sábado, 19 de fevereiro de 2011



20 de fevereiro de 2011 | N° 16617
MARTHA MEDEIROS


O que quer uma mulher?

Uma mulher quer ser egoísta, mas também quer colocar comida na mesa, ter filhos, ser amada e cada dia mais feliz

Uma mulher quer que suas unhas não quebrem nem descasquem. Uma mulher quer se sentir atraente com o peso que tem. Uma mulher quer ver seu trabalho valorizado. E quer ganhar dinheiro com ele. Uma mulher quer ser amada. Quer viver apaixonada. E quer se divertir.

Poderíamos encerrar a questão neste primeiro parágrafo, mas como a página necessita ser preenchida, avante.

Uma mulher quer ter filhos. Ou já quis um dia. Uma mulher com filhos quer ter mais tempo pra ela. E uma mulher com tempo de sobra quer uma rotina mais agitada. Uma mulher só não quer o tédio.

Uma mulher quer um cabelo que não precise ser constantemente pintado, arrumado, escovado. Um mulher quer conversar. Uma mulher quer ficar em silêncio. Uma mulher quer que lhe telefonem de surpresa e lhe digam coisas que a façam ficar sem palavras. Uma mulher quer deixar um homem maluco. E ter, ela mesma, o direito de enlouquecer.

Uma mulher quer aprender a ser mais egoísta. Quer, ao menos uma vez na vida, pensar só nela e em mais ninguém.

Uma mulher quer inspirar um poema. Quer ser musa. Mas não quer ser confundida com mulher que não controlam a própria vaidade e pagam mico nas páginas das revistas.

Uma mulher quer colocar comida na mesa e que as crianças raspem o prato, uma mulher quer seus filhos saudáveis e felizes, uma mulher quer que eles durmam a noite toda, de preferência em casa.

Uma mulher quer desligar a tevê.

Uma mulher quer sexo. Uma mulher quer devorar um pão de meio quilo sem culpa. Uma mulher quer sair bonita na foto. Uma mulher quer dormir mais cedo. Uma mulher quer ser reparada na festa.

Uma mulher quer que seu carro não a deixe na mão. Uma mulher quer ser escutada. E quer escutar os homens, que pouco se abrem.

Uma mulher quer fazer algo pela sociedade. Quer ajudar quem precisa. Quer ser útil. Em troca, quer que a ajudem com as sacolas. E que a amparem na dor.

Uma mulher quer ter o gostinho de dizer não para os cafajestes. Por mais que ela queira dizer sim.

Uma mulher quer morrer de rir.

Uma mulher quer que não a levem tão a sério. Quer batalhar por seus ideais sem se embrutecer. Uma mulher quer de vez em quando demonstrar seus dotes de atriz. Uma mulher quer brilhar no escuro.

Uma mulher quer paz. Uma mulher quer ler mais, viajar mais, conhecer mais. Uma mulher quer flores. Quer beijos. Quer se sentir viva. E quer viver pra sempre, enquanto for bom. Está respondido, doutor Freud. Não somos assim tão complicadas.

A colunista Martha Medeiros está de férias e retorna na semana que vem. Esta coluna foi publicada originalmente em 6 de março de 2005.


19 de fevereiro de 2011 | N° 16616
NILSON SOUZA


O gordo vencedor

Ronaldo fez o Brasil inteiro chorar com ele ao se despedir de uma carreira esportiva tão brilhante quanto acidentada. Poucos atletas no futebol viveram de forma tão intensa a glória e a desgraça. Ele foi campeão mundial pela primeira vez aos 17 anos – sem ter tocado na bola, é verdade –, e oito anos depois conquistou novamente o título mais importante do principal esporte do planeta, desta vez com todos os méritos.

Fez bem mais: tornou-se o maior artilheiro em Mundiais e foi três vezes reconhecido pela Fifa como melhor do mundo. Também teve uma trajetória internacional extraordinária, nos clubes mais badalados da Europa e participando pelos dois lados das maiores rivalidades da Espanha e da Itália.

Seu currículo é incomparável.

Suas dores também. Operou o joelho quando atuava pelo PSV, teve uma convulsão na Copa da França, rompeu o tendão patelar na Inter de Milão, teve problemas musculares no Real Madrid, estourou o outro joelho com a camisa do Milan e passou a ter lesões sucessivas até o fim de sua carreira, no Corinthians. Mas sempre deu a volta por cima. Caiu e levantou tantas vezes, que fez jus ao apelido de Fenômeno. Só não conseguiu superar um adversário inflexível e, às vezes, indriblável: a balança.

Tornou-se um gordo. Talvez por efeito dos anabolizantes receitados pelos clubes europeus para dar-lhe massa muscular, talvez pelo distúrbio de tireoide revelado em tom de habeas corpus na entrevista derradeira como atleta, provavelmente pela conjugação das duas coisas e também por um certo descuido com o preparo físico, o fato é que se tornou um gordo. E os gordos, como todos sabemos, sofrem restrições de todo tipo, ainda mais no futebol.

O gordinho da pelada de rua, no máximo, vai para o gol. O gordo da turma carrega todos os apelidos e vira protagonista de anedotas e brincadeiras nem sempre delicadas. O gordo da tropa fica para trás e paga apoio na frente dos outros. O gordo anônimo é referência na arquibancada. E a gordinha da festa nem sempre acha par para dançar.

Apesar dos padrões de beleza atuais, na maioria das sociedades, privilegiarem os magros, os gordos podem ser muito felizes, sim, se tiverem saúde e boa cabeça, principalmente para encarar preconceito e incompreensão. O importante é que se sintam bem consigo mesmos e que, como Ronaldo, saibam erguer-se ainda mais fortes das inevitáveis quedas da existência humana.

Uma daquelas lágrimas do craque, tenho certeza, foi um desagravo a todos os gordos discriminados pela vida.

Gostoso sábado para você e um lindo fim de semana.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011



15 de fevereiro de 2011 | N° 16612
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Um canto do Centro

De tanto morar no mesmo lugar, começo a desconfiar de que as coisas me conhecem. Habito há tantos anos este trecho de Porto Alegre, que antes ficava na Rua João Manoel e agora se localiza na Rua Duque de Caxias, uma distante da outra não mais que alguns metros, que me sinto um pouco parte da paisagem.

É um lindo cenário. À esquerda fica o Jardim dos Chaves Barcellos, hoje infelizmente transformado num imenso estacionamento. À direita se contempla o parque do Solar dos Câmara, com suas árvores mais do que centenárias. E um pouco adiante se situa a Praça da Matriz. Para arrematar, conto com a vista dos que talvez sejam os mais antigos jacarandás desta mui leal e valorosa. Sem falar no espelho líquido do Guaíba.

Não imagino paisagem melhor. Duvido que na Capital haja panorama mais inspirador.

Mas de tanto viver por aqui, suspeito que ruas, árvores, jardins, parques, praças me conheçam tão bem quanto eu os identifico. Sou como uma parte do palco, um senhor levemente envelhecido, embora ainda em bom estado de uso.

Há outros pontos da cidade que também me seduzem, a começar pela quadra da Fernando Machado, logo abaixo da escadaria do belvedere, que parece sequestrado de Londres. Nisso se parece com o quarteirão da Félix da Cunha, construído à sua imagem e semelhança.

Admiro igualmente todo o belo espaço da Hidráulica dos Moinhos de Vento e de algumas ruas próximas, como a Santo Inácio e a Barão de Santo Ângelo. Percorro com prazer a Floresta, com particular agrado pelas redondezas da Igreja de São Pedro.

