam as mesmas e hoje a gente foi rever a do Castelo de São Jorge.

Enquanto os meninos/meninas sairam para bebemorar nos barzinhos aqui do Bairro do Chiado eu estou a postar para voces. Um bom domingo e um ótimo início de semana.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009



07 de outubro de 2009 | N° 16117
MARTHA MEDEIROS


O direito ao sumiço, parte 2

Em janeiro de 2008 publiquei uma crônica chamada “O direito ao sumiço”, onde eu falava sobre pessoas que viajam, mas são incentivadas a mandar notícias a todo instante, seja por e-mail, MSN, Skype ou o que for. Uma ansiedade que não havia antes: quando alguém embarcava pra longe, no máximo enviava uma carta, ou um cartão-postal, telefonava de vez em quando, mas ainda conseguia se sentir livre e sozinho, distante de todos e mais próximo de si mesmo.

Hoje, com toda a parafernália tecnológica à disposição, você não consegue desaparecer: é facilmente acessado, esteja no continente que estiver. Vantagem para quem ficou e sente saudade, mas o viajante que não se desconecta perde uma rara oportunidade de levar a cabo a frase que tantas vezes é dita quando estamos sobrecarregados: “Que vontade de dar uma sumida”.

Isso me veio à mente quando li as notícias sobre esse estranho caso da France Telecom. No espaço de um ano e meio, 24 funcionários da empresa se suicidaram, sem contar os 13 que tentaram se matar e não obtiveram sucesso – acho que sucesso não é a palavra mais adequada pra situação, mas enfim.

Eu não conheço os pormenores do assunto, mas me chamou a atenção o fato de a morte desses funcionários estar vinculada às condições de trabalho: todos se sentiam demasiadamente pressionados. Até aí, não vejo justificativa pra dar fim à vida, a pressão faz parte do meio corporativo em qualquer lugar do planeta, mas há um ponto que merece ponderação: a avalanche de mensagens que lotavam seus computadores e blackberry foi relacionada ao profundo estresse que os acometia.

Faz sentido. Algumas pessoas não conseguem mais distinguir o que é vida pessoal e o que é vida profissional. Estão permanentemente conectadas com os outros, a ponto de perder a conexão consigo próprias.

O blackberry, por exemplo (eu sei que ele já está obsoleto, mas eu também estou, conformem-se), me parece infernal: sei de gente que acorda de madrugada para checar e-mails, numa atitude totalmente compulsiva e insana. As pessoas se sentem agoniadas quando ficam fora de alcance.

É como se o isolamento, o silêncio e a privacidade expatriassem a criatura, a impedissem de estar em meio aos acontecimentos. É uma inversão total de percepção: só nos sentimos vivos quando acionados pelos que estão de fora. Parece até que dentro de nós não acontece nada, não há nenhuma novidade a descobrir.

Óbvio que deve haver outros motivos para a onda de suicídios dos funcionários da France Telecom, mas esse vício de ficar conectado 24 horas, seja por mania ou por exigência profissional, merece uma reflexão.

Não podemos perder nosso direito ao sumiço, de dar aquela escapada saudável, que pode acontecer tanto numa viagem como aqui, no dia a dia, bastando pra isso não acessar a internet, desligar o celular e curtir a tão necessária companhia de si mesmo.

Do contrário, vão pipocar mais casos de gente que surta e acaba saltando da ponte como única alternativa de dar uma sumida.

Uma excelente quarta-feira para todos nós. Aproveite o dia.

sábado, 3 de outubro de 2009



04 de outubro de 2009
N° 16114 - MARTHA MEDEIROS


Amigo de si mesmo

Em seu recém-lançado livro Quem Pensas Tu que Eu Sou?, o psicanalista Abrão Slavutsky reflete sobre a necessidade de conquistar o reconhecimento alheio para que possamos desenvolver nossa autoestima.

Mas como sermos percebidos generosamente pelo olhar dos outros? Os ensaios que compõem o livro percorrem vários caminhos para encontrar essa resposta, em capítulos com títulos instigantes como Se o Cigarro de García Márquez Falasse, Somos Todos Estranhos ou A Crueldade é Humana.

Mas já no prólogo o autor oferece a primeira pílula de sabedoria. Ele reproduz uma questão levantada e respondida pelo filósofo Sêneca: “Perguntas-me qual foi meu maior progresso? Comecei a ser amigo de mim mesmo”.

Como sempre, nosso bem-estar emocional é alcançado com soluções simples, mas poucos levam isso em conta, já que a simplicidade nunca teve muito cartaz entre os que apreciam uma complicaçãozinha. Acreditando que a vida é mais rica no conflito, acabam dispensando esse pó de pirilimpimpim.

Para ser amigo de si mesmo é preciso estar atento a algumas condições do espírito. A primeira aliada da camaradagem é a humildade. Jamais seremos amigos de nós mesmos se continuarmos a interpretar o papel de Hércules ou de qualquer super-herói invencível.

Encare-se no espelho e pergunte: quem eu penso que sou? E chore, porque você é fraco, erra, se engana, explode, faz bobagem. E aí enxugue as lágrimas e perdoe-se, que é o que bons amigos fazem: perdoam.

Ser amigo de si mesmo passa também pelo bom humor. Como ainda há quem não entenda que sem humor não existe chance de sobrevivência? Já martelei muito nesse assunto, então vou usar as palavras de Abrão Slavutsky: “Para atingir a verdade, é preciso superar a seriedade da certeza”.

É uma frase genial. O bem-humorado respeita as certezas, mas as transcende. Só assim o sujeito passa a se divertir com o imponderável da vida e a tolerar suas dificuldades.

Amigar-se consigo também passa pelo que muitos chamam de egoísmo, mas será? Se você faz algo de bom para si próprio estará automaticamente fazendo mal para os outros? Ora. Faça o bem para si e acredite: ninguém vai se chatear com isso.

Negue-se a participar de coisas em que não acredita ou que simplesmente o aborrecem. Presenteie-se com boa música, bons livros e boas conversas. Não troque sua paz por encenação. Não faça nada que o desagrade só para agradar aos outros. Mas seja gentil e educado, isso reforça laços, está incluído no projeto “ser amigo de si mesmo”.

Por fim, pare de pensar. É o melhor conselho que um amigo pode dar a outro: pare de fazer fantasias, sentir-se perseguido, neurotizar relações, comprar briga por besteira, maximizar pequenas chatices, estender discussões, buscar no passado as justificativas para ser do jeito que é, fazendo a linha “sou rebelde porque o mundo quis assim”. Sem essa.

O mundo nem estava prestando atenção em você, acorde. Salve-se dos seus traumas de infância.

