quarta-feira, 12 de junho de 2013


12 de junho de 2013 | N° 17460
MARTHA MEDEIROS

O amor mais que romântico

Quando era criança, assistia a filmes e novelas românticas e pensava: será que um dia escutarei “eu te amo” de alguém? É bem verdade que ouvia todo dia da minha mãe, mas não era do mesmo jeito que o Francisco Cuoco dizia para a Regina Duarte. Eu sonhava com o “te amo” apaixonado, dito por um homem lindo, e com a voz um pouco trêmula, para deixar sua emoção bem evidente. Será que era invenção do cinema e da tevê, ou essas coisas poderiam acontecer mesmo?

Passou o tempo. Cresci, ouvi e retribuí. Clichê? Que seja, mas não há quem não se emocione ao escutar e ao dizer, ao menos nas primeiras vezes, em pleno encantamento da relação, quando a declaração ainda é fresca, pungente, verdadeira, a confirmação de algo estupendo que se está experimentando, um sentimento por fim alcançado e que se almeja eterno. Depois ele entra no circuito automático, vira aquele “te amo” dito nos finais dos telefonemas, como se fosse um “câmbio, desligo”.

O tempo seguiu passando, e me encontro aqui, agora, descobrindo que há outro tipo de “te amo” a ser escutado e falado, diferente dos que acontecem entre pais e filhos e entre amantes. É quando o “te amo” não é dito a fim de firmar um compromisso, para manter alguém a par das nossas intenções ou experimentar uma cena de novela.

Ele vem desvinculado de qualquer mensagem nas entrelinhas, não possui nenhum caráter de amarração e tampouco expectativa de ouvir de volta um “eu também”. É singular. Estou falando do amor declarado não só quando amamos com romantismo, mas também de outra forma.

Explico: tenho dito “te amo” para amigas e amigos e escutado deles também. Uma declaração bissexual e polígama, que resgata esse sentimento das garras da adequação. Volta a ser o amor primitivo, verdadeiro, sem nenhuma simbologia, puro afeto real. Amor por pessoas que não conheci ontem num bar, e sim por quem já tenho uma história de vida compartilhada.

Amor manifestado espontaneamente àqueles que não me exigem explicações, que apoiam minhas maluquices, que fazem piada dos meus defeitos, que já tiveram acesso ao meu raio X emocional e sabem exatamente o que levo dentro – e eu, da mesma forma, tudo igual em relação a eles. Mais do que nos amamos – nos sabemos.

É um “te amo” que cabe ser dito inclusive aos ex-amores, ao menos aos que nos marcaram profundamente, aos que nos auxiliaram na composição do que nos tornamos, e que mesmo nos tendo feito sofrer, foram fundamentais na caminhada rumo ao que somos hoje. E indo perigosamente mais longe: esse ex-amor pode ainda ser seu marido ou sua mulher, mesmo já não fazendo seu coração saltar da boca. Pelo trajeto percorrido, e por ter alcançado o posto de um amigo mais que especial, merece uma declaração igualmente comovida.

É quando o “eu te amo” deixa de ser sedução para virar celebração.

Linda quarta-feira pra vc leitor ou leitora deste blogger. Feliz Dia dos Namorados pra você...



12 de junho de 2013 | N° 17460
ARTIGOS - Marisa Faermann Eizirik*

Por que dói o amor?

Por que dói o amor? Porque implica encontro e união e, também, desencontro e desunião. Não pode aprisionar, nem ser aprisionado. É de sua natureza ser fluxo, estar sempre pronto a se desfazer e refazer. O amor só é eterno enquanto dura, diz Vinicius de Moraes. Só a duração é eterna.

Falar sobre o amor é abordar um dos temas mais recorrentes da vida humana e que todos experimentamos em alguma de suas formas. Difícil de ser conceituado, encontramos sua ambiguidade já na Grécia Clássica, em que o amor aparece em três vocábulos (eros, philia e agapè) que enfatizam não o que se ama, e sim, o tipo de relação que se estabelece.

Eros designa o amor acompanhado de desejo. Já a segunda palavra (philia) se refere ao amor por algo com o que nos associamos – podendo ser tanto amor a uma pessoa, como na relação de amizade, como amor a uma ideia ou valor, como na filosofia. Por fim, há a agapè, que se encontra relacionada a um valor específico, talvez próximo da “renúncia”. Seria um amor da ordem da ternura, sem reciprocidade, uma espécie de amor puro, como o amor ao próximo pregado pela tradição cristã da caridade.

Eros se relaciona diretamente com o desejo, que se apresenta como falta, na tradição platônica, ou como força, produção, na versão nietzschiana. Na primeira, surgem as questões: pode-se amar aquele que já se tem ou só o que nos faz falta? Como poderia alguém desejar o que já possui? Como se pode prescindir do que já se tem?

O amor em relação a algo (ou alguém) parece nascer de sua falta. Instala-se, assim, no imaginário coletivo, por séculos, a ideia do desejo como falta e, portanto, do amor como algo sempre oscilante entre a fartura e a saciedade, em uma busca constante.

Mas o amor não é imune ao tempo e, nas flutua- ções da história e das revoluções que marcam a existência humana no Ocidente, vemos mutações nos modos de amar, com múltiplas práticas eróticas e formas amorosas se desenhando, a partir do exercício do amor como produção, energia, força, sempre em conflito, pois essa é a característica básica do amor enquanto fluxo – abundância e carência.

Na experiência contemporânea, vivemos a velocidade como um valor em si mesmo, com sutis e profundas repercussões no plano das relações e das práticas amorosas. Órfãos de nossas certezas, seguimos em busca de um chão menos escorregadio, de vínculos, se não estáveis, pelo menos intensos em seu significado afetivo. E não importa a dor, amar e se apaixonar é tudo porque a vida vale a pena.


*PSICÓLOGA, MESTRE E DOUTORA EM EDUCAÇÃO – UFRGS

sábado, 8 de junho de 2013


09 de junho de 2013 | N° 17457
MARTHA MEDEIROS

O telefone no corredor

Dos seis aos 11 anos, morei num apartamento onde havia um único telefone, localizado em um nicho da parede do corredor. Ele era preto, e o nicho era alto, eu não conseguia discar sozinha sem a ajuda de um adulto, mas isso não chegava a ser um grande problema porque naquela idade eu não fazia nem recebia tantas ligações assim pra falar a verdade, quase nenhuma.

Até aqui, nesse primeiro parágrafo, já devo ter deixado alguns adolescentes perplexos. Um único telefone na casa? Para uso coletivo? Preso a uma parede? E você não recebia muitas ligações? Coitada, deve ter sido megatraumático!