Perdi a conta das vezes em que fui caminhar, de manhã cedo, pelas alamedas do Parque da Redenção. Nunca esqueci as ocasiões em que trilhei as travessas tranquilas da Cidade Baixa.

Porto Alegre é rica em paisagens. É também uma terra de mulheres bonitas.

A combinação não poderia ser melhor.

Mas se eu tivesse que escolher a minha região preferida, não hesitaria em optar por este canto do Centro Histórico onde decidi viver.

Aqui árvores, muros e árvores, casas e pássaros, céus e calçadas parecem me conhecer pelo nome. E eu me sinto tão próximo deles como se fossem meus irmãos.

Ainda que com previsões de chuvas e ventos, uma linda terça-feira pra você.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011



08 de fevereiro de 2011 | N° 16605
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


A era da inocência

Falei esses dias dos trens de passageiros que ligavam Porto Alegre a Cachoeira e das belas lembranças românticas que me despertavam. Hoje, quero tratar dos bondes que escalavam bem aqui diante do edifício onde moro. Nunca pensávamos na época que era um meio de transporte em extinção.

Bem ao contrário, toda a Porto Alegre era cortada pelos veículos amarelos, movidos a eletricidade, que faziam mais ou menos os mesmos trajetos que hoje cumprem nossos poluentes ônibus, que se adonaram de suas rotas.

Mas o que os ônibus de agora jamais terão é o charme daqueles vagões, que podiam ser vistos aqui e nas principais cidades do mundo. Os Estados Unidos – salvo San Francisco – estão órfãos há décadas de seus primos da Carris. Mas a Europa, com sua sabedoria milenar, aprendeu a conservá-los.

Dirigi um bonde em Bremen, trafeguei em outro em Frankfurt, peguei vários em cidades da França. Não eram iguais aos nossos. Eram tranquilos, silenciosos, civilizados. Muitos tinham vários vagões, olimpicamente conjugados.

Não sei por que não temos algo semelhante em nossa Porto Alegre. Ao invés de corredores monótonos, teríamos um ar de cultura urbana. Ao invés de ruas e avenidas contaminadas pela fumaça de milhares de ônibus, teríamos um ar mais liberto de poluição. Ao invés do desafio do concreto, teríamos a ordenada geografia dos trilhos.

O bonde que passava aqui onde moro era o Duque. Tão familiar se tornou para todos nós, que os passageiros, os fiscais, os cobradores se conheciam e se cumprimentavam.

O nosso bonde era como uma grande família e percorria não só a rua de que tomava o nome, mas a Marechal Floriano – a parada da Casa Masson era famosa –, a Praça XV, a Sete de Setembro, a Rua da Praia, a Vasco Alves, com seu gingado sereno e apaziguador.

Mas havia dezenas de outras linhas, como o Gasômetro, o Petrópolis, o Independência, o Partenon, mais um punhado de outras que cruzavam o mapa da cidade. Muitos namoros começavam entre uma estação e outra e não poucos culminavam em troca de alianças.

Guardo uma nostalgia profunda dos bondes de minha cidade. Eles são como um símbolo da era da inocência, que terminou para não voltar nunca mais.

sábado, 5 de fevereiro de 2011



06 de fevereiro de 2011 | N° 16603
MARTHA MEDEIROS


Você, modo de usar

Negativismo, raiva, frustração, nada disso colabora com nosso metabolismo. É aí que pequenas atitudes podem fazer diferença

Quando caminho pelas ruas da cidade, ou mesmo quando circulo de carro, reparo em pequenos pontos comerciais em construção e na hora penso: tomara que seja uma livraria, tomara que seja uma papelaria, tomara que seja uma galeria de arte, tomara que seja um bistrô, tomara que seja uma floricultura. Vou acompanhando a obra com expectativa, até que um dia os tapumes são retirados e shazam: é mais uma farmácia.

O filme Amor e Outras Drogas dá uma amostra de como os laboratórios movimentam fortunas e estimulam o consumo de medicamentos de forma impulsiva e muitas vezes desnecessária. Remédio não é sorvete, não é banana, não é pãozinho. Mas o povo se acostumou a ingerir goela abaixo o que lhe sugerem, sem receita, sem critério, e a indústria farmacêutica prospera.

Conversava outro dia com uma amiga endocrinologista, e falávamos justamente sobre como tantas doenças poderiam ser prevenidas através da simples mudança de hábitos.

Ninguém renega a importância de uma campanha de prevenção contra o uso do crack, mas há um número ainda maior de pessoas se viciando em gordura, evitando legumes, se entupindo de refrigerante, não dando a devida atenção aos produtos orgânicos, abusando do sal, do açúcar e das frituras. Seria igualmente progressista uma campanha que alertasse: comer errado, nem pensar.

Esse é só um exemplo de como a falta de qualidade de vida pode adoecer e até matar. A causa de óbitos geralmente é infarto, câncer, infecção generalizada, falência múltipla de órgãos, mas algumas dessas doenças tendem a iniciar décadas antes, por meio de uma rotina de muito stress, ansiedade, angústia emocional e neuroses não tratadas. Negativismo, raiva, frustração, nada disso colabora com nosso metabolismo.

É aí que pequenas atitudes podem fazer diferença, como praticar atividades físicas, buscar algum recurso para relaxamento (ioga, meditação, terapia, religião, massagem), cultivar amigos, dormir bastante, usar filtro solar, cuidar da postura, beber muita água, controlar o peso, não fumar, não beber em excesso, fazer check ups periódicos – e não se drogar, lógico. Os médicos têm batido nessa tecla com insistência, mas ainda há quem considere esse blablablá improdutivo ou politicamente correto demais.

Tem nada a ver com politicamente correto, e sim com inteligência. E inteligência não se vende em frascos.

Farmácias comercializam produtos de primeira necessidade. Sem elas, não teríamos acesso a medicamentos fundamentais para nossa saúde mental e física, devidamente prescritos, mas precisamos de tantas?

Creio que teríamos uma sociedade bem mais saudável se a população contasse com inúmeros pontos de venda de livros, sucos, flores, livros, discos, bicicletas, livros, frutas, bolas de futebol, raquetes de frescobol, instrumentos musicais, sapatilhas, livros, livros e, claro, livros.

Ruth de Aquino

Um Congresso “transparente

Renato Cozzolino é um dos 41 deputados suplentes que fizeram um sacrifício pela nação. No calorão de janeiro, em recesso parlamentar, esses políticos abnegados, em vez de sair de férias com a família, substituíram titulares na Câmara.

Num mês de mandato-tampão, sem o Legislativo funcionar, essa turma conseguiu gastar R$ 298 mil com “consultorias, trabalhos técnicos e locação de veículos”. Investigamos por que Cozzolino, do PDT do Rio de Janeiro, pagou R$ 20 mil de sua cota a uma empresa de contabilidade.

O repórter Leopoldo Mateus, de ÉPOCA, foi ao escritório dessa empresa, a Star Serviço Técnico Contábil, citada no tópico “Transparência” do site da Câmara. O endereço fica no centro movimentado de Duque de Caxias, município da Baixada Fluminense. É um prédio verde de quatro andares, em cima de várias lojas. Quando você sai do elevador e vira para a direita, dá de cara com um aviso: “Escritório do Dr. Jairo. Entre sem bater”.

