sábado, 20 de fevereiro de 2010



Guarda-roupa de gente grande

Difícil resistir: toda mamãe que tem queda por roupas e recursos para bancar caprichos, próprios ou filiais, cultiva em sua filhinha um estilo Suri de ser

Cristiane Sinatura - Lailson Santos


ARMÁRIO COMPLETO
Maria Eduarda, 6 anos: bolsinhas de grife e cinco pares de óculos para combinar com as roupinhas nunca repetidas de cada dia

The Grosby Group
COPIADINHA

Suri Cruise, 3 anos: saltinho, batom e estilo da menina mais imitada do mundo

Mãe que é mãe dificilmente resiste a comentar as roupinhas cheias de estilo, as bolsas graciosas e os sapatinhos de salto do guarda-roupa de, calcula-se por alto, 3 milhões de dólares de Suri Cruise, 3 anos, a encantadora filha de Tom Cruise e Katie Holmes.

Pode ser para falar mal - onde já se viu botar salto em criança? -, mas geralmente é para se derreter de vontade de encontrar alguma coisa igualzinha para as próprias filhas. Guardadas as proporções entre gente normal e um poderoso casal hollywoodiano, toda mulher que tem pendor para comprar roupas para si mesma simplesmente adora entupir de coisas lindas o armário das filhas desde o momento em que vêm ao mundo, e até antes.

Quando a menininha começa a andar e a apreciar os modelos tão lindos que parecem tecidos de imagens arquetípicas da graciosidade infantil, mamãe se descontrola de vez. "Falta ocasião para a Luna usar o tanto de roupa que tem", confessa a paulistana Juliana Gheler, 34 anos, sobre o armário recheado da filha de 1 ano e 8 meses, que tem metade da idade mas o dobro de trajes do irmão Ariel, de 4.

Juliana segue uma espécie de sistema de compensação filial: equilibra com brinquedos novos para Ariel as quantias gastas nas pilhas de vestidinhos para Luna. Os quais não se limitam à faixa etária da filha. "Ela tem roupinhas para crianças de 4 anos. Quando dá, ajusto. Se não, guardo e espero o dia em que sirva", diz Juliana, que acaba de voltar de uma viagem aos Estados Unidos com a mala cheia de tesouros da linha infantil da inglesa Stella McCartney.

Seguindo a mesma vertente, estilistas como Marc Jacobs e Giorgio Armani também passaram a criar peças para os filhos que sejam irresistíveis para os pais. Grifes nacionais de gente grande, e abonada, como Isabela Capeto, Mixed, Farm, Fit e Le Lis Blanc, abriram seções para crianças. A ideia é manter o espírito da marca, e não simplesmente miniaturizar a linha adulta.

"Se uma roupa para a mulher adulta tem uma estampa que pode cair bem nas menininhas, desenvolvemos uma peça parecida, mas sem perder a cara de roupa de criança", explica Traudi Guida, sócia da Le Lis, que começou a atender o público infantil em agosto e, entre outubro e dezembro, contabilizou 16 000 roupinhas vendidas, ao preço médio de 100 reais. "Esta temporada serviu de teste. A aceitação foi maior do que se esperava, e agora vamos expandir", planeja.

Há cinco anos organizando desfiles infantis, a consultora de imagem Ana Cury constata o mais do que evidente: o capricho no visual das pequenas Suris está diretamente ligado ao perfil das mães. "São mulheres que têm uma carreira, sabem da importância da imagem e deixaram para ter filhos mais tarde. Quando engravidam, querem que sua posição social se transmita para toda a família", analisa.

A empresária Ana Cristina Bonfim, 33 anos, mãe de Sofia, 2, se encaixa perfeitamente no perfil. Sempre atenta às novidades, não passa semana sem comprar alguma roupinha para a filha. O entusiasmo supera amplamente as necessidades. Sofia tem dez novos pares de sapatos para o inverno que ainda nem começou.

"Eu sempre quis ter uma menina justamente para enfeitá-la toda", explica Ana Cristina, explicitando um desejo universal. As duas muitas vezes saem combinando a estampa de vestidos comprados na mesma loja. Mãe de Gabriela, 6 anos, e Julia, 3, a dona de casa Denise Lintz, 36, é outra que se orgulha de compor o visual das filhas com minúcias de stylist - o assessor de guarda-roupa que veste as famosas.

Denise gasta cerca de 1 500 reais por mês com mimos variados, inclusive sapatos de salto alto à moda de Suri. "Na verdade, um saltinho", releva. Seguindo pelo mesmo rumo do alto de seus 3 aninhos, Luana, filha única da secretária carioca Márcia Otero, 40, faz coleção: de seus 28 pares de sapatos, sete são de saltinho.

"Nós fizemos um acordo: se ela largasse a chupeta, ganhava um sapato de saltinho. Agora, ela não quer saber de outro tipo", diz Márcia, que gasta cerca de 3 000 reais por mês com roupas e acessórios infantis, com pleno apoio do marido, Edgard Moraes, 55 - "Ele é até pior que eu."

Do tipo que não sai de casa sem abrir seu kit de maquiagem infantil e passar batom (no momento, favorece o vermelho), Luana fez a mãe ir de loja em loja atrás de um vestidinho preto para seu aniversário. Para dormir, usa camisola de seda. "Não medimos esforços porque achamos que vaidade tem de vir desde pequena", afirma Márcia.
Fotos Lailson Santos e Ernani D'Almeida


VAIDADE QUE VEM DO BERÇO

Sofia, 2 anos, combina vestido e sapato com a mãe, Ana Cristina, que sempre quis ter menina "para enfeitá-la toda"; Luana, 3, tem 28 pares de sapatos, sendo sete de saltinho, que ganhou em troca de largar a chupeta

Vaidade muitíssimo bem informada. "Com 6 anos, minha filha sabe melhor que eu o nome dos estilistas que usa", diz a farmacêutica Renata Berardocco, 39, sobre Vittoria, dona de um armário repleto de roupinhas Ronaldo Fraga e Isabela Capeto, que custam em média 300 reais.

Dona de uma grife infantil, a estilista carioca Neusa Farina, 38, faz da caçula Maria Eduarda, 6, modelo de prova das roupas que desenha. "Ela adora sapato de salto, sai desfilando com os meus pela casa", conta Neusa. Também tem bolsinhas de marcas que mulheres adultas às vezes passam a vida para conseguir, como Prada e Louis Vuitton.

Óculos de grau, por enquanto, são cinco pares em cores diferentes, para combinar com o resto do visual. Segundo a psicopedagoga Ana Cássia Maturano, a vontade de parecer gente grande faz parte da psique infantil desde que o mundo é mundo, e cabe aos pais dosar os excessos, de acordo com os próprios valores morais - sem falar nos materiais mesmo.

"Toda menina quer pegar a roupa da mãe para brincar. Isso é saudável, mas os pais têm de tomar o cuidado de não reduzir o filho a um boneco nem transformá-lo em um pequeno adulto", explica. Tomado esse cuidado, convenhamos: tem coisa mais fofa do que uma pequena Suri?


Existe “jeito feminino” de trabalhar?

Pesquisas tentam mostrar como as mulheres lidam com a carreira, a família e o dinheiro
Daniella Cornachione
sxc.hu


Cinco anos depois de abrir uma assessoria imobiliária no Rio de Janeiro, Edvan Costa convidou a irmã, Églima da Costa Rodrigues, para assumir a gerência financeira e tornar-se sócia do negócio. "Ele diz que eu trouxe um toque feminino para a empresa.

Pensei mais nos detalhes, do uniforme dos funcionários ao jeito como eles deveriam tratar os clientes", diz Églima. Mulheres dedicarem atenção a detalhes parece clichê, mas haverá fundamento real para esse tipo de expectativa em relação ao comportamento delas?

As novas análises mostram, entre outros aspectos, que as mulheres tendem a não ser tão obsessivas com a carreira como os homens. Isso acontece porque elas têm outras prioridades que podem ser tão ou mais importantes do que o trabalho.

Segundo um estudo publicado em 2009 pelo National Bureau of Economic Research (ONG americana que realiza pesquisas no campo da economia), entre trabalhadores com alto nível de educação, elas ganham menos por trabalharem menos horas e por interromper a carreira mais vezes, por causa da família.

Se a dedicação ao emprego for maior do que aos filhos e ao marido, a tendência é de que a mulher se sinta culpada por isso. Sônia Alcântara, de 49 anos, comanda junto com o marido, Roberto, uma empresa de produtos odontológicos, em Londrina.

A dedicação do casal ao negócio é tanta que Sônia já se sentiu dividida entre o trabalho e os três filhos. "Eu achava que não dava atenção o bastante para eles", afirma. O jeito foi deixar bem claro que, em casa, a prioridade é estar com a família. "Quando os meus filhos estão presentes, eu largo tudo", diz Sônia.

Sônia também faz parte de outra estatística, que diz respeito às mulheres no comando de empresas. O Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP) estima que 40% dos micro e pequenos empreendimentos hoje são gerenciados por elas. Apesar de dividir o comando com o marido, é Sônia quem cuida da administração da empresa, enquanto ele se ocupa com a criação dos produtos.

Durante o Fórum Econômico Mundial 2010, em Davos, na Suíça, foi apresentada a última edição do ranking que mede a desigualdade entre mulheres e homens no mercado de trabalho. O estudo "Global Gender Gap Report" ("Relatório Global sobre a Diferença entre os Gêneros") é feito em 134 países. Neste ano, o Brasil perdeu nove posições e ocupa o 82º lugar. A queda na classificação representa a discriminação, explícita ou velada, que permeia as relações de trabalho no país.

As diferenças salariais é uma forma de medir o tamanho da desigualdade entre homens e mulheres nas empresas. As trabalhadoras ainda ganham menos. De acordo com um levantamento do banco Goldman Sachs, no mundo, elas ganham 57% do que eles ganham.

Essa porcentagem cai para 48% em onze grandes países em desenvolvimento. No Brasil, a remuneração das mulheres que têm nível superior completo representou 57,9% da que os homens com o mesmo grau de escolaridade. O dado é referente ao ano de 2008 e foi divulgado pelo governo na Relação Anual de Informações Sociais.

Apesar de ganhar menos do que os homens, as mulheres são tão indisciplinadas quanto eles quando o assunto é poupar. É o que mostra uma pesquisa exclusiva encomendada à Sophia Mind, consultoria recém-criada cuja especialização é o mundo feminino. O levantamento foi feito virtualmente com mais de 2 mil mulheres que moram em seis capitais brasileiras.

