terça-feira, 23 de maio de 2017


20 de maio de 2017 | N° 18850 
DAVID COIMBRA

Como educar meninos de nove anos

Outro dia, briguei com meu filho. Ele fez algo errado e eu o censurei com certo rigor. A Marcinha acha que fui duro demais.

– Ele vai ficar traumatizado – avisou.

Na hora, reagi: – Que traumatizado o quê! Quanta frescura! Fosse a minha mãe, já me puxava pela orelha!

Depois fiquei pensando: e se o guri ficar mesmo traumatizado? Se o pai é duro, o menino pode se tornar um adulto com medo de autoridades, pode se transformar em um dissimulado, um covarde, um homem que não consegue enfrentar as vicissitudes da vida.

Meu Deus! O que estou fazendo com meu próprio filho? Um profundo e corrosivo remorso tomou conta de minh’alma. Continuei cismando. Deveria ser mais brando, talvez. Mais suave... Ou...

Será?

É que, se você for frouxo demais, a criança inevitavelmente virará uma mimada, uma reclamona, uma birrenta, uma pessoa que exige tudo e nunca fica satisfeita com nada. Por fim, uma infeliz crônica. Conheço gente assim, sobretudo na política.

Aí não dá, por favor.

O ideal é o meio-termo. O caminho do meio, como diria Buda. Você tem de ser firme, quando o momento exige firmeza; dócil, quando o momento exige doçura. Você tem que saber dosar, entende? Aquela história do Che Guevara, que conseguia endurecer-se sem perder a ternura.

Mas como atingir esse ponto de equilíbrio?

Perceba o meu drama, solidário leitor: não tenho dúvida de que já vivi mais do que me resta viver. Quer dizer: devia estar colhendo os frutos da experiência. Cometi erros, passei por contingências, sofri e fiz sofrer, mas agora sei o que fazer. Atingi o ponto em que reconheço os limites e, sobretudo, me conheço muito bem.

É como deveria ser.

Mas não é como é.

O fato é que não conheço completamente nem a mim mesmo. Você entendeu como é trágico isso? A pessoa com quem mais tenho intimidade sou eu, e eu mesmo me surpreendo comigo, em alguns momentos. Como, então, poderei saber o que fazer em relação aos outros, ainda que o outro seja alguém que conheço desde o nascimento, como o meu filho?

Cristo!

Mas não vá me entender mal, também: sei que sou um bom pai e, mesmo que vez em quando seja mais firme, nunca bati no meu filho ou coisa que o valha. Faz mais de ano que não o coloco de castigo, inclusive. E ele é um bom guri, certamente que é. Só que, como todo menino de nove anos de idade, às vezes tem comportamentos irritantes e aí é claro que deve ser reprimido. A punição educa, digo sempre. A questão é a dose. Qual é a dose perfeita?

Você se preocupa demais? Ou se preocupa de menos? Tem que prestar mais atenção naquilo? Ou não deve dar bola? Vai passar com o tempo? Ou é preciso intervenção? Ele come muito ou pouco? Está muito magrinho? O rendimento na escola é o adequado? Fica tempo demais ao computador? Lê menos do que deveria? Será que é normal gostar de bichinho de pelúcia nessa idade?

CRISTO!

Só tenho perguntas. Não tenho respostas. Não pergunte nada, quem somos, para onde vamos, de onde viemos, não pergunte nem onde fica o Alegrete, que, aliás, era a terra do meu pai. Meu pai... Será culpa dele? Será culpa da minha mãe? Os pais sempre têm culpa, não é?

Sempre.

Arrastarei minha culpa pelo tempo que me cabe debaixo do sol, uma culpa pesada como se fosse uma bola de aço presa a uma corrente. Mas seguirei em frente e, quem sabe, mais tarde, direi ao meu filho:

– Sim. A culpa é minha. Mas tentei fazer o melhor.

sábado, 13 de maio de 2017



13 de maio de 2017 | N° 18844
PALAVRA DE MÉDICO | J.J. CAMARGO

A FADIGA DA INDIGNAÇÃO

O cumprimento rigoroso do rito processual é o que define o estado de direito, pelo qual todas as nações, em algum momento de sua história, lutaram com o denodo de quem percebeu que essa é a divisória entre a liberdade e a servidão.

Viver em estado de direito é o sonho do homem comum que precisa sentir-se protegido por um sistema que lhe permita fazer suas escolhas em liberdade, tendo como único limitante o igual direito de seu vizinho, que terá certamente a mesma ambição.

Conta-se que um dos últimos monarcas da Alemanha, contemplando o enorme gramado dos fundos do palácio de verão em Potsdam, percebeu que, se fosse removida aquela construção ao fundo, haveria espaço para uma cancha de polo, sua paixão. Atravessou o terreno e deparou com o dono de uma velha olaria. Quando comentou da sua intenção de comprar-lhe a propriedade, foi interrompido com a informação de que ela não estava à venda. Perturbado porque o homem nem quis saber quanto lhe pretendia pagar, o rei, perdendo a compostura, disse: “E o senhor sabe quem eu sou? O senhor tem noção de que eu posso tomar-lhe o terreno?”. O velho teria sorrido e retrucado: “Como se não houvesse juízes em Berlim!”.

Essa certeza de que não há ninguém acima da lei, não importando quem seja ou represente, é o alicerce que deve sustentar uma nação que pretenda ser de verdade, ou nunca será. Quando as leis são burladas, as sentenças são adaptadas a interesses menores e o exercício da justiça tem aquela morosidade de quem não acredita, começa a construção da impunidade, esta marca peçonhenta dos países subdesenvolvidos.

Claro que não precisávamos chegar ao requinte de ter réus assumidos, em exercício legislativo, na busca obstinada de brechas legais que lhes preserve ao menos a cara, porque a honra até eles concordam que seria um exagero.

Sempre que ocorrem estes atropelos éticos, a sociedade consciente se articula de alguma maneira para protestar porque se sente ultrajada nos seus direitos elementares, e cada cidadão sente-se ameaçado pela possibilidade real de que venha a ser a próxima vítima. Desde 2013, as ruas do país foram várias vezes ocupadas por brasileiros que, excluídos os baderneiros, representam a média da população honesta, trabalhadora e, em algum momento, esperançosa.

Quando, no entanto, a repetição do protesto resulta em nada, os escândalos se multiplicam e não impressionam mais, as famílias decentes só pensam em mandar seus filhos para o Exterior, e a mídia atarantada noticia com requintes de helicóptero a libertação de um megamarginal, as paredes do poço parecem tão altas, que se tem a impressão de que chegamos ao fundo.

Todos os que viveram mais de 50 anos devem lembrar que este estado de espírito de constrangedora letargia sempre antecedeu os radicalismos. Não se deve subestimar uma nação cambaleante que chegou à fadiga da indignação, mas ainda assim demora para dormir com a desagradável sensação de que há alguma coisa muito errada com os juízes de Berlim.



13 de maio de 2017 | N° 18844 
CARPINEJAR

O presente proibido

Só há um único presente que o homem não tem como dar a uma mulher: o sutiã.

Pode até comprar calcinha, já num ato de extrema ousadia. Mas o sutiã é impossível. Não confunda teimosia com coragem e insistência com burrice.

O sutiã é feminino até na compra. Não arrisque que se dará mal.

Pense que o sutiã não é uma peça qualquer, desde sempre é a bandeira do feminismo. O estandarte da diferença.

