terça-feira, 19 de janeiro de 2016

19 de janeiro de 2016 | N° 18419 
CARPINEJAR

Apaixonado

Se estou apaixonado, eu aparo a barba, ajeito o cabelo, dobro as borrifadas do perfume, visto roupa nova, engraxo os sapatos, escolho a melhor cueca, reviso as meias para não usar nenhuma com furo, escovo os dentes seis vezes ao dia, volto à academia, largo o terapeuta.

Se estou apaixonado, não basta me arrumar, eu tenho que deixar a casa prendada. Pago faxineira, retiro as tralhas dos fundos, conserto a maçaneta frouxa há um ano, troco o chuveiro frio, compro incenso e aromatizador, seleciono velas com cheiro, gasto em ridículos sabonetes coloridos, descarto toalhas velhas e esfarrapadas, seleciono novos lençóis e roupa de cama, passo na feira para escolher as melhores frutas, forro a geladeira de cerveja.

Limparei ainda o carro coberto da poeira da estrada, esvaziarei o lixo do chão, aplicarei cera na carcaça para renovar o brilho.

Se estou apaixonado, não basta me arrumar e arrumar a casa e arrumar o carro, eu me preocupo com o interfone do prédio que não funciona direito, com as luzes apagadas do corredor, com a porta emperrada da saída da garagem. Peço providência pessoalmente ao zelador e por escrito ao condomínio. Posso virar síndico somente para dar um jeito logo e impressionar quem desejo. 

Eu me antecipo a contratempos e adversidades. Não pretendo que nada atrapalhe o que estou sentindo. Serei jardineiro, mecânico, pedreiro, todas as profissões de muque. Buscarei também sofisticação em tutoriais do YouTube: aprenderei receita de risoto siciliano, decorarei passos de forró, assistirei a degustações de vinhos.

Se estou apaixonado mesmo, não basta me arrumar e arrumar a casa e arrumar o carro e arrumar o edifício onde moro, eu começo a escrever ao Dmae para corrigir vazamento na rua, telefono para a Secretaria de Obras para melhorar a iluminação da praça, peço que cortem a grama dos canteiros em meu bairro, incomodo para que seja pintado o meio-fio apagado. Eu me transformo em vereador voluntário, em prefeito de graça. Não me importo em suar, trabalhar, penar, cansar. A vadiagem acabou. Quero deixar tudo bonito para o meu amor passar.

Se estou apaixonado de verdade, sou capaz de fazer em uma semana tudo o que adiei a vida inteira.

Deus já deveria estar apaixonado pela mulher quando criou o mundo em sete dias.

sábado, 16 de janeiro de 2016


17 de janeiro de 2016 | N° 18417 
MARTHA MEDEIROS

Redondezas


Não é incomum homens e mulheres terminarem a vida ao lado daqueles com quem inauguraram seu currículo afetivo

Geralmente se dá assim: eu chego à cidade sem conhecer nada nem ninguém. Abro a mala no quarto do hotel, tiro de dentro as roupas que amassam, penduro, vou ao banheiro, escovo os dentes e saio pra rua, já que, um momento antes, estava imobilizada dentro de um avião e não vejo a hora de esticar as pernas. Então perambulo, vou sentindo o clima do lugar, me inteirando sobre a vizinhança, até que paro em algum bistrô simpático e faço a primeira refeição. Peço um cálice de vinho e brindo o descanso e a aventura que vêm pela frente.

Até aqui, acredito que, ao viajar, se dê o mesmo com você.

Então passam cinco dias, 10, 15, quantos forem os dias que você programou ficar fora de casa. Está chegando a hora de voltar. Você já tem a cidade estrangeira na palma da mão, fez inúmeros programas, conheceu diversos restaurantes, praias, parques, museus e agora está de malas praticamente feitas, faltam poucas horas para ir para o aeroporto ou a rodoviária, o tempo necessário para uma última refeição. Onde? Talvez aí percamos nossas afinidades. Sem que eu planeje, acabo sempre no local onde comi na cidade pela primeira vez. Sou conduzida, por sei lá que instinto, à minha primeira parada durante aquela perambulação inicial, quando eu ainda não conhecia nada.

Aconteceu recentemente e só então me dei conta de que costumo repetir o mesmo restaurante na chegada e na partida. Às vezes, faço até o mesmo pedido. É prático, pois em geral é um lugar perto do hotel, mas, se há várias outras opções nos arredores, por que justamente aquele? De novo aquele?

Fechamento de ciclo, imagino. Arremate. Uma maneira de confirmar que foi um período para ter início, meio e fim, sem fios soltos, sem reticências. Não há mais tempo para últimos prazeres, apenas para homenagear os anteriores. E para ir se acostumando com a sensação de pertencimento e continuidade: peço um cálice de vinho e brindo a rotina que vem pela frente.

Como se vê, dá pra infiltrar psicologia em tudo.

Essa reflexão me levou às histórias que escuto sobre pessoas divorciadas ou viúvas que estão com 60, 70 anos, e que, longe de aposentarem o coração, reencontram seu primeiro amor e shazam: retomam a relação da adolescência, se é que não é otimismo demais usar a expressão “retomar” depois de décadas ausentes um do outro. Mas o fato é que não é incomum homens e mulheres terminarem a vida ao lado daqueles com quem inauguraram seu currículo afetivo. 

Acomodação? Que seja, mas é romântico. Não significa que aquele tenha sido eleito o melhor dos amores (como aquele primeiro restaurante também não foi necessariamente o melhor), mas é uma forma de encerrar os trabalhos com a sensação confortante de ter fechado o ciclo, saindo de cena sem pendências. Deu-se a volta completa.




17 de janeiro de 2016 | N° 18417 
CARPINEJAR

Diferença entre apoiar e aprovar no casamento

No casamento, um dos grandes equívocos é aguardar aprovação enquanto o correto é esperar o apoio.

Aprovação é paternal ou maternal, não pode ser ritual de casados, porque cria a dependência e a submissão. Alguém se anulará pela carência. Alguém se arrependerá de sua iniciativa e de suas ideias. Alguém agirá pela ansiedade do aplauso. Alguém será permanentemente avaliado. Alguém deixará de viver as suas opiniões em nome do aval de um dos lados.

Não é agradável sofrer com a oposição, é desgastante, às vezes cansa e traz o divórcio, porém é desesperador adotar o que não se acredita só para não brigar.

Mulher e marido devem apoiar, jamais aprovar. Apoiar é respeitar a diferença. Apoiar é reconhecer o valor da posição contrária. Apoiar não é submissão, é estar junto concordando ou discordando. Apoiar é admitir o contraponto e não sonhar com o consenso entre duas personalidades diferentes.

Consenso entre dois é um disparate, o termo democrático funciona com mais envolvidos. Consenso entre dois corresponde a uma miragem de paz, é quando o primeiro manda e o segundo obedece. Consenso entre dois não é liberdade, é poder. E poder restringe a ação, não ilumina todos os caminhos. Quem tem poder tem menos liberdade. Quem tem liberdade não precisa do poder.

Há gente que não faz nada na relação se não obtém aprovação. Depende da aprovação do que vestir, depende da aprovação para receber amigos em casa, depende da aprovação para o que comer e o que beber, depende da aprovação para dormir e mexer no celular. São escravos silenciosos do amém. O sim que começou como agrado, avançou como hábito e recrudesceu em abandono do próprio pensamento.

Na simbiose da aprovação, o amor é perigosamente infantilizado e abre a guarda para o surgimento de um tirano dentro de casa. Sempre existe aquele que se beneficia da fragilidade, explora os bem-intencionados e manda e desmanda no casamento.

O desejo de agradar de qualquer jeito desemboca na obediência cega. No fim, terminará não determinando o que é realmente seu da rotina, apagará a sua identidade, não saberá escolher um canal de televisão ou uma roupa ou uma comida, de tanto que ficou sujeito ao que a sua companhia considera adequado.