Pouco menos que a metade, 40%, disseram não pensar na aposentadoria ainda. O número é ligeiramente menor entre a faixa dos 31 a 40 anos de idade - 33% ainda não dedicaram algum tempo ao assunto. Entre as mulheres que têm entre 41 e 50 anos, 43% ainda estão avaliando como vão se preparar para a aposentadoria.

Flora Conceição Nogueira tem 47 anos e admite não ter pensado no assunto ainda. "A renda que eu terei como aposentada deverá ser parecida com a de hoje, mas quero ter um dinheiro de sobra para viajar", diz. Formada em Letras, Flora mantém dois empregos: secretária de uma escola de inglês e tutora de pedagogia à distância.

Como elas agem

As mulheres gostam mais de trabalhar em grupo. Entre altos executivos, elas são muito mais assíduas a reuniões de conselho e tendem a participar mais de comitês de monitoramento, controle e fiscalização. Com a presença de mulheres nessas instâncias, os homens também se tornam mais assíduos, concluiu um estudo publicado em 2009 no Journal of Financial Economics da Universidade Rochester, nos EUA. Ou seja, um comportamento positivo das executivas contagia os colegas de trabalho.

Entretanto, o resultado não é bom se a inclusão de mulheres no alto escalão for forçada. O mesmo estudo alerta que os indicadores não melhoraram nas empresas em que elas são colocadas em determinados postos por meio de sistema de cotas.

As mulheres parecem trabalhar para buscar algo mais do que dinheiro. Em "The sexual paradox", a jornalista e psicóloga Susan Pinker diz que elas querem recompensas não apenas financeiras, mas também "intrínsecas" (como satisfação, bem estar e sensação de colaborar com algo importante). Elas têm interesses mais amplos, gostam de ser úteis e se preocupam com o efeito que causam nos outros.

Fiona Greig, cosultora da McKinsey e PhD em Políticas Públicas pela Universidade de Harvard, analisou o comportamento de um grupo de jornalistas e concluiu que as mulheres estão menos inclinadas a negociar o salário com a chefia em busca de aumento. No grupo de executivos estudados, o hábito de negociar, mais masculino, reduziu em média 17 meses o tempo de espera até o próximo aumento ou promoção.

Susan Peters, diretora de aprendizado da empresa General Electric, disse à revista BusinessWeek que mulheres quando avisam que estão saindo, estão saindo. Homens esperam uma contraoferta.

Quando trabalham como profissionais autônomas, as mulheres criam vínculos mais longos com seus clientes. Elas trocam de clientes com menor frequência do que seus concorrentes homens, de acordo com uma pesquisa publicada no ano passado pela London Business School.

No entanto, são nas trocas que surgem os aumentos de remuneração. Por isso, os homens profissionais autônomos são mais propensos a trocar de clientes e ganham mais.

Os estudos mostram que há, sim, um jeito de trabalhar feminino. Apesar de ser uma tarefa mais árdua para mulheres conciliar a vida pessoal e profissional, as jovens acreditam cada vez mais que isso é possível.

Segundo pesquisa realizada pela Accenture, com mil mulheres entre 22 e 35 anos, 94% afirma que creem poder atingir uma vida profissional satisfatória e pessoal gratificante. E há exemplos de que elas estão certas.


20 de fevereiro de 2010 | N° 16252
NILSON SOUZA


Sermão aos pássaros

Sempre que saio a caminhar pela manhã, converso com os passarinhos. Na verdade, com um pássaro específico que se aproxima de mim na hora da ginástica. Às vezes é uma pomba-do-mato, em outras ocasiões pode ser um bem-te-vi, um joão-de-barro, um sabiá, ou mesmo uma cambaxirra, que aprendi na infância a chamar de corruíra.

É uma conversa mística, confesso. Naquele lugar estive pela última vez com um amigo que já voou para outra dimensão.

Então, gosto de imaginar que seu espírito vem me dar um alô nas asas de um daqueles pássaros. Bobagem, meu predominante lado cético sabe disso. Mas é a minha forma de lembrar e de reverenciar a memória de uma pessoa que foi muito especial para mim.

Os pássaros nem ligam para a minha fala, que nada mais é do que uma oração silenciosa. Eles apenas a inspiram. Acredito que também não ouviram São Francisco de Assis, embora a lenda do santo conte que o bando de aves ficou em silêncio até que ele terminasse a sua pregação.

Pois o homem que falava com os animais parece ser a inspiração, também, desta Campanha da Fraternidade que acaba de ser lançada pelas igrejas cristãs do país. Os religiosos sugerem que as pessoas deem menos valor ao dinheiro, renunciem ao lucro e ao consumismo, deixem a ganância de lado. Ou seja: que todos passemos a agir, digamos, mais franciscanamente. Com todo respeito à proposta bem intencionada, pregam aos pássaros.

Ninguém vai parar para ouvir. O mundo gira em torno do dinheiro, as pessoas só querem saber de serem ricas, bonitas e famosas. Nem vou gastar o tempo dos leitores enfatizando esta verdade, que todos conhecem. Até mesmo porque, como disse Balzac com muita propriedade para o tema abordado, o tempo é o único capital das pessoas que tem como fortuna apenas a sua inteligência.

Em tese, muita gente vai concordar com a ideia de frear o consumismo, semear a solidariedade e preservar o planeta. Na prática, porém, nem as próprias igrejas renunciarão aos dízimos que as permitem viver com algum conforto, algumas até com inexplicável ostentação. Acho que era por isso que São Francisco pregava a sua filosofia de privações aos animais. Os homens jamais o ouviriam.

Pois o santo que me inspira na minha fantasia afetiva de todas as manhãs e que provavelmente inspirou também a campanha anticonsumo deixou entre seus legados uma das orações mais bonitas da história do cristianismo, de onde extraio uma frase que adotaria de bom grado como slogan profissional, se não parecesse demasiado pretensioso: “Onde houver erro, que eu leve a verdade”.

É o que direi amanhã para o primeiro pássaro que encontrar.

Um lindo sábado para você e um gostoso fim de semana


20 de fevereiro de 2010 | N° 16252
CLÁUDIA LAITANO


Vida (mais ou menos) real

O Globo publicou na semana passada uma curiosa troca de e-mails entre três repórteres da área de Cultura do jornal sobre o assunto mais comentado do verão (deste como dos nove anteriores): Big Brother Brasil.

De um lado, o crítico de cinema Rodrigo Fonseca como porta-voz da minoria apaixonada que costuma se referir ao programa usando os três bês para soletrar palavras como boçal, banal, bestial – ou outras menos publicáveis.

Do lado da maioria que garante a audiência, o crítico de música Leonardo Lichote, defendendo a tese (polêmica, em se tratando de um diálogo entre críticos) de que o Big Brother Brasil apresenta uma trama multifacetada, com uma estrutura dramática, baseada na edição e no desempenho dos integrantes “para as câmeras”, que supera, por exemplo, a desgastada e repetitiva fórmula da teledramaturgia nacional. Na posição de mediador, o escritor e jornalista Arnaldo Bloch.

É sintomático que um debate com pretensões intelectuais sobre Big Brother ganhe esse formato inusitado de uma troca de e-mails.

E não apenas porque a sensação de quem lê mensagens alheias acaba sendo um pouco parecida com a de quem espia a rotina de desconhecidos em um reality show, mas porque defender o programa costuma ser encarado como uma capitulação ao mau gosto e à indigência mental – ou seja, não é muito bem visto tirar o assunto da mesa de bar para de alguma forma “legitimá-lo” com um debate intelectual público.

E há várias razões para isso. Uma delas é a sensação de saturação criada pela cobertura convencional, que, somada aos comentários de amigos, vizinhos, conhecidos, estabelece um ambiente monotemático (e monótono) em que uma gota a mais de conversa sobre o assunto sempre soa além da conta (corro um sério risco aqui, portanto).

Some-se a isso o fato de que o programa se tornou uma espécie de emblema da cultura da celebridade, o leviatã preferido de boa parte da intelectualidade deste início de século. No mundo todo, a ascensão dos realities shows coincide com esse milagre midiático moderno que é o surgimento de pessoas que são famosas apenas porque são famosas. (Categoria em que Paris Hilton, não por acaso egressa de um reality show, reina absoluta.)

Ou seja: sobejam (para usar uma palavra que transborda sobriedade e distinção) motivos para fugir da sala quando começam as digressões sobre quem disse o que no BBB de ontem.

Mas é preciso reconhecer que há algo ali que propõe ao espectador uma experiência que pode ir além do mero teatro de trivialidades – aspecto mais visível de todo esse circo armado em torno de dinheiro, intrigas e romances editados.

Comparado com as novelas, o reality show é humanamente mais rico, como bem apontou o crítico Leonardo Lichote.

Enquanto a teledramaturgia parece repisar os mesmos temas há mais de 40 anos, o reality show convoca o público a acompanhar uma trama imprevisível, baseada em reações de pessoas de verdade (e, portanto, mais complexas do que os rótulos que colocamos sobre elas) e ainda estabelecer juízos sobre sua honestidade, seu caráter, seu carisma.

Ainda não inventaram nada melhor do que um bom romance para iluminar as nuanças mais sutis da experiência humana, mas mesmo a narrativa contemporânea tem embaralhado cada vez mais os limites entre ficção e vida real – o que parece ser um traço inescapável da nossa época.

No caso específico da televisão brasileira, não há dúvida: a vida (mais ou menos) real do BBB é muito mais interessante do que qualquer novela que está no ar.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010



16 de fevereiro de 2010 | N° 16248
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


A vida era uma festa

Tem gente que quer ir a Paris, suavemente envolta em neve. Tem gente que sonha com a Grande Barreira de Corais e seu eterno verão. Tem gente que aspira por New York, New York, onde se encontram todos os climas do mundo. Já eu gostaria de retornar ao ano de 1962.

Eu teria então 16 anos e um hábito: abrigar felicidade no coração.

Por então aconteciam episódios adversos em minha vida. Em pleno centro de Porto Alegre, sem motivo ou razão, uma tarde sim e outra não faltava água em meu apartamento – que ficava a duas quadras do Palácio do Governo.

Por um desses mistérios da natureza, surgiu uma discromia em minha testa, que afastava as garotas e confundia os médicos. E como se isso não bastasse, uma comportada miopia, que vinha das épocas do curso primário, principiou a evoluir como se eu fosse condenado à cegueira.

Sabem de uma coisa? Nada disso me abalou. Uma estação elevadora instalada na Rua Fernando Machado devolveu à Rua João Manoel 24 horas de água por dia.

A discromia da testa, que os doutores soturnamente chamavam de vitiligo, de início tratada com a prestimosa ajuda de remédios americanos, sumiu mais tarde, espontânea e repentinamente. E a miopia cedeu com o tempo, graças a uma segunda cirurgia que ouso classificar de milagrosa.