Quem não consegue sozinho, deve acudir-se com um terapeuta. Só não pode esquecer: sem amizade por si próprio, nunca haverá progresso possível, como bem escreveu Sêneca cerca de 2.000 anos atrás. Permanecerá enredado em suas próprias angústias e sendo nada menos que seu pior inimigo.

Um lindo domingo especialmente para você.

Isabela Boscov - divulgação - GLÓRIA FEITA DE SANGUE

Tarantino na idade da razão



Em Bastardos Inglórios, uma unidade voluntária de soldados judeus espalha o pânico entre os nazistas na França ocupada. É uma fantasia típica de Quentin Tarantino - mas, da escrita soberba à escolha dos atores excelentes, denota o avanço notável do diretor rumo à maturidade pessoal e artística

Eli Roth, como "O Urso Judeu", e Brad Pitt, como Aldo "O Apache" Raine, dois dos bastardos inglórios: sotaque caipira e nazistas escalpelados para desestabilizar a França sob domínio alemão

Em 1941, diante de uma pequena casa de fazenda, em algum lugar montanhoso da França, o sol brilha, os sinos das vacas são ouvidos ao longe e o pai corta lenha, enquanto a filha pendura a roupa no varal. Pelo lado do lençol que se levanta com o vento, porém, ela vê um grupo de soldados vindo pela estrada, e imediatamente esse quadro tão pitoresco de rusticidade ganha um caráter diverso.

Em vez da paz rural, o que se percebe agora é o isolamento da casa e quanto o pai e suas três filhas estão indefesos ali. Ajuda muito que a trilha escolhida para a cena seja um trecho original de Ennio Morricone para os faroestes-espaguete de Sergio Leone, capaz de anunciar como nenhuma outra coisa jamais composta para o cinema a solidão e o perigo.

Mas os enquadramentos exímios e o tempo impecável em que transcorre essa sequência de abertura de Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, Estados Unidos/Alemanha, 2009), que estreia no país na próxima sexta-feira, são obra e graça de Quentin Tarantino - tanto eles como a destreza com que o fazendeiro francês e o tenente-coronel alemão Hans Landa, que acabou de chegar com seus soldados, vão descrever círculos um em torno do outro, num enfrentamento que tem como objeto o paradeiro de uma família judia, e em que as armas serão um copo de leite, dois cachimbos, as três meninas e o domínio de ambos os personagens do inglês e do francês.

Na maneira como Tarantino retrai e prolonga o tempo previsto para chegar ao desfecho, essa abertura é eletrizante. E ilustra também a distância que o diretor vem percorrendo rumo à maturidade, em um caminho já indicado na segunda parte de Kill Bill.

Tarantino é capaz, agora, de imaginar não só um jogo entre dois personagens, mas um porquê para ele que vá além de suas contingências narrativas. Consegue ouvir a beleza de um diálogo travado, não meramente disparado. E aprendeu a apreciar a utilidade emocional da pausa e dos pequenos milagres que os bons atores podem proporcionar.

O pouco conhecido Denis Menochet, que interpreta o fazendeiro, é excelente, e com cada pequeno gesto acumula mais algum dado sobre a vida e o passado de seu personagem, ainda que nem uma palavra se diga sobre eles. E o ainda menos conhecido Christoph Waltz, que faz o nazista, é espetacular: um ator de precisão absoluta, que rouba o filme com a anuên-cia do diretor - e dos outros atores, igualmente galvanizados por sua performance.

O tenente-coronel Hans Landa, assim, será ainda mais essencial para o filme do que os próprios bastardos inglórios - uma unidade especial de soldados judeus voluntários, que penetram na França ocupada para assassinar nazistas com selvageria e dessa forma espalhar o pânico.

Liderados pelo tenente Aldo "O Apache" Raine (Brad Pitt), um matuto do Tennessee com um sotaque caipira mais espesso que melaço e o hábito de escalpelar suas vítimas, os bastardos são uma criação típica de Tarantino (que, claro, não deixou de ser ele mesmo): um grupo de homens que se comunicam por meio de frases de efeito - bom efeito, aliás - e se dedicam à violência com prazer, sem pesar nem drama de consciência.

Quando eles estão em cena, o filme adquire continuidade com os outros do diretor em tema, estilo e volume bruto de sangue. Quando não, Bastardos Inglórios assinala uma espécie de ruptura.

Em um processo análogo ao do canadense David Cronenberg, que depois de explorar a fundo as possibilidades da escatologia se renovou com o classicismo de Marcas da Violência e Senhores do Crime,

Tarantino estuda aqui as propriedades desestabilizadoras da elegância. Cada ato do filme agrupa um determinado número de personagens em um cenário delimitado - uma taverna, um cinema, uma mesa de restaurante. Todos tratam de alguém dissimulando e correndo grande risco; mas os duelos são travados por meio de insinuações.

Assim, a estrela de cinema e agente dupla Bridget von Hammersmark (a alemã Diane Kruger, que depois de quase afundar com Troia hoje só faz brilhar) tem de colocar aliados e alemães em volta de uma rodada de bebidas sem que ninguém se traia, e de forma a que aquilo que tem de ser descoberto o seja.

A judia disfarçada Shosanna (Mélanie Laurent), por sua vez, tem de repudiar as atenções insistentes de um herói de guerra nazista (Daniel Brühl) sem antagonizá-lo - e ambas, em momentos diversos, terão de sobreviver aos ataques de cordialidade, efusão e malevolência do tenente-coronel Landa. Tão fabulosa é a escrita dessas cenas que a mera menção a um copo de leite causa uma vertigem de medo.

Bastardos Inglórios, contudo, não é um filme sobre a II Guerra. Não é nem mesmo uma história fantasiosa passada na II Guerra, já que trata de dois complôs paralelos para pulverizar, literalmente, o alto-comando nazista.

É um filme passado em todos os outros filmes já feitos sobre o tema, com vários elementos dos noir dos anos 30 e dos faroestes de John Ford e Sergio Leo-ne acrescidos à sua encenação.

É um filme que pertence só à história do cinema, não à outra, a mais ampla. Mas, como no segundo Kill Bill, Tarantino mostra que descobriu a existência de outro mundo para além desse território imaginário - e que entendeu que, quanto mais se alimentar dele, mais verossímil e envolvente será sua fantasia.

Lya Luft

Contraponto: deixar desabrochar

"Tive um filho, tenho um aluno, e agora? Agora é plantar os pés no chão, deixar a alma um pouco solta e, como diziam os avisos nos trilhos de trem de minha cidadezinha natal: parar, olhar, escutar"

Na coluna passada escrevi sobre educação e autoridade, dois temas complicados nos nossos dias de bagunça generalizada. Hoje falo sobre seu contraponto, o que me ensinou um velho mestre sábio sobre educação: "Família e escola fazem muito, se não estorvam. Deixem as crianças e os jovens desabrochar".