Apoie, que é um gesto de igualdade, não aprove. Ninguém é melhor do que o outro para aprovar.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016


13 de janeiro de 2016 | N° 18413 
MARTHA MEDEIROS

A existência dos outros


Não lembro em que livro encontrei esta frase do poeta Fernando Pessoa: “Ninguém admite, verdadeiramente, a existência real de outra pessoa”. É uma afirmação incômoda. Seremos tão autocentrados a ponto de admitir apenas parcialmente a existência de quem nos cerca?

Reza a lenda que só levamos em conta aqueles por quem temos sentimentos profundos: filhos, pais, irmãos e amigos íntimos. Aos outros (amigos não tão íntimos, colegas de trabalho e conhecidos diversos) destinamos nossa simpatia. E, aos desconhecidos, devotamos no máximo nossa curiosidade, se eles a merecerem. Ou nossa indiferença, se eles a merecerem também.

Só que Pessoa não fazia essa distinção, não estava contemporizando. Ele foi claro: os outros, todos os outros, são abstrações ao redor. Convivemos com eles, nos preocupamos com eles, até mesmo os amamos, mas, ainda assim, eles gravitam em nossa órbita sem que consigamos conferir-lhes uma individualidade plena.

Essa ausência de empatia explica por que o mundo nunca vai ser justo e pacífico. Houvesse verdadeira empatia entre os seres humanos, adeus guerras, violência urbana e corrupção. Bastaria que cada um tivesse consciência de que o outro sente, sofre, ama, deseja e pensa com legitimidade e intensidade idênticas a nossa.

Na incapacidade de desenvolvermos esse olhar abrangente, direcionamos o foco apenas aos nossos pares, acreditando que eles representam “todo mundo”. Todo mundo curtiu o post. Todo mundo sentiu a morte do David Bowie. Todo mundo está adorando o novo filme do Tarantino.

Um microcosmo de pessoas do mesmo nível social e intelectual, que cultivam os mesmos hábitos e gostos e que por isso têm a existência comprovada, tanto que, quando sofrem alguma violência, o fato parece muito mais grave do que quando acontece o mesmo com alguém que não se parece conosco e que, portanto, não é visto como parte do mundo.

Um menino de dois anos chamado Vitor foi assassinado a sangue-frio na rodoviária de Imbituba, dias atrás. Um maluco enfiou-lhe um estilete na garganta, sem mais nem menos. Vitor era um belo loirinho, filho de um renomado cirurgião e de uma psicanalista que vivem num prédio da Beira-Mar Norte, em Florianópolis.

Fosse isso mesmo, o assunto estaria na capa dos jornais e revistas, só que não. Vitor foi realmente assassinado, mas era pobre, bugre e vivia numa aldeia indígena. Estava na rodoviária com a mãe, que ali vendia artesanato.

Bastou corrigir a descrição do menino, numa simples troca de parágrafos, para a empatia retroceder e a existência de Vitor se tornar menos importante – ou mesmo nula.

Ainda temos muito a evoluir, cara-pálida. Enquanto os outros forem uma abstração, um mundo melhor também será.

sábado, 9 de janeiro de 2016



10 de janeiro de 2016 | N° 18410 
MARTHA MEDEIROS

Câmbio manual


Ler é bom, simplesmente. Não precisa servir para nada

No último livro que li em 2015, o personagem Pablo tomava as principais decisões da sua vida enquanto mudava as marchas do carro. Um detalhe, apenas um detalhe. A história do livro é outra e nada tem a ver com isso. Mas a competência do autor me fez enxergar nitidamente aquele Pablo que passava de primeira para segunda quando se animava com uma ideia delirante, e de segunda para terceira quando se sentia confiante de que aquele era mesmo o caminho que deveria seguir, e que voltava para a segunda marcha quando de repente uma dúvida reduzia seu entusiasmo.

Uma vida, quando bem vivida e bem pensada, nos obriga a essas alterações de força do motor. Uma ideia puxa outra ideia, encontra a estrada livre em frente, acelera, aí surgem os obstáculos, freamos, nos adequamos à baixa velocidade novamente, até que uma fresta se abre, decidimos avançar por ela, e engatamos a segunda, a terceira, a quarta, a quinta, sentindo o êxtase da conquista: o deslizar merecido depois de uma escolha que foi feita em um único segundo, administrando racionalização e audácia. Até que se chega a algum ponto morto, e tudo começa novamente.

Isso quando não somos forçados a dar ré. A gente se desencoraja, às vezes.

Eu, como muitos, dirijo um carro com câmbio automático e acho bem prático. Acomodo o câmbio no D de Drive e é só ir. Pouco esforço. O motor se adapta às circunstâncias, o carro decide qual a potência exigida, não precisa de mim.

Emoção nenhuma. Como um pensamento sem mudanças.

Para que serve ler? Aproveitando a deixa, poderia responder que é para lembrar que usar a cabeça é um exercício estimulante, que terceirizar nossas escolhas é preguiça, que estar no comando exige responsabilidade, que é preciso saber quando avançar e quando recuar, enfim, essas coisas que fazem da troca de marchas uma bela metáfora pra vida, mas não: ler é bom, simplesmente. Não precisa servir para nada.

O livro que citei na abertura dessa coluna, o último que li em 2015, foi o genial Aventuras Provisórias, de Cristóvão Tezza. E entrei em 2016 lendo Trapo, também de Cristóvão Tezza. E oxalá Cristóvão Tezza continue comigo nessa longa jornada pela frente, me inspirando, entretendo, ensinando, divertindo, comovendo ou, se for o caso, não servindo pra nada. 

A não ser, talvez, para me fazer sentir a plenitude de engatar a primeira e assumir os riscos desta viagem – um ano que começa é sempre uma nova estrada que se pega, e quero avaliar eu mesma de quanta força vou precisar e de quais emoções não pretendo abrir mão.

Meu carro é automático. Eu, não.



10 de janeiro de 2016 | N° 18410 
CARPINEJAR

Não faça o outro sofrer o que você sofreu


Você queria que o outro sofresse o mesmo que sofreu, que ele entendesse o que renunciou, o erro que cometeu, o que deixou de viver ao seu lado, a escolha enganada. Queria que ele engolisse de volta tudo o que ficou engasgado em sua garganta: toda a distância, toda a indiferença, todo o desprezo. Parou de atender o telefone, bloqueou as redes sociais, não garantiu o direito a uma conversa redentora, virou as costas como mais uma porta fechada de casa, recusou as apelações por cartas e a esperança da retratação rápida.

Você pode comemorar, atingiu o seu objetivo, ele hoje é um caco, um restolho, um trapo do homem que foi. Pode espalhar para as suas amigas de que se vingou perfeitamente, envaidecer-se das estratégias de guerra, pode mostrar com orgulho o quanto ele resta perdido, desorientado, solitário, que o rosto dele não esboça um riso há tempo, que as olheiras fundas são desenho a carvão, que a sua barba é de um náufrago dos ansiolíticos. 

Pode se vangloriar do fim da fé do sujeito, de sua exaustão mental, de quem acorda como quem dorme, de quem dorme como quem desmaia. Pode exibir que você conseguiu o que desejava: ele sofreu tanto como você.

Estão quites. Mas infelizmente a sua falha é devolver o que houve de ruim na relação, e não recuperar o que havia de bom. Vingança não é justiça. Vingança é pisar mais o que estava machucado. Retribuiu as feridas, as chagas, a inclemência. São duas vítimas, não mais uma: você antes, ele agora. Executou a retaliação com astúcia de xadrez. A razão é um jogo para vencer, já o amor é a arte de ceder. Não há como ganhar na razão sem sacrificar o coração.

