sábado, 15 de janeiro de 2011



16 de janeiro de 2011 | N° 16582
MARTHA MEDEIROS


A síndrome da repetição

Temos nossas dores de estimação, nossos erros reincidentes, um caminho que parece uma infinita highway, mas é, no fundo, uma grande rotatória

Somos os mesmos e vivemos como nossos pais. Não, não era assim que eu queria começar, mas tenho essa mania de sempre iniciar uma crônica assinalando o gancho que me inspirou, seja uma música, um filme, um papo com uma amiga, um e-mail de leitor. No entanto, essa crônica nada tem a ver com a música do Belchior que a Elis eternizou, a citação foi apenas por força do hábito: todos nós vivemos em constante estado de repetição.

Até pouco tempo atrás eu procurava um analista para conversar um pouco, fazer balanços, enfim, ele era uma espécie de pronto-socorro emocional, e funcionava. O curioso é que, a cada vez que eu o procurava, voltávamos sempre ao mesmo assunto, as nossas conversas envolviam sempre os mesmos problemas – e eu sempre abandonava o tratamento me sentindo melhor, porém a mesma.

Será minha vida tão monocromática? Não é. O que acontece é que todos nós temos nossas dores de estimação, nossos erros reincidentes, um caminho que parece uma infinita highway, mas é, no fundo, uma grande rotatória. Acabamos sempre no mesmo ponto, dando as mesmas voltas.

Faça o teste: você discute com sua mãe sobre diversos motivos ou sempre pelo mesmo? Com seu pai a discussão é mais variada ou empaca sempre na mesma questão? As queixas de suas namoradas são diversas ou parece que elas combinaram de dizer a mesma coisa? E as suas queixas sobre os outros, mudam muito?

Quando você vai ao médico, ele não recomenda sempre o mesmo pra você? E você, naturalmente, não cumpre. Se você está casada há 25 anos, responda com sinceridade: a primeira briga que teve com seu marido foi muito diferente da que teve semana passada?

Existem pessoas na minha vida que conheço desde que nasci, fomos colegas de berçário, e não é força de expressão, tenho mesmo uma amiga que nasceu um dia depois de mim, no mesmo hospital, e mal sabíamos que riríamos e choraríamos juntas por toda a vida, não só pelo espanto do parto.

Ela é apenas uma entre tantas outras que conheço há séculos, e seguimos sendo quem sempre fomos, e a cada encontro nos repetimos, e isso é a glória: saúdo os reconhecimentos, as sólidas histórias de vida e de companheirismo, o não precisar se reinventar constantemente. Algumas coisas mudam ao nosso redor, mas nossa essência, nossas dúvidas e nossas perguntas – principalmente as perguntas – seguem as de sempre.

Outro dia um amigo me disse que os únicos relacionamentos que duram são aqueles em que o casal renova os motivos das brigas. Bacana. Pedi pra ele me apontar um exemplo.

Ele pensou, pensou, pensou, e depois começou a rir e me enrolou com uma conversa que já ouvi mil vezes, e eu, como em outras mil vezes, retruquei, e acabamos a tarde num abraço afetuoso mil vezes repetido e ficamos de não demorar para nos ver de novo, mas vai demorar, porque sempre demora, sempre foi assim. Tudo acontece do mesmo jeito o tempo todo.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011



12 de janeiro de 2011 | N° 16578
MARTHA MEDEIROS


Arte a domicílio

Tempos atrás não existia entrega de comida em casa. Quando as telepizzas surgiram, foi um oba-oba. Podia-se finalmente reunir a turma para assistir a um filme (cinema em casa, outra facilidade) e fazer um programa seguro e econômico, já que não era preciso estacionar o carro na rua nem pagar uma exorbitância por uma garrafa de vinho. Eu sigo gostando de sair com os amigos, conhecer lugares novos, arejar as ideias em ambientes bonitos e, claro, ir ao cinema, mas não desprezo uma festinha caseira.

Pois agora soube que já existe delivery de peças de teatro. Em São Paulo, há pelo menos dois grupos que agendam apresentações a domicílio. O dono da casa afasta os sofás da sala, retira os tapetes, convida uns amigos e todos assistem a uma apresentação profissional a dois palmos do nariz. Terminada a performance, são servidos os salgadinhos, os drinques, e o elenco se junta à pequena plateia para conversar sobre o assunto da peça ou outro tema qualquer.

Lógico que uma coisa não substitui a outra. Nada como assistir a um espetáculo em local apropriado, com palco, cenografia, iluminação e toda a reverência que o teatro imprime.

Assim como a energia de um show nunca será reproduzida num DVD: é incomparável a experiência de ouvir centenas de pessoas cantando e dançando juntas, numa conexão eletrizante que celebra a vida e a arte. Mas quem já teve a oportunidade de ser plateia de um solo “só para seus olhos” sabe que o sublime acontece do jeito que for.

Já vi uma grande atriz interpretar um texto sentada no chão da sala de uma amiga. Um músico reconhecido tocar violão sozinho em seu estúdio, só para mostrar a nova canção que estava concluindo. Vi bailarinos da companhia de Maurice Béjart ensaiando passos à beira da piscina de um hotel em que por acaso eu também estava hospedada. Shows privativos inesquecíveis.

O mais inesquecível deles, no entanto, aconteceu nos anos 80, quando eu namorava o vizinho de um pianista. Eles moravam no prédio mais secreto de Porto Alegre, que existe até hoje, na Vicente da Fontoura. Da rua, avista-se uma porta, nada mais. Não se enxerga a edificação.

Essa porta conduz a um longo corredor, e só lá no fundo, então, descortina-se um terreno sem cobertura, com os apartamentos dando todos para um mesmo jardim, como se fosse um condomínio de praia daqueles antigos.

Nas noites de verão, dormíamos com a janela aberta e nossos sonhos eram embalados por recitais exclusivos vindos do apartamento em frente, onde morava o talentoso Geraldo Flach, que atravessava a madrugada ao piano. Pura arte a domicílio.

Ainda que com chuva, uma ótima quarta-feira para você.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011



11 de janeiro de 2011 | N° 16577
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Faltou dizer

Acompanhei neste início de ano uma apresentação em que empresários faziam um balanço de sua caminhada ao longo de 2010. Foi todo um coquetel de números, percentuais, balanços, curvas de lucro, escaladas de ranking e uma porção de cifras mais. Sobrou lugar para pitadas de vaidade, orgulho de conquistas, vitórias sobre as sendas instáveis e volúveis da economia.

Mas faltou algo essencial. Ninguém se lembrou de temperar a salada de algarismos com alguns fatos básicos que deveriam orientar nossa comum trajetória sobre a Terra.

Falo de coisas sem cotação na Bolsa, sem pregão nos mercados e, no entanto, donas de mais valor do que uma ação blue-chip. Me refiro a bens sem preço e que contudo deveriam ser medidos pelos mais altos índices de apreciação humana.

Não ouvi ninguém falando do GFC – Grau de Felicidade Coletiva – de sua empresa.

Não escutei menção ao NSG – Nível de Satisfação Global – de seu empreendimento.

Não percebi alusão à MBG – Média de Bem-estar Geral – da companhia.

Pois, muito além das moedas sonantes, é disso que se tece a vida.

Muito além dos valores palpáveis, a existência de cada um se constroi de alguns artigos imateriais.

Como o quê?