Há uma porta branca, com barras de ferro. Pilhas de processos em cima das mesas, pintura desbotada... e a moça grita para dentro: “Pai, tem um rapaz querendo falar com você”. Questionado sobre o serviço prestado a Cozzolino, Jairo de Souza Vieira afirmou: “Qualquer grande escritório no Rio cobraria R$ 150 mil pelo serviço que fiz para o Cozzolino.

Vou cobrar quanto para fazer um estudo desses? Dois, três mil reais? Não. Eu vou cobrar R$ 20 mil. Não trabalho de graça. Não fico dando recibo frio para ninguém, não. Fiz um estudo de umas quatro ou cinco laudas sobre o Estatuto da Mulher. O Cozzolino disse que ia fazer uma apresentação num programa de rádio”. Dr. Jairo não quis mandar as laudas por e-mail: “É sigilo profissional”.

Cozzolino tinha o direito de gastar em janeiro uma verba extra de R$ 26.800. Gastou R$ 21.776,77. O grosso foi para o Dr. Jairo. “Ele fez num mês um reestudo de minha vida política, que vou encaminhar a alguns parlamentares no momento oportuno”, disse Cozzolino ao telefone. O deputado, suplente de Brizola Neto, se disse orgulhoso de sua atuação como parlamentar por ter questionado os ingredientes da Coca-Cola: “Quem conhece alguém viciado em Guaraná?”.

Acreditamos em duendes, por isso achamos as despesas de Cozzolino normais. Não sabemos como os outros 40 deputados suplentes gastaram em janeiro a verba a que tinham direito, fora o salário de R$ 16.500 (agora catapultado para R$ 26.700). Eles apresentaram nota.

Deveríamos investigar. Afinal, o dinheiro é nosso.

Acreditamos em duendes, por isso achamos as despesas de deputados como Cozzolino normais

“Não temos lições de transparência a receber”, disse José Sarney em defesa do Congresso. O discurso do eternizado presidente do Senado soou auspicioso: “Nosso trabalho exige jamais aceitar qualquer arranhão nos procedimentos éticos”. Sarney disse que sua “honorabilidade” jamais esteve em questão e afirmou estar fazendo um “sacrifício”.

Em 2009, foram 11 os pedidos de cassação de seu mandato pelo escândalo dos “atos secretos”. Embora combalido pela idade, é o mesmo Sarney que esteve do lado da ditadura, como governador e senador pelo Maranhão, quando a Casa foi fechada, entre 1968 e 1977.

O Congresso de Dilma convive com anomalias inaceitáveis para um governo que precisa cortar gastos. No Senado, há 10 mil funcionários para 81 senadores. Na Câmara, a prioridade é erguer um anexo de R$ 130 milhões para abrigar mais parlamentares.

Do total de 513 deputados federais, 59 são réus em ações penais. E o xerife da Câmara, Dudu da Fonte, encarregado de garantir o decoro, é discípulo de Severino Cavalcanti – aquele que renunciou em 2005 para não ser cassado por causa de um esquema de propina. “Dudu aprendeu todas as lições que passei”, disse Severino.

Deve ser difícil mesmo aprender a ser deputado. A Câmara preparou uma aula para os 224 novatos com dicas sobre como votar, preparar projeto e se comportar no plenário. Romário faltou à aula. Depois, na reunião da bancada do PSB, cochilou.

Tiririca reapareceu depois de uma operação na vesícula: “Vamos aprender com os veteranos. Se Deus quiser”. Ele vai parar de ouvir a gozação popular: “E o palhaço o que é? É ladrão de mulher”. Aprenderá a ser mágico ou acrobata.


05 de fevereiro de 2011 | N° 16602
NILSON SOUZA


O rei gago

Um amigo viajante me presenteou com O Discurso do Rei, que estará na tela dos cinemas brasileiros na próxima semana e no palco do Oscar no dia 27, com nada menos do que 12 indicações para o prêmio. Já estou torcendo por ele, principalmente por alguns atores de desempenho espetacular. O filme conta o drama real do monarca britânico George VI, portador de uma gagueira paralisante.

É uma emocionante história de superação, que pega o espectador desprevenido em vários momentos. O rei gago (Colin Firth) é ótimo, mas o personagem mais fascinante é o terapeuta da fala interpretado por Geoffrey Rush – uma espécie de doutor House da fonoaudiologia. Fico por aqui, não quero estragar a surpresa de ninguém.

Mas quero comentar dois aspectos relacionados ao filme que talvez mereçam maiores reflexões. O primeiro deles é exatamente o mote da história, a gagueira, uma dificuldade de expressão que leva o portador a repetir sílabas ou a fazer grandes pausas entre as palavras. Invariavelmente, o gago é alvo de chacotas.

As pessoas acham engraçado ouvir alguém que trava na hora de dizer alguma coisa. Alguns ouvintes ficam ansiosos, tentam ajudar. É natural isso.

Tem até um caso folclórico do jornalismo esportivo que retrata bem esta angústia, embora não envolva gagueira. O locutor José Aldair, então âncora do principal noticioso da Rádio Gaúcha, costumava dar uma pausa na hora de ler a notícia sobre esportes. Com o seu conhecido vozeirão, dizia: “Essssss... portiva”.

Um dia estava lendo as notícias na presença do veterano comentarista Oswaldo Rolla, o Foguinho, que aguardava no estúdio a sua hora de entrar no Sala de Redação. Ao ver o companheiro trancar no “Essss...”, seu Rolla não teve dúvidas e completou com o seu sotaque cheio de erres:

– porrrtiva!

Os ouvintes devem ter dado boas risadas. Mas os gagos não acham a mínima graça das imitações e das anedotas de que são vítimas. A gagueira pode parecer um incômodo menor para quem não tem a dificuldade, mas é um grande problema para o seu portador.

Muitas vezes, mexe profundamente com a autoestima da pessoa, prejudica sua carreira e se torna um fator de exclusão social (e até mesmo familiar, como se vê no filme). Se não podemos ajudá-los a superar a imperfeição, como faz o irreverente terapeuta da história, o melhor que devemos fazer é procurar compreendê-los e respeitá-los.

O outro aspecto curioso, na minha interpretação, é que a maior riqueza do filme são exatamente os diálogos inteligentes – entre um rei gago e um plebeu de pouca conversa. Sinto-me tentado a ampliar o milenar aforismo: se a palavra é prata e o silêncio é ouro, a soma dos dois pode ser brilhante.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011



02 de fevereiro de 2011 | N° 16599
MARTHA MEDEIROS


Lúcifer no Fasano

Eu estava hospedada na minha avó, em Torres. Era verão de 1993. Estávamos só nós em casa naquele fim de tarde. Ela, com a autoridade de seus mais de 80 anos, chamou a moça que trabalhava pra ela, a Zaimara, abriu a carteira, tirou uma nota de R$ 10 e pediu: vai lá no Bazar Praiano e me traz uma revista Caras, por favor.

– Revista o quê?

– Caras. Primeiro número.

Minha vó, muito antenada, sabia que uma nova revista estava estreando no mercado. Uma revista que trazia apenas notícias de celebridades, e quis conferir. Eu já conhecia as versões latino-americanas e não me empolguei muito. Quando a Zaimara voltou com a revista (já lida de cabo a rabo), minha vó folheou uma página, outra página, mais uma, e sentenciou: “O que eu pensei. Porcaria”.

