quarta-feira, 12 de abril de 2017



12 de abril de 2017 | N° 18817 
MARTHA MEDEIROS

Educando para o medo

Era meia-noite e quinze e minha filha de 25 anos, funcionária de um restaurante, voltava do trabalho a pé para casa. Caminhava sozinha por ruas escuras e pacatas, enquanto conversava comigo pelo WhatsApp. Segurando o telefone com uma das mãos e teclando com a outra, contava como tinha sido seu dia e, cansada, comentava que não via a hora de chegar em casa, tomar um banho e ir para a cama.

Você pode imaginar o que aconteceu.

Eu conto. Aconteceu que ela chegou diante do seu prédio, atravessou o gramado aberto que o separa da calçada, subiu um lance de escada, abriu a porta do apartamento, entrou, tomou um banho e foi descansar. Nem poderia ser diferente, sendo ela moradora de uma pequena cidade da Nova Zelândia, país que tem uma das menores taxas de criminalidade do mundo.

Enquanto trocávamos mensagens, eu imaginava essa cena acontecendo em Porto Alegre ou em qualquer cidade do Brasil. Uma filha de 25 anos caminhando sozinha à meia-noite por ruas desertas, e ainda dando bandeira com um celular na mão: qualquer pai ou mãe ficaria com o coração aos pulos. É como está o meu, agora que ela iniciou um trajeto bem mais perigoso: está a caminho do Brasil, onde voltará a morar por uns tempos.

Eduquei minhas filhas para correrem atrás de seus sonhos, para terem coragem, para permitirem-se o melhor que existe, sabendo que a palavra “melhor” tem significados distintos para cada uma delas. Para a Julia, sempre significou independência, liberdade, emoção. Depois de formada, tirou um ano sabático para viver às próprias custas, viajar, conhecer pessoas, ter novas experiências. 

E que experiências: morou em cima de uma montanha a dois passos de um vulcão, nadou ao lado de tubarões, pegou carona em estradas, passou cinco meses numa comunidade com outros 16 estrangeiros e agora retorna para os braços da família, dos amigos e de um país que não costuma ser muito cordial com pessoas destemidas.

Além de cobri-la de beijos e carinhos, como recepcionarei minha filha que há 14 meses tem seus direitos de cidadã respeitados, sem precisar preocupar-se com os riscos urbanos? Por amor, terei que lembrá-la de fechar os vidros do carro, não circular por regiões isoladas, não deixar equipamentos de valor à vista, ficar atenta à movimentação em volta, ter cuidado ao carregar sua bolsa e demais atitudes que são meramente paliativas, mas necessárias.

Deveríamos educar para a confiança, mas vivemos dias tão surreais, que terei que reeducar minha filha para o medo.

sábado, 8 de abril de 2017



08 de abril de 2017 | N° 18814 
CARPINEJAR

Injustiça no lar

Você lava a roupa, estende, arruma as camas, ajeita os ambientes progressivamente dos quartos à sala, esfrega os banheiros, desmonta a bagunça generalizada, cozinha, limpa as panelas e a louça, seca e guarda os pratos, recompõe as prateleiras, varre, encera o chão, deixa o universo brilhando, lustroso, para não ser festejado.

Dedicou quatro horas do seu dia para absolutamente nada. Executou um cronograma rígido e hierárquico de faxina (uma tarefa de cada vez), cuidando para que sobrasse tempo para sair ao serviço, e não ganhará, ao final, um mísero “muito obrigado”.

Foi uma trabalheira inútil e anônima. Conheceu a essência da injustiça, que nasce da sobrecarga do lar. Como repetirá a rotina na manhã seguinte, estará escravizado pela sua disposição e força de vontade.

Não será admirado, não será elogiado, não receberá cafuné e salva de palmas. E, o mais grave, você que está errado. Pois não havia necessidade, ninguém pediu para que fizesse coisa alguma. Você fez porque quis, porque não conseguiu esperar. A casa se arrumaria sobrenaturalmente, comandado pela sombrinha e espírito da Mary Poppins. Antecipou-se de modo egoísta, por absoluto capricho.

O que incomoda é que, além da completa ausência de reconhecimento e recompensa, você ainda terá o estigma de doente. Acabará mal falado. Sofrerá bullying da família inteira. Todos dirão que é um neurótico, um maníaco por limpeza. E que deveria procurar tratamento terapêutico, já que jamais sossega.

Nas conversas com amigos, não escutará de sua esposa ou de seu marido que é um exemplo maravilhoso, que cuida de tudo e sempre facilita a vida. Ouvirá, por sua vez, que é autoritário, impositivo e não oferece chance para qualquer um demonstrar a sua boa vontade.

Os preguiçosos são tão preguiçosos que não cuidam nem de sua culpa e repassam a responsabilidade adiante. Esquecem que não há empregada doméstica para cumprir o serviço, esquecem que o descanso não vem primeiro do que o trabalho, mas depois, resultado e glória da ordem.

É como revivêssemos a crença da teoria da geração espontânea, que vigorou até meados do século 19. Rãs, cobras e crocodilos eram gerados a partir do lodo dos rios, assim o fogão, a pia e a geladeira ressurgem limpas de nosso abandono.

Não entendo como ocorreu a inversão. Limpeza hoje é doença, sujeira é independência. Limpeza é tirania, sujeira é democracia. Limpeza é invasão da intimidade, sujeira é respeitar a liberdade do próximo.

Aqueles que se dedicam a cuidar da casa e da criação dos filhos, simultaneamente ao seu emprego, são identificados como ansiosos. Matam-se de trabalhar e ainda aguentam o questionamento perverso de sua reputação.

Os preguiçosos nunca dão o braço a torcer. Nem os braços são torcidos nos baldes da gentileza.



08 de abril de 2017 | N° 18814 
MARTHA MEDEIROS

Todos os sentidos da vida

No final das contas, o que somos? Matéria bruta esculpida por desejos, projeções e inocência

Assisti ao filme que deveria ter ganhado o Oscar se tivesse concorrido: Mulheres do Século XX, de Mike Mills, com a estupenda Annette Bening, que também mereceria a estatueta. Na verdade, o filme concorreu apenas na categoria roteiro, e não levou. E a Academia deve ter razão, claro. Eu é que tenho uma queda pelos alternativos.

A história se passa em Santa Bárbara, Califórnia, 1979. Dorothea, 55 anos, vive num casarão antigo que está sendo reformado, e cria sozinha um filho de 15, Jamie. Para ajudá-la a educar Jamie, Dorothea convoca reforços: a melhor amiga dele, uma lindinha de 17, e uma inquilina outsider de 24. É a força-tarefa que todo adolescente sonha.

Era uma época em que o cigarro ainda não era demonizado e o cinto de segurança não passava de um acessório supérfluo de Fuscas e Mavericks. Logo ali, dobrando a década, iríamos nos apavorar com a Aids, perder John Lennon e começar a ajoelhar para o politicamente correto, sem falar na internet, que viria mudar tudo. Era melhor naquele tempo ou avançamos? Não pergunte para essa minha alma riponga.