A fraternidade, que nos faz sentir um pouco irmãos uns dos outros. A solidariedade, que é uma mão estendida – e não só nos momentos de dificuldade. A harmonia, que como um maestro invisível nos faz tocar os mesmos acordes dessa imensa orquestra que é a vida.

A amizade, que, feita de afeição e carinho, aproxima e integra as pessoas mais diversas. A cordialidade, uma palavra que deriva de coração, e tanto como este é signo de união. A coerência, que é o segundo nome de algo chamado de simetria de propósitos e princípios.

E muito mais calaram os ilustres palestrantes, deixando exposta uma verdade cada vez mais ausente de nossa caminhada: a de que a vida, muito mais do que matéria, é também espírito.

domingo, 9 de janeiro de 2011


DAMIÁN TABAROVSKY - tradução PAULO MIGLIACCI

O livro do ano

Mistérios do verão portenho

NUNCA VOTEI em candidato que tivesse vencido uma eleição, e nem em um livro que tenha conquistado o primeiro lugar nas pesquisas que jornais costumam fazer nos finais de ano. Ou mesmo o segundo, ou o terceiro. Quem pode dizer? Tendo em conta os habituais vencedores de votações -políticas e literárias-, talvez eu deva considerar de modo positivo minhas derrotas sistemáticas. Em todo caso, sei perfeitamente quais são os melhores livros da literatura argentina em 2010, se é caso de fazer um balanço.

Um deles é "Qué Hacer", de Pablo Katchadjian. Nascido em 1977, já havia publicado dois romances, divertidos e de tom experimental, interessantes, mas que não deixavam prever o salto em direção a uma obra de arte.

Porque é isso que "Qué Hacer" significa: um romance que se movimenta com perfeição na herança do nonsense, na tradição de [Raymond] Queneau, no jogo de palavras, no humor radical, na engenhosidade. O livro de Katchadjian é um desses raros romances que satisfazem ao leitor mais inteligente.

OUTRO LIVRO DO ANO
Conheço Juan José Becerra -nascido em 1965 e apenas dois anos mais velho que eu -há pelo menos uma década e meia. Trata-se de uma das pessoas mais inteligentes com quem já tive contato na vida. Evidentemente, eu havia lido seus três romances anteriores e diversos de seus livros de ensaios.

Todos me interessaram muito, e escrevi diversas vezes sobre ele, mas sempre tive a sensação de que os livros não atingiam a estatura intelectual do autor, de que ficavam abaixo de Becerra.

Até que, dois meses atrás, apareceu "Toda La Verdad", um romance que mudou a equação: Becerra por fim escreveu um dos livros-chave da literatura argentina contemporânea. A história de um engenheiro milionário que um dia abandona tudo e vai a pé para o campo, onde vive por muito tempo na solidão e na pobreza; depois retorna, escreve um livro de autoajuda e se torna famoso (entre muitas outras peripécias).
O próximo romance de Becerra está anunciado não por uma editora argentina mas na Espanha, antes das traduções que inevitavelmente chegarão.

COM AR CONDICIONADO
Buenos Aires em janeiro é uma cidade deserta. As afortunadas famílias de classe média partem de carro para as praias 400 quilômetros ao sul, a classe média alta voa para Punta del Este e muitos trabalhadores viajam de ônibus para passar o dia em suas províncias de origem.

O asfalto se derrete, não há coisa alguma para fazer e as pessoas como eu, que não saem da cidade, procuram os lugares equipados com ar condicionado: restaurantes, bancos e, por que não, também cinemas.

O bom ar condicionado que existe na sala de cinema do Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires é uma, mas não a única- razão para recomendar uma visita. Em janeiro, o grande cineasta Edgardo Cozarinsky organizou um ciclo chamado "Elogio da Arte Impura", no qual a cada dia são exibidos os melhores filmes do cinema argentino e clássicos do cinema mundial. Estarei lá. Meus amigos também.

MODAS EDITORIAIS
As grandes editoras estavam sossegadamente ganhando fortunas com a publicação de livros chatos e previsíveis contra o governo de Cristina e Néstor Kirchner. Eles são corruptos, malvados, autoritários, e assim por diante.

Escritos habitualmente por jornalistas com sérias dificuldades para conjugar um verbo no infinitivo ou escrever sentença de mais de cinco palavras, esses livros vendiam milhares de exemplares. Tudo corria bem até que Néstor Kirchner morreu, e o clima social mudou (ao menos por enquanto; na Argentina, como dizia Marx, tudo que é sólido se desmancha no ar).

Agora Cristina se tornou viúva e é preciso respeitá-la, e Néstor é quase um mártir de quem é necessário falar bem. Além disso, não há por que descartar a possibilidade de uma vitória de Cristina nas eleições presidenciais deste ano.

Na verdade, os livros é que foram descartados: envelheceram irremediavelmente, de um só golpe. Já não ocupam as primeiras posições nas listas de best sellers, e já não são vistos nas livrarias.

O que farão as grandes editoras agora? Ah, os mistérios do verão em Buenos Aires...

sábado, 8 de janeiro de 2011



09 de janeiro de 2011 | N° 16575
MARTHA MEDEIROS


Terapia alternativa

Uma pia lotada de louça e um tanque transbordando de roupa suja é a metáfora perfeita para a salvação

Conheci Zeca Baleiro no final de 2010 e, além de confirmar seu talento musical, descobri que ele escreve bem e que inclusive publicou um ótimo livro, Bala na Agulha, em que reúne crônicas postadas em seu blog, e também versos e frases soltas.

Entre suas reflexões sortidas, encontrei um poeminha que diz: Terapia/faço em casa/ao pé da pia. Alguns anos atrás escrevi um texto em que defendia essa mesma ideia, a de que lavar louça é uma terapia alternativa das mais eficazes: quando estou com a cabeça encardida de pensamentos inúteis, pego esponja e detergente e começo a lavar todos os copos e pratos empilhados na bancada da cozinha.

É como se eu desaguasse ralo abaixo todas as minhas dúvidas e inquietações.

Dou fim à gordura que se acumula na minha massa cinzenta, as ideias vão ficando mais límpidas e, ao término do serviço, a cabecinha fica pronta pra ser usada de novo, tinindo como um cristal.

Caio Fernando Abreu, a quem ando relendo, também escreveu: “Ninguém enlouquece quando tem um tanque de roupa suja pra lavar”. Ou seja, a vida prática pode nos salvar da loucura.

O fato é que ninguém discorda: a ociosidade é mesmo um passaporte para o universo das caraminholas. A falta de um trabalho e de tarefas a cumprir nos transforma em experts em deduções estapafúrdias e em criadores de problemas inexistentes. Uma pia lotada de louça e um tanque transbordando de roupa suja é a metáfora perfeita para a salvação. Foque no que deve fazer e pare de buscar o sentido da vida.

A loucura tem sempre a ver com excesso, inclusive excesso de tempo livre. É muita angústia, muita cobrança, muita indagação, muita procura de cabelo em ovo.

À medida que usamos nosso tempo para atividades que exigem concentração específica no que se está fazendo, como, por exemplo, um projeto para concorrer ao Nobel de pesquisa científica ou lavar louça, o tempo excedente servirá para descansar e deixar que aflorem apenas os pensamentos mais prioritários. Adeus às elocubrações desnecessárias.