Tarde da noite, levantei pra pegar um copo d’água e vi luz embaixo da porta do quarto da minha vó. Como não havia televisão ali dentro, e muito menos um marido, concluí que ela estaria dando uma segunda e longa espiada na porcaria. Quem resiste?

O lançamento da revista Caras foi um divisor de águas. Competente em mostrar o dia a dia (e a noite adentro) de qualquer pessoa que tenha tido seus 15 minutos de holofote, a revista sedimentou a profissão dos paparazzi e modificou a relação do público com seus ídolos.

Se antes alguém era reconhecido por seu talento em atuar, cantar ou desfilar, agora era reconhecido pelo número de separações, pelo tamanho do biquíni e pelas viagens a castelos onde se janta em traje de gala e se fazem piqueniques usando duas camadas de maquiagem. Nunca a cafonice foi tratada com tanto glamour.

Não desprezo a revista, na qual já apareci uma ou duas vezes – nunca tomando champanhe dentro da banheira e tampouco deitada sobre um tapete de zebra vestindo um longo de cetim vermelho, digo em minha defesa. Escritora aparece no máximo com uma xícara de café em frente ao computador.

O que acontece é que depois da Caras veio a Quem e tantas outras, e também alguns programas de TV especializados em fofoca, e de repente a banalização da privacidade ganhou um espaço sem precedentes. Celebridade, que podia ser uma palavra definidora de alguém notável, passou a designar qualquer um.

E qualquer um fazendo revelações constrangedoras e vulgares, desfrutando de uma fama meteórica e provocando um deslumbramento patético nos simples mortais. Aquela ali é a Ariadna? É a Geisy? Uma é a transexual que ficou uma semana na casa do Big Brother, a outra foi discriminada por usar minissaia na faculdade, é o currículo profissional delas.

Causam o mesmo alvoroço que Demi Moore e Ashton Kutcher, que por sua vez causam o mesmo frisson que o pai do Michael Jackson, que é tão famoso quanto o vlogueiro que surgiu ontem no YouTube. Se Lúcifer saísse do inferno para dar uma banda por aqui, teria mesa cativa no Fasano.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011



01 de fevereiro de 2011 | N° 16598
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Dr. Fritz

Nos tempos em que passava o mês de janeiro em Cachoeira, tinha um agradável projeto de vida: estudar a história de minha cidade. Olhando para trás, não consigo imaginar algo de mais prazeroso para o espírito do que mergulhar em velhas páginas de jornais, ler antigas atas e trocar ideias com pessoas que conheciam mais do que eu a trajetória de nosso passado compartilhado.

Uma dessas personagens partiu há poucos dias, aos 90 anos. Chamava-se Fritz Strohschoen. Era uma figura renascentista, pela amplitude e o alcance de sua cultura. Doutor em Economia, formando em Ciências Econômicas e em Ciências Jurídicas e Sociais, era também graduado em Administração e em Ciências.

Mas nenhuma dessas era a sua grande paixão. Muito além dos autos de criação, mandados de D. João VI, mapas de província, alvarás de registro e demarcação, o dr. Fritz sabia contar as pequenas grandes histórias de nossa História. Os papéis do Arquivo Municipal eram a moldura da real evolução de Cachoeira pequenina, que ele ia revelando em sua nudez e em sua natureza mais simples.

Lembro em especial um desses janeiros que passei na Granja da Penha, e no qual os encontros com o mestre aconteciam todas as tardes. O dr. Fritz me transmitia então todo um curso de História de Cachoeira, com base em sua fabulosa memória de figuras, incidentes e episódios, realçando o lado humano de cada fato.

Foi assim que fiquei sabendo da longa batalha entre um vigário e a Câmara Municipal, em torno do destino dos sepultamentos. Foi assim também que tomei conhecimento da luta que travaram duas famílias em uma longuíssima rivalidade, e que só terminou, um pouco como em Verona, quando um rapaz e uma donzela, cada um de um dos clãs, juraram amor eterno.

E foi ainda assim que me inteirei do combate de Barro Vermelho, do frio assassinato do dr. Baltazar de Bem, no auge de sua juventude e de seu prestígio, morto por um rapaz que nem sabia em quem estava atirando, e que passou o resto da vida escondido nos matos do Piquiri.

Muitas outras narrativas escutei do dr. Fritz, e sobre algumas delas ainda pretendo escrever. Por enquanto me resta a evocação do homem para quem a História, mais além dos livros, era algo de vivo e presente.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011



31 de janeiro de 2011 | N° 16597
FABRÍCIO CARPINEJAR


Couvert familiar

Todo pai deve se preparar para o vexame. Um dia seu filho terá uma banda de rock.

A formação do grupo é meteórica, inexplicável como sua dissolução. Não se planeja uma banda, acontece, como um beijo, uma fofoca, um suspiro. Ou porque seu guri está entediado e não tem nada a fazer ou porque é ambicioso e corre atrás de tudo que pode ser feito.

O ato é banal como criar um blog e aderir a uma rede social. Talvez nem seja informado, acabou o tempo em que conversar com o pai era coisa séria, antes a criança preparava o terreno com a mãe, avisava o assunto com antecedência, reservava o escritório.

Descobriu a novidade por acaso, ao assistir um vídeo no YouTube. Demorou a reconhecer o filho, que balançava os cabelos como uma vassoura, mas identificou a própria cama e também as cuecas samba-canção, queimadas num estranho protesto do quarteto a favor das baleias. Será um golpe duro, não tinha consciência de que seu filho tocava ou cantava. Nem o filho sabia.

Se você pensava que havia terminado o martírio das exibições escolares; se você dava graças a Deus pelo fim do ciclo dos teletubbies, dos bichinhos da parmalat, dos bananas de pijama; se você comentava que não havia coisa pior do que aplaudir 15 turmas com coreografias exatamente iguais; se você não aguentava o enxoval das fantasias, os ensaios que tomavam os finais de semana e exigiam caronas para cima e para baixo; se você se enxergava livre da obrigação de filmar cada cena e brigar a cotoveladas com o conselho inteiro de pais e mestres pelo melhor ângulo junto ao palco;

se você confiava que não passaria mais pela humilhação de mentir na saída que foi lindo e emocionante e deu um basta ao constrangimento de suportar três horas de pé esperando uma ponta de cinco minutos; se você jurava que não ouviria mais nenhum sermão de diretor profetizando que o futuro é das crianças; se você já se sentia um veterano de guerra, disposto a empinar o peito com as medalhas; se você já entrava com a papelada da aposentadoria, comece a mudar de ideia: seu adolescente é roqueiro.

Deprimente é ouvir como se chama a banda dele, sempre uma nomeação esdrúxula a indicar rebeldia. Grande chance de ser alguma doença venérea: Gonorreia, Sífilis, Herpes. Sorte grande se ficar no corredor dos detergentes e for Diabo Verde ou Pinho Sol.

Na terapia, o que lamentará mesmo é ter brigado com a esposa pelo nome do filho.

sábado, 29 de janeiro de 2011



30 de janeiro de 2011 | N° 16596
MARTHA MEDEIROS


A vida antes da morte

Nada de errado em buscar conforto no espiritismo, mas acreditar numa única vida me parece mais desafiador

Assisti ao Além de Vida, de Clint Eastwood, e excetuando-se a impressionante cena inicial do tsunami, não me empolguei com o filme. Achei os diálogos fracos, o roteiro apático e as cenas de vidência do personagem de Matt Damon muito simplistas - o que, de certa forma, é mais honesto do que recorrer à teatralidade geralmente conferida às sessões espíritas. Mas o fato é que o simplismo reduziu o médium a um garoto de recados.