Não previu que sofrer é perigoso. As pessoas desamam na dor. As pessoas não voltam mais a ser o que eram. Exagerou na dose, pois a raiva não segue nenhuma posologia. Ele não tem nem mais uma ponta de orgulho para voltar a lhe admirar.

O sofrimento não produz saudade, e sim mata a saudade. A saudade é cria da alegria. O sofrimento apenas traz ressentimento. Você trocou o eu te amo dele por um pedido de desculpa. Ele irá pedir perdão um dia, porém nunca será capaz de uma reconciliação. Não foi um grande negócio.

Dar o troco é perder a fortuna do amor.


RUTH DE AQUINO
08/01/2016 - 20h02 - Atualizado 08/01/2016 20h02

Saúde!

Vivemos, na área de Saúde, uma septicemia cultivada pela incompetência


Quando brindamos, o primeiro voto é “saúde!” – e não por acaso. Só depois vem “paz, amor”. Sem saúde, o resto não é possível. Por que, então, o Brasil é tão cruel com seus doentes? Crises na Saúde não são produzidas de um dia para o outro. O caos nos hospitais do Estado do Rio de Janeiro é apenas a vitrine de um sistema falido e desumano, e o governador Pezão é um dos culpados, não o único.

O Estado brasileiro nunca deu assistência médica digna à massa da população. Jamais transformou a Saúde em prioridade. No Brasil profundo, não é novidade a falta de médicos, remédios, leitos e equipamentos. O Rio de Janeiro tem a faculdade de jogar holofote sobre mazelas nacionais – ainda mais agora, antes das Olimpíadas. Um gabinete de crise é criado, a prefeitura adota hospitais estatais, como se a escassez fosse inesperada. Não é. Vivemos, na Saúde, uma septicemia cultivada pela incompetência.

Na véspera do Natal, Pezão anunciou a dívida impagável com fornecedores na Saúde, o fechamento de hospitais e de UPAs. A ironia já está no nome: Unidades de Pronto Atendimento. Fora raras exceções, que se dane o doente de baixa renda. O governador do Rio põe a culpa na queda da arrecadação do ICMS, na queda dos royalties de petróleo. Mas isso não aconteceu de repente. Faltou preparo ao governador do Rio para escolher onde gastar na crise?

Os governos federal, estaduais e municipais empurram com a barriga, há mais tempo do que nossa memória alcança, os péssimos índices de desenvolvimento humano no Brasil. E aí se incluem também educação, saneamento e transporte. A negligência se explica. Os políticos não usam hospital público, escola pública e transporte público. Eles enriquecem muito no poder. A vida real passa ao largo de quem manda.

O PT, em 13 anos de populismo amparado pelo PMDB, nada fez para mudar o caráter do país. Nos indicadores sociais, somos um país subdesenvolvido. Não deveria ser assim numa economia que se gabava, até pouco tempo atrás, de ser a sétima do mundo.

Vivi um dia banal e deprimente no hospital municipal Rodolpho Perissé, em Búzios, o balneário mais chique e badalado ao norte da cidade do Rio de Janeiro. Chamo o incidente de banal porque nada de grave aconteceu.

Não foi nada remotamente parecido com o drama da aposentada Lúcia Caldas, que perdeu a mãe de 79 anos no dia 30 de dezembro no Hospital Albert Schweitzer, em Realengo, no Rio de Janeiro. A mãe de Lúcia ficou mais de um mês internada com fratura no fêmur. Não foi operada por falta de uma prótese. Contraiu uma pneumonia e morreu no hospital.

Cheguei ao hospital de Búzios para acompanhar meu filho, com uma dor que parecia vir do apêndice. Olhei a antessala. Uma multidão triste. Crianças, velhos, trabalhadores humildes. Quem recebe os doentes num hospital público brasileiro, na recepção ou na triagem, olha para o enfermo e seus parentes como se fôssemos adversários. Um incômodo. Especialmente perto do Natal e do Ano-Novo. Não havia sinal de celular ou de internet, estávamos isolados do mundo exterior, era impossível falar com parente ou médico de fora.

Vi um homem chegar amparado pelo irmão, todo quebrado, não havia cadeira de rodas para acomodá-lo. Vi um pai chegar aos gritos com a filha vomitando nos braços: “Sou evangélico, mas juro que vou derrubar essa porta se não atenderem minha filha agora”.

O vômito empesteou o ambiente calorento, sem ar-condicionado. As pessoas imploravam para que fosse limpo. Temiam que alguém escorregasse. E não aparecia nenhum pano para limpar. Até que surgiu um desses triângulos amarelos que dizia: “Cuidado. Caution. Piso molhado. Wet floor”. O desenho era de um boneco escorregando. No vômito?

Vi uma mulher com o bebê febril, apertando em vão a campainha do laboratório. Busquei ajuda para ela. Uma enfermeira mal-humorada passou, me olhou com tédio e disse: “Não trabalho no laboratório”. A mãe do bebê me agradeceu a atenção, com os olhos vazios, sem entender que tinha direitos. Ela provavelmente se acostumou a ser maltratada.

Doentes em nossos hospitais públicos são como vítimas de um iminente naufrágio. Dependendo da personalidade, disputam lugar ou se ajudam, organizam filas, zanzam perdidos pelos corredores, compartilham males e histórias.

Foram nove horas no hospital de Búzios e várias filas para exames desnecessários, pedidos por diferentes estagiários, até chegar diante de um médico verdadeiro, o único cirurgião. Em cinco minutos, ele descartou apendicite, receitou um anti-inflamatório. Um dia perdido por falta de médico.

Nada demais. Quantos perdem não um dia, mas a vida ao buscar assistência médica? Saí do pesadelo olhando com tristeza e impotência para nossa gente, que escuta dizer que o problema da Saúde é a queda nos royalties do petróleo.


09 de janeiro de 2016 | N° 18409 
NILSON SOUZA

APARECIDO


Estava torcendo por ele, mas perdi o entusiasmo quando o homem alegou falha no chip de registro do tempo. O mineiro José Aparecido Gonçalves, de 56 anos, chegou na 22ª posição na Corrida de São Silvestre. Completou os 15 quilômetros em 48 minutos e 42 segundos, tempo de atleta queniano. Se fosse verdade, teria deixado para trás cerca de 30 mil corredores, muitos deles jovens e preparados para superar longos percursos. O resultado logo despertou a suspeita das autoridades esportivas, não exatamente pela colocação do competidor, mas sim pela sua idade.

– Preconceito! – gritei para mim mesmo, obedecendo ao instinto de autodefesa dos sexagenários. Não apenas no esporte, mas também em outras atividades, é comum que os veteranos sejam vistos com desconfiança.

Por isso, torci para que o velhinho de São Joaquim de Bicas, município da região metropolitana de Belo Horizonte, fosse um desses fenômenos da natureza que desafiam a ciência. Como meu amigo Flávio, que tem mais de 70 anos e corre diariamente entre a Tristeza, onde mora, e a Serraria, mais do que o dobro da São Silvestre. Barbudo, ereto, queimado pelo sol, ele parece um indiano correndo a Maratona de Bombaim. Mas não compete. Corre no seu ritmo, apenas pelo prazer do movimento, para manter a saúde e para fazer amigos, pois gosta de reduzir a passada para conversar com conhecidos e desconhecidos mais lentos.

Correr e trapacear não combinam. Especialmente para atletas, digamos, mais maduros, que têm plena consciência do verdadeiro sentido da corrida. Competir é para Usain Bolt. Os grisalhos não correm para chegar na frente de outros competidores. Correm para chegar na frente de si mesmos.

O médico Drauzio Varella começou a correr depois dos 50 anos e agora, também na casa dos 70, já completou várias maratonas. “Quem consegue correr 42 quilômetros enfrenta o mundo com mais otimismo e sabedoria”, ensina no seu livro sobre o tema. Não é preciso tanto. Quem consegue correr (ou caminhar) a distância que lhe faz bem já está garantindo benefícios físicos e mentais importantes.