Se mesmo quem possui uma rotina atribulada vive em constante hemorragia mental, imagina quem pode ficar a manhã inteira se espreguiçando na cama, não tem supermercado pra fazer, não precisa ficar atento aos horários dos ônibus e com patrão nenhum exigindo eficiência: acaba mesmo pirando na batatinha. É muita inapetência a serviço do Coisa Ruim.

Portanto, ocupe-se. O trabalho não só dignifica, mas economiza nossos neurônios – não os desperdice matutando, matutando, matutando. Quando estiver pensando muita besteira, amarre um avental na cintura e mantenha sua sanidade.

MARCELA BUSCATO

Chega de enrolar

Novos estudos sugerem que deixar tarefas para depois faz parte do instinto humano. Como evitar esse mau hábito e botar em prática as resoluções de Ano-Novo
Confira a seguir um trecho dessa reportagem que pode ser lida na íntegra na edição da revista Época de 8 de janeiro de 2011.

montagem sobre foto getty images


Janeiro é o mês em que as pessoas costumam traçar planos, reavaliar objetivos e pensar nas coisas que gostariam de mudar em sua vida. Assim como Jano, o deus romano de duas faces que dá nome ao mês de janeiro, nesta época olhamos simultaneamente para o passado e para o futuro, animados pela esperança de recomeçar.

Há uma vontade genuína de mudança, mas ela costuma esbarrar, para boa parte das pessoas, numa barreira tão sólida quanto invisível: o hábito de adiar tarefas difíceis ou chatas, deixando-as para amanhã. Ao final de um ano de adiamentos, descobre-se que a vida mudou muito pouco.

Ao contrário do que parece, esse não é apenas um problema seu. Ou apenas de seu filho, que não estuda. Ou da nova garota no trabalho que não cumpre prazos. Empurrar com a barriga é uma tendência universal, profundamente enraizada no comportamento humano. É tão antiga que os romanos já tinham um nome para ela: procrastinar, que significa, literalmente, mover alguma coisa de um dia para o próximo.

Uma pesquisa recente da consultoria Triad PS, de São Paulo, que ouviu mais de 3.500 internautas, sugere que até 70% dos brasileiros postergam a realização de tarefas. Nos Estados Unidos, segundo levantamento do psicólogo americano Joseph Ferrari, pesquisador da Universidade DePaul, pelo menos 20% da população se encaixa na categoria de procrastinadores crônicos - são pessoas que adiam a realização de tarefas compulsivamente, a ponto de atrapalhar a carreira e os relacionamentos pessoais.

Mas nem é preciso ir tão longe para esbarrar com as consequências negativas do hábito de deixar tudo para amanhã. Quem nunca perdeu o sono com o acúmulo de coisas atrasadas, que é o resultado invariável da procrastinação?

Quem nunca se sentiu culpado depois de uma sessão de quatro horas em frente à TV, quando havia tantas coisas urgentes precisando de atenção? Quem não morreu de raiva de si mesmo por ter adiado, sem justificativa, aquele telefonema importante que, depois, acabou esquecido?

A procrastinação deixa de ser apenas mau hábito e se torna um risco quando contamina a vida profissional. Segundo a pesquisa da Triad PS, 64% das pessoas afirmam adiar sistematicamente tarefas no trabalho. Os prejuízos são grandes.

O risco mais óbvio é perder o emprego. “Postergar tarefas é típico de gente acomodada, que não busca soluções para os problemas”, diz Sofia Esteves, presidente da consultoria DM RH. “Não há mais espaço nas empresas para profissionais assim.” Outro problema é criar um clima ruim no ambiente de trabalho. “Hoje, os projetos são feitos sobretudo em equipes”, diz Edson Rodriguez, consultor de gestão de pessoas.

“Ninguém quer pagar pelos atrasos do colega nem empurrá-lo o tempo todo.” O procrastinador limita seu horizonte profissional. Não aprimora seu trabalho porque faz tudo às pressas e tem medo de enfrentar novos desafios – porque conhece sua limitação. Em um mercado competitivo, vai ficar para trás. “As pessoas que chegam ao topo são as que sabem usar seu tempo”, diz o especialista em gestão de tempo Christian Barbosa, da Triad PS.

A boa notícia para todos nós, que temos alguma dessas manchas no currículo, é que especialistas de áreas tão distintas quanto economia, filosofia e psicologia estão debruçados sobre o tema da procrastinação para nos ajudar a conciliar o pouco tempo de que dispomos com a disposição que em geral nos falta.

Uma série de livros recém-lançados ou prestes a chegar às livrarias mostra que é possível dar fim à procrastinação e parar de enrolar.

Sim, existem técnicas para sacudir a preguiça e vencer a tentação de empurrar as tarefas para daqui a pouco. Mas, para conhecê-las, leitor, não deixe a leitura desta reportagem para depois. Esse depois poderá virar nunca!



08 de janeiro de 2011 | N° 16574
NILSON SOUZA


Qual dos dois?

Gosto de indagações. Esta que vem aí faz parte de um poema de Cora Coralina:

“Estavam ali parados. Marido e mulher.

Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça

tímida, humilde, sofrida.

Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,

e tudo que tinha dentro.

Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar

novo rancho e comprar suas pobrezinhas.

O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,

entregou sem palavra.

A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou, se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar.

E não abriu a bolsa.

Qual dos dois ajudou mais?”

De agora em diante é comigo, a poetisa goiana não tem culpa do que virá.

Os homens são assim, diretos, objetivos, confiantes. Acreditam que podem resolver qualquer situação intrincada com um estalar de dedos. Para que ficar ouvindo lamúrias se meia pataca é suficiente para aliviar a dor alheia e apaziguar a própria alma?

As mulheres não hesitam em compartilhar suas dores e as alheias, preferem as palavras ao gesto, a fé à fuga (ainda que a fé, nesta minha mente masculina, também possa ser uma fuga), a emoção à razão.

Nós somos práticos, elas são detalhistas. Nós vamos direto ao ponto, elas dão voltas. Nós jamais admitimos que estamos perdidos, elas perguntam onde fica o destino.

Aprendi que isso vem do tempo das cavernas. Nossos bisavós trogloditas saíam para buscar o alimento da família
Nós edificamos templos, fazemos guerras, governamos nações. Elas constroem sonhos, geram a vida e têm o poder da sedução. E ultimamente também governam nações.

Ainda cabe perguntar qual dos dois ajuda mais? Gosto de indagações, mas nem sempre tenho as respostas.

, tinham que se concentrar no caminho para poder voltar, tinham que apurar a vista para surpreender a caça, tinham que usar a força para se impor sobre as outras espécies. As mulheres ficavam cuidando das crias, providenciando a alimentação, conversando com as outras fêmeas enquanto seus companheiros não voltavam.

Desenvolveram a fala, o olhar periférico, múltiplas habilidades para fazer várias coisas ao mesmo tempo e esta imensa capacidade de expressar sentimentos que o poema singelo da senhora Cora escancara.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011



05 de janeiro de 2011 | N° 16571
MARTHA MEDEIROS


A vida é curta

Amanhã é Dia de Reis. Segundo a tradição, é quando se deve desmontar a árvore de Natal, mas fico pensando se a trabalheira não será à toa. O próximo Natal já se aproxima, não seria mais conveniente deixar a árvore onde está, como um enfeite vitalício da casa? O espaço entre dois Natais nunca foi tão curto.

Constatado o milagre da redução dos anos (antigamente eles possuíam 365 dias, mas desconfio de que somem hoje no máximo uns 274), o melhor a fazer é desfrutar o tempo que nos resta.