Respeito profundamente quem se dedica, da forma que for, a estudar, investigar e crer na vida após a morte. Nunca vivi a experiência de ter contato com alguém que já se foi, então reconheço que estou descredibilizada para opinar se ela existe ou não existe, mas nada me impede de levantar uma questão: que diferença faz?

Quando a alma de um falecido se comunica através de atos (no caso do filme de Eastwood, retirando o boné da cabeça do menino Marcus na estação de metrô) ou em palavras (como nas sessões em que um espírito baixa e pede desculpas pelos erros passados), isso sugere que alguém que não vive mais neste plano pode nos proteger ou então ajudar a reconstruir nossa vida.

Os anjos podem orquestrar pequenos incidentes a fim de facilitar nosso caminho aqui na terra ou podem entrar em contato para nos livrar de alguma culpa e serenizar nosso coração avisando que estão bem e que um dia nos reencontraremos.

Então, faz alguma diferença, concordo. Mas não a ponto de gerar apatia, de fazer com que se fique no modo de espera. Há quem acredite mais na vida após a morte do que na vida antes da morte, esta aqui, onde erramos e acertamos. Esta, onde na maioria das vezes nossos anjos estão cochilando e nos deixam à deriva.

Nesta vida presente, onde devemos aprender a lidar com nossas carências e a confiar mais no dia de amanhã do que na longínqua eternidade. Aqui, onde amamos e somos amados, onde devemos praticar o perdão e acertar nossas contas olho no olho, sem transferir dívidas para o além.

Nada de errado em buscar conforto no espiritismo - milhões o fazem - mas acreditar numa única vida me parece mais desafiador, exige mais responsabilidade de nós. Por mim, não precisaria haver nada depois da morte.

Prefiro os pontos finais às reticências. Confissões, declarações, revelações, tudo me parece mais eficiente para nosso sossego quando praticado aqui e agora. Se eu tenho um anjo a olhar por mim, tanto melhor, mas não muda o meu comprometimento com meus atos e minhas escolhas.

Não me agrada a ideia de continuar existindo ininterruptamente, e tampouco as pessoas que eu amo. E o descanse em paz, onde fica? Apagar a luz e dormir. Zzzzzzzzzzz. Essa é a única eternidade que me seduz.

Mas não agora, anjo.

Ruth de Aquino

O vexame das aposentadorias

Os benefícios concedidos a ex-governadores e a seus herdeiros são um roubo e desmoralizam os políticos

Causam asco as aposentadorias inconstitucionais, milionárias e vitalícias de ex-governadores e seus herdeiros. Esses benefícios são um roubo e desmoralizam a profissão de político. Em toda a sua vida ativa, o cidadão comum e assalariado é chamado de “contribuinte”. O nome é correto. Contribuímos ao pagar impostos. No Brasil, infelizmente, os impostos são escorchantes e não servem para seu fim mais nobre.

Em países civilizados, essa contribuição tem um sentido público claro. Medicina e educação costumam ter qualidade e ser gratuitas. Quantos de nós pagaríamos impostos com mais alegria se o dinheiro descontado mensalmente do salário financiasse serviços para os mais carentes e a classe média.

A aposentadoria máxima é de R$ 3.200 por mês para quem trabalha 35 anos. Mas os ex-governadores estão acima das regras. Mesmo que governem um Estado por apenas alguns dias, podem ganhar aposentadoria de R$ 10 mil a R$ 24 mil. Para sempre, até morrer. E, após a morte, as viúvas assumem integralmente o benefício (leia mais).

O Supremo Tribunal Federal, em 2007, considerou inconstitucional a aposentadoria de Zeca do PT, ex-governador de Mato Grosso do Sul. Mas o STF é mais lento quando a ação se destina a derrubar a mesma lei no Maranhão. Essa ação “está tramitando” no Supremo. O alvo é o clã Sarney: José e a filha Roseana ganham pensão vitalícia de R$ 24 mil.

São tantos os penduricalhos na conta do magnata da política José Sarney que, durante um ano, ele não percebeu que depositaram irregularmente o auxílio-moradia de R$ 3.800. Foram R$ 45 mil de “equívoco”, que depois ele afirma ter devolvido.

O senador, ex-presidente e ex-governador do Maranhão ganha subsídio de R$ 26 mil, verba para passagens, casa, gasolina, e ainda por cima uma pensão eterna. Como descobrir aquilo a que não tem direito? Sarney tem direito a tudo, mesmo que seu Maranhão tenha indicadores sociais lamentáveis. Como disse o ex-presidente Lula, Sarney “não pode ser julgado como um homem comum”.

A OAB entrou no Supremo, na sexta-feira, com ações de inconstitucionalidade contra as aposentadorias de ex-governadores de dois Estados: Sergipe e Paraná. As pensões são descritas como “grave ofensa ao princípio republicano”.
Os benefícios concedidos a ex-governadores e a seus herdeiros são um roubo e desmoralizam os políticos

O Paraná é um caso especial e curioso de hipocrisia. Não contente com os R$ 18 mil mensais que recebeu de pensão nos últimos meses, o senador tucano Álvaro Dias pediu à Justiça mais de R$ 1,5 milhão de benefícios retroativos pelo período em que governou o Paraná, de 1987 a 1991.

Depois de flagrado, disse que a dinheirama seria para doar a uma instituição assistencial que mantém uma creche em Curitiba. “Centavo por centavo”, diz ele. Você acredita?

Digamos que sim. Que Álvaro Dias seja um senador beneficente, em busca de uma vaga no reino dos céus. Mas o senador por acaso sabe que caridade se faz com o próprio dinheiro, e não com o dinheiro de seus eleitores? Eles podem preferir doar para cegos, órfãos, idosos.

Ou simplesmente não doar o que não têm, porque ainda sonham com impostos menores e mais justos no Brasil. Como disse o presidente da OAB, Ophir Cavalcante, “queremos estancar essa sangria com dinheiro público”.

É estranho que uma imoralidade como essa seja praticada em vários Estados há anos, sem que ninguém se rebele. Ninguém sabia de nada? Fala-se tanto de rombo na Previdência. Nós pagamos mais de R$ 30 milhões por ano de pensões para ex-governadores de todos os partidos. São os mesmos políticos que, no Senado, querem a volta da CPMF porque a saúde está em frangalhos.

Por que o STF não cria uma regra para todo o país? Regrinha básica: “Ex-governadores não podem violar a Constituição nem meter a mão no bolso dos outros”. Dá para entender?

Queria dar voz a um leitor de Belo Horizonte, Luiz Antonio Mendes Ribeiro: “Pura safadeza! Esses políticos desrespeitam as leis, engendram mutretas para se locupletar e não se envergonham de nada. Vamos dar um choque de decência nisso”.

Vamos mesmo?

29 de janeiro de 2011 | N° 16595
NILSON SOUZA


A lição de Camila

Fiz três vestibulares na UFRGS e tenho diplomas de duas faculdades, a queridíssima Fabico (Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação) e a não menos amada Esef (Escola Superior de Educação Física). Significa que, numa das tentativas, fui reprovado com louvor – exatamente na primeira, quando recém concluíra o ensino médio da minha época. Foi horrível.