Mas se nada disso houvesse sucedido, ainda assim eu gostaria de voltar ao ano de 1962.

Vejo ainda agora na TV que bairros inteiros estão submersos – e ainda assim sem água e luz. Acompanho nos noticiários que doenças sem nome atacam adultos e crianças. E acabou de aparecer na tela a face angustiada de um menino que perdeu provisoriamente a visão.

É isso que há de importante em 1962.

Em 1962 todos os caminhos estavam abertos diante de ti.

Tu poderias ser mago, filósofo ou marinheiro.

Bastava escolher.

Em 1962 todas as profissões estavam à tua espera

Tu poderias ser médico, engenheiro ou adivinho.

Em 1962 todas as mulheres te esperavam. Tu poderias escolher a loira, a morena, ou a desconhecida.

Pois eras jovem e a vida era uma festa.

sábado, 13 de fevereiro de 2010



14 de fevereiro de 2010 | N° 16246
MARTHA MEDEIROS


Os complacentes e os devotos

Eu gosto de futebol, desde que o jogo seja uma decisão do meu time ou da Seleção. Mas gostar desse jeito complacente é o mesmo que não suportar futebol, porque futebol não se gosta, apenas – se venera. É o que faz homens plantarem-se em frente à tevê toda semana para babar diante de dezenas de gols que se repetem e repetem e repetem. Ou não se repetem?

Perguntei outro dia para um exemplar da espécie masculina: os gols dessa rodada não parecem iguais aos gols do ano passado, e aos gols de 1999, e aos de 1987? Ele, depois de rugir, explicou que cada gol no mundo é único. Não entendi, eu disse. Ele sugeriu que eu nem tentasse.

Mas tentei, e deduzi o óbvio: tudo que nos parece insano é justificado pela paixão. Quem tem no futebol uma de suas razões de viver consegue enxergar magia e novidade em detalhes para os quais os complacentes não são capacitados.

Alucinados por futebol podem passar 120 anos em frente à tevê todos os domingos e em todos os domingos eles verão um festival de gols absolutamente inéditos.

Para quem não é obcecado por basquete, todas as cestas são iguais. Para quem não é um entusiasta do tênis, uma partida é de um marasmo irritante.

Para quem não é viciado em ler, um livro pode se equiparar a um aparelho de tortura. Para quem não é fã de novela, viu uma, viu todas. E para quem não enlouquece com o Carnaval, se reprisarem o desfile do ano passado dará na mesma.

Andei lendo a respeito do dia a dia de algumas pessoas que não apenas gostam de Carnaval, e sim o reverenciam, e fiquei surpreendida com o grau de envolvimento que essa festa invoca.

Tem gente que dorme, come, respira Carnaval o ano inteiro. Assim que uma edição termina, começa-se a planejar a próxima, e nada, absolutamente nada se repete. Os sambas-enredos não são iguais, apesar de se parecerem.

As fantasias não são similares as dos outros anos, como um distraído poderia julgar. Não ouse dizer que já não há mais o que inventar nos carros alegóricos: só um ranzinza se atreveria a afirmar tal disparate. Nem a Luiza Brunet é a mesma de outros carnavais. Todo Carnaval é único, todo Carnaval é inédito, todo Carnaval é um gol que está por ser feito.

Como até aqui eu sempre fui uma fria admiradora do ziriguidum, claro que também nunca entendi tamanha devoção, mas estou prestes a me converter.

Pela primeira vez, irei assistir ao vivo a um desfile de escola de samba no Rio de Janeiro. Nesta segunda-feira estarei na Sapucaí, e meu coração já está batendo mais forte e meu sangue correndo mais rápido. Ainda nem vi nada e já me sinto passista desde criancinha, imagine amanhã: é provável que eu caia de joelhos e beije o chão.

Para a turma que não compreende qual é a graça de um gol mil vezes visto ou de mais um desfile de escola com as mesmas baianas, as mesmas madrinhas e os mesmos refrões, este Carnaval 2010 parecerá idêntico ao Carnaval do ano passado, ao de 1999 e ao de 1987, mas algo me diz que vou trocar de bloco: este ano entrarei para a turma dos devotos, aqueles que já nem tentam explicar o que os complacentes nunca iriam mesmo entender.

Lindo domingo para você. Aproveite pule, se divirta. Vc merece ser feliz


Na ilha de Lost

O ideólogo petista, assessor de Lula e coordenador do programa da candidata Dilma Rousseff, tem medo de navios de guerra americanos e de TV a cabo, mas é fã de uma ilha tropical parada no tempo – que não é a do seriado

Jerônimo Teixeira e Marcelo Marthe - Montagem com fotos de Andre Dusek/AE e Divulgação
HAJA GRAMSCI...


Na montagem, Marco Aurélio Garcia e o elenco do seriado Lost: "Nunca subestimem a estupidez humana"

No seriado Lost, sobreviventes da queda de um avião descobrem-se em uma ilha esquisita, onde o próprio tempo parece ter parado. Assessor especial da Presidência e coordenador do programa de governo da ministra Dilma Rousseff, Marco Aurélio Garcia habita um mundo semelhante. Seu relógio ideológico parou lá pelos anos 70, quando críticos culturais esquerdistas denunciavam a suposta pregação capitalista de programas de TV americanos como Vila Sésamo ou das páginas do Pato Donald.

Num discurso na sede do PT em Brasília, no sábado 6, Garcia acusou a ameaça aos interesses do Brasil representada pelos pouco mais de cinquenta canais por assinatura que exibem produções estrangeiras. "Os canais de televisão a cabo realizam, de forma indolor, um processo de dominação muito eficiente. Despejam esterco cultural", afirmou o ideólogo petista.

"Garcia precisa atualizar seu arsenal teórico. A última vez que eu ouvi essa bobagem falada a sério foi na década de 70", diz o sociólogo Demétrio Magnoli, que identifica duas matrizes para a paranoia do "imperialismo cultural". A primeira viria do líder bolchevique Vladimir Lenin, que falava do imperialismo como um "estado avançado do capitalismo", no qual as disputas entre nações reproduziriam em escala internacional a luta de classes.

A contribuição mais recente viria do marxista francês Louis Althusser, influente nos anos 60 e 70, que caracterizava o estado e as instituições públicas e privadas de comunicação como um sistema coordenado de dominação cultural. Suas teorias foram diluídas em um libelo que já foi popular em faculdades de comunicação: Para Ler o Pato Donald, lançado em 1971 pelo chileno Ariel Dorfman e pelo belga Armand Mattelart.

Agora as esquerdas seguem a cartilha de esterilização cultural proposta pelo italiano Antonio Gramsci, um revolucionário comunista que ordenou à militância que trocasse as armas pelo lento, silencioso e constante envenenamento do manancial de ideias livres da nação que se tenta subjugar.

A luta gramsciana não é travada contra as ideias passadas por produções culturais de gosto duvidoso ou de baixa qualidade. Não. A luta é contra ideias que fujam do controle do partido.

Isso explica a raiva de "Lost Garcia" contra a TV a cabo, pois nem nos Estados Unidos a televisão é um veículo de propaganda do capitalismo. Criativa, plural, independente, a produção de televisão americana em seus melhores momentos faz a demolição constante e impiedosa de tudo o que "Lost Garcia" odeia, como bem sabe quem já assistiu a Os Sopranos ou Os Simpsons (que, apesar de seu claro alinhamento com a esquerda, já foi censurado na Venezuela de Hugo Chávez, patrono espiritual de Garcia).

Qualificá-la em bloco como "esterco cultural" revelaria preconceito e desinformação – mas é apenas cálculo político. Está-se diante da tentativa de abrir uma nova frente de combate no objetivo marxista permanente de dominação, controle e vigilância da mente dos brasileiros.

Essa ideia fixa petista vem sendo tentada de diversas maneiras há sete anos – sempre rechaçada pelas pessoas bem-intencionadas de todos os matizes ideológicos. Agora se tenta via controle da TV a cabo. Se não funcionar – e tudo indica que não vai funcionar –, um novo ataque virá com o objetivo de esterilizar outro quadrante da atividade pensante.

O certo é que virá. Sem a supressão da capacidade de indignação, do poder de crítica e da liberdade de expressão, o projeto bolivariano chavista não tem como avançar. Tente Caracas, senhor "Lost Garcia".

Lya Luft

Bruxos, vampiros e avatares

"A tecnologia abre territórios fascinantes, e ameaça nos controlar: se pensarmos um pouco, sentiremos medo"

Cibernéticos e virtuais, nadamos num rio de novidades e nos consideramos moderníssimos. Um turbilhão de recursos trazidos pela ciência, pela tecnologia, nos atrai ou confunde. Se somos mais velhos, nos faz crer que jamais pegaremos esse bonde - embora ele seja para todos os que se dispuserem a nele subir, não necessariamente para ser campeões ou heróis.

A tecnologia abre territórios fascinantes, e ameaça nos controlar: se pensarmos um pouco, sentiremos medo.

O que mais vem por aí, quanto podemos lidar com essas novidades, sem saber direito quais são as positivas, quanto servem para promover progresso ou para nos exterminar ao toque do botão de algum demente no poder? Exageradamente entregues a esses jogos cada dia inovados, vamos nos perder da nossa natureza real, o instinto?

Viramos homens e mulheres pós-modernos, sem saber o que isso significa; somos cibernéticos, somos twitteiros e blogueiros, mas não passamos disso. E, se não formos muito equilibrados, vamos nos transformar em hackers, e o mundo que exploda.
Ilustração Atômica Studio

Sobre a sensação de onipotência que esse mundo novo nos confere, lembro a história deliciosa do aborígine que, contratado para guiar o cientista carregado de instrumentos refinados, lhe disse: "Você e sua gente não são muito espertos, porque precisam de todas essas ferramentas simplesmente para andar no mato e observar os animais".

Não vamos regredir: a civilização anda segundo seu próprio arbítrio. Mas, como quase todas as coisas, seus produtos criam ambiguidade pelo excesso de aberturas e pelo receio diante do novo, que precisa ser domesticado, para se tornar nosso servo útil.

As possibilidades do mundo virtual são quase infinitas. Sua sedução é intensa. Tão enganador quanto fascinante, no que tange à comunicação. Imenso, variado, assustador, rumoroso, ameaçador, e frio, porque impessoal. Nesse mundo difuso somos quase onipotentes, sem maior responsabilidade, pois cada ação nem sempre corresponde a uma consequência - e ainda podemos nos esconder no anonimato.