Há cenas inesquecíveis. Dorothea tentando entender a cultura punk, mas se rendendo, no máximo, ao Talking Heads. A palavra menstruação sendo invocada à mesa do jantar para “quebrar paradigmas” – em mais uma atuação carismática da atriz Greta Gerwig. A turma reunida em torno da tevê assistindo a um discurso histórico de Jimmy Carter. E o expressivo ator Lucas Jade Zumman, que interpreta Jamie, nos ganha do início ao fim. Um garoto cool descobrindo a vida e a sexualidade através de três mulheres malucas e divinas.

O título sugere um filme feminista, e também é. Vemos mulheres donas de seus narizes que recusam o título de piranhas por privilegiarem o sexo, mas também vemos mulheres modernas reivindicando o direito de serem mães e sentindo falta de romantismo e fantasia. Vemos tudo, porque vida é isso – tudo.

Ainda o filme: é sobre o que a gente pensa que seremos no futuro, sem cogitarmos que o destino nos levará para um caminho diferente do que sonhamos. É sobre um “sentido da vida” magnânimo que não existe nem nunca existiu: o sentido está na emoção e na perplexidade de cada dia. É sobre a dificuldade de conhecermos alguém profundamente, em suas fragilidades e grandezas. No final das contas, o que somos? Matéria bruta esculpida por desejos, projeções e inocência.

Mulheres do Século XX é divertido, terno, nostálgico, psicodélico, humano, inteligente, poético, encantador. Um mosaico de pequenas descobertas e um grande consolo: a vida não precisa de sentido. Basta vivê-la.


08 de abril de 2017 | N° 18814 
LYA LUFT

Direitos de todos, e todas

Já inventaram – inventam demais sobre a gente – que escrevo sobre mulheres, que falo para as mulheres... Só ainda não vi dizerem que escrevo como mulher. Mas há muitos anos, querendo me elogiar, um crítico de renome escreveu que, “embora sendo mulher, Lya Luft escreve com mão de homem”. Naquela época, ainda ficava aborrecida por um dia ou dois com essas eventuais bizarrices. Hoje, nem cinco minutos. (Nem tudo piora com o tempo...). 

Afinal, o que seria escrever com mão de homem? A alternativa seria: ou com coração de mulher? Um mais grosseiro, outra mais delicada? Um mais lógico, outra em devaneios? Um sobre temas importantes, outra sobre amenidades? Assisti a palestras e seminários sobre o tema, aqui e em outros lugares do mundo, e não vi chegarem a nenhuma conclusão razoável.

Mas, nessa gangorra natural nas coisas da moda, umas sérias, outras fúteis, a questão (grave) da mulher retorna sempre. Devo dizer – concordando com o que escreveu outro dia Cláudia Laitano aqui na ZH – que em minha casa, talvez sendo meu pai um intelectual liberal, nunca senti minha mãe inferiorizada, ignorada, ao contrário: ali havia respeito e parceria. Nem eu, na escola, na universidade ou na profissão, me senti submetida a algum patriarca. 

Talvez eu fosse demais distraída, ou simplesmente o fantasma saiba a quem aparece. Nunca trabalhei como funcionária de uma empresa: por estes dias, diante da minha curiosidade meio incrédula, dois amigos empresários me afirmaram que, sim, no início da carreira, muitas vezes a mulher ganha menos do que o homem, mas depois, “conforme mostra suas qualidades, ela ganha o mesmo”.

Quase não acreditei: ah, então, quando a inferior mostra serviço, ganha o mesmo que o mancebo, que, segundo essa afirmação, não passa por essa fase de experiência? Que mundo absurdo, atrasado. Que mentalidade diminuta. Que heroínas temos de ser nós, mulheres, se a sociedade do trabalho ainda pensa assim. 

Para não falar das grosserias eventuais com colegas, com amigas, com namoradas, com familiares, que se permitem isso, alguns trogloditas se achando o máximo. Apoio as atrizes que apareceram com camisetas iguais “Mexeu com uma, mexeu com todas” após incidente infeliz recentemente, numa grande empresa de comunicação, e apoiadas por ela.

Há muito pelo que lutar, porque às vezes aparecem manifestações patéticas de quem se diz “feminista”: “sou gostosa, tenho a boca vermelha, uso biquíni, mas sou capaz”. Tenho de ser gostosa? Usar batom cereja ou morango... ou não serei feminina?

O tema é sério e complexo, apesar das bizarrices e folclores que eventualmente se constroem em torno dele: o mundo precisa remover essa nódoa medieval e grosseira da nossa cultura, que ainda atinge tantas mulheres. Para que o bom combate possa se concentrar em dignidade e oportunidades para todos: velhos, crianças, homens, mulheres, de todas as etnias, orientações sexuais e classes sociais.

Com tanta coisa dramática nos convocando em tantos lugares e com tantas pessoas, violências indizíveis e brutais injustiças, ainda teremos que exigir e provar que, mesmo sendo “diferentes”, nós, mulheres, deficientes, negros, brancos, amarelos, gays ou outros, temos direito igual a manifestação, crescimento, oportunidade, realização e, sim, felicidade?

terça-feira, 4 de abril de 2017



04 de abril de 2017 | N° 18810 
CARPINEJAR

Quem é mais dono da morte?

Vejo inventários que se prolongam por décadas, com famílias disputando judicialmente o que dividiriam naturalmente se o pai e a mãe mortos estivessem vivos.

É uma jornada perigosa e violenta, capaz de destruir o legado e manchar a harmonia de um sobrenome. Uma longa guerra de inveja e de ciúme entre crianças disfarçadas de adultos e com escudo dos advogados.

Da mesma forma como os irmãos concorriam pela atenção dos pais, pela predileção psicológica, enquanto todos existiam pacificamente, passam a brigar pela propriedade das lembranças. São filhos se odiando como nunca, sem castigo e sem cinto, selvagens no ato de possuir um imóvel ou um bem. Não pensam pelo morto, o quanto ele trabalhou para garantir paz e conforto, o quanto suou e sacrificou os seus finais de semana para assegurar tranquilidade aos pósteros. Pensam com a mesquinhez de arrematar os melhores brinquedos e as condições mais prósperas. Buscam os seus direitos e apagam os deveres familiares que continuam existindo, com ou sem os pais vivos.

Nesta conflagração de egos, a alegria de um é maior se criar também a tristeza na companhia. A satisfação cresce ainda mais ao abocanhar a maior parte e conseguir subtrair os demais dos privilégios.

Diante do falecimento do ente querido, os filhos esquecem que têm irmãos e se transformam em filhos únicos. Tem em curso uma esquisita e infeliz alienação filial.

Puxam para si as mangas da ausência da roupa maternal e paternal imitando as suas presenças durante a infância.

Tentam reconstituir em vão no colo da lei o aconchego dos abraços, mas apenas se distanciam dos manos que sofrem igual e que restaram ao lado. A partilha se converte em monopólio, a custo de isolamento e desconfiança.

Querem ser donos da morte do pai ou da mãe. Como se a morte possibilitasse algum dono. A morte é de ninguém. A morte é saudade de quem amamos, de quem nos habitará por toda a vida, independentemente de ações e liminares.

O que mais ansiava aquele que partiu era uma família unida, porém o que mais amarga com a despedida é o contrário: a dissolução dos laços. O espólio que serviria para acalmar as dores em tempos de crise é manobrado em xadrez de interesses e maquinações, em tabuleiro de vinganças e vitimizações.

