sábado, 13 de abril de 2013



13 de abril de 2013 | N° 17401
ARTIGOS - Germano Rigotto*

Dívida: a unidade como estratégia

A difícil situação financeira do Rio Grande do Sul passa por questões federativas e pela busca de entendimento em pautas que dependem unicamente de nós – como é o caso da previdência estadual. Não se pode esconder essas constatações nem pela mais legítima tentativa de pessoalizar ou de politizar o debate a respeito do tema. Tudo o que não precisamos – ontem, hoje ou amanhã – é de diagnósticos irreais, falsos pessimismos ou intermináveis disputas e dissensos.

O comprometimento da receita com o pagamento da dívida com a União é um dos mais graves complicadores das contas públicas gaúchas. E essa – ao menos essa! – é uma causa que precisa nos unir. Isso passa por compreender que o acordo firmado na década de 90 foi adequado para as condições macroeconômicas de então. De lá pra cá, entretanto, o cenário mudou – a começar pela utilização do indexador de correção.

Os patamares em vigor não são mais usados sequer para financiamentos privados. O Estado devia R$ 11 bi em 1997, não fez novas dívidas, pagou R$ 18,7 bi, e ainda assim deve R$ 40 bi. O quadro foi agravado pela mudança, nas últimas décadas, de outras duas dinâmicas substanciais: o juro subiu – e fez crescer o saldo devedor –, a inflação caiu – e fez diminuir a arrecadação. O desequilíbrio fica evidente.

Também é necessário reavaliar o índice de comprometimento da receita para pagamento da dívida e a unificação das 27 legislações de ICMS, mudando gradativamente a cobrança da origem para o destino e limitando a guerra fiscal. A Lei Kandir, meritória nas intenções, onerou excessivamente Estados com vocação exportadora, como o Rio Grande do Sul. A compensação paga pela União está longe de ser equânime.

Portanto, não podemos cair no defasado costume de simplificar um problema de múltiplas e complexas facetas. Há dados objetivos da realidade que não estiveram vinculados à vontade deste ou daquele partido ou governante. Nada disso exime o Rio Grande do Sul de suas próprias responsabilidades, mas mostra que a situação nas nossas finanças, em grande parte, foi agravada por implicações externas.

O debate político sobre isso é oportuno, inclusive no exercício da crítica que interessar a cada parte. Não fujo a esse diálogo. Todavia, se pautarmos a discussão na arena da velha rivalidade que tantas vezes já nos atrapalhou, é provável que tenhamos ainda mais dificuldade de encontrar soluções plausíveis – seja no curto, no médio ou no longo prazo.

Nosso Estado é bem mais do que as disputas que tantas vezes tomam conta do nosso cotidiano. Precisamos somar forças naquilo que pode nos unir. E a luta pela mudança nos patamares da cobrança da dívida federal é um exemplo concreto disso. A construção da unidade em torno de agendas mínimas não é retórica, senão que a única estratégia de governabilidade financeira para o Rio Grande do Sul.

*EX-GOVERNADOR DO RIO GRANDE DO SUL E PRESIDENTE DO INSTITUTO REFORMAR


WALCYR CARRASCO
12/04/2013 22h07

Crueldade com cães

Fiquei comovido com a história do cachorro abandonado pelo dono na estrada BR-101, no Espírito Santo, que apareceu na internet. Deixado no acostamento, mas ainda fiel, o cão correu quilômetros atrás da caminhonete. A dentista Rafaela, que passava pelo local, registrou as imagens. Chegou a falar com o responsável. Ele se recusou a resgatar o animal. Rafaela salvou o cachorro. Deu-lhe o nome de Leleco e levou-o a um veterinário. Em seguida, hospedou-o num hotel canino, onde Leleco deverá permanecer até encontrar novo dono.

O que me assusta nesse episódio é a frieza do proprietário. Já adulto, o animal certamente viveu anos com esse homem e também, provavelmente, com a mulher que o acompanhava na caminhonete. O dono era sua referência de amor e proteção. Foi deixado à beira da rodovia, como se não houvesse nenhum laço entre proprietário e cão. Qual o objetivo de deixar um cachorro na estrada? É para ser atropelado ou morrer de fome?

O abandono de animais é frequente. Mesmo dos que têm pedigree. O casal compra o filhote e passa meses, até anos, encantado com o bichinho. Se tem filhos, vira mascote das crianças. Aí resolve fazer uma viagem longa. Ou mudar-se de uma casa para um apartamento. Leva o animal para um lugar distante, e adeus! O problema não é só brasileiro. Em países como França, Portugal e Espanha, é comum que cães comprados para fazer companhia no inverno sejam abandonados quando os donos saem para as férias de verão.

Na Itália, já houve até uma campanha contra isso. Na Inglaterra, uma organização chamada Dogs Trust pediu publicamente que animais de estimação não sejam oferecidos como presentes de Natal. Na festa, são recebidos com alegria. Mas a foto de dois cachorrinhos abandonados na neve após as comemorações ilustrou o que realmente acontece. Já tive uma faxineira que adorava seu vira-lata. Sempre me contava as gracinhas do animal. Um dia, chegou em casa com expressão tristíssima:

– Fui para bem longe de casa e abandonei o bichinho. – Por que fez isso? Você gostava dele! – perguntei. – Ah, mas ele latia muito.

Alguns dias depois, arrependeu-se. Foi procurar, não o encontrou mais. Tenho quatro cachorros. Luna, uma fêmea de husky branca, ganhei de presente. Kauê, um shih-tzu, foi dado por um amigo que não podia mais cuidar dele. A vira-lata Morgana apareceu na porta da casa de uma amiga, dentro de uma caixa, com dois irmãozinhos. Outra vira-lata, Ísis, foi resgatada na praia, magérrima, por um amigo. Na ocasião, a veterinária disse:

– Mais uma que está salva!

Deixar filhotinhos é comum. Os donos param os carros de noite. Descem sorrateiros. Botam a caixa num terreno baldio ou na frente de uma casa qualquer. Fogem, como se estivessem praticando um crime. De acordo com um projeto de lei brasileiro, estão mesmo. No futuro, casos assim poderão ser punidos com cadeia.
Qual o objetivo de abandonar um cachorro na estrada? É para ser atropelado ou morrer de fome?