Na primeira vez em que escutei a frase fiquei um pouco chocada. Se já naquele tempo, eu ainda universitária, questionávamos a frouxa autoridade em casa e na escola, que deixava a meninada perdidona e sem limites, como entender aquela afirmação de quem entendia mais do que a maioria de nós sobre ensino, educação e o resto?

O tempo e a experiência foram mostrando um pouco do mistério: é preciso juntar tudo isso, bater no liquidificador da experiência, tentativa e erro, alegria e desespero de quem lida com esses assuntos na prática e na teoria, e ver no que dá.

Pois para lidar com gente não há garantia nem receitas, por mais que sejam vendidas ou espalhadas gratuitamente por aí em abundância: como conseguir parceiro, como segurar seu homem, como enlouquecer sua amante, como ficar rico sem esforço, como ter sucesso, como ser feliz em dez lições a preços módicos.

A questão é como dosar autoridade e liberdade, para que crianças e jovens cresçam. Ou melhor: para que a gente também continue crescendo, pois sou dos que acreditam que viver não é deteriorar-se, mas se expandir.

E quando o corpo parece encolher, murchar, envelhecer – é bom usar as palavras certas, pois às vezes os eufemismos soam ofensivos – a alma tem de continuar crescendo. Alma, psique, mente, não importa o conceito científico, moral, espiritual, que lhe queiram dar.

Mas volto ao desabrochar de crianças e adolescentes: se alguém tem perto de si um desses belos, estimulantes, atordoantes exemplares humanos, comece a observar: encante-se, assuste-se, trate de se descabelar e maravilhar. E vai lentamente entender a frase do velho mestre, quando dizia que família e escola não devem estorvar.

É preciso olhar, tentar entender um pouco, e respeitar. Amparando quando for preciso, botando limites para que as capacidades, talentos e dificuldades do outro não transbordem tornando-se prejudiciais; estimulando sem interferir gravemente, e admirando-se de como, igual a uma planta ou pássaro, um peixe no mais remoto fundo de oceano, a criança observa, pensa, e precisa se desenvolver.

O susto de quem tem a responsabilidade de cuidar (porque, repito interminavelmente, quem ama cuida) não é pequeno.

Tive um filho, tenho um aluno, e agora? Agora é plantar os pés no chão, deixar a alma um pouco solta e, como diziam os avisos nos trilhos de trem de minha cidadezinha natal: parar, olhar, escutar. Mais que isso, pensar.

Falar assim é fácil, escrever mais ainda, dirão. É verdade. Mas se formos menos desligados e mais atentos, mais firmes mas menos rígidos, mais amorosos e mais exigentes neste universo contraditório que todos somos, e mais respeitosos, veremos milagres. E atenção: dizendo "respeitosos" não digo "encolhidos, humildes, suportando todas as más-criações e maluquices", mas sendo ativamente tranquilos.

Claro que para isso precisamos ser, se pais, razoavelmente estruturados emocionalmente, pois se formos destrambelhados demais poderemos perturbar as crianças. Professores, temos de ser bem pagos, com excelentes escolas – ou vamos mendigar a esmola de condições mínimas para trabalhar.

Embora os personagens de minhas ficções sejam neuróticos e sofridos, minhas crônicas nem sempre sejam otimistas, acredito que a gente sempre pode repensar a vida e todas as coisas que nela causam tamanho susto e tanto prazer, para sentir que afinal vale a pena.

Educar e ensinar não deveria ser razão de tanto conflito, com tão melancólicos resultados como os que muitas vezes se veem por aí. Deveria ser motivo de interesse, adrenalina boa, entusiasmo – ainda que passando por muitos fracassos e frustrações – porque, afinal, somos todos apenas humanos tentando entender o mundo de Deus e as humanas trapalhadas.

Danilo Venticinque

O melhor lugar para reclamar da vida

Com mensagens curtas e anônimas, sites de desabafo fazem sucesso e inspiram até seriado de TV

Reclamar da vida em redes sociais é uma tática infalível para ser ignorado, perder seguidores ou receber respostas atravessadas. No Twitter, esse tipo de desabafo é tão mal visto que ganhou até uma palavra-chave (hashtag) – o infame #mimimi, normalmente precedido de um comentário sarcástico sobre as reclamações do usuário.

O resultado é que, para não se exporem ao julgamento dos implacáveis amigos virtuais, internautas recorrem a esconderijos onde dividem queixas, confusões e até vitórias insignificantes do dia-a-dia: os sites anônimos de desabafo.

Nos Estados Unidos, o exemplo mais recente desse fenômeno é o site Texts from last night (“mensagens da noite passada”), que recebe os visitantes com a seguinte frase: “Lembra aquela mensagem que você não deveria ter mandado ontem à noite? Nós lembramos”. Com esse slogan, um design quase precário e colaborações constantes de usuários, a página se tornou uma das maiores sensações da internet em 2009.

A ideia é simples: reunir desabafos ou mensagens embaraçosas de internautas anônimos, identificados apenas pelo código de região de seus celulares. O serviço, lançado em fevereiro, logo atingiu uma média diária de 4 milhões de acessos. Sociólogos chegaram a chamá-lo de “um documento vivo sobre o cotidiano dos jovens em 2009”. A popularidade chamou a atenção do canal de televisão Fox, que recentemente assinou um contrato para produzir um seriado sobre os depoimentos.

A história de sucesso é semelhante à do primeiro grande site do gênero: o F my life (“F... minha vida”), criado em 2008 por uma dupla de franceses. As histórias enviadas por usuários deram origem a um livro, que chegou no início do ano às livrarias da França e dos Estados Unidos. O serviço inspirou outros sites com o mesmo formato, como o My life is average (“minha vida é mediana”), para internautas com vidas sem graça, e o It made my day (algo como “ganhei o dia”), para comemorar pequenas conquistas do cotidiano.

No Brasil, o posto é ocupado pelo sugestivo Vida de merda, que recebe atualizações diárias e é integrado a outras redes sociais, como Twitter e Facebook. Nada mais conveniente para quem quer reclamar da vida anonimamente, sem se arriscar a perder amigos virtuais. Sem saber quem é o autor da história, eles podem rir sem culpa dos infortúnios alheios – o que, por si só, já seria motivo para outra reclamação.

A seguir, confira alguns dos melhores depoimentos (publicáveis) enviados para os sites:

Alguns desabafos de internautas:

Vida de merda

"Hoje, depois de terminar com o idiota do meu namorado por ele ficar atirando com arma de paintball no meu cachorro, ELE me chamou de infantil. Minha mãe concordou."