Pra começar, chega de seguir ao pé da letra as regras de bem viver estabelecidas pela intelectualidade. Claro que cultura é importante, que não se deve desdenhar da sabedoria transmitida pelos filósofos, que a inteligência é o valor maior. Mas basta desse monopólio: é chegada a hora de valorizar também os instintos.

Se a palavra de ordem é produzir, produzir, produzir, responda com uma boa soneca: durma depois do almoço. Assuma o espanhol que há em você: siesta! Se não puder sair do escritório, tire um cochilo onde estiver, estique-se em algum canto, durma no carro, dentro do banheiro, sentado numa cadeira. Feche os olhos e desapareça por 20 minutos, mesmo que todos continuem vendo.

Você está indo bem na terapia, quase acredita que está se curando, ainda que não tenha entendido exatamente do que deve se curar. Mas, sem que seu digníssimo analista suspeite, reprise alguns de seus erros de vez em quando. Recaia. Sucumba. Vai atrasar o tratamento? Vai. Mas logo, logo, é Natal, jingle bell, paz na terra, estarão todos perdoados por terem reincidido em seus pequenos e deliciosos crimes contra si mesmo.

Se dirigir, não beba. Se costuma ficar violento, não beba.Se é do tipo que dá vexame, não beba. Se tem um histórico de alcoolismo, não beba. Mas se não for colocar ninguém em risco, muito menos a si próprio, celebre. Tim-tim!

E se é verdade que dentro do mais chique dos mortais há um brega enrustido que não vê a hora de se manifestar, eis o momento. Abuse do Roberto Carlos, cante no chuveiro, leia um best-seller daqueles que fazem seus amigos torcerem o nariz e enfeite seu drinque colocando nele uma sombrinha de papel colorido.

A sombrinha de coquetel é o símbolo máximo do “estou nem aí para o que irão pensar, sempre quis me sentir num luau havaiano”. Pode ser uma sombrinha metafórica, desde que simbolize seu estado de espírito, que faça parte do plano de desestressar e curtir a seu modo o restinho de ano que sobra. Estamos em janeiro, o inverno é amanhã e o Natal não demora. Contra-ataque com a sombrinha.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011



04 de janeiro de 2011 | N° 16570
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA

Receita para 2011

Nestes primeiros dias de 2011, eu queria ter 10 anos menos.

Nestes dias inaugurais do Ano Novo, eu desejaria não ter dito palavras, não ter tomado atitudes das quais me arrependeria.

Neste período inicial de uma nova era em minha vida, eu gostaria de ter feito gestos de que me esqueci.

Almejaria ter usado mais vezes o verbo almejar, para desejar paz, saúde, felicidade a todos os que me eram próximos.

Queria não ter calado a palavra quase dita, a frase quase formulada, a declaração quase enunciada.

Nestes primeiros dias de 2011, eu gostaria de ter a idade da inocência.

Eu pretenderia não haver ouvido ainda todas as músicas que me comoveram.

Eu ambicionaria não ter lido ainda todas as obras-primas que me emocionaram.

Eu aspiraria a não ter visto ainda todas as grandes telas da pintura que mexeram com meu coração e minha alma.

Eu pretenderia ser tão puro de mente que todo o saber me fosse desconhecido.

Me apeteceria desconhecer toda a ciência, para que eu próprio a descobrisse.

Ansiaria por desvendar todos esses pequenos, grandes segredos da alma humana, só para esquecê-los depois.

Ambicionaria voltar a cada trecho dos livros que me tocaram, só pelo gosto de reinventáa-los.

Anelaria tornar a cada grande museu que visitei, ao menos para reecontrar a Mona Lisa, a Vitória de Samotrácia e a Vênus de Milo.

E em tudo isso buscaria, em cada sentimento e anelo e desejo, o melhor de mim mesmo, aquele que procura norte e rumo na beleza.

domingo, 2 de janeiro de 2011



02 de janeiro de 2011 | N° 16568
MARTHA MEDEIROS


Deixe-se em paz

Que mania a gente tem de fazer listinha de resoluções, como se uma simples virada de ano bastasse para nos transformar em uma pessoa mais completa

Geralmente é o que se deseja intimamente: paz para o mundo, paz para todos, paz para os torcedores, paz para os moribundos, paz para os iraquianos. É um desejo legítimo, mas qual a nossa contribuição prática para ajudar a construir uma serenidade universal? O máximo que podemos fazer é garantir nossa própria paz. Portanto, esses são os meus votos: deixe-se em paz.

Parece uma frase grosseira, mas é apenas um desejo sincero e generoso. Deixe-se em paz. Não se cobre por não ter realizado tudo o que pretendia, não se culpe por ter falhado em alguns momentos, não se torture por ter sido contraditório, não se puna por não ter sido perfeito. Você fez o melhor que podia.

Aproveite para estabelecer metas mais prosaicas para o futuro que virá, ou até meta nenhuma. Que mania a gente tem de fazer listinha de resoluções, prometer mundos e fundos como se uma simples virada de ano bastasse para nos transformar numa pessoa mais completa e competente.

Você será o que sempre foi – e isso já é muito bom, pois presumo que você não seja nenhum contraventor, apenas não consegue dar conta de todos os seus bons propósitos, quem consegue? Às vezes não dá. Vá no seu ritmo, siga sendo quem é, não espere entrar numa cabine e sair de lá vestido de super-homem ou de supermulher. Deixe de fantasias. Deixe-se em paz.

Se quer tomar alguma resolução, resolva ajudar os outros, fazer o bem, dedicar-se à coletividade, seja mais solidário. Não deixe os menos favorecidos na paz do abandono, na paz do esquecimento. Mas esquecer um pouco de você mesmo, pode. Deve. Não se enquadre em comportamentos que não lhe caracterizam, não se enjaule por causa de decisões das quais já se arrependeu, não se arrebente por causa de questionamentos incessantes.

Liberte-se desses pensamentos todos, dessa busca sofrida por adequação e ao mesmo tempo por liberdade. Nossa, ser uma pessoa adequada e livre ao mesmo tempo é uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Será mesmo tão necessário pensar nisso agora? Deixe-se em paz.

Não dê tanta importância à melhor roupa para vestir, à melhor frase para o primeiro encontro, às calorias que deve queimar, à melhor resposta para quem lhe ofendeu, às perguntas que precisa fazer para se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Deixe-se em paz.

No fundo, estou escrevendo pra mim mesma. Não me deixo em paz. Estou sempre avaliando se agi certo ou errado, cultivo minhas dúvidas com adubo e custo a me perdoar. Tenho passe livre para o céu e também para o inferno. Preciso me deixar em paz, me largar de mão, me alforriar.

Só falta alguém ensinar como é que se faz isso.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010



31/12/2010 e 01/01/2011 | N° 16566
NILSON SOUZA


Fábulas de 2010

Acabei de ler A Espécie Fabuladora, de Nancy Huston, que começa com a instigante pergunta de uma presidiária à escritora canadense: “Para que inventar histórias quando a realidade já é tão extraordinária?”. A resposta é o livro – e é imperdível. Não vou estragar o prazer de ninguém revelando o seu conteúdo.

Só peguei a pergunta como gancho para repassar nesta crônica o ano extraordinário que está terminando. Basta uma revisão superficial para constatarmos acontecimentos mais fantásticos do que em qualquer ficção.