Numa modalidade de abandono mais sofisticada, a pessoa interna o bicho numa clínica veterinária. Fornece nome e telefone falsos. O animal espera por seu dono com ansiedade. Os dias passam, e ele não aparece mais. Veterinários, por definição, amam animais. Costumam arcar com o prejuízo, até encontrar um novo lar para o coitado. Nem sempre conseguem. Quando o animal está velho ou doente, ninguém quer. Não é à toa que algumas clínicas exigem identidade, CPF e até comprovante de endereço quando surge um novo cliente.

A internet tem ajudado muito. É enorme o número de pessoas que põem fotos de animaizinhos à procura de um lar. Minha amiga Lavínia, paulista, é uma delas. Já parou o carro na estrada muitas vezes para pegar um cachorro. Leva ao veterinário, que faz preço especial nesses casos.

Depois, põe o cão de banho tomado e pelo escovado no Facebook. Faz pouco tempo, meu coração até bateu mais forte por causa de uma peludinha. Fiquei indeciso, por já ter quatro cães. Nesse intervalo, uma mulher apaixonou-se por ela. Lavínia mostrou a beldade com a nova dona na internet. Clima de felicidade total. Outra amiga, Vera, mulher do ator Fúlvio Stefanini, faz o mesmo. Passa a vida resgatando cães e encontrando novos donos.

Apesar de tanta gente apaixonada por animais, o problema permanece. O bicho deixado para trás passa fome e privações de todo tipo. Torna-se vítima de maus-tratos. Abandonar um animal é um ato de crueldade. Evidencia a falta de sentimentos de uma pessoa. Quem abandona é que não merece o amor de um cachorro.

quarta-feira, 10 de abril de 2013



10 de abril de 2013 | N° 17398
MARTHA MEDEIROS

Reconciliando-se com o próprio corpo

Pratico exercícios desde sempre. Já dancei jazz, nadei, joguei vôlei, fiz aeróbica, musculação, mas nada disso me tornou uma amante da vida esportiva. O que me levava a essa movimentação intensa era a consciência de que manter uma atividade física enrijece o corpo e oxigena a mente, então eu ia em frente sem pensar em prazer. Era uma necessidade, e pronto.

Aos poucos, fui largando tudo e mantive apenas as caminhadas, essas, sim, não apenas saudáveis, como prazerosas. Poderia passar o dia caminhando, não tivesse que reservar um tempo para exercícios cerebrais, como trabalhar e fazer palavras cruzadas.

Parecia tudo bem, até que uma médica me disse: caminhar é bom, mas não basta. Está na hora de você suar o top. E me recomendou pilates.

Modismo, chatice, tédio. Todas essas ideias me passaram pela cabeça, mas sou obediente, acato ordens, e me matriculei num pequeno estúdio a poucos passos da minha casa, conduzido por um casal de instrutores. Fui cair na mão dos melhores, posso apostar. Em três sessões, já percebia mudanças no meu corpo, na minha postura.

Quanto ao tédio, bom, não há tédio na dor. Às vezes, me sinto como se estivesse treinando para me apresentar no Cirque du Soleil. Recebo ordens inimagináveis: grude o umbigo nas costas, encolha as costelas, encoste o queixo no peito. Já houve caso de instruírem um rapaz a contrair o útero! Dá vontade de rir, mas não convém, temos que nos concentrar na respiração. Juro, com tudo isso, ainda pedem que a gente respire.

Então, de volta aos exercícios sem prazer?

Pois aí está a novidade: o prazer é de outra ordem. O pilates faz a gente mudar a maneira de pensar o corpo, o que deve ser a razão do seu sucesso mundo afora. Ao decidir praticar um exercício, muitas vezes ficamos condicionados aos benefícios externos de se estar em forma: a saúde é uma boa desculpa, mas a vaidade é que nos faz pagar a mensalidade da academia. Pois o pilates supera essa visão miúda, adicionando à prática uma reflexão que vai muito além do desejo de ser admirado.

Quando somos adolescentes, sentimos nosso corpo como parte indissolúvel do nosso ser. Porém, com o passar do tempo, acaba acontecendo uma dissociação – à revelia, nosso corpo começa a nos abandonar, a nos deixar na mão. A pele vai se soltando, os órgãos internos armam rebeliões, as articulações gritam, rangem – não me peça para explicar, mas nosso corpo ganha vida própria, se emancipa e não nos escuta mais.

O pilates é, antes de tudo, uma reconciliação com esse corpo que se tornou rebelde e fugidio. Ele sempre esteve a nosso serviço, mas pouco estivemos a serviço dele. Pois o pilates, feito um cupido, faz com que nós e nosso corpo passemos a nos conhecer mais profundamente e a descobrir o que nem sabíamos um do outro, mesmo com tantos anos de convívio.

Basicamente, pilates é o resgate do amor entre você e o que você traz dentro. Mesmo que seja um útero que você nem tem.

sábado, 6 de abril de 2013



07 de abril de 2013 | N° 17395
MARTHA MEDEIROS

Admitir o fracasso

Eu estava dentro do carro em frente à escola da minha filha, aguardando a aula dela terminar. A rua é bastante congestionada no final da manhã. Foi então que uma mulher chegou e começou a manobrar para estacionar o seu carro numa vaga ainda livre. Reparei que seu carro era grande para o tamanho da vaga, mas, vá saber, talvez ela fosse craque em baliza.

Tentou entrar de ré, não conseguiu. Tentou de novo, e de novo não conseguiu. E de novo. E de novo. Por pouco não raspou a lataria do carro da frente, e deu umas batidinhas no de trás que eu vi. Não fazia calor, mas ela suava, passava a mão na testa, ou seja, estava entregando a alma para tentar acomodar sua caminhonete numa vaga que, visivelmente, não servia. Ou, se servisse, haveria de deixá-la entalada e com muita dificuldade de sair dali depois. Pensei: como é difícil admitir um fracasso e partir para outra.

Para quem está de fora, é mais fácil perceber quando uma insistência vai dar em nada – e já não estou falando apenas em estacionar carros em vagas minúsculas, mas em situações variadas em que o “de novo, de novo, de novo” só consegue fazer com que a pessoa perca tempo. Tudo conspira contra, mas a criatura teima na perseguição do seu intento, pois não é do seu feitio fracassar.

Ora, seria do feitio de quem?