Não se pretende perder o pai e a mãe pela segunda vez, agora simbolicamente para o irmão, e o herdeiro faz de tudo para manter a sobrevida moral dos falecidos.

O orgulho de filho mimado, de filho cheio de si, não permite cedências e recuos, desculpas e generosidade. Crê que será novamente enganado, pois entende a morte como uma trapaça, jamais como a grande prova de amor e de caráter moldado pela educação recebida.

sábado, 1 de abril de 2017



01 de abril de 2017 | N° 18808 
CARPINEJAR

Porção para um ou para dois?

Um dos enigmas de minha vida é se o prato é para um ou para dois. Por mais que tenha amadurecido e frequentado restaurantes, ainda não desembaracei a questão e sou um eterno novato na caligrafia do cardápio. Sempre que conheço um lugar, erro a medida. Eu me apoio nas fotografias do menu, viro um analfabeto apenas lendo imagens e não chego a nenhuma conclusão.

Quando o garçom diz que é para um, sobra. Quando o garçom diz que é para dois, falta. Jamais acerto a quantidade de comida no prato. Ou me apresento avarento ou me descubro perdulário. Arranho a minha imagem diante da minha família.

No fim, qualquer que seja o resultado, a mulher me humilha com o seu sermão. Já aguardo o comentário com o cafezinho e a conta: – Podíamos ter pedido um só. (E sinto que não estou ajudando para combater o desperdício do mundo.)

Devíamos ter pedido mais. (E parece que sou um pão-duro.)

Certamente ela ensaiou a maldade com o garçom. Ou eu solicito demais ou solicito de menos, influenciado pela frase ambígua do atendente: é bem servido. Bem servido para quem? Para um rei momo ou para uma porta-bandeira?

Tento adivinhar como que o garçom me enxerga para enxergá-lo melhor, se devo aceitar a sua recomendação ou confiar em meu instinto, se ele acha que como muito ou pouco.

Pedir comida é jogar poker. E não há como desvendar se o garçom está blefando. Não sei qual a orientação que recebe. Não sei se ele me inspira à abastança para encorpar seu dez por cento ou que realmente pensa que a melhor propaganda é a honestidade. Procuro decodificar as suas sobrancelhas para verificar a veracidade do discurso, se é leal ou uma vontade de agradar ao seu chefe.

Porção para um ou para dois? Que trauma infindável, ser ou não ser Shakespeare.

Pior que o amor é igual. Quando começamos uma relação, no início mesmo, tateando às cegas, nunca definimos se a pessoa ama por um ou por dois, se está para o banquete ou para o lanchinho, se ela pretende construir um lar ou busca se divertir e manter a sua vida de solteira, se somos projeto sério ou distração, se somos candidato a moldura ou um rostinho colecionável do Tinder, se é caminho para a rodoviária ou conexão de aeroporto.

As confissões são controladas para não assustar nem decepcionar. Não dá para falar no primeiro encontro que deseja casar e ter filho, senão sobra comida. Assim como não dá para censurar os sonhos por completo, reduzindo o encontro ao sexo, senão falta comida. A generosidade com os desejos é malvista, assim como a mesquinhez.

Eu vou morrer sem entender se a porção é para um ou para dois, se o amor é para um ou para dois e como alguém acha bonita uma gravata-borboleta.



01 de abril de 2017 | N° 18808 
MARTHA MEDEIROS

O nosso plural e o de vocês

Como quase sempre acontece, o “nós” se desmembra e volta a ser apenas eu e apenas você, dois personagens que já não contracenam

Um dia eu e você fomos nós.

Nós viajávamos juntos em busca de trilhas distantes, nós descobríamos os detalhes de uma nova cidade percorrendo-a de bicicleta, nós tomávamos litros de vinho tinto durante o inverno gélido e também quando não fazia tanto frio assim, nós éramos os anfitriões dos amigos que vinham nos visitar e éramos, depois, a visita aguardada na casa deles, em retribuição. 

Nós éramos torcedores do mesmo clube de futebol e, em alguns casos, não torcíamos para ninguém, apenas para nós mesmos. Nós – o nome do nosso time. Nós – uma espécie de identidade secreta. Nós – o elenco da peça em que atuávamos: uma história de amor para dois personagens principais.

Como quase sempre acontece, às vezes cedo demais, às vezes com atraso, o “nós” se desmembra e volta a ser apenas eu e apenas você, dois times distintos, duas identidades avulsas, dois personagens que já não contracenam. Um final triste, mas digerível – a vida é assim, fazer o quê.

E então um dia você telefona para seu antigo amor e escuta do outro lado da linha algo inacreditável como “Nós estamos de saída, poderia telefonar amanhã?”.

Você está falando com seu ex. Uma unidade. Que “nós” é esse que não se refere mais a você e ele juntos?

Seu antigo par formou um novo plural. Ele voltou a ser nós. Você ainda é só você, um singular.

Onde foi parar a misericórdia? A sensibilidade recomenda não anunciar a nova condição conjugal antes de todos os corações estarem cicatrizados. O uso do pronome pessoal pode ser uma forma sutil de dizer que a fila andou, mas não ameniza o golpe. 

Um amigo me contou esse baque pelo qual passou e estou tentando fazer uma narrativa refinada do seu desalento, transformá-lo em poesia, literatura, canção, sei lá, encontrar alguma análise confortante para esse “nós” que ele pescou no ar, durante uma conversa trivial, um “nós” que já havia sido dele e que agora não lhe pertencia mais.

Só que não há como confortar. É natural que sejamos exclusivistas e nostálgicos em relação ao “nós” que era nosso, aquele “nós” que depois entrou num vácuo, se desfez, silenciou. O fim simultâneo do que era seu e de outra pessoa foi o último ato de intimidade entre vocês. Até o surgimento deste outro “nós” que agora pertence só a eles dois – e que te dói.


01 de abril de 2017 | N° 18808 
LYA LUFT

Escolhas


Sempre nos ensinam que a vida depende em boa parte de escolhas nossas. Isso também “depende”. Pois, se nasço branco e rico, negro e pobre, branco e doente, negro e saudável, oriental e talentoso, oriental e enfezado, se nasço no Norte mais pobre ou no Sul mais progressista, aqui no estranho Brasil ou em algum lugar muito carente da África mais remota, se meu pai é inuit num dos Polos ou banqueiro em Nova York, e assim por diante, digamos que a minha escolha não há de pesar tanto.

Essa é a base. Mas depois, aí vem o dilema – porque a gente não gosta de dilemas, que provocam escolhas. Depois das condições, não escolhidas, em que nascemos, vem um longo trajeto em que podemos seguidamente tomar decisões: droga ou trabalho, estudo ou boa vida, honra ou malandragem, afeto ou futilidade... enfim. Nada é perfeito.

Escolhas são aflição. Ofereçam ao seu pet um biscoito e um naco de carne, e ele poderá hesitar, perplexo: animais de estimação têm expressões assustadoramente humanas. Para os humanos, as escolhas são as mais diferentes e até absurdas: que roupa usar, no meu closet do tamanho de um bom quarto normal? Que arma vou usar no próximo assalto? Quem vou assaltar? O que vou comprar com o dinheirinho que me resta: remédio ou comida? Para onde devo me mudar? Por que me mudar?