Depois dos 11 anos, mudei para outro apartamento com a família. Também só havia um telefone, no corredor, preso à parede por um fio, porém ao menos este ficava em cima de uma mesinha baixa. O problema é que vivi nesse apartamento até os 24 anos, ou seja, uma época em que eu recebia um número significativo de ligações das amigas, de namorados, de colegas de trabalho. Tudo era discutido no corredor, para quem quisesse ouvir. Uma lavanderia.

É bem verdade que, por volta dos 20, meus pais trouxeram do Exterior um aparelho de telefone sem fio, o que já facilitou bastante a vida de todos, era o primeiro passo rumo à privacidade, mas só funcionava dentro de casa – na rua, não pegava. Antes disso, repito: era um único telefone para a família toda. Sem subterfúgios: não havia torpedos, e-mails, nenhum outro jeito de se comunicar com o mundo que não fosse pelo telefone, aquele, o do corredor.

Bom, ninguém impedia que cartas fossem escritas. O correio era bem ágil naquela época.

Na prática, funcionava desse modo: trimmmmm. Alguém atendia. E depois se ouvia um grito: “Martha, é pra ti, um tal de Breno”!

“Um tal de” revelava que quem tinha atendido estava fingindo não dar importância ao fato de que, sendo um homem do outro lado da linha, havia esperança: talvez eu desencalhasse. O grito no corredor entregava que eu estava em casa, só que eu não queria falar com o tal Breno, ao menos não na frente do pai, da mãe, do irmão e da empregada.

“Alô”. Enquanto eu dizia alô, todos evaporavam ao redor, muito educados. Seria perfeito se vivêssemos num castelo com 23 quartos e oito salas, o que não era o caso. “Não, não posso ir ao cinema no sábado, é aniversário da minha avó”.

“Martha, tua avó só faz aniversário em dezembro!!” Essa era minha mãe, que jurava de pés juntos que não escutava nada, nadinha.

“Não, Breno, na outra semana também não vai dar, tenho prova todos os dias no colégio”.

“Vai ficar pra tia, depois não diz que não avisei!” Essa era a empregada.

Nem sempre dava tempo de tapar o bocal do telefone com a mão, para a criatura do outro lado não ouvir os comentários da torcida.

“Se não vai sair com esse pateta, desliga de uma vez que estou esperando o Ayrton ligar para confirmar o jogo”. Esse era meu irmão saindo do banheiro.

“Não, Breno, imagina. Pateta é o nome do cachorro aqui de casa”.

Crianças, vocês não imaginam como era divertido viver na idade da pedra.

sábado, 1 de junho de 2013


02 de junho de 2013 | N° 17451
MARTHA MEDEIROS

A secretária e a patroa

Estreou semana passada o filme francês A Datilógrafa, que ainda não vi e possivelmente não verei em função do meu pouco tempo livre. Minha patroa anda cada vez mais ocupada, e quem segura o rojão sou eu, claro.

Mas seria ótimo assistir a um filme onde, finalmente, sou protagonista. Pelo que ouvi dizer, a história se passa em 1958, quando as mulheres estavam começando a colocar as manguinhas de fora. Uma garota de 21 anos recebe de presente uma máquina de escrever e resolve aventurar-se no excitante mercado de trabalho, esforçando-se para ser uma boa secretária, que era a atividade adequada às moças daquela época.

Depois o filme parece que vira uma competição, e daí por diante não sei mais nada, mas o resumo inicial me fez lembrar de quando ganhei, aos 13 anos, uma Olivetti Lettera 32. Tirei-a do estojo com o maior cuidado e suspirei: estava ali o passaporte para a profissão que eu sempre havia sonhado exercer.

Fiz um curso de datilografia e passei a praticar todo dia. Comecei a escrever poemas só para exercitar os dedos no teclado, eu que até então me atrevera apenas aos diários escritos à mão. Vinha um verso, vinha outro, e eu ali, treinando, fazendo de conta que era poeta, até que tivesse idade suficiente para virar a secretária que eu desejava ser.

Num acesso de loucura, acabei mandando uns poemas para uma editora e, pra encurtar a história, publicaram um livro meu. Já trabalhava como redatora publicitária nessa época, porque tinha que ganhar algum dinheiro, mas lembro que, quando faltava uma secretária na agência, eu me oferecia para ficar no lugar dela. E tive meu dia de telefonista também.

O tempo passou e lancei outro livro, e mais outro, e depois da poesia veio a crônica, abandonei a propaganda, fui apresentada ao computador, comecei a escrever para vários jornais, meus textos passaram a ser adaptados para o teatro, iniciei na ficção e aí aconteceu: virei secretária de mim mesma.

Hoje, realizada, passo 80% do dia atendendo ligações, respondendo toneladas de e-mails, avaliando contratos, agendando entrevistas, negociando prazos de entrega, indo ao cartório para reconhecer firma, ao correio para remeter livros, ao súper para fazer as compras da casa, negociando cachês com revistas, trocando mensagens com a contadora, marcando sessões de fotos, providenciando vouchers de hotéis e passagens aéreas para os compromissos fora do Estado, autorizando publicações de textos em livros didáticos, avaliando novas propostas de trabalho e me desculpando em nome da minha patroa por ela não conseguir atender todos os pedidos de leitura de blogs.


Não sei o que seria dela se não contasse comigo para esse serviço de secretariado, se bem que hoje a madame abusou: me botou para escrever sua coluna. Espero que não acostume, só me falta ter que assumir os seus 20% restantes de tempo.

02 de junho de 2013 | N° 17451
CLAUDIA TAJES

Na cama com a insônia

Foi matéria nos jornais: estamos dormindo menos e mal. O celular, sempre à mão para olhar os e-mails e o Facebook entre uma virada e outra na cama, é uma das razões para isso. O barulho da rua, coisas por fazer e a cabeça que não desliga quando a luz apaga, situação típica dos quadros de estresse, são outros dos motivos. Parece que o brasileiro dorme hoje uma hora a menos do que há 40 anos.

E que a média nacional é de seis horas e meia por noite, bem distante das ideais oito horas de descanso das modelos para ter a pele fresca e a aparência louçã. Os homens são os mais afetados pela falta de sono. E a falta de sono causa vários tipos de mazelas, como alterações na memória e no humor, interferências no metabolismo, propensão a diabetes e impotência. Não se espante, pois, se a sua senhora aparecer com um chazinho de camomila todas as noites. O seu sono também é do interesse dela.

Na literatura, a insônia já deu assunto para muita história boa. Existem insones em obras de Proust, Tchekcov, Borges, Dostoievski e muitos mais autores que ou não lembro, ou não li. A insônia confere dignidade a um personagem. Já eu durmo tão fácil que chega a ser constrangedor. Em situações de tristeza extrema, de pindaíba absoluta, de solidão completa, de desilusões variadas, de hecatombe no trabalho, de desavenças familiares, mesmo assim eu durmo.