Todas as nossas iniciativas pressupõem um resultado favorável. Ninguém entra de antemão numa fria: acreditamos que nossas atitudes serão compreendidas, que nosso trabalho trará bom resultado, que nossos esforços serão valorizados. Só que às vezes não são. E nem é por maldade alheia, simplesmente a gente dimensionou mal o tamanho do desafio. Achamos que daríamos conta, e não demos. Tentamos, e não rolou. “De novo!”, ordenamos a nós mesmos – e, ok, até vale insistir um pouquinho.

Só que nada. Outra vez, e nada. Até quando perseverar? No fundo, intuímos rapidinho que algo não vai dar certo, mas é incômodo reconhecer um fracasso, ainda mais hoje em dia, em que o sucesso anda sendo superfaturado por todo mundo. Só eu vou me dar mal? Nada disso. De novo!

De-sis-ta. É a melhor coisa que se pode fazer quando não se consegue encaixar um sonho em um lugar determinado. Se nada de positivo vem desse empenho todo, reconheça: você fez uma escolha errada. Aprender alemão talvez não seja para sua cachola. Entrar naquela saia vai ser impossível. Seu namorado não vai deixar de ser mulherengo, está no genoma dele. Você irá partir para a oitava tentativa de fertilização?

Adote. E em vez de alemão, tente aprender espanhol. Troque a saia apertada por um vestido soltinho. Invista em alguém que enxergue a vida do seu mesmo modo, que tenha afinidades com seu jeito de ser. Admitir um fracasso não é o fim do mundo. É apenas a oportunidade que você se dá de estacionar seu carro numa vaga mais fácil e que está logo ali em frente, disponível.


Ruth de Aquino

O ônibus e a van

São dois crimes bem diferentes na essência: o ônibus que despencou de um viaduto, matando sete e ferindo nove, e o estupro coletivo de uma americana numa van. Duas coisas aproximam os crimes. A primeira é o cenário: a cidade do Rio de Janeiro, um dos destinos mais na moda hoje no mundo, sonho de consumo de jovens estrangeiros. A segunda é o caos do transporte formal e informal, a máfia de empresas legais e ilegais. O Rio costuma ser adorado pelos turistas, mas uma das críticas mais comuns é: “Os motoristas de ônibus e de van são loucos”.

Por “loucura”, entenda-se: andam em altíssima velocidade em carcaças velhas, saem costurando todo mundo, ultrapassam sinais vermelhos, aceleram nos amarelos, inclinam-se em curvas como se fossem pilotos de corrida, sobem na calçada, atropelam ciclistas e pedestres, não respeitam faixa, fecham os carros e os cruzamentos, não param nos pontos, dirigem falando ao celular, não têm paciência com passageiros idosos, trabalham irritados e cansados por horas extras e engarrafamentos. É claro que esse não é o retrato de todos os motoristas dos 8.777 ônibus do Rio.

Mas os maus motoristas são suficientes para construir uma imagem de irresponsabilidade e insegurança. No caso do ônibus emborcado abaixo do viaduto da Avenida Brasil, via de acesso ao Rio, a principal causa pode ter sido uma briga entre um passageiro universitário e o motorista. O veículo já tinha 46 multas.

As vans, muitas caindo aos pedaços e irregulares, andam de portas abertas, gritam o destino, mexem com as moças que passam, cantam os pneus gastos, param subitamente sem sinalizar em qualquer ponto da avenida, alheias ao risco de acidentes. As 6 mil vans do Rio são um penduricalho aceito para suprir as deficiências do transporte público formal. Uma terra de ninguém sobre rodas. Isso quando não são dirigidas por bandidos, como os que violentaram a americana e algemaram seu namorado, agredindo-o com uma barra de ferro.

Os dois jovens pegaram a van em Copacabana, a princesinha do mar, para ouvir música na Lapa, um dos programas mais recomendados pelos guias oficiais. O show foi de estupro, agressão e assalto. Não esquecerão o pesadelo.
Dois crimes chocantes na semana. Na cidade que vai receber o papa e a Olimpíada, está acesa uma luz vermelha

Acabo de chegar de Nova York. Fiquei no bairro do Brooklyn e usei metrô o tempo todo, feliz da vida. Com um bilhete de viagens ilimitadas por uma semana, a um custo de US$ 29, percorri distâncias infinitas em horários mais e menos movimentados. Misturei-me a pessoas de todas as idades, de bebês a octogenários, de todas as ascendências, cores, nacionalidades e classes sociais, que dependem do transporte público para trabalho ou lazer. O metrô de Nova York tem pouco mais de 100 anos, pouco menos de 500 estações, espalha-se por 370 quilômetros. A média de viagens, na semana, é de 5 milhões por dia. Funciona 24 horas por dia, 365 dias por ano.

Sentada ou em pé nos vagões nova-iorquinos, antes dessas tragédias no Rio, eu já pensava na equação perversa do subdesenvolvimento: por que os países onde há mais pobres são os que menos investem no bem-estar público? Por que despejar tantos carros particulares a mais nas ruas se não há espaço para eles? Por que quase tudo que é público é tão ruim no Brasil, a sétima economia do mundo? Por que maltratar quem mais precisa de transporte, educação e saúde?

Como sou carioca, falo com tristeza especificamente deste momento do Rio: a cidade está infernal, barulhenta, intransitável, poluída, malcheirosa e mal-educada. Um dos maiores motivos do estresse é a falta de um transporte público amplo, fiscalizado e decente. É inconcebível que a rodoviária (indigna da cidade) e os aeroportos não estejam conectados com os vários bairros. Para sediar eventos internacionais com menos atropelos, o Rio precisa mesmo decretar feriado. Cria-se uma vida artificial temporária para fazer de conta que tudo funciona.

Não é só o Rio que pede socorro. Os paulistanos sabem muito bem disso, um ônibus despencou num barranco na Zona Sul na sexta-feira (“por causa da chuva”...) e motociclistas e ciclistas morrem como moscas no trânsito da capital.

Os brasilienses também sabem disso, bastou um carro inocente ser parecido com um carro roubado para um universitário acabar morto com um tiro na cabeça, disparado por PMs ignorantes ou truculentos. José Pereira, de 27 anos, saíra da faculdade em Taguatinga e ia para casa de carona com amigos.

Nenhum país e nenhuma grande cidade estão livres de tragédias, mas o noticiário no Brasil está de lascar. Ficou muito difícil assistir a um telejornal sem se deprimir. Na cidade que vai receber o papa e a Olimpíada, está acesa uma luz vermelha.



