sábado, 10 de junho de 2017



10 de junho de 2017 | N° 18868 
ARTIGO - Lya Luft

O diabinho no ombro

Outro dia, dei a uma amiga, de presente de aniversário, uma caixinha marchetada de madrepérola, que comprei há muitos anos, talvez na Espanha. Por que não comprei algo novo para lhe dar, amiga antiga e querida que é? Talvez por isso mesmo: dei uma coisa que aprecio muito, que trago comigo há longos anos, onde eu poderia guardar um anel, até cartãozinho carinhoso mandado por alguém – mas estava vazia. Gosto de às vezes passar para alguém especial algo meu, especial. Tenho algumas caixinhas, pequenos potes, que exponho pela beleza ou pelo que significam. Nem todos estão ocupados: alguns, como a caixinha que dei para minha amiga, servem apenas para guardar belos momentos.

“Como se faz isso?”, me perguntou outro dia ironicamente alguém que gosta de mim, mas implica com meus romantismos. “Não sei direito”, respondi, “sei que olho para eles e ali estão guardadas memórias de momentos luminosos”. “Coisa da sua imaginação exagerada e romântica”. “Bem”, respondi como tantas vezes, “a imaginação paga minhas contas, me faz trabalhar”.

O mundo, a vida, nos oferecem uma sucessão de glória e danação, de alegrias e dores, de coisas medíocres ou gloriosas, tédio ou entusiasmo. A vida é assim, e pronto. Só que nós tendemos a prestar especial atenção ao ruim, escandaloso, doloroso, à desgraça, por exemplo, de um vendaval que mata pessoas que dormiam em suas camas, destrói centenas de lares, de plantações, de sonhos e duros esforços. 

Queremos saber como acabou afinal uma eleição num país estrangeiro, que poderia causar uma reviravolta em alguns aspectos deste mundo. Como foi o depoimento de um importante e digno figurão americano que talvez derrube o presidente? Quantos mortos no novo assassinato de dezenas de inocentes por um homem-bomba, cujo desejo de destruir não entendo nem quero entender?

Confesso que, embora mantendo-o sob certo controle, trago sentado no ombro um diabinho que faz careta e sussurra no meu ouvido: “Ainda bem que foi longe, que não foram seus filhos, netos, você mesma, seu marido. Sua casa ficou poupada”. Sentimentos quase inconscientes, mas nada louváveis. Enfim. Não somos boa coisa, em geral. Prefiro acumular lembranças felizes em minhas caixas e potinhos que parecem vazios.

O mal fascina? O abismo atrai? O medo nos faz espiar atrás da porta apesar de tudo, e nos leva a olhar para trás, para ver se estamos sendo seguidos por uma sombra, uma pessoa? Nestes tempos, alias, é de bom alvitre... O diabinho no ombro, entre outras loucuras e maldades, às vezes nos inspira a curtir inconscientemente mais os horrores. 

Não que a gente goste, aprove, não sinta compaixão, raiva e desejo de evitar tudo aquilo: é uma espécie de frenesi interno que faz com que à beira da estrada os carros parem para ver um acidente – ainda que polícia e bombeiros já estejam ajudando –, faz com que muitos deem risada quando alguém tropeça e cai (detesto isso) ou aprecie filmes violentos onde o sangue jorra e espirram os miolos.

Todos somos muitos, eu sei: somos o bom e o mau. A natureza, que tanto nos maltratou nestes dias, é assim também. Uma amiga minha costumava dizer: “A natureza é bela e cruel. Sublime, só Mozart”. Então, nesta manhã em que depois de tanta sombra o sol se esforça por abrir frestas nas nuvens, xô, diabinho.



10 de junho de 2017 | N° 18868 
MARTHA MEDEIROS

O AMOR

Que seja celebrado esse 12 de junho pelo motivo mais que suficiente de o amor ser o responsável por todo esse admirável esforço de tentarmos merecê-lo

É ele o protagonista da semana, o amor, e não os bandidos da nação. Esqueçamos por um momento este Brasil infiel com quem temos feito longas DRs. Ao menos nesta segunda-feira, o amor estará em alta, mesmo que alguns acreditem que ele tenha morrido.

Morrer como? O amor tem a melhor campanha de marketing do universo, já que todos nós estamos aqui por causa dele. Todos nós. Nascemos porque um homem e uma mulher se amaram – mesmo que tenha sido um amor de verão ou que nem tenha merecido esse nome, amor. De qualquer forma, ele foi o álibi para que nascessem você, seus amigos e seus inimigos, do amor nasceram judeus e antissemitas, por causa dele vieram ao mundo os que votam na direita, na esquerda e em branco.

Já dizia Fernando Pessoa: “A gente ama porque ouviu falar do amor”. É o marketing se confirmando. Desde pequenos, preparamos o terreno para ele entrar na nossa vida como entrou na de nossos pais. É dado como certo que alguém se encaixará em nosso ideal romântico, mesmo que não seja o primeiro a surgir. Talvez seja o segundo. Talvez o terceiro. 

Talvez ninguém se encaixe totalmente, talvez todos se encaixem mais ou menos. Todo homem ou mulher que fizer disparar nosso coração, mesmo que por pouco tempo, será promovido a grande amor pelas razões mais diversas: ou pra suprir nossa carência, ou pra abrandar nossa solidão, ou pra realizar nosso desejo de procriar, ou por nossa obediência às convenções – não importa, atravessará a porta destinada a ele. É sempre aguardada a sua chegada.

O amor está no DNA dos sete bilhões de habitantes do planeta. Ateus amam, assassinos amam, até políticos amam: é a verdadeira religião universal, a que faz todos ajoelharem sob o mesmo chão sem precisar de livros sagrados, deuses, dogmas. De onde vem tanta potência?

O mundo é hostil, cruel. Até mesmo a poderosa natureza – mares, selvas, montanhas – nos coloca em risco, nos exige estado de alerta. Onde nos refugiar, onde nos conectar com a nossa verdade e com a nossa beleza interior? No amor, não há outro lugar. Sem ele, nossa existência fracassa.