Por isso, custo a entender a história de Aparecido, que acabou sendo desclassificado por suspeita de fraude. Ele garante que não trapaceou, mas os sensores eletrônicos não registram sua passagem por todos os pontos aferidos. Isso indica que ele encontrou algum atalho ou passou pelos locais muito antes da prova.

Que papelão, seu Aparecido! Nós, os matusaléns do movimento, podíamos iniciar o ano sem essa.



09 de janeiro de 2016 | N° 18409
PALAVRA DE MÉDICO | J.J. CAMARGO

O QUE CABE NUM ABRAÇO


O William era filho único de um pai rico e bem-sucedido. Sobrecarregado pela cobrança de equivalência com o sucesso do pai, fez uma série de escolhas equivocadas na tentativa vã de encontrar uma trilha própria, com reconhecimento personalizado, desapegado do modelo paterno. Quando lhe ofereceram um emprego em Londres, viu uma chance áziga de dar uma utilidade ao curso de Comércio Exterior que, até então, soava-lhe no currículo como um título abstrato. 

Mas, mais do que tudo, percebeu que a distância traria uma trégua na competição desgastante que mantinha consigo mesmo. Descobriu, então, que a vocação para o sucesso empresarial era genética e, depois de seis anos, já comandava uma importante agência no centro financeiro de Londres. Neste tempo, o trabalho obstinado restringiu a relação familiar a telefonemas rápidos e focados na saúde dos pais e à repetição exaustiva dessas frases de pseudoafeto que dizemos na ânsia indisfarçada de encerrar uma ligação amorfa.

Uma dessas chamadas foi na véspera do Ano-Novo de 2009. Era a quarta virada de ano longe da família, a mãe pareceu chorosa como sempre, mas a voz do pai, recordaria depois, parecera mais cansada e, do nada, o velho dissera: “Não sei quantos Anos-Novos ainda festejarei, mas espero que o seu Ano-Novo seja muito feliz!”. Na hora, pensou: “O velho, manhoso como sempre, fazendo seu charme!”.

E, na mesma linha de cordialidade, respondeu: “Que os seus próximos 30 anos também sejam!”. Lembrava bem desse diálogo porque, ao desligar, se dera conta de que os 30 anos oferecidos no final da conversa eram um exagero, afinal, o pai já passara dos 70. Mas o desconforto desta constatação durara poucos segundos porque a vida frenética que levava não lhe permitia abstrações. Só ficara como definitiva a percepção que o aumento do intervalo entre os telefonemas, perceptível nos últimos meses, só fazia crescer a ansiedade por encerrar a conversa seguinte. Por isso, quando a mãe lhe chamou na véspera do Natal de 2010, ele já atendeu acelerado: “Diga lá, mãe, o que há de novo?”. Houve um silêncio e um soluço. O choro antes de começar a falar era uma inversão que prenunciava notícia ruim.

E ela veio. “É o seu pai, meu filho! Estive preocupada há meses com a prostração dele. Ele escondeu de mim o mais que pôde, mas ontem me confessou que está morrendo. E pediu que não te incomodasse, mas sei o quanto ele gostaria de lhe ver, desde que você não tenha nada mais importante para fazer!”

Na última frase, toda a mágoa arquivada desde uma noite infeliz em que ele dissera: “Desculpe mãe, mas vou desligar, porque meu dia ainda não terminou e tenho coisas muito importantes para fazer!”. Decidiu voltar aproveitando o feriado de Ano-Novo, quando os negócios esfriavam e poderia dar alguma atenção ao casal de velhos carentes que agora passara a ligar quase diariamente e, se isso não bastasse, ainda terminava em mar de lágrimas.

O reencontro foi chocante. O pai muito magro, a mãe deixara de pintar os cabelos, quase não os reconheceu. Impactado pela descoberta do quanto o abandono de filho envelhece os pais, ele tentou várias vezes explicar a ausência prolongada. E o velho pai sempre interrompia, dizendo: “Não diga nada, meu filho. Eu tenho o maior orgulho de você!”.

Na véspera do Ano-Novo, ele chamou os dois e disse: “Gente, eu não tenho experiência nesta coisa de morrer, mas acho que é isto que está acontecendo comigo. Me abracem!”. Os três ficaram assim, enlaçados durante um longo tempo. Até que perceberam que o pai já não estava. O William confessou-me, tempos depois, que naquele momento descobrira que tudo o que é realmente importante cabe num único abraço.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016


06 de janeiro de 2016 | N° 18406 
MARTHA MEDEIROS

Arte de rua


Miami sempre esteve na minha lista de cem lugares a evitar antes de morrer. Acreditava que a cidade fosse apenas um grande shopping a céu aberto, e minha paciência é curta para o entra e sai de lojas.

Até que em 2011 me convidaram para participar da Feira do Livro de Miami e meus preconceitos começaram a ruir. Feira do Livro? Em Miami? Descobri que não só se lia em Miami, como também se ia ao cinema, a concertos de música erudita e a galerias de arte – inúmeras. Aliás, em Miami acontece uma das maiores feiras de arte dos Estados Unidos, a Art Basel, que na primeira semana de dezembro atrai artistas do mundo todo. Retirei-a da minha lista de antipatias.

Dias atrás, retornei à cidade para mergulhar nas águas cálidas de South Beach, virar o ano longe das más notícias do Brasil e disposta a conhecer o bairro de Wynwood, que alcançou projeção instantânea por sua arte de rua.

Não se fala de outra coisa por lá. Era uma área de má fama, lotada de galpões abandonados. Até que um empresário chamado Tony Goldman convocou alguns artistas para juntos apresentarem uma mostra de 40 muros grafitados. Nascia o Wynwood Walls. Um museu ao ar livre. Pop. Colorido. Impactante. Estavam salvos o bairro e a reputação de Miami.

Hoje são centenas de murais, um ao lado do outro, rua após rua – uma festa para os olhos e o espírito. Ao redor, se instalaram restaurantes, ateliês, lojas conceituais, tatuadores, coffee shops, todo um comércio voltado para consumidores descolados, que rejeitam o lugar-comum.

Galões de tinta, inspiração e boa vontade: uma fórmula simples para transformar o feio em bonito, o velho em novo – ainda que me pareça um pouco estranho ver aqueles turistas todos (eu inclusive) perambulando pelas ruas como se estivessem num zoológico de paredes, fazendo selfies contra muros, marcando ponto num bairro da moda. Toda revitalização deve preservar a integridade do local, ou seja, tem que incluir os moradores. Não sei se vi os moradores da região. Ou é um projeto agregador, ou é pra inglês ver.

Não sei, não sei. Foi só uma interrogação que surgiu.

O que importa é que é cultura, é arte, é inspirador. E atenua o clichê sacoleiro que colou em Miami. Um shopping a céu aberto com um museu ao ar livre dá, no mínimo, empate.

De volta à rotina: hoje eu caminhava pelo meu bairro e quase fui sugada por um buraco da calçada. Reparei nos fios de luz que se enroscavam entre os postes. Vi uma parede pichada, que é bem diferente de um grafite. Edifícios sem personalidade. Nenhuma provocação visual, nada de cor, humor e graça pelas ruas. E me ocorreu que um viajante desavisado das nossas atrações culturais poderia muito bem incluir Porto Alegre entre as cem cidades a evitar antes de morrer.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016



05 de janeiro de 2016 | N° 18405
 CARPINEJAR

Pato ou camarão: o enigma masculino do filtro solar

Homem confunde filtro solar com pomada. O que tem de pato, ganso, cisne na praia, com camadas e camadas mal espalhadas. Ou ele passa demais, ou passa de menos. Ou exagera, ou se omite. Não existe meio-termo (e nem menciono o spray, no qual as borrifadas são engolidas pelo vento). Ou exibe uma plumagem branca, ou aparece camarão-rosa, escandalosa carne viva em alguns trechos do corpo que exigem maior elasticidade, como as costas e atrás das axilas.

