quarta-feira, 13 de março de 2013



13 de março de 2013 | N° 17370
MARTHA MEDEIROS

Deus em promoção

Pouca coisa me escandaliza, mas fiquei perplexa com o vídeo que andou circulando pela internet, que mostra um culto da Assembleia de Deus conduzido pelo pastor Marco Feliciano – sim, o polêmico presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, o maior para-raios de encrencas da atualidade.

O vídeo mostra o momento da coleta de dízimos e doações, a parte mercantilista da negociação dos fiéis com o Pai Supremo, de quem o pastor se julga uma espécie de contador particular, pelo visto.

Entre frases inibidoras, como “Você vai mesmo ficar com esse dinheiro na sua carteira?”, dirigida a pessoas da plateia, e estimulando que os trabalhadores cedam uma porcentagem do seu salário dizendo “Aquele que crê dá um jeito”, aconteceu: alguém entregou seu cartão de crédito nas mãos do pastor. No que ele retrucou: “Ah, mas, sem a senha, não vale. Depois, vai pedir um milagre pra Deus, Ele não vai dar, e aí vai dizer que Deus é ruim”.

Entendi bem? Deus está à venda? Cobrando pelas graças solicitadas?

Essa colocação do pastor bastaria para abrir uma CPI contra os caras de pau que, abusando da esperança de gente sem muito tutano, arrecadam fortunas e depois vão fazer suas preces particulares em algum resort em Miami. Quem dera houvesse um Joaquim Barbosa para colocar ordem nesse galinheiro falsamente místico, mas quem ousa? Se essa simples crônica já sofrerá retaliações, imagine alguém peitar judicialmente um representante de Deus, ou que assim se anuncia.

Religiosidade é algo extremamente respeitável. Cada um exerce a sua com a intensidade que lhe aprouver, de forma saudável, a fim de conquistar bem-estar espiritual. Todas as pessoas religiosas que conheço, e são inúmeras, nunca precisaram comprar sua fé nem dar nada em troca – conquistaram-na gratuitamente através de cultura familiar ou de uma necessidade pessoal de conforto e consolo que é absolutamente legítima.

Religião é, basicamente, isso: conforto e consolo.

Já os crentes fazem parte de outra turma. São os que acreditam cegamente em pecado, castigo, punição e numa recompensa que só virá depois de algum sacrifício. Quando não pagam em espécie, abrem mão de prazeres terrenos como forma de penitência, para se tornarem dignos da vida eterna – que viagem.

É preciso ser muito iludido para acreditar que pagar a conta de luz é menos importante do que pagar pelo milagre encomendado a Deus através de seus “assessores” – e que, segundo o pastor Marco Feliciano, só será realizado se você não tiver caído na malha fina do Serasa Divino.

O que fazer para tirar os crentes desse transe? Colocar na cadeia esses ilusionistas que se apresentam como pastores? Duvido que ajude. A bispa Sonia e seu marido Estevam Hernandes foram condenados por lavagem de dinheiro e de nada adiantou. Se fossem condenados por lavagem cerebral, quem sabe.

sábado, 9 de março de 2013



10 de março de 2013 | N° 17367
MARTHA MEDEIROS

Diga-me o que veneras

Talvez isso diga tudo sobre aquela incômoda sensação de inferioridade que ainda não conseguimos vencer

Venerar: prestar culto, adorar. Respeitar ou admirar muito. Reverenciar. Isso segundo os dicionários, pois eu ainda acrescentaria: ficar com os quatro pneus arriados, perder o senso, surtar. Pois é, tenho pensado nesse verbo venerar e descoberto coisas.

O que você venera? Refiro-me a algo que você idolatra íntima e secretamente, algo que lhe parece inatingível – ao menos você supõe que é inatingível. Não estou falando de se aproximar de ídolos ou visitar lugares paradisíacos, e sim das suas carências de infância: o que você venera e que nunca possuiu, e, por não possuir, acabou tornando-se refém?

O que você venera é seu ponto fraco.

Digamos que você venere a inteligência e a cultura. Foi criado sem acesso a cursos, livros e cinema, e acabou desenvolvendo uma fissura por tudo o que pareça intelectualizado num grau acadêmico que você nunca sonhou roçar.

Fica pasmo diante de qualquer pessoa que fale sobre o que você não conhece, extasia-se diante de tanta erudição, que talvez nem seja tanta assim, mas que você vê como imensa. Olhe para si mesmo: tão aparentemente seguro, mas embasbacado diante de qualquer um que saiba meia-dúzia de palavras em latim ou que lembre quem ganhou o Oscar em 1972.

Digamos que você venere a beleza. Foi o patinho feio da escola, desde cedo compreendeu que não ganharia nem o título de miss simpatia, e foi o que bastou para dar pane no cérebro: diante de um belo espécime, cai de joelhos. De que adianta tanta leitura, tanto estudo, tamanho acervo de conhecimento? Basta um par de olhos verdes piscantes em sua direção e seu QI cai a níveis subterrâneos.

Digamos que você venere a segurança, já que nunca teve certeza de que seu pai voltaria para casa ao fim do dia e de que sua mãe não fugiria com o vizinho. Basta que alguém tenha um cargo de poder, opiniões bem sedimentadas e um endereço fixo para que você o adote como pai ou mãe substitutos. Enfim, uma muleta que o sustente. A pessoa eleita sabe como conduzir o dia, articula claramente as ideias, reage bem a imprevistos. Você funda uma religião: ele ou ela é agora seu Deus, e você será um eterno discípulo.

Digamos que você venere o dinheiro: sempre teve que implorar por trocados, nunca teve o suficiente para seus sonhos, considerava-se o mais pobre da turma, aquele que os professores, insensíveis, delatavam na frente da classe como o aluno com a mensalidade da escola atrasada. Basta saber que a parceira de escritório passa as férias em Fort Lauderdale ou que o companheiro de bar tem um carro que vale um iate, e seu conceito de “amizade de infância” se expande a uma velocidade surpreendente.

O que você venera? Seja o que for, preste atenção. Talvez diga tudo sobre aquela incômoda sensação de inferioridade que cada um de nós, disfarçadamente, ainda não conseguiu vencer.



09 de março de 2013 | N° 17366
CLÁUDIA LAITANO

Um homem fora do lugar

Somos o país da gambiarra ideológica. Quem sacou a inclinação brasileira para o “gato” de ideias foi o crítico literário Roberto Schwarz. Escrevendo sobre o Brasil do século 19, Schwarz mostrou como o país da escravidão e da desigualdade extrema estava aquém das elegantes ideologias liberais que, assim como os vestidos das senhoras mais exigentes da época, costumavam ser importadas da Europa.

O crítico chega a usar a expressão “comédia ideológica” para descrever a tentativa de enfiar um Brasil atrasado, analfabeto e escravagista na fatiota desconfortável do liberalismo político e econômico – que, obviamente, pressupunha conquistas básicas como liberdade de trabalho, igualdade perante a lei e universalismo.

O teste da realidade e da coerência, escreve Schwarz, não parecia necessário para os senhores que defendiam a liberdade em praça pública e os escravos dentro de casa. Eram ideias fora do lugar. Por fora bela viola, por dentro pão bolorento.