Que seja o amor por filhos, por pais, pelos amigos, por mascotes, por um Deus: é tudo amor em sua abrangência, e pode bastar. Mas havendo um amor exclusivista, erótico e conjugal, a vida ganha um contorno mais fascinante, somos convocados a lutar por aceitação, e não é um desafio qualquer. Exige concessões, resiliência e variadas técnicas de sedução. Dá uma trabalheira. Mas, ainda que o amor seja um projeto de vida racional, os picos de paixão irracional que ele proporciona fazem valer a vida a dois.

A gente nasce, pensa, pira, sonha, cai, levanta, sorri, chora, desiste e insiste. A gente acorda, dorme e acorda outra vez. A gente ganha, perde, corre, alcança, não alcança, descansa e recomeça. Então, que seja celebrado esse 12 de junho pelo motivo mais que suficiente de o amor ser o responsável por tudo isso, por todo esse admirável esforço de tentarmos merecê-lo.



10 de junho de 2017 | N° 18868 
CARPINEJAR

Perigosa falta de palavras

Não deixe que a outra pessoa imagine, imaginar não é conversar.

Imaginar é quando não há conversa. Imaginar é desistir da conversa.

Todas as vezes em que sofri na vida, desde a separação dos pais até namoros rompidos, foi em função de algo que não foi dito e tive que imaginar o que aconteceu de errado. Não recebi as informações para aliviar a minha dor, a minha dor permaneceu burra, forçada a deduzir as respostas. Uma dor bem informada para de sofrer pois entende melhor a realidade.

Poderia alcançar sozinho a solução do problema, mas jamais contaria com a confirmação de que pensei certo. O engano é preencher as lacunas com os próprios medos, é completar a história com os recalques.

Não deixe os seus filhos imaginarem o que vem dentro de seu silêncio, só vai atrapalhar a pureza da relação. Quem imagina é capaz de ir para outro caminho e depois será tarde e cansativo chamar de volta.

Não deixe que a sua esposa ou seu marido imagine o que está passando pelo seu coração, a angústia é não ser útil nem para ajudar.

Não subestime o entendimento de sua companhia. Não falar é menosprezar o conselho. Dramas aumentam com a incompreensão.

Seja didático, seja direto e diga com todas as palavras, ainda que sejam provisórias, para evitar desconfianças e suspeitas.

Quando alguém confessa “eu imagino”, desfaça a confusão enquanto é tempo.

Imaginar é solidão, intimidade vai além: é explicar o que estamos sentindo. O que estamos sentindo unicamente será verdade quando é partilhado. Versões não são verdades, são suposições. Por hipóteses, sacrificam-se relações honestas.


10 de junho de 2017 | N° 18868 
PIANGERS

Faça um pedido


Tínhamos um acordo aqui em casa de nunca brigar na frente das meninas e nunca ameaçar separação quando não estávamos realmente dispostos a pedir o divórcio. Rompimento é uma coisa muito séria pra você usar levianamente. Resultou em duas coisas: quando discutimos nossa separação, há alguns anos, sabíamos que a coisa era séria (que bom que não tão séria, ainda estamos juntos); e, em segundo lugar, sempre que falamos um pouco mais alto um com o outro, nossas filhas acham que estamos brigando.

A mais nova não aceita nem que a gente discuta roteiro de filme, já vai dizendo: “Parem de brigar”. A mais velha fica só analisando a conversa e dizendo: “A mamãe tá certa” ou “O papai tá certo”. É uma juíza de 12 anos, tentando encerrar qualquer discussão. No fundo, as duas já sabem que existe separação entre pais, não sabem bem como as pessoas chegam a esse ponto, mas sabem que existe e não querem que aconteça conosco. Sempre que assopra uma vela ou vê uma estrela cadente, minha filha deseja a mesma coisa: “Que nossa família nunca se separe”.

Acredito que as crianças lidam bem com separações se os pais forem maduros e amigos, mas, em outros casos, um rompimento deixa marcas. Nos separamos por orgulho ou raiva, por erros e mágoas, porque achamos que tem algo melhor. Mas talvez o algo melhor seja essa mesma pessoa, com os ajustes necessários. Quando algo estraga lá em casa, a gente não joga fora. A gente arruma.

Esses dias, estávamos todos no carro. Fazemos brincadeiras que, tenho certeza, vou sentir falta quando elas crescerem. Contamos carros de outras cores; citamos um país com cada letra do alfabeto; falamos uma palavra e os outros têm que adivinhar que música tem aquela palavra. 

A Aurora disse que queria ter filhos, mas só depois que soubesse todas as músicas do mundo. Rimos. Quando estamos juntos, não precisamos de nada mais. Eu agradeço por termos passado por todas as dificuldades, por estarmos ali reunidos fazendo coisas desimportantes. Pela vida ser boba e sem propósito. E, especialmente, por todas as velas e estrelas cadentes.



10 de junho de 2017 | N° 18868 
L.F. VERISSIMO

Cigarreira


Ainda existe cigarro de chocolate? Quando eu era criança, não lembro mais em que século, compravam-se cigarros iguais aos de verdade, em maços, com chocolate dentro em vez de fumo. Eles também serviam para a gente brincar de adulto. 

Antes de comê-los, “fumávamos” os cigarros, gesticulando com eles como gente grande, dizendo coisas pseudoimportantes e tragando e expelindo fumaça imaginária. Nada era mais invejável nos adultos do que a liberdade para fumar e sonhávamos com o dia em que poderíamos assumir todas as poses de fumantes, mas fumando de verdade.

Tinha um ritual de fumantes que me fascinava. O homem tirava uma cigarreira – lembra cigarreira? – do bolso de dentro do paletó, abria a cigarreira, escolhia um dos cigarros enfileirados, fechava a cigarreira com um sofisticado clic, depois batia com a ponta do cigarro no tampo da cigarreira, antes de guardá-la, colocar a ponta compactada do cigarro nos lábios e buscar o isqueiro em outro bolso do paletó. No dia em que eu pudesse fazer aquele pequeno teatro com naturalidade, eu seria um homem e, mais do que isso, um homem autossuficiente e elegante, um homem de dar inveja.