06 de abril de 2013 | N° 17394
 NILSON SOUZA

Retrospectivas

Que ano! – comentei com meu tocaio Nílson Vargas, enquanto ele se esmerava para fazer mais uma manchete para a capa de Zero Hora. Não passa semana sem um evento extraordinário, capaz de causar perplexidade até mesmo em jornalistas rodados como nós.

Lembramos juntos, sem esforço e desconsiderando fatos de média importância, a tragédia de Santa Maria, a renúncia do Papa, a escolha de um argentino humilde para o comando do Vaticano, o meteorito que atingiu a Rússia, a arrastada desencarnação de Hugo Chávez e, agora, o assassinato em série de taxistas no Estado. Isso em pouco mais de três meses.

– Já temos material suficiente para o caderno de retrospectiva – retrucou meu xará, sem tirar os olhos da tela do computador.

Verdade, pensei, e emendei um outro pensamento preocupante: o que será que nos falta acontecer nos nove meses restantes de 2013?

Fim do mundo não vale, isso tem todos os anos e nunca dá em nada. Vida extraterrestre? Talvez. Aí tem uma possibilidade concreta, segundo os cientistas, pois os avanços tecnológicos nos permitem cada vez mais espionar novos mundos.

Além disso, já mandamos tanto lixo para o espaço, que daqui a pouco é bem capaz de aparecer por aqui algum homenzinho verde para reclamar. Mudanças significativas na ordem mundial?

Como o maior arsenal da Coreia do Norte parece ser de bravatas, talvez num futuro mais distante. Não faltam previsões de que nas próximas décadas poderemos ter um governo global, moeda única e no máximo três idiomas predominantes – o óbvio inglês, o emergente mandarim e muito provavelmente o espanhol. Vem aí mais flauta argentina.

Mas não vamos tão longe nesta retrospectiva que virou prospecção. Gostaria de saber o que os profetas preveem para o restante deste ano atípico que não para de nos surpreender. Li outro dia que desde 1987 não tínhamos um ano sem números repetidos.

O que isso significa? Provavelmente nada, como diria o Tadeu Schmidt. Mas um ano terminado em 13 deve ter lá os seus sortilégios. Já li também que o número preferido do Zagallo representa o início e o fim de tudo, e está associado ao mito de Sísifo, aquele personagem mitológico condenado a empurrar uma pedra morro acima pelo resto de sua eternidade, pois ela sempre rola de volta e ele tem que reiniciar o trabalho.

Mais ou menos como fazemos nas nossas retrospectivas jornalísticas. A gente tem a impressão de que viveu um ano em três meses, mas a verdade é que a pedra da imprevisibilidade sequer percorreu a metade do caminho. Força, gente!

quarta-feira, 3 de abril de 2013



03 de abril de 2013 | N° 17391
MARTHA MEDEIROS

Recebendo as visitas

Sempre me fascinou a maneira como tanta gente recebe amigos em casa de forma absolutamente desestressada. As visitas chegam sem avisar, abrem a geladeira, se esparramam no sofá e está tudo certo, desde que sejam íntimas. Se não forem íntimas, tornam-se.

Nesse aspecto, minha educação foi mais cerimoniosa. Gosto de ser avisada que virão à minha casa, até para ter tempo de me preparar: comprar algumas flores, abastecer a geladeira, deixar a música no ponto. Adoro receber, desde que me deem a chance de esperar meus convidados como acho que devo. Na contramão da maioria das pessoas, prefiro a previsibilidade ao ataque surpresa.

Não sei de onde vem essa formalidade, deve ser cultura familiar. Lembro de ouvir recomendações quando criança: trate bem as visitas. Mesmo eu não conhecendo alguns amigos dos meus pais, era obrigatório ir até a sala, de pijama e dentes escovados, cumprimentar os adultos e dar boa-noite. Podia ser aborrecido, mas não havia negociação.

Então, ficou incrustada em mim essa reverência prestada a todos os que nos visitam – mandam os bons modos oferecer ao menos um copo d’água, convidar para sentar, ser atencioso e procurar causar uma boa impressão.

Talvez seja por isso que a cada vez que ouço a notícia de que um turista estrangeiro sofreu alguma selvageria em nosso país, sou tomada pela vergonha. Óbvio que qualquer crime, contra qualquer pessoa, é chocante e inadmissível, mas o turista atacado me parece ainda mais indefeso do que nós: ele não conhece as manhas das nossas cidades, não fala nosso idioma, está aqui apenas para se divertir, e de repente sofre um assalto brutal e tem sua dignidade profundamente atingida, como foi o caso do casal de namorados que há poucos dias entrou numa van em Copacabana e acabou sofrendo abusos por seis horas nas mãos de delinquentes.

Cadê o copo d’água, a atenção?

É só assistir aos telejornais para perceber que o Brasil não mudou tanto quanto apregoa. Manicure mata criança, motorista atropela e foge, torcedores se agridem. E proliferam os roubos de carros, arrastões em restaurantes, depredação de caixas eletrônicos. Difícil nossas atrações turísticas competirem com o produto brasileiro mais divulgado lá fora: a violência.

Claro que existe o vice-versa: nem sempre brasileiros são recebidos no Exterior com tapete vermelho, como demonstram os casos de deportações sumárias e assassinatos inexplicáveis, a exemplo do garoto que recebeu vários eletrochoques disparados por policiais canadenses ou o famoso episódio envolvendo Jean Charles, que foi abatido a tiros num metrô de Londres.

Mas não atenua. Sigo muito envergonhada. Se vieram pacificamente até a nossa casa e abrimos a porta, que façamos a gentileza de deixar o cachorro preso.

terça-feira, 2 de abril de 2013



02 de abril de 2013 | N° 17390
FABRÍCIO CARPINEJAR

Dane-se a fila

O que sou não deve ser regra de convivência. O que sou morre comigo.

Descobri que amar não é fazer com que o outro siga meu ritmo insano.

Isso é ditadura.

Amar não é puxar a namorada para o nosso fôlego, não é arrancá-la de seu temperamento e forçar semelhanças. Isso é indiferença. Amar não é punir atrasos e castigar descompassos.

Isso é tortura.

Amar não é ameaçar com frases egoístas como “A fila anda”. É o contrário: é perder o lugar na fila, é ceder seu lugar na fila, é regressar ao início da fila.

Amar é estranhamente recuar. É encurtar as pernas para melhor passear, alongar os braços para melhor entrelaçar os dedos.