Nem é o problema de acertar o tamanho, e sim definir o conforto e a peculiaridade para cada peito. O sutiã é o mais pessoal dos acessórios. Não pode apertar, não pode tampouco folgar, não pode aparecer, não pode desaparecer por completo. É um sem fim de variáveis.

Olha como é complicado: a alça do sutiã deve ser centralizada nos ombros; quem possui seios menores, enchimento e push-up são uma ótima alternativa; quem detém seios maiores, o correto é optar por laterais e costas reforçadas; não convém expor alça de silicone; cuidado para a cor da pele não destoar demais do conjunto.

Acostumado a uma lista de mercado, nenhum homem chegaria a tal grau de sofisticação. Como tentar passar em Cálculo na Engenharia com a matemática do Ensino Fundamental. Sutiã é conversar de repente, de igual para igual, com Einstein. São fórmulas e fórmulas desenvolvidas para um resultado único e improvável.

Sua esposa ou sua namorada ficará ofendida com o mimo. Acreditará que invadiu a intimidade, que desrespeitou os limites, que não obedeceu aos mistérios da humanidade. Mesmo que use o pretexto de apimentar a relação com produto de uma sex shop, mesmo que venha com rendas pretas e texturas vermelhas diferenciadas, mesmo que apresente sabor de morango e champanhe brut. A sofisticação não é um atenuante, muito menos o valor exorbitante de uma marca. Gastar muito não significa garantia de reconhecimento.

Com o sutiã, errar não é humano. Nenhum clichê salva. Nenhuma nudez será perdoada.

13 de maio de 2017 | N° 18844 
MARTHA MEDEIROS

Mães postiças


A atual mulher do pai chega sempre como uma intrusa, mas havendo bom senso na distribuição dos papéis, logo ninguém se sentirá ameaçado e o novo núcleo se forma

Estereótipos precisam ser revisados de tempos em tempos. O da madrasta má felizmente está com o prazo de validade vencido, mas ainda assim pouco se fala no modelo que a substituiu: o da madrasta boa gente, aquela mulher madura que não tenta substituir a mãe de seus enteados, e sim contribuir para que eles se sintam emocionalmente amparados.

Muitas madrastas são mães: tiveram seus próprios filhos no primeiro casamento e, entrando numa segunda relação, depararam com a experiência de conviver com os filhos de seu novo marido. Não é uma tarefa mole, pois são crianças ou adolescentes que passaram pelo trauma da separação dos pais e não estavam exatamente ansiosos para ver uma nova pessoa entrar para a família. A atual mulher do pai chega sempre como uma intrusa, mas havendo bom senso na distribuição dos papéis, logo ninguém se sentirá ameaçado, e o novo núcleo se forma: os meus, os teus e, quem sabe, os nossos – no caso do novo casal querer ter um filho em comum.

Até aí, tudo certo, é um arranjo equilibrado. Mas tenho pensado naquela mulher que sempre sonhou em engravidar e ser mãe, que alimentou esse desejo desde garota, e que um dia conhece o homem da sua vida: um cara que já teve os filhos que gostaria durante o primeiro casamento e que não cogita ter mais um. “Como não cogita? Que egoísta!” podem bradar algumas colegas de auditório, mas, convenhamos, um homem de meia-idade talvez não deseje um novo bebê. Algum direito esses pobres portadores de cromossomos XY ainda têm.

A mulher talvez pegue sua bolsa e vá bater em outra freguesia para realizar o sonho de ser mãe biológica – e deve fazer isso mesmo, caso não tenha a menor vontade de se adaptar às circunstâncias. Mas, se ela resolver ficar com este homem, poderá transferir todo seu potencial de afeto para os filhos do seu grande amor, não a fim de ocupar o espaço da mãe deles, mas a fim de inaugurar um novo espaço para si mesma – um espaço que exigirá cuidado, paciência e muita dedicação. Não é uma maternidade legítima, mas é uma experiência familiar e sentimental que também costuma impactar a vida de todos os envolvidos.

A elas, essas mulheres que abriram mão do seu desejo ancestral de ser mãe a fim de preservar o seu ideal romântico (o de não procurar um reprodutor, e sim manter uma relação amorosa com o homem pelo qual se apaixonaram e com os filhos dele), o meu mais profundo respeito. Feliz dia das mães que, do jeito possível, vocês também se tornaram.


13 de maio de 2017 | N° 18844 
LYA LUFT

Maternidades

Talvez o assunto esteja esgotado em termos literários. Ainda haverá o que escrever em poemas, crônicas, romances e contos sobre essa experiência transformadora e inigualável, para algumas deslumbrante, para outras apenas inconveniente, assustadora ou trágica? Haverá ainda algo que não se conseguiu descrever em todos os livros do mundo? Por outro lado, essa experiência tão diferente para cada uma, que pode ir de êxtase e euforia a amargura, tem sido objeto de milhares e milhares de esforços para reproduzi-la em frases faladas, escritas, cantadas, por toda parte – talvez desde sempre.

Acho que não há muito mais a dizer, e raramente escrevo sobre datas. Mas esta me agrada, e, sim, gosto do Dia das Mães. Gosto de qualquer celebração que renove nossos pensamentos e emoções. Comercialização de sentimentos? Só pra quem leva a vida como consumo, mede amor pelo gasto e precisa, quem sabe, encobrir suas culpas com visita, telefonema ou presente.

Na vida dita normal (sem discutir o que é isso) nas relações amorosas, entre as quais a de mãe e filhos se inclui, claro, nem tudo é dramático e transcendental. Quase sempre fica entre aquele curativo e beijo na hora do joelho esfolado, noites sem dormir junto da criança doente, colo na hora do coração partido, risadas juntas nas aventuras cotidianas, segredinhos bem guardados, olhar vigilante procurando não intervir nem aborrecer, amor desmedido querendo não oprimir. Mais a chatice inevitável “bote o casaquinho, não fale de boca cheia, não bata no seu irmão, respeite os outros, volte cedo, olhe com quem anda saindo, se cuideeee!!!”. O mais difícil: corrigir sem humilhar, proteger sem enfraquecer, estimular sem iludir. (E ainda tem aquela culpa obtusa que nos assalta mesmo se o filho quebra o pé escalando o Everest: por que não cuidei dele?)

Assistir (discretamente) aos voos que se pode divisar, no resto rezando e torcendo, e sendo otimista: a cria vai dar certo, seja lá o que isso signifique. Não vai quebrar demais as asas e a cara, não vai sofrer demais, vai ser um ser humano decente e bom, e bem-sucedido nas suas escolhas, sejam de profissão, de parceiro, de modo de vida. A gente recebendo um telefonema, um whats, uma visitinha, pra se certificar de que afinal está tudo bem – e ficar feliz da vida.

Mas há as maternidades atormentadas: filho doente, filho viciado, filho perseguido, filho acidentado, assassinado, filho fazendo escolhas negativas, filho precisando de coisas que não se pode dar porque o dinheiro não chega, enfim, filho sumido no mundo ou na morte. Isso, não há palavras que expliquem, então sobre isso me calo, por profundo respeito.

Termino com minha tripla experiência de maternidade: euforia e assombro, cada vez que de mim saiu um ser humano, uma pessoazinha – e a cada vez pensei e disse em voz alta, sem querer: “Mais uma pessoa no mundo”.