Outro gesto muito adulto era, segurando o cigarro entre o dedo indicador e o médio, usar o anular e o polegar para catar um fragmento de fumo na língua. Este eu imitava depois de cada tragada nos meus cigarros de chocolate.

Um dia, decidi que não ia esperar crescer para ficar adulto. Roubei um cigarro da minha mãe, peguei fósforos e fui para o fundo do quintal. Bati com a ponta do cigarro na caixa de fósforos. Acendi o cigarro. Traguei. 

Me sentia um ator de cinema (naquele tempo se fumava muito nos filmes), um Tyrone Power depois de acender o da moça, um Humphrey Bogart depois da briga. Mas a pose não durou muito. Foi interrompida por um acesso de tosse. Era horrível, encher a boca de fumaça daquele jeito. Nunca mais botei um cigarro na boca. Nem de chocolate.

Mas sei não. Às vezes, penso que faltou uma cigarreira na minha vida.



10 de junho de 2017 | N° 18868 
DAVID COIMBRA

Os direitos dos ratos

Estava saindo do prédio para levar o meu filho à escola, de manhã cedo, e ele gritou:

– Um rato!

Olhei para onde seu dedo apontava: o jardinzinho ali na rua. Vi uma ratazana gorda, medindo uns 30 centímetros do focinho à ponta do rabo.

– Credo! – exclamei.

O ratão ouviu, olhou para nós com expressão assassina e investiu. Veio direto na nossa direção, em altíssima velocidade. Mas bati o pé no chão com força e ele se assustou, desviou para um jardim lateral e sumiu.

Foi a primeira vez que vi um rato por aqui. O que não quer dizer que a cidade não tenha ratos, claro que tem, todas as cidades têm. Ratos são bichos citadinos e Boston é velha de quatro séculos. Ou seja: esgotos centenários, ideais para vetustas famílias de ratões.

Mas nunca tinha visto um, nesse tempo todo. Tinha visto camundongos, mas o camundongo é um animalzinho simpático. Há um filme sobre o Walt Disney em início de carreira que narra uma história com um desses inocentes ratinhos de salão. O jovem Walt aparece falido e triste. Um dia, quando dormitava em sua mesa de trabalho, decerto sonhando com a perseguição dos credores, um pequeno camundongo surgiu a dois palmos de seu cotovelo, roendo um farelo de sanduíche que Walt havia comido parcialmente. 

Ele despertou e viu o bichinho. Atraiu-o com mais pedaços de queijo e os dois ficaram amigos. Walt passou a levá-lo no bolso da camisa por toda parte. Um dia, porém, enquanto andava pela rua, o camundongo resolveu dar uma volta sozinho e foi flagrado por um guarda. Walt percebeu que a tragédia aconteceria e chegou a gritar um desesperado “nãããããããã...”.

Tarde demais.

O guarda esmigalhou o ratinho debaixo do solado duro do seu sapato.

Walt ficou consternado, mas o camundongo serviu-lhe de inspiração para desenhar o Mickey Mouse, graças ao que ele fez sucesso, enriqueceu, idealizou a Disneylândia e, hoje, até o ditador gordinho da Coreia do Norte é fã do ratinho americano.

Por isso é que não me apoquento com a visão de um camundongo, e sei que há muitos deles em Boston. Já essas ratazanas bem fornidas são a marca de Nova York. Os nova-iorquinos dizem que sua cidade é a que tem mais ratos no mundo. Não sei como eles contaram os ratos de lá, é possível que isso seja mais um produto da mania de grandeza dos americanos, mas o fato é que as ratazanas aparecem com frequência na Big Apple. No YouTube, há um filme no qual uma ratazana entra em um vagão do metrô. Alguém grita:

– Rato no trem!

Mas o metrô já havia trancado as portas e entrado em um túnel. Foi aquela gritaria, todo mundo de pé sobre os bancos do vagão e o rato passeando meio desnorteado para um lado e outro, até a estação seguinte. Uma cena de horror.

Em Porto Alegre também tem muito rato. Ali na Praça XV havia um guri que tinha um cachorro caçador de ratos. De repente, o cachorro saía correndo, capturava um ratão com os dentes e o estraçalhava com gosto. Virou atração na praça. Por onde esse rapaz andará? Ele ganharia dinheiro em Nova York.

Uma vez, uma moça amiga minha foi ao banheiro de sua casa, ergueu a tampa do vaso para acomodar-se e flagrou, emergindo da água, a cabeça de uma enorme ratazana cinzenta. Minha amiga engoliu o grito, fechou calmamente a tampa e fugiu para chamar socorro dos bombeiros, da polícia, do Exército, tudo. Desde então, ela só entra no banheiro depois de rezar uma ave-maria.

Mas o que queria dizer desde o início é que, depois de ver o ratão na frente do prédio em que moro, encontrei o zelador, o Julio. Esse Julio é de El Salvador, mas já mora nos Estados Unidos há 25 anos e seus filhos são tão americanos quanto o Trump. Contei para ele:

– Julio, my friend, acabei de ver um ratão desse tamanho bem aqui.

Ele apertou os lábios e respondeu num suspiro:

– Infelizmente, não podemos fazer nada a respeito...

– E por que não?

– Ele está na rua. Ele é livre. Pode andar por aí como quiser e, enquanto não invadir a propriedade, estamos de mãos atadas pela lei.

Pisquei, perplexo, sem saber exatamente o que dizer. Acabei não dizendo coisa alguma, mas saí dali pensando que esse garantismo de direitos, de fato, bem pode passar dos limites. E que o Julio faria boa carreira como ministro do TSE.

sexta-feira, 9 de junho de 2017



Dia do amor 

Dia dos Namorados. Melhor seria Dia Internacional do Amor. Amor por pessoas, ideias, artes, plantas, animais, santos, deuses e tudo mais. Amor acima de raça, religião, gênero, nacionalidade, acima de tudo. Amor sem definições, regras, limitações, envolvendo seres, silêncios, sensações e palavras num mar infinito. 