O mais cômico é o macho peludo, onde o creme fica eriçado na capa do peito, dê-lhe a cantar Roberto Carlos: debaixo dos caracóis dos seus cabelos.

Há uma incompetência inata masculina que deveria ser estudada. Metade do protetor permanece entre os dedos da rapaziada. Certo que o que não queima é a palma da mão.

O problema é a má vontade que vem da infância. Não conheço amigo que comemore o uso do protetor solar – faz obrigado, contrariado, de qualquer jeito, tateando a pele às pressas, longe do espelho. A mulher já considera o ato familiar e natural, está acostumada aos mais variados cremes de pequena: antes do banho, no banho, após o banho, desde as unhas até a raiz do penteado. Não há região de que ela não cuide com perseverança e afinco.

O modo desengonçado do varão começa na pouca intimidade que tem com a retirada do produto do pote, feito na base das cuspidas esporádicas, violentas e esforçadas. O creme é espirrado no chão, na cama, nas paredes e, inclusive, no teto.

A mulher, diferentemente, vira antes o pote fechado, dá umas palmadas na bunda e retira o volume que deseja com a maior tranquilidade do mundo. Diante da facilidade, a impressão é de que trapaceou e desenroscou a tampa do furo para pegar uma quantidade generosa.

As explicações no rótulo também terminam desprezadas pelos marmanjos, escolhem o número do filtro como se fosse jogo do bicho. Não se fixam em detalhes tais UVA e UVB, essenciais na prevenção de rugas e manchas solares.

Homem é genérico, mulher é farmácia de manipulação. Homem é remédio vencido, mulher é projeto de dermatologista.

Com uma resistência ancestral, o homem coloca uma vez protetor e pensa que está protegido por todo o veraneio. Não compreende que o protetor precisa ser renovado seguidamente, que sai com o mergulho no mar e na piscina, que dura duas horas em média. Botou de manhã e confia que estará valendo no dia inteiro. Não é que confie na infalibilidade dos laboratórios farmacêuticos, é preguiça mesmo, infantilidade irreversível.

O homem é uma criança grande, imediatista, na expectativa da reprimenda materna, que não quer perder o sol lá fora e, ao mesmo tempo, vive reclamando de que não consegue dormir com as queimaduras.

No juízo final, que as esposas perdoem a nossa chatice no verão.

sábado, 2 de janeiro de 2016



03 de janeiro de 2016 | N° 18403 
MARTHA MEDEIROS

O FUTURO do pretérito

Está aí um ano estalando de novo bem à sua frente. Desatole-se dessa areia movediça, desate o nó da sua história

Eu deveria ter feito Medicina em vez de Artes Visuais, mas achei que seria difícil passar no vestibular e não estava disposto a tanta dedicação.

Eu poderia ter casado com aquela linda atriz se quisesse, mas ela me pareceu independente demais e isso me assustou.

Eu gostaria de ter perambulado um tempo no Exterior antes de começar a trabalhar, mas estava preocupado em ganhar dinheiro de uma vez.

E assim, nessa avaliação nostálgica que não serve para nada a não ser para se arrepender, a pessoa vai colecionando uma quantidade considerável de deverias, poderias e gostarias, cultuando o seu kit de possibilidades não realizadas. Uma existência vivida no futuro do pretérito, sem nenhuma conexão com o presente.

Eu não deveria ter me separado, eu gostaria de ter feito outras escolhas, eu poderia ter virado sócio, eu gostaria de ter dito sim para aquele pedido de casamento, eu poderia ter sido centroavante, eu deveria ser menos desconfiado, eu poderia ter realizado o meu sonho, eu deveria ter topado aquela viagem, eu gostaria de ter sido dono de uma pousada, eu deveria ter dito não para aquele pedido de casamento, eu lembraria se não estivesse bêbado, eu saberia se tivesse estudado o assunto, eu teria enfrentado o desafio se fosse mais jovem, eu...

Chega. Já entendemos. Você poderia ter caído fora, mas não caiu, você deveria ter aceitado aquele emprego, mas não aceitou, paciência, é fato consumado. Agora faça alguma coisa com o que tem em mãos e pare de encarnar o Sofrenildo, não fique se lamentando feito a hiena Hardy dos desenhos de Hanna Barbera: “Eu sei que não vai dar certo... Oh vida, oh céus, oh azar”.

Em vez de listar todos os prejuízos causados por nossas escolhas equivocadas, mais vale lembrar o que disse o filósofo Osho: “Você precisa aprender a gostar do que está acontecendo. A imaturidade vive nos ‘poderia’ e ‘deveria’, nunca no ‘é’”.

Então, coopere. Está aí um ano estalando de novo bem à sua frente. Desatole-se dessa areia movediça, desate o nó da sua história, destranque a porta de casa, desenvolva as suas ideias, desligue a torneira de queixas, desamarrote a cara, desbloqueie seus medos, descarte aquelas hipóteses que nunca foram confirmadas, descubra novas habilidades, desarticule os “se” da sua vida: se eu tivesse, se eu soubesse... Ninguém vai a lugar nenhum vivendo na condicional.

Não consegue? Bom, nesse caso, deveria.



03 de janeiro de 2016 | N° 18403 
CARPINEJAR

Corno manso, mansinho

Contar ou não contar que o seu xará de trago e ressaca está sendo traído? eis o maior dilema da amizade. Antecipar o pior ou deixar o pior acontecer? Melhor ser um corno pontual ou um corno retardatário? Há diferença em desvendar a infidelidade antes ou depois? A antecipação diminui o estrago? O colega que não fala que viu a traição estará quebrando o voto de lealdade?

Quantas dúvidas numa só questão.

Meu amigo telefonou desesperado:

– Você está com a sua mulher aí ao seu lado?

– Não, ela está viajando. Por quê?

– Pois é, difícil a situação, não sei se deveria contar. Mas não posso lhe ver sofrer e ser enganado. Pensei duas vezes antes de ligar...

– O que foi?

– Acabei de passar pela calçada da fama em Gramado... Ah, deixa pra lá!

– Desembucha, meu!

– Vi a tua esposa abraçada a um cara, andando abraçada a um cara, em plena luz do sol, nem aí para a multidão! Muito descaramento. Desculpa, meu velho, não queria ser o portador desta notícia.

– Não precisa se desculpar. – Uma vaca, cara, não merece isto!

– Calma, calma, como era ele? – Sua altura, barba cerrada, cerca de 50 anos, cabelos pretos...

– Ele está de jaqueta de couro, jeans e bota? – Sim.

– Previsível. A minha mulher se amarra no estilo selvagem da motocicleta.

– Bah, que m.! Não fala assim que choro.

– Ele não vive rindo? – Sim, parece muito feliz.

– Ele não está com ray-ban? – Como que descobriu?

– Cara, imagino quem seja... – Você já estava desconfiado?

– Faço terapia, tem coisas que não tem como suportar sozinho.

– Você aceita que ela saia com um outro?

– Meu irmão, o que posso fazer? Impossível competir com ele. É batalha perdida. Ele é o homem da vida dela, serei sempre o segundo.

– Como assim, velho? Enlouqueceu? Agora deu para ser corno manso?

– Nada a ver, é que conheço as minhas limitações!

– Não vai fazer nada? Nenhum barraco, não mandará a vadia embora?

– Ela não é vadia, é a mulher que amo.

– Recebe um par de chifres e ainda defende a traidora? Não estou lhe reconhecendo, velho, precisa ser internado. Pirou na batatinha.

– Estou conformado. Há coisas que não há como mudar na vida.

– Não acredito que tem sangue de barata.