Ninguém me cobrava nada, minha família era muito mais ligada ao mundo do trabalho braçal do que ao universo das letras, mas eu me senti arrasado, destruído, humilhado. Afinal, aquele era o meu teste de serventia para a vida. Se não era capaz de passar num exame de seleção depois de tantos anos de estudos, talvez eu fosse mesmo um inútil.

Queria, e queria muito, ver o meu nome naquela lista, ser reconhecido pelos colegas, celebrar com eles o sucesso da aprovação. Mas tive que curtir por vários dias a minha fossa, sem qualquer perspectiva de consolo, pois, se as vitórias costumam ser coletivas, a derrota é sempre individual. Como é doloroso encarar um tropeço, especialmente quando se está tentando romper a barreira de emoções que separa a adolescência da idade adulta.

Mas passou. O tempo, como escreveu no peito da camisa um presidente de triste lembrança, é mesmo o senhor da razão. Pena que na adolescência a gente tem pouca consciência disso, acha que tudo deve acontecer rápido, do jeito que queremos. Hoje penso que aquela reprovação acabou sendo uma consistente lição de paciência.

Como não tinha a mínima condição financeira para estudar numa universidade privada, tive que engolir a frustração e me preparar melhor para o exame seguinte. Alcancei o meu objetivo, com um lucro adicional: aprendi que persistir é mais importante do que conquistar tudo com facilidade.

Meu tempo é outro, minha experiência talvez nem tenha significado para a meninada de hoje. Mas a experiência de Camila Chiodi tem. Ela foi a primeira colocada no recente vestibular da UFRGS e vai cursar Medicina, como sempre sonhou.

É provável que tal performance tenha despertado invejas nos garotos e garotas da sua idade. Quem não gostaria de ser Camila? Pois esta jovem de 21 anos, que chegou na frente de 5 mil aprovados e de outros 30 mil que ficaram de fora, vinha de quatro reprovações.

Isso mesmo: por quatro anos consecutivos, ela deve ter sentido a mesma desilusão que eu senti na minha época e que estão sentindo hoje milhares de meninos e meninas que não viram seus nomes no listão.

Sei bem que isso não serve de consolo – e nem acho que se deve tentar consolá-los. Creio que aprender a administrar as próprias frustrações faz parte do processo de amadurecimento pessoal.

Mas tenho certeza de que sairão mais fortalecidos da experiência aqueles que entenderem melhor a lição de Camila sobre essa matéria intangível chamada Persistência, que nem sempre a escola ensina, mas que acaba caindo em todos os vestibulares da vida.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011



26 de janeiro de 2011 | N° 16592
MARTHA MEDEIROS


Depois se vê

Chuva. Nada mais ancestral. Muita água, pouca água, não importa: choverá. Em vários períodos do ano, mais forte, mais fraco: choverá. Em São Paulo, Minas, Rio, Florianópolis. E também na Alemanha, na Nova Zelândia, no Peru.

Choveu nos anos 40, chove em 2011, choverá em 2068. Passado, presente e futuro sob uma única nuvem. Só que o país do futuro não pensa no futuro. Somos totalmente refratários à prevenção.

Tudo o que nos acontece de ruim provoca uma chiadeira, vira escândalo nacional – mas depois. Ficamos estarrecidos, mas depois. O antes é um período de tempo que não existe. Investir dinheiro para evitar o que ainda não aconteceu nos soa como panaquice.

Se está tudo bem até as 14h30min desta quarta-feira, por que acreditar que às 14h31min tudo pode mudar? E então não se investe em hospitais até que alguém morra no corredor, não se policia uma rua até que duas adolescentes sejam estupradas, não se contrata salva-vidas até que meia dúzia morra afogada.

Somos os reis em tapar buracos, os bambambãs em varrer para debaixo do tapete, os retardatários de todas as corridas rumo ao desenvolvimento. Não prevemos nada. Adoramos os astrólogos, mas odiamos pesquisa. Consideramos estupidez gastar dinheiro com tragédias que ainda estão em perspectiva. Só o erro consolidado retém nossa atenção.

A gente se entope de açúcar, não usa fio dental e depois vai tratar a cárie, se sentindo privilegiado por poder pagar um dentista. A gente aplaude a arrogância dos filhos e depois vai pagar a fiança na delegacia. A gente fuma três maços por dia e depois processa a indústria tabagista. A gente corre na estrada a 140 km/h, ultrapassa em faixa contínua e depois suborna o guarda, na melhor das hipóteses. Ou então morre, ou mata – na pior delas.

A gente vota em corrupto, depois desdenha da política em mesa de bar. A gente joga lixo no cordão da calçada, depois se surpreende em ter a rua alagada. A gente se expõe em todas as redes sociais, depois esbraveja contra os que invadiram nossa privacidade.

Precisamos de transporte público de qualidade, mas só depois de sediar a Copa do Mundo. A sociedade reclama por profissionais mais gabaritados, mas ninguém investe em professores e em universidades.

E os donos de estabelecimentos comerciais só irão se dar conta de que estão perdendo dinheiro quando descobrirem os manés que contrataram para atender seus clientes. Treinamento antes, não. Se precisar mesmo, depois.

Precisamos mesmo. Só que antes.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011



25 de janeiro de 2011 | N° 16591
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Viagem de trem

Boas notícias começam a trafegar sobre os trilhos. Segundo leio em reportagem de Caio Cigana, publicada em Zero Hora, os indícios sugerem um crescimento chinês de 10% ao ano nas cargas transportadas pelo modal no Rio Grande do Sul.

Não é só. Tramita no Senado, depois de passar pela Câmara, a construção de um novo trecho da Norte-Sul, que chegaria de Belém ao porto de Rio Grande. Na Serra, está próxima do fim a análise da viabilidade do transporte de passageiros entre Bento Gonçalves e Caxias do Sul. Como se não bastasse, estariam em exame a ligação Livramento-Cacequi, Santa Rosa a São Luís Gonzaga, Getúlio Vargas a Marcelino Ramos, dentre outras, aí incluída a Cachoeira-Rio Pardo.

Num Estado em que os trens participam com 9% – para 25% no Brasil – no transporte de cargas, são excelentes novas. E não deixam de conduzir a uma das melhores páginas de minha infância e adolescência.

Os Estados Unidos têm 280 mil quilômetros de ferrovias – e nós nem 10% disso. Eis aí um dado estatístico que me conduz à época em que não só transportávamos pessoas e mercadorias, como uma viagem de trem de Cachoeira a Porto Alegre – e vice-versa – era uma suave aventura do espírito e dos sentidos.

Se for mais longe no cofre da memória, não deixarei de buscar uma lembrança de guri: uma viagem numa cabine exclusiva, no melhor estilo dos trens ingleses, franceses ou italianos. Mas me recordo mais das múltiplas incursões pelo Minuano, com suas poltronas estofadas e seu vagão-bar.

Partia-se no fim da tarde de Porto Alegre e chegava-se à gare de Cachoeira em alguma hora ao redor da meia-noite. Para quem ainda ia enfrentar um baile no sábado e duas reuniões dançantes no domingo, não havia cansaço algum.

Havia, sim, algumas pequenas grandes lembranças inesquecíveis. Como a da bela mulher que, na penumbra e no silêncio do vagão, tomou a minha mão nas dela, e assim avançamos, cúmplices e românticos, pela noite, sem ao menos trocar nossos nomes.

Conta agora Zero Hora que, como mencionei antes, ocorrerá a retomada de pequenos trechos de vias férreas de passageiros. Espero que se multipliquem, para que uma viagem de trem seja um episódio de alegria e de encantamento.