O apaixonado não impõe seu temperamento, acostuma-se a caminhar diferente, olhando ao lado. O lado passa a ser a nossa frente. Quem nos ladeia é o nosso horizonte.

Surgirá um contratempo de sua companhia, uma dificuldade inesperada e se verá contrariando seus planos para ajudar – só tem pressa quem não tem urgência. Amar é proteger mais do que avançar, é cuidar mais do que atingir objetivos, é apoiar mais do que se vangloriar da distância.

Foi a minha avó Mafalda que me explicou. Ficava muito irritado pelo seu trotear na Rua Corte Real. Era velhinha, manca e, além de tudo, distraída. Ela me obrigava a participar de sua andança fisioterápica depois do almoço. Um quarteirão correspondia a queimar calorias de quatro quilômetros.

– Meu neto, é bom acompanhar um familiar doente, pois amar é ir aos poucos, é lentidão por fora e interesse por dentro – ela dizia.

Não fazia lógica para mim. Amar parecia voar, correr, atropelar. Amar significava velocidade, superação, afoiteza. Amar traduzia liberdade, transgressão, não se intimidar com os limites.

Eu me enganei, vó. Seu andar miúdo, pequeno, de bengala, pesando cada pé no chão, me ofereceu uma aula emocional. Nenhum casal corre de mãos dadas.

Amar é aguardar se necessário, voltar atrás se preciso, criar um novo passo para atender os dois. Se fui apressado para conquistar minha mulher, agora devo ser lento, estar com ela é meu destino. Amar é proteger mais do que avançar, é cuidar, é apoiar.



02 de abril de 2013 | N° 17390
DEBATE TRANSPORTE PÚBLICO - Roberto Rachewsky*

Nada pode ser mais injusto

A prefeitura de Porto Alegre foi alvo de grupos político-partidários que recrutam baderneiros travestidos de estudantes para pressionar o governo se utilizando de todas as formas ilegítimas de manifestação.

O poder público e os fora da lei reúnem-se em programas de rádio e televisão para fazerem acusações mútuas.

Podemos ver que os baderneiros, que deveriam ser responsabilizados criminal e pecuniariamente pelos danos que causaram, não têm razão nas suas demandas, seja no campo jurídico, seja no campo econômico, ao reclamarem do preço das passagens de ônibus, desconsiderando as causas dos aumentos e evadindo-se do fato de que um terço dessas passagens são fornecidas gratuitamente, onerando, assim, o custo total do serviço pago pelos dois terços de pobres coitados.

Do outro lado, o poder público se defende com justificativas legais e econômicas para explicar que a prefeitura é pródiga em tirar arbitrariamente do bolso de uns para, demagogicamente, dar a outros sob variadas motivações como a elevada idade do passageiro, a sua ocupação ou condição física. Para um político, sempre haverá alguém a ser satisfeito em troca de votos.

O que ninguém faz é discutir sobre as reais causas de termos um serviço de transporte coletivo público tão ineficiente, caro e, como vemos, polêmico ao ponto de parar uma cidade pelo evento de uma batalha campal entre forças bárbaras e as do status quo.

No debate, apegam-se a paliativos que pouco amenizam os sintomas do problema e muito contribuem para agravá-lo.

Ao restringir o acesso ao mercado de potenciais ofertantes, privilegia alguns com injustificada reserva de mercado, gerando incompetência, elevação dos preços, queda da qualidade dos serviços e muda o foco do empresário, que deveria ser o consumidor, para o burocrata que lhe outorga os benefícios. Sempre que no lugar do consumidor estiver um burocrata a conceder privilégios àqueles que participam num determinado mercado, estes estarão mais sujeitos à corrupção do que à insatisfação de seus usuários.

Não é à toa que permissões para a exploração dos serviços de transporte público valem tanto.

Ao estabelecer regramentos baseados nos conceitos burocráticos do poder público e não na vontade dos consumidores, que somente num livre-mercado poderia ser percebida e satisfeita com justeza, o governo desagrada a quase todos, pois não é onisciente nem onipotente ao ponto de saber sobre todos os desejos e vontades da população, nem as capacidades e vontades dos fornecedores daquele serviço controlado.

Assim, linhas a serem percorridas, cores dos veículos, tamanho dos carros, valor das tarifas, tipo de combustível etc., hoje definidos em gabinete, desprezam os interesses particulares dos indivíduos que se utilizam desses serviços ou os proveem.

A intervenção do Estado, que perverte a lei, colocando-a a serviço de demagogos e populistas, cria uma sociedade de usurpadores dos direitos individuais, onde tirar à força de uns para dar a outros, onde tirar a liberdade de iniciativa de uns para privilegiar outros, onde uns definem impositivamente o que outros, que inclusive pagam por isso, deverão usufruir, é o Estado totalitário aplicado à vida dos indivíduos no exercício de suas vontades e necessidades no dia a dia.

Quando o governo resolve agradar a todos de forma centralizada, ganha mais quem grita mais alto. É o que baderneiros sabem fazer mais do que o cidadão comum sem tempo de gritar, pois lhe é exigido trabalhar para seu sustento, para sustentar os que legislam e os que são beneficiados, como parasitas, pelas leis que são estabelecidas.

Tarifas caras e serviços ruins só têm um antídoto viável, a livre concorrência.

A justiça somente será encontrada quando deixarmos de botar a mão no bolso alheio e o alheio deixar de botar a mão no nosso. Será o fim da hipocrisia e o início do fim da barbárie.

*CONSELHEIRO DO INSTITUTO DE ESTUDOS EMPRESARIAIS E DO INSTITUTO LIBERDADE


02 de abril de 2013 | N° 17390
CLÁUDIO MORENO

Leitores

1 – O escritor britânico C. S. Lewis, mais conhecido no Brasil por suas Crônicas de Nárnia, deixou registrada sua crítica àqueles que leem um livro apenas uma vez. Segundo ele, sempre haverá uma esperança para quem nunca leu Shakespeare, Tolstói ou Montaigne, porque um dia poderá vir a lê-los. Agora, não há nada a fazer com alguém que diz “já li Cervantes” com aquele ar de quem, por ter lido uma vez o Dom Quixote, considera o assunto esgotado.