Quase 40 anos depois da publicação do livro Ao Vencedor as Batatas (1977), que inclui o clássico ensaio Ideias Fora do Lugar, e mais de 120 depois da abolição da escravatura, o Brasil continua ensinando ao mundo como adaptar o céu das boas intenções ao pedregoso purgatório da realidade.

Pega-se uma ideia lustrosa como a defesa dos direitos humanos, baseada no princípio de que todos os homens nascem iguais em dignidade e em direitos e devem agir uns para os outros em espírito de fraternidade, e cria-se para ela uma comissão no Congresso Nacional – o que, imagina-se, deve fazer bonito em relatórios internacionais e em discursos de campanha nos rincões mais civilizados.

Criada a comissão, algum espírito suíno-pragmático percebe que, por mais que a ideia lustrosa pegue bem em determinados ambientes, não é tão relevante assim como moeda política. Abandona-se a comissão, então, não apenas à própria irrelevância, o que já seria ruim o suficiente, mas à porta daqueles a quem, desde o princípio, a comissão contradiz em essência.

Como se a Princesa Isabel entregasse a redação da Lei Áurea a um senhor de escravos. Ou o próximo conclave chegasse à conclusão de que Richard Dawkins, afinal, até que daria um bom papa.

Graças ao YouTube, qualquer um pode iniciar-se na vida e na obra do deputado Marco Feliciano (PSC-SP), novo presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, que responde a processos por estelionato e homofobia. Aviso, porém, que as pregações do pastor presidente da Igreja Catedral do Avivamento não são recomendadas para os fracos de estômago.

Assim como os relatórios da ONG Todos pela Educação divulgados esta semana, que revelaram quedas em índices de aprendizado já suficientemente vergonhosos, a escolha para um fórum de direitos humanos de um homem que não apenas pensa torto, mas tem coragem de defender ideias discriminatórias em público mostra que, no Brasil, o que está ruim sempre pode tornar-se infame.

quarta-feira, 6 de março de 2013



06 de março de 2013 | N° 17363
MARTHA MEDEIROS

O que é ser mulher

Sempre que chega essa época do ano, prometo a mim mesma: minhas próximas férias serão tiradas em março. Vou alugar uma choupana em Ushuaia e só volto quando pararem de falar no Dia da Mulher. Apenas para evitar a pergunta que tantos pedem que a gente responda: “O que é ser mulher?”.

Basicamente, ser mulher é ter nascido com os cromossomos XX. Será que isso responde à questão? Responde, só que de modo desaforado. Espera-se que colaboremos: “Ser mulher é ser mãe, esposa, profissional... ”. Alguém ainda aguenta essa churumela?

Se é para refletir sobre o assunto, então sejamos francos: ninguém mais sabe direito o que é ser mulher. Sofremos uma descaracterização. Necessária, porém aflitiva. Entramos no mercado de trabalho, passamos a ter liberdade sexual e deixamos para ter filhos mais tarde, se calhar. Somos presidentes, diretoras, empresárias, ministras. Sustentamos a casa. Escolhemos nossos carros. Viajamos a serviço. Saímos à noite com as amigas. Praticamos boxe. O que é ser mulher, nos perguntam. Pois, hoje, ser mulher é praticamente ser um homem.

Nossa masculinização é um fato. Ok, nenhuma mulher desistirá de tudo o que conquistou. A independência é um ganho real para nós, para nossa família e para a sociedade. Saímos da sombra e passamos a existir de forma plena. E o mundo se tornou mais heterogêneo e democrático, mais dinâmico e produtivo, em suma: muito mais interessante. Mas não nos deram nada de mão beijada, ganhamos posições no grito, falando grosso. E agora está difícil reconhecer nossa própria voz.

“Sou mais macho que muito homem” não é apenas o verso de uma música de Rita Lee, é pensamento recorrente de cérebros femininos. Alguém ainda conhece uma mulher reprimida, omissa, sem opinião, sem pulso? Foram extintas e deram lugar às eloquentes.

Nada de errado, repito. Acumulamos uma energia bivolt e isso tem nos trazido inúmeros benefícios – deixamos de ser um simples acessório, nos integralizamos. Mas essa nova mulher ainda se permitirá um segundinho de “cuida de mim”? Se os homens estão se permitindo ser frágeis, por que não nos permitimos também, nós que temos os royalties dessa condição?

É no amor que a mulher recupera sua feminilidade. É na relação a dois. Na autorização que dá a si mesma de se sentir cansada e de permitir que o outro tome decisões e a surpreenda. É através do amor que voltamos a confiar cegamente, a baixar a guarda e a deixar que nos seduzam – sem considerar isso ofensivo. Muitas mulheres estão desistindo de investir num relacionamento por se julgarem incapazes de jogar o jogo ancestral: eu, provedor; você, minha fêmea.

Os homens sabem que já não iremos nos contentar em receber mesada e ficar em casa guardando a ninhada, mas, na intimidade, que tal deixarmos a testosterona e o estrogênio interpretarem seus papéis convencionais?

Um amor sem tanta racionalidade, sem demarcação de território, sem guerra pelo poder. Amolecer de vez em quando, com entrega, com gosto. É onde ainda podemos ressuscitar a mulher que fomos, sem prejuízo à mulher que somos.

terça-feira, 5 de março de 2013



05 de março de 2013 | N° 17362
CLÁUDIO MORENO

Homens e mulheres (19)

(41) Os que pensam que o brasileiro inventou o culto ao traseiro feminino não sabem que esta nobre parte do corpo sempre foi valorizada na tradição cultural do Ocidente – principalmente pelos povos do Mediterrâneo.

Na Grécia antiga, uma das representações de Afrodite mostrava a deusa erguendo displicentemente a parte de trás do seu manto para conferir, com ar satisfeito, a beleza de seu traseiro. Não por acaso, essa escultura, em que o próprio olhar da deusa conduzia o olhar do espectador, ficou conhecida como Afrodite Calipígia (“a de belas nádegas”).

Uma das saborosas histórias contadas por Ateneu, cronista de curiosidades, falava de duas irmãs de Siracusa que, para decidir qual delas era mais atraente, abandonaram as sutilezas e foram, sem o menor pudor, mostrar na beira da estrada o que tinham de melhor. Diante do primeiro rapaz que lhes agradou, ergueram – com uma desinibição bem brasileira – a parte de trás das vestes e pediram que ele decidisse qual era o derrière mais bonito. Maravilhado, ele escolheu uma delas, e seguiu o seu caminho com a cabeça tomada por aquela visão.

Ao contar ao irmão mais jovem a causa de sua perturbação, este o convenceu a levá-lo até lá no dia seguinte – e realmente lá estavam as duas, magníficas, com tudo ao vento. Refeita a pergunta – qual a mais bela? –, ele escolheu justamente a outra irmã, o que permitiu que a história terminasse num duplo casamento. Como os dois jovens tinham uma grande fortuna, as duas irmãs, agora ricas, erigiram naquele lugar um templo a Afrodite Calipígia, a quem deviam a sua felicidade e o seu sucesso social.

(42) Um gênero literário muito pouco estudado – talvez por ser tão breve e fugaz – é o grito de guerra, aquele brado que os soldados emitem no instante decisivo em que vão mergulhar no inferno das batalhas.

Ao longo de nossa história, os tipos mais cultivados geralmente ficaram entre o religioso e o patriótico, como “Em nome de Cristo!”, “Pelo rei e por São Jorge!” ou “Pátria e liberdade!”; não seria justo, no entanto, deixar no esquecimento o inusitado grito de guerra do Conde Caetano de Bourbon, pequeno personagem da história espanhola que nem seria mencionado não fosse por sua originalidade.