"Hoje minha namorada pegou minhas senhas do Gmail e MSN ‘só para olhar’. Peguei as dela também. Ela roubou minhas senhas, mudou as dela e, quando fui pedir satisfação, ela disse: 'vou ficar com seu Orkut, Gmail e MSN por 2 meses só para averiguar, depois devolvo. Os emails importantes te encaminho para o Yahoo’."

"Hoje fui até meu apartamento para ver se o gesseiro havia feito o serviço direito. Chegando lá, a parede que ele havia subido estava completamente fora de esquadro, ou seja, torta. Quando reclamei, ele retrucou dizendo que meu apartamento é que estava torto. "
Texts from last night

"Acho que o meu eu bêbado está dizendo alguma coisa para o meu eu de ressaca... Só preciso decifrar o código"

"Às vezes me sinto tão sozinho que programo o despertador do celular para tocar a cada 5 minutos e imagino que estão me mandando mensagens."
F my life

"Hoje minha namorada terminou comigo dizendo que queria alguém mais parecido com o Edward. Eu perguntei quem era Edward e ela me mostrou um exemplar de Crepúsculo. Ela estava falando de um vampiro fictício."

"Hoje recebi meu passaporte pelo correio. Eles erraram minha data de nascimento. Peguei a certidão de nascimento que eu tinha enviado junto com os formulários e descobri que meus pais comemoram meu aniversário no dia errado há 16 anos."

"Hoje meu noivo terminou comigo por uma mensagem no MySpace. Nós estávamos no mesmo apartamento."
My life is average

"Hoje, no jantar, minha mãe perguntou quantos filhos minha irmã queria ter. Ela respondeu: 'Eu quero 22, cada um com um pai diferente para eu ganhar mais com a pensão’. Minha irmã está proibida de sair de casa para sempre."

"Hoje fui tomar uma ducha e, no meio do banho, senti uma coisa estranha embaixo dos meus pés. Olhei para baixo e vi que ainda estava de meias."
It made my day

"Hoje vi um pombo defecando em outro pombo. Justiça."

"Minha esposa me deu um relógio horrível de aniversário de casamento porque não gostava do que eu costumava usar. Ela insistiu para eu usar o novo e hoje, quando eu finalmente concordei, fui assaltado. Levaram só o relógio."


Sim, nós podemos Ruth de Aquino

RUTH DE AQUINO

O Rio amanheceu cantando. Toda a cidade amanheceu em flor. E os namorados vêm pra rua em bando porque a primavera é a estação do amor. Rio, das noites estreladas e praias azuis. Rio, das manhãs prateadas, das morenas queimadas, ao brilho do sol. Rio, és cidade-desejo, tens a ardência de um beijo em cada arrebol! A composição é de Braguinha (João de Barro) e foi gravada por Carmen Miranda, em 1934. Faz 75 anos. Na sexta-feira, o Rio amanheceu assim.

Só é preciso traduzir “arrebol”: alvorada ou crepúsculo avermelhado. De resto, a letra de Braguinha é atual. Continua sendo verdade. Uma verdade parcial, vista de cima, mas absoluta: não há no mundo natureza mais fotogênica num centro urbano do que a carioca. O Rio sempre foi um destino de sonho. Porque é bonita demais, que me perdoem as feias. É uma cidade exibida que convida ao namoro e ao voyeurismo.

Brasileiros de todos os sotaques se emocionaram ao ver na televisão as imagens do Rio de Janeiro em Copenhague, Dinamarca. Foi um exercício de sedução para sediar as Olimpíadas de 2016.

Esse amor pela cidade em que nascemos e crescemos é diretamente proporcional a nossa indignação com os sucessivos governos que vinham destruindo criminosamente o Rio e sua vocação para a alegria, o turismo e o prazer. Vocação que resiste a todos os ex-prefeitos omissos, a todas as ex-picuinhas com presidentes. Senão, como explicar que uma pesquisa com 10 mil pessoas em 20 países, feita pela revista Forbes, tenha acabado de eleger o Rio como “a cidade mais feliz do mundo”?

Na fria Copenhague, um dos pontos mais altos da apresentação foi o discurso do presidente Lula. Não vou repisar a paixão, porque isso Lula tem de sobra. E todos os passionais às vezes pisam na bola. Lula foi profissional.

Treinado como um atleta para subir ao pódio e ganhar o ouro. Sua emoção estava na dose certa da sinceridade e propriedade dos argumentos, sem cacoetes de improviso. Não apelou para gracinhas dúbias. Não mencionou o Corinthians. Não recorreu a olhares, gestos e bocas. Não tropeçou, não cometeu gafes, e falou de multiculturalismo.

Brasileiros de todos os sotaques se emocionaram com a escolha do Rio para sediar as Olimpíadas de 2016

“Com muito orgulho, represento aqui as esperanças e os sonhos de mais de 190 milhões de brasileiros. Somos um povo apaixonado pelo esporte. Olhando para os cinco aros olímpicos, vejo neles o meu país. Não só somos um povo misturado, mas um povo que gosta muito de ser misturado”, disse.

Foi o Lula no auge do charme e carisma, com um toque de sobriedade que lhe caiu muito bem, uma sobriedade escassa na América do Sul. Lula não foi frio e formal como o presidente americano Barack Obama – que ficou cinco horas na Dinamarca e se mandou sem ouvir a votação. Nem apelou para sua infância, como fez Michelle, a primeira-dama, numa fala mais triste e particular do que a ocasião pedia. Lula não personalizou.

Falou em nome do Brasil, da América do Sul e desafiou o Comitê Olímpico Internacional a ousar. A apostar no diferente. A acreditar na transformação de uma cidade pelo esporte. Lula foi “o cara”: “Chegou nossa hora. Entre as dez economias do mundo, somos o único país que nunca recebeu os Jogos. Essa decisão abrirá uma nova fronteira”.

Sei que os céticos enxergam os interesses políticos por trás. E que os pessimistas chegaram a torcer contra a candidatura do Rio. Foram poucos. A adesão do povo brasileiro foi impressionante: 85% queriam muito.

Claro que vamos cobrar o cumprimento de promessas. O não desvio de dinheiro público. Estamos cansados de testemunhar falcatruas. Chega de projetos megalomaníacos que enchem os bolsos de políticos e são inúteis para a população.

Não queremos pouco. Queremos uma transformação radical como a de Barcelona. O Rio pode enfim dar uma virada se houver planejamento e responsabilidade.

No transporte, na segurança, na urbanização de algumas favelas e na remoção de outras, no meio ambiente, na infraestrutura, na saúde, no respeito à infância, na educação e cidadania. Esperamos que um dia o choque de ordem se torne redundante. Sim, nós podemos.