Isso me impressiona e comove até hoje: cada um é uma pessoa, com sua personalidade, suas decisões, sua vida, sua morte. Pouco vou poder interferir. Procurar não estorvar já é difícil. Mas posso fazer com que saibam que, seja como for, onde, quando, a mãe vai estar sempre do seu lado, muitas vezes sem entender direito, muitas vezes desajeitada, muitas vezes impotente, mas, inteiramente, um colo, um abraço, e um amor que nenhuma palavra de nenhum idioma poderia definir.

domingo, 7 de maio de 2017



06 de maio de 2017 | N° 18838 
LYA LUFT

Inspiração

O que é inspiração, como lhe vem a inspiração...? – pergunta que persegue artistas criadores a vida inteira. Que músicas escuta para se inspirar? Que pessoas o inspiram? Cada escritor (falo do meu território) dará uma resposta diferente. Alguns precisam de silêncio, outros, de música, outros escrevem em qualquer parte, alguns ainda só na sua toca, seu escritório: mil maneiras de trabalhar.

Há quem diga que inspiração é bobagem, o que importa é a transpiração. Não é bem assim. Importa uma harmonia entre as duas coisas, pois, sem esse chafariz de ideias e emoções que se organiza quando escrevemos e acaba num romance, um conto, um poema, dificilmente se faz um bom trabalho.

Qualquer pessoa com alguma fantasia e bom conhecimento do seu português consegue fabricar um texto, até um livro. Mas arte não é assim, e possivelmente vai faltar a centelha que diferencia uma obra fabricada conforme os esquemas vigentes de uma obra de arte, por mais fraquinha que seja. Sim, obras de arte podem ter gradações de “bom, médio, ótimo, incrível”...

Não acredito também que artista tenha de sofrer para produzir. Em tempos muito difíceis de minha vida (sim, também os tive), passei seis anos sem escrever, só traduzindo. Pensei ter ficado afásica para sempre, e, como já tinha escrito vários livros, deduzi que a fonte tinha secado. E de repente, caminhando na beira da praia sem pensar em nada importante, voltou a história que eu tinha começado a fantasiar seis anos antes. Sem computador, sem máquina de escrever ali, corri para a papelaria, comprei canetas e papel em profusão e comecei a escrever feito desvairada. Voltando para casa, botei tudo no computador ou na máquina de escrever, não lembro, e publiquei A Sentinela, em 1994.

De onde vem, enfim, a tal inspiração? Cada caso é um caso, cada autor é um autor. Comigo, é como se tudo o que vivo, olho, sonho dormindo, sonho acordada, me contam, assisto, se depositasse em mim através dos anos, como aquela lamazinha no fundo de um aquário. Quando alguma coisa me toca especialmente (ou não), é como se mexessem com um lápis nessas águas tranquilas, e todo o depósito do fundo sobe à superfície: feita a inspiração, a história que estava meio pronta nas neblinas do inconsciente começa a emergir. Eu lhe dou nomes e formas, trabalho, escrevo e reescrevo, e com sorte tenho um texto.

Também quero dizer que, para ser escritor, coisa que me perguntam incessantemente, é preciso, primeiro, ler muito. Ler sempre. Segundo, dominar o mais possível o idioma, pois o bom escritor é como o cirurgião que sabe manejar o bisturi, conhece anatomia, a doença, e o resto. Ninguém escreve “de ouvido”. E atenção: português ou qualquer língua não se aprende decorando regras, mas lendo. Além disso, é bom abusar de simplicidade, paciência, humildade, autocrítica sem neurose, e usar dessa maravilhosa liberdade que o texto nos dá.

É difícil? É difícil. Porque, além disso, precisa de sorte, persistência, nada de ressentimento do tipo “ninguém se interessa por meu livro, ninguém quer me publicar”, pois quase todos nós levamos várias recusas, esperamos algum ou muito tempo para finalmente iniciar (iniciar...) o caminho dessa arte e dessa profissão que serão o chão por onde caminharemos, amados, criticados, abominados ou estimulados, pelo resto da nossa vida.



06 de maio de 2017 | N° 18838 
CARPINEJAR

Meu amigo de sunga


É um choque testemunhar o seu grande amigo na praia.

Agora posso dizer que ele é um grande amigo porque eu o vi de sunga.

Dividimos o vexame do despojamento do litoral.

Antes da praia, a amizade estava vestida para a missa. Depois da praia, duvido que existam maiores constrangimentos. É partilhar o confessionário honesto da idade e da condição física. Os pecados se despedem da carne.

Eu mal me concentrava na conversa. Só o olhava de cima a baixo, da barba ruiva aos chinelos havaianas:

– Será ele mesmo?

Eu o conhecia de óculos, jeans e camisa social, com a vestimenta sóbria de terapeuta. Sempre comedido, sempre respeitoso. Já gargalhamos em bares e restaurantes, na casa de um e de outro, só que nunca assim, com os cotovelos próximos no Juízo Final.

De repente, lá estava Mário Corso rindo e dividindo uma caipirinha com pedaço de pano nas partes íntimas, esgueirado numa cadeira no sol. Se ele estivesse fantasiado não seria igualmente extravagante. Nenhuma festa causaria tamanho transtorno. Nem se surgisse de Thor com um martelo de borracha.

Analisava a sua barriguinha tímida, a sua brancura, a sua mirada infinita ao oceano, as suas pausas de espuma, a forma pastosa em que se colocou protetor solar.

– Será ele mesmo?

Respondia apenas “aham” para me manter vivo nas palavras e distrair o foco de minha distração.

Nenhuma mulher de biquíni chamaria mais atenção do que o meu grande amigo de sunga. Tinha que adaptar a minha admiração. Alojar aquela imagem no álbum de família. Suportar a verdade exclusiva de um banho de mar.

Mas podia ser pior. A gente ainda não se encontrou de pijama.




06 de maio de 2017 | N° 18838 
MARTHA MEDEIROS
O novo tarado

Ele tinha o costume de escutá-la. Interessava-se pelo que ela dizia, sem interrompê-la. Pegava a mão dela enquanto caminhavam

As amigas alertaram: você não acha perigoso começar um relacionamento com um cara que surgiu do nada pelo Facebook? Ela ficou comovida com a preocupação e considerou: de onde surgem as pessoas que conhecemos num balcão de bar, numa parada de ônibus, na beira da praia? Do nada. É deste lugar incrível o nada que desembarcam em nossas vidas os colegas de trabalho, os parceiros de academia, os vizinhos e todas as pessoas que nos circundam há anos. Logo, é um lugar confiável, o nada. Da família, sim, é que podem surgir umas criaturas estranhas.

Marcou um café com ele, disposta a dar uma chance ao sujeito que não havia sido apresentado por nenhum amigo em comum, que não deu referência, carta de apresentação ou atestado de idoneidade. Crianças, não façam o que ela fez.

Porque já no primeiro encontro ele apareceu com uma flor na mão. Uma flor só, pequena, que deve ter catado no trajeto até o café, em algum jardim de edifício. Ela achou meigo, mas ficou ligada.

Começaram a namorar já na noite seguinte, depois do primeiro beijo que veio na sequência do primeiro jantar, se é que se pode chamar de jantar uma pizza marguerita pra dividir – mas que ele fez questão de pagar inteira.

Poucos dias depois, cama. Sem entrar em maiores detalhes: ela nunca se sentiu tão bem-tratada e tão maltratada, ambos no melhor dos sentidos – o que a confundiu.

Com a intimidade, vieram mais surpresas: um dia, ela estava deitada, sozinha em casa, lendo um livro antes de dormir, quando ele entrou no WhatsApp para dar boa noite e enviou um link de uma música do Joshua Redman, My One and Only Love. Sugeriu que ela escutasse enquanto aguardava o sono.

Ela não pregou o olho, assustada com tanta elegância. E, pra completar, de manhã ela foi acordada por um poema espetacular da Cecília Meirelles, um dos preferidos dele.