Casado com a infanta Isabel, filha da rainha Isabel II, nem pôde aproveitar sua lua-de-mel: acabada a cerimônia, o jovem casal estava chegando a Paris quando, na Espanha, uma revolução depôs a rainha-mãe.

Sem hesitar, Caetano despediu-se da jovem esposa e foi se juntar ao exército legalista, que se preparava para uma derradeira e infrutífera tentativa de resistir aos rebeldes – e ali, na batalha na ponte de Alcolea, em Córdoba, à frente de uma unidade de cavalaria, surpreendeu amigos e inimigos ao entrar em combate aos gritos de “Viva minha sogra!”. Seu exemplo, ao que se saiba, não encontrou seguidores.

domingo, 3 de março de 2013


DANUZA LEÃO

Um homem fiel

Viver à beira do precipício é o maior combustível para uma paixão, e muitos confundem insegurança com sentimentos mais profundos

As mulheres são curiosas. Outro dia ouvi de uma amiga a seguinte pérola: "não é nem que eu esteja assim tão apaixonada, mas estou com XXX porque ele é incapaz de me trair".

A certeza com que ela disse isso -e a felicidade-, me levaram a pensar: será que essa é mesmo a maior qualidade que se pode querer de um homem? Que ele seja incapaz de nos trair? É um caso a pensar.

Naturalmente nenhuma mulher está querendo que o homem com quem pretende compartilhar a vida saia atrás da primeira mulher que passar pela frente; mas é preciso que o homem que se ama seja capaz de quase tudo, e nesse quase tudo está incluída a capacidade de achar graça em muitas mulheres; aliás, em quase todas. E é essa capacidade que põe a mulher louca -por ele.

Está-se falando de amor, claro, e qual a mulher que consegue amar sabendo que o homem que ama é incapaz de traí-la, que ela pode passar a vida fazendo qualquer coisa -ou nada- que vai ser amada da mesma maneira?

O que conserva o amor em altíssima temperatura é a incerteza, é a dúvida. Será que ele foi mesmo a um jantar de trabalho? Será que foi mesmo ao futebol? E quando o celular tocou e ele disse que não podia falar, que ligava depois, não seria uma mulher?

Claro que era, ela vai pensar. E vai viver no fio da navalha, sem certeza alguma do que está se passando, razão mais do que suficiente para não conseguir dormir, para viver atenta, prestando atenção a tudo, sobretudo aos silêncios.

Viver à beira do precipício é o maior combustível para uma paixão, e muitos confundem insegurança com sentimentos mais profundos.

Uma mulher que não tem muita certeza da fidelidade do seu parceiro nunca será vista precisando pintar a raiz dos cabelos ou sem pelo menos um pouquinho de maquiagem. Ela sabe que vive sempre por um fio, e nada melhor para alguém se sentir viva do que saber que a qualquer momento pode ganhar -ou perder- a vida, o dinheiro, o homem amado.

Estabilidade? E alguém tem estabilidade em alguma coisa? Se alguém achar que tem, além de ser um ingênuo, vai perceber que é a morte em vida.

Que você seja a pessoa mais rica do mundo, mais bonita, mais poderosa, pode acontecer de um dia, em um minuto, perder tudo.

Se houver uma revolução, o mais rico de todos pode ficar pobre -e até ser preso; se a mais linda tiver a pouca sorte de passar num desses bueiros que no Rio às vezes explodem, corre o risco de ir para o hospital para cuidar de suas queimaduras, e dizem que dor maior não há; e o poder- bem, basta ler os jornais, qualquer um, de qualquer país, para ver que se trata de uma gangorra.

Faça um exercício de memória e lembre dos nossos governantes do passado, que saíram debaixo de escândalos, e onde eles estão agora, poderosíssimos de novo; nesse ramo, mais do que em qualquer outro, tudo acontece, inclusive o impossível.

É essa certeza de não poder saber nada sobre o futuro que pode, às vezes, trazer uma notícia maravilhosa -embora seja raro-, ou acabar com suas ilusões e até com seu mundo.

Complicado, mas esse talvez seja o sal da vida. 

sábado, 2 de março de 2013



03 de março de 2013 | N° 17360
MARTHA MEDEIROS

Entreouvidos por aí

“De todas as pessoas que eu conhecia, ela era a candidata menos provável de eu vir a ter uma história. Extremamente carola, cheia de nove horas, o oposto do meu estilo. Sou um cara moderno, livre, desimpedido em todos os sentidos.

Sempre gostei de mulheres bem resolvidas, e ela me parecia uma menininha à espera de um anjo salvador. No entanto, quando dei por mim, ela estava sob as minhas asas. Não era o que eu buscava na vida, não era mesmo. Não sei como chamar isso”.

“Se cruzassem nossos perfis em qualquer rede social, daria um curto-circuito. Ele não gosta de nada do que eu gosto, e eu tenho aversão ao jeito que ele se comporta. Mas, desavisados, numa festa trocamos um beijo que fez alguma coisa acender, e desde então é briga atrás de briga. Ambos se perguntam: o que justifica essa nossa insistência?”

“O Caetano tem uma música que diz: mexe qualquer coisa dentro doida. É bem assim que me sinto. É do departamento das loucuras inexplicáveis. Sou bonita, inteligente, bem educada. Sei que agrado, não ficaria sozinha jamais, a não ser que quisesse.

No entanto, estou há dois anos namorando um colega de faculdade que me esnoba, mas não me deixa, e eu vou arrastando esse relacionamento na esperança de que ele amadureça. Tem nome um troço desses? Carência, doença, masoquismo?”

“Namoro uma mulher bem mais velha que eu. Minha mãe torce o nariz. Meus amigos me chamam para a balada a fim de que eu conheça umas garotas da minha idade. Ela própria acredita estar empatando a minha vida. Meu terapeuta acha que está tudo bem do jeito que está, e eu também acho, mas ninguém a minha volta parece compreender. Às vezes nem eu compreendo”.

“Meu casamento durou apenas quatro anos. Não conseguíamos viver bem, era um desgaste emocional que fazia ambos sofrerem. Decidimos terminar de comum acordo e nós dois estamos agora respirando melhor, com a vida mais destravada. Até já estou saindo com outro cara, mas quando toca o celular, fico torcendo para que seja meu ex. Queria entender o que se passa comigo”.

“Já fui casado e sei bem o que é uma relação saudável, bacana, estruturada. Estaria com ela até hoje se não tivesse enviuvado. Achei que nunca iria me recuperar do baque, mas anos depois comecei outra relação séria, só que era o oposto do primeiro casamento: um tumulto, parecia que falávamos idiomas diferentes, ninguém se entendia, mas a atração era incontrolável e estamos juntos até hoje, nem eu nem ela temos coragem de sair fora, mesmo sem entender o que nos faz ficar”.

“Sabe relação ioiô? Vai e volta, vai e volta? Nenhum dos dois têm mais paciência pra isso, é ridículo. Se não conseguimos nos acertar até aqui, qual a esperança de um milagre acontecer? Teimosia, é o nome disso. Se não é teimosia, não sei o que é”.

Quando a gente não sabe o que é, é amor.