Pode passar a errônea impressão de que não sei sofrer, mas juro que sei. A questão é que durmo fácil. Em compensação, a maioria das pessoas das minhas relações frita na cama todas as noites. Sem remédio, muitas preferem nem deitar. Conheci um rapaz que não dormia há quatro anos. Era o que ele dizia. Faz tempo que não o vejo. Espero que tenha conseguido pregar os olhos ou que, pelo menos, vire personagem de livro. Nem que seja o Guinness Book.

Para quem não consegue dormir de noite, existe o recurso dos pequenos sonos reparadores. A sesta na cadeira do escritório ou sob a mesa de trabalho é um deles. Quando meu filho era bebê, desenvolvi o método de dormir de pé durante o minuto em que o leite da mamadeira esquentava no micro-ondas. Era reconfortante e eu até sonhava. O cansaço de uma mãe recente deveria ser sintetizado por um laboratório e receitado aos insones.

Derruba qualquer um. Sobre sonos de emergência, li certa vez que, após algumas horas em uma festa, a atriz Tônia Carrero ia ao banheiro e tirava uma soneca de 20 minutos. Depois disso, ficava pronta para varar a madrugada dançando. O único senão é que, se o cochilo passasse dos 20 minutos, a Tônia emendava a noite dormindo. Imagino o susto da moça da limpeza ao abrir a porta e encontrar uma diva roncando na privada.

Quem também nunca dorme são os adolescentes, não por insônia, mas porque não concordam que a noite foi feita para descansar. Diferente das manhãs de aula, o horário preferido deles para dormir. O esforço de uma mãe para tirar um adolescente da cama deveria ser sintetizado por um laboratório e receitado aos fracos. Não há nada, mas nada mesmo, que exija mais força, superação e determinação de alguém.

Elena reconta a história de Elena Andrade, atriz em início de carreira que se suicidou aos 20 anos, quando sua irmã e diretora do documentário, a Petra Costa, tinha apenas sete. Aos 29, Petra narra o filme como se fosse uma carta para a irmã.


Elena deixa uma impressão tão forte que o cineasta Jorge Furtado, em debate com a Petra e com o escritor Peninha Bueno, perguntou o que a guria vai fazer agora que já realizou um filmaço como este. O bate-papo está disponível em podcast na radioeletrica.com. E para ver o trailer e mais informações. Depois é pensar em Elena até dormindo.

01 de junho de 2013 | N° 17450
CLÁUDIA LAITANO

O sermão do médico

A discussão sobre o aborto é uma gigantesca placa tectônica sobre a qual o Brasil repousa como se fosse esplêndido – e não instável e mal resolvido – o berço de alheamento em que estamos precariamente assentados.

Todos sabem que o problema está lá: uma legislação perversa que, na prática, oferece o olhar condescendente às mulheres com dinheiro e a dureza da lei para quem não tem. Os números gritam. Estima-se que no mundo todo são realizados 46 milhões de abortos por ano, 20 milhões de forma clandestina – em países como Haiti, Somália e Iraque, para citar apenas alguns dos que preferem proibir a discutir o problema. No Brasil, as estimativas chegam a 1,2 milhão de abortamentos/ano.

Ainda assim, fala-se muito pouco sobre o assunto por aqui. Políticos, em geral, não querem nem saber do debate – a não ser perto de eleição, quando candidatos ligados a grupos religiosos aproveitam-se da ocasião para pressionar adversários a se posicionar, o que, em vez de enriquecer a discussão, costuma rebaixá-la ainda mais.

Nós, brasileiros favoráveis à revisão da legislação sobre o aborto, estamos relativamente acostumados ao silêncio cínico, interrompido aqui e ali por vozes isoladas como a do médico Drauzio Varella (“Não há princípios morais ou filosóficos que justifiquem o sofrimento e morte de tantas meninas e mães de família de baixa renda no Brasil”), que trata o assunto como uma questão de saúde pública que não pode ser varrida para baixo do tapete. O resto é (quase sempre) silêncio.

E quando nada parecia pior do que ignorar o assunto, eis que a novela Amor à Vida (o título não era tão anódino quanto se imaginava, afinal) mostra que tratar o tema de forma rasa e moralista pode ser um desserviço maior ainda. Em capítulo exibido esta semana, o médico interpretado por Antonio Fagundes trai a ciência, o bom senso e o dever profissional aproveitando uma consulta para dar um banho de moral e pregação religiosa na pobre paciente que o procurou para pedir ajuda diante de uma gravidez indesejada.

É compreensível que um médico se recuse a realizar um procedimento ilegal. É compreensível que esse médico seja contra o aborto por convicções íntimas. O que não é admissível, nem na novela das oito, é um médico dar um sermão em uma paciente. Sem contraponto ou chance de debate, a posição contrária ao aborto foi jogada na cara do espectador. Como um tijolo.

Para quem acredita que é impossível falar sobre esse assunto na TV, o desmentido pode estar logo ali, alguns canais adiante. O Canal Viva está exibindo aos sábados, desde o início de maio, a reprise do seriado Malu Mulher, que, entre outros temas polêmicos ainda atuais, tratou o aborto de forma espantosamente aberta e sem preconceitos. Em 1979. Em pleno governo Figueiredo. No horário nobre da Globo.


O episódio Ainda Não É Hora, com a jovem Lucélia Santos contracenando com Regina Duarte, está disponível no DVD da série. Recomendo fortemente aos mais jovens, que não assistiram na época, e também aos mais velhos, que, como eu, mal conseguem acreditar que, em condições tão adversas, pudesse se produzir no Brasil algo tão lúcido e arejado quanto Malu Mulher.
RUTH DE AQUINO

Não enlouqueça com os preços

O consumidor não gosta de se sentir otário. Está na hora de boicotar quem mete a mão no nosso bolso. Quando o brasileiro médio começa a viajar ao exterior para fazer compras sem se sentir roubado, é porque nossa economia desandou. Felizmente, ainda não perdemos a referência de preços, como nossos hermanos na Argentina, onde os índices são todos maquiados, e a presidente Cristina Kirchner restringe o direito de ir e vir do cidadão. Mas tudo fica mais caro de um dia para outro – de alimentos a serviços e passagens. E bem acima dos salários.

Fiz um teste com uma lista de supermercado. Grãos, legumes, frutas, carnes, peixe, legumes, verduras, laticínios, produtos de limpeza. Mínima quantidade de cada mercadoria. No mercado Zona Sul do Leblon, paguei R$ 452. No mercado Mundial, da Barra da Tijuca, R$ 345. Mesmas marcas, mesmos pesos. E uma diferença de 30% no preço total. Só 12 quilômetros separam os dois estabelecimentos. Pesquise sempre em qualquer cidade. Rasgar dinheiro é atestado de loucura.