– Faz um favor, então, para mim? – Faço!

– Volta lá, cumprimenta a minha mulher e dá um recado para ela.

– Pode deixar comigo! Ela vai ver com quem se meteu... O que falo?

– Diz para ela aproveitar o passeio com o seu pai e avisa que venho morrendo de saudade.



03 de janeiro de 2016 | N° 18403 
ANTONIO PRATA

2016


Eis então que, na noite da virada, me aparece em sonho uma figura toda estropiada, coberta de hematomas, seu corpinho esquálido mal dando conta de segurar os andrajos. Naquele furta-cor emocional dos sonhos, o pobre-diabo aparentava ao mesmo tempo velho amigo e desconhecido. “Quem é você?”. Com um fiapo de voz, ele sussurrou: “Sou 2016”.

“2016?! Que aconteceu? Você nem começou, já tá nessa situação?”. “É que eu venho de 2015, meu filho. Eu sou 2015! 2015 rebatizado. “Rebatizado”, ouviu bem? Não recauchutado, nem remasterizado: “re-ba-ti-za-do”!”. A euforia levou o ano a um acesso de tosse do qual pensei que não fosse sair vivo, mas saiu, vivo e sedento: “Será que você podia me arrumar um copo d’água?”. “Claro. Gelada ou natural?”. “Natural. Se eu pegar uma gripe, não chego a 2017. E se não for pedir muito, uma bebidinha ia cair bem.”.

Corri para a sala. Achei meia garrafa de uísque sobre a mesa, junto aos restos da ceia. 2016 surgiu capengando pelo corredor, botou seus olhos famintos no pernil e tive que lhe servir um prato. Depois de banquetear-se, tomar três doses e ouvir deste esforçado cronista algumas piadas ruins sobre a “voracidade do tempo” – eu só tava tentando descontrair... –, o ano desabafou.

“É muita pressão, meu filho. É expectativa demais nas minhas costas. O governo acha que eu vim salvá-lo. A oposição quer que eu venha redimi-la. E o PMDB?! Só se eu dedicasse meus 365 dias... Mas como eu poderia dedicar meus 365 dias ao PMDB, em ano de olimpíadas? O Dunga quer que eu faça o Brasil esquecer o 7 x 1. O COB quer que eu bata o recorde nacional de medalhas. Tudo na última hora. Tivessem falado comigo quando eu me chamava 2002, 2003, mas não. 

Chegam esbaforidos, agora: 2016, medalhas! 2016, crescimento! 2016, impeachment! 2016, sangue! 2016, paz! Ah, que ingênuos vocês são! Eu não posso nada disso, sabe por quê?”. “Por quê?”. “Porque eu não existo!”. “Bom, eu tô te vendo”. “Isso é um sonho!”. (De fato, mesmo sem existir, 2016 estava coberto de razão). “Eu sou um número no calendário. Rabiscos na areia da praia. Um post-it colado no vento. Veja só: às 11:59 de 2015 um sujeito jogou um moeda do alto do Martinelli. Quando deu o primeiro segundo de 2016, ela estava a meio caminho do chão. Sabe o que aconteceu com a moeda?”. “O quê?”. “Nada, pombas! Continuou caindo!”.

2016 se serviu de mais uísque. “Eu não entendo vocês. Quando vocês fazem aniversário, vocês ficam mais sábios? Vocês imediatamente se dão conta da finitude e da urgência e da inutilidade e da beleza de tudo?”. “Acho que não”. “Então por que vocês esperam tanto de mim? A Terra vai continuar girando, passando pelo mesmo lugar de sempre, em torno do mesmo sol. Posso pegar umas lichias?”. “Por favor”. 

“Outro dia, um grego disse que um homem nunca entra duas vezes no mesmo rio, porque da segunda vez já não é o mesmo homem, nem o mesmo rio”. “Heráclito”. “É. Esse aí. Uma besta quadrada! É sempre o mesmo homem, sempre o mesmo rio, sempre eu, igualzinho”. Dito isso, 2016 matou o uísque num gole, soltou um arroto formidável e saiu trôpego pela madrugada, rumo a fevereiro, já no ponto pro Carnaval.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015



30 de dezembro de 2015 | N° 18400 
MARTHA MEDEIROS

Não querer é poder


Fim. 2015 terminou e um novo ano vai iniciar (a velocidade desse processo tem me causado vertigem, mas isso é outro assunto). O fato é que 2016 está batendo à porta, apresentando-se para receber nossos pedidos. O que você deseja, o que você colocou na sua lista de resoluções? Seja o que for, está começando mal.

Desejar coisa nenhuma: essa é a saída para minimizar frustrações e preservar a serenidade. Decretei como tendência, tudo sob a chancela do poeta português Fernando Pessoa: segundo ele, não querer é poder.

Não sei exatamente qual foi a motivação do gajo para inverter a máxima “querer é poder”, mas o fato é que ele a inverteu em seu Livro do Desassossego. “A renúncia é a libertação. Não querer é poder”.

Muito bem. O que tenho é suficiente. Não quero mais saber de cobrar pendências do futuro, de olhar pra ele de um jeito faminto, como se ele me devesse alguma coisa. Livre de anseios: é desse modo que me preparo para atravessar a meia-noite desta quinta-feira rumo ao primeiro minuto da vida pela frente.

Em 2016, não quero que meu bem-estar esteja atrelado às atitudes de quem me cerca, não quero que minha felicidade dependa de as pessoas agirem da forma que eu considero conveniente. Preciso aceitar que elas têm seus próprios pensamentos e acreditar que suas escolhas fortalecem suas identidades, e suas identidades não são assunto meu.

Em 2016, não quero temer o calendário, não quero encarar a passagem dos dias e meses como se fossem sentenças de morte, não quero perscrutar cada parte do meu corpo em busca de sinais de traição. Seria insano acreditar que o tempo me deve um tratamento privilegiado.

Em 2016, não quero que os projetos que estão em andamento me roubem o prazer de sua execução por causa da ansiedade pela sua conclusão. Não preciso me impor prazos rígidos e mergulhar numa autocobrança aflitiva. Demito a patroa de mim mesma e promovo a estagiária que, por não ter nada a perder, se entrega com entusiasmo ao que, para ela, ainda é um mistério. cortacorrente

Não quero me exigir atualização plena e constante dos fatos que acontecem ao meu redor e também em Brasília, em Paris e em Marte. Que eu me mantenha tranquila em relação ao meu desconhecimento de tanta coisa, esse desconhecimento que se agiganta sem que, nem por isso, eu diminua. O que eu absorver naturalmente haverá de bastar.

Não é necessário me dedicar a tanto querer, a tantas vontades que me obrigariam a me deslocar de onde estou, que me fariam perseguir às cegas algo que nem sei se é destinado realmente a mim. Melhor aguardar nesse ponto suave em que me instalei e que me confere o poder invencível da paz de espírito. O que está a caminho já é meu, apenas ainda não chegou.

sábado, 26 de dezembro de 2015



27 de dezembro de 2015 | N° 18397 
CARPINEJAR

Casamento das cinzas


O amor é insuportavelmente misterioso. Você jura que viu tudo, mas descobre uma nova cena que desconcerta a razão e combate o pessimismo dos relacionamentos.

Cada vez mais vejo que não sei nada sobre o assunto, sou um menino contando as estrelas até cansar. Minha astrologia é o brilho do olhar repercutindo a cintilação dos astros.

Não me fio na ciência exata. Amor, para mim, é como a humildade da lua, o que era minguante um dia se transforma em balão amarelo e cheio na madrugada.

Eu me deslumbro com a poesia dos gestos, pois o romantismo finou para quem não se entregou a fundo para alguém: ficou na metade das palavras por dizer, cansou no calor de uma briga ou no frio do punhal de uma discordância, desistiu de insistir antes dos laços consolidados.