Criam-se sérias questões morais e éticas não resolvidas nesse território: através da mesma ferramenta que nos abre universos e nos comunica com o outro, caluniamos e somos caluniados, ameaçamos e somos ameaçados, nos despersonalizamos, nos entregamos a atividades estranhas, algumas perversas; espiamos, espreitamos, maldizemos amigos e desconhecidos, odiamos celebridades, cortamos a cabeça de quem se destaca porque se torna objeto de inveja e ressentimento, escutamos mensagens sombrias e cumprimos, talvez, ordens sinistras.

Relacionamentos pessoais começam e terminam, bem ou mal, nesse campo virtual - não muito diferente do mundo dito real, dos bares, festas e trabalho, faculdade e escola. Para as crianças, esse universo extenso e invasivo pode ser uma grande escola, um mestre inesgotável, um salão de jogos divertido em que elas imediatamente se sentem à vontade, sem os limites dos adultos.

Mas pode ser a estrada dos pedófilos, a alcova dos doentes, ou a passagem sobre o limite do natural e lúdico para o obsessivo e perverso.

Como quase tudo neste mundo nosso, duplo é o gume: comunicar-se é positivo, mas sinais feitos na sombra, sem verdadeiro nome nem rosto, podem acabar em fantasmáticas perseguições e males.

Singularmente, mas de maneira muito significativa, enquanto estamos velozes e espertos no computador, criando mundos virtuais, e jogando jogos cada vez mais complexos, buscamos o nevoeiro desse anonimato e, na época das maiores inovações, curtimos voar com bruxos em suas vassouras, namorar vampiros e inventar avatares que vão de engraçados a sinistros.

Estimulante, múltiplo, tão rico, resta saber o que vamos fazer nesse novo mundo - ou o que ele vai fazer de nós.

Quando soubermos, estaremos afixados nele como borboletas presas com alfinete debaixo da tampa de vidro ou vaga-lumes em potes de geleia vazios, naquelas noites de verão quando a infância era apenas aquela, inocente, que ainda espia sobre nossos ombros.


A beleza da força

O corpo musculoso das mulheres que malham parece representar uma nova estética feminina, que desafia os homens em seu próprio terreno. Mas essas mulheres saradas são realmente bonitas?

Ivan Martins, Nelito Fernandes e Fernanda Colavitti. Com Eliseu Barreira e Leopoldo Mateus Shutterstock

O que é uma mulher bonita?

A resposta a essa pergunta tem variado através dos séculos, das culturas e da geografia. Nossos ancestrais, que habitavam as cavernas da Europa há 50 mil anos, esculpiram deusas da fertilidade com seios, coxas e barrigas proeminentes. Podemos admitir que era esse seu ideal de beleza.

Para o povo pagund, do norte da Tailândia, seios caídos e longos pescoços deformados pela colocação de anéis de metal são o que há de mais bonito. Nos parece estranho, mas assim é entre eles. No Brasil do século XXI, celeiro mundial de modelos claras e delgadas, existe uma acentuada predileção popular por mulheres carnudas e morenas, com curvas bem demarcadas.

Portanto, o que é uma mulher bonita?

A empresária carioca Marcella Techeh tem sua própria resposta para essa questão. Ela tem 33 anos, dois filhos e um corpo esculpido em pedra por sessões diárias de musculação. Marcella é uma mulher forte, sarada, malhada mesmo, embora não tenha uma aparência pesada. Seus músculos sobressaem no abdome, nos braços e nas coxas. Sua preocupação principal é evitar a flacidez.

Um de seus grandes prazeres é olhar-se no espelho. Mas essa satisfação consigo mesma, totalmente narcisista e corriqueira, embute uma rebeldia. Embora atraente, Marcella não se enquadra no padrão de beleza que domina a estética ocidental desde o início do século XX e que provocou, em seu nascimento, um comentário azedo do escritor francês Émile Zola: “A ideia da beleza varia.

Ela agora reside na esterilidade das mulheres alongadas, donas de flancos pequenos”. Marcella, assim como milhares de outras que se exercitam com intensidade e que se orgulham de seus músculos, não é uma mulher “alongada de flancos pequenos”.

Ela é robusta, vigorosa, rija. Nada tem em comum com a criatura frágil descrita pelos médicos do século XVIII, segundo os quais a mulher teria “ossos pequenos, com carnes moles e esponjosas, e seria animada por um caráter débil”. As mulheres fortes como Marcella explodiram essa definição.

Elas representam a materialização de uma nova estética que vai emergindo das academias e das pistas esportivas – e que representa, a seu modo, uma tremenda mudança de valores (como se vê no ensaio fotográfico, clicando na foto abaixo).
Fotos: André Arruda/ÉPOCA. Produção Joana Mazza. Maquiagem: Rita Fischer

É como se as mulheres, cansadas da imagem passiva de fragilidade corporal que lhes foi imputada desde a Antiguidade, resolvessem, por conta própria, invadir a última arena simbólica exclusivamente masculina, a da força física. Braços e ombros poderosos parecem ser a resposta das mulheres aos rapazes de peitos e braços inflados que desfilam pelas ruas das cidades brasileiras.

Seria o começo de uma disputa? “Não creio que isso represente uma forma de competição”, afirma o sociólogo Celso Sabino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “É mais a definição de uma nova identidade, em uma nova era. Essas mulheres fogem do que significou ser mulher nos últimos séculos no Ocidente.”

Os homens parecem não gostar dessa nova vertente da beleza feminina. “Eu gosto de mulher feliz. Vejo muito mais sensualidade numa mulher feliz do que numa sarada emburrada”, diz o apresentador Marcelo Tas. O vocalista da banda Raimundos, Tico Santa Cruz, é ainda mais severo.

“Eu acho tosquíssimo. Gosto de mulheres naturais. Mulheres que parecem de borracha não me atraem. Tenho medo delas”, diz ele. O ator e roteirista Bruno Mazzeo tampouco aprova a força feminina: “Não é a minha preferência. Acho que os músculos tiram a feminilidade, que é uma das coisas que mais me atraem”.

Na resistência masculina reside um dos vários aspectos inovadores da nova estética: ela não é uma invenção dos homens.

Ao contrário das opulentas madonas renascentistas, das “mulheres ampulhetas” do século XIX (com os seios projetados por espartilhos e os quadris empinados por anquinhas) e das atrizes com corpos voluptuosos que emergiram de Hollywood nos anos 50, as anônimas com silhuetas esculpidas não correspondem a uma idealização da feminilidade (leia a linha do tempo da beleza).

Elas estão inventando uma estética própria, que se opõe aos cânones consagrados da beleza e do bom gosto. Talvez por isso os homens se incomodem – e não pela primeira vez.

No fim do século XIX, quando as mulheres da elite europeia começaram a pedalar e jogar tênis, falou-se em imoralidade, degeneração e até mesmo pecado. “Era como se as mulheres estivessem se apropriando de exercícios musculares próprios à atividade masculina”, escreve a historiadora Mary Del Priore no livro Corpo a corpo com a mulher: pequena história das transformações do corpo feminino no Brasil. Na verdade, as mulheres estavam de fato se apropriando de um território exclusivamente masculino, como fazem agora.

Isabelle Colmenero pratica exercícios obsessivamente desde os 15 anos. Corre, levanta pesos, faz ginástica. Hoje, aos 35, casada, exibe um corpo de gladiadora pequeno e sarado, que não deixa de ser vigorosamente feminino.

Ela diz que não tem medo de ficar com aparência de homem. “Nosso corpo não é como o deles”, afirma. “Para ficar forte mesmo, masculinizada, você tem de tomar anabolizante.” Isabelle limita-se a comer de tudo.

E, como gasta muita energia, não se preocupa em fazer dietas. Parece residir aí um avanço do ponto de vista da saúde em relação à estética anoréxica que as adolescentes do mundo inteiro importaram das passarelas. Mulheres que malham, comem (leia a reportagem sobre musculação e saúde).

Lilian Pacce, a editora de moda do canal GNT, acha que a modelo holandesa Lara Stone já representa, de forma sutil, uma resposta do mundo da moda ao aparecimento nas ruas de uma estética feminina menos diáfana. “Lara é uma mulher grande e teve problemas quando começou nos desfiles”, diz Lilian. Hoje, a modelo alta de seios imponentes é uma das mais requisitadas do circuito.

A jornalista Danuza Leão, ex-modelo e observadora perspicaz da sociedade brasileira, não tem simpatia pelas mulheres que malham em excesso. Defende, “para homens e mulheres”, uma aparência “durinha e enxuta, mas sem músculos”.

Dito isso, ela reconhece que sempre houve uma acentuada divisão no mundo estético brasileiro. Nos anos 1950 e 1960, quando as modelos de sucesso já eram magras e elegantes, como a americana Suzy Parker, as preferidas dos homens brasileiros se apresentavam no teatro de revista com amplos quadris e coxas grossas.

Eram as coristas, equivalentes das moças de pernas roliças que dançam ainda hoje diante das câmeras dos programas de auditório. “Sempre houve essa divisão de gosto no Brasil”, diz Danuza. “As mulheres com mais corpo sempre fizeram sucesso nas ruas e na praia.”

Sempre, neste caso, parece ser sempre mesmo. Desde a chegada dos portugueses, no século XVI, criou-se uma dicotomia entre a estética oficial da corte europeia – que consagrava cabelos claros, pele leitosa e seios volumosos – e a beleza que se apresentava nas praias aos olhos dos colonizadores.

Às índias, com seus olhos e cabelos escuros e seu corpo pequeno e castanho, logo viriam se juntar as escravas africanas de sorriso reluzente e magistral musculatura.

Dessa mistura emergiu uma estética brasileira, de bumbum arrebitado e seios pequenos, que o sociólogo Gilberto Freyre definiu como “morenidade” – e que até hoje influencia o gosto e a libido nacionais. Mary Del Priore diz que no século XIX, quando José de Alencar se esmerava em esmiuçar as “mãos pálidas” e o “talhe delicado” de suas personagens, os visitantes estrangeiros ao Brasil relatavam a evidente preferência de nossos tataravós por mulheres “cheias e morenas”.

Um inglês que aqui esteve em 1893 deixou registrado que o maior elogio que se podia fazer a uma dama era observar que ela “estava a cada dia mais gorda”. As coisas mudaram.

É possível, portanto, que a estética das mulheres fortes seja apenas uma evolução histórica do gosto nacional por mulheres curvilíneas, que predomina há 500 anos.

O fato de que as primeiras musculosas tenham surgido nos desfiles de Carnaval, em que a cultura do país é filtrada pelas lentes do exagero, reforça essa impressão. A nova estética pode ser compreendida como exagero, como o ponto em que uma tendência começa a converter-se em caricatura.