02 de março de 2013 | N° 17359
NILSON SOUZA

Dentuça cinquentona

Mônica faz 50 anos neste domingo. A garotinha dentuça criada por Mauricio de Sousa é uma espécie de Mafalda brasileira, embora lidere a sua turma de meninos e meninas mais pela força bruta do que pelos argumentos e pelo posicionamento político, que eram a característica da genial criação do argentino Quino.

Com Mônica não tem muito diálogo: escreveu, não leu, o coelho de pelúcia canta na orelha do insolente. Mas ela também sabe ser divertida e terna. Por isso conquistou o coração de milhares de leitores infantis – e também de muitos adultos.

A turma da Mônica é um achado, pois reproduz jeitos e trejeitos das crianças e adolescentes brasileiros de todas as classes sociais. Ainda que sejam inspirados nos próprios filhos do autor (e ele tem 10), os personagens transitam por todos os setores da sociedade. Quem nunca falou “elado” como o Cebolinha?

Quem não conhece uma Magali comilona? Quem não convive com um Cascão na escola? Quem nunca identificou um amigo com cara de Anjinho ou Franjinha? E quem não gostaria de ter à mão um Sansão, o coelho azul, para castigar os abusados sem causar-lhes ferimentos?

As histórias de Mauricio de Sousa são quase sempre ingênuas e até um tanto moralistas, mas encantam exatamente pela semelhança com a vida real.

Mônica, apesar do seu temperamento explosivo, é totalmente do bem – tanto que já recebeu o título de embaixadora do Unicef por transmitir valores essenciais de convivência, como a amizade, a solidariedade, o apreço pela educação e pela família. O Fundo das Nações Unidas para a Infância a reconhece como defensora dos direitos das crianças.

Ela e os demais personagens de Mauricio saltaram das tirinhas dos jornais para as revistinhas e agora espalham-se por diversas plataformas, incluindo televisão, cinema, internet, videogames e até mesmo um parque temático que o desenhista mantém em São Paulo.

As histórias em quadrinhos foram – e ainda são – a cartilha de alfabetização de muitas gerações. Este escriba, por exemplo, aprendeu a ler por conta própria, antes de entrar na escola, motivado pela curiosidade de ler os balõezinhos dos gibis que circulavam pela casa paterna.

E que trocávamos na porta do cinema. Os garotos de hoje custam a acreditar que íamos para a matinê (que era como se chamavam as sessões da tarde) com pilhas de gibis debaixo do braço, para trocá-los com outras crianças. Pode parecer meio ridículo, mas garanto que era muito mais saudável do que entrar no cinema com um pacotão de pipocas e um litro de refrigerante. Essa, infelizmente, a Magali venceu.

Bom, mas voltando à aniversariante: Mônica e sua turma de amigos – graças ao talento de Mauricio de Sousa – são dignos representantes da alegria e da irreverência do moleque brasileiro.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013



27 de fevereiro de 2013 | N° 17356
MARTHA MEDEIROS

Infiltrações

“Aqui tudo parece que é ainda construção, e já é ruína”.

Conversava com um amigo sobre o vexame que foi a abertura daquele buraco no conduto Álvares Chaves na semana passada, durante um dos temporais mais enérgicos ocorridos em Porto Alegre, e nos veio à lembrança essa parte da letra da música Fora da Ordem, do Caetano Veloso.

Não é o caso de tratar desse assunto isoladamente (por mais absurdo que seja o fato de um investimento tão alto numa obra de drenagem resistir apenas quatro anos), mas de analisarmos o contexto todo: vivemos num país maquiado, em que se as coisas “parecerem” benfeitas, já está ótimo.

A Arena também serviria como exemplo de uma obra entregue às pressas para cumprir calendário, mesmo sem condições básicas de uso. Mas também não pode ser visto como um caso isolado. Há outras tantas em andamento, todas com prazo máximo de 15 meses para serem concluídas (até o início da Copa), e me pergunto: o corre-corre não comprometerá o bom acabamento de viadutos, pontes, prédios e estradas?

Com a intenção de viabilizar orçamentos, não se estará sacrificando a qualidade do material empregado? Os funcionários em atividade estão bem preparados ou fazem um serviço matado, a toque de caixa? Dá pra confiar na espinha dorsal do Brasil?

Há que se ter cuidado com infiltrações. De todos os tipos, aliás. Com a infiltração de inconsequentes em meio a uma torcida, capazes de disparar um artefato com poder destrutivo em direção a outras pessoas, sem levar em conta que o gesto poderá ferir gravemente alguém ou até mesmo matar – como matou o garoto boliviano de 14 anos.

Com a infiltração de médicos e enfermeiros sem ética dentro de hospitais, que desligam aparelhos que mantêm vivos os pacientes, a fim de “desentulhar a UTI”. Com a infiltração de políticos desonestos nas entranhas do poder, que mesmo acusados por crimes diversos assumem cargos de presidência de instituições.

Por fora, bela viola. O Brasil hoje é visto como um país moderno e estável. É uma aposta mundial considerada certeira, um candidato VIP a juntar-se às superpotências. Mas como andará o esqueleto desse país que se declara tão sólido? Na verdade, o Brasil é um jovem com osteoporose precoce, um país descalcificado, que fica em pé à custa de aparências, comprometido com sua imagem pública, mas que segue com uma infraestrutura em frangalhos.

Aqui pouco se investe seriamente em educação, em treinamento de pessoal, em qualificação de mão de obra, em fiscalização, em responsabilidade social, tudo o que alicerça de fato uma nação. Nossa mentalidade “espertinha” faz com que não gastemos muito dinheiro com o que fica oculto, com o que não dá para exibir. O resultado? Por dentro, pão bolorento.

sábado, 23 de fevereiro de 2013



24 de fevereiro de 2013 | N° 17353
MARTHA MEDEIROS

Afinados

Uma vez, em uma conversa entre amigos, alguém comentou que jamais conseguiria casar com quem ouvisse Celine Dion. Casar? Eu não conseguiria pegar uma carona com alguém que ouvisse Celine Dion, retruquei, exagerando. E foi nesse tom de brincadeira que continuamos falando sobre nossos eu nunca poderia me relacionar com alguém que....

Puro blábláblá, pois, na hora em que a paixão se apresenta, nossos gostos se adaptam rapidinho, e a gente se pega dançando forró quando queria mesmo era estar num show do Pearl Jam. Ainda assim, essa questão de ter afinidade musical não é absolutamente tola. Gostar de gêneros musicais diferentes não impede um relacionamento, mas, quando há compatibilidade, dois amantes evoluem e transformam-se em dois cúmplices.

Tudo porque a música não é uma forma de ocupar o silêncio, simplesmente. Ela provoca uma experiência física e sensorial. Ela vai buscar você onde você se esconde. E compartilhar isso com quem amamos é roçar no sublime.

Se aquilo que gosto de ouvir estimula as mesmas sensações em quem convive comigo, cria-se um diálogo sem palavras, à prova de mal-entendidos. A música invade e captura o que há de melhor em nós, nossa essência primeira, a que não foi corrompida por racionalizações. E essa sensibilidade refinada, ao ser despertada simultaneamente em um homem e em uma mulher (ou numa plateia inteira, no caso de um espetáculo) gera uma comunhão tão rara quanto mágica.