Chega um momento em que o amor e a fé se encontram, e se tornam uma única matéria, inquebrantável. Quando é somente amor, pode acabar. Amor sozinho não faz casamento. O amor também precisa casar. O amor é o noivo da fé.

Aconteceu em Porto Alegre. Antes de morrer, ele pediu para sua esposa de três décadas para ser cremado.

Ela questionou, procurando compreender o seu capricho: – Onde jogo as cinzas? – Espera! Deixa as cinzas com você. Não arremessa em nenhum lugar. Eu quero lhe esperar.

– Como assim? – Só aguento morrer se você me prometer que as nossas cinzas vão casar no futuro.

Depois de 15 anos de viuvez, ela também faleceu e deixou uma curiosa e inquietante carta aos filhos:

“Desejo ser cremada, junte as minhas cinzas com as cinzas de meu marido, que estão na cômoda do quarto, e celebrem o nosso casamento do pó em Rio Pardo, onde nos conhecemos. Prepare um altar, traga as nossas alianças, chame um padre, convide a família. Em vez da chuva de arroz, será uma chuva alegre de nossa fidelidade. Estaremos misturados no ar, enamorados, assim como passamos a vida inteira. Ninguém definirá o que é o meu corpo e o que é o corpo dele. Seremos uma nuvem gris cobrindo o céu dos nossos amigos, passeando pelas cabeças dos netos, voando, voando.”

Eu já tinha testemunhado com assombro casais festejando bodas de ouro, de diamante e de vinho, casais nonagenários beijando na boca, casais velhinhos renovando os votos, mas jamais presenciei uma história igual, do amor enganando a morte, do incrível matrimônio das cinzas de dois apaixonados.


27 de dezembro de 2015 | N° 18397 
MARTHA MEDEIROS

De castigo no museu


Qual será o pior emprego do mundo? A lista deve ser longa, e trabalhar dentro de um museu não deve fazer parte dela. Geralmente são belos prédios, o funcionário fica protegido das intempéries, convive com pessoas de bom gosto e passa os dias cercado por arte. 

Será assim mesmo?

Recentemente conheci um antigo convento transformado em centro cultural numa cidade do Brasil. Fui até lá almoçar com um amigo (o restaurante era bem recomendado) e aproveitei para chegar um pouco mais cedo a fim de visitar a mostra que estava sendo exposta. O táxi me deixou na entrada às 11h30min da manhã. Entrei. Ao comprar meu tíquete, a moça da bilheteria suspirou: “Finalmente”.

Finalmente o quê? “Alguém.”

Sorri e me dirigi à primeira sala. Entreguei meu tíquete a uma moça e ela me deu o bom dia mais alegre que recebi na vida. “Bem-vinda. É a primeira.” Li seus pensamentos: “Talvez a última”.

Então fui entrando, sala por sala. Meus passos ecoavam. Não havia nem uma mosca com quem dividir meus comentários desabonadores – não me entusiasmei com nada. Olhei para o relógio e haviam se passado cinco minutos, mas parecia que eu estava cumprindo pena de 30 anos. Foi então que prestei atenção nelas. Nas mulheres que ficavam no canto de cada sala, guardando a integridade das peças. Umas sentadas, quase cochilando, e outras em pé, esticando os joelhos. 

Olhando o dia inteiro para as mesmas obras, que não eram nenhum Van Gogh, nenhum Edward Hopper, nenhum Dalí. Eram quadros e esculturas pouco envolventes, expostos em salas em que quase ninguém transitava. Resolvi puxar assunto. “Posso fotografar?” “Sem flash, pode.” Perguntei para outra: “É sempre animado assim?”. Ela deu um sorriso encabulado. Então entrei em outra sala e havia uma instalação instigante. Vários facões pontiagudos pendiam do teto. Paredes pretas, tudo preto, apenas aquelas lâminas afiadas e brilhantes sobre minha cabeça e a da moça que ali dava expediente. 

Eu sairia daquela emboscada em meio minuto, mas ela ficaria até às 5h da tarde com aqueles 300 facões sobre a cabeça. Imaginei o teto baixando lentamente, enquanto nós duas, amarradas, aguardaríamos a chegada de um super-herói. Mas não era um filme do Batman. Arrisquei: “Não é uma chatice passar o dia inteiro aqui dentro?”. Ela encheu as bochechas de ar e depois expirou, revirando os olhinhos. Boa resposta. Resolvi contemporizar. “Ao menos você está empregada, né?” Ela deu de ombros com as palmas da mão viradas pra cima, admitindo o consolo. Acho que era muda.

Fugi correndo daquele baixo astral e fui para o restaurante esperar meu amigo. Os garçons perambulavam pra lá e pra cá sorridentes, havia música boa, as mesas estavam ocupadas por jovens falantes e a arte saía da cozinha, em pratos saborosos. Lá era sempre animado assim, eu não precisaria perguntar.

Vigia de sala de museu. Coloquei na lista.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015


RUTH DE AQUINO
23/12/2015 - 21h15 - Atualizado 23/12/2015 21h15

O papa Francisco e o falso Natal

Imagino quanto os políticos brasileiros teriam a aprender com o papa em humildade e dignidade


Num ano em que o Brasil fez mal ao fígado e o mundo foi atacado com crueldade pelo terror islâmico, um hermano argentino de quase 80 anos nos encheu de esperança na humanidade. O papa Francisco pode até dizer, a cardeais e bispos, que continuará a “reforma da Igreja”. Modéstia. Francisco é um revolucionário. E por isso elegeu a corrupção como um dos maiores males a combater. Não só a corrupção alheia. Ele substituiu o conselho do Banco do Vaticano. Enquanto viver, não quer mais testemunhar desvios do dinheiro destinado à caridade.

Francisco sabe o que diz. Sabe como dizer. Sem papas na língua, amedronta os “duros” no Vaticano. Aqueles que se agarram a uma “autoridade divina” para manter regalias e continuar acima do bem e do mal. Nosso papa sabe como conquistar católicos e não católicos para sua cruzada utópica. Porque sua palavra é a palavra da paz, da tolerância, do diálogo entre opostos, mas também do combate às guerras. E, por tudo isso, é reeleito Personagem Mundial e Líder do Mundo por diferentes organizações em diversos países.

O papa Francisco jogou por terra a imagem dúbia e conservadora que o Vaticano muitas vezes projetou sobre o mundo, ao cobrar a punição de todos os religiosos que cometeram pedofilia. O papa é pop e tem um sorriso contagiante. Sua falta de medo deriva de sua bondade e de sua confiança no outro. E também de uma profunda perspicácia da diplomacia internacional e dos grandes temas que nos afligem, dentro e fora de nossas casas.

Escreveu uma encíclica sobre o meio ambiente, algo que jamais moveu os sumos pontífices anteriores a um mero pronunciamento. Sua palavra de amor e compreensão a todos que não se encaixam nas regras, sejam homossexuais, transexuais ou mulheres que se submeteram a um aborto, causou ondas de espanto no Vaticano e no mundo. Aí está, pensamos nós, um ser extraordinário.

“Temos de derrubar muros e construir pontes.” Essa é uma frase favorita do papa Francisco – o primeiro na História a convidar um imã (líder religioso muçulmano) a subir com ele em seu papamóvel.

Seu nome de batismo é Jorge Bergoglio. Imagino quanto os políticos brasileiros, que gostam de ser fotografados nas missas e nos cultos, teriam a aprender com este papa! Em humildade e em dignidade. Ele rezou uma missa nas Filipinas no meio de um tufão – protegia-se com uma capa amarela, como se fosse mais um na multidão de fiéis. Quando foi aos Estados Unidos, andou num carro Fiat 500. Sempre, nos lugares mais perigosos ou em momentos conturbados, aproveitou para se misturar aos pobres, carentes e desassistidos. Aos deficientes físicos, às crianças, aos velhos.