Ainda falando de gente: existe um número imenso de alunos e professores que preferem uma aula bem digerida, nada de provocações por parte do mestre, pois os alunos podem exercer sua perigosa inteligência, sua inquietante liberdade, e argumentar, discutir... Talvez sejamos simplesmente preguiçosos, comodistas, lerdos. Queremos boa vida, nada de caminho pedregoso ou esburacado, nada de pais que impõem limite, professores ou patrões exigentes.

Pode ser delicioso ser filhinho do papai ou da mamãe, e não me refiro só à casa paterna, mas à vida em geral, também à profissão, aos estudos. Escolher é muito chato. Mas a vida não dá colo: passa muita rasteira, exige humildade, personalidade e resistência. Por outro lado – isso me provaram muitos jovens e alunos –, que alegria descobrir o próprio poder de decisão.

Crescer dói, e não só nos ossos infantis com a dita “dor de crescimento”. Dói na alma: “viver é lutar”, disse o poeta brasileiro ao filho, e é, sim. Mas tem umas compensações, como perceber que não somos totalmente ignorantes, incapazes e dependentes. 

Descobrir que nosso trabalho, por mais simples que seja, tem importância, isto é, nós temos importância. Descobrir que somos necessários também para pessoas que nos amam, amigos, família, parceiros. Talvez essa seja a base de todo tipo de felicidade, que para mim é sentir-se bem na própria pele – mesmo fora dos grandes entusiasmos policromados: saber-se apreciado, profissional ou pessoalmente. 

E todos somos. Nem precisam ser coisas grandiosas, ao contrário: o bom, o positivo, pode ser muito pequeno, e ainda assim essencial, como permitir-se ser amado, ser estimado, ser escolhido, ser eficiente. Mesmo que apenas (apenas?) para limpar a rua, trocar a atadura, estimular alguém, fazer alguém pensar por si, e saber-se capaz de fazer suas próprias escolhas.

quarta-feira, 29 de março de 2017



29 de março de 2017 | N° 18805 
MARTHA MEDEIROS

A baixa cotação dos off-lines

Ela estava sentada à minha frente, gloriosa aos 79 anos, uma mulher ainda bela, com a inteligência intacta, amante dos livros e do cinema, com o bom humor em pleno funcionamento, mas com uma deficiência comum a outros que nasceram na Idade da Pedra Lascada: entende bulhufas de computadores. Não usa smartphone, nem tablet, nem iPad. Está alheia ao universo virtual, que, segundo ela, não lhe faz a menor falta. Perguntou a mim: “Tenho esse direito?”.

Ela mesma respondeu: “Descobri que não, não tenho”.

Vive sozinha há uns 25 anos e os filhos moram em suas próprias casas: a família é unida, mas eles não são onipresentes. Nem ela deseja que estejam na sua cola, é independente o suficiente para fazer suas compras, praticar exercícios, encontrar suas amigas, ir ao banco.

Ah, ir ao banco.

Ela é correntista de um grande banco que foi absorvido por outro grande banco, coisa que todo cliente é obrigado a aceitar sem direito a dar pitaco. Ok, nenhum problema. Só que é uma mulher que gosta de ter tudo na ponta do lápis, até porque este “tudo” não é tanto assim. Ela faz contas, como qualquer cidadã. 

Através do extrato do seu cartão de crédito, confere seus gastos mensais. Até que soube que seu banco, agora sob nova direção, não emitiria mais extratos de papel, apenas extratos online. Ela pensou: isso é bom, economia de celulose, mas eles certamente abrirão exceção para quem está fora das redes. E muito calmamente foi até sua agência solicitar a continuidade do recebimento do extrato pelo correio.

Foi tratada como se fosse um alienígena, um ser primitivo a ser estudado por arqueólogos. Saiu de lá sem a solução para essa questão que lhe parecia tão simples, e é.

Pergunta ainda não respondida: idosos (e nem tão idosos) são obrigados a se informatizar? Humilhá-los é uma forma de punição pelo atrevimento de não terem um iToken?

Se você não viu o filme Eu, Daniel Blake, vencedor do Festival de Cinema de Cannes do ano passado, procure assistir por algum canal pago ou pelo DVD: trata da alienação forçada e injusta imposta àqueles que pegaram a revolução tecnológica no meio do caminho e não são mais considerados pessoas que valham o esforço de um atendimento analógico.

A bela septuagenária aqui citada não é um personagem de cinema. É apenas mais uma entre tantos senhores e senhoras que se sentem excluídos por seus digníssimos gerentes de conta, que parecem esquecer que existe vida além dos aplicativos. Até onde sei, o dinheiro de alguém de 35 anos vale o mesmo que o dinheiro de quem tem o dobro dessa idade. Ou não? Bancos, lojas, repartições: não matem seus antigos clientes antes do tempo.

sábado, 25 de março de 2017



25 de março de 2017 | N° 18802 
CARPINEJAR

Por favor, não atrapalhe o amor dos outros

Peço um favor aos hotéis, restaurantes, floriculturas e lojas: renovem o seu cadastro. Não queira conhecer os clientes sem atualizar os dados e demonstrar intimidade.

Relações serão sempre quebradas por uma apressada falha. São floriculturas lembrando que em determinada data você mandou flores para alguém.

Será que acreditam no amor eterno?

Este alguém é um ex. Já está há dois anos num relacionamento e precisa apagar o SMS como se fosse de um amante, antes que se estabeleça uma crise irreversível de desconfiança.

São lojas antecipando para quem está dando um presente. Sempre de um finado. Melhor seria trocar o vestido por uma coroa de flores.

São resorts enviando e-mails para pombinhos que hoje se bicam como corvos. São hotéis procurando antever uma fidelização e destruindo a sua fidelidade. Você faz check-in, e o atendente inventa de nomear o casal pelos antigos registros.

E aquele casal não vigora mais. Como explicar o erro em cinco minutos?

Terá incessantes horas de luta e acareação de madrugada para consertar a ocorrência e provar que não tem culpa nenhuma.

O passeio e o lazer transformam-se numa tortura. Pagará uma fortuna para passear e não sairá do quarto. E não surte efeito chamar à razão para a conversa.

Todos somos infantis ao sofrer por amor, perde-se o discernimento na hora. Você não errou. Não trocou o nome. Quem trocou foram os malditos estabelecimentos.

Nem os 10% e a comissão cobrem os danos emocionais. Custoso explicar que não há virgindade em pessoas adultas e de vida feita.

Loucura acreditar que ecos, atos falhos e ruídos não aparecerão de repente. Existe o passado, mas é somente passado.

Será penalizado por levar a sua nova companhia a ambientes que frequentou com parceiras anteriores, só que não existem tantas opções assim para não repetir os lugares.

Quem conta com muito dinheiro pode variar, porém aqueles que se encaixam numa determinada classe e faixa salarial apresentam nítida limitação de opções e jogam com as mesmas peças.

A força do imponderável estraga a harmonia dos pares. Não tem como controlar o azar. As referências passadas ora voltam trazendo vergonha e medo.

O que não dá para esquecer é que a separação é uma longa desintoxicação, deve-se aguardar que o nome do ex naturalmente prescreva com o tempo. Que o comércio nos ajude e não nos atrapalhe!