Os terremotos também matam anjos, descobrimos logo nos primeiros dias, quando a terra tremeu no Haiti e os prédios desabaram sobre a nossa missionária da paz e das crianças desnutridas, a catarinense Zilda Arns. Depois, o Chile também tentou sair do lugar, sepultando centenas de pessoas.

Em seguida, aquele vulcão islandês que consome no nome todas as consoantes do alfabeto cobriu a Europa de fuligem, interrompendo as estradas do céu. Tão logo foram desobstruídas, um avião com 104 passageiros estatelou-se no Líbano – e dos destroços de ferro e fogo ressuscitou um menino holandês de nove anos, único sobrevivente deste enredo fantástico escrito pela realidade. E era só o começo.

É segredo, cantou a Unidos da Tijuca em seu enredo – e, num passo de mágica, em plena passarela, sem que a multidão percebesse, trocou a roupa das meninas bailarinas.

Enquanto a Espanha dava show de bola na terra de Mandela, mister WikiLeaks contava ao mundo que as tropas americanas não só detonaram civis no Afeganistão como também deixaram tudo registrado em documentos secretos. De repente, todos nos demos conta de uma nova realidade: não há mais segredo na era do iPad.

Mas ainda há muita intolerância. O Prêmio Nobel da Paz vai para... o chinês Xiaobo, inofensivo poeta, que apodrece numa prisão da ditadura porque ousou assinar um manifesto em favor de reformas democráticas em seu país.

Ano de contrastes, este: enquanto uma mulher é condenada à morte por apedrejamento, outra sai da clandestinidade para entrar na História do Brasil, pela rampa do Palácio do Planalto.

Há, sim, luz no fim do túnel do obscurantismo. A ela chegaram, depois de 77 dias de sepultamento em vida, 33 mineiros chilenos, protagonistas do mais emocionante resgate dos nossos dias e, provavelmente, de todos os tempos.

Chega ou precisa mais?

O ano confirmou a dúvida da presidiária: para que inventar histórias?

Well, chegamos ao último dia de 2010. FELLIZ ANO NOVO. Que em 2011, aconteça a realização de todos os seus sonhos.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010



29 de dezembro de 2010 | N° 16564
MARTHA MEDEIROS


Que raios estou fazendo aqui?

Não há revista ou jornal que não traga matérias sobre lugares encantadores para se conhecer. Viajar deixou de ser um luxo para se tornar quase obrigatório. São tantas promoções e pacotes, que fica mesmo difícil resistir.

Adoro viajar e adoro livros de viagem, incluindo os de ficção. Geralmente, as narrativas confirmam a ideia de que viajar abre horizontes, traz novos conhecimentos e nos aperfeiçoa como seres humanos. Compensa suportar voos atrasados, cansaço e imprevistos, pois receberemos o Éden em troca. Quanto às roubadas, ninguém dá um pio. É proibido falar “antipatizei com Paris” ou “achei o Caribe um tédio”. É de bom-tom gostar de tudo e, se a viagem for para um destino exótico, convém gostar mais ainda, para não passar recibo de preconceituoso.

Deve ser por isso que me diverti com o livro Eu, Minha (Quase) Namorada e o Guru Dela, do inglês William Sutcliffe. O livro conta a história de um garoto de 19 anos que é pressionado pelos amigos a sair de Londres para fazer uma viagem de aventura em seu período de férias.

Por quê? Ora, porque todo mundo faz. Bem que ele gostaria de passar as férias em casa se empanturrando de porcaria em frente à TV, mas acaba conhecendo uma guria que está de partida para a Índia e, muito refinado, pensa: “Essa mina está me dando mole, vou viajar com ela e me dar bem”.

A “mina” quer encontrar o próprio eu, enquanto que o garoto, nos primeiros cinco minutos em Délhi, quer encontrar uma pousada com ar condicionado. A moça encara todas as privações com enlevo, já que está num tour espiritual, enquanto nosso amigo inicia um tour pelo inferno, e cabe a nós, leitores, não ligar para o fato de não estarmos com um Balzac ou Tchekhov nas mãos.

Ler as aventuras de um estudante que declara ódio à Índia assim que aterrissa, e que odeia todos os mochileiros que lá estão, e também todos os viajantes sem dinheiro que escolhem ir para lugares insalubres com o intuito de procurar o próprio eu, nos faz viajar com ele para o adorável mundo do politicamente incorreto, que hoje é quase um ponto esquecido do mapa.

O livro é engraçadíssimo. Certamente já entramos em alguma roubada que nos fez lamentar ter nascido, porém, muito ponderados que somos, catalogamos o incidente como “uma experiência de vida”. Mas o personagem não tem essa condescendência. Ele quer cortar os pulsos e engolir três caixas de veneno pra rato. E tem motivo.

Nunca embarquei numa fria colossal, mas já passei alguns maus momentos em viagens, quase sempre por falta de informação. Mas quando sobra humor e presença de espírito, mesmo a mais medonha das viagens rende algumas risadas na volta. Ou inspira um livro cômico e despretensioso para ser lido numa tarde de verão.

Em tempo: não conheço a Índia. Me atrai mais ou menos. Sei de pessoas que veneram a cultura e as peculiaridades locais. E de pessoas que não voltariam a colocar os pés lá nem para salvar um filho. Por ora, ainda não incluí o país na lista dos “100 lugares que não posso morrer sem conhecer”, mas vá saber. Tudo é uma experiência de vida.

Aproveite o dia. Uma linda quarta-feira para você.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010



28 de dezembro de 2010 | N° 16563
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Como um romance

Às duas e meia da tarde de 24 de setembro de 1834 morreu um homem jovem em Lisboa. A autópsia revelou que a tuberculose tinha consumido quase todo o seu pulmão esquerdo. O coração e o fígado estavam hipertrofiados, os rins e o baço não gozavam de melhor saúde.

Esse homem tinha 35 anos e era D. Pedro I, Imperador do Brasil e Rei de Portugal, e acabava de vencer uma sangrenta guerra civil contra D. Miguel, seu irmão, absolutista, enquanto ele era liberal.

Esse é apenas um fragmento do livro 1822, de Laurentino Gomes, que há semanas lidera as listas dos best-sellers e promete manter-se nelas por muito tempo mais. Trata-se de um biografia do criador do Brasil, mas lê-se como um romance, aliás como 1808, a obra anterior do autor.

Até certa altura do livro, o que se vê é um personagem mais preocupado em levantar saias e levar damas para a cama – a começar pela Marquesa de Santos – do que um estadista mais preocupado em construir uma nação.

Pouco a pouco, no entanto, o marido perpetuamente infiel de D. Leopoldina assume um caráter que se sobrepõe à sua época, candidatando-o a um lugar na História. É assim especialmente quando a trajetória de sua vida se confunde com a do Império que fundou.

Foi graças em grande parte devido a ele que o Brasil se manteve íntegro – um território, um povo, uma língua –, enquanto seus vizinhos latino-americanos se decompunham em dezenas de repúblicas.

Foi assim quando soube tratar as lutas internas com isenção e sabedoria. Foi ainda assim quando entregou a guarda de seus filhos a José Bonifácio. A propósito: o capítulo que trata de sua correspondência com o futuro D. Pedro II é, no mínimo, comovedor.

O excelente Laurentino Gomes acena com um próximo volume – 1889.

A História deste país é grande demais para ficar entregue aos arquivos e fichários.