Muitos bares e botequins do Rio de Janeiro e de São Paulo aprenderam a lucrar o máximo, tirando proveito da crise real e psicológica. Reduzem as porções – e o tamanho dos salgados – e cobram R$ 5 a unidade. Em botecos cariocas recomendados por guias, como Jobi ou Chico e Alaíde, os croquetes e bolinhos de aipim ficaram raquíticos, viraram umas bolinhas. E mais caros. Parece que R$ 5 passou a ser o valor mínimo de qualquer coisa. É quanto os quiosques da praia cobram por uma água de coco que pode acabar em três goles. Absurdo!

O quiosque Palaphita Kitch, com bela vista na Lagoa Rodrigo de Freitas, se define como uma “experiência mística”, onde você “entra um e sai outro” – bem mais pobre e revoltado com os preços e o serviço. Uma caipirinha de cachaça “especial” custava ali R$ 26 até pouco tempo atrás! Em Búzios, na costa norte do Rio, um picolé na Praia de Geribá chega a custar R$ 13. Não, obrigada. Vou direto ao fornecedor para satisfazer o desejo por sorvetes.

Jovens resolveram contra-atacar a carestia desenfreada lançando sites úteis. O www.riomaisbarato.com.br dá dicas de opções culturais gratuitas e lugares para comer e beber que não provoquem indigestão na hora da conta. Em São Paulo, quatro amigos criaram o www.boicotasp.com.br para alertar sobre as armadilhas. Os usuários denunciam o grau de exploração do lugar, de 0 a 5, e podem publicar foto do que consumiram com o preço ao lado.

Pesquise sempre, em qualquer cidade. Rasgar dinheiro é um atestado de loucura 

A remarcação abusiva de preços é um duplo tiro no pé. Primeiro, afasta o cliente. O consumo das famílias brasileiras caiu drasticamente no primeiro trimestre de 2013. Todos pensam duas vezes antes de comprar. A inadimplência aumentou. Uma pesquisa da Fecomércio do Rio em nove regiões metropolitanas mostrou que os brasileiros passaram a parcelar compras de alimentos com cartão de crédito. É a primeira vez que isso acontece nos últimos sete anos.

Não somos o povo mais culto do mundo. Mas a classe média não é desinformada. Os gastos de turistas brasileiros no exterior se multiplicam. Nos Estados Unidos, o que gastamos em compras só perde para japoneses e britânicos. Em Paris, as ruas estão coalhadas de conterrâneos. Não é só porque o poder aquisitivo da classe média aumentou no Brasil. É porque nosso país está caro demais, impraticável. Gasolina, transporte, restaurante, shows.

Uma tendência atual é viajar para Nova York ou Miami para fazer o enxoval do bebê. Compra-se pela metade do preço, ou um quinto do preço às vezes, uma mercadoria de mais qualidade que a oferecida no Brasil.

Nosso país e o governo Dilma não fazem o menor esforço para estimular o turismo e o consumo domésticos, com preços competitivos. Não temos ferrovias, e as passagens de avião são um escândalo no Brasil. Na Europa, há promoções incríveis com hospedagem. Barato para o padrão nacional.

No bairro de Saint-Germain, em Paris, é possível comer direito em restaurante chinês, japonês ou francês por 8 euros (entrada, prato e sobremesa). Restaurantes sofisticados oferecem menus de almoço em conta, numa relação custo-benefício inexistente no Brasil.

E os vinhos? Um chileno de média para baixa qualidade custa, no Brasil, o mesmo que um bom Bordeaux em Paris. Nos Estados Unidos, compra-se um Mouton Cadet por menos de US$ 10. Resultado: turistas brasileiros têm comprado lá fora caixas de vinho.

O vilão são os impostos, as taxas? Está na hora de adequar tudo aos salários. O consumidor não é masoquista. Ninguém está disposto a enlouquecer com os preços. Esperamos que Dilma não imite a viúva Kirchner. A Argentina pune as vítimas de sua política econômica e não os malfeitores. Podemos fazer melhor.



01 de junho de 2013 | N° 17450
NILSON SOUZA

Impressões digitais

A historinha contada em forma de diálogo é tão engraçada quanto perturbadora. O homem telefona para encomendar uma pizza e descobre que a pizzaria foi comprada pelo Google.

A partir daí, é o atendente que comanda a conversa, antecipando a preferência do cliente, sugerindo o melhor alimento para a sua saúde, lembrando-o de que não está tomando o seu remédio regularmente e mostrando que sabe tudo sobre ele, pois possui um banco de dados com todos os seus gostos e hábitos. É tamanha a intromissão em sua vida, que lá pelas tantas o sujeito explode:

– Estou farto da internet, de computadores, do século 21, da falta de privacidade, dos bancos de dados e deste país...

E cancela o pedido, avisando que no dia seguinte mesmo vai viajar para bem longe, talvez para uma ilha desabitada na Oceania. Depois de um silêncio constrangedor, o atendente avisa:

– Seu passaporte está vencido.

O Grande Irmão, profetizado por George Orwell, venceu a parada. Programas de computador cada vez mais sofisticados mapeiam não apenas o perfil de consumo das pessoas, mas também detalhes inimagináveis de sua personalidade e de seu comportamento.

Cadastros são comercializados a preço de ouro. Lojas e bancos sabem quanto você ganha, se você é bom pagador, se gosta de comer sagu, se viaja sozinho ou acompanhado. Antigamente só o padre sabia isso, porque perguntava. E não contava para ninguém. Agora todos sabem e todos revelam.

Temos um pouco de culpa, certamente, pois vamos deixando impressões digitais por onde passamos. Mas as armadilhas são muitas e irresistíveis. Você ganha um brinde aqui, concorre a um prêmio ali, aproveita uma oferta de ocasião, recebe um cartão de fidelidade, mas em troca tem que informar seu CPF, o nome do seu avô, o gênero de literatura preferido, a geleia que consome no café da manhã.

Aí não pode se surpreender quando estiver percorrendo uma zona comercial da cidade e receber um alerta pelo celular: “Aquela centrífuga que você procura está em liquidação na loja da frente”. Isso, porém, é o de menos. O risco maior é o da discriminação: ao saber que você costuma pesquisar preços antes de comprar, o lojista deduz que seu poder aquisitivo é baixo e dificulta o seu crédito ou oferece produtos de segunda linha.

O homem ama e respeita o homem enquanto não consegue julgá-lo, escreveu certa vez Thomas Mann. Na era da informática, estamos sendo avaliados e julgados o tempo inteiro. E, para sermos amados e respeitados, talvez tenhamos mesmo que viajar para as ilhas Fiji.


Bom, pelo menos o meu passaporte está em dia.

quarta-feira, 29 de maio de 2013


29 de maio de 2013 | N° 17447
EDUARDO VERAS

Aquém do horizonte

Há um poema de Rudyard Kipling em que o primeiro homem, depois de assistir ao primeiro pôr do sol, pega uma vara e risca uma linha no chão. Em seguida, o Diabo lhe chega por trás do ombro e comenta: “Ficou bonito, mas será que é arte?”. O assunto da anedota é o quanto a crítica se compraz em nos perturbar as certezas, mas nem por isso o poema deixa de contemplar o próprio tema da criação: o sol não está mais no horizonte; resta a linha.