25 de março de 2017 | N° 18802 
MARTHA MEDEIROS

Às escuras

Difícil comemorar esses 245 anos de Porto Alegre em pleno blecaute, não apenas literal, mas metafórico

Neste domingo, Porto Alegre está de aniversário. Acenda uma vela. Duas. Três. 245 velas. Talvez elas bastem para iluminar a sua rua, ao menos a sua rua. Aqui perto de casa, teríamos que acender 3 milhões de velas. Um breu.

Porto Alegre, depois que o dia cai, é mais que noturna: é soturna. Eu, intrépida, ainda tenho coragem de sair à noite, mas, nos poucos bairros em que circulo, deparo com um cenário melancólico: um poste de luz aqui, outro acolá, e no espaço entre eles, não sei, não dá pra ver.

Difícil comemorar esses 245 anos em pleno blecaute, não apenas literal, mas metafórico. Feito cabras-cegas, estendemos os braços à procura da nossa ex-alegre cidade, mas tropeçamos em calçadas esburacadas, entramos em ruas sem sinalização e temos medo de quem cruza por nós. Um antigo estádio está prestes a cair de podre, a Fundação Iberê está com a fachada suja e portas semiabertas, o Multipalco ainda não conseguiu verba para sua conclusão, obras se arrastam feito lesmas, e o metrô entrou para o folclore gaúcho como o Negrinho do Pastoreio ou a Salamanca do Jarau. Aí retiramos a venda sobre os olhos e tudo continua escuro, não era uma brincadeira, estaremos mesmo nas... trevas?

Corta. Essa é a parte em que interrompo o relato macabro para lembrar que Porto Alegre tem as canchas de beach tênis ao ar livre, tem o Barranco aberto de segunda a segunda, tem dois estádios de futebol bem aproveitados, tem o incansável Luciano Alabarse batalhando pela cultura – e não só ele. Tem o Brique da Redenção, tem o Araújo Vianna, tem o Teatro do Bourbon Country, tem o Theatro São Pedro, tem a L&PM, tem o Hospital Moinhos de Vento, tem o Zaffari, tem o Instituto Ling, tem a Bolsa de Arte, tem a Casa de Cinema, tem a Casa de Teatro, tem a Casa Destemperados, tem o Sarau Elétrico, tem o Vila Flores, tem a Bamboletras, tem o Fronteiras do Pensamento, tem o Porto Verão Alegre, tem a Fundação Thiago de Moraes Gonzaga e vou parando por aqui porque estou vendo pela janela um sujeito mal-encarado que está bufando por eu ainda não tê-lo citado, e basta de violência, meu lugar é aqui dentro da Revista Donna, não no obituário – não ainda.

Incluo algo mais acessível para quem não pode usufruir de nada que citei acima: temos também um pôr do sol magnífico que não depende de governo nenhum nem da boa vontade de ninguém, mas, ainda que ele seja democrático e nunca falhe, tem sido insuficiente para vermos alguma luz no fim do túnel. Parabéns, Porto Alegre, mas te queremos mais radiante.


25 de março de 2017 | N° 18802
PALAVRA DE MÉDICO | J.J. CAMARGO

O QUE A GENTE APOSENTA QUANDO SE APOSENTA?

Depois de muitos anos, nem sei exatamente quantos, encontrei-o na praia, em Vitória. Caminhava com aquela lerdeza de quem saiu de casa determinado a ir a lugar algum. Com mais cabelos do que a maioria dos contemporâneos e uma condição física macroscópica invejável, contou-me que, desde que se aposentara de sua função burocrática, há 20 anos, alternava residência na praia e na cidade conforme o clima e o humor. Pareceu surpreso quando lhe perguntei como ocupava o tempo e anunciou como se fosse um diferencial da qualidade: “Eu caminho muito!”. “Bom para as pernas”, foi o comentário mais inteligente que me ocorreu.

E então nos despedimos. Ele sem mais o que contar, e eu sem ânimo para argumentar o quanto me parece injusto que esses tantos que aprenderam o que podiam e ainda não começaram a esquecer têm saúde mas, na falta de vontade de fazer alguma coisa útil, contentam-se em esperar a morte, disfarçada de aposentadoria. Um atestado inequívoco de que enquanto faziam o que fizeram preferiam estar fazendo outra coisa.

Claro que as pessoas são diferentes e todas têm o direito de fazer o que quiserem de suas vidas, incluindo nada, e as coisas que energizam alguns enfaram outros. Aliás, são essas diferenças na busca da felicidade que tornam tão pouco produtivos os livros de autoajuda ao proporem modelos padronizados para perfis incomparáveis. 

Por essas discrepâncias, não se pode pretender afinidade entre tipos que consideram que felicidade é andar descalço na praia deserta e os que acham que ser feliz depende de se alcançar um ponto de equilíbrio no máximo de tensão. Sem dúvida, as pessoas que fizeram alguma diferença nesta vida estavam todas no segundo grupo, mas entender essas disparidades e vicissitudes e não tentar modificá-las, além de prática saudável de convívio social, é um exercício de sabedoria.

Sempre tive a curiosidade de imaginar em que momento da vida uma escolha infeliz desembocou neste desânimo, agora irrecuperável. Teria sido vítima daquela apatia que deixa muitos adolescentes com olhar marasmático e que, de tanto ter dúvida do que fazer, acabam se convencendo que não gostam muito de nada e assumem a primeira função que o acaso lhes oferece, e seja o que tiver de ser?

Ou teriam idealizado algum projeto e desistido quando perceberam que era mais difícil do que imaginaram? A principal marca das pessoas de sucesso é a obstinação, e sabe-se que a maioria das desistências ocorre no primeiro mês do investimento, o que mostra o alto grau de resignação e abandono diante das adversidades.

Quando se observa o comportamento atual da juventude, com a marca da informação instantânea e da privacidade pulverizada pelo compartilhamento total, saltam aos olhos dois erros conceituais graves: não há possibilidade de relacionamentos afetivos sólidos na superficialidade do Facebook, nem a mínima chance de realização profissional sem trabalho árduo. Esta geração marcada pela ansiedade, diante da primeira dificuldade, descobre que os amigos verdadeiros se contam nos dedos, e são os mesmos de antes das redes sociais, e que as conquistas profissionais demandam um tempo às vezes exasperante. 

Como os milagres são raros, estes jovens se inspiram em exceções de sucesso e ficam presos à fantasia que, quando percebida como tal, instala um doloroso ciclo de depressão, que é o estopim para a maioria das vítimas de drogadição. Só o encanto da descoberta de algo que lhes acelere o coração dará à vida essa energia que enternece a alma, dilui o cansaço, espanta a monotonia e explica por que, para esses felizardos, o ócio da aposentadoria é insuportável.



25 de março de 2017 | N° 18802 
LYA LUFT

Ah... família

Quantas vezes se discute o tema “família” durante uma vida inteira! Em grupos de mesa de bar, entre amigas (sobretudo mulheres, porque homens comentam menos questões afetivas)! Quanto de queixas em salas de terapeutas e psicanalistas, quanto ressentimento secreto ou evidente contra pai, mãe, irmãos... Mas também: quanta segurança, conforto, alegria e emoção. Quanta descoberta através dos anos.

Lembro desde muito pequena de certa ansiedade em relação a isso. Às vezes, corria para a mãe perguntando: “Você gosta da vovó?”. E a resposta vinha sempre: “Claro, ela é a mãe do meu marido”. E perguntando à avó, a resposta era quase igual: “Claro, ela é a mulher do meu filho”. Aquilo não me tranquilizava muito, mas por algum tempo valia. 