2 - Sir James G. Frazer, o famoso antropólogo, não desdenhava os autores de sua época (morreu em 1941), mas tinha especial predileção por obras clássicas, como a Ilíada ou a Bíblia. Segundo ele, o princípio darwinista de que só os melhores sobrevivem vale mais para a literatura do que para os homens. Livro ruim morre logo, mas os bons permanecem porque o mundo faz questão de não deixá-los morrer.

Quanto mais antiga uma obra, mais forte é o tributo que a humanidade presta à sua excelência; se os homens se deram o trabalho de reproduzir um livro vezes sem conta e passá-lo de geração em geração, podem ter certeza de que há alguma coisa nesse livro que merece viver.

Por onde andam nomes como Somerset Maughan, A. J. Cronin, Pearl S. Buck, estrelas dos anos 60? Por onde andarão, daqui a trinta anos, nomes que hoje são resenhados e premiados como carneiros de exposição? Não creio que cheguem aos meus netos – enquanto, sereno e incomparável, Machado de Assis vai ficando melhor a cada ano que passa.

3 – As crianças sabem. Isaac B. Singer, um dos autores favoritos de nosso saudoso Moacyr Scliar, no discurso que fez no banquete oferecido a ele logo após ter recebido o Prêmio Nobel de Literatura de 1978, deixou sábias advertências para quem escreve livros infantis; delas, destaco algumas que, por sua atualidade, nunca deveriam ser esquecidas:

(1) crianças leem livros, não resenhas; não dão a mínima para a crítica;

(2) crianças não leem para encontrar sua identidade, para se libertar de culpas, para apaziguar sua sede de revolta ou para se livrar da alienação;

(3) elas ainda acreditam em Deus, na família, em anjos e demônios, em bruxa e gnomos, e também na lógica, na clareza, na pontuação e em todas essas coisas que parecem obsoletas;

(4) elas adoram histórias interessantes, mas detestam comentários e notas de pé de página;

(5) quando o livro é maçante, abrem um amplo e espontâneo bocejo, sem vergonha alguma e sem a menor consideração pelo renome do autor;

(6) por último, e talvez mais importante, não esperam que seu escritor favorito vá salvar a humanidade; tão jovens que são, sabem que isso está acima das forças dele e que só os adultos têm essas ilusões infantis.

sábado, 30 de março de 2013


My Choice - Richard Abel: Valses Charmantes

CASAS Hermosas - Richard abel barcarolle enricoac6

Thème musical - Richard Abel Cercle de Vie

Richard Abel - Automn Butterflies


31 de março de 2013 | N° 17388
MARTHA MEDEIROS

Na parede

Existem diversas maneiras de se conhecer uma pessoa, não só através do que ela diz, mas também através de seus gostos, atitudes, preferências, escolhas. Por exemplo, uma das maneiras de sermos traduzidos é avaliarem o que penduramos na parede. O que as suas paredes revelam sobre você?

Lembro do quarto da minha infância. Na parede atrás da cama havia o quadro de uma menininha de tranças, com as palmas das mãos unidas, rezando ao lado do seu gatinho. Não era escolha minha, mas eu não desgostava, era uma imagem que me transmitia conforto e segurança. Aí veio a adolescência, e a menininha rezando foi trocada por um pôster do David Cassidy. Começava ali a manifestação pessoal das minhas transformações internas.

Assim que minhas filhas tiveram seus próprios quartos, permiti que usassem as paredes como preferissem. A casa é dos pais, mas o quarto é território de livre expressão, onde seu ocupante começa a criar o quebra-cabeça da sua identidade.

Circulam por suas paredes cartazes de shows, fotos de amigos, desenhos de próprio punho, cartões-postais. Aliás, cartões-postais é uma paixão familiar: no meu escritório, emoldurei dezenas deles reunidos.

Nenhum com imagens de cidades, nada de paisagens convencionais – são cartões artísticos que trazem propagandas de filmes, fotos em preto e branco, estímulos visuais os mais variados. Cada um desses cartões reflete as coisas que amo: cinema, música, poesia, humor, erotismo, cotidiano. Um caleidoscópio estimulante e que me situa – olho para eles e me sinto em casa, mesmo.

Pessoas usam as paredes para pendurar calendários, relógios, fotos de família, espelhos, objetos trazidos de viagens, mandalas, telas de seus pintores preferidos, imagens ligadas ao esporte, tudo que traga substância e prazer para conduzir os dias.

Ou mantém as paredes nuas, que também é uma forma de expressão – o minimalismo comunica tanto quanto. A parede é o antepassado do Facebook, só que é uma página mais íntima e acolhedora: apenas têm acesso aqueles que fazem parte do nosso universo real, off-line.

Desperdício é quando a parede é utilizada com um fim apenas decorativo, sem nenhuma sintonia com os sentimentos e com a identidade do morador. O uso das paredes de forma protocolar, burocrática, torna a casa mais triste do que alegre, por total falta de inspiração do proprietário.

Use suas paredes. Troque as cores de vez em quando. Mude os quadros de lugar. Crie os seus. Invente moda. Acabo de encomendar com o superdiretor de arte Moisés Bettim uma tela que traz Woody Allen pintado ao estilo Andy Warhol – viva a pop art. Onde pendurarei?

Sei lá: na sala, no quarto, no banheiro, na cozinha, na sacada ou possivelmente no nicho que me serve de escritório – os cartões-postais hão de gostar da companhia. E a casa, preenchida de uma atmosfera tão diversa, habitada por tantos apelos e referências, ficará ainda mais parecida comigo.


RUTH DE AQUINO

O que os homens esperam das mulheres

"Talvez os homens sejam realmente mais básicos ou tenham expectativas mais reais. De minha parte, espero sobretudo que minha mulher me ame, seja companheira, leal, que me motive a andar para a frente, e que sejamos felizes juntos.”

Reproduzo acima o que ouvi de um amigo após a edição da revista ÉPOCA com um especial dedicado a 50 anos de feminismo. O título era “O que as mulheres esperam dos homens”. Em 1963, a mulher tentava escapar da armadilha de mãe doméstica, submissa e dependente, sem direito a divórcio. Era a pré-história da pílula anticoncepcional.