Ligou para as amigas e contou tudo. Elas responderam: “Nós avisamos”.

Foi quando ela começou a prestar mais atenção nos modos do namorado. Ele tinha o costume de escutá-la. Interessava-se pelo que ela dizia, sem interrompê-la. Pegava a mão dela enquanto caminhavam. Abria a porta traseira do Uber pra ela entrar, dava a volta no carro e entrava pelo outro lado (ela morria de medo que o motorista arrancasse sem esperá-lo). Ele fazia elogios frequentes. E declarações de amor. Não havia mais dúvida.

De tão empoderada, ela havia se emancipado até do seu romantismo e, ao deparar com aquele anormal vindo do nada, ela ficou certa de que estava lidando com uma nova espécie de tarado.

Dispensou-o rapidinho e foi atrás de algum homem que a tratasse de igual pra igual.

sábado, 29 de abril de 2017



29 de abril de 2017 | N° 18832 
CARPINEJAR

Vi e Mari

Sempre eu me espantava o tanto que os meus filhos cresceram. Nas roupas, nos gestos, nas tiradas, na defesa dos argumentos. Pasmo que o tempo vai nos empurrando para a frente e não traz nenhuma pausa para repetir as cócegas na barriga deles ou carregá-los na garupa durante os shows de música.

Vicente, 15 anos, ultrapassou a minha altura até então imponente na casa. Mariana, 22, decidiu corrigir meu português até então indefectível na casa. O pai idealizado vai sendo substituído pelo amigo humano, imperfeito e feito de falhas perdoáveis e cômicas.

Logo mais cederei o meu lugar na cabeceira da mesa. Naturais o crescimento e a crítica cada vez mais exigentes.

Como não existe como segurar a idade, o que noto em mim é uma metamorfose do olhar. Há uma inversão de minha mirada diante dos filhos. Como eles amadureceram rapidamente, deixo de procurar em suas feições os adultos que se tornaram para reaver as crianças que um dia foram. Cato e recolho agora resquícios da infância em suas atitudes.

Mudei minha expedição: não perseguir mais o futuro, e sim a pureza e a magia da criancice intactas em alguma de suas frases e expressões. Folheio em seus rostos o nosso velho álbum de fotografias. Não me interessa mais saber se são parecidos com o pai ou com a mãe, com o avô ou avó, o que importa é encontrar semelhança com eles mesmos de antigamente.

Minha luta é identificar o que mantém de quando eram crianças: talvez a curiosidade, ou a risada desbragada, ou a teimosia de dormir tarde ou a pressa de comer quando amam uma refeição.

Minhas pupilas têm pinças e espátulas para não estragar as asas das borboletas do jardim do Éden.

Todo pai, depois de ser um profeta, converte-se num arqueólogo. Não está centrado em adivinhar quem serão os seus filhos, dispõe a proteger a ternura dos laços primevos.

Eu me esforço em não esquecer o começo. Serei a retaguarda deles por toda a vida. Irei guardá-los quando precisarem recuperar as suas identidades.

Enquanto avançam, recuo nostalgicamente. Não estranho que voltei a adotar os apelidos que usava quando ainda trocavam as fraldas: Vi e Mari. Recorro à diminuição proposital de seus nomes para preservar o amor da filiação.

Assim como meus pais nunca mais me chamaram de Fabrício, porém de Bito. Para não esquecer que serei eternamente uma criança para quem me criou e educou. Maturidade é jamais negar a nossa origem.



29 de abril de 2017 | N° 18832 
MARTHA MEDEIROS

Apoteótico

Nada de traje passeio ou passeio completo. Era assim mesmo que estava escrito no convite: “Dress code: apoteótico”

Recebi convite para uma festa, mas não qualquer festa. O aniversariante era um dos ícones da cena cultural brasileira e o evento prometia parar a noite de São Paulo. Me dei conta do tamanho da encrenca quando li o dress code sugerido: apoteótico. Nada de traje passeio ou passeio completo. Era assim mesmo que estava escrito no convite: Dress code: apoteótico.

Nem o descolado guia da Mauren Motta, Socorro! Com que Roupa Eu Vou? havia me preparado para esse desafio. O que seria uma roupa apoteótica? Teria que fazer uma busca no closet da Claudia Raia? Apelar para alguma rainha de bateria? Cheguei a pensar que um jeans rasgado e uma camiseta branca poderia causar um efeito triunfal às avessas, e já estava quase levando essa ideia a cabo quando minha mãe me mostrou uma foto da minha festa de 15 anos, em que aparecíamos abraçadas. Ela perguntou: o que você acha deste vestido?

Pânico. Até então sua atividade cerebral andava perfeita, como poderia ter degringolado tão rapidamente?

“Mãe, você está sugerindo que eu vá com o meu vestido de 15 anos?”

Ela: “Martha, você não guarda nem o recibo da conta de luz, acha mesmo que eu acreditaria que guarda um vestido que usou aos 15 anos? E mesmo que guardasse, ele hoje estaria completamente amarelado e com mais rombos do que esse jeans destruído que você não tira do corpo”.

Ufa. Atividade cerebral em pleno funcionamento.

“Estou perguntando sobre o meu vestido, Martha, o meu!”

Minha mãe guarda não só todos os recibos da conta de luz desde que Thomas Edison inventou a lâmpada, como tudo o que tiver valor afetivo, e pra ela tudo tem – incluindo roupas que inexplicavelmente não amarelam e não são devoradas por traças. Olhei bem dentro dos seus olhos a fim de detectar algum prenúncio de loucura, mas ela continuou me encarando como se estivesse em seu juízo perfeito.

Na festa havia mulheres deslumbrantes vestidas com muito brilho (uma inclusive com lampadinhas acesas por baixo de uma saia de tule – medo!), outras vestindo quase nada, algumas com roupas de princesa, outras fantasiadas de personagens que não conheço e adivinhe quem roubou a cena? Claudia Raia, claro. Poderosa numa túnica longa de tecido dourado reluzente e com um capuz misterioso na cabeça, de um glamour a toda prova.

Eu fui com o vestido preto que minha mãe usou na minha festa de debutante – há exatos 40 anos. Segui a tendência de Hollywood: moda sustentável, elegância vintage, espírito retrô – só a cara de pau ainda estava com a etiqueta. Apoteose? Temos.



29 de abril de 2017 | N° 18832 
LYA LUFT

Intimidades

Quando menina, acreditei no Papai Noel até uns seis anos, no Coelho da Páscoa, mais ou menos isso, e na cegonha, até uns oito. Eram outro século, outras gentes, outras ideias e outras vidas. Além disso, sempre fui considerada meio pateta e desligada para esses assuntos. Até que um dia, num grupinho de amigas de oito e nove anos, do qual eu era a maior e mais novinha – e não me deixavam entrar em certos segredos –, alguém perguntou se era possível que eu ainda acreditasse na cegonha.

Não sei o que respondi, mas fiquei muitíssimo humilhada, ainda sinto vermelhos rosto e orelhas, e claro que as outras começaram a rir. A mais velha, gravemente, disse: “Então eu vou te ensinar”. A plateia fez um círculo, atentíssima. Gelei, entre curiosa e amedrontada. Ali vinha algo muito inquietante, e eu por qualquer bobagem me inquietava.