03 de outubro de 2009 | N° 16113
NILSON SOUZA


O profeta Gentileza

Já estava com meu texto pronto para esta crônica semanal quando li no blog da colega Rosane Tremea (Recortes de Viagem, em zerohora.com) um relato tão bonito e sensível, que pedi sua permissão para reproduzi-lo para os leitores de nossa edição impressa e para quem me acompanha pela internet. Sob o título “Gentileza na cidade”, ela contou como foi o seu sábado em Porto Alegre – e iluminou a semana dos seus leitores. Espero que os meus também façam bom proveito da mensagem:

Pode ser o espírito desarmado do sábado de folga e de sol. Ou pode ser simplesmente nossa desatenção diante do que é simples. E bonito. E importante. No sábado de folga e de sol, o Profeta Gentileza parecia ter baixado na cidade.

Sorria a ascensorista da Casa de Cultura Mario Quintana. Sorria a gerente do restaurante que lamentava não haver lugar para quem não havia feito reserva. Sorria a garçonete que sugeria mudar a sobremesa, por que aquela demorava muito, e hoje todos têm pressa.

Sorria a moça detrás do balcão da loja de R$ 1,99, que vendia flores de plástico como se fossem orquídeas raras. E tinha o cabelo bonito, mechado e bem cuidado. E maquiagem leve e de bom gosto. E, por trás do balcão, sentava numa cadeira de rodas, as mãos retorcidas por uma doença que não ousamos perguntar qual era. E a gentileza não diminuiu após nosso olhar de surpresa, não de piedade.

O sábado não parecia prenunciar o domingo de vento e chuva e destruição. O sábado era de sol, de primavera. O sábado era de gentileza em todo lugar. Por que o mundo não é cor-de-rosa, todos sabemos, mas pode ser bem melhor.

Na igreja, no sábado de sol, a gentileza com a curiosidade das passantes que queriam saber o porquê de todas aquelas flores, e frutas, e símbolos, todos diferentes.

Era o Festival das Flores, uma tradição surgida no século 19 nas igrejas anglicanas da Inglaterra e da Escócia, celebrando nas áreas rurais o início da primavera.

Uma tradição seguida hoje nas igrejas anglicanas do mundo todo, incluindo as de Porto Alegre, como na Catedral da Santíssima Trindade, na Rua da Praia. A explicação toda veio com paciência e gentileza. E rendeu, como sempre, fotos.

E pra encerrar este post, escrito simplesmente num dia em que a gentileza estava no ar, e pra começar a semana, um trecho de um poema do profeta Gentileza:

“Esse dia lindo,

essa luz que está em cima de nós, a nossa vida,

ou seja, vem do mundo, é de graça,

é Deus nosso Pai que dá.”

Boa semana.

terça-feira, 29 de setembro de 2009



29 de setembro de 2009 | N° 16109AlertaVoltar para a edição de hoje
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA

Um suave milagre

Escrevo na antevéspera de outubro. É um domingo luminoso e frio, os termômetros marcam 14 graus e sopra um vento glacial, provindo das profundezas austrais. O dia é tão lindo, que me pergunto de onde exatamente me chega esta sensação de branda felicidade.

Talvez venha do céu translúcido que submerge o horizonte em resplendor, incendeia de flores as árvores, inspira aos pássaros canções de adeus ao inverno. Talvez venha da claridade vestida de azul, transparente em sua essência, inexplicável em sua própria existência.

Não sei. O que percebo é que a tranquila brandura que me possui, e que em razão não se contém, é algo de raro e de bonito. E então me aparece uma visão que quem sabe tudo esclareça.

A mais bela das mulheres cruza no meu horizonte. Porto Alegre tem dessas coisas. De repente você está imerso em uma manhã de domingo, em paz com suas tormentas interiores, pensa em céus, claridades e abismos, e aí ocorre um suave milagre.

A mais bela das mulheres não está envolta em pompa e circunstância. Não traja os vestidos das melhores grifes da moda.

Bem ao contrário, porta no corpo escultural uma blusa escura, que combina com o jeans índigo blue. É a simplicidade em pessoa. No rosto não exibe um traço de pintura. É uma anônima deusa expondo ao sol da manhã toda a sua glória num sorriso, na exatidão das formas, nos passos que são de dança.

Nenhum artista ousaria pintá-la. Em nenhuma tela cabe a perdição de seus gestos, o balé calmo de sua silhueta, a escultura de seus seios. Em nenhuma sinfonia se aprisionarão os sons silentes de sua formosura.

Ela seduz pelo simples ato de existir.

Jamais tornarei a vê-la. Ela transitará por minha vida como um instante de zênite. E, se algum dia recordar dela, pensarei apenas que eu encontrei em meu caminho a primavera.

Depois de tantos dias de chuva, uma terça-feira de sol finalmente.

Que tenhamos um ótimo dia. Aproveite

sábado, 26 de setembro de 2009



27 de setembro de 2009 | N° 16107
MARTHA MEDEIROS


O deus das pequenas coisas

"Me sinto uma fracassada”.

Não é uma frase fácil de se ouvir de alguém. Soa até mesmo incompreensível quando se trata de uma mulher linda, rica, que mora numa casa deslumbrante, passa uma parte do ano no Brasil e a outra em Nova York, é casada com um homem igualmente lindo e apaixonado por ela, tem dois filhos que são uns doces, é uma profissional bem-sucedida e já deu a volta ao mundo uma meia-dúzia de vezes. O que é que falta? “Um projeto de vida”, responde ela.

Existe uma insaciedade preocupante nessa mulher e em diversas outras mulheres e homens que conquistaram o que, a priori, todos desejam, e que ainda assim não conseguem preencher o seu vazio. Um projeto de vida, o que vem a ser? No caso de quem tem tudo, pode ser escrever um livro, adotar uma criança, engajar-se numa causa social, abrir um negócio próprio, enfim, algo grandioso quando já se tem tudo de grande: amor, saúde, dinheiro e realização profissional.

Mas creio que esse projeto de vida que falta a tantas pessoas consiste justamente no que é considerado pequeno e, por ser pequeno, novo para quem não está acostumado a se deslumbrar com o que se convencionou chamar de “menor”.

Onde é que se encontra o sublime? Perto. Ao regar as plantas do jardim. Ao escolher os objetos da casa conforme a lembrança de um momento especial que cada um deles traz consigo. Lendo um livro. Dando uma caminhada junto ao mar, numa praça, num campo aberto, onde houver natureza.

Selecionando uma foto para colocar no porta-retrato. Escolhendo um vestido para sair e almoçar com uma amiga. Acendendo uma vela ou um incenso. Saboreando um beijo. Encantando-se com o que é belo. Reverenciando o sol da manhã depois de uma noite de chuva. Aceitando que a valorização do banal é a única atitude que nos salva da frustração.