Imagine agora essa linha sobre uma folha de papel, folha pequena, meio ofício. Imagine que a linha não é reta, feito a do poema, mas é como aquela dos skylines urbanos, acompanhando o ritmo dos edifícios.

Não precisa pensar em Noviorque, Porto Alegre já serve. Imagine agora que a linha define um único prédio, não um desses grandes e pretensiosos, que sua cidade tanto ama, mas um pequeno, já velho, três ou quatro andares. Imagine que, da linha para baixo, tudo se preenche minuciosamente; o lápis pastel se esfumaça em preto, cinza e branco, sugerindo planos, arestas, volumes.

Vê-se apenas o topo do prediozinho: a caixa d’água, as paredes sujas, alguma basculante, calhas, telhas, canos. Para cima da linha, além do que seria o horizonte, apenas o branco do papel.

Agora imagine que a parte debaixo desse prédio desenhado é recortada pelo que seria o perfil de um segundo edifício, um pouco mais baixo, dois ou três andares, ou ainda uma casa. Porém, em vez de desenhar esse segundo edifício, imagine que, em seu lugar, tudo permanece em branco. É como se aquilo que (não) aconteceu acima da linha do horizonte se repetisse nessa porção inferior do papel: tudo em branco. O desenho mesmo, aquilo que foi riscado, ocupa apenas o meio da folha.

Talvez seja algo difícil de imaginar. Tentei descrever como enxergo os desenhos de Marcos Fioravante, jovem artista de apenas 23 anos. Encerrou-se faz pouco a exposição que ele apresentava na Galeria Gestual, em Porto Alegre. Boa parte de seus trabalhos ainda pode ser vista no acervo da casa, ao vivo, ou em reproduções no site (www.gestual.com.br/art/mar cos_exposicoes.htm).


Os pequenos desenhos em preto e branco, representando o topo de modestos edifícios, parecem sintetizar o próprio sentido do que é – e como funciona – um desenho: o que se risca, mas também o que se deixa em branco, o que o contorno define, mas também aquilo que nem se risca e que, ainda assim, consegue definir um contorno. O espaço intermediário entre dois planos, e também os planos. O desenho surge, ao mesmo tempo, além do horizonte e aquém dele.

sábado, 25 de maio de 2013


26 de maio de 2013 | N° 17444
FABRÍCIO CARPINEJAR

Esse cara não sou eu

Sou eu e ela aproveitando os 10 minutos de tolerância do despertador para ficar ainda mais abraçados.

Sou eu e ela brindando com xícaras de café.

Sou eu e ela dividindo o espelho na hora de escovar os dentes.

Sou eu e ela perguntando se está frio ou quente na rua para escolher as roupas.

Sou eu e ela fazendo planos para o final de semana em plena segunda-feira.

Sou eu e ela de mãos dadas no cinema até formigar os braços.

Sou eu e ela criticando a cafonice de alguém na rua.

Sou eu e ela no banco da praça tomando chimarrão e jogando pipoca aos pássaros.

Sou eu e ela trocando cumprimentos de pernas debaixo da mesa.

Sou eu e ela se beijando devagar para respirar melhor dentro do beijo.

Sou eu e ela guardando as rolhas de nossos vinhos.

Sou eu e ela escondendo surpresas no armário da cozinha.

Sou eu e ela ouvindo os problemas sem jamais dizer que não é nada (é horrível ouvir que não é nada quando se sofre).

Sou eu e ela relatando as confusões do trabalho, e exagerando para soar engraçado.

Sou eu e ela disputando quem acessa primeiro a web.

Sou eu e ela arrumando a casa depois de festa.

Sou eu e ela colocando ao mesmo tempo nossas fotos no Facebook.

Sou eu e ela dançando com a cabeça voltada ao teto.

Sou eu e ela lendo o mesmo livro, um esperando o outro terminar o parágrafo para virar a página.

Sou eu e ela adivinhando o que significa certas palavras antes de consultar o dicionário.

Sou eu e ela em silêncio barulhento quando nos emocionamos com uma história.

Sou eu e ela mordendo os lábios no momento da excitação.

Sou eu e ela dividindo os moletons mais gastos.

Sou eu e ela atendendo ligações de madrugada dos amigos em fossa.

Sou eu e ela dando desculpas furadas para não sair no frio.

Sou eu e ela pedindo: por favor, coce minhas costas.

Sou eu e ela passando a roupa um pouquinho antes da festa.

Sou eu e ela atentos quando um dos dois levanta no meio da noite.

Sou eu e ela encardindo as meias pelos corredores do prédio.

Sou eu e ela confessando ciúmes com humor.

Sou eu e ela guardando as caixas de sapatos e as embalagens dos presentes.

Sou eu e ela mudando de canal sem parar sempre alegando que nunca tem programa bom.

Sou eu e ela conferindo se fechamos a porta.

Não sou o cara, mas melhor do que isso: sou um casal.

26 de maio de 2013 | N° 17444
MARTHA MEDEIROS

À prova de influências

O medo nasce da história que contamos a nós mesmos. Descobri isso quando viajei sozinha pela primeira vez, aos 24 anos. Idade semelhante à da protagonista do livro que estou lendo, sendo que no caso dela a aventura foi bem mais radical que a minha: se eu mochilei de trem pela Europa, ela mochilou a pé por uma trilha numa região montanhosa dos Estados Unidos.

Andou mais de 1.700km em meio a uma natureza selvagem, sem nenhuma experiência e emocionalmente em frangalhos. É essa a história contada em Livre, de Cheryl Strayed.

Peregrinar é busca. De si mesmo, naturalmente, mas podemos encontrar também novos conceitos para a vida. É onde o medo às vezes entra para atrapalhar. Antes de sair de casa pela primeira vez, eu não havia criado a minha própria história sobre o medo.

Vivia protegida pela família, pelo conforto, pela estrada previamente pavimentada e sinalizada por meus pais – o medo que eu porventura sentisse havia sido herdado deles. Fazia parte da história de vida deles. Eu ainda não tinha a minha.

Só quando comecei a dar os primeiros passos sem retaguarda e sem companhia é que fui criando uma história mais autêntica para o meu medo. Decidi que ele não seria um personagem assustador, com capacidade de me paralisar. Meu medo, diferente do medo de outras pessoas, não me inibiria. Seria sutil. Ele apenas evitaria que a soberba tomasse conta: prepotentes potencializam riscos. Mas eu não permitiria que o medo me tornasse covarde. Na história que criei sobre o meu medo, não dei a ele tanto poder.