Há quem diga que o único amor eterno é o amor próprio. Nada contra ninguém, mas melhor pensar que o amor que dura é quando as pessoas mudam a alma e o corpo de casa e depois de tórrida paixão, que antigamente durava um ano ou dois, passam a viver o doce e o amargo dos dias de olhos e mãos dadas, até onde o infinito durar, como disse o Vinicius. O amor está muito acima de contratos, tempos determinados, regras de conduta, etiqueta ou de religião. O amor paira sobre qualquer definição. 

Óbvio que o amor precisa de alguma disciplina, mas não demais, que essa vida pós-moderna está mais para quadro surrealista de Salvador Dali do que para teoremas científicos. Uns dizem que a cura de um amor platônico, se é que ele precisa ser curado, é uma transa homérica. Há quem ache o amor platônico o único perfeito, ele que vive nos castelos da fantasia. Há os aparentemente simplórios que simplesmente dizem: amor é como pirulito, primeiro é doce, depois é palito. Exagero, acho, visão triste. 

Os para-choques de caminhões não mentem: amor sem ciúme é flor sem perfume; amor sem beijo é macarrão sem queijo; nas curvas do teu corpo capotei meu coração; no baralho da vida só uma dama encontrei. Filósofos e cientistas pensam, estudam e escrevem sobre o amor, algo infinito, múltiplo e único como os bilhões de humanos, que já viveram, estão vivendo e vão viver neste planeta. 

Aqui e ali uma sacada boa dos pensadores e cientistas, uma pesquisa interessante e algo novo sobre cérebros e corações. Uns dizem que o amor mora na cabeça, outros no coração, outros mais na alma e alguns em outras partes do corpo humano. Desde que amem, todos têm razão e emoção. Uns dizem que o coração é só um músculo. Outros, que o amor não deve morar na cabeça. Frases simples e estratosféricos ensaios à parte, o amor é que deve vencer no final e tornar feliz as noites de domingo. 

Será que o amor é maior e mais imortal do que os namorados, as pessoas, os animais, os seres vivos e tudo mais da natureza? Será que o amor é maior que os mares, os céus, o sol e a lua? Será que, mesmo para os amantes, o que importa mais é o amor em si? Será que o amor tipo o dos santos, que amam toda a humanidade, é maior do que o amor das gentes por algumas pessoas apenas? Amar é não perguntar muito. 

Nem responder muito. É quando, por vezes, as palavras são ditas com os olhos, as mãos, a alma, o corpo e o silêncio. Amor é não matar. Quem ama não mata. Quem ama mesmo vai amar outra pessoa. "Morreu, o nosso amor morreu/ Mas cá para nós/ antes ele do que eu" - está lá, na sábia canção do Paulinho da Viola. Um amor morre, outro nasce. Ou não. Solamente uma vez se ama en la vida? 

a propósito... 

Para encerrar, uma linda, atual e incomum história de amor. Um amigo e sua esposa, gaúchos, jovens e de classe média, adotaram, há poucas semanas, cinco crianças, irmãos, oriundos de outro estado brasileiro. As crianças têm aproximadamente de três a 10 anos e já estão morando, felizes, com os pais adotivos. É um caso raro, não chega a ser o único. Os pais preferiram não dar publicidade à adoção múltipla em respeito às crianças. 

Acho que a história fala por si e não há muito o que acrescentar. Nesse momento de crise moral, ética, política e econômica, num planeta violento, o exemplo diz tudo e nos faz acreditar no amor e nos seres humanos. Feliz Dia dos Namorados e Dia do amor! - Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/06/colunas/livros/566809-bukowski-o-velho-safado-e-o-amor.html)

Notícia da edição impressa de 09/06/2017. 
Alterada em 08/06 às 19h18min 

Bukowski, o velho safado, e o amor 


Detalhe da capa do livro de Bukowski LPM/DIVULGAÇÃO/JC Bem no clima do Dia dos Namorados, a L&PM Editores lançou, há poucos dias, a coletânea Sobre o amor, do escritor Charles Bukowski, nascido na Alemanha em 1940, mas criado em Los Angeles. 

A compilação é de Abel Debritto, biógrafo de Bukowski e que já editou outras coletâneas temáticas do "velho safado": Sobre gatos e Escrever para não enlouquecer. Sobre o amor tem 224 páginas, preço de R$ 35,90 e foi muito bem traduzido pelo jornalista, tradutor e escritor gaúcho Rodrigo Breunig. Bukowski faleceu em 1994 e publicou mais de 45 livros de prosa e verso. 

A L&PM já publicou 23 obras dele, entre as quais Cartas na rua; Crônica de um amor louco; Mulheres e Pedaços de um caderno manchado de vinho. Honesto, reflexivo, alternando-se entre a dureza e a sensibilidade, Bukowski, o velho nem tão safado, nesses versos fala de várias formas de amor e relaciona o tema com as filhas, as muitas mulheres, as amantes que teve, o trabalho e os amigos. 

Está tudo bem embolado: o amor, a luxúria, a paixão, o desejo, o egoísmo, o narcisismo, o misterioso, o aleatório, o misterioso, a glória e a miséria deste sentimento frágil e eterno. Não ficaram de fora da obra o alto poder redentor do amor, as confusões e o lado bem-humorado do amor. Feroz, vulnerável, lírico e irônico, Bukowski mostra que muitas vezes o amor, especialmente o paterno, fulminou seu coração aparentemente empedernido. 

Alguns versos do poeta: "O amor não passa de um farol aceso à noite cortando a névoa / O amor não passa de uma tampinha de cerveja na qual você pisa a caminho do banheiro/ o amor é a chave perdida da sua porta quando você está bêbado"; e "Gosto de você, querida, eu te amo / a única razão por que trepei com L. é porque você trepou com Z, e aí eu trepei com R. e porque você trepou com N. eu preciso trepar com Y". 

Outro poema: "filha/certo ou errado/eu te amo, sim/ é só que às vezes eu ajo como se/ você não estivesse presente/mas houve brigas com mulheres/ bilhetes deixados em cômodas / trabalhos em fábricas / pneus furados em Compton às 3 da manhã/ todas essas coisas que impedem as pessoas de conhecer umas às outras e pior do que isso/ obrigado pelas flores." 