Devo dizer que não havia brigas sérias em minha família, não éramos anjos, apenas pessoas: algum conflito sempre existia e existirá em qualquer desses grupos humanos meio estranhos chamados família, dos quais a gente não pediu para participar, e às vezes gostaria de escapar, raramente conseguindo... E onde tantas vezes se bebe a água fresca e vital de um aconchego que nada mais pode nos dar.

Não realizo com muita frequência o sonho de toda mãe galinha choca, como já me definiram: ter seus pintos perto, à sua volta ou ao alcance de um voo direto e breve. Parte de minha família mora longe, digo looonge mesmo: um filho com mulher na África remota e dois de meus netos, seus filhos, cursando faculdade na Nova Zelândia. Às vezes brinco que, na próxima mudança, quem sabe se transfiram para o Polo Norte e o Polo Sul. E apesar disso, graças aos milagres do cyberspace e do afeto, de alguma forma estamos sempre juntos, eles e nós, a família que por sorte minha ficou aqui.

Por isso mesmo, talvez, as reuniões são tão importantes, e fazem transbordar este coração: os que antes foram meus bebês, minhas crianças, meus adolescentes, agora são mãe e pais, um de barbas brancas, com suas famílias. Suas profissões. Perto ou longe, abrindo caminho neste vasto mundo onde há muito já não posso nem devo protegê-los como quando eram crianças, e eu talvez ainda sonhasse que eram “minhas”.

Isso de ser família tem alguns clarões gloriosos, como quando finalmente todos se reúnem, e muita risada, muita brincadeira, muito abraço, foto, carinho, memória de velhas aventuras: “Lembram de quando alguém nos deu um macaquinho de presente e ele queria morder todo mundo? Lembram daquele cachorrinho? Daquela pescaria na praia? 

Daquela vez em que torci o pé na escola? Daqueles jogos de vôlei na piscina? De quando o diretor te chamou, mãe, porque eu tinha tirado a peruca de um professor que implicava com a gente? De quando a gente se casou? De quando nossas crianças por sua vez nasceram?”. E assim se gastam noites, e dias, e churrascos, e almoços, e felicidades. Não é paraíso, mas é realidade, é chão, raiz, emoção tantas vezes mal disfarçada.

Ando tendo uma dessas dádivas da vida. E me faz acreditar que existe algo nos laços de família que é muito mais do que genes e sangue: é alma e afeto. E que, por mais louco ou chato que ande este grande mundo, talvez este país, uma família amorosa mostra que algumas coisas permanecem, belas e firmes. E que tudo valeu a pena.

sábado, 18 de março de 2017



18 de março de 2017 | N° 18796 
CARPINEJAR

A primeira vez

A primeira vez nunca termina em nossa vida. Sempre haverá alguma primeira vez mesmo na velhice.

A primeira vez é de onde vem a coragem para todas as outras vezes. É enfrentar aquilo que não conhecemos. É não deixar de ir e de fazer, apesar dos calafrios e da vergonha. É entrar no primeiro dia de aula numa escola nova com uma turma de 30 alunos lhe encarando e querendo descobrir quem você é.

É engolir a saliva e atravessar a longa fileira de classes até sentar em uma cadeira que será a definitiva naquele ano. É fingir atenção com o batimento acelerado e responder “presente” com a menção de seu nome e ouvir os pescoços se virando em sua direção.

Ou é sair com alguém de quem se gosta, esperando qual a palavra que será interrompida para dar o beijo (será agora que ela está falando do futuro ou agora que está falando de suas preferências ou agora que me elogia?).

É experimentar o receio de perder o momento certo e depois se arrepender do que não aconteceu e sofrer com o que imaginou de bom. E depois do beijo, como será a primeira noite, o dia seguinte? Será que dar as mãos na rua já significa namoro e pertencimento?

E o tremor de se aproximar para ser negado?

E o temor de se abrir para ser rejeitado?  Olha como é espinhosa a rosa dos lábios: temos que conquistar a aceitação pela nossa aparência e depois a aceitação por aquilo que somos dentro.

Ou como é um tremendo nervosismo começar num emprego, não assimilar como funciona o sistema operacional da empresa e ter que escolher alguém para perguntar e pedir ajuda.

Você disse que entendia e não entende coisa alguma. Viu que não entende. E bate o desespero de atrapalhar os colegas concentrados e interromper alguém com o seu analfabetismo funcional. E cresce o receio de ser uma farsa e ser desmascarado.

A vontade é correr para fora dali sem explicação, mas você fica, estranhamente fica e se acostuma com o suor frio e a gagueira da estreia. Sempre onde o medo reina, a coragem vem e vence. 

Ou a primeira vez em que dirigimos um carro: a rua encurta e os veículos parados parecem que vão se mexer a qualquer momento. Ou a primeira vez em que dançamos como um afogado na pista e somos obrigados a aguentar a chacota enquanto tentamos encontrar o ritmo da música.

Ou a primeira vez em que nadamos e imitamos um cachorro atravessando as águas.

Ou a primeira vez em que cozinhamos e a receita não diz exatamente o momento de misturar os ingredientes.

Ou quando mudamos de país, e o idioma em comum é o choro. Ou quando enxergamos os pais adoecendo e não existe como parar o tempo, resta esperar que o abraço seja mais longo para retardar a partida.

Ou naquele instante em que realizamos um sonho adiado, um curso na faculdade ou um salto de paraquedas, e desafiamos a naturalidade dos jovens. A primeira vez não tem fim. Minutos antes de morrer podemos absorver algo inédito, pois a sabedoria é infinita.

Há quem, por exemplo, somente aprende a perdoar nos instantes derradeiros de seu fôlego e consegue salvar, num único gesto, a sua vida e da outra pessoa em dívida.


18 de março de 2017 | N° 18796 
MARTHA MEDEIROS

Tem homem no mercado

Aconteceu há algum tempo no Rio. Uma mulher colocou um anúncio classificado no jornal em busca de um homem que fosse disponível, hétero e que ganhasse ao menos dois mil reais por mês. Se era piada, funcionou, porque gerou boas gargalhadas. Esta mulher solteira procura não reivindicou honestidade, inteligência, bom humor ou conhecimento geral resumiu-se ao básico do básico. Que o produto não tivesse compromisso com ninguém, que gostasse de mulher e pagasse suas próprias contas.

O que significa que o que sobra por aí é justamente o oposto. A comunidade gay só aumenta. Se o candidato for surpreendentemente hétero, é provável que tenha alguma namorada escondida na manga. E se for hétero, livre e desimpedido, maravilha – mas talvez não tenha grana nem para um pastel de vento, vai encarar?

Vai. Porque o que mais se propaga por aí é a frase “Não tem homem no mercado”, e a mulherada que, como se sabe, não faz outra coisa na vida a não ser se dedicar às pesquisas no súper, se apavora e acaba aceitando qualquer promoção. Homem duro? Serve. Homem casado? Serve. Homem que mora com a mãe aos 45 anos? Serve. Sendo homem, serve.

Até que o cenário piora: é bandido? Serve. Desrespeita você? Serve. Bate em você? Serve. Aí a mulher morre nas mãos desse delinquente e ninguém entende.