Sabemos que o medo tem uma boa assessoria de imprensa. Abra o jornal, assista aos noticiários de tevê, ouça o que dizem por aí: um prédio mal construído pode cair sobre sua cabeça, um maluco pode manter sua filha em cativeiro por 10 anos, você pode ser assaltado ao chegar ao trabalho às oito da manhã, o ônibus em que você viaja pode cair de um viaduto, o leite que você toma pode estar contaminado. Sem falar nas aflições emocionais: o medo de ser traído, deixado, de viver sem amor.

No entanto, nem o Jornal Nacional, nem Zero Hora, nem a internet, nada deveria pautar nosso medo, nem mesmo a experiência dos amigos. Informação nos prepara, mas não fecha caminhos. Eles continuam abertos para aqueles que contam para si mesmo outra história, à prova de influências. Para construir essa história, é preciso se escutar, estar conectado com os seus sentimentos reais, e não com os estimulados em escala industrial.


Se você disser para si mesmo que está disposto a abraçar o que vida oferece de bom e de ruim, o temor diminui. Em algum momento torna-se necessário sair da estrada pavimentada e se aventurar numa rota vicinal menos segura, só para lembrar do que é mesmo que sentimos medo, e por que. E voltar com a resposta que nos dará a bravura necessária para seguir adiante: teremos descoberto que o medo não passa de uma desculpa esfarrapada para ficar no mesmo lugar.
WALCYR CARRASCO

Não quero ser saudável

Já quis fazer um regime que prometia saúde perfeita e viver tão conservado quanto uma múmia egípcia. Lá pelos meus 20 anos, era a macrobiótica. No início do regime, passei dez dias à base de arroz integral cozido sem temperos. Segundo os macrobióticos, o arroz, superior a qualquer outro alimento, limparia meu corpo das toxinas e impediria doenças futuras. Minha esperança era tanta que perguntei: “Cura miopia e astigmatismo também?”.

Não, o arroz integral dedicava-se a enfermidades mais assustadoras. Eu me conformei a continuar de óculos, apesar da primeira pontada de decepção. Depois dos dez dias, já com a pele amarelada e as maçãs salientes, tive direito a complementar o cardápio com gergelim, bardana e feijão-azuqui. Ai, que tristeza era cada refeição! Lembro até hoje a noite em que sonhei com um hambúrguer-salada voando na minha direção. As folhas de alface batiam que nem asinhas! No dia seguinte, mergulhei na primeira lanchonete que vi. E me esbaldei nos hambúrgueres. Adeus, macrobiótica!

Sempre tive o pendor por uma dieta saudável. Ando curioso com os veganos. Trata-se de um vegetarianismo radical, sem a ingestão de nenhum produto de origem animal. Inspirações, sim. Um amigo foi recentemente a um restaurante vegano em São Paulo. O cardápio do dia era feijoada! Uma adaptação vegetariana, claro. Brócolis substitui o bacon? “Foi uma das piores experiências da minha vida”, disse ele.

Nos sites dedicados a produtos veganos, descobri até salsicha vegetariana. Suspeito que é para facilitar a introdução à dieta. Outro amigo, um advogado barrigudo, disse:

– Se comer salada fosse bom, tinha rodízio.

É verdade. Existe rodízio de carne, de pizza, de sushi. Alguém pode me indicar um rodízio de berinjela, espinafre, escarola, alface? Se comer salada fosse bom, tinha rodízio. Alguém me indica um de berinjela, espinafre, alface?

Um dos problemas para me tornar vegano, além da minha gulodice, é que dietas alimentares se tornam uma espécie de religião. Alimentar-se passa a ser um ritual. Um grupo de vegetarianos descobriu o óbvio: vegetais também têm sentimentos. Prova disso: plantas que crescem ao som da música clássica têm um desenvolvimento mais harmonioso que as que “ouvem” rock. Mas nunca ouvi uma cenoura gritar “ai, ai”ao ser ralada. 

Não conheço a linguagem das cenouras, talvez se lamentem e eu não perceba, pois tenho consciência de que gritaria que nem louco se me passassem num ralador. Alguns vegetarianos tratam de respeitar aqueles que devoram. O filho de um amigo casou-se com uma vegana radical. Todos os dias, antes de comer, fazem um ato de contrição.

– Desculpe, alface, por eu te comer – diz ela. – Você é nossa amiga, e agradecemos por nos alimentar – afirma ele.

Esse é um dos motivos pelos quais não me tornei vegano. Imagino estar na mesa com executivos da televisão ou de editoras, para discutir um contrato. E dar um beijo num rabanete.

– Rabanete querido, vou te morder. É a cadeia alimentar que me obriga a isso. Perdoe-me, meu amigo.

Como, depois dessas palavras, ser respeitado ao discutir cláusulas de um contrato? Mesmo assim, reconheço que ser vegano tem seu valor. Uma amiga atriz, adepta da dieta, parece uns 20 anos mais jovem. Sem plástica. Quem sabe, estabelecer um laço de amor com os vegetais traz vantagens.

Mais me assustam os crudivoristas. Como o próprio nome diz, são adeptos de comida crua. São vegetarianos mais radicais que qualquer outro. Sem dúvida, é uma dieta menos onerosa. Na decoração, eliminam-se os fogões. Imagino que congeladores também, mesmo porque verduras cruas ficam péssimas quando descongeladas. Muita gente preconceituosa pode imaginar que fará mal ao organismo, que alimentos crus não oferecem os nutrientes necessários.

Feita com cuidado, é uma dieta saudável, sim. Só que a pessoa fica chata. Deixa de sair com com os amigos. Passa a viver num círculo de crudivoristas como ela. Uma vez, fui com um amigo a uma churrascaria.

– Só como salada – disse, ao servir-se. – Mas por que veio aqui comigo? – Coma à vontade. O rodízio passava: maminha, alcatra... Você já devorou uma picanha sob o olhar de censura de alguém do outro lado da mesa? Botando culpa?

Ultimamente, apesar do meu namoro com os veganos, me conformei em ser o que sempre fui. Um boi gordo. Comer de forma saudável deve ser ótimo. Mas a vida vira um tédio. Gosto de reunir os amigos em torno de uma mesa, rir e comer, sem pensar no destino horrível do atum e do salmão. Ser guloso é uma vocação.



25 de maio de 2013 | N° 17443
NILSON SOUZA

Antropófagos

O sapateiro foi bem além das chinelas e acabou deixando impressionante registro histórico de uma viagem ao Brasil recém-descoberto. Falo do francês Jean de Léry, que desembarcou no Rio de Janeiro em 1556 para fabricar sapatos na chamada França Antártica. Na volta à Europa, escreveu uma verdadeira obra-prima sobre a viagem, feita numa caravela precária e em condições de extremo risco. Li sua aventura na última edição da Revista de História da Biblioteca Nacional e ampliei um pouco mais o meu fascínio pelos exploradores do século 16, que enfrentaram um mar de adversidades para conhecer e colonizar o novo mundo.