A história, grotesca, para mim então assustadora, era mais ou menos isto: “Os nenês são miudinhos assim, do tamanho de um grão de feijão, e estão na barriga do pai. Um dia, o pai os passa pra barriga da mãe por uma borrachinha, e depois de uns meses a gente nasce”. Fui poupada do detalhe da dor ou de abrirem a barriga com uma faca, mas mesmo assim passei dias imaginando, entre comovida a aterrada, os bebezinhos minúsculos passando pela tal borrachinha, e em que circunstâncias isso se daria.

Não acho que as coisas hoje sejam piores do que nossa ignorância de então. Mas comentários sobre sexo “fluido”, isto é, sem gênero específico, entre pré-adolescentes, além de beijo rolando à solta, e o comentário de um menino, “Ué, a senhora nunca ouviu falar em sexo casual?”, numa festinha outro dia, me fizeram pensar. Não fiquei muito espantada, mas mesmo assim depois ri de mim mesma: também, o que poderia esperar de quem acreditou na cegonha até os oito?

Acho bom sermos naturais e sinceros. Detesto hipocrisia e falso moralismo. É bom sermos instruídos e não abobados. Mas me preocupa um pouco esse sexo fluido ou casual entre jovenzinhos. Sei que não são todos, talvez nem a maioria, quem sabe ainda se preserva alguma coisa de mágico, romântico, como sexo com alguém muito especial – coisa que nem acho ridícula, nem ultrapassada, mas humana, madura, e bela. 

Lógico que sou antiquada. Minha adolescência foi há décadas atrás. Mas não fiquei com a alma enrijecida. Amo e prego a liberdade, que seja com cuidado. Com gentileza, com alguma sabedoria, pois, mesmo – ou especialmente – quando adolescentes, não somos obtusos.

As delícias e sustos do namoro, do amor, da paixão, do sexo com paixão, ternura e alegria, a graça de ver alguma graça em tudo o que implica relações humanas amorosas, mesmo em idade precoce comparando a anos atrás, tudo isso não deveria se perder. Há muita bazófia entre jovenzinhos: “Eu já transei, eu já beijei, já fiquei. Beijei quinze meninas ontem à noite, fiquei com seis rapazes ontem à tarde”. O que significa isso? 

Que sentimos carinho, encantamento, ou mesmo êxtase, com uma porção de parceiros e parceirinhas? Ou é uma moda, uma espécie de obrigação, que mais se finge e se fala do que de verdade se pratica? Não sei. Pouco sabemos uns dos outros. Mas, no fundo mais fundo, queria que algo se preservasse de íntimo na intimidade das gentes.

sexta-feira, 28 de abril de 2017


Jaime Cimenti

Gaivotas no triplex do Guarujá 

Antigamente, as gaivotas viviam tranquilamente entre as areias e as ondas do Guarujá, sem preocupações, comendo, voando, sentindo os dias, as noites, o sol, a chuva e as estrelas passarem naturalmente, aguardando, sem medo, a hora de desencarnar.

Aí então alguns líderes do grupo das gaivotas do Guarujá descobriram que havia um triplex desocupado, à beira-mar, e resolveram dar um voo alto e se instalar no terraço do apartamento. Não sabiam de nada sobre o local e foram permanecendo. Gaivotas são pacíficas, democratas, simples e não aspiram muito.

Para elas, viver, comer, dormir, saber voar e apreciar a natureza bastam. A não ser para o Fernão Capelo Gaivota, do livro célebre do Richard Bach, que resolveu inovar, voar mais alto e diferente e transformar a vida do seu clã. Mas isso é outra história, outra ficção.

As gaivotas do Guarujá sabem, meio por cima, das questões que envolvem o famoso triplex e aguardam, serenamente, que as coisas se decidam. No início, nem se preocupavam com o assunto, depois resolveram acompanhar os fatos e as notícias. Gaivotas não se preocupam com papéis, compras, shoppings, consumo, competição e outras modernidades dos humanos. Elas simplesmente vivem, voam e sobrevoam, desde nem sabem quando e até quando também não sabem. Não estão preocupadas com fim de mundo, distopias, utopias e outras considerações demasiado humanas para elas.

Mas no mundo as coisas mudam, evoluem. Na vida, na ciência e na arte, a coisa é assim meio tipo infinita, todo mundo sabe. Há quem diga que o bando de gaivotas do Guarujá está usando redes sociais e se comunicando com gaivotas de todo o País e até do exterior para uma realizar uma grande assembleia à beira-mar e pensar na realização de ações com vistas às reformas e mudanças necessárias.

Disseram que algumas gaivotas pensam em escolher novos líderes, se envolver com a realidade, dar uma renovada em velhos hábitos do mundo. Outros dizem que as aves chegaram a pensar numa revoada de milhares, milhões, em direção às sedes dos poderes para protestos, ocupações, bicadas e bombas de "napalm" intestinal nas cabeças dos poderosos e cobrança de novas atitudes. Há quem diga que isso tudo é ficção, fruto da imaginação de algum poeta ou escritor delirante ou devaneador.

Por enquanto, as gaivotas tomam sol, dormem e acordam no terraço do triplex. Se afastam para uns voos, pegar uma praia e buscar alimento. Algumas gaivotas mais experientes dizem que o futuro a Deus pertence, que é preciso ter calma, esperar pelo melhor. Outras, especialmente as mais jovens, estão impacientes pelas definições e assim, em meio ao choque de gerações, la nave vá. O gaivota professor-doutor Sócrates Tropical de Oliveira lembrou do filme Os pássaros, de Alfred Hitchcock, e espera que, se algo acontecer, não haja violência como no filme, mas lembra que uma união de aves revolucionárias pode trazer consequências imprevisíveis. a propósito...

Há quem diga que alguns líderes dos poderes, preocupados, estão pensando em conversar com o grupo de gaivotas para troca de ideias e entendimento em relação ao futuro. Não se sabe ao certo quem são os líderes, se realmente vai ocorrer a reunião e muito menos o local e a data. Não se sabe ao certo a pauta da reunião, mas todos sabem que essas conversas e mudanças são lentas, que é preciso calma, clareza, esperança e boa vontade. Uns dizem que isso tudo é produto da cabeça de algum sonhador.

O tempo, sempre o senhor da razão e de outras muitas coisas, dirá. Não se sabe o prazo. Mas as gaivotas, dizem, estão olhando para seus cronômetros, tipo árbitro de futebol no início do jogo.  - Jornal do Comércio

(http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/04/colunas/livros/559106-elogio-filosofico-e-literario-do-sexo.html)

Jaime Cimenti

Elogio filosófico e literário do sexo A profundidade dos sexos 

(É Realizações, 264 páginas, R$ 59,90), do professor de filosofia e literatura Fabrice Hadjadj é, antes e acima de tudo, um elogio filosófico-literário à prática sexual, que encontra seu fundamento em um local onde menos se espera: na teologia cristã. Hadjadj colabora com o jornal Figaro Littéraire e dirige o Philantropos, instituto de estudos em Antropologia sediado na Suíça.

Casado, pai de seis filhos, de formação judaica e ascendência árabe, nasceu em 1971 na França, filho de revolucionários maoístas. Foi ateu na juventude e depois converteu-se ao catolicismo.

Recebeu inúmeros prêmios importantes, como o Grande Prêmio Católico de Literatura e o Espiritualidades de Hoje. Intelectual público, tem protagonizado debates com escritores do porte de Michel Houllebecq, a crítica Catherine Millet e o matemático Laurent Lafforgue. O tema sexo é dos mais comentados de todos os tempos. Hadjadj lhe reserva um olhar especial, profundo, que recupera e descobre aspectos escondidos, relações inusitadas e comparações surpreendentes.