Foi inaugurada recentemente no museu Metropolitan de Nova York uma exposição de 60 esboços do pintor italiano Agnolo Bronzino, um dos mestres do maneirismo. Essa escola de arte surgiu na Itália por volta de 1520 e interpôs-se entre o Renascimento e o Barroco.

Os corpos esboçados por Bronzino, percebe-se na exposição, são recobertos por uma musculatura tão espessa e detalhada que mais parecem uma caricatura da anatomia humana. Olhando a retrospectiva do Metropolitan, é possível encontrar paralelos entre o virtuosismo vazio de seus desenhos e a ausência de direção da cultura moderna.

Com o mesmo olhar, talvez se possa perceber, no corpo musculoso das mulheres que malham, reflexos do exagero que povoa as pinturas e os desenhos de Bronzino. No início do século XXI, a estética das mulheres com músculos pode ser tanto um sinal de transformação duradoura quanto mais uma manifestação efêmera de decadência. Como o maneirismo.


13 de fevereiro de 2010 | N° 16245
NILSON SOUZA


A pintora e o perguntador

Gosto muito mais de ouvir do que de falar. Sempre fui assim, um recatado observador da vida alheia – primeiro por timidez, depois por opção profissional. Descobri, na idade escolar, que é mais prudente esperar ser chamado do que levantar voluntariamente o dedo indicador da vaidade.

No jornalismo, aprendi a arte da perguntação. Exerço-a até mesmo quando estou de férias, pelo simples prazer de auscultar a alma do outro e também, provavelmente, pela curiosidade de saber como estou sendo percebido na minha condição de repórter e entrevistador.

Passemos à prática.

Dia desses, numa caminhada matinal pela beira do mar, encontrei uma senhora cercada de quadros com belas e coloridas pinturas. Parei e perguntei:

– São seus?

Ela então me contou que sempre gostou de pintar, que o fazia por diversão, mas acabou tomando gosto, fez cursos, desenvolveu uma técnica própria e agora – relatou com os olhos brilhando de orgulho – vivia de sua arte, já tendo obras vendidas até para estrangeiros. Quando tomou fôlego, ampliei o questionamento:

– Por que você escolheu o mar como tema?

Ela me disse que sempre viveu naquela praia, que amava pescar, que já superara numa competição de anzol um punhado de homens experientes na atividade, que conhecia aquelas águas, aquelas pedras, aquelas espumas e aquelas areias como uma abelha conhece as flores do jardim. Aproveitei a metáfora:

– Você trabalha no seu jardim?

Já sem qualquer resistência ao desconhecido perguntador, ela me falou de sua casa, de seu estúdio, de sua juventude, de seus amores, de seus desgostos e dos seus projetos. Continuei lançando pontos de interrogações e fisgando cardumes de respostas.

Entreti-me por vários minutos na deliciosa tarefa de ouvir e provocar, até que aquela história de vida extraída do cotidiano fizesse sentido. Então, convencido de que havia desempenhado com competência um fundamento do meu ofício, a arte de questionar, resolvi levantar o dedo e arrisquei:

– Depois de todo esse interrogatório, qual você acha que é a minha profissão?

A pintora me olhou de cima abaixo, como se estivesse tomando uma perspectiva para dar a primeira pincelada na tela em branco. E respondeu convicta:

– Advogado, sem dúvida!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010



10 de fevereiro de 2010 | N° 16242
MARTHA MEDEIROS


Aristogatos

Nunca imaginei ter um bicho de estimação, por uma questão de ordem prática: moro em apartamento, sempre morei. E, se morasse em casa, escolheria um cachorro. Logo, nunca considerei a hipótese de ter um gato, fosse no térreo ou no 10o andar.

Quando me falavam em gato, eu recorria a todos os chavões pra encerrar o assunto: gato é um animal frio, não interage, a troco de que ter um enfeite de quatro patas circulando pela casa?

Hoje, dona apaixonada de um gato de cinco meses (e morando no 10o andar), já consigo responder a essa pergunta pegando emprestada uma frase de um tal Wesley Bates: “Não há necessidade de esculturas numa casa onde vive um gato”.

Boa, Wesley, seja você quem for. Gato é a manifestação soberana da elegância, é uma obra de arte em movimento. E, se levarmos em consideração que a elegância anda perdendo de 10 x 0 para a vulgaridade, está aí um bom motivo para ter um bichano aninhado entre as almofadas.

Só que encasquetei de buscar argumentos ainda mais conclusivos. Por que, afinal, eu me encantei de tal modo por um felino? Comecei a ler outras frases irônicas e aparentemente pouco elogiosas. Mark Twain disse que gatos são inteligentes: aprendem qualquer crime com facilidade.

Francis Galton disse que o gato é antissocial. Rob Kopack disse que, se eles pudessem falar, mentiriam para nós. Saki disse que o gato é doméstico só até onde convém aos seus interesses. Estava explicado por que gamei: qual a mulher que não tem uma quedinha por cafajestes?

Ser dona de um cachorro deve ser sensacional. Lealdade, companheirismo, reciprocidade, eu sei, eu sei, eu vi o filme do Marley. Cão é boa gente. Só que o meu cachorro preferido no cinema nunca foi da estirpe de um Marley. Era o Vagabundo, sabe aquele do desenho animado?

O que reparte com a Dama um fio de macarrão, ambos mastigam, um de cada lado, e mastigam, mastigam até que (suspiro... a emoção impede que eu continue).

Eu trocaria todos os príncipes loiros e bem-comportados da Branca de Neve e da Cinderela pelo livre e irreverente Vagabundo, que foi o personagem fetiche da minha infância. E, lembrando dele agora, consigo entender a razão: aquele malandro tinha alma de gato.

Imagino que, com essa crônica, eu esteja revelando o lado menos nobre do meu ser. Pareço tão sensata, tão bem resolvida, tão madura – quá! – tenho outra por dentro.

Que vergonha. Levei mais de 40 anos para me dar conta de que não faço questão de uma criatura que me siga, que me agrade, que me idolatre, que me atenda imediatamente ao ser chamado, que me convide pra passear com ele todo dia.

Sendo charmoso, na dele e possuindo ao menos alguma condescendência comigo, tem jogo.

Cristo, um simples gato me fez descobrir que sou mulher de bandido.

Uma gostosa quarta-feira pra vc. Aproveite o dia.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010



09 de fevereiro de 2010 | N° 16241
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Uma praça, uma ponte

Imaginem uma imensa pétala de altos chafarizes, iluminada por uma coleção de holofotes multicoloridos, tudo embalado por uma sintônica sinfonia de músicas clássicas.

Essa era apenas uma das atrações da Praça José Bonifácio, no coração pulsante de Cachoeira. Alinhada à Rua Sete de Setembro, ela vizinhava ainda com algumas das principais lojas da cidade, abrigava o Bar América, que era um restaurante imbatível no seu gênero, um estádio de esportes, um parque infantil, ruas e escadarias internas e, em tempos mais recuados, até o centenário Mercado Municipal, assassinado, como acaba de ser também, a Ponte de Pedra.

O Cine-Teatro Coliseu ficava a 20 metros, o Clube Comercial uns palmos além, na mesma calçada do Banco da Província.

A praça era o centro de Cachoeira e, nas noites de verão, a passarela por onde desfilavam as mais belas garotas do Estado. Não estou exagerando. Já contei em idas crônicas que nenhuma outra cidade gaúcha ostentava mais sedutora seleção de beldades. Ali nasciam namoros, noivados e um rol de casamentos. Ali os olhos se olhavam nos olhos – e era como se fosse uma declaração de amor.

Recordo de uma noite em que sentei, no passeio dos bancos mais afastados, ao lado de uma menina lindíssima. Enquanto avançavam os ponteiros do relógio do pedestal que ficava no meio da quadra, trocamos juras e confidências que, traduzidas, eram pura ternura.

Essas coisas a gente não esquece. Essas coisas permanecem contigo por toda a vida. Sinto agora, neste momento em que escrevo, a textura de suas mãos, a maciez de seus lábios.

Lembro de um entardecer, como depois nunca vi outro. Os céus de Cachoeira, contemplados ali da praça central, eram uma suave mistura de nuvens azul-claras e rosadas. A garota sentada junto a mim era loira e seus cabelos longos dançavam com a brisa que vinha do poente.

Nós nos prometemos um ao outro o paraíso, nós nos juramos paixão eterna, mas depois os caminhos da vida nos separaram. Conservo até hoje, tantos anos passados, o exato timbre de sua voz, o preciso matiz celeste de seus olhos.

Aquela praça mora dentro de mim, não do jeito que é hoje, mas com as formas que teve.

É bem como a Ponte de Pedra, que eu prefiro chamar de a Ponte do Imperador, pois que em homenagem deste foi erguida no ano de 1849.

Mas nada reconstrói uma ponte – ou revive uma igreja, um romance – sem que se lance um olhar aos muitos passados de que somos feitos.

Uma linda terça-feira para você. Aproveite o dia

sábado, 6 de fevereiro de 2010



07 de fevereiro de 2010 | N° 16239
MARTHA MEDEIROS


Os best-sellers

O fato de um livro vender muito ou pouco não desperta em mim nem curiosidade, nem desprezo

Um leitor me pergunta se a lista de livros mais vendidos influencia minhas escolhas.

Já que é tempo de férias, quando temos mais predisposição para ler, vale a pena amplificar esse assunto. O fato de um livro vender muito ou vender pouco não desperta em mim nem curiosidade, nem desprezo. Não é a lista de mais vendidos que determina as minhas escolhas, e não deveria determinar as escolhas de ninguém.

Um livro pode virar best-seller por haver uma grande fidelização ao autor, independentemente do título que ele esteja lançando. Ou então porque há um filme ou uma série de tevê inspirada no livro e isso alavanca as vendas. Ou porque o investimento em propaganda foi forte. Ou porque o livro traz um tema polêmico. Ou porque é uma obra póstuma de um autor importante.

Ou porque o boca-a-boca fez sua parte. Ou, claro, porque o livro é mesmo sensacional. Enfim, há muitas razões, nem todas literárias, para um livro estar entre os mais vendidos, e não se pode esquecer que inúmeras obras excelentes nunca chegaram a vender mais do que mil exemplares, o que descredibiliza as listas como indicadores soberanos de boa leitura.

O melhor método para se escolher um livro é através da informação. Você pode até ter sabido da existência de um livro através de uma lista, mas não deve comprá-lo apenas por essa razão, a não ser que não dê valor ao seu dinheiro. Primeiro, pesquise sobre o autor, se ele lhe for estranho.