Hoje, meio século depois, me incomoda a maneira como meninas e meninos são educados pelas mães e pelos pais. A menina, desde que nasce, é “a princesinha”. Veste rosa, pinta as unhas e faz festa de castelo encantado. De tanto ouvir que é princesa, desejará um príncipe mais tarde. O menino é tratado como um super-herói, um durão. Seu nome raramente é falado no diminutivo em casa. Mimamos a “Flavinha” e estimulamos o “Paulão”. Por que a família e a escola perpetuam esses papéis e o desencontro na vida adulta?
Como o homem costuma falar menos e ocupa as posições de poder, a mídia relega os machos a um segundo plano. Isso até os favorece, porque não são tratados como um bloco homogêneo. Segundo estudos, a mulher fala 20 mil palavras por dia, e o homem 7 mil. O triplo, será? Para alguns especialistas em linguagem, isso não passa de mito. Se levarmos a generalização ao extremo, os assuntos favoritos costumam ser diferentes.

“Homem fala de futebol e mulher. Mulher fala, fala, fala...De empregada, filhos, sapatos, bolsas, cabelos, homens.” Esse é o comentário de um amigo poeta e provocador. Perguntei o que ele espera de uma mulher. “Que seja inteligente, sedutora, não fale muito e seja boa de cama.” Machista ou básico?

Também prefiro homens que não sejam tagarelas e apreciem a cama não só para dormir. Mulheres que se queixam de falta de preliminares devem perguntar-se: eu me debruço sobre o corpo de meu parceiro ou fico deitada aguardando carinhos? Mãos à obra, moças.
Tenho a impressão de que eles gostariam apenas que elas parassem de reclamar deles 

Reportagens sobre gêneros costumam concluir que “eles” estão confusos, perdidos e precisam de uma revolução, já que “elas” fizeram a sua. Será que os homens concordam? Duvido. Tenho a impressão, nada científica, de que os homens gostariam apenas que as mulheres parassem de reclamar deles o tempo todo. Ou reclamam deles ou da falta deles.

“As mulheres nunca parecem satisfeitas com nada. Se eles fazem o lanchinho do bebê, elas acham que não fazem direito. Se buscam o filho na escola, ah... por que não corrigiram o dever de casa? Uma lamúria sem fim”, disse uma amiga minha, mãe e profissional bem-sucedida, após ler ÉPOCA. “Acho as mulheres muito chatas. E os homens, à medida que vão se parecendo mais com as mulheres, ficam também cada vez mais chatos.”

Perguntei a um amigo, separado, pai de adolescentes e recém-casado novamente, como ele se sente. “De fato, é muito difícil ser esse macho ideal, que mata um leão por dia no trabalho e ainda precisa levá-la para jantar, cortejá-la, diverti-la e comê-la ardorosamente”.

O que a mulher espera de um homem mudou pouco. Encontrei, num mercado do Brooklyn, em Nova York, um cartão-postal de 1941 sobre “your ideal love mate” (seu amor ideal). A imagem é de um homem de cabelos bem cortados e gravata – bem parecido com o da capa de ÉPOCA. A descrição:

“O companheiro ideal é um homem com coração grande, caloroso. Impulsivo, mas com profundo senso de valores. Assume riscos, mas não riscos tolos. Encara suas responsabilidades sem hesitar, é honesto e gentil. Tem um talento real para aproveitar a vida e ajuda sua mulher a aproveitar a dela”. Esse perfil tem mais de 70 anos. Semelhante ao de agora?

O homem deseja o mesmo de sua mulher. Indagado sobre o segredo de 50 anos de casamento com a mesma mulher, tema de um de seus livros, o escritor americano Gay Talese respondeu: “Paciência e bom sexo”. Concordo. De ambos os lados. O ponto alto do especial de ÉPOCA é a entrevista com a socióloga americana Stephanie Coontz. O feminismo do século XXI é sobre defender pessoas e não gêneros. Há quem acredite na besteira de que o mundo é diferente quando dirigido por mulheres. Não sei onde.

A melhor pergunta hoje – especialmente quando vemos o mala do pastor Feliciano agarrado à função insustentável de defensor de direitos humanos – seria: “O que as pessoas esperam das pessoas?”. Que não sejam hipócritas é um bom começo.

sexta-feira, 29 de março de 2013


FELIZ PÁSCOA PRA VOCÊ

JAIME CIMENTI

Páscoa, Papa Francisco e o carisma de todos nós

Páscoa é momento de pensar em renascimento, em Jesus Cristo e em carisma, palavra que tem origem cristã e que depois passou a ser usada por todos. O Papa Francisco está encantando o mundo com sua simplicidade, seu sorriso e seu carisma. É legítimo esperar muito dele e do seu carisma, especialmente nós, latino-americanos, habitantes do fim do mundo, como ele mesmo disse, brincando, depois de ser escolhido Papa.

É bom que a gente o abençoe e passe carisma também como ele pediu. Semana passada, a revista Voto, dirigida pela jornalista Karim Miskulin que trata de política, cultura e negócios e tem como editora a Rosane Frigeri, promoveu um encontro com Germano Rigotto e Sérgio Zambiasi para falar sobre carisma.

Durante mais de duas horas, Rigotto, Zambiasi e os convidados conversaram, animada e profundamente, sobre o tema. Antigamente, carisma era considerado dom divino e graça concedida pelo Espírito Santo, depois passou a ser o conjunto de qualidades inerentes a um certo  tipo de líder e, finalmente, carisma hoje é aquela luz na testa, aquele brilho nos olhos e outros sinais que fazem qualquer pessoa se destacar e iluminar o ambiente.

São Francisco de Assis, considerado o homem do segundo milênio pela revista Time, Napoleão Bonaparte e Madre Teresa de Calcutá são considerados carismáticos do bem, enquanto que Hitler, por exemplo, seria carismático do mal. O fundamental é o uso do carisma para coisas boas, seja em casa, na política, no trabalho, onde for.

Mais importante é se dar conta de que todos nós temos a capacidade de, ao menos por alguns momentos e em alguns lugares, de sermos carismáticos. Carisma tem de ser democrático, universal e todo mundo deve ter direito a alguns minutos dele. Só os tais quinze minutos atuais de fama para cada um não bastam. Sempre é bom lembrar o que disse Madre Teresa: se te aproximas de alguém, é melhor sair do encontro melhor do que quando chegaste.