Lindo dia para você. Aproveite a terça-feira.

domingo, 26 de dezembro de 2010



26 de dezembro de 2010 | N° 16561
MARTHA MEDEIROS


A vida em um flash

O que valoriza nossas ações não é a ansiedade: é a entrega

O ano passado passou tão apressado/eu sei que foi um corre-corre-corre danado.... E pensar que Rita Lee gravou esta música, Corre-Corre, há 30 anos, quando nem corríamos tanto assim. Ou será que esta impressão de vivermos com pressa vem desde sempre?

Tudo do que reclamamos hoje já foi reclamado um século atrás, e não duvido que daqui a cem anos as pessoas digam: “No início dos anos 2000 a vida era tranquila, não havia esta urgência de hoje”.

Eu não sei quais serão as urgências futuras, mas conheço bem as nossas. Temos relógios digitais espalhados pela cidade nos lembrando que faltam 10 minutos para a reunião começar, sete minutos para o banco fechar, dois minutos para a aula do seu caçula terminar: o que você ainda faz aí, no meio da rua? Corra.

Se não são os relógios, são os espelhos. Impiedosos, avisam: você não tem mais 15 anos. Nem 20. Nem 30. Se quiser ter um filho, apresse-se. Não importa que ainda não tenha encontrado um amor estável, arranje qualquer pessoa, mas, simplesmente, apresse-se.

E o espelho segue avisando: você não tem mais 35. Nem 40. Nem 45. O futuro está encolhendo a sua frente. O que está fazendo aí parado no mesmo casamento, parado no mesmo emprego, parado em frente à tevê? Reparou como todo mundo se diverte lá fora? Não sabe que vai morrer um dia?

Sim, sabemos que não somos eternos. Os telejornais não fazem outra coisa a não ser nos lembrar disso, mostrando cenas sortidas de violência e cultivando nosso medo dia após dia. Ou então são os manuais de autoajuda e matérias de revistas que ordenam: aproveite o momento, aproveite a vida! E aproveitar a vida passou a ser sinônimo de algo que tem que ser feito emergencialmente, ou você estará jogando a vida fora.

Calma.

Nem sempre é rentável esta economia de tempo: chegar mais rápido, fazer mais rápido, consumir mais rápido. O que sobra em nossas mãos? Coisa nenhuma. Nem mesmo a lembrança do que foi realizado, só uma vaga sensação do dever cumprido, como se fôssemos soldados a serviço do calendário.

O que valoriza nossas ações não é a ansiedade: é a entrega. E entrega requer um certo relaxamento. Tempo para falar, para ouvir, para fazer, para desfazer, e fazer de novo, até acertar. Tempo para si, para o outro e para o nada.

Fazer nada virou a tarefa mais angustiante para o ser humano esquizofrênico de hoje. Não é à toa que há um bom número de pessoas que prefere não tirar férias: como preencher um dia livre? Nesta cultura atual do “não desperdício”, pobre daquele que deitar o corpo no sofá, colocar uma música para tocar e desligar o telefone. Terá que se entender com a culpa.

Dedicação, cuidado, foco, tudo isso demanda uma certa introspecção. Um pouco de resguardo. Conectar-se com os próprios pensamentos e emoções é exercício dos mais produtivos. É quando a gente, em silêncio, encontra as respostas para nossas inquietações e descobre os melhores caminhos para atingir nossos objetivos.

Pressa exige atenção para o lado de fora, apenas. E o lado de dentro? Neste corre-corre danado, talvez o que mais estejamos fazendo é justamente perder tempo.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010



24/12/2010 e 25/12/2010 | N° 16559
NILSON SOUZA


Vidas presentes

George Lucas, um dos magos do cinema, tem um projeto para ressuscitar atores falecidos, recuperando suas imagens por meio da tecnologia digital e recolocando-as na tela ao lado de personagens atuais. Tudo é possível no admirável mundo novo da computação gráfica. Quem sabe em breve não veremos Marilyn Monroe competindo em charme e beleza com Charlize Theron ou um duelo de capa e espada entre Errol Flynn e Johnny Depp?

Mas, quando se trata de reencarnação, a vida real continua sendo mais fantástica do que a ficção. Eu mesmo tenho uma história dessas para contar. Por muitos anos, olhei com desdém uma foto de meus bisavós, os quais não conheci. No álbum da família, eram apenas dois velhos sentados diante de uma casa de madeira humilde – o homem com uma perna cruzada sobre a outra, barba branca e olhar fixo num futuro que também não conheceria. Pois agora acho que ele olhava para mim.

Quando me tornei adulto e comecei a deixar a barba crescer, modismo dos anos 70, ouvi várias vezes um comentário de minha mãe:

– Estás cada vez mais parecido com o meu avô.

Como só sabia do homem pela foto antiga, nunca levei muito a sério a comparação. Na semana passada, porém, sentei-me distraidamente numa cadeira da casa, cruzei a perna e olhei sem querer para um espelho que refletia a minha imagem. Levei um susto: lá estava o bisa da foto, me olhando serenamente, sem refletir o meu sobressalto. Ao menos na aparência, meu bisavô voltou em mim.

Mas um dos casos mais espantosos de ressurreição por semelhança é o da conterrânea Elis Regina, que saiu do IAPI, transformou-se numa estrela e voltou pela voz afinada de Maria Rita. Elis, na minha adolescência, era uma foto colorida pendurada na parede do meu quarto. Meu amigo Tetelo, que também já virou estrela e ainda não retornou, foi quem me ensinou a amá-la.

Se ainda estivesse por aqui, tenho certeza de que ele choraria de emoção ao ouvir Maria Rita interpretando a canção símbolo da RBS, que coincidentemente enaltece a vida. As pessoas voltam, sim, às vezes num olhar, às vezes num gesto, outras vezes num timbre vocal característico.

Para quem ouviu Elis cantando, é um presente de Natal maravilhoso ouvir Maria Rita reviver a mãe numa canção tão nossa. Basta a gente fechar os olhos e lá está Elis, balançando os braços e encantando multidões com sua voz do mais precioso cristal:

– É mentira, é verdade... E quem sabe a vida é da vida a razão...

Aproveite o dia. FELIZ NATAL...Que o Papai Noel seja generoso com vc e realize, senão todos, a maioria dos seus sonhos.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010



21 de dezembro de 2010 | N° 16556AlertaVoltar para a edição de hoje
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA

O Caso Kliemann

Sou obrigado a declarar-me meio parceiro do último livro de Celito De Grandi. Acompanhei, aos 17, 18 anos, toda a formidável teia de tragédias que abalou não apenas um homem e sua família, mas toda a sociedade do Rio Grande do Sul.

Nos países do Primeiro Mundo, lá onde fica a Cultura, são naturais as investigações, pesquisas e depoimentos sobre os grandes fatos que atentaram contra a convivência civilizada. Mais do que isso, são correntes as análises a respeito das pessoas que protagonizaram esses acontecimentos. Agora, um autor gaúcho captou ambas as vertentes, para compor uma clara síntese dos dois crimes e sua circunstância.

E o mais relevante: o fez com extraordinária honestidade, com serena precisão e justo equilíbrio, com aquela isenção que é privilégio dos jornalistas que merecem o nome.

Não vou contar aqui a trama da obra, mesmo porque ela se explica por si mesma. Mas como foi um notável best-seller, ouvi diversas versões acerca de quem foi o verdadeiro assassino da bela Margit Kliemann. Isso hoje faz parte da História.