Muitos filmes já demonstraram como a música pode ser um fator de aproximação entre casais. Para citar dois que concorrem ao Oscar neste domingo, no belíssimo Amor, os protagonistas idosos não eram apaixonados apenas um pelo outro, mas igualmente por música erudita, o que reforçava o laço.

Em O Lado Bom da Vida, duas vítimas de perturbações psíquicas encontram uma forma de serenizar sua ansiedade descontrolada através da dança, fazendo com que seus corpos obedeçam a um ritmo, e sua alma também. A música facilita que identifiquemos um “igual”, ou alguém razoavelmente parecido conosco. E ajuda a fazer esse encontro perdurar.

Não que tenha sido descoberta a fórmula do sucesso das relações – elas se desfazem, mesmo quando há gostos afins.

Mas, entre os momentos que ficarão na lembrança, estarão aqueles em que ambos sabiam com certeza o que o outro estava sentindo quando conectados pela música, uma música que, às vezes, nem estava sendo tocada, mas escutada por dentro, como na hora exata do parto do filho, em que se ouve internamente uma orquestra, ou na hora da decolagem de um voo, quando se ouve internamente uma ópera, ou durante o primeiro beijo, quando se ouve internamente... sinos? Humm, eu escolheria uma trilha sonora menos óbvia, mais inspiradora.

Coisa mais triste quando, ao recordar um amor, a gente tenta lembrar: qual era a nossa música? E não havia.


23 de fevereiro de 2013 | N° 17352
NILSON SOUZA

Sala dos adjetivos

O homem da feira ecológica que frequento aos sábados, que sabe do meu ofício por ouvir falar, me pergunta como é uma redação de jornal. Primeiro apelo para o humor autodepreciativo:

– Sabe um hospício?

Logo percebo que ele não acha graça e também me dou conta de que não estou sendo politicamente correto. Então, vou para a comparação.

– É como esta feira. Temos as nossas bancas que chamamos de editorias, todas interligadas para que o cliente saia satisfeito com o seu cesto de notícias fresquinhas e de qualidade.

E explico que repórteres, fotógrafos, redatores, revisores, editores e diagramadores trabalham em grupos direcionados para áreas específicas, embora todos sejam movidos pelo mesmo combustível do jornalismo. Conto que temos editorias de Política, Economia, Esporte, Geral, Mundo, Variedades, Cultura, Opinião, Fotografia, Arte, Diagramação e outros núcleos voltados para cadernos e seções especiais. Como o homem não parece estar distinguindo banana de berinjela, tento traduzir.

A editoria de Política é uma espécie de garimpo da verdade – uma incessante e laboriosa busca de quase inexistentes pedras preciosas em meio ao cascalho da disputa pelo poder. A Economia lida com cifras e negócios, explica, por exemplo, por que os preços da feira variam de sábado para sábado, pois seu principal foco são as pessoas por trás dos números.

O Esporte, como bem definiu um veterano da minha profissão, é a editoria da paixão – onde se processa a alquimia diária de transformar o fanatismo em objetividade. A Geral, já diz o nome, é como aqueles armazéns antigos de secos e molhados – tem de tudo, faz tudo, e o freguês sai sempre satisfeito. Mundo, vasto mundo, vai do asteroide ao Papa – e se ele se chamasse Raimundo seria uma rima, jamais uma solução para os dilemas da religião. Arte, cinema, literatura – tudo que alimenta o espírito e encanta a alma é tratado pelo pessoal do Segundo Caderno e suas sucursais, sempre com requinte e elegância.

E chegamos ao meu chão, que é a editoria de Opinião. Ocupamos, eu e meus colegas de juntar letrinhas, a sala dos adjetivos – um depósito de munições gramaticais que podem ser utilizadas para criticar, elogiar, reivindicar, defender e acusar. Quanta responsabilidade!

Meus colegas da Fotografia capturam imagens que valem por milhões de palavras, produzem e editam vídeos que são verdadeiros curtas-metragens do cotidiano. Na Arte, estão os artistas, ilustradores, chargistas e produtores de infográficos, que facilitam o entendimento de qualquer complexidade. Os diagramadores botam ordem na casa, juntam as peças do quebra-cabeça e dão um formato harmônico e compreensível ao cesto de frutas, verduras e hortaliças do jornal impresso ou virtual.

Em meio a tudo isso, ainda há espaço para as sempre oportunas mensagens dos leitores, para os engenhosos artigos dos colaboradores, para a infalível previsão do tempo, para o saboroso almanaque do passado, para divertidos quadrinhos, para os inteligentes colunistas e até mesmo para as generosas biografias dos que já não mais as poderão ler.

A Redação, senhor feirante, é como o seu universo de barracas interligadas – com diligentes trabalhadores oferecendo fatos recém-colhidos para o atencioso público.

Os adjetivos, como pode ver, são a oferta do dia.

FLÁVIA YURI OSHIMA

Não estresse: você tem mais tempo do que pensa

Um novo livro ensina a usá-lo bem – sem estresse nem ansiedade

Se seu dia está curto demais para tantas tarefas, há uma solução simples, embora de aplicação difícil: mude-se para Vênus. Lá, o dia dura 243 vezes a duração do dia na Terra – é o tempo que o planeta demora para dar a volta sobre seu próprio eixo. Imagine só.

Daria para trabalhar, pegar um cineminha, encontrar os amigos, cuidar do cachorro, levar os filhos à escola, tirar uma soneca depois do almoço, ler um livro, assistir à sessão da tarde na TV... Deve ser por isso que nunca se viu um venusiano reclamar de estresse.

Diante das 5.832 horas do dia de Vênus, é compreensível que os terráqueos se queixem tanto de seus dias de 24 horas. Segundo a escritora americana Laura Vanderkam, porém, reclamamos de barriga cheia. Seu livro 168 hours. You have more time than you think (168 horas. Você tem mais tempo do que pensa), ainda não lançado no Brasil, tornou-se best-seller defendendo duas teses incomuns em obras sobre organização do tempo. A primeira é que somos bem menos ocupados do que imaginamos. A segunda é que a melhor maneira de aproveitar bem o tempo é não se preocupar tanto assim com ele.
>>A doença da pressa

Nossa vida é tão corrida que livros sobre como administrar o tempo se tornaram um gênero à parte nos últimos anos (leia a lista abaixo). Em geral, eles partem de uma premissa: o dia é curto para tantas tarefas. A melhor maneira de lidar com isso, segundo eles, é preenchê-lo como os hotéis ocupam suas vagas na alta temporada.

De forma rigorosa, cumprindo todas as tarefas de trabalho sem procrastinar e planejando o tempo restante para aproveitar cada segundo com a família, ou aprendendo um hobby, ou praticando esportes. O resultado desse planejamento rigoroso é, muitas vezes, mais estresse – pois mesmo as atividades prazerosas descritas acima acabam se transformando numa lista de tarefas.

Laura Vanderkam vai contra essa corrente tarefeira. Ela começa por verificar, de forma empírica, que a premissa segundo a qual temos pouco tempo não é verdadeira. Para isso, ela recorre a dois tipos de pesquisa. A primeira é feita pelo governo americano. Há 40 anos ele faz um estudo chamado Pesquisa sobre Uso do Tempo (Atus, na sigla em inglês). 