Quando já não sentimos prazer com certas trivialidades, quando passamos a ter gente demais fazendo as tarefas cotidianas por nós, quando trocamos o “ser feliz” pelo “parecer feliz”, nossas necessidades tornam-se absurdas e nada que viermos a conquistar vai ser suficiente, pois teremos perdido a noção do que a palavra suficiente significa.

Sei que tudo isso parece fácil e que não é. Algumas pessoas não conseguem desenvolver essa satisfação interna que faz com que nos sintamos vitoriosos simplesmente por estarmos em paz com a vida, mesmo possuindo problemas, mesmo tendo questões sérias a resolver no dia a dia.

É inevitável que se pense que a saída está na religião, mas dedicar-se a uma doutrina, seja qual for, pode ser apenas fuga e desenvolver a alienação. Mais do que rezar para um deus profético e soberano, acredito que o que nos sustenta passa sim, por uma espiritualidade, porém menos dogmática.

É o cultivo de um espírito de gratidão, sem penitências, culpas, pecados e outras tranqueiras. Gratidão por estarmos aqui e por termos uma alma capaz de detectar o sublime no essencial, fazendo com que todo o supérfluo, que não é errado desejar e obter, torne-se apenas uma consequência agradável desse nosso olhar íntimo e amoroso a tudo o que nos cerca.

Um lindo domingo para você

Claudio de Moura Castro

A arte de governar

"A história classifica como estadistas aqueles que perceberam as reais necessidades do país, assumiram o risco da impopularidade no curto prazo, mas souberam vender suas ideias com sucesso"

Nas democracias, o governo cumpre os desígnios dos cidadãos. O povo diz o que quer, o governante executa. Parece uma receita infalível. Mas será? Em cidade relativamente próspera de Minas Gerais, uma pesquisa de opinião mostrou que três quartos dos jovens reclamavam da falta de diversões.

Apesar de os esgotos serem jogados in natura nos córregos, nem mesmo entre os adultos houve reclamações quanto à falta de tratamento de efluentes. Sabidamente, esse é o investimento que mais faz cair a mortalidade infantil. O que deve fazer o prefeito? Esgotos que salvam vidas ou espetáculos de música sertaneja que trazem votos?

Um livro recente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Understanding Quality of Life, mostra abundantes estatísticas sobre o que os latino-americanos mais valorizam. Nelas fica claro o conflito entre o que as pessoas querem e o que é necessário para garantir um futuro promissor para o país. Pesquemos alguns temas do livro. As pessoas querem medicina de alta tecnologia e atendimento hospitalar. Contudo, a saúde pública preventiva é mais barata e evita as doenças.

Verificou-se também que o estado de saúde das pessoas pouco se associa com as suas percepções de saúde. No Brasil, pobres e ricos estão igualmente satisfeitos com os serviços de saúde. Mas sabemos serem piores para os pobres. Nos países mais ricos da América Latina, há mais contentamento com a situação da saúde.

No entanto, quando o país cresce, baixa essa satisfação. Não dá para entender. No Brasil, 65% dos entrevistados estão satisfeitos com a educação. Somente os mais educados percebem como ela é ruim. De fato, sabemos ser péssima a sua qualidade: último lugar no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) de 2001. Ainda pior, entre 1980 e 2000, em um grupo de 35 países, o Brasil foi o que mais recuou de posição.

Ilustração Atômica Studio

Na área econômica, as percepções também estão desalinhadas com a realidade. Mais renda se associa a mais satisfação. Até aqui, vamos bem. Mas o crescimento econômico traz desagrados. Entre outras coisas, requer mudança de políticas, reformas e outros sustos, mais temidos do que a pobreza.

Apesar de o desenvolvimento econômico acabar beneficiando os pobres, são eles que mais resistem às mudanças. Ademais, têm uma opinião mais ingênua acerca da competência do governo. Nessa área, entra em cena um mecanismo maldito. As aspirações crescem mais rápido do que a renda.

Em suma, os governados indicam aos governantes algumas prioridades incompatíveis com o progresso. Pensam no curto prazo e são consumistas impenitentes. Dizem que querem sistemas de saúde mais caros (e mais ineficientes). Querem conforto nas escolas e desdenham mais aprendizado. Não querem as reformas econômicas imprescindíveis para crescer.

A reação mais imediata diante dessa miopia nas preferências é perguntar se não seria a melhor receita um governo autoritário, do tipo "déspota esclarecido". Contudo, como Churchill nos advertiu, a democracia é um péssimo sistema de governo, com a agravante de que não há outro melhor.

A experiência com déspotas de todos os sabores não mostra um bom registro histórico. Quando acertam aqui, acolá cometem um erro mais estrondoso. Não é por aí. Temos de insistir nos acertos capengas que nos oferece um sistema democrático e na tentativa de esclarecer a opinião pública.

Os governantes se equilibram em um terreno resvaladiço. Se tentam oferecer o que trará mais progresso e desenvolvimento, sem ouvir o povo, arriscam-se a perder sua popularidade e, com ela, seu poder de implementar reformas. Podem acabar execrados e sem reformas (veja-se Jimmy Carter). Governos populistas fecham as portas para o futuro se jogam confete ao povaréu ou alimentam seus anseios imediatistas.

Os exemplos latino-americanos estão nos jornais. Em contraste, governantes bem-sucedidos não perdem a ressonância com a sociedade, mas negociam também uma agenda de futuro.

A história classifica como estadistas aqueles que perceberam as reais necessidades do país, assumiram o risco da impopularidade no curto prazo, mas souberam vender suas ideias com sucesso. Na teoria, a receita é simples: visão, coragem e liderança.

A pílula pode ser amarga. Churchill jogou pesado quando ofereceu aos ingleses apenas "sangue, suor e lágrimas". Mas ganhou. Pena que não adianta colocar um anúncio classificado do tipo "Precisa-se de um estadista".

Claudio de Moura Castro é economista - claudio&moura&castro@cmcastro.com.br


Livros

Como sair dos vales e permanecer nos picos

É o que pretende ensinar o novo livro do autor de Quem Mexeu no Meu Queijo?. Na autoajuda corporativa, não existe tempo ruim – nem relevos inacessíveis

Marcelo Marthe

Montagem sobre foto divulgação e ilustração Negreiros


Em 1985, o americano Spencer Johnson se sentia no fundo de um vale de lágrimas. "Eu me perguntava: pode haver algum significado para um período ruim?", diz Johnson (que prefere não revelar os problemas que o afligiam).

A provação ajudou-o a amadurecer um projeto que, treze anos mais tarde, o transformaria num dos mais bem-sucedidos gurus empresariais do mundo: o livro Quem Mexeu no Meu Queijo?. Com essa parábola sobre dois ratos e dois homenzinhos que disputam um naco de queijo num labirinto, lançada em 1998, Johnson encontrou uma forma acessível de falar sobre os desafios de se adequar às mudanças.