Mas é o próprio escritor que, ao descrever os traços da tragédia do palacete da Rua Barão de Santo Ângelo, desenha o retrato sem retoque do assassino, que está longe de ser o deputado Euclydes Kliemann.

Outros tempos, outros usos. Se não se houvesse formado, em setores da imprensa gaúcha, o circo ao redor do bárbaro assassinato, com a invenção de personagens, a multiplicidade de versões, a alquimia de autores, o crime dos Moinhos de Vento não se sustentaria nas manchetes mais do que umas semanas.

Mas como tudo era permitido, a começar pela Repartição Central de Polícia e as mesas das Redações, formou-se uma fabulosa trama, que arrombou a privacidade de dezenas de pessoas.

Foi exemplar, a esse respeito, a atitude superior e límpida das filhas do deputado Kliemann, respondendo com sensatez e tranquilidade as perguntas que lhes foram dirigidas agora. E modelar a forma com que Celito De Grandi abriu a porta dos guardados, para que, com ética e sensibilidade, fizesse entrar ar puro em um território que há muito clamava por claridade.

Precisamos de outros livros assim. E não apenas por reporem o sentido e o norte do real jornalismo investigativo, mas por comprovarem que o gênero é irmão da boa literatura.

Um lindo dia pra você. Saudades da Primavera, mas a partir de hoje é o verão que está ai a pleno vapor. Um gostoso Verão pra você. Hoje e amanhã estarei na terra do Erico Veríssimo

sábado, 18 de dezembro de 2010



19 de dezembro de 2010 | N° 16554
MARTHA MEDEIROS


Carta ao Papai Noel

Meu sonho é um mundo classudo e isso não tem nada a ver com roupas, carros ou joias

Se você ainda não aderiu à campanha promovida pelos Correios, de buscar uma cartinha escrita por uma criança carente e ser seu Papai Noel, largue tudo o que está fazendo e trate de colocar o gorro e vestir as botas.

Nada pode ser mais gratificante nesta época do ano do que atender ao pedido de meninos e meninas cujo sonho é ter o uniforme do seu time, ter uma casinha de bonecas, ter material escolar, ter uma bola, ter um skate. Eles não pedem novos iPods e iPhones, não pedem notebooks, games ou viagens de intercâmbio, eles pedem a nostalgia dos nossos desejos infantis. Um passo a frente para eles, um resgate importante para nós, que temos tudo, menos a lembrança de um tempo em que também sonhávamos com o prosaico.

Se eu acreditasse em Papai Noel, escreveria para ele solicitando que essas crianças sejam também atendidas naquilo que elas nem pedem: afeto, cuidado, educação e acesso ao lado onírico da vida. Que essas crianças consigam assistir aos comerciais de tevê sem se sentirem excluídas desse universo megaconsumista e tecnológico, que elas continuem sonhando com casinhas de bonecas e carrinhos, sem desmerecer o que é de plástico.

E pediria também, Papai Noel, que essas crianças tenham um pai, uma mãe, um avô, uma avó, um tio, um irmão mais velho, algum familiar que lhes dê um foco, que passe adiante um valor maior, que saiba ensiná-los a distinguir entre o fútil e o primordial, lembrando que o primordial é imaterial: valorização da música, da arte, do esporte, da saúde, dos bons modos, da elegância de atitude. Ser elegante não é coisa de gente rica.

Tem muita gente rica que nem é. Ser elegante é não poluir a cidade, não ser arrogante, não ver como inimigos os que pensam e agem de forma diferente. Papai Noel, meu sonho é um mundo classudo, e isso não tem nada a ver com roupa, carros ou joias.

Ver as pessoas se comportando com mais cortesia e amabilidade me encantaria tanto quanto apreciar uma vitrine de bonecos em Nova York, tanto quanto um desfile no Natal Luz de Gramado, seria como me transportar para aquelas bolas de vidro que a gente vira de cabeça pra baixo para fazer nevar. Não tenho nada contra a pieguice da inocência.

Pra mim, Papai Noel, queria mais compreensão. Não dos outros, mas de mim mesma. Queria entender melhor meus medos, minhas carências, minha criancice tão dissimulada em meio a afazeres pretensamente adultos. Queria escutar a menina que ainda sou, entendê-la e satisfazê-la em suas travessuras. A menina em mim esperou eu crescer para se rebelar. Hoje ela me dá ordens: vai viver, deixa de pensar!

Papai Noel, me faz parar de pensar tanto. Se eu continuar pensando tanto, ponderando tanto, deixarei de ouvir a menina em mim e de acreditar na felicidade contida nas coisas simples, como casinhas de boneca e autinhos de plástico.

Gostoso domingo para você. Bom início de semana.

Ruth de Aquino - raquino@edglobo.com.br

A mente de nossos filhos

“Uma refeição por dia em família pode diminuir em até 80% o consumo de drogas entre os filhos – e também ajuda a combater a violência na rua, na escola e em casa.” A afirmação é do psiquiatra infantil Fábio Barbirato, autor do livro A mente do seu filho. Se as crianças aprendem por imitação, que modelos nós, os pais e mães modernos do século XXI, fornecemos em casa? O que ensinamos a nossos filhos? Temos tempo de transmitir algum valor ou de escutá-los?

Nunca foi fácil educar. A fronteira entre a autoridade e a compreensão é um aprendizado. Impor regras pode descambar para a repressão, a violência verbal, moral e física. Ser amigo pode descambar para a condescendência, a tolerância excessiva, a falta de limites.

Qualquer dos extremos ajuda a formar crianças e adolescentes desequilibrados, inseguros, arrogantes e antissociais. Jovens batem nos colegas da escola, matam a pauladas torcedores de times de futebol adversários, espancam prostitutas, agridem homossexuais com lâmpadas fluorescentes, incendeiam mendigos, suicidam-se no trânsito.

Ou mergulham em drogas que incapacitam para sempre, como o crack. “Infelizmente, de duas décadas para cá, os pais, para tentar se aproximar dos filhos, resolveram se tornar amiguinhos. Saem para a noite com os filhos, sentam em uma mesa de bar e bebem todas com eles”, diz Barbirato. Mães se vestem e falam como se tivessem a idade das filhas.

Você é daqueles que ensinam a seu filho que só os fortes sobrevivem? Quando seu filho é irresponsável, você suborna o policial que o flagrou? Minimiza e diz “Tadinho dele, não queria fazer aquilo”, ou pior, “Os outros mereciam mesmo”? Ser amigo é uma coisa. Ser cúmplice é outra.

O bullying é apenas uma expressão de violência juvenil. O nome vem de bully, algo como valentão, na tradução do inglês. Nos episódios de bullying, há sempre um desequilíbrio de poder, que pode ter começado em casa, com a sensação de impunidade.

Por que dar um carro superpotente a alguém que acaba de fazer 18 anos? Sua prudência ainda está se desenvolvendo, diz Barbirato. “O menino pensa: meu pai bebe um pouquinho quando saímos e dirige – por que eu também não posso beber um pouquinho, como ele?” Nos anos 60, o jovem buscava nas drogas ilícitas algo para transcender.

Hoje, sem causa ou ideologia, o jovem quer é ficar doidão para reduzir a ansiedade ou a melancolia, e por isso submerge no crack. É a crença da onipotência. E ele não consegue mais sair. Se as crianças aprendem por imitação, que modelo os pais e mães modernos fornecem em casa?