A outra fonte são universidades que fazem o mesmo tipo de levantamento. Em geral, os métodos são parecidos. Milhares de participantes mantêm um diário do que fazem a cada hora – como o sistema de cobrança de horas de advogados. É comum os relatórios chegarem com registros que, somados, formam um dia de 28 ou 29 horas. A conclusão é simples: achamos que gastamos mais horas do que realmente gastamos nas atividades do dia a dia.

Como tocar seu plano B sem descuidar da atividade principal

Essa conclusão é reforçada quando a cotejamos com outras estatísticas. Elas não estão disponíveis para o Brasil, mas nosso comportamento não está tão distante do americano. Nos Estados Unidos, o sono continua durando em média oito horas por noite, como há 40 anos. Mesmo mães de crianças com idade abaixo de 6 anos dormem entre 8h6min e 8h31min.

O Centro de Políticas para Trabalho e Vida dos Estados Unidos diz que apenas 1% da população tem trabalhos de carga extrema – como são chamados os empregos que demandam mais de 60 horas de trabalho por semana.

Em média, o americano que tem filhos, mesmo reclamando de sobrecarga, trabalha tanto quanto o personagem da série dos anos 1940 Papai sabe tudo (aquele que chegava cedo em casa, jogava o chapéu no mancebo e dizia: “Querida, cheguei!”) – entre 35 e 43 horas por semana. Dados da Universidade de Maryland, que faz o mesmo levantamento há 20 anos, mostram que aqueles que dizem trabalhar entre 60 e 69 horas por semana trabalham, na verdade, cerca de 53 horas. Quem diz ficar entre 70 e 80 horas na labuta raramente chega ao teto das 60 horas.

Dado que temos mais tempo do que pensamos, como aproveitá-lo melhor? Como fugir da armadilha da lista de tarefas que transforma os momentos de lazer em obrigação? A resposta de Laura Vanderkam está no título de seu livro: 168 horas. O número é o produto das 24 horas do dia pelos sete dias da semana.

Este é seu ovo de Colombo: Laura sugere que planejemos a semana, não o dia. Em vez de uma lista rígida de afazeres cronometrados, teremos um elenco de prioridades que podem ser espalhados, maleavelmente, ao longo de sete dias. Numa lista rígida de tarefas, ficamos frustrados quando não conseguimos realizar uma. Num cronograma flexível, temos os seis dias restantes da semana para acomodar o que ainda não foi feito. Dito assim parece simples. Na prática, montar uma estratégia de bom uso do tempo exige reflexão, coragem e autoconhecimento.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013




20 de fevereiro de 2013 | N° 17349 
MARTHA MEDEIROS

Fim de férias

Passei duas semanas à beira-mar, caminhando, pedalando, rindo com os amigos e mergulhada em boas leituras. Aproveitei o descanso para me extasiar com Os Enamoramentos, de Javier Marias, para conhecer a ironia cativante de David Foster Wallace em seu Ficando Longe do Fato de já Estar meio que Longe de Tudo e voltei a consultar o filósofo Cioran, cuja amargura não deixa de ter um lado divertido.

No último dia de praia, antes de retornar a Porto Alegre, li por coincidência o seguinte trecho em um dos seus livros: “Se um governo decretasse em pleno verão que as férias fossem prolongadas indefinidamente e que, sob pena de morte, ninguém deveria abandonar o paraíso em que se encontra, se produziriam suicídios em massa e massacres sem precedentes”.

Fechei o livro e olhei para o mar azul à minha frente, com veleiros brancos a navegar suavemente, parecendo propaganda de cartão de crédito, e pensei em como eu reagiria se alguém decretasse: agora será esse idílio para sempre, baby. Acho que desataria a chorar. O paraíso não tem a mínima graça se não for confrontado com o inferno.

Às vezes, me pego sonhando com uma casinha num balneário pouco movimentado, onde eu pudesse passar o ano inteiro nadando, escrevendo, lendo, comendo peixe e demais alimentos saudáveis, e tudo me parece encantador, ou então imagino uma casinha na serra, cercada de verde por todos os lados, o clima frio, lareira, vinho tinto, eu igualmente afastada da baderna urbana, fazendo minhas caminhadas contemplativas, e também me parece um espetáculo de bem viver, até que alugo uma dessas casinhas por 15 dias e acho tudo de fato sensacional, mas, lá pelas tantas, percebo um formigamento na alma: até do trânsito da Nilo Peçanha começo a sentir falta.

Onde me sinto verdadeiramente em casa? Não é no meu idealismo, e sim na concretização das minhas atividades profissionais e pessoais. Me sinto em casa em aeroportos, conhecendo gente nova, aceitando trabalhos que produzem um glupt na garganta (misto de medo e excitação), fazendo malabarismo para dar conta das tarefas programadas, acordando a cada manhã sem saber direito o que o dia me trará.

E, apesar de toda a carga adrenalínica, finalizo essa odisseia jogada no sofá ouvindo música, com a satisfação de ter cumprido o que pretendia e de ainda ter sobrado tempo para o nada (sempre reservo um tempo para coisa nenhuma). “Lar” é onde cabem todos os eus que me habitam, não só o eu preguiçoso e indolente, mas também tudo o que precede a ele.

Talvez mais adiante eu invista num segundo endereço em outra cidade e alterne minhas permanências – um pouco lá, um pouco cá –, mas, por ora, não pretendo me acomodar a um calendário composto só de domingos, evitando o confronto com as angústias, as dúvidas, os desafios. Férias só se justificam por serem provisórias, são fantásticas porque terminam, é essa consciência do finito que faz com que valorizemos cada segundo vivido.

Que bom estar de volta à imprevisibilidade dos dias.

sábado, 16 de fevereiro de 2013



17 de fevereiro de 2013 | N° 17346
MARTHA MEDEIROS

Sempre gostei de ver resgatadas algumas palavras antigas

Vocabulário vintage

Eu havia combinado de buscar minha filha na casa de uma amiga por volta das 18h. Pouco antes desse horário, ela me ligou toda excitada dizendo que haviam resolvido assistir a um DVD e que alguém havia providenciado marshmallow com morangos e todas as outras gurias iriam ficar até mais tarde, então, mãe, mamãezinha, deixa eu ficar mais um pouco!!!

Respondi: “Tudo bem, me liga quando esse frege terminar”.

Silêncio abissal do outro lado da linha. Minha filha recuperou seu tom de voz normal e respondeu um seco: “Tá, eu ligo”. Parecia que tinha recebido a notícia da morte de um parente.

Assim que desliguei, não contive o riso. Frege! Minha filha deve ter ficado em estado de choque. Que língua mamãe estaria falando?

Na mesma hora, lembrei de uma passagem do ótimo Eles Foram para Petrópolis, livro que publica uma troca de correspondência virtual entre os jornalistas Ivan Lessa e Mario Sergio Conti. São textos eletrizantes, inventivos, inteligentes, que nos fazem matar a saudade de Paulo Francis, de quem os dois sempre foram amigos, aliás.

Em certa passagem do livro, eles salientam ser “imprescindível tirar uma palavrinha lá da cozinha, dar uma limpada, um bom brilho e depois tacar na cristaleira da sala de jantar para as visitas admirarem”. E concluem: “Uma gíria e um bordão podem e devem pedir o boné e se mandar. Uma palavra, não.”

Concordo e dou fé (também tirando da cozinha uma expressão empoeirada). Sempre gostei de ver resgatadas algumas palavras antigas que, em vez de denunciarem a decrepitude de quem as escreve, acabam por dar ao texto um ar vintage, que, como se sabe, é ultramoderno.