Uma folga gostosa para quem está de folga nas terças-feiras. Lindo dia pra você.

sábado, 22 de janeiro de 2011



e3 de janeiro de 2011 | N° 16589
MARTHA MEDEIROS


Intoxicados pelo EU

A gente perde muito tempo pensando na nossa imagem, no nosso futuro. Até que um dia acordamos asfixiados

Outro dia acordei com uma espécie de ressaca existencial, sentindo necessidade de me desintoxicar, e era óbvio que o alívio não viria com um simples gole de Coca-Cola. Precisava, antes de tudo, descobrir o que é que estava me pesando, e logo percebi que não era excesso de álcool, nem de cigarros, nem de noitadas, os bodes expiatórios clássicos do mal-estar, e sim excesso de mim.

Desconfio que já tenha acontecido com você também: de vez em quando, sentir os efeitos da overdose da própria presença. Desde que nascemos, somos condenados a um convívio inescapável com a gente mesmo. Quando penso na quantidade de tempo que estou presa a essa relação, fico pasma de como consegui suportar tamanho grude. Eu e eu, dia e noite, no único relacionamento que é verdadeiramente pra sempre.

Ando escutando uma banda uruguaia chamada Cuarteto de Nos (que, aliás, fará show esta semana em Porto Alegre), cujas canções possuem letras divertidas e sarcásticas, entre elas, Me Amo, uma crítica bem-humorada a essa era narcísica que estamos vivendo.

O personagem da música não ouve ninguém e não consegue imaginar como seria o mundo sem a sua presença. Tem muitas garotas, porém nenhuma é digna dele. Está muito bem acompanhado a sós. “Soy mi pareja perfecta”.

Intoxicação talvez seja isso: considerarmos que somos um par. Só que no meu caso, sou um par em conflito. Um eu que deseja fugir e outro eu que deseja ficar. Um eu que sofre e outro eu que disfarça. Um eu que pensa de uma forma e outro eu que discorda. Um eu que gosta de estar sozinho e outro eu que precisa amar. Nada de “pareja perfecta”, e sim caótica.

Uma relação tranquila consigo mesmo talvez passe pela conscientização de que não devemos dar tanto ouvido às nossas vozes internas e que mais vale nos reconhecermos ímpares e imperfeitos por natureza.

A vida só se tornará mais leve e divertida se pararmos de nos autoconsumir com tanta ganância e darmos uma olhadinha para fora. A gente perde muito tempo pensando na nossa imagem, no nosso futuro, nos nossos problemas, nas nossas vitórias, no nosso umbigo.

Até que um dia acordamos asfixiados, enjoados, sem ânimo e sem paciência para continuar sustentando a pose, correspondendo às expectativas, buscando metas irreais, vivendo de frente pro espelho e de costas pro mundo.

É a era do egocentrismo, somos vítimas de um encantamento por nós mesmos, mas, como toda relação, essa também desgasta. Fazer o quê? Esquecer um pouco de quem se é, esquecer da primeira pessoa do singular, das nossas existências isoladas, e pensar mais no que representamos todos juntos. Ando cansada de tantos eus, inclusive do meu.


22 de janeiro de 2011 | N° 16588
NILSON SOUZA


Depois do pesadelo

Meu irmão deu uma volta na barca de Caronte, mas retornou para a margem de cá e para seu próprio corpo, depois de 57 dias na UTI do Hospital Dom João Becker, em Gravataí. Foi tratado com imenso carinho e muita competência pela equipe de médicos e enfermeiros comandada pelo doutor Cristian Benicasa.

Em determinado momento de sua doença, com a voz cassada pela traqueostomia, indispensável para facilitar-lhe a respiração, protagonizou um episódio desconcertante para seus familiares. Íamos visitá-lo na Unidade de Tratamento Intensivo e ele nos expulsava com olhares alucinados e gestos de cabeça, uma vez que estava com o restante do corpo imobilizado pelo longo período de sedação.

Agora que está de volta, ainda com limitações físicas temporárias mas perfeitamente lúcido, perguntei-lhe o que viu do outro lado e por que nos mandava embora quando queríamos apenas manifestar-lhe nosso afeto e nossos cuidados com a sua saúde. Compartilho sua resposta com meus leitores, até para que possamos entender o que se passa na cabeça de uma pessoa ressentida pela longa internação, pela enfermidade e pelo efeito das medicações:

– O outro lado é horrível. É um delírio, em que a gente não sabe o que é sonho, o que é pesadelo e o que é realidade. Eu via aquelas pessoas de branco e tinha certeza de que elas queriam matar vocês. Então, eu me desesperava, queria que vocês fugissem de lá, mas ninguém me entendia e eu não conseguia me comunicar.

Felizmente, o pesadelo terminou. Não fugimos, não fomos embora, não o abandonamos nunca em nossos pensamentos e em nossas orações. Aos poucos, graças principalmente à eficácia do tratamento, ele começou a sair do sonho ruim e recuperou totalmente a consciência.

Agora falta-lhe recuperar os músculos amortecidos pela prolongada imobilização. Sabemos que ainda temos pela frente um longo caminho para a retomada normal da vida, mas estamos todos fortalecidos pela experiência e pelo aprendizado. E eternamente gratos ao hospital e aos profissionais que nos prestaram tão precioso atendimento, custeado inteiramente pelo Sistema Único de Saúde.

Voltando agora aos meus delírios literários, penso que talvez nunca venhamos a saber exatamente por que Caronte o devolveu para o nosso convívio depois da viagem iniciada, mas é provável que o mitológico barqueiro – que conduz as almas para o outro lado da vida em troca de uma moeda – também tenha se sentido rejeitado pelo inquieto passageiro. Ou talvez ele estivesse sem a moeda.


Uma razão para se orgulhar
RUTH DE AQUINO

Existe uma máxima no mundo da mídia: “Good news is no news” (boas notícias não são notícia). Entre os escombros da tragédia de 2011, há uma notícia tão boa que não dá manchete. A cidade do Rio de Janeiro inaugurou o centro mais moderno de controle de operações do mundo, totalmente computadorizado, com radares e alertas para enchentes. Um novo sistema poderá prever dilúvios 48 horas antes e deslocar a tempo famílias em risco de perder suas casas e suas vidas.

O centro carioca de operações tem um telão de 80 metros quadrados – maior que o da Nasa, segundo o prefeito Eduardo Paes. Reúne 30 órgãos municipais e concessionárias e 400 profissionais. É resultado de uma parceria com a IBM. O objetivo é transformar o Rio em referência para o Brasil e o mundo no planejamento de eventos e gestão de crises. A ideia é repetir o modelo em metrópoles brasileiras até a Copa.

O cérebro tecnológico do prédio é um indiano que vive em Nova York, mas tem visitado tanto o Rio que uma de suas bebidas prediletas é a caipirinha e seu point favorito é a Lapa boêmia e musical. É vice-presidente de tecnologia da IBM e seu nome é Guru. Foi batizado como Guruduth Banavar, mas até a mãe dele o chama de Guru (leia a entrevista) .

Em cada monitor, vemos o que está acontecendo naquele momento em todos os pontos da cidade: obras, engarrafamentos, acidentes, falta de luz ou de gás, onde estão os reboques, por onde trafegam os ônibus, onde está sendo recolhido o lixo. É evidente que não basta ter acesso aos dados. Só com inteligência e integração esses dados podem ser úteis. Mas acabou a desculpa “eu não sabia de nada”. O prefeito tem um quarto ali para dormir, em emergências.