Vamos dar um rewind? Começando por parar de divulgar essa ameaça boba de que não tem homem no mercado. Tem, sim. Tem um monte de homem solteiro, separado e viúvo que sonha em encontrar uma mulher madura, companheira e independente. É verdade que há mais mulheres no mundo do que homens, a vantagem é deles, mas apostar no desabastecimento das gôndolas é o caminho mais curto para fazer bobagem. Você acaba se contentando com o que sobrou no fundo da prateleira, já com o prazo de validade vencido.

Quando vemos um homem sem mulher, pensamos: é porque ele não quer uma.

Quando vemos uma mulher sem homem, pensamos: é porque nenhum deles a quis.

Se insistirmos nessa mentalidade medieval, continuaremos propensas a aceitar qualquer carne de pescoço que se passe por filé. Não há por aí quem diga que somos especialistas em detectar os desajustes de ofertas? Então, vamos tratar de pesquisar bem e levar coisa melhor pra casa.

“Quando vemos um homem sem mulher, pensamos: é porque ele não quer uma. Quando vemos uma mulher sem homem, pensamos: é porque nenhum deles a quis”



18 de março de 2017 | N° 18796 
LYA LUFT

Canção dos homens

(Primeiro, uma erratinha: na “Canção das mulheres”, do fim de semana passado, omiti – mea-culpa – uma palavra essencial: “Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amo menos quando preciso de um pouco de quietude”. Segundo, como há uns 15 anos houve protesto de amigos ou leitores: “E nós, os homens?”, então, aqui vai – também um pouco modificado.)

Que quando chego do trabalho ela largue por um instante o que estiver fazendo – TV, filho, computador – e venha me dar um beijo e um sorriso bom, não logo cobrando que estou atrasado ou sempre cansado.

Que quando preciso ficar um pouco quieto ela não insista o tempo todo para que eu fale ou a escute, como se silêncio fosse sinal de falta de amor.

Que não tire nosso bebê dos meus braços dizendo que homem não tem jeito pra isso ou que não sei segurar a cabecinha dele ou vou arranhar sua pele com minha barba... Mas me mostre como se faz.

Que ela não se interponha entre mim e as crianças, mas sirva de ponte entre nós – porque a mãe em geral abre a porta para que o pai entre na vida dos filhos ou ergue um muro para que ele fique de fora.

Que ela nunca me critique diante dos outros, não me humilhe porque estou ficando calvo ou barrigudo, ou porque como ou bebo demais... Nem comente nossa intimidade. Que quando estou com pouco dinheiro ela não me acuse de ter desperdiçado com bobagens em lugar de prover para minha família.

Que quando estou trabalhando ela não telefone a toda hora para cobrar alguma coisa que esqueci de fazer ou não tive tempo. Que não se insinue com minha secretária ou colega para descobrir com eles se eu sou fiel.

Que fale comigo quando lhe causo tristeza ou desgosto, com essa coragem das mulheres – e não deixe que o silêncio da mágoa se acumule entre nós. 

Que se passo algum tempo sem a procurar ela não ironize, e quando a quero abraçar ela me acolha e responda, e não fique impaciente ou rígida, mas mostre que ainda me quer.

Que com ela eu também possa ter momentos de fraqueza, me desarmar, me desnudar de alma, sem medo de ser criticado ou censurado: que ela seja minha parceira, não minha dependente nem meu juiz.

Que cuide um pouco de mim como minha companheira, mas não como se eu fosse um filho desastrado e ela a mãe mal-humorada: que não me transforme em filho. E que me deixe também cuidar dela do jeito que eu posso, mesmo que às vezes seja difícil entender o que ela tem ou o que quer.

Que com os trabalhos, e o peso do cotidiano, ela não perca o jeito que tanto me encantou, e que, se for mudando – como todos mudamos com os anos –, que seja para ser mais parceira, não mais distante ou hostil, e que me ajude a ser também assim com ela.

E que se erro, falho, esqueço, me distancio, me fecho demais, ou a machuco consciente ou inconscientemente, ela saiba me chamar de volta com aquela compreensão, sabedoria e alegria que só nela eu descobri, e desejei que não se perdesse nunca – mas que me contagie e me torne mais aberto, menos solitário, menos defensivo, muito mais humano.

Que por ela eu me torne um homem melhor.

quarta-feira, 15 de março de 2017


15 de março de 2017 | N° 18793 
MARTHA MEDEIROS

Horário comercial


Faleceu ontem, terça-feira, depois de alguns anos respirando por aparelhos, o digníssimo Horário Comercial. Ironicamente, morreu fora do horário comercial, às 23h42min da noite, quando o telefone tocou na casa de uma família que já estava recolhida em seus aposentos, de luz apagada. 

Ao levantar da cama, onde se encontrava deitado, quase pegando no sono, o sr. Vladimir, que acorda todos os dias às 5h da manhã para pegar um ônibus a fim de chegar às 7h30min ao trabalho, arrastou as chinelas até a cozinha, onde fica o único aparelho fixo da casa, e, ao atender, escutou a voz indiferente de uma moça desconhecida que passou a listar as vantagens que o sr. Vladimir teria caso renovasse a assinatura de duas revistas que ele, curiosamente, nunca assinou. Sr. Vladimir, muito gentil, mandou a moça para aquele lugar – a cama dela – e voltou para a sua resmungando qualquer coisa que dona Adelaide, que também estava sonolenta, entendeu com muito custo. 

“Outro que morreu”, foi o que seu marido sentenciou. Aquele telefonema perto da meia-noite foi a pá de cal no que se convencionou chamar de “horário restrito para assuntos comerciais e profissionais”. Não existe mais.

Era um período variável. Das 8h às 18h. Ou, mais curto, das 9h às 17h. Mais curto ainda, das 10h às 16h. Nunca ficou bem determinado, mas subentendia-se que horário comercial era aquele em que as lojas abriam e fechavam, os bancos abriam e fechavam, os escritórios abriam e fechavam, os consultórios abriam e fechavam, e, dentro deste espaço de tempo, os que prestavam serviço se entendiam com seus potenciais clientes.

Parece cena de filme mudo em preto e branco.

Hoje o mundo é uma emergência de hospital 24/7. Você manda uma piadinha por WhatsApp às duas da manhã para uma amiga porque sua emergência é a insônia. Você telefona às 10 e meia da noite para um hidráulico porque sua emergência é um chuveiro pingando. Você manda um SMS de madrugada para o ex-namorado porque sua emergência é atrapalhar o novo relacionamento dele. Você manda uma mensagem para seu secretário pelo inbox do Face, em pleno domingo, porque sua emergência é o narcisismo: precisa sentir que estão todos a seu dispor.

Horário comercial, hoje, é apenas uma lembrança. Entrou para o obituário dos bons modos.

sábado, 11 de março de 2017



11 de março de 2017 | N° 18790 
LYA LUFT

Canção das mulheres

(Há vários anos, publiquei, possivelmente aqui mesmo, na minha primeira passagem por esta casa, uma coluna com esse título, e coloquei também num livro, Pensar é Transgredir. Hoje, nesta semana de homenagem às mulheres, decidi republicar aqui, com alguns aditamentos.)

Que o outro saiba quando estou com medo e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amo quando preciso de um pouco de quietude. Que o outro aceite que me preocupo com ele, não se irrite com minha solicitude, e, se ela for excessiva, saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.