Sobre o amor é um livro peculiar, muito pessoal, sobre um dos temas mais antigos e humanos. Entre a sarjeta e a lua, entre o doce amor paternal e em meio à brutalidade e à beleza dos amores adultos, Bukowski parece dizer que, ao fim e ao cabo, o amor é o que interessa. Mesmo e principalmente quando pareça não interessar mais ou quando só um futuro amor interessar. 

lançamentos 

As heresias de Pedro Abelardo (Coleção Medievalia, É Realizações, 118 páginas), de São Bernardo de Claraval, abade francês e reformador da Ordem Cistercience, traz o essencial sobre seu célebre combate com Pedro Abelardo, lógico e retórico, sobre altas questões envolvendo a fé, Cristo e Deus, em pleno século XII. Cidade de Deus - a história de Ailton Batata, o sobrevivente (FGV Editora, 286 páginas), da professora Alba Zaluar, da Unicamp e do professor-doutor e psicanalista Luiz Alberto Pinheiro de Freitas, narra a saga de Ailton, que passa de bandido a estudo de caso e, hoje, contribui para a ciência. 

Mitos e verdades para uma vida saudável (Imprensa Livre, 272 páginas), da professora de educação física e palestrante motivacional Cláudia Lucchese, de modo interativo e com linguagem informal e divertida, mostra como podemos mudar. Pensamentos, ações, energia e motivação valem em qualquer idade. - Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/06/colunas/livros/566809-bukowski-o-velho-safado-e-o-amor.html)

quarta-feira, 7 de junho de 2017



07 de junho de 2017 | N° 18865 
MARTHA MEDEIROS

O labrador e as raposas

Nada mais redundante do que dizer que se é fã de Gustavo Kuerten. Quem não é? Um garoto catarinense, até então desconhecido, foi a Paris e venceu três vezes um dos maiores torneios internacionais de tênis, o Roland Garros, isso aos 20 e poucos anos. Em vez de retornar com o peito inflado por ser o novo herói nacional, tratou tudo como se fosse uma inesperada aventura – sem jamais esquecer de agradecer a seu treinador e sua família. A partir daí, intensificou sua responsabilidade social, promovendo o esporte entre crianças e adolescentes. Deveria ser regra, mas até hoje esse comportamento é tratado como exceção.

Guga é um campeão nato: já começou dando certo por sua maneira de encarar a vida. Claro que teve que ralar muito até chegar aonde chegou, nada foi de mão beijada, nunca é. Mas não se tornou um obcecado. Ele tem dito, em entrevistas, que não tinha noção da grandiosidade de Roland Garros quando derrotou os maiores do mundo. Sorte dele. A ausência de deslumbramento e a manutenção do foco costumam ser o segredo de gente vencedora.

Impossível não recordar de um vídeo que tem circulado nas redes sociais, a de um técnico de basquete da Lituânia que dispensou uma das estrelas do seu time para que fosse assistir ao parto da esposa, mesmo estando em meio às eliminatórias de um campeonato. Quando um jornalista, durante uma coletiva, questionou a atitude do técnico, recebeu uma situada: títulos não são tão importantes, não diante de algo muito maior, como o nascimento de um filho.

No fim das contas, a gente mete os pés pelas mãos por não conseguir dimensionar o que é valioso de verdade. Dinheiro, poder e status: de tanto colocarmos essa tríade acima de tudo, nossa história de vida se torna miúda, mesquinha, com uma pseudomagnitude, porém pobre em afetividade, decência, alegria, humanismo, diversão. Vejo esses bandidos engravatados que não saem das primeiras páginas dos jornais, passando vergonha pública, e me pergunto do que adiantou tanta ganância e soberba, qual o orgulho que restou agora que estão sendo desprezados por uma nação inteira e tratados como os ladrões que de fato são.

Os 20 anos da primeira vitória de Guga em Roland Garros têm mesmo que ser celebrados e trazê-lo de volta para os holofotes, a fim de lembrar a todos nós um cálculo que não envolve milhões nem bilhões: competência + gratidão + consciência do papel que representa = admiração plena de todos os brasileiros. Essa é a conta que fecha

sábado, 3 de junho de 2017



03 de junho de 2017 | N° 18862 
CARPINEJAR

Tom Cruise

O Google é a nossa geriatria. O começo da velhice. O asilo das lembranças.

Pelo número de palavras da busca, você já identifica se envelheceu. Quem realiza expedições com uma palavra apenas ainda é jovem e de memória saudável e ativa. Quem faz buscas com uma frase está caducando. Quem tenta encontrar algo com um parágrafo não lembra de mais nada.

Os caracteres entregam o tamanho do nosso esquecimento. Quanto mais, pior.

Estou experimentando uma debilitação irrecuperável no meu banco de dados. Antes digitava no Google o que me recordava imprecisamente, quando não vinha o estabelecimento de imediato. Agora tenho que escrever: “restaurante italiano em Canela, perto do Mundo a Vapor”. Logo mais estou descrevendo um retrato falado. Chegará o clímax em que colocarei vagamente “em uma praça, de uma rua central, na esquina de um avenida nomeada de um político gaúcho famoso, onde havia uma ferragem”.

O que era simples confirmação virou pesquisa científica. Cada vez mais perco tempo no site de buscas. Há 10 abas do Google abertas em meu celular, rastreando as informações mais aleatórias. Minha memória vai perdendo a potência dos olhos e apalpando as letras. “Como é aquele ator de olhos verdes do último filme de Kubrick, que foi casado com aquela loira e os dois acreditavam em seita de alienígenas?”

Converso longamente com o Google, não mais digito. A cartografia das coisas me escapa. Saber que ele existe me torna preguiçoso e não me mantém atento ao que vivi. Ele me facilitou e me destreinou a lembrar. Assim como a calculadora prejudicou os meus cálculos naturais. Quero ser rápido e não me permito caminhar na dúvida. A ansiedade traz o blecaute.

Repito o medo adolescente da sala de aula. Como se experimentasse uma série de provas surpresas ao longo do dia, sem ter estudado, sem noção exata das questões.

O Alzheimer toca em meu interfone. O que é mesmo Alzheimer? É possível em pessoas jovens? Só um minutinho...