Em vez de dizer que fulana ficou estressada, não é muito mais divertido dizer que ela teve um faniquito? Temos medo de bandidos, mas simpatizamos com os pilantras. E quem é aquela dando em cima do seu marido? Uma boa de uma bisca. Vá lá salvá-lo antes que a sirigaita o leve no bico.Antigamente as expressões eram mais leves, e leveza hoje é uma qualidade revolucionária.

Esgotado o tempo regulamentar, busquei minha filha na casa da amiga e vi que seu cotovelo estava esfolado. “O que aconteceu?”, perguntei quando ela entrou no carro. “Nada demais, mãe, levei um boléu”. Não era caso pra achar graça, mas achei.

* Coluna publicada originalmente em 15 de agosto de 2010. A colunista Martha Medeiros está em férias.


A hora de dizer não

"Chega um momento na nossa vida em que devemos renunciar”, disse na semana passada o sociólogo e filósofo francês Edgar Morin, com vigor e lucidez aos 91 anos. Renunciar a uma ou mais coisas que pareciam essenciais antes. Renunciar a um cargo, a uma paixão, um desamor, uma obsessão, uma disputa, uma vaidade, ao sol a pino, à carne vermelha no jantar, seja lá o que for. Saber dizer não com serenidade pode ser um ato revolucionário e de liberdade individual.

Pelo ineditismo e pela surpresa, a renúncia do papa Bento XVI foi dissecada no mundo inteiro em plena festa profana, o Carnaval. Cada um viu o que quis. Vemos aquilo em que cremos. Católicos fervorosos se sentiram perdidos ao perceber, enfim, que o papa não é santo. Não é mesmo, nunca foi. Agnósticos e cristãos com um mínimo de perspectiva histórica sabem que a batina não sacraliza ninguém. Amém.

O papa não tem influência na minha vida particular, embora eu tenha sido batizada e feito primeira comunhão nas igrejas de Copacabana. Na infância, era obrigada a ir à missa todo domingo. Havia um anjo de gesso sobre minha cama. Ele me dava um certo medo.

Tinha aulas de catecismo numa escola laica. Via, na confissão, uma enorme teatralidade. Às vezes inventava pecados para testar a reação daquele desconhecido que parecia dormir, de perfil. Não entendia a lógica do número de ave-marias e padre-nossos, como castigo ou promessa de salvação eterna.

Bem mais tarde, o papa passou a me interessar apenas como chefe de um Estado implacável e multimilionário que se aliou a demônios palpáveis e históricos. Um Estado com poder transnacional sobre governos, política, ciência e sobre a vida das pessoas comuns. Na semana passada, o papa passou a me interessar como alguém de carne e osso. Por mais sinais de cansaço e desilusão que tivesse dado, era difícil crer que logo um Ratzinger apelidado de “papa panzer” e “rottweiler de Deus” decidisse apear da cruz e humanizar-se.

Ratzinger é um homem com um marca-passo. Não queria deteriorar ao vivo como seu antecessor. Considerava a saúde da carne um imperativo para exercer direito o poder do espírito. Sentia-se impotente diante do enfraquecimento da Igreja Católica.

Ficava irritado com as fofocas nos corredores do Vaticano. Inseguro diante dos escândalos de pedofilia de padres e cardeais. Culpado pelos escândalos de corrupção interna, vazados por seu mordomo. Traído por sua equipe de confiança. Magoado com sua imagem de autoritário e conservador no Twitter.
A renúncia do papa Bento XVI é um ato revolucionário – e inspirador – de liberdade individual

Ele nem pediu para sair. Não negociou com seus pares ou súditos. Disse: “Fui”. Decidiu “em plena liberdade” – como se alguém pudesse ser plenamente livre. Dizer que renunciou “pelo bem da Igreja” é conversa para cardeal dormir. Uma tentativa póstuma de se fazer de soldado humilde de Jesus. Um homem diz “não” pelo seu próprio bem. Bento XVI era um papa relutante e acidental, sem carisma. Virou astro pela negação.

O que se seguiu foram os obituários em vida. Como os papas costumam morrer em exercício, são poupados de assistir a seu funeral. Pelo menos de corpo presente. Bento XVI assiste de camarote à enorme confusão provocada por seu gesto libertário ou covarde. Se existem outros vazamentos de escândalos na fila, melhor estar na casa de verão em Castelgandolfo, meia hora ao sul de Roma, meditando, orando e escrevendo.

É um palácio sobre uma colina, com vista para um lago, na verdade a boca de um vulcão adormecido. Simbólico, diante de toda a lava derramada nos últimos anos envolvendo a Igreja Católica. Quem ficará na boca de um vulcão ativo será outro papa, mais jovem, mais saudável, menos rígido e mais antenado com as redes sociais. Não é assim a vida fora do Vaticano?

O “basta” de Bento XVI me lembrou o filme premonitório de Nanni Moretti, Habemus papam, do ano passado. É uma comédia de costumes inofensiva. Eleito pelo conclave dos cardeais, o novo sumo pontífice – protagonizado por Michel Piccoli – entra em pânico. Apavorado com o que o espera no comando da Igreja, recusa-se a ser identificado na sacada para os fiéis.

Um psiquiatra ateu (Nanni Moretti) é chamado ao Vaticano. Na cena mais hilária do filme, os cardeais dizem ao psiquiatra que ele só não poderá discutir assuntos como “fé, desejos, sonhos, sexo, infância e mãe”. É uma paródia de como a Igreja Católica se despregou da realidade.

A partir daí, o novo papa, descrente de si mesmo, de sua fé e da Igreja, foge do cerco e perde-se pelas ruas de Roma. Frágil, vulnerável, ele fica maravilhado com o anonimato, as pessoas e sua vida normal, seus tropeços e alegrias. Vê, de fora, como seu rebanho o enxerga. Renuncia a ser pastor. E assume a si mesmo.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013



05 de fevereiro de 2013 | N° 17334
FABRÍCIO CARPINEJAR

Não desistam de viver

A vontade é de abandonar o trabalho, não acordar mais, definhar abraçado ao travesseiro, encolher-se no canto e não erguer nem mais o braço para atender a porta e pedir ajuda.

Nada tem mais sentido, e ordem. A vontade é de não ter mais vontade. Os filhos morreram, os irmãos morreram, os colegas morreram. Eu entendo.

Entendo que vocês levantarão, sobressaltados, às duas horas de todas as madrugadas de suas existências, que haverá sempre uma sirene abrindo as ruas do sangue, que será insuportável raciocinar diante de um alarme dos bombeiros ou de ambulância lá fora.

Entendo que a casa está vazia, como a cidade está vazia, como o corpo está vazio. Mas não podemos chorar a morte dos familiares se não valorizarmos nossa vida.

Entendo que não será mais a vida idealizada, não será mais a vida planejada, não será mais a vida que merecíamos.

Mas ainda que seja uma vida desesperada, uma vida atormentada, uma vida traumatizada, ainda é a nossa vida. Ainda é a vida que ficou. Ainda a vida que temos que cuidar.

Ainda é a vida que temos que salvar. Afinal, nossa vida era tudo o que a gente pretendia assegurar para eles que se foram na boate Kiss.

Gostaríamos que os duzentos e trinta e sete jovens estivessem com a gente, então não podemos nos jogar fora. Não podemos esnobar a chance de estar aqui.