É isso. Bom aproveitar a Semana Santa para fazer reviver coisas, pessoas, ações, emoções e pensamentos. Bom pensar que todas as pessoas e formas de vida merecem respeito e carregam algum carisma, ainda que escondido, aguardando o momento para se revelar. O carisma do Papa Francisco vai ajudar o mundo, mas temos que fazer a nossa parte. Não pergunte o que o carisma pode fazer por ti, pergunte o que tu podes fazer por ele. Por aí. Feliz Páscoa!
Jaime Cimenti

terça-feira, 26 de março de 2013



26 de março de 2013 | N° 17383
FABRÍCIO CARPINEJAR

Ótimo

Eduardo está namorando há seis meses e ainda não conhecemos a felizarda.

Ele foge de nossos encontros de terça-feira. Diz que vai levá-la e sempre surge uma desculpa de última hora e aparece sozinho. – Ela tinha aula. Ela tinha treino. Ela tinha inglês.

A Raquel é uma incógnita. Se não existisse o Facebook, imaginaríamos que era uma invenção de sua carência.

No fundo, ele não deseja nos enfrentar. Vem adiando ao máximo a avaliação da presa pela nossa roda. Ainda mais que nossa turma está solteira e não pouparíamos olhares constrangedores.

Não duvido que se case escondido, para evitar o ultraje do inquérito. As mulheres temem apresentar o namorado para a família. Já os homens temem apresentar a namorada para os amigos.

O pânico da rapaziada não é tolerar as chacotas dos irmãos, as provocações do pai, o álbum de fotos resgatado pela mãe. O churrasco de domingo com os parentes não é nenhum martírio ao início de relacionamento. Eles não têm vergonha do nu da infância, dos apelidos fofos, das marolas dos costumes.

Mas odeiam ter que enfrentar a curiosidade dos colegas de bar. Odeiam com todas as forças a estreia da namorada entre os seus iguais.

É mesmo uma cena patética e traumática. A mesa inteira lançará risinhos debochados ao casal recém-formado. As piadas sussurradas lembram códigos entre submarinos ou desenho soletrado de forca.

O par amoroso não achará uma posição reconfortante no espaldar da cadeira: se abraçará, se dará a mão, deitará a cabeça nos ombros em profundo e pesaroso silêncio. Pois é duro apanhar e ser simpático.

É o fim quando um homem vem com a nova namorada para seu tradicional ponto de encontro boêmio. Tenho pena do sujeito porque fui ele. Assim como da acompanhante que descobrirá que ele só tem amigo ogro e boçal e admitirá seriamente a possibilidade de abreviar o romance.

A sabatina do Senado com o candidato a presidente do Banco Central é moleza comparada à roda dos comparsas. Não conheço um outro jogo psicológico tão desonesto.

Ninguém será indiscreto com o passado amoroso do amigo a ponto de prejudicá-lo. É a ameaça de contar que assusta.

Insinuamos histórias para mudar propositalmente de assunto. São manchetes vazias, sem notícias, porém que pegam de jeito o rim do gajo. – Recorda aquele nosso acampamento em São Gabriel? – posso perguntar de repente.

Naquele camping, nosso companheiro de trago ficou com duas jovens em sua barraca. Entende a maldade?Ele gela mais do que o próprio chope, mas a lembrança não prospera e não precisa se explicar.

Conheço gente que não aguenta o tranco, que chora no banheiro, troca de sexo e passa a tomar gim tônica. A acareação também explica o motivo de muitos homens se manterem solteiros até hoje.

O coliseu masculino é feito de inveja e admiração. Implacável, incorruptível, não há como fraudá-lo. O que nós queremos é testar a jovem, ver se ela merece tirar nosso ilustre sócio das delícias noturnas.

Ela será aprovada se não nos xingar após o bombardeiro de picuinhas e bravatas. O que apenas desejamos ouvir de sua boca é:

– Seus amigos são ótimos!

quarta-feira, 20 de março de 2013



20 de março de 2013 | N° 17377
MARTHA MEDEIROS

Um papa singelo

É cedo para saber como será a atuação política do papa Francisco. Porém, assim que foi anunciado, ele não precisou nem de cinco minutos diante da multidão que lotava a Praça de São Pedro para angariar uma simpatia praticamente unânime.

A minha, ao menos, foi instantânea, bastou para isso a descontração do comentário de que o haviam achado quase no fim do mundo – nada como o bom humor para congregar, aproximar, romper carrancas e barreiras. A despeito da sua eleição para uma função de tamanha relevância, estava ali, diante de todos, um homem, um semelhante. Alguém familiar.

Não acredito que, a partir de agora, os fiéis deixarão seus automóveis na garagem para andar de ônibus (ainda que o trânsito e a poluição das cidades se beneficiariam muito), ou que trocarão o uso do ouro pela prata, ou que reprisarão qualquer outro gesto humilde já tornado público pelo Papa. No entanto, é preciso, com urgência, captar o espírito dessa nova forma de exercer liderança.

Liderar não tem nada a ver com arrogância e empáfia, mas muitos ainda acreditam que sem pose e ostentação não se conquista o respeito dos outros. Um engano lastimável. Pode-se no máximo conseguir subserviência através de atitudes arrogantes, mas respeito é um valor muito mais profundo e que só se cativa com honestidade – e se formos honestos, de fato honestos, teremos que admitir que nossa importância é a mesma que a de qualquer outra pessoa.

Podemos ter lido mais, vivido experiências diversas, apreendido ensinamentos a que alguns não tiveram acesso, mas de forma nenhuma isso justifica uma hierarquia dominadora. Aliás, hierarquia é um conceito que me parece cada vez mais obsoleto.

Numa relação vertical, o “superior” ordena e os “inferiores” cumprem, e assim elimina-se a troca, que é o elemento mais necessário para a evolução dos costumes, das nações e dos relacionamentos. Trocar é horizontal. É o que possibilita o olhar, o diálogo e a identificação.

No instante em que eu contribuo para a sociedade com o que sei, e aceito que colaborem comigo na mesma medida, me ensinando o que não sei, estabelece-se uma relação producente e o respeito mais absoluto, aquele que não é fruto de imposição, mas de admiração sincera.

Então, mesmo sem poder adivinhar como será o pontificado desse nosso hermano, desde já me sinto otimista por ele trazer em seu semblante a doçura dos que não se deixam levar pela vaidade e dos que não consideram a modéstia uma fraqueza, e sim resultado de uma consciente avaliação de si mesmo: somos todos iguais. 

Frágeis, é verdade, porém todos capazes de doar-se a fim de tornar a vida mais fácil para aqueles que nos cercam. Essa é a corrente universal que nunca deveria se romper, e que nos une (ou deveria nos unir) inclusive para além das religiões.