O autor mostra a íntima associação do sexo com o cristianismo ou o catolicismo, desbravando e jogando por terra argumentos moralistas. Ele eleva o sexo a uma espécie de prece, de consagração, mostrando que a religião contém o sexo e este precisa do caminho daquela para chegar ao patamar do sublime.

Com elegância e humor, fala de dignidade do corpo e da beleza do amor, do senso do prazer, do dom e da vida conjugal, sem discursos estereotipados nem fingimentos. Cântico dos Cânticos, Homero, Baudelaire, Sade, Nietzsche, Foucault, Pasolini e Bataille aparecem nos textos, para apoiar a tese de que o sexo está no âmago da salvação do homem. Para o autor, o ato carnal não é essencialmente prazer, mas comunhão de duas pessoas e deve buscar equilíbrio entre prazer e dor.

O que moveu Hadjadj é a convicção de que prazer e significado são mesmo indissociáveis e só podem ser plenamente explorados pela síntese aparentemente paradoxal de uma "mística da carne". E não se trata de uma intromissão da teologia em um assunto em si mesmo mundano: o problema é, precisamente, que o sexo foi tornado etéreo, informe, desprovido de peso propriamente corporal.

A cibernética o tornou robótico, virtual. Psicanálise e sociologia transformaram-no em "sexualidade" e algo longe do toque. Como se vê, mais uma contribuição relevante para o eterno e milenar debate sobre um dos grandes temas da humanidade.

De quebra, uma bela crítica do hedonismo, uma busca de entendimento e equilíbrio.


lançamentos 


Dieta dos Casais (Sextante, 224 páginas), da conhecida nutricionista e proprietária de clínicas Patricia Davidson Haiat, traz um plano completo para emagrecer a dois, com saúde, baseado em princípios da nutrição funcional.

No instagram.com/patriciadavidsonhaiat ela tem mais de 300 mil seguidores. Espero por você (Novo Conceito, 382 páginas, tradução de Leonardo Gomes Castilhone) de Jennifer L. Armentrout, traz a jovem Avery fugindo de casa para buscar calma na faculdade, longe de acontecimentos fatídicos.

Lá está Cameron, olhos azuis, perigoso, mas que leva Avery a mudar de pensamentos. Contos contemporâneos (AGE Editora, 176 p.) são contos de Alda Paulina Borges, Amauri A Confortin, Clarissa Mazon, Cris Romagna, Fernanda Martins, Ione Russo, Lígia Messina, Luciana Zart, Lucio Feliciare Maria Codorniz, Maria Forneck, Nara Nubia Pereira, Roque Palermo e Sonia Ferreira, da oficina literária de Alcy Cheuiche. - Jornal do Comércio

(http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/04/colunas/livros/559106-elogio-filosofico-e-literario-do-sexo.html)

quarta-feira, 26 de abril de 2017



26 de abril de 2017 | N° 18829 
MARTHA MEDEIROS

Oásis

Os desertos me atraem. O silêncio absoluto em meio a um universo infinito. Nenhuma ansiedade, apenas o contato profundo consigo mesmo.

Vivo no oposto de um deserto, numa urbe habitada por muita gente, sonorizada por buzinas e freadas. Uma cidade que, como outras, induz a um comportamento automático e racional: trabalhar para ganhar meu sustento, trazer comida pra casa, combater meu sedentarismo com atividades físicas, socializar com meus pares, me informar sobre o que acontece no mundo, compartilhar minha opinião nas redes sociais, cuidar da minha saúde e da minha aparência. Nada disso é um castigo, mas toma todo o meu dia e, quando dou por mim, é hora de ir para a cama e dormir.

Algumas pessoas meditam, outras rezam, outras ainda se refugiam num bom livro – as escapatórias necessárias, uma volta para dentro de si, aquele momento chamado “seu”, fundamental.

Tenho os meus, e hoje em dia eles têm acontecido com mais regularidade dentro de uma sala de cinema. Nem Netflix, nem Now, nem DVD, nada se compara ao deslocamento físico e à introspecção buscada: ainda não abro mão do ritual do ingresso, assento, luzes apagadas, foco. É onde todos os meus instintos afloram (inclusive os assassinos: se você também não suporta quem faz barulho com sacos de balas e pipocas, testemunhe a meu favor caso eu vá a julgamento).

Nesta semana, assisti a Paterson, de um dos meus cineastas prediletos, Jim Jarmusch. Nada mais precário que um resumo de filme em três linhas, mas é sobre um motorista de ônibus que todos os dias, após o trabalho, leva seu cachorro pra passear pelo mesmo trajeto, toma uma cerveja no mesmo bar e volta para os braços da sua linda e mesma esposa, dormindo o sono dos justos – entrementes, escreve poemas num caderninho.

Só isso. Tudo isso.

Por tudo, entenda-se: todo dia repetitivo é também um novo dia. É preciso delicadeza na prática de qualquer convivência. Há poesia no cotidiano. Carinho também é amor. Ninguém é igual aos outros e ninguém é muito diferente dos outros. O que nos comove está sempre no subtexto.

Paterson é um oásis neste deserto às avessas, em que vivemos em meio a muito barulho sem sentimento, muito movimento sem pausa, muita relação sem entrega. Um momento seu para extrair de dentro da alma. Esta mesma alma que me escapa agora pela ponta dos dedos.

sábado, 15 de abril de 2017



15 de abril de 2017 | N° 18820 
CARPINEJAR

Esporte peculiar

A mulher transforma a decadência do homem em esporte. Poderia ter uma Olimpíada toda particular para modalidades inusitadas pelas mãos femininas.

Dividiria em três grandes competições, um triatlo doméstico: espremer espinhas, catar pelos brancos e varrer as orelhas. Nenhuma mulher resiste a escarafunchar as vergonhas de seus parceiros. O que eles gostariam de esconder, elas têm um sádico orgulho de mexer.

Se fico de costas na cama, relaxado, sem camisa, lendo um livro, a minha esposa, disfarçada de carinho, logo insinua uma massagem nos ombros, mas está carregada do maquiavélico interesse para estourar as minhas espinhas. E é um vicio, explode uma, ri satisfeita da competência do trabalho e já parte para a próxima, não consegue parar, não escuta a sinceridade de minha recusa, entra na fixação infantil do plástico-bolha, apenas sairá dali carregada por seguranças.

Se fico de frente na cama, lendo a mesma página pela enésima vez, a minha esposa avança com a cabeça para derrubar a obra e encaixar a cabeça no colo. Acho fofo e deixo, não há como se defender de ronronadas. Mas é só me distrair que – ui! – ela começa a arrancar seletos pelos grisalhos de meu peito. Encontra um, endoidece para rastrear outros e não para mais, como uma pac-woman comendo pastilhas, apenas sairá dali engolida pelos fantasmas.

Se deito de lado, para recomeçar o livro empacado há semanas, a minha esposa se aproxima, absolutamente dengosa, e sopra juras eternas. Seguro o arrepio e me sinto o homem mais feliz do mundo. É bobear que ela está com a lanterna do celular consultando o meu canal auricular, com claras pretensões de tímpano. Verifica uma sujeirinha e se anima a cutucar, e não para mais, apenas sairá dali com uma diploma de medicina.

É óbvio que desisto de ler deitado, mas agora unicamente sentado, de preferência em uma poltrona sem encosto.

Nenhuma guerra, nenhuma discussão será capaz de cancelar a competição. Sua curiosidade cresce com a resistência. As medalhas de minha mulher são feitas de meu sorriso amarelo.