Continuar a viver é preservá-los. Continuar a viver é sabedoria. Continuar a viver é fé. Continuar a viver é humildade.

Continuar a viver é respeito: é não ser mais vítima do que as vítimas, por mais que doa doer o dia inteiro.

É imperioso cortar o cordão umbilical da Rua dos Andradas, abolir as hipóteses: se eu tivesse proibido meu filho de sair, se eu tivesse viajado com a família, se eu tivesse telefonado antes, se eu tivesse sido mais rigoroso...

O “se” não devolve o que perdemos, nem diminui o sofrimento. A culpa não deve abafar a justiça, o medo não deve sufocar a esperança.

Não há como controlar o destino. A tragédia não aconteceu porque vocês falharam. Vocês, familiares, não teriam como evitá-la. O que sobra é amar a si para explicar o que é amor, para explicar o que é saudade.

O que nos resta é a responsabilidade de lembrá-los com garra. De lavar as escadarias das igrejas com flores. De ir adiante para que esse incêndio criminoso nunca mais se repita em nenhum lugar do mundo deste Brasil.

Que nossos filhos de Santa Maria jamais morram para a História.


05 de fevereiro de 2013 | N° 17334
ARTIGOS - Guilherme Socias Villela*

O silêncio dos soldados

É notório que os poderes do Estado brasileiro, em toda a sua existência, têm revelado notáveis conflitos políticos. Ocorre que suas instituições tradicionais têm mostrado incapacidade de superar crises políticas nacionais – inclusive, e principalmente, nas crises germinadas em ideologias que geram devaneios ou paixões e emoções – indissociáveis da condição humana.

Nos cerca de 70 anos da monarquia brasileira, esses conflitos políticos foram, de alguma forma, amenizados por certo poder moderador – exercido pela autoridade moral do seu último imperador. Todavia, no período republicano brasileiro, é reconhecido que esse poder moderador, nas crises políticas nacionais, tem sido exercido pelas Forças Armadas – convocadas nos momentos, anteriores ou posteriores, ao que poderiam ser denominados “sistólicos” da vida política brasileira.

Golpe. Contragolpe. Revolução. Dê-se-lhe o nome que se queira dar ao movimento político, econômico, psicossocial e militar brasileiro de 1964 – ocorrido num mundo em que predominava a Guerra Fria. Rigorosamente, do ponto de vista histórico, esse movimento ainda está para ser interpretado.

(Historiadores franceses clássicos recomendavam que não se fizesse história depois da era napoleônica – segundo eles, para que não se perdesse a “perspectiva histórica”. A propósito, ultimamente, no Rio Grande do Sul, quase dois séculos depois, a própria história da Revolução Farroupilha vem sendo revisada.)

Uma das consequências do movimento de 1964 ainda hoje pode ser observada: o prestígio das Forças Armadas nacionais está danificado. É como se a nação houvesse olvidado sua participação na independência brasileira; na Guerra do Prata; na Guerra do Paraguai; na atuação da Força Expedicionária Brasileira na II Guerra Mundial; no desempenho militar da Marinha de Guerra – a mais antiga das armas nacionais; além da defesa aeroespacial do território nacional – exercida pela Força Aérea Brasileira.

E, não menos importante, a participação das Forças Armadas nos programas de saúde e educação realizados nos mais recônditos e desprovidos lugares do território nacional; na sua presença em missões de paz em alguns países latino-americanos; e, ainda, na construção de obras de infraestrutura do país – especialmente rodovias, pontes e ferrovias.

(Recentemente, na reforma do aeroporto de Guarulhos, Cumbica, feita pelo Exército Nacional, as obras foram entregues antes do prazo estipulado no projeto, além de serem devolvidos R$ 150 milhões ao Tesouro Nacional – o que, em matéria de obras públicas, é algo incomum!)

Hoje, infelizmente, a sociedade brasileira assiste, emudecida, à corrupção, aos escândalos, às distorções de conduta, aos subornos, à falsidade e à falta de compostura política – e tudo que faz sentir os primeiros “perfumes” da gradativa putrefação de uma sociedade doente.

A propósito, é indispensável lembrar que o militar brasileiro, ao revés – no poder ou fora dele –, sempre tem conduta exemplar. Sua formação, da escola à caserna, está norteada para a devoção à pátria; para a integridade e para a honestidade pessoais; para a ética; para a hierarquia; para a ordem; e por valores éticos orientadores do seu comportamento moral, pelo resto da vida – motivo pelo qual, hoje, não tendo sido convocado, pode ser entendido o seu silêncio.

*ECONOMISTA, EX-PROFESSOR UNIVERSITÁRIO


05 de fevereiro de 2013 | N° 17334
CLÁUDIO MORENO

Em doses mínimas

São poucos os que recordam o nome de Mitrídates, mas todos nós conhecemos pessoas que tragicamente com ele se parecem. Este personagem passou para a História não por ser o rei do Ponto Euxino, antiga colônia que os gregos fundaram no Mar Negro, terra do famoso filósofo Diógenes, mas por um estranho e sinistro comportamento que resolveu adotar ao longo de toda a sua vida.

Mitrídates ainda era um menino quando descobriu que sua mãe e outros membros da família pretendiam eliminá-lo com um veneno discreto, fazendo com que sua morte parecesse natural. Vendo que seria extremamente difícil defender-se de um inimigo que morava sob o mesmo teto e com o qual compartilhava o alimento de cada dia, decidiu que precisava se tornar imune a qualquer espécie de substância nociva.

Passou então a estudar com afinco todos os antídotos conhecidos, testando sua eficácia em prisioneiros condenados à morte. Depois de muitas tentativas, chegou finalmente a uma fórmula única, composta de mais de 50 ingredientes, incluindo o sangue dos patos que viviam no Ponto, cujo alimento principal eram plantas que matariam qualquer homem que as ingerisse.

Para sentir-se ainda mais protegido, engolia diariamente, depois da dose habitual deste remédio, pequenas quantidades de veneno para fortalecer o organismo contra uma possível armadilha dos assassinos. Não se sabe se chegaram a ocorrer tentativas, mas o certo é que ele viu os inimigos morrerem um a um, mantendo-se no trono até o dia em que, já perto dos 70, seu reino foi conquistado pelos romanos comandados por Pompeu.

Embora vencido, não poderia submeter-se às terríveis humilhações que Roma infligia aos prisioneiros reais; por isso, antes que os soldados chegassem para prendê-lo, dividiu com a mulher e as filhas o veneno que trazia guardado no pomo da espada. Elas morreram em seguida, mas ele estava tão habituado à substância que ficou apenas atordoado. Então, sem forças para enterrar a espada no peito, teve de implorar que um soldado de sua guarda o matasse.

Por causa disso, Mitrídates virou palavra, o que é, por si só, uma garantia de sua imortalidade: em todas as línguas do Ocidente, mitridatizar significa aumentar a tolerância a um veneno pela ingestão contínua de pequenas doses, um verbo feito sob medida para explicar o absurdo fatalismo com que aceitamos – no trabalho, na relação amorosa, no convívio com os demais – abusos e agressões contra tudo o que o ser humano tem de mais vital e importante.

Sem revolta ou indignação, passamos a tolerar tudo aquilo que antes nos fazia mal, engolindo o veneno, gota por gota, até chegar à dose letal.