03 de junho de 2017 | N° 18862 
L.F. VERISSIMO

Síbaris

“Sibarita. (Do gr. Sybarites, pelo lat. sybarita). Adj. 2 g. 1. De, ou pertencente ou relativo à antiga cidade grega de Síbaris (Itália). 2. Diz-se de pessoa dada à indolência ou à vida de prazeres, por alusão aos antigos habitantes de Síbaris, famosos por sua riqueza e voluptuosidade.” (Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira)

Se você imaginar a Itália como uma grande e bem torneada perna feminina, então o Golfo de Taranto fica naquela parte de baixo, a mais sensível a lambidas, do pé da Itália. Síbaris era ali onde a Costa de Taranto faz uma curva suave, e nas noites de verão o vento traz o perfume dos jasmineiros de Alexandria. 

Os muros de Síbaris eram cobertos de heras afrodisíacas. Os Guardiões do Portal – uma casta cuja principal função era apalpar quem entrava na cidade, não para descobrir qualquer coisa escondida mas pelo prazer de apalpar – faziam um teste com quem quisesse a cidadania sibarita, envolvendo questões de matemática e das artes, da indústria e do comércio. Quem passasse no teste era mandado embora. Quem não passasse entrava. Quem subornasse os Guardiões entrava por aclamação.

A alfândega de Síbaris era rigorosa: só deixava passar supérfluos. As coisas úteis era apreendidas e mandadas para a cidade vizinha de Crotona, onde todos trabalhavam e eram conscienciosos e corretos. Mas Síbaris era mais rica do que Crotona porque era lá que os crotonenses gastavam seu dinheiro nos fins de semana. Por lei, todos os crotonenses tinham que estar fora de Síbaris ao amanhecer de segunda-feira, senão seriam presos. A lei raramente era cumprida porque a polícia de Síbaris nunca acordava antes do meio-dia.

Cada sibarita podia ter sete concubinas, e sua mulher, um escravo etíope, mas às vezes trocavam. As orgias duravam vários dias e só terminavam quando os sibaritas começavam a cantar suas próprias mulheres, sinal de que já não enxergavam mais nada. A monogamia e a abstinência sexual eram consideradas perversões imperdoáveis e punidas com chicotadas, nos raros dias do ano em que o chicoteador oficial não faltava ao serviço. 

No caso de o infrator ser sadomasoquista, sua punição era ficar olhando enquanto o chicoteador oficial chicoteava outro. Sexo grupal era qualquer ato envolvendo mais de 50 pessoas. A Justiça, em Síbaris, era dividida. Havia juízes togados para os casos de direito e juízes nus para os casos de paixão. O bestialismo era tolerado, salvo exceções como o sexo com abelhas.

O rei de Síbaris vivia imerso numa banheira com óleos aromáticos. Foi lá que, certo dia, mastigando um pardal caramelado, recebeu um emissário de Crotona, que propôs a fusão das duas cidades. O rei mandou chamar seu primeiro ministro, que foi encontrado na cama com duas concubinas e um cabrito, não para pedir seu conselho mas para rirem juntos da proposta do emissário. Crotona declarou guerra a Síbaris. Como o exército sibarita estava de férias remuneradas, Síbaris foi invadida e destruída por Crotona em 510 a .C.

Não sobrou vestígio da cidade. Só recentemente, em 1965, uma expedição arqueológica conseguiu determinar a sua localização exata, ali onde a Costa de Taranto faz uma curva suave, e nas noites de verão o vento traz o perfume dos jasmineiros de Alexandria. Parece que descobriram cântaros para vinho, algumas estranhas estatuetas com formato lúbrico e uma garra de ouro na ponta de uma longa haste que, segundo os pesquisadores, só podia ter sido usada para coçar o pé.

Até hoje ninguém localizou as ruínas da cidade de Crotona.



03 de junho de 2017 | N° 18862 
MARTHA MEDEIROS

A duração dos erros


Grande parte das pessoas já foi entrevistada ou deu um simples depoimento em frente a uma câmera. Pode ter sido um comentário rápido durante uma enquete ou uma participação num vídeo. Se você nunca, nunquinha, foi filmado ou gravado, entendo, mas já deve ter falado em público alguma vez, feito um discurso ou participado de uma peça de teatro na escola. Haverá quem nunca tenha segurado um microfone diante de uma plateia de olhos atentos? Em algum momento da vida isso aconteceu, e, se você ficou um pouco constrangido, envergonhado (sem rodeios: em pânico), vai entender a situação.

É quando a gente está construindo um raciocínio na frente dos outros e a palavra que necessitamos não vem. Isso acontece durante nossas conversas cotidianas e ninguém repara, mas, se há uma câmera ou um grupo à sua frente, a impressão que dá é de que aqueles três segundos de vacilo estão durando 10 minutos, 20 horas, uma vida inteira. Você pensa: ferrou, que mico, como é que foi dar um branco justo agora que todos estão prestando atenção em mim?

Isso já me aconteceu algumas dezenas de vezes, e sempre fico com a sensação de que a minha hesitação durou uma eternidade e meia. Quando, mais tarde, tenho a oportunidade de rever a cena que foi ao ar, percebo que durou um par de segundos e que minha reputação saiu ilesa. Ninguém notou. Foi mais uma desimportância que eu promovi a gafe do século.

Usei esse exemplo de falar em público porque me dei conta de que nossos erros – ou aquilo que consideramos um erro – ganham uma dimensão desproporcional se comparados com nossos acertos. Por quanto tempo lembramos daquilo que fizemos bem? A lembrança se esvai assim que cessam os tapinhas nas costas. No entanto, nossos erros seguem nos infernizando por um prazo indefinido. Há quem leve semanas e até meses conjecturando sobre aquilo que foi uma bobeada, apenas uma bobeada. Não mereceria tanta relevância de nossa parte, mas vá explicar isso para o crítico feroz que nos habita.

Trazemos dentro um ombudsman particular, e ele não é nada gentil. Tudo o que depõe contra nós é amplificado. O maior exemplo disso é que rapidamente esquecemos os elogios que nos fazem, mas as ofensas são levadas para a cama e doem como uma perfuração no fígado. O mesmo acontece com todos os escorregões, mal-entendidos, indelicadezas, lapsos e demais percalços de conduta que levam nossa assinatura. Nossos erros custam a sair de cena. Já nossos acertos... que acertos?