Descubra seu estilo, o que ele já escreveu, que temas costuma abordar, o que já se disse sobre ele. O Google está aí para isso. Já dentro de uma livraria, pegue o livro, leia a orelha, o prefácio, um pouco do primeiro capítulo – as livrarias hoje têm poltronas e sofás pra esse fim: refestele-se. Ninguém vai obrigá-lo a efetuar a compra.

Dê atenção aos suplementos culturais dos jornais. Leia a Revista Bravo, que traz tudo sobre música, teatro, cinema, artes plásticas e, claro, literatura, e assine o mais importante jornal literário do Brasil, o Rascunho. E o mais importante: escute a opinião de pessoas a quem você dá crédito. Um bom fornecedor de dicas é fundamental.

O Comer, Rezar, Amar, da Elizabeth Gilbert, achei uma delícia de leitura. Gilbert é alguma Jane Austen? Nem perto, mas o livro é agradável, divertido e caiu nas minhas mãos numa época em que a história dela me desceu bem. Por outro lado, nunca li nem vou ler A Menina que Roubava Livros, mesmo tanta gente tendo elogiado. Outro fator a ser considerado: implicância. Não deixa de ser um método de seleção também.

Ser popular não é pecado. Há os populares excelentes e os populares medíocres, assim como há os clássicos sensacionais e os clássicos chatonildos. Quem decreta isso? Sua majestade, o leitor.

Do que se conclui: leia best-sellers, leia livros malditos, leia livros que todo mundo está comentando e também aqueles de que ninguém nunca ouviu falar, leia o que alguém antenado recomendou, leia o livro que você descobriu sozinho num sebo, leia o livro cuja capa deixou você fascinado, leia o que sua professora exigiu, leia o que a sua namorada implorou pra você ler,

mesmo ela sendo fã de água-com-açúcar (não custa agradar a guria, depois você dá o troco com dignidade, recomendando a ela um Rubem Fonseca), releia o que você leu 15 anos atrás e amou, releia o que você leu 15 anos atrás e odiou (se todos diziam que era genial, dê uma nova chance ao livro, talvez 15 anos atrás você não estivesse pronto para textos bombásticos),

leia os livros até o fim, abandone-os no meio se forem uma xaropice, leia livros de suspense, eróticos, policiais, poemas, biografias, mas leia.

Estou no momento lendo pela primeira vez um japonês chamado Haruki Murakami, mas não comecei pelo livro certo, dois ou três amigos já me disseram que há outros títulos do autor que são bem melhores. É assim que funciona. Uma lista confiável de best friends é tudo de que se precisa.
Prestígio zero

Pesquisa mostra que os bons alunos não querem mais seguir o magistério - um desastre para o ensino

Alunos de ensino médio: eles são desencorajados em casa de optar pelo curso de pedagogia


Um bom termômetro para aferir o prestígio de uma profissão é o número de jovens que a assinalam como primeira opção na hora do vestibular. Por esse medidor, a carreira de professor, que décadas atrás foi um símbolo de status, nunca esteve tão em baixa.

Uma nova pesquisa, conduzida pela Fundação Carlos Chagas a pedido da Fundação Victor Civita, chama atenção para o problema, trazendo à luz um dado preocupante: às vésperas de ingressarem na universidade, apenas 2% dos estudantes brasileiros pretendem seguir o magistério - opção que os outros 98% já descartaram.

No levantamento, baseado numa amostra de 1 500 alunos de ensino médio em escolas públicas e particulares de todo o país, o curso de pedagogia patina na 36ª colocação, entre as sessenta carreiras que hoje mais exercem fascínio sobre os jovens - lista encabeçada pelas áreas de direito, engenharia e medicina.

Agrava o cenário saber que esses poucos que ainda optam pela docência se concentram justamente no grupo dos 30% de alunos com as piores notas na escola. Pouco disputado, o curso de pedagogia significa, para a imensa maioria dos estudantes, a única porta de entrada possível para o ensino superior - e não uma carreira de que realmente gostam.

Conclui a especialista Bernardete Gatti, coordenadora da pesquisa: "Sem atrair as melhores cabeças para as faculdades de pedagogia, o Brasil jamais conseguirá deixar as últimas colocações nos rankings de ensino".

A situação de desprestígio da carreira de professor é o retrato final de um processo deflagrado na década de 70, quando se iniciou no país uma acelerada massificação do ensino público.

Sem profissionais em número suficiente para suprir a galopante demanda, as escolas passaram a recrutar até leigos para dar aulas. Foi aí também que as faculdades de pedagogia e as licenciaturas proliferaram à revelia da qualidade acadêmica, e os salários começaram a cair.

A remuneração dos professores é, por sinal, o segundo fator elencado pelos jovens de hoje para nem sequer cogitarem o magistério, atrás de um item que se refere à completa falta de identificação com o ofício, segundo mostra a pesquisa da Fundação Carlos Chagas.

Os estudantes contam ainda que são desencorajados pelos próprios pais de fazer essa opção. Boa parte dos entrevistados chega a afirmar que a família "jamais aceitaria tal escolha profissional".

Países onde o ensino prima pela excelência, como Coreia do Sul e Finlândia, encontraram bons caminhos para atrair os alunos mais brilhantes às faculdades de pedagogia - experiência que pode ser útil também ao Brasil. Ela indica que elevar o salário dos professores é apenas uma das estratégias eficazes, mas não a de maior impacto.

O que realmente suscita o fascínio dos melhores alunos pela docência diz respeito, acima de tudo, à possibilidade descortinada pela carreira de verem seu talento reconhecido e sua capacidade intelectual estimulada.

Nesse sentido, distinguir os profissionais de melhor desempenho em sala de aula, com iniciativas como bônus no salário e mais responsabilidade na escola, tem sido, há décadas, um potente motor de atração para a carreira de professor mundo afora.

O Brasil precisa aprender a lição.


Diogo Mainardi

A era do cacarejo

"Num momento como o nosso, em que somos atazanados por um bando de palpiteiros ensandecidos, que manifestam permanentemente os próprios pensamentos, Rimbaud recorda as infinitas virtudes do silêncio. Ele é um modelo para todos nós"

Rimbaud espancava Verlaine. Eu invejo Rimbaud. Eu gostaria de ter espancado Verlaine. Eu gostaria de ter espancado qualquer poeta simbolista. Verlaine vingou-se alguns anos mais tarde, num quarto de hotel, dando dois tiros em Rimbaud. Eu também invejo Verlaine. Ele tinha apenas má pontaria.

A editora Topbooks, depois de publicar os poemas de Rimbaud, agora publicou suas cartas, otimamente traduzidas e comentadas por Ivo Barroso. O primeiro lote de cartas mostra Rimbaud e Verlaine espancando um ao outro e atirando um no outro.

Qual é o interesse disso? Para mim, nenhum. Eu poria os dois na cadeia. De fato, os dois foram parar na cadeia. O que realmente interessa é o segundo lote de cartas, escritas a partir de 1875, quando Rimbaud abandonou a poesia e passou a perambular de um lado para o outro.

Num intervalo de apenas dezesseis anos – ele morreu em 1891 –, Rimbaud fez tudo o que uma pessoa dotada de um pingo de senso de dignidade quereria fazer: foi embora de Paris, que é uma cidade de maricotes; entranhou-se no deserto etíope, contraindo uma série de enfermidades; comercializou camelos e escravos;

ganhou dinheiro e perdeu dinheiro; negociou armas dos mais variados calibres, permitindo o massacre de um monte de gente inocente; pegou um tumor no joelho e teve a perna amputada; morreu sozinho em Marselha, com muitas dores e pedindo ajuda a Deus, que caprichosamente se recusou a ajudá-lo.

Os poetas simbolistas, no tempo de Rimbaud, faziam uma grita danada. Eles se reuniam nos bares e bradavam seus versos. Nem quando eram espancados eles se calavam. Hoje é muito pior. A grita aumentou descomunalmente. Há gente demais papagaiando ao mesmo tempo.

Estamos cercados de poetas simbolistas. Eles se espalharam por todos os cantos e se acotovelam brutalmente para conseguir recitar uns decassílabos. O presidente da República é um poeta simbolista. O chefe de cozinha é um poeta simbolista. Até o poeta simbolista é um poeta simbolista.

Em 1875, depois de levar dois tiros de Verlaine, Rimbaud afastou-se disso tudo. Ele simplesmente resolveu parar de cacarejar e de ouvir o cacarejo alheio. Numa de suas cartas, de Aden, ele aparece encomendando alguns livros. De poesia simbolista? Ao contrário. Ele encomenda o Livro de Bolso do Carpinteiro, o Manual do Vidraceiro e o Álbum das Serrarias Agrícolas e Florestais.

Num momento como o nosso, em que somos atazanados por um bando de palpiteiros ensandecidos, que manifestam permanentemente os próprios pensamentos, Rimbaud recorda as infinitas virtudes do silêncio. Ele é um modelo para todos nós. Ele é um modelo para o presente.

Em suas cartas, Rimbaud mostra que temos poetas simbolistas de mais e carpinteiros de menos. Ele mostra que temos poetas simbolistas de mais e vidraceiros de menos. Eu pergunto: já encomendou seu Livro de Bolso do Carpinteiro?


A depressão em preto e branco

Um novo livro compara o efeito dos antidepressivos modernos com o de pílulas de placebo e chega à surpreendente conclusão estatística de que eles se equivalem. Mas a complexidade da mente e de suas doenças não se mede por números

Naiara Magalhães e Daniela Macedo - Montagem com fotos de Ada Summer/Corbis/Latinstock



De tempos em tempos, pesquisas e livros amparados em bases científicas mais ou menos sólidas são lançados com um mesmo propósito: revelar a verdade sobre a indústria farmacêutica.

Segundo seus autores, os laboratórios enriquecem (e muito) vendendo remédios pouco (ou nada) eficazes. Há duas semanas, chegou às livrarias dosEstados Unidos The Emperor’s New Drugs: Exploding the Antidepressant Myth (O Império das Novas Drogas: Explodindo o Mito dos Antidepressivos, em tradução livre), do psicólogo americano Irving Kirsch.

Em 226 páginas, ele tenta provar que a bilionária indústria dos antidepressivos foi construída e se mantém graças ao efeito placebo. Ou seja, milhões de pessoas ao redor do mundo gastam 20 bilhões de dólares todos os anos em remédios cuja eficácia equivale à de um comprimido de farinha.

Ao longo dos últimos quinze anos, Kirsch fez a compilação de 57 estudos sobre o tratamento de pacientes deprimidos. Pela fria análise das estatísticas, a teoria do psicólogo soa (de fato) como uma bomba e pode levar à perigosíssima conclusão de que o tratamento da depressão dispensa a ajuda dos medicamentos.