Dos Estados Unidos à China, o livro vendeu mais de 24 milhões de exemplares (no Brasil, 1,2 milhão). Johnson também credita às dificuldades do passado a ideia que agora, enfim, inspira a sua primeira empreitada original desde a história do Queijo. Picos e Vales (tradução de Alexandre Rosas; Best Seller; 126 páginas; 24,90 reais) pretende ensinar o leitor a tirar o melhor dos momentos ruins.

Ele diz que levou 25 anos destilando os conceitos do livro – e calhou de lançá-lo justamente num momento em que o mundo mal começa a sair do "vale" da crise financeira internacional. O autor (e médico) americano é um dos expoentes de uma categoria que desconhece a palavra crise – a autoajuda voltada ao mundo corporativo cresceu e se diversificou nos últimos dez anos. E segue lucrando com a atual turbulência econômica.

"Passar por provações é o que impulsiona o ser humano a crescer", disse Johnson a VEJA (veja entrevista abaixo). Os cataclismos econômicos fazem com que muita gente busque subsídios para lidar com a nova realidade. Significativamente, um dos maiores sucessos da autoajuda de todos os tempos, Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, do americano Dale Carnegie, tornou-se popular nos tempos da Grande Depressão, nos anos 30.

Na Inglaterra e nos Estados Unidos, a livraria virtual Amazon registrou aumento na procura por títulos dessa área nos últimos meses. No Japão, um dos países mais seriamente afetados pela crise, Picos e Vales chegou ao topo do ranking de mais vendidos do site nessa área menos de 24 horas depois de seu lançamento. Em breve, o brasileiro Roberto Shinyashiki também pretende tirar sua casquinha da crise.

O tema de seu novo trabalho, A Coragem de Confiar, é o medo – inclusive das tempestades na economia. Só se detecta uma certa ressaca numa vertente desse mercado. No fim de 2007, livros sobre como investir e ganhar dinheiro na bolsa estavam em alta. A crise afugentou os leitores.

O brasileiro Gustavo Cerbasi, autor de Casais Inteligentes Enriquecem Juntos (há 163 semanas na lista de mais vendidos de VEJA), parece ser a proverbial exceção que confirma a regra. "Minhas vendagens caíram, mas nem tanto. É que, ao contrário de muitos autores que pregam o enriquecimento a qualquer custo, sempre defendi a cautela nos investimentos", diz ele.

A autoajuda, empresarial ou de qualquer natureza, é um campo em que se encontra muita conversa mole. Mas seria um erro descartar esses livros em bloco. Um bom livro do gênero traduz conceitos complexos para uma linguagem acessível, ainda que às vezes simplória.

Picos e Vales, por exemplo, recicla um conceito lançado nos anos 40 pelo economista austríaco Joseph Schumpeter: a "destruição criativa", tese segundo a qual o capitalismo evolui por meio de uma sucessão de crises. "Esses livros cumprem um papel importante, ao despertar as pessoas para os problemas e lhes mostrar caminhos para superá-los", diz o professor Claudio Felisoni de Angelo, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo.

A autoajuda empresarial se vale de vários formatos para tanto. Há os autores que investem numa linguagem mais técnica, com recurso ao jargão empresarial. É o caso de Cerbasi e dos americanos Stephen Covey e Robert Kiyosaki.

Outros ficam na fronteira entre a autoajuda empresarial e um discurso motivacional genérico – muitas vezes com um pé no esotérico. Aí se incluem Roberto Shinyashiki e o indiano Deepak Chopra (que já viveram dias melhores nas listas de mais vendidos).

Em Quem Mexeu no Meu Queijo?, que rendeu filhotes cuja venda total alcançou 800 000 exemplares no Brasil, Johnson injetou leveza na fórmula desses manuais, ao valer-se de uma parábola para passar sua mensagem.

E faz o mesmo em Picos e Vales: um jovem insatisfeito (que mora num vale, claro) certo dia sobe a uma montanha, onde um velho o ensina a lidar com os altos e baixos da vida. A lição: qualquer um, mediante uma mudança de atitude, pode tornar seus vales pessoais mais breves e prolongar sua estada nos picos.

O texto é curto e impresso em tipos grandes – o que permite que se leia da primeira à última página em pouco mais de uma hora. O também americano James Hunter usa uma historinha semelhante em O Monge e o Executivo. No livro, ele narra a história de um empresário que larga tudo para viver num mosteiro beneditino – e lá descobre as vantagens de ser chefe generoso (ou um "líder servidor").

Hunter é, aliás, um caso curioso. No mercado internacional, O Monge vendeu 900 000 cópias – contra 2,1 milhões por aqui.

Enquanto ensina as pessoas a sair de seus vales, Johnson vive feliz no que se poderia chamar de seu pico pessoal – uma casa numa praia do Havaí. Ele se mudou para lá nos anos 80, em busca de sossego para refletir e escrever livros. Aos 70 anos, afirma que a chave de seu sucesso é não ter pressa de amadurecer suas teorias baseadas nas próprias vivências.

"Faço questão de viver na prática tudo o que escrevo antes de publicar minhas obras. Dou 100% de garantia de que funciona", afirma. Autoconfiança é artigo de primeira necessidade entre os autores de autoajuda.




Montagem sobre fotos Eleanor Bentall/Latinstock, John Parra/Wireimage/Getty Images, Scott Wintrow/Getty Images, Raul Junior, divulgação, Claudio Rossi e ilustrações Negreiros

Saúde para dar. E vender, claro

Spencer Johnson está lançando seu primeiro livro com conceitos inéditos desde o best-seller Quem Mexeu no Meu Queijo?, de 1998. Nesta entrevista, ele fala (pouco, é um homem de pouquíssimas palavras) sobre Picos e Vales.

Autores de sua área costumam ser muito prolíficos. O senhor, ao contrário, leva muitos anos para escrever um livro. Por quê?

Produzo devagar porque gosto de viver aquilo que escrevo, para ter certeza de que funciona. Fico muito feliz que mais de 50 milhões de pessoas em 42 línguas tenham encontrado em meus livros uma ferramenta para melhorar sua vida. Sou médico, e todas as histórias que escrevo têm a intenção de fazer as pessoas ficarem mais saudáveis, tanto emocional quanto fisicamente.

A crise tem impulsionado as vendas de Picos e Vales?

Sim. No Japão, já no dia do lançamento, Picos e Vales atingiu o primeiro lugar no ranking de livros de negócios na Amazon. E o Japão é um dos países mais afetados pela crise. Os japoneses, como todos nós do Ocidente, estão procurando por algo prático, que eles possam usar de imediato – e que funcione.