15 de abril de 2017 | N° 18820 
MARTHA MEDEIROS

Vampirismo

Para o bem e para o mal, tudo o que o artista sente é processado e traduzido de alguma forma para as obras que cria. Sorte da plateia

Outro dia uma pessoa me perguntou: você vampiriza as pessoas que conhece para escrever seus textos?

Vampirizar é um verbo ao mesmo tempo charmoso, por invocar algo cinematográfico, e nefasto, pelo seu potencial destruidor. Não me soou bem, parecia que eu era um personagem de filme noir, uma maquiavélica toda vestida de preto, sedutora, disposta a arrancar o sangue dos meus interlocutores e devolvê-los à rua feito zumbis, ocos por dentro.

Disse a ela: claro que tudo o que escuto aqui ou ali me serve de inspiração, a vida é minha matéria-prima, e não vivo isolada, minhas emoções são provocadas por gente com quem me relaciono e elas acabam incluídas no meu repertório criativo, mas...

Ah, o mas. Mas não exponho ninguém de forma maldosa, narro as situações com alguns acréscimos fictícios, não entrego nomes nem detalhes identificáveis – respeito a discrição alheia, e a minha, inclusive.

A não ser que seja um elogio público, aí quem não gosta de ser citado?

Lembro uma entrevista de uma importante compositora e cantora. O entrevistador perguntou se ela já havia transado com alguém só para extrair da transa uma música. Ela respondeu que não, mas que era inevitável que as coisas se misturassem, e contou que certa vez estava saindo com um cafajeste e ligou para uma amiga dizendo: “Ele foi embora! Ele me deixou!”. A amiga interrompeu e perguntou: “Quantas canções?”. A cantora respondeu: “Não fale assim, ele me deixou, isso é horrível!”. A amiga insistiu: “Quantas canções?”. A cantora respondeu: “Três”. A amiga: “Ótimo, nós amamos esse cara”.

É isso. Para o bem e para o mal, tudo o que o artista sente é processado e traduzido de alguma forma para as obras que cria. Sorte da plateia.

Nós amamos todas as garotas que fizeram os Beatles comporem She Loves You, I Want to Hold Your Hand e Oh, Darling. Todos os homens que piraram Tina Turner e Janis Joplin. Todos os pais opressivos de rebeldes que fugiram de casa e transformaram sua errância em acordes de guitarra. Todos os amigos que traíram Eric Clapton, todas as amantes de Mick Jagger, todos os sanguessugas com quem Billie Holiday e Amy Winehouse se meteram, todos os desalmados que fizeram Cazuza e Renato Russo atravessarem madrugadas curtindo uma fossa e rabiscando versos em guardanapos. Sem falar nos quadros, filmes e livros que nasceram de desavenças familiares, vinganças entre guetos, distúrbios emocionais inspirados por mães indiferentes.

Não há autor que não se abasteça da própria experiência e exorcize sua dor com o seu talento. Se isso é vampirismo, só nos resta erguer um altar para quem entrou com o pescoço.



15 de abril de 2017 | N° 18820 
LYA LUFT

Celebrações

Tem a deliciosa história do velho monge medieval que pediu ao mongezinho que o ajudasse a ir até o fundo da imensa biblioteca, pois tinha dificuldade em andar sozinho. Lá chegando, o velho dispensou o moço, dizendo que ia ficar ali pesquisando algo muito importante. Quando precisasse, daria um grito para que o jovem monge, no outro extremo da biblioteca, retornasse. Mas passaram-se duas horas e nada do chamado, de modo que, timidamente, o mongezinho voltou ao fundo da biblioteca, onde encontrou o velhinho batendo a cabeça na parede. “Irmão, o que foi?”. “Descobri, só aos 90 anos de idade, que a palavra não era ‘celibato’, mas ‘celebração’”. (Em inglês, língua original em que me contaram a história, fica melhor: celibate versus celebrate).

Com todo o respeito, sempre que lembro da fábula, eu me divirto enternecidamente. Lembrei dela nesta semana de celebração, pensando em quantos de nós ainda param para pensar de verdade na Sexta-Feira Santa, que significava tristeza, luto, quase jejum, só água e peixe para os mais crentes. Para os menos ou nada crentes, era dia de bolinhos de bacalhau desmanchando na boca, reunião da família. (Os mais atrevidos preparavam no quintal uma carninha assada, para mal-estar de muitos). 

Na minha remota infância, numa família luterana, a Sexta-Feira Santa era, sob comando de minha avó paterna, a devota avó Olga, amada por todos nós, um dia de luto. Não devíamos falar alto, correr, brincar – a não ser quietinhos. Comer pouco (criança um pouquinho mais) e nada que de longe lembrasse carne: nem presunto, nem salsicha, nem galinha. Só um discreto peixe. Sob o olhar de reprovação dela, meu pai ordenava aquela bacalhoada que todos comiam, reverentes.

“Por que a gente tem de ficar triste hoje, vovó?”. “Porque é o dia em que Jesus Cristo morreu. E no domingo a gente festeja, porque ele ressuscitou”. Meu pai, interrogado sobre esses assuntos, respondia diplomaticamente “Vai falar com sua avó”. Cedo aprendi que algumas coisas era melhor não questionar (em geral, mesmo assim eu insistia).

Talvez a gente devesse celebrar mais, em lugar de estarmos sempre nos queixando. Além de Natal, aniversários, casamentos, formaturas, celebrar, por exemplo, de repente a família estar reunida, ou termos encontrado velhos conhecidos. Celebrar, lá no fundo do coração, o fato que parece tão corriqueiro – e não é –, como acordar saudáveis, vidinha meio organizada, manhã ensolarada, ou, para os que preferem como eu, o fantástico rumor da chuva. 

Celebrar que os amados estão bem, ou razoavelmente bem, apesar das inseguranças no mundo e dos espantosos fatos por aqui. Celebrar a orquídea do ano passado que deu outra vez flores lindas! Celebrar que amigos queridos continuam nossos amigos, então eram amizades verdadeiras.

Celebrar um belíssimo livro que estamos lendo, uma música sublime (sim, música pode ser sublime), ou as paineiras em flor que se espalham logo ali sobre as outras árvores feito sorvete de morango derretendo neste calor. Celebrar sem grandes luxos, apenas respirando fundo e sentindo-nos bem. Há quem de vez em quando abra sem avisar um espumante com a família para celebrar: “O que a gente está celebrando hoje?”. “Nada, ora”.

Então celebremos: a Páscoa, as amizades fiéis, os amores bons, a saúde, o sol, a chuva, o trabalho, ou simplesmente, no meio de toda a confusão, a claridade de alguma esperança.

quarta-feira, 12 de abril de 2017



12 de abril de 2017 | N° 18817 
CARPINEJAR

Cheiro de bergamota pela casa


O amor chega de mansinho, não faz alarde, não quer nem falar alto para não acordar o coração de seu dono. Sai de nosso corpo a paixão gritona, barraqueira e escandalosa e o amor ocupa o seu lugar, respeitoso e suave, com cheiro de amizade eterna. É uma mudança total de inquilino na alma.

A paixão tinha modos de adolescente: arfava rebeldia e egoísmo, pedia pressa e urgência, riscos e aventura. Já aparece, de repente, de sua luz angustiada, a sombra do amor, um senhor de idade, cortês, com a sabedoria da paciência, não cobrando qualquer falta.

A paixão não ficava em casa, comia sempre fora, aparecia somente para trocar de roupa, viajava e gastava loucamente o que não tinha. Entra na pele um sentimento distinto, caseiro, disposto a maratonas de séries e filmes na cama, interessado em comprar panelas e almofadas, atento ao mundo e aos amigos de novo.