Léry veio também para pregar o protestantismo e apaixonou-se pelos índios tupinambás, nos quais reconhecia muito mais autenticidade, lealdade e franqueza do que em seus próprios patrícios. Ele descreve os hábitos e costumes rudimentares dos selvagens, mas espanta-se mesmo é com alguns franceses que já conviviam com os índios e que, como eles, passaram a praticar o canibalismo.

Depois de um ano entre os nativos, nosso escriba retornou com uma carga de pau-brasil e alguns animais exóticos para exibir aos financiadores da viagem. Só que a volta foi tão acidentada, que acabou rendendo a melhor e mais perturbadora parte de seu relato. Em quatro meses de navegação, em grande parte com o barco à deriva, a fome da tripulação apertou. Quando acabaram os mantimentos, sobrou para os macacos e papagaios embarcados como mascotes.

Depois, os marinheiros famintos comeram os ratos do navio, por fim as velas de sebo e até mesmo solas de sapatos. Conta Léry: “Mal podíamos falar uns com os outros sem nos agastarmos e, o que era pior, sem nos lançarmos olhares denunciadores de nossa disposição antropofágica”. Estavam todos prestes a se entredevorar quando avistaram a terra.

O livro de Jean de Léry, História de uma Viagem Feita à Terra do Brasil, teve sete edições em francês e algumas em latim, pois os relatos de viagem eram um gênero literário muito apreciado na Europa no século dos descobrimentos. Deviam ser mesmo. Quem não se deliciaria com detalhes daquelas fantásticas excursões pelo mar bravio rumo a um mundo desconhecido? Gente corajosa, aquela. Era tanta precariedade, falta de higiene, alimentos deteriorados, doenças e brutalidades, que muitos aventureiros morriam antes de chegar ao destino. Mas foram esses intrépidos que uniram a Europa à América e expandiram a civilização.


Nós, os humanos, somos mesmo uns bichos estranhos e curiosos. Talvez sejamos todos antropófagos por natureza, mas nossa fome de conhecimento chega a ser maior do que o nosso instinto de sobrevivência.

quarta-feira, 22 de maio de 2013


Dove Retratos da Real Beleza (Versão Estendida)

O VALOR DE UMA PESSOA

se eu nao estiver aqui amanha...pense nisso!!!

Nada na vida é por acaso

Me Desculpa

Mensagem de Amigo


22 de maio de 2013 | N° 17440
MARTHA MEDEIROS

Bom de briga

Quarta passada escrevi sobre as vantagens de se ter o hábito da leitura e, para minha surpresa, recebi um e-mail engraçado, ainda que a graça fosse involuntária: um senhor de 60 anos defendeu furiosamente a ideia de que ler é uma perda de tempo, válvula de escape de preguiçosos que preferem o ócio à realidade – muito melhor seria viver, praticar esportes. Não explicou como uma coisa impede a outra, mas seu ataque contra os livros foi tão veemente, que quase acreditei que os verdadeiros alienados são os que se dedicam às “histórias dos outros”, como ele disse.

Eu estava a ponto de incinerar minha biblioteca e comprar uma passagem para a Austrália quando um livro me caiu em mãos e resolvi lê-lo – uma despedida antes de começar a viver de fato. Quem mandou? Decidi que continuarei criando mofo, tudo por causa de Bom de Briga, do australiano Markus Zusak, livro que dá prosseguimento a O Azarão, lançado meses atrás.

Se no primeiro livro os personagens Cameron e Ruben, dois irmãos desajustados de uma família modesta, gastam suas tardes planejando uns crimezinhos mequetrefes pela vizinhança, agora, no segundo livro, eles cresceram um pouco, mas só em tamanho: continuam sem saber o que fazer para se tornar alguém.

Até que, por causa de uma briga de rua, os irmãos recebem um convite para lutar às ganhas, valendo dinheiro. É o mais próximo de um emprego que eles já chegaram. A família está na pindaíba, almoça e janta sopa de ervilhas. Os garotos topam.

Os dois livros são excelentes. Uma prosa seca e poética ao mesmo tempo. Está ali, sem pieguice, o processo de iniciação à vida (pois é, os personagens vivem, ao contrário de nós, leitores barrigudos). Em poucas páginas, o significado de vitória e derrota. Dois guris que batem, esmurram, até que o perdedor saia de dentro deles. Que descobrem que a vida é um ringue onde, não importa quanto apanhemos, o importante é levantar do chão.

Não pretendo me inscrever no Ultimate Fighters para levar uns sopapos de verdade. A literatura me aproxima dos efeitos. Emociona, estimula, dá a impressão de que também vivo aquilo tudo, ainda que, segundo o senhor que se orgulha de nunca ter lido um livro, leitura seja um subterfúgio para não frequentar nem ringues nem parques, nem quadras de esporte, nem aeroportos, nem bares, enfim, aquilo que os amantes dos livros ignoram que exista.

Markus Zusak se tornou mais conhecido por A Menina que Roubava Livros, mas esses dois romances que escreveu antes de seu best seller trazem um experimentalismo salutar à criatividade. A crítica, positiva, rotula como “livros para jovens”. Obrigada pela parte que me toca, mas discordo. São universais e uma aula para quem deseja aprender a escrever, já que escrever, ao menos, está atrelado à vida, a julgar pelo próprio autor, Markus Zusak, que a despeito de passar algumas horas em frente ao computador fazendo seu ofício, não esconde de ninguém que o que gosta mesmo é de surfar.

sábado, 18 de maio de 2013



Os seios de Angelina
RUTH DE AQUINO

Esta mulher é surpreendente. Nunca entrou para o primeiro time de atrizes, mas chegou a ser a mais bem paga de Hollywood. Fez filmes bem ruins, estrelou fracassos comerciais. Ficou famosa ao interpretar uma heroína de videogame, Lara Croft. Ganhou um Oscar de Coadjuvante, em 1999, como uma jovem transtornada em Garota, interrompida.
>>Angelina Jolie é um bom exemplo contra o câncer?

Não é, portanto, por seu desempenho profissional que Angelina Jolie ganhou a estatura de musa transcendental e universal. Ela jamais foi uma grande atriz. Na vida real, inventou e reinventou para si mesma personagens transgressoras e radicais. Quantas Angelinas foram desconstruídas até ela chegar à capa das últimas revistas como uma deusa sublime, arauto do sofrimento de milhões de mulheres?

Angelina se impôs primeiro por uma beleza exótica, quase excessiva. Olhos imensos e verdes. Lábios tão carnudos que prestaram um desserviço a mulheres loucas e ansiosas para ganhar “a boca da Jolie”, com preenchimentos mal-sucedidos. Pernas longuíssimas, exibidas em fendas criadas por estilistas.