O papa não para. Suas viagens em 2015 o levaram a 11 países de quatro continentes. Países em conflito ou simplesmente países esquecidos. “Por favor, não temos direito a permitir mais outro fracasso neste caminho de paz e reconciliação”, disse ele, sobre as negociações para um acordo de paz na Colômbia, entre as Farc (Forças Armadas Revolucionárias) e o governo. Seu voo histórico entre Santiago de Cuba e Washington mostrou sua fibra, a fibra de um homem comum – em toda a santidade embutida nesta expressão: “Um homem comum”.

No dia de seu aniversário de 79 anos, 17 de dezembro, o papa decidiu canonizar madre Teresa de Calcutá, a quem se atribui a cura milagrosa de um engenheiro brasileiro que sofria de um câncer terminal no cérebro e hoje vive com saúde, aos 42 anos. Madre Teresa é um símbolo da Igreja que o papa Francisco defende, mais comprometida com os pobres e com os que sofrem.

Madre Teresa foi até as “periferias da existência”, uma expressão usada por Francisco para se referir a todos os abandonados, que sobrevivem à margem das sociedades. Na periferia material, estão seres humanos sem casa, sem educação, sem saúde, sem dignidade. Na periferia afetiva, estão os drogados, os deprimidos, os sós. Quantas vezes passamos por doentes da alma sem um olhar de mero reconhecimento de sua existência. Sejam eles de nossa família ou estranhos.

Francisco foi o primeiro papa a ter a coragem, no mês passado, de denunciar o falso espírito do Natal num mundo em guerra. “Teremos luzes, festas, árvores luminosas e presépio. Tudo falso: o mundo continua fazendo guerras. O mundo não entendeu o caminho da paz. Em todo lugar existe guerra hoje, existe ódio. O que permanece de uma guerra? Ruínas, milhares de crianças sem educação, vários mortos inocentes e muito dinheiro no bolso dos traficantes de armas.”

Vida longa ao papa! Que o Brasil passe a honrar sua população e não deixe grávidas e doentes sem assistência, barrados nos hospitais, numa crueldade sem nome. Que sejamos todos melhores no próximo ano.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015



23 de dezembro de 2015 | N° 18394 
MARTHA MEDEIROS

Tudo isso e mais um feliz Natal


Que você consiga desgrudar das redes sociais, que dê uma longa caminhada sem que seus joelhos incomodem, que o sol apareça no dia que você tanto aguarda, que sair da dieta não interfira na sua silhueta, que você tenha a oportunidade de ajudar alguém que esteja precisando, que ouça agora mesmo a música que você mais gosta, que os amigos que se sentiram magoados façam a gentileza de colocar uma pedra no assunto, que o vinho branco esteja indecentemente gelado, que o livro que você está lendo mantenha-se interessante até o fim, que você encontre um presente baratinho, que por alguns minutos você esqueça os problemas do país, que você se reconheça bonito ao se olhar no espelho e que tenha um feliz Natal.

Que você encontre o anel dos seus sonhos numa feira de rua, que pegue o último canapé do prato sem culpa, que reze mesmo sem crer o suficiente, que não dependa de companhia para viajar, que não perca muito tempo se arrependendo, que deixe a vida um pouco nas mãos do destino, que reveja fotos antigas, que tome um banho de mar inesquecível, que vá à luta por uma camiseta que seja a sua cara, que transe com alguém bem legal, que segure dentro da boca uma maldade, que chore sem ficar com o rosto inchado, que o checkup não acuse nada, que ganhe dois ingressos para o show do ano e que tenha um feliz Natal.

Que você pare um pouco de reclamar, que em tudo perceba alguma graça, que resolva ir caminhando em vez de tirar o carro da garagem, que use de uma vez aquela camisa escandalosa ou doe para uma escola de samba, que escute ambos os lados antes de distribuir acusações, que um WhatsApp salve o seu dia, que encontre uma nota de R$ 50 no bolso da calça que está indo para a lavanderia, que te convidem para passar o Carnaval num lugar incomum, que tire bom proveito da insônia, que suma a espinha maldita que apareceu no nariz, que o dia termine sem nenhum contratempo e que tenha um feliz Natal.

Que você não leve um tombo na escada, que não fique preso no elevador, que não perca o chinelo de dedo na praia, que a chuva não estrague seu cabelo, que você mentalize que tudo pode ser simples, que pense duas vezes antes de fazer uma tatuagem no rosto, que vá para Londres sem mais nem menos, que sua barriga pare por aí, que consiga pagar em dia seu seguro-saúde, que você descubra o prazer de uma lanchonete de beira de estrada, que quando pedirem uma opinião sincera você não caia nessa, que entre fazer a coisa certa e a coisa errada você escolha fazer a coisa certa, que não subestime a importância das trivialidades e que tenha um feliz Natal.

É o que desejo pra você dentro do espírito de generosidade abundante que a data inspira.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015



22 de dezembro de 2015 | N° 18393 
CARPINEJAR

Não foi assim


Almoço familiar é uma guerra de recordações. Ainda mais lá em casa: prole numerosa, formada por escritores, promotores e juízes. Há uma disputa vaidosa por quem conduz a melhor história. Um interrompe o outro. A falta de educação é uma arma para ganhar o debate. Falar de boca cheia é uma obrigação para não ficar atrás na conversa. Não há timidez, recato, respeito, trata-se de jogo sujo do início ao fim da refeição, não faltam cotoveladas, chutes por debaixo da mesa e respingos de molho na roupa. Comer é o de menos, desde criança participo de um concurso de contos.

Começo a ciscar uma lembrança: – A minha tia dizia que fui trocado no hospital.

A mãe logo interrompe: – Nada a ver, confunde a tia com a sua irmã.

O pai muda o personagem: – Foi a sua avó.

Insisto no tom professoral, como se a luz me focasse sem a ameaça de o público interferir no escuro. Faço da cozinha o meu palco, as vaias não me pressionam.

– A minha tia me encarava estranho e chamava a atenção para uma incoerência: nasci cheio de pintinhas e depois no berçário não apresentava mais nenhuma mancha no rosto. Como? Ela suspeitava seriamente da troca.

Os irmãos me censuram:– Não pode lembrar, era muito pequeno. Aposto que é invenção.

É necessário manter a tranquilidade e não ceder à mudança de rotas do pessoal. Passo a bandeja de arroz, a salada, respiro fundo o intervalo comercial e não perco o estribilho.

– Pedi para a mãe comprovar que era mesmo filho dela. Ela me trouxe a certidão de nascimento. Ora, não sou idiota, poderia me colocar como filho no cartório e isso não prova nada.

O pai questiona quando que ele vai aparecer na lembrança.  – Pai, você não está nesta história – resmungo.

Prossigo. É um esforço enfrentar os parentes para terminar uma piada ou uma evocação. Eles têm a mania de duvidar do jeito que memorizamos a infância.

– Mantinha a certeza de que fui trocado no hospital. A mãe, chateada com a minha desconfiança, decidiu pôr fim às dúvidas e me trouxe um envelope pardo. Abriu vagarosamente com as fotos de meu avô: a mesma cara amassada, o mesmo desvio de septo, os mesmos olhos caídos, a mesma testa larga. Olhei, olhei e lamentei: “Coitado, ele também foi trocado no hospital”.

Enfrento as risadas desonestas da turma, sinto o cheiro do deboche. Ouço gritos de protesto:

– Não foi assim.

O pai conta uma versão. A mãe conta uma diferente. Carla, Rodrigo e Miguel tomam caminhos absolutamente inesperados na interceptação dos fatos. É de enlouquecer para qualquer estranho convidado a comer conosco.

Desisto de tentar definir a verdade. O que descobri ao longo da vida é que todos, inclusive eu, estão mentindo.