Uma reportagem recente da revista The Economist, intitulada “It’s a smart world” (É um mundo inteligente), traduz o que se tenta fazer nesse centro. É como se o mundo real e o mundo digital convergissem para criar eficiência. Para as pessoas comuns, significa menos estresse e mais conforto.

Segundo o diretor da IBM Pedro Almeida, carioca apaixonado pelo que faz, essa é a base para o conceito de Smarter Cities, ou “cidades mais inteligentes”, que a IBM criou em 2007 e, agora, inclui o Rio como uma das vitrines mais vistosas.
Entre os escombros da tragédia, há uma ótima notícia: o novíssimo centro de alerta para enchentes

No caso das chuvas, a era do achismo e da irresponsabilidade terá de acabar para não se repetir o vale de lágrimas da serra fluminense. Cientistas e geólogos concluíram o primeiro mapeamento do solo da cidade do Rio, depois de fotografar de helicóptero, com câmeras especiais e laser, ruas, vales e morros. Existem hoje 18 mil casas em alto risco em 117 comunidades. Fora o médio risco e o baixo risco.

Caso o novo radar da prefeitura, importado dos Estados Unidos, preveja chuvas fortes, sirenes tocarão. A IBM promete, com seu novo sistema, a ser instalado neste semestre, prever calamidades com dois dias de antecedência. Mais de 2 mil agentes comunitários foram treinados pela Defesa Civil e equipados com celulares para receber alertas por mensagens de texto.

Se um sistema parecido estivesse em vigor na serra do Rio, não estaríamos chorando hoje mais de 700 mortos. Podemos ser solidários e generosos, mas não vamos esquecer que existem culpados.

O que aconteceu em Petrópolis foi um crime premeditado. As estações meteorológicas sofisticadas existem, estão instaladas em lugares estratégicos, uma delas ao lado do vale que deixou de luto dezenas de famílias. Mas não estavam funcionando. Por quê?

O prefeito Paulo Mustrangi diz que era fim de ano, havia raspado o caixa e não tinha os R$ 900 mil para fazer funcionar. O Instituto Estadual de Ambiente afirma que não recebeu nenhum pedido de ajuda do prefeito.

Prefeitos que permitem construir favelas, condomínios e hotéis em encostas e áreas de risco e não tomam providências para garantir o bem-estar de seus eleitores deveriam perder o mandato e ser levados à Justiça. Pensando bem, que Justiça?

Na cidade do Rio, liminares judiciais impedem a prefeitura de reassentar mais de 130 famílias que permanecem em casas condenadas, que já deveriam ter sido demolidas. Quem vai julgar os juízes?

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011



19 de janeiro de 2011 | N° 16585
MARTHA MEDEIROS


Homens bons

Houve uma época em que fazer uma tatuagem era um ato de rebeldia e despertava preconceitos. Mas isto foi no tempo da pureza e da desinformação, quando a gente não estava a par de outros motivos para se assustar.

Hoje sabemos que bandidos podem usar terno e gravata, que bandidas podem ser mães de bebês e que uma tatuagem não estigmatiza ninguém, é apenas uma forma de expressão, um recurso para não se deixar globalizar neste mundo onde todos se parecem e tudo é descartável.

Minhas duas filhas possuem tatuagem e não consta que sejam menos confiáveis do que jovens que mantêm a pele imaculada. Caso elas tivessem idade e preparo físico para ser salva-vidas, estou certa de que prestariam um serviço da melhor qualidade.

No entanto, elas têm idade e preparo físico para serem vítimas de afogamento, como qualquer um de nós. Eu não ficaria nem um pouco aborrecida se um voluntário com um dragão desenhado no bíceps as tirasse do mar a tempo de elas não constarem das estatísticas absurdas de fatalidades deste verão 2011.

Ao contrário: eu é que talvez elevasse o número de tatuados. Pelo menos a inicial desse super-herói eu levaria pra sempre no meu tornozelo direito.

Quando me perguntam o que a literatura me trouxe de bom, nunca esqueço de citar: a oportunidade de conhecer pessoas que antes eu admirava à distância. Lembro quando, adolescente, busquei o autógrafo do Scliar numa longínqua Feira do Livro de Porto Alegre, segurando um exemplar de O Exército de um Homem Só com as mãos trêmulas.

Até ali, Scliar era pra mim apenas um escritor famoso, o que não é pouco. Hoje, tendo tido a chance de dividir alguns breves momentos em sua companhia, sempre em circunstâncias ligadas à literatura, posso me sentir honrada não só por conhecê-lo, mas por testemunhar o ser humano generoso que ele é. Suas atitudes transcendem a sua obra.

Ele nunca poupa um elogio, um incentivo: chega a ser extremista em seu carinho. Participa ativamente de todos os eventos literários do país, desde os mais badalados até simples bate-papos em pequenas escolas distantes da Capital, levando sua experiência e sua doçura.

Tem uma disponibilidade rara e não se furta em repartir seu conhecimento, que é vasto. Já publicou mais de 70 livros e isso pode parecer produção suficiente, mas ser um exemplo de caráter é algo que o Brasil não pode se dar o luxo de perder. Volte logo, mestre.

Dia internacional do sofá. Aproveite a quarta-feira.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011



18 de janeiro de 2011 | N° 16584
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


E não sabia

Shakespeare falava de um verão eterno, que nunca acaba. Devia ser uma premonição deste janeiro tórrido que nos aprisiona.

A mais civilizada das estações é o outono, especialmente a partir de maio, quando chegam os primeiros frios. É a mesma que inspirou Verlaine a cantar os longos sons dos violões. É ainda aquela que convida ao primeiro abrigo, à primeira lã.

O inverno daqui, para tornar a Shakespeare, é o da nossa desesperança. Quando escreveu suas memórias, uma obra-prima do gênero, João Neves da Fontoura observou que o aquecimento é um conforto desconhecido em nossas casas, a começar pelas sedes das fazendas. É bem diverso de Montevidéu ou de Buenos Aires, onde a calefação é um complemento do modo de viver.

Já a mais destacada decantada das estações está imersa em poesia. Para Schiller, a primavera da vida floresce uma vez e nunca mais. Para Tennyson, na primavera a imaginação dos jovens se volta, ligeira, para pensamentos de amor.

E assim voltamos ao verão.

Algumas das melhores épocas de minha vida, eu as vivi entre dezembro e março. Primeiro era uma temporada em Cachoeira, com direito a piscina, a Réveillon, raparigas em flor com delicadas sandálias cai-cai, um mês na Chácara da Penha, lendo e relendo os romances de Machado e de Erico, tudo culminando com um mês em Capão da Canoa, com parada obrigatória na Sacc e no Meu Pontinho.

Foram épocas inesquecíveis, de amizades perenes e de paixões súbitas e inamovíveis. Um dia típico incluía banho de sol, banho de mar, para deixar no Atlântico a ressaca do baile ou da reunião dançante da véspera, tardes com jogos de cartas, namoros, jantares num daqueles pequenos restaurantes acolhedores e simples, que serviam as melhores iguarias da estação.

Um dia típico não deixava de incluir também a branda aragem do oceano e as meninas trajadas de short, ou o seu puro olhar respondendo ao teu olhar.

Parece que tem um poema de antigamente que reproduz tudo isso: eu era feliz e não sabia.

Uma Ótima terça-feira. Aproveite o dia