E qual é sua lição específica sobre tempos de crise?

Profissionais têm de respeitar a série de altos e baixos que rege qualquer negócio. Durante tempos bons, devemos nos preparar para períodos de baixa que inevitavelmente virão, cedo ou tarde. E quem ler o livro saberá o que fazer durante a tormenta, para voltar à bonança o mais rapidamente possível.

Fontes: editoras Best Seller, Campus/Elsevier, Gente, Sextante e Thomas Nelson Brasil


E nem é Páscoa ainda...

Começou como uma extravagância de desfile. Aí a Madonna resolveu usar. Agora as orelhas de coelho viraram a nova tendência entre celebridades
Fernanda Colavitti

Até muito pouco tempo atrás, usar orelhas pontudas no topo da cabeça era um recurso aceitável apenas se você se chamasse Pernalonga ou Roger Rabitt ou se estivesse a caminho de um baile de Carnaval. Mas aí a Madonna experimentou o acessório.

E pronto: já virou tendência fashion. O inusitado enfeite foi criado pelo estilista Marc Jacobs, da Louis Vuitton, provavelmente inspirado pelas coelhinhas da Playboy (sim, nelas também é perdoável, até porque o restante do vestuário chama mais a atenção). Jacobs usou-o pela primeira vez em um desfile da grife no começo do ano, em Paris.

Como a maioria das excentricidades apresentadas na passarela, dificilmente teria saído de lá – se não fosse por Madonna. Em maio, a cantora usou o adorno turquesa na cabeça, combinando com um vestido curto e botas na altura da coxa (todo o figurino da Louis Vuitton, da qual é garota-propaganda).

Foi na festa Costume Institute Gala, em Nova York, o evento mais badalado do mundo da moda.

A partir daí, variações da orelha passaram a fazer a cabeça de várias celebridades de Hollywood. As performáticas cantoras Lady Gaga e Lily Allen não se contentaram em apenas aderir à moda. Arrumaram um jeito de deixar as orelhas ainda mais esquisitas, com um véu acoplado à tiara, cobrindo-lhes o rosto.

As descoladas gêmeas Mary-Kate e Ashley Olsen, atrizes, empresárias e estilistas americanas consideradas formadoras de opinião no mundo da moda, não iriam ficar de fora. Apareceram em um evento no Japão, no começo de setembro, com um par de orelhas cada uma. Mais criativa que a irmã, Mary optou pelas de Mickey Mouse.

Para Madonna, faz sentido. Ela é paga para isso e ainda reforçou sua imagem de influenciadora de outras celebridades. E para as imitadoras? Elas precisam mesmo usar coisas esquisitas para conseguir divulgação?

“A necessidade maior não é nem aparecer, é ousar, usar o que não foi usado”, diz o consultor de imagem Yan Acioli, responsável pelo visual da apresentadora Sabrina Sato. “É uma estratégia para as celebridades e para o mercado de moda.”

A estilista Emanuela Carvalho, responsável pela produção da atriz Carolina Dieckman, diz que não se trata de rendição do bom gosto à necessidade de aparecer. Ainda que um visual diferente seja um recurso para chamar a atenção, diz Emanuela, para alguns ele é quase natural.

“Pessoas como Madonna, Amy Winehouse, Lily Allen são fonte de inspiração e ditam moda. A excentricidade faz parte de sua personalidade.”

Com tantas artistas levantando as orelhas de coelho, qual é a chance de o acessório ganhar as ruas? “Eu até veria isso na noite paulistana, em baladas alternativas”, diz a consultora de moda Lilian Pacce.

“Mas a pessoa tem de ter um espírito e um visual mais lúdico e, evidentemente, querer aparecer.” Também tem de estar disposta a – mesmo com orelhas tão grandes – não ouvir o que os outros vão dizer.

COELHINHAS



As orelhas surgiram num desfile da Louis Vuitton (acima.). Madonna (centro) usou o acessório em maio. De lá para cá, foi copiada (em sentido horário) pelas cantoras Lady Gaga e Lily Allen e pelas gêmeas Olsen.


26 de setembro de 2009
N° 16106 - NILSON SOUZA


O hino obrigatório

Gosto do nosso hino. É verdade que a letra é meio rebuscada, com algumas frases escritas em ordem inversa e muitas palavras que a maioria dos brasileiros jamais vai compreender o que significam. Lábaro? Parece o começo de uma labareda. Garrida?

Deve ser um drible do Garrincha. Impávido? Conheci um italiano com este nome pretensioso. Mas, se tem Mássimo, por que não pode ter Impávido? Penhor, plácidas, fúlgidas, florão... A lista é grande. Daria um Dicionário de Termos Estrambóticos, se a gente soubesse direito o que significa estrambótico.

Também não me entusiasmo muito com alguns ufanismos, mas, pelo menos, não é uma letra guerreira, agressiva, com apelos belicistas. Tem lá uma ou outra bravatinha, diz que um filho desta pátria amada, idolatrada, não foge à luta, nem teme a própria morte.

Vá lá que seja assim. Na hora de cantar, com o peito inflado de orgulho, a gente pensa isso mesmo. Também não vejo mal em acharmos nosso país gigante pela própria natureza, belo, forte, colosso, com um futuro cheio de grandeza. Todos temos direito a esse sonho intenso.

Descontados os preciosismos, a letra é bonita, faz sentido, descreve muitas das virtudes que nosso país realmente tem e algumas aspirações que um dia haveremos mesmo de alcançar. A música é belíssima.

Já foi reconhecida como uma das mais bonitas melodias entre hinos de todo o mundo, embora alguns críticos mais intransigentes insistam em que se trata de plágio da sonata de um compositor italiano da época. Pode até ser, mas ficou uma melodia agradável, repleta de sonoridade.

É um prazer ouvir nosso hino. E, se é um prazer, não deveria ser uma obrigação. Em vez de fazer uma lei para torná-lo obrigatório nas escolas, nossas autoridades deveriam estimular professores e alunos a ouvir, trabalhar e cantar o Hino Nacional.

Quem sabe um concurso com prêmios para a melhor interpretação da banda ou do coral da escola? Quem sabe um Soletrando, do Luciano Huck, só com palavras extraídas do hino?

Ou, ainda, análises sintáticas, redações a partir de frases escritas por Joaquim Osório Duque Estrada, seleção de proparoxítonas, interpretação de texto? Tem tanta coisa para fazer em torno do hino sem desmerecê-lo nem deturpá-lo.

Há muitas maneiras de plantá-lo no coração e na mente das crianças. Basta convidá-las para uma audiência sob o sol da liberdade, de preferência ao som do mar e à luz do céu profundo, e cobri-las de amor e de esperança. Como uma mãe gentil.