"Há casos em que o antidepressivo é imprescindível para tirar o paciente do estado de letargia típico da doença, fornecendo-lhe energia para lutar contra ela", diz a psiquiatra Fernanda Martins Sassi, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Deixada a seu próprio curso, a depressão machuca, incapacita para as atividades cotidianas, destrói laços afetivos, solapa a autoestima e pode culminar em suicídio.

O primeiro passo de Kirsch rumo ao que ele julga ser a explosão do "mito dos antidepressivos" foi o artigo "Listening to Prozac but hearing placebo" ("Ouvindo o Prozac, mas escutando placebo"), publicado em 1998, na revista Prevention & Treatment, da Associação Americana de Psicologia. Aqui, um parêntese.

O título do trabalho tem um quê de provocação, uma espécie de resposta ao best-seller Ouvindo o Prozac, do psiquiatra americano Peter Kramer, sobre as benesses do antidepressivo tido como a "pílula da felicidade".

A partir da metanálise de dezenove pesquisas, com 2 300 pacientes diagnosticados com depressão, Kirsch chegou à conclusão de que apenas 25% da melhora obtida com antidepressivos está associada à substância ativa do remédio. O restante deve-se em grande parte ao efeito placebo – e, em menor escala, à evolução da doença. Em 2002, Kirsch juntou outros 38 estudos ao trabalho anterior.

Com a nova compilação, o índice de eficácia proporcionado pelos antidepressivos caiu para 18%. Seis anos mais tarde, o psicólogo reconheceria a superioridade dos medicamentos de verdade para os casos de depressão muito grave. Mas, ainda assim, a vantagem dos antidepressivos sobre o placebo seria pequena (veja o quadro).

Na realidade, as metanálises de Kirsch não revelam nenhuma novidade. O efeito placebo é conhecido e descrito desde o século XVIII e não pressupõe apenas a administração de uma substância inerte. Um médico atencioso, um exame diagnóstico e o otimismo do doente em relação ao tratamento contribuem sobremaneira para a sua recuperação. Quanto maior o componente psicológico de um distúrbio, maior será a sua suscetibilidade ao efeito placebo.

Como tal, a depressão não escapa à regra. Os mecanismos biológicos envolvidos no efeito placebo ainda não foram completamente compreendidos, mas uma das hipóteses mais aceitas é que ele seria deflagrado pela liberação de endorfina, um analgésico produzido pelo próprio organismo, e de dopamina, substância capaz de fazer o cérebro repetir processos prazerosos – como a melhora de uma doença.

No caso da depressão, a cascata química desencadeada pelo efeito placebo atua diretamente nos mecanismos psíquicos que estão na origem da doença – a autoestima do paciente, suas expectativas em relação à vida, sua disposição física e mental...

"O efeito placebo tem eficácia terapêutica", diz o neurocientista Renato Sabbatini, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Portanto, é difícil, sobretudo no campo da psiquiatria, determinar com precisão o que é resultado da intervenção química do remédio e o que é produto de seu efeito placebo.

Escreve o médico canadense Grant Thompson, no livro The Placebo Effect and Health (O Efeito Placebo e Saúde): "O efeito placebo não é um inimigo". Em entrevista a VEJA, o psicólogo Kirsch defende: "Eu concordo plenamente que o efeito placebo é importante. Mas, se um remédio apenas evoca o efeito placebo, não deveria ser usado".

Não é o caso dos antidepressivos. Nove especialistas ouvidos por VEJA, entre psiquiatras, neurocientistas, farmacologistas e psicanalistas, são peremptórios em dizer que uma diferença de eficácia da ordem de 18% ou 25% entre a ação de um medicamento e a do placebo não é pouca coisa.

"Para um deprimido grave, é o que pode fazer toda a diferença", diz o psicofarmacologista Elisaldo Carlini, professor da Universidade Federal de São Paulo. Descobertos nos anos 50, os remédios contra a depressão têm por objetivo restabelecer a química cerebral de modo a que as pessoas consigam enfrentar a vida cotidiana e seus problemas. Imagine um par de óculos com as lentes embaçadas...

O antidepressivo é aquele pedacinho de pano usado para limpá-las, desanuviando a mente. "Nos casos mais graves, o remédio funciona como um curativo, que protege a ferida", explica a psiquiatra Laura de Andrade, da Universidade de São Paulo. "Com ele, o doente consegue seguir o dia a dia sem se machucar ainda mais."

A mais comum das doenças psiquiátricas, a depressão ainda desafia a medicina. Suas origens biológicas e suas causas não foram totalmente desvendadas. Até pouco tempo atrás, acreditava-se que a doença surgia da carência no cérebro de neurotransmissores, associados às sensações de prazer, autoconfiança, apetite e libido, entre outras.

A hipótese mais aceita hoje é a de que a depressão está ligada ao mau uso que o cérebro faz de tais substâncias (veja o quadro). O tratamento também não é simples. Ao contrário. Há de se levar em conta os vários tipos de depressão e as inúmeras substâncias antidepressivas no mercado – há pelo menos sessenta delas à venda no Brasil.

Descobrir o medicamento mais adequado a cada paciente é um trabalho, na maioria dos casos, de tentativa e erro. Apenas 37% dos doentes encontram alívio com o primeiro remédio prescrito por seus médicos.

"Nos estudos que serviram de base às metanálises de Kirsch, é possível, por exemplo, que pacientes incluídos em pesquisas com inibidores seletivos de recaptação de serotonina reagissem melhor a outras classes de antidepressivos", diz o psiquiatra Valentim Gentil Filho, da Universidade de São Paulo.

Além disso, pacientes com quadros depressivos semelhantes podem responder de forma completamente distinta a um mesmo tratamento.

Por causa de tamanha complexidade, fica difícil tomar ao pé da letra os resultados das análises feitas por Kirsch. As nuances do tratamento da depressão são, em geral, mais bem compreendidas na prática clínica que nas revisões estatísticas.


Beyoncé - Ela está no comando

A atriz, cantora e compositora americana se tornou o maior fenômeno da música pop atual com uma fórmula inusitada: feminismo, sensualidade e bom comportamento
Livia Deodato com Luís Antônio Giron, Mariana Shirai e Rafael Pereira
George Holz

PARA QUEM PODE

A cantora Beyoncé Knowles desafia o machismo com altas doses de sensualidade

Beyoncé Giselle Knowles paga suas próprias contas. Pinta as unhas, arruma o cabelo, vai para festas com as amigas... e deixa o namorado em casa. Veste roupas sensuais, dança e canta de forma provocante: “Você está olhando como se estivesse gostando. Por que não levanta e vem falar comigo?”. Hipnotiza, encanta e assusta: “Eu vou te deixar ficar comigo. Só não seja impertinente”.

Para os que não entenderam o recado, ela aponta a caixa que deve ser usada para juntar os pertences e desaparecer de sua vida (“a da esquerda, da esquerda”). Também avisa a esses infelizes que quem gosta mesmo coloca um anel em seu dedo – como fez o astro rapper Jay-Z. Beyoncé está no comando. Há uma década. A texana de 28 anos, considerada a maior cantora pop do momento, cumpre o que canta.

E o que canta representa um novo poder feminino, em forma de música pop. Ela faz parte de uma linhagem de estrelas musicais que desafia o domínio masculino, de Tina Turner a Lady GaGa, passando por Madonna. No auge da carreira, Beyoncé chegou ao Brasil para mostrar do que a mulher da primeira década dos anos 2000 pode – e deve – ser capaz.

A cantora desembarcou na quinta-feira, em Florianópolis, poucos dias depois de ter lançado seu primeiro perfume – Heat (calor) – e feito a festa na 52a edição do Grammy: levou seis dos dez troféus que disputava, feito inédito para uma artista mulher. Trouxe o marido, Jay-Z, e o pai, Matthew Knowles.

Escoltada por 20 policiais em cinco carros blindados, Beyoncé baixou o vidro do carro que a levava do aeroporto ao hotel no centro da cidade e acenou. Jay-Z buzinou. Ali mesmo, os fãs anteciparam o delírio que marcaria seu primeiro show, à noite.

Os espetáculos agendados para o Brasil fazem parte da reta final da turnê I am... , em que relembra momentos essenciais da carreira e apresenta os hits de seu terceiro álbum solo, I am... Sasha Fierce, de 2008.

A cantora Ivete Sangalo foi escalada para abrir os shows em São Paulo e Salvador. Wanessa, a ex-Camargo, cumpriu a função no show de Florianópolis e repetiria a participação no Rio de Janeiro no domingo e na segunda-feira.

O evento em Florianópolis, ao ar livre, no Parque Planeta, foi um exemplo de megashow pop contemporâneo, alimentado por alta tecnologia, danças arrebatadoras e até do abrir e fechar de imensas cortinas, ao modo de um teatro.

Em duas horas de palco, Beyoncé provou ser uma diva do pop, capaz de dançar e cantar (não apenas fingir que canta) no meio do público, ao mesmo tempo que conversava e tocava os espectadores.
Saiba mais

* »Ele pôs o anel no dedo dela

No palco, ela se apoia em 22 artistas, entre bailarinos, cantores e a banda feminina Suga Mama. Beyoncé se mostra uma artista madura. Nos intervalos entre as músicas, encara o público e faz charme com o cabelo.

Quando a música volta a bombar, sai requebrando e solta seu vozeirão. Os espectadores, a maioria na faixa dos 18 aos 30 anos, vão ao êxtase. Só faltou voar. Não é que ela não seja capaz. As limitações técnicas do palco é que não permitiram sua ascensão por cabos de aço.

É um roteiro de sedução: Beyoncé troca de figurino dez vezes e varia o repertório, revezando momentos românticos, como quando canta “Ave Maria” de Franz Schubert, e dançantes.

Cantou sucessos como a balada lenta “If I were a boy”, mostrando seu registro especial de mezzosoprano. Antes de embalar “Single ladies (Put a ring on it)”, o telão apresentou uma edição divertida de vídeos caseiros de anônimos e famosos fazendo a coreografia, entre eles o presidente americano, Barack Obama (só a parte da mãozinha, é claro). Beyoncé sabe usar, como poucos artistas, os recursos multimídias.

O telão widescreen de última geração – nem nos mais recentes grandes shows de rock se viu imagem de tão perfeita qualidade – reforça e dá novos sentidos a suas letras. Beyoncé se despediu sacudindo uma bandeira brasileira entregue por um fã e cantando “Halo”, em homenagem a Michael Jackson. “Brasil, Brasil, eu posso sentir sua aura”, afirmou.