Que o outro perceba minhas fragilidades e não ria de mim nem se aproveite disso. Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes. Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

Que o outro sinta quanto me dói a ideia da perda e fique um pouquinho mais comigo nesses momentos – em lugar de voltar correndo ao seu cotidiano profissional, como se aquela fosse a sua única vida.

Que se começo a chorar sem motivo porque tive um dia daqueles o outro não se irrite se não consigo explicar direito o que foi, mas tenha um pouco de paciência: um abraço carinhoso resolve muita coisa.

Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo “Olha que estou tendo muita paciência com você!”, como se estivesse me fazendo um grande favor.

Que se me entusiasmo por alguma coisa o outro não a despreze nem me chame de ingênua, nem queira fechar essa porta necessária que se abre para mim, por mais tola que lhe pareça.

Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas o outro não me exponha nem me ridicularize.

Que quando levanto de madrugada e ando pela casa o outro não venha logo atrás de mim reclamando: “Mas que chateação essa sua mania, volta pra cama!”.

Que se eu peço um segundo drinque no restaurante o outro não comente logo: “Poxa, mais um? Você não ia cuidar as calorias?”. Que se eu eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura em público o outro ainda assim me ache linda e me console.

Que se alguma vez eu lhe perguntar se ainda sou importante para ele, e se ainda me ama, ele não responda meio agressivo: “Ué, mas eu não estou aqui?”.

Que o outro – filho, amigo, amante, marido – não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite com naturalidade quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que, embora às vezes eu me esforce, não sou, não quero, nem devo ser um tipo de mulher-maravilha. Sou apenas uma pessoa, vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa, amorosa e independente: uma mulher.


11 de março de 2017 | N° 18790
MARTHA MEDEIROS

Numa época em que valores essenciais caíram em desprestígio, alguém vai se preocupar com critérios éticos e perder a oportunidade de causar?

Mal na foto

Não sou muito fã de selfies porque, como se sabe, de perto ninguém é normal a distância sempre induz a uma avaliação mais favorável. Uns dois metros pra trás resolveriam o problema (o problema da espinha no queixo, da cara de sono, daquela pelancazinha danada no pescoço), mas a ordem é ficarmos todos embolados uns nos outros. Chegue aqui, dê um abraço e olhe pra câmera. Agora sorria.

Pronto. Somos dois enquadrados no mesmo click. O grude é obrigatório. O braço estendido e o celular virado pra você e seu mais novo amigo de infância é uma declaração ao mundo: não sou um desgarrado, não sou um papagaio de pirata, não sou um desconhecido que estava passando – eu e a figura aqui somos assim, ó (os dois dedos indicadores lado a lado se roçando).

Selfie, basicamente, é isso: um testemunho de intimidade – se ela existe, de fato, são outros quinhentos. Confesso que já paguei alguns (poucos!) micos ao lado de artistas que admiro. Quem nunca caiu em tentação, tendo a facilidade de um registro para a posteridade? Hoje em dia, faria uma selfie com o papa Francisco fácil, fácil. E com qualquer um dos Beatles e dos Stones. E com aquele cineasta octogenário, baixinho e de óculos que todos sabem que eu venero. Aliás, com qualquer ganhador do Oscar, incluindo OJ Simpson, o negrão cujo julgamento foi tema do documentário premiado este ano.

Ops. Derrapei no politicamente incorreto? Não deveria ter usado a palavra negrão?

Pra muita gente, a derrapagem teria sido só esta, pois se há quem tire selfie com Eike Batista, com o goleiro Bruno, com o Guilherme de Pádua e outros célebres, uma selfie com um ex-astro do futebol americano (que matou duas pessoas, mas isso é um detalhe bobo) seria mais do que compreensível. Caso não tenha ficado claro: esse último exemplo foi apenas para provocar.

Você é íntimo do seu irmão, e também do seu amigo Zé e, claro, da sua cara-metade, mas você não quer passar a vida postando fotos apenas com eles, e sim com algum homem ou mulher que tenha escapado do anonimato e se tornado “alguém”. Se essa criatura costuma aparecer na tevê e você aparece junto com ela na sua página do Face, está feita a ponte: você também passa a ser um pouquinho especial.

Nunca foi tão fácil romper a barreira da invisibilidade, basta um breve momento de tietagem com um ator famoso, um músico famoso ou um assassino famoso. Numa época em que valores essenciais caíram em desprestígio, alguém vai se preocupar com critérios éticos e perder a oportunidade de causar?

Uns e outros se diferenciam, mas a sociedade, como um todo, está mal na foto.



11 de março de 2017 | N° 18790 
CARPINEJAR
Educado sempre


As redes sociais destruíram com a etiqueta de só falar mal pelas costas. Era uma regra cavalheiresca tão bonita. Você recebia os elogios pela frente e desconhecia o quanto era odiado em segredo. Havia o burburinho e o silêncio constrangedor, mas nada que mexesse diretamente com a sua vaidade. A vida brilhava mais gentil.

A omissão não correspondia à hipocrisia, mas ao entendimento de que a crítica não poderia virar violência. Falar mal de quem não se conhece direito deveria ser um ato privado, um voto secreto, passível de erro e de mudança de conceito. Na hora em que é público, já se torna automaticamente uma execução ou um julgamento definitivo.

Pensava-se muito antes de desqualificar alguém. Conversava-se longamente com os colegas, testando a temperatura das polêmicas, seja nos cafés, seja nas rodas de amigos. Quantas vezes mudei de opinião escutando os argumentos contrários e livrei a minha boca de sérios enganos?

Somos menos politizados e mais levianos atualmente. O Twitter, o Facebook, o Instagram e os sites de notícias foram transformados em arquibancadas de estádios de futebol, onde prosperam desaforos de baixo calão, sem o mínimo tempo respeitoso da dúvida. Privilegiam-se a instantaneidade e a interação raivosa. Não ponderamos que o ódio é mais rápido do que o amor, e mais superficial.

Não colhemos uma segunda ou terceira opinião. Somos desinformados por beber e acreditar numa única fonte. Será sede de saber ou pressa para aparecer?

Gremistas odeiam colorados e vice-versa, petistas odeiam peemedebistas e vice-versa, e as sutilezas da elegância são soterradas na militância da truculência. Uma coisa é fazer piada, com a inteligência da insinuação, outra é escancarar o pulmão em injúrias e difamações. Uma coisa é dizer que não se gosta de algo ou de uma figura, outra coisa é atacar a vida pessoal. Palavras não desaparecem em bolhas de ar, têm a eternidade digital dos feeds.

Esquecemos que personalidades são também pessoas comuns, com filhos e pais que acompanham os comentários. Será que era necessário dizer que ele é um... ou uma...., apenas a partir de impressões do momento ou cores sectárias?

Não creio na grosseria. Prefiro falar mal pelas costas até que se prove o contrário a falar mal na frente e ser obrigado a provar o que não tenho certeza.

A justiça é melhor do que a retratação. Quando recebo grosserias, respondo com a firmeza dos meus bons modos. Jamais abdico dos princípios herdados em família. Não entro na mesma frequência. Não perco a compostura. A minha mãe é que me ensinou esta lição: se o outro não merece a minha educação, eu mereço ser educado sempre.