Agora veja minha situação: não faço a menor ideia de como encerrar esta coluna. Cheguei ao final do texto sem uma solução para tirar da cartola. Bem feito pra mim. Frustrei você e irei me torturar até sábado que vem.

03 de junho de 2017 | N° 18862 
LYA LUFT

Não “temos de”

Vivemos sob o império do “ter de”. Portanto, vivemos num mundo de bastante mentira. Democracia? Meia mentira. Pois a desigualdade é enorme, não temos os mesmos direitos, temos quase uma ditadura da ilusão dos que ainda acreditam. Liberdade de escolha profissional? Temos de ter um trabalho bom, que dê prazer, que pague dignamente (a maioria quer salário de chefe no primeiro dia), que permita grandes realizações e muitos sonhos concretizados? “Teríamos”. No máximo, temos de conseguir algo decente, que nos permita uma vida mais ou menos digna.

Temos de ter uma vida sexual de novela? Não temos nem podemos. Primeiro, a maior parte é fantasia, pois a vida cotidiana requer, com o tempo, muito mais carinho e cuidados do que paixão selvagem. Além disso, somos uma geração altamente medicada, e atenção: muitos remédios botam a libido de castigo.

Temos de ter diploma superior, depois mestrado, possivelmente doutorado e no Exterior? Não temos de... Pois muitas vezes um bom técnico ganha mais, e trabalha com mais gosto, do que um doutor com méritos e louvações. Temos de nos casar? Nem sempre: parece que o casamento à moda antiga, embora digam que está retornando, cumpre seu papel uma vez, depois com bastante facilidade vivemos juntos, às vezes até bem felizes, sem mais do que um contrato de união estável se temos juízo. E a questão de gênero está muito mais humanizada.

Temos de ter filho: por favor, só tenham filhos os que de verdade querem filhos, crianças, adolescentes, jovens, adultos, e mesmo adultos barbados, para amar, cuidar, estimular, prover e ajudar a crescer, e depois deixar voar sem abandonar nem se lamentar. Mais mulheres começam a não querer ter filho – e não devem. 

Maternidade não pode mais ser obrigação do tempo em que, sem pílula, as mulheres muitas vezes pariam a cada dois anos, regularmente, e aos cinquenta, velhas e exaustas, tinham doze filhos. Bonito, sim. Sempre desejei muitos irmãos e um bando de filhos (consegui ter três), mas ter um que seja requer uma disposição emocional, afetiva, que não é sempre inata. Então, protejam-se as mulheres e os filhos não nascidos de uma relação que poderia ser mais complicada do que a maternidade já pode ser.

Temos de ser chiques, e, como sempre escrevo, estar em todas as festas, restaurantes, resorts, teatros, exposições, conhecer os vinhos, curtir a vida? Não temos, pois isso exige tempo, dinheiro, gosto e disposição. Teríamos de ler bons livros, sim, observar o mundo, aprender com ele, ser boa gente também.

Temos, sobretudo, de ser deixados em paz. Temos de ser amorosos, leais no amor e na amizade, honrados na vida e no trabalho, e, por mais simples que ele seja, sentir orgulho dele. Basta imaginar o que seriam a rua, a cidade, o mundo, sem garis, por exemplo. Sem técnicos em eletricidade, sem encanadores (também os chamam bombeiros), sem os próprios bombeiros, policiais, agricultores, motoristas, caminhoneiros, domésticas, enfermeiras e o resto. Empresários incluídos, pois, sem eles, cadê trabalho?

Então, quem sabe a gente se protege um pouco dessa pressão do “temos de” e procura fazer da melhor forma possível o que é possível. Antes de tudo, um lembrete: cada um do seu jeito, neste mundo complicado e vida-dura, temos de tentar ser felizes. Isso não é inato: se tenta, se conquista, quando dá. Boa sorte!

quarta-feira, 31 de maio de 2017


31 de maio de 2017 | N° 18859
MARTHA MEDEIROS

Você é novo aqui?


Entrei num estabelecimento comercial que não frequentava há uns três meses e reparei que havia funcionários que eu desconhecia. Entre eles, uma bela mulher, bem maquiada e produzida. Trans. Enquanto eu era atendida, conversamos rapidamente e estava tudo assim, natural como tem que ser, quando olhei para ela e perguntei: “Você é novo aqui?”.

Tóóóóing. Ato contínuo, me corrigi: “Nova!!”. Mas o estrago já estava feito, o semblante dela fechou e eu fui etiquetada como um ser das cavernas que não sabe lidar com a diversidade. Logo eu, a pseudodoutora em condição humana.

Voltei para casa chateada com o que aconteceu, me punindo em silêncio, e ao mesmo tempo percebi como é difícil a gente trocar o chip e adotar posturas mais avançadas. Crente de que estava com a cabeça feita em relação ao movimento transgênero, me dei conta de que esses atos falhos demonstram que toda uma cultura adquirida não se varre da nossa vida com uma simples vassourada. A faxina tem que ser mais pesada.

Isso aconteceu na mesma semana em que muito se comentou a respeito de Laerte-se, o documentário sobre o cartunista que virou a cartunista. E faço uma confissão pública com a qual alguns se solidarizarão, mas o objetivo não é formarmos um gueto reacionário do contra, e sim questionarmos nosso comportamento a fim de evoluir: ainda tenho dificuldade de chamá-lo de “a” Laerte. 
    Imagino que ela (tenho dificuldade de chamá-la de ela também) considere um ato de resistência manter seu nome de batismo em vez de trocar por Laís, Larissa, Laurel. Tem também o fato de Laerte ser uma identidade artística plenamente reconhecida e estabelecida no universo dos cartuns. Mas Laerte é nome próprio masculino. É como se tivéssemos que dizer a Roberto, a Milton, a Cassiano.

    Não é simples.