A perna direita de Angelina, exposta por um modelo preto e recortado de Versace, na cerimônia do Oscar do ano passado, ganhou, em minutos, um perfil no Twitter com mais de 10 mil seguidores. Sua pose inspirou montagens hilárias de anônimos. A perna “apareceu” em quadros clássicos, como A última ceia, de Leonardo da Vinci, e em cenas históricas, como a chegada do homem à Lua.

Compondo com os olhos, a boca e as pernas, uma outra parte do corpo de Angelina sempre esteve em evidência no tapete vermelho, pelos decotes e vestidos tomara que caia: os seios fartos, um dos símbolos de sua sensualidade. Foram esses seios que Angelina decidiu retirar e substituir por próteses, como medida preventiva contra o câncer.

Não falarei sobre detalhes médicos, o pânico da hereditariedade ou as siglas de genes mutantes. O que me interessa – e sempre me intrigou nessa atriz americana de ascendência alemã, eslovaca, canadense e holandesa – é sua personalidade. Se olharmos para sua biografia, a decisão de Angelina de fazer e anunciar a dupla mastectomia no jornal The New York Times tem tudo a ver com sua vida, nada convencional.
Não foi por seu desempenho profissional que ela ganhou a estatura de musa transcendental...

Alguns enxergam seu ato como coragem, outros como precipitação. Muitos acham sua cirurgia uma oportunidade valiosa para discutir abertamente um dos maiores medos das mulheres. Hoje, não fazemos só mamografias anuais, mas ultrassonografia e ressonância magnética das mamas. Conversei com um mastologista que se confessou surpreso com a quantidade de casos de câncer e a baixa idade de pacientes: “É como se fosse uma moda, uma onda”, disse ele.

A fama de Angelina e a repercussão de seu artigo ajudarão mulheres a conhecer métodos de prevenção e cura. Ou aumentarão a fobia feminina. A conclusão mais óbvia e sensata é: cada caso é um caso. A escolha de Angelina foi radical. Mas ela sempre foi radical.

Os pais se separaram quando era bebê. Aos 7 anos, estreou no cinema ao lado do pai, o ator Jon Voight, com quem brigou muito, até conseguir enfim remover seu sobrenome paterno na Justiça. Aos 14 anos, desistiu das aulas de teatro.

Queria ser agente funerária. Usava só negro. Pintou os cabelos de roxo. Definia-se como uma “garota punk com tatuagens”. Sofria surtos de depressão. Vivia se cortando, colecionava facas – e cicatrizes. Tem dois ex-maridos. No primeiro casamento, vestia calça de couro preta e uma camiseta branca. Escreveu o nome do marido na camiseta com seu próprio sangue. Revelou ser bissexual e gostar de relações sadomasoquistas.

Com o ator Brad Pitt desde 2005, estabilizou sua vida amorosa. Mas não se domesticou. Ela já tinha dois filhos adotivos, do Camboja e do Vietnã, e o casal adotou mais um na Etiópia. Angelina passou a liderar campanhas humanitárias, tornou-se embaixadora da ONU para refugiados. A primeira filha biológica de Angelina e Brad nasceu na Namíbia, em 2006, e foi batizada como Shiloh Nouvel.

Os filhos gêmeos, Knox Leon e Vivienne Marcheline, nasceram em Nice, na França, em 2008. O casal vendeu as fotos para duas revistas de celebridades por uma fortuna – US$ 14 milhões –, que afirmou ter doado à fundação beneficente Jolie-Pitt.

Hoje, Angelina tem sete tatuagens no braço, com as coordenadas geográficas dos lugares de nascimento de Brad e dos filhos. Aprendeu a pilotar aviões. “Voar”, afirmou, “é ainda melhor que sexo.” Ela prometeu que só casaria oficialmente com Brad quando o casamento homossexual fosse permitido em todos os Estados Unidos.

Diante de uma vida assim, a dupla mastectomia preventiva aos 37 anos, sem o menor sinal de câncer, não deveria surpreender tanto. É inútil enquadrar Angelina em algum padrão.



18 de maio de 2013 | N° 17436
NILSON SOUZA

Proteína com perninhas

Nunca acordei pensando que era um inseto, como o célebre personagem de Kafka, mas tenho tanto respeito pelas formigas, que nem me atrevo a investigar minhas vidas passadas. Chego mesmo a desviar de meu percurso nas caminhadas matinais quando vejo uma carreira de bichinhos na calçada. Aprecio-as pela disciplina e pela determinação, especialmente aquelas que carregam pedaços de vegetais bem maiores do que elas próprias.

Também me despertam compaixão outros insetos, como aquele que parece um rinoceronte em miniatura e está sempre virado com as patas para cima, sem conseguir se aprumar. Quando deparo com um desses, procuro desvirá-lo para que retome o seu rumo. Também tenho um crédito de bom-mocismo com os voadores: já fui severamente advertido por um companheiro de viagem por reduzir abruptamente a marcha do carro na estrada, apenas para não atropelar uma borboleta.

Sinto-me, portanto, moralmente impedido de seguir a recomendação que a ONU deu na semana passada para combater a fome no mundo: comer insetos. Muitas espécies têm mais proteína do que a carne, garantem os especialistas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. E lembram que grilos, gafanhotos e larvas de diversas espécies já são consumidos em mais de 120 países, sendo apreciados inclusive nos sofisticados restaurantes europeus que vendem comidas exóticas. Com todo o respeito, argh!

Como nunca passei fome de verdade, não posso dizer que jamais comerei qualquer coisa. Mas enquanto houver um pacotinho de miojo disponível no mundo, os insetos que se preocupem apenas com seus predadores naturais – como uma lagartixa que habita os recantos escuros da minha sala de trabalho em casa. Chamo-a, carinhosamente, de Tixa. Ela, sim, tem um verdadeiro fascínio pelos bichinhos que se deixam atrair pela luz. De vez em quando, sai da sombra e faz um rápido lanche, antes de retornar ao seu esconderijo. Segue a orientação da FAO e parece mesmo forte e saudável.

Se alguma vez estive perto de provar alimento de lagartixa, foi quando prestei serviço militar. Muitas vezes, comi comida fria porque perdia um tempão enorme separando os gorgulhos do feijão.

E tinha colega de farda que nem olhava para o prato. Haja estômago! Já ouvi dizer que alguns cearenses comem tanajuras, aquelas formigas gigantes que aparecem na época das chuvas. Não é o pior: tem gente pelo mundo que come aranha caranguejeira, escorpião, larva do bicho-da-seda e outras criaturas tão indefesas quanto repelentes.

Mas nem só de insetos vive o homem. Li que na Tailândia um chefe de cozinha ficou famoso por preparar um prato exótico que garante ser muito saboroso: lagartixas fritas.

Má notícia para a minha companheira de serão.