Culpar o aumento de divórcios é uma saída simplista e preconceituosa. “Não são as separações amigáveis que concorrem para a violência. Falo sempre dos filhos daqueles casais que não sabem mais conversar, numa casa onde tudo acontece aos berros ou agressões. Atribuir a culpa à mãe que hoje precisa trabalhar fora é outra visão ultrapassada e machista demais.” Construir um senso de família vai além. Para educar, é preciso ter educação.

Já se tornou clichê valorizar a qualidade, e não a quantidade, de tempo com os filhos. Não há base estritamente científica para se afirmar que uma refeição por dia em família contribua para reduzir o desajuste dos filhos. Mas tendo a concordar com Barbirato. O convívio perdido à mesa é irreparável.

Sou mãe de dois filhos, separada, e lembro quando o mais velho, aos 18 anos, reclamou abertamente: “Mãe, nós não fazemos juntos nenhuma refeição por dia durante a semana”. Isso foi há uma década. Tive sorte, porque ele me chamou a atenção e porque desejava a minha companhia.

Antecipei a hora de chegar do trabalho para poder jantar com os dois. É um momento para conversar sobre o dia. Confidências emergem. O diálogo se mantém olho no olho, e não por SMS ou e-mail.

Temas polêmicos são discutidos. É hora de falar de valores, compartilhar verdades, mesmo incômodas. De preferência, com o celular desligado! Sem tuitar, sem dispersar. A indiferença com o outro me parece hoje um grande desagregador familiar. O vício da conexão nos desconecta uns dos outros dentro do que um dia se chamou de lar.

Em 2011, jante ou almoce com seus filhos em casa – e não só aos domingos.


18 de dezembro de 2010 | N° 16553
NILSON SOUZA


Num piscar de olhos

Frequentadora assídua e involuntária deste comentário semanal, a Menina dos Meus Olhos acaba de virar um ciclo de sua vida – a passagem do Ensino Médio para a universidade. Está com 17 anos. Num piscar de olhos, a garotinha que queria sempre ser a primeira da fila pelo privilégio de pegar a mão da professora salta da infância para o mundo adulto em busca de uma profissão, de um lugar ao sol no mercado de trabalho e de seu próprio destino.

O coração aperta, sinto a areia escorrer entre os dedos, mas sei muito bem que é hora de soltar as amarras do afeto para que o barco da individualidade encontre seu rumo.

Durante os 11 anos de sua vida escolar, que acompanhei com atenção e curiosidade, procurei compartilhar com os leitores muitas de suas descobertas, sempre mantendo-a no anonimato do apelido carinhoso. Fi-lo, como diria aquele ilustre gramático, por intuir que cada leitor e cada leitora têm os seus meninos e as suas meninas dos olhos, as crianças que amamos incondicionalmente porque são a luz da nossa existência.

Sempre com o cuidado de preservar sua identidade e sua intimidade, relatei aqui algumas aventuras e desventuras dessa viagem coletiva chamada adolescência. Pelos retornos que recebi, tenho certeza de que muita gente pegou carona nos meus relatos. Uma leitora amiga e querida, inclusive, já me sugeriu que transforme em livro a passagem da Menina dos Meus Olhos por estas crônicas. Nunca tive tal pretensão, mas, por cortesia, prometi pensar no assunto.

Meu propósito sempre foi mais singelo: capturar retalhos do cotidiano da menina que vi crescer e costurá-los em textos que desafiem outras pessoas a prestar atenção nas infâncias e adolescências que as cercam.

Estou convencido de que os habitantes destes mundos de dúvidas e encantos têm muito a nos ensinar, porque são criativos, espontâneos, alegres, sinceros e carinhosos – embora, às vezes, também possam ser carentes e inseguros. Não é incomum que corram para a frente da fila apenas porque querem segurar a nossa mão.

A Menina dos Meus Olhos deixou a escola para trás, também ela com a alma dolorida por se separar de amigos e professores com quem dividiu mais da metade de sua vida.

Com eles, tenho certeza, aprendeu lições importantes para encarar o futuro. Mas a principal, a que mais me gratifica e me dá certeza de que tudo valeu a pena, é exatamente a valorização de suas amizades e de seus afetos. Se ela aprendeu a amar como é amada, tenho certeza de que nada lhe faltará.

Boa sorte, Daniele.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010



15 de dezembro de 2010 | N° 16550
MARTHA MEDEIROS


Uma casa

Nesta época do ano, fico mais observadora do que de costume. Cada pessoa que vejo passar pela rua me inspira uma história: quem será que ela ama, por quem sofre, em que trabalha, onde passou a infância? Todos nós temos uma casa da infância. Uma casa que provavelmente não existe mais porque em seu lugar foi construído um edifício. O passado morre de terraplenagem.

Hoje há apenas duas maneiras de se manter uma casa em pé, sobrevivente em meio às cidades altas. A primeira: ter gente dentro. Os moradores ainda estarem vivos e não só vivos, mas apegados às suas recordações, respeitosos do lugar onde criaram seus filhos, onde foram felizes secretamente.

Tenho uma tia que mora num casarão no bairro Petrópolis e que recebe visitas diárias de corretores, deve ser a única da redondeza que ainda não se rendeu. Podem lhe oferecer a cobertura mais espetacular do planeta, dali ela não sai. Não se trata apenas de abrir mão de uma casa em troca de um apartamento, mas de abrir mão de cada lembrança que os aposentos guardam. Toda casa antiga é uma casa dos espíritos.

A outra maneira de se manter uma casa em pé, frente à ausência de seus moradores, é transformá-la num centro cultural.

Sim, há quem as transforme em restaurantes, e não vejo mal algum nisso, mas um país precisa mais de centros culturais do que de restaurantes, ao menos o jovem Brasil, tão precário de memória.

Quem conheceu Caio Fernando Abreu sabe que a casa em que moravam seus pais, e em que ele próprio morou por alguns anos, a casa em que ele viveu seus derradeiros dias, a casa em que ele era dono de um quarto, a casa onde havia um jardim por ele vigiado, a casa do Menino Deus, essa casa era um personagem da sua história pessoal.

Essa casa hoje está à deriva e, se nada for feito, não demorará para virar mais um prédio de apartamentos. A casa onde Caio sonhou, viveu e escreveu poderá vir abaixo, a não ser que abaixo assinemos.

A Associação dos Amigos de Caio Fernando Abreu está liderando um movimento a fim de transformar a casa do Menino Deus num centro cultural que possa abrigar a extensa obra do escritor e servir de espaço para saraus, lançamentos de livros e demais manifestações artísticas.

Para isso, precisa de apoio, de boa vontade e da interferência do governo municipal, estadual e, por que não, federal, já que Caio Fernando era de Santiago do Boqueirão tanto quanto de Porto Alegre, São Paulo, Rio e, vamos além, também de Londres e Berlim. O tal cidadão do mundo.

Os amigos do Caio estão mobilizados, mas sem incentivo público e privado pouco se poderá fazer. E o que há para fazer? Comprar a casa e reformá-la. E entregá-la a uma administração eficiente e afetiva, que saiba preservar a obra de um gaúcho que tanto contribuiu para nossa cultura.

Informações: salveacasadocaio@gmail.com; amigosdocaiof@gmail.com e Liana Farias: (61) 8502-0590.

O intrépido Caio F. ficaria louco de faceiro.

Uma gostosa quarta-feira pra você. Aproveite.