A paixão, antes selvageria, é substituída pela delicadeza do amor. É como o fim de um feitiço e o início de uma longa serenidade de aceitação e presteza. Na paixão, todo mundo se acha imortal. O amor é a mortalidade que se aproxima e o desejo secreto de envelhecer junto.

Instaura-se no temperamento um tempo de ternura. O amor surge do nada num suspiro na mesa ou numa chuva martelando a janela.

Você olha a sua namorada ou o seu namorado com uma tranquilidade que nunca existiu na vida, com uma certeza que nunca aconteceu. Conhece uma confiança de laço e percebe que quando dizia eu te amo ainda não era um eu te amo, era uma vontade de amar, e que agora desafia a rajada de vento para pronunciar o primeiro autêntico eu te amo. E a outra pessoa, acostumada a ouvir o eu te amo, não entende que é um inédito eu te amo e não nota diferença nenhuma e você terá que, portanto, repetir com toda a força para que ela acredite.

E não entregará um buquê de flores para celebrar o momento, não puxará uma joia de uma bandeja de veludo, os cuidados tornam-se discretos e constantes.

Pegará uma tangerina da cesta da cozinha e, em vez de pensar em si primeiro, será tocado por uma esquisita generosidade.

Oferecerá a fruta, como se fosse recém colhida da árvore:

– Quer que eu descasque?

Diante do sim, tirará a casca lentamente com os dedos e entregará gomo por gomo na boca de quem finalmente ama.

Só o amor pode ser sublime na banalidade e não se intimidar com o cheiro de bergamota nas mãos.

David Coimbra está em férias. Neste período, irão substituí-lo Marcos Piangers, Fabrício Carpinejar, Nílson Souza, Cláudia Laitano e Humberto Trezzi.



12 de abril de 2017 | N° 18817 
MARTHA MEDEIROS

Educando para o medo

Era meia-noite e quinze e minha filha de 25 anos, funcionária de um restaurante, voltava do trabalho a pé para casa. Caminhava sozinha por ruas escuras e pacatas, enquanto conversava comigo pelo WhatsApp. Segurando o telefone com uma das mãos e teclando com a outra, contava como tinha sido seu dia e, cansada, comentava que não via a hora de chegar em casa, tomar um banho e ir para a cama.

Você pode imaginar o que aconteceu.

Eu conto. Aconteceu que ela chegou diante do seu prédio, atravessou o gramado aberto que o separa da calçada, subiu um lance de escada, abriu a porta do apartamento, entrou, tomou um banho e foi descansar. Nem poderia ser diferente, sendo ela moradora de uma pequena cidade da Nova Zelândia, país que tem uma das menores taxas de criminalidade do mundo.

Enquanto trocávamos mensagens, eu imaginava essa cena acontecendo em Porto Alegre ou em qualquer cidade do Brasil. Uma filha de 25 anos caminhando sozinha à meia-noite por ruas desertas, e ainda dando bandeira com um celular na mão: qualquer pai ou mãe ficaria com o coração aos pulos. É como está o meu, agora que ela iniciou um trajeto bem mais perigoso: está a caminho do Brasil, onde voltará a morar por uns tempos.

Eduquei minhas filhas para correrem atrás de seus sonhos, para terem coragem, para permitirem-se o melhor que existe, sabendo que a palavra “melhor” tem significados distintos para cada uma delas. Para a Julia, sempre significou independência, liberdade, emoção. Depois de formada, tirou um ano sabático para viver às próprias custas, viajar, conhecer pessoas, ter novas experiências. 

E que experiências: morou em cima de uma montanha a dois passos de um vulcão, nadou ao lado de tubarões, pegou carona em estradas, passou cinco meses numa comunidade com outros 16 estrangeiros e agora retorna para os braços da família, dos amigos e de um país que não costuma ser muito cordial com pessoas destemidas.

Além de cobri-la de beijos e carinhos, como recepcionarei minha filha que há 14 meses tem seus direitos de cidadã respeitados, sem precisar preocupar-se com os riscos urbanos? Por amor, terei que lembrá-la de fechar os vidros do carro, não circular por regiões isoladas, não deixar equipamentos de valor à vista, ficar atenta à movimentação em volta, ter cuidado ao carregar sua bolsa e demais atitudes que são meramente paliativas, mas necessárias.

Deveríamos educar para a confiança, mas vivemos dias tão surreais, que terei que reeducar minha filha para o medo.

sábado, 8 de abril de 2017



08 de abril de 2017 | N° 18814 
CARPINEJAR

Injustiça no lar

Você lava a roupa, estende, arruma as camas, ajeita os ambientes progressivamente dos quartos à sala, esfrega os banheiros, desmonta a bagunça generalizada, cozinha, limpa as panelas e a louça, seca e guarda os pratos, recompõe as prateleiras, varre, encera o chão, deixa o universo brilhando, lustroso, para não ser festejado.

Dedicou quatro horas do seu dia para absolutamente nada. Executou um cronograma rígido e hierárquico de faxina (uma tarefa de cada vez), cuidando para que sobrasse tempo para sair ao serviço, e não ganhará, ao final, um mísero “muito obrigado”.

Foi uma trabalheira inútil e anônima. Conheceu a essência da injustiça, que nasce da sobrecarga do lar. Como repetirá a rotina na manhã seguinte, estará escravizado pela sua disposição e força de vontade.

Não será admirado, não será elogiado, não receberá cafuné e salva de palmas. E, o mais grave, você que está errado. Pois não havia necessidade, ninguém pediu para que fizesse coisa alguma. Você fez porque quis, porque não conseguiu esperar. A casa se arrumaria sobrenaturalmente, comandado pela sombrinha e espírito da Mary Poppins. Antecipou-se de modo egoísta, por absoluto capricho.

O que incomoda é que, além da completa ausência de reconhecimento e recompensa, você ainda terá o estigma de doente. Acabará mal falado. Sofrerá bullying da família inteira. Todos dirão que é um neurótico, um maníaco por limpeza. E que deveria procurar tratamento terapêutico, já que jamais sossega.

Nas conversas com amigos, não escutará de sua esposa ou de seu marido que é um exemplo maravilhoso, que cuida de tudo e sempre facilita a vida. Ouvirá, por sua vez, que é autoritário, impositivo e não oferece chance para qualquer um demonstrar a sua boa vontade.

Os preguiçosos são tão preguiçosos que não cuidam nem de sua culpa e repassam a responsabilidade adiante. Esquecem que não há empregada doméstica para cumprir o serviço, esquecem que o descanso não vem primeiro do que o trabalho, mas depois, resultado e glória da ordem.

É como revivêssemos a crença da teoria da geração espontânea, que vigorou até meados do século 19. Rãs, cobras e crocodilos eram gerados a partir do lodo dos rios, assim o fogão, a pia e a geladeira ressurgem limpas de nosso abandono.

Não entendo como ocorreu a inversão. Limpeza hoje é doença, sujeira é independência. Limpeza é tirania, sujeira é democracia. Limpeza é invasão da intimidade, sujeira é respeitar a liberdade do próximo.

Aqueles que se dedicam a cuidar da casa e da criação dos filhos, simultaneamente ao seu emprego, são identificados como ansiosos. Matam-se de trabalhar e ainda aguentam o questionamento perverso de sua reputação.

Os preguiçosos nunca dão o braço a torcer. Nem os braços são torcidos nos baldes da gentileza.