No total, Beyoncé “sentirá a aura” de 30 países. De Salvador, na quarta-feira, ela seguirá para Argentina, Chile, Peru e Trinidad, onde encerrará a turnê iniciada há 11 meses. Terá cumprido 115 dias de espetáculos por Estados Unidos, Europa, Japão e América do Sul. Diz que, depois da maratona, pretende descansar por pelo menos seis meses, adiando a produção de seu quarto álbum.

“Tenho um monte de melodias e ideias”, afirmou. “Mas preciso dizer a mim mesma: ‘Fique quieta! Fique quieta!’.” Será a primeira pausa em sua carreira. Só nos primeiros dois meses da turnê, na Europa e nos Estados Unidos, ela arrecadou US$ 36 milhões. Seus fãs não economizam para lotar ginásios e estádios de futebol, pagando ingressos que começam na faixa dos US$ 50.

Por aqui, os valores variam de R$ 60 a R$ 750. É a média de preços dos últimos shows internacionais realizados no Brasil, hoje um dos polos de atração de megaespetáculos. E consegue dar uma boa margem para contemplar a maioria dos fãs, modestos ou abonados, que baixam seus CDs de graça pela internet.

Mesmo tendo feito sucesso numa época em que a pirataria atingiu duramente o mercado fonográfico, de acordo com sua gravadora, a Sony, Beyoncé já superou a marca dos 100 milhões de álbuns vendidos, desde os tempos do grupo Destiny’s Child.

No ano passado, a revista de negócios americana Forbes a colocou no alto da lista das celebridades mais bem pagas antes dos 30 anos: só entre 2008 e 2009, Beyoncé arrecadou US$ 87 milhões.

Junto a Jay-Z, somou US$ 122 milhões no mesmo período, o que os torna o casal mais bem-sucedido de Hollywood atualmente. Deixa (bem) para trás Brad Pitt e Angelina Jolie, com “humildes” US$ 55 milhões.

Mister Shadow
EM AÇÃO


Beyoncé começa o primeiro show no Brasil, em Florianópolis, cantando “Crazy in love”. No palco, 22 artistas, entre bailarinos, cantores e a banda só de mulheres, Suga Mama


06 de fevereiro de 2010 | N° 16238
NILSON SOUZA


Agentes duplos

Dia desses vesti uma fantasia de Papai Noel para fazer uma reportagem e me senti o pior dos farsantes. Cheguei mesmo a relutar antes de aceitar a missão. Argumentei para a editora que não gostaria de enganar as crianças, fazendo-me passar por um Papai Noel de verdade. Ela derrubou o meu argumento com uma pergunta marota, mas irrefutável:

– E existe Papai Noel verdadeiro?

Ainda assim, foi com um certo constrangimento que vivi por alguns minutos o papel de outro personagem que não eu próprio. Não tenho a mínima vocação para ator. Se tivesse que representar, seria um deplorável canastrão. Por isso, acompanhei com espanto a série que Zero Hora publicou nesta semana sobre espiões infiltrados nos movimentos sociais e políticos organizados.

Como pode alguém enganar tanta gente por tanto tempo? Descontadas as bravatas tardias, pois é evidente que algumas pessoas contam vantagem para parecer mais espertas do que realmente são, os agentes duplos impressionam tanto pelo que fizeram no passado quanto pelas revelações atuais.

Vá entender o ser humano! Até o famoso Garganta Profunda do caso Watergate, que resultou na renúncia do presidente norte-americano Richard Nixon, resolveu soltar a língua depois de permanecer mais de 30 anos no anonimato. Dizem que ele levou uma grana da revista Vanity Fair, mas não duvido que tenha sucumbido à própria vaidade mesmo.

É o que parecem estar fazendo esses personagens que agora saem das sombras e contam com orgulho suas aventuras de espionagem. Confesso que me chocam um pouco. Pode ser até que tenham feito bem o seu trabalho, mas eu não compraria um carro usado de nenhum deles. O mínimo que se pode pensar de um agente duplo é que ele é 50% mentiroso.

Até gosto de gente que representa bem, mas só quando sei que se trata de uma representação. Detesto pegadinhas e coisas do gênero por isso. Não acho a menor graça quando me sinto enganado.

Mas aplaudo atores talentosos, capazes de dar tanta autenticidade aos seus personagens que eles mesmos se esquecem da identidade original.

Outro dia ouvi uma divertida entrevista do cantor e comediante Moacyr Franco na qual ele falou com saudade sobre um ex-companheiro de palco falecido, o humorista Ronald Golias. “Deus mandou o personagem e esqueceu de mandar o homem”, disse Moacyr.

Golias tinha mesmo uma cara preparada para despertar risos e sorrisos. Não precisava nem representar. Jamais poderia ser um agente duplo, pois era extremamente verdadeiro na sua farsa.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010



03 de fevereiro de 2010 | N° 16235
MARTHA MEDEIROS


Eu te amo, mas...

Não há o que não haja no vasto mundo da internet. Geralmente descubro o que está rolando nesse tal planeta Cyber através da mídia convencional. Foi o que aconteceu quando, ao ler a revista Bravo, soube de um site que reúne pequenas frases que, em comum, têm o fato de começar com “Eu te amo, mas...”.

É o www.loveyoubut.com, cuja finalidade não faço ideia qual seja, a não ser a de fornecer alguma inspiração a cronistas famintos por qualquer coisa que lhes sirva para preencher um primeiro parágrafo.

Tenho simpatia por tudo o que desmistifica o sagrado, e uma declaração de amor é de natureza sacra, faz parte das coisas aparentemente invioláveis. Sai geração, entra geração, o “eu te amo” segue no topo das paradas. De forma curta e milagrosa, faz desaparecer desavenças, raivas, dúvidas, muxoxos.

É o abre-te sésamo da paixão, a concretização do grande desafio: fazer dois seres humanos acreditarem que o amor basta para lhes fazer feliz. Ô, responsabilidade. Então, surge um site espirituoso que nos lembra que todo amor, mesmo os mais sólidos, vem acompanhado do advérbio “mas”. Ou você acreditava que o amariam assim, sem nenhuma ressalva?

Eu te amo, mas você compra todos os presentes de Natal em outubro.

Eu te amo, mas você dá apelidos para si mesmo.

Eu te amo, mas você coloca pontos de exclamação em todas as frases!!!!

Eu te amo, mas você pendurou sua foto da formatura na parede.

Eu te amo, mas você insiste em dizer que O Alquimista mudou a sua vida.

Eu te amo, mas você fala de celebridades como se fossem seus amigos íntimos.

Esses são alguns exemplos divertidos (catados no site) de como o amor da nossa vida pode ser honesto, inteligente e lindo, mas não escapa de ter um ou vários hábitos enervantes.

Inspirador? Sim, mas proponho uma inversão: em vez de criar a sua frase secreta sobre a criatura que divide os lençóis com você (“Eu te amo, mas você dorme com o ar-condicionado na potência máxima”), procure especular o que ele, o amor da sua vida, diria a SEU respeito.

De minha parte, vou exercitar minha humildade e imaginar tudo o que eu ouviria depois do “mas”. Daria uma bíblia, e iniciaria certamente com “eu te amo, mas você é maluca, dorme com a janela do quarto fechada com esse calorão”.

E mais. Engasgo com frequência, não sei me atirar de bico na piscina, costumo roer as unhas com pele e tudo, não gosto de comida japonesa, falo mal o inglês, acredito em anjo da guarda e não enxergo um palmo à frente sem óculos. Absolvida? Espero que sim.

Enquanto o “mas” fizer vir à tona apenas os meus humaníssimos defeitos, não morro solteira. O importante é que o “mas” continue sendo precedido por um sincero “eu te amo”. Aí topo ar-condicionado na potência máxima e talvez até tire as meias pra dormir.

Uma ótima quarta-feira e um gostoso inicio de semana para quem estava de feriadão como eu, ehehehehe.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010



02 de fevereiro de 2010 | N° 16234
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


O terceiro capítulo

Está sendo lançado um novo romance de Sidney Sheldon (A Senhora do Jogo), mas dificilmente ele comparecerá à sessão de autógrafos, e isso por uma singela razão: morreu em 2005.

Tinha deixado o livro pronto? – perguntará o leitor distraído. Ao que eu responderei que não, que na verdade a obra foi composta por uma inglesa, Miss Tilly Bagshawe, cujo nome aparece discretamente na capa. Em contraste, o de Sidney Sheldon surge em letras berrantes, como convém a um escritor traduzido para 51 idiomas e que vendeu incríveis 300 milhões de exemplares no mundo inteiro.

É um dos mais espantosos casos de sobrevivência em toda a História. Transferido desta para melhor há cinco anos, Sheldon é um dos mais cotados nas listas de best-sellers em Europa, França e Bahia – e isso por um livro a que ele não adicionou uma vírgula.

Na verdade, segundo leio em reportagem de Jerônimo Teixeira na Veja, sua ajuda é indireta, pois o romance é uma saga familiar, o que significa que os principais personagens já existiam. Mas Miss Tilly está para lançar um outro livro com o nome de Sheldon, que não é mais a continuação de uma obra anterior, mas uma trama no estilo do autor.

É o que me leva a imaginar, por um simples exercício de fantasia, que um dos meus romances tivesse um seguimento póstumo. Como eu já não estaria mais aqui para avaliá-lo, só posso desejar que fosse um trabalho bem além de meu acanhado talento.

A mocinha seria um prodígio de beleza, os traços suaves, o corpo perfeito, as feições primorosas. Seria alta, teria os olhos e os cabelos claros, as curvas impecáveis. Seria rica, dona de uma imensa mansão e de uma cultura invejável.

Teria um affair inesquecível com um rapaz pobre porém honesto, e suas cenas de sexo seriam tórridas como a região equatorial. Seus diálogos seriam imperecíveis, plenos de sabedoria e de ternura. E seus pensamentos, um compêndio de bom senso e de partilha.

Lutariam por causas nobres e dignificantes, seus inimigos seriam todos derrotados, estenderiam a mão para os humilhados e os ofendidos. Prostariam os arrogantes, se imporiam aos tolos, venceriam os pérfidos.

E ninguém seria mais feliz do que eles.

Aqui faço ponto e vírgula e me dou conta de que personagens assim seriam infinitamente chatos, e ninguém leria sua história além do terceiro capítulo. A condição humana não suporta a perfeição, mesmo nas páginas de um romance.

Certa mesmo está Miss Tilly, que constrói sua história sem perdão, com a receita dos feios e dos maus, pois é assim que caminha a humanidade.

Uma linda terça-feira e um excelente feriado para quem está de feriado hoje. Para quem for viajar boa viagem.