    No entanto, não sou feita apenas de instintos e costumes de estimação. Sou feita também de raciocínio, consciência e capacidade de me adequar a um mundo que não é mais o mesmo. É obrigatório reformatar nossas atitudes para abraçar essa sociedade plural que aí está e que hoje permite que tanta gente que antes vivia atormentada dentro do próprio corpo possa se sentir plenamente identificada com quem é – seja ele ou seja ela.

    “Você é novo aqui?” Todos nós somos novos aqui. Temos o direito de errar, mas o dever de aprender.

    sábado, 27 de maio de 2017



    27 de maio de 2017 | N° 18856 
    LYA LUFT

    Casas

    Começo um novo livro, que chamo A Casa Inventada, deixando de lado por um tempo – de acordo com minha editora Record – o outro, que se chamaria Os Sentimentos Humanos, ou A Casa de Pandora. Pois estava empacado há semanas, me deixando aflita. O vento sopra quando quer, digo sempre, e não adianta lutar com ele: acaba nos derrubando e cobrindo de pó. 

    Então, começando a montar a casa, que no meu livro será a vida, a casa da vida que um pouco inventamos, um pouco nos é imposta, leio na ZH de quinta o artigo do David Coimbra sobre casas. Bonito, comovente, tenso e sério como ele sabe fazer. Leiam: vale a pena.

    E assim continuo aqui falando um pouco em casas: as que nos recebem quando nascemos, as que criamos para e com nossos filhos, caso os tenhamos, casas que podem ser no chão ou no alto de um edifício. Casa sendo “lar”, isto é, refúgio. Lá onde, apesar de discordâncias, brigas e chatices, nos sentimos abrigados. Esse é o meu lugar, assim como, no Exterior, pensamos no nosso país (pobre país, aliás...) como “meu lugar, minha gente”.

    Talvez nem todos sintam isso, mas eu, conhecido bicho da minha toca e mulher da minha caverna, em todas as vezes em que estive em países civilizados, lindos, cultos, a trabalho ou a passeio, tratada a pão de ló, tive permanentemente essa sensação de que meu lugar seria, mesmo mesmo, aqui no Brasil. Esculhambado, colorido, hoje dolorido e preocupante, mas minha gente, minha fala, meu clima, minha alma, meu aconchego. 

    Certamente não sou uma “pessoa do mundo”, antes uma espécie de caipira gaúcha, embora nutrida com idioma, livros, uns poucos costumes e comidas do país de origem de meus antepassados – que cá vieram há quase duzentos anos, portanto estamos bastante “amaciados” como brasileiros. Apesar do respeito e admiração pelo espírito de trabalho, ordem, beleza natural e maravilhas culturais, a terra de origem não é a minha casa.

    Aliás, há muitas décadas luto contra uma “frau” enérgica, prática, que se põe à minha frente mesmo agora, mãos nos quadris, quando no meio da tarde estou sonhando acordada na minha poltrona da sala, vendo – sem realmente enxergar – a bela paisagem, ou as nuvens, fora: “O quêêê? A essa hora de pernas pra cima sem fazer nada?”.

    Na verdade, já não me impressiona muito essa outra Lya, que às vezes assume a forma da mãe, avós, tias, no mínimo sempre de tricô ou livro na mão na hora de “não fazer nada”. Para mim, isso que Freud chamava “atenção flutuante” é hora de trabalho: quando as coisas se forjam e formam dentro de mim, lá nas areiazinhas meio inconscientes do fundo do aquário. De modo que estou nesses dias, semanas, meses talvez, inventando uma casa: com porta de espiar, corredor de espelhos, sala da família, porão das aflições, pátio cotidiano, jardim das crianças e um canto dos deuses...

    Só eles sabem o que vai sair disso, mas eu vou em frente: neste computador, ou diante dessa janela, inventando como quem solta fumacinhas de um cigarro arcaico. Porque em tempos remotos, confesso, até eu fumei... “Você fuma de frescura”, diziam os amigos. Logo deixei sem sofrimento o cigarro, a frescura, o perigo de doença, o acúmulo de rugas, o cheiro que hoje me enjoa. Aliás, na minha casa inventada será proibido fumar. (Mas a nuvenzinha, essa era bem simpática.)

    27 de maio de 2017 | N° 18856 
    MARTHA MEDEIROS

    Sexo e os sentimentos

    Faz sentido dizer que sexo vale menos que amor? Essa hierarquia só existe para os excessivamente românticos, apegados aos contos de fada

    Sexo é sinônimo de prazer. Erotismo, luxúria, pecado, sacanagem. O sexo traz em si um cenário de mil e uma noites de promessas, todas voltadas para a volúpia. Quem nunca praticou é tomado por fantasias libidinosas extraídas do cinema, das revistas masculinas e de piadas e relatos picantes que garantem não existir nada melhor na vida, para horror dos sentimentais e dos pudicos. Sexo melhor que amor? Heresia, fim do mundo.

    Faltou dizer que sexo não é apenas prazer: ele é plural, dispara uma conjunção de sensações físicas de alta intensidade que comovem e podem nos levar à paixão – se não pelo outro, com certeza por nós mesmos, tamanho é o processo de autoconhecimento que ele aciona. Não estou falando, obviamente, dos encontros de uma noite só, as chamadas “one night stand”, em que mal se sabe o nome da pessoa com quem estamos e cuja finalidade é praticamente aeróbica, uma aventura para apimentar o cotidiano. Ato sexual não é a mesma coisa que relação sexual.

    Quando há relação, todos os sentimentos do mundo invadem a cama – e de uma forma tão contraditória que começa aí o espanto e a graça da coisa. Podemos, em nossa rotina de trabalho, ser um funcionário obediente, cumpridor de horários, servo de nossos patrões, e à noite, na cama, sermos dominadores, entrando no jogo erótico de assumir o controle e dar ordens. 

    Ou, ao contrário: depois de um dia liderando e estimulando vários profissionais, nos tornarmos submissos sobre os lençóis, a ponto de escutarmos palavras que normalmente nos ofenderiam e humilhariam, mas que, naquele momento, se prestam ao cenário e à cena: excitação resulta de alguma performance também.

    Esta variação de comportamento, ao mesmo tempo inocente e indecente, só é possível porque temos a segurança de saber que naquele instante não haverá julgamento moral, e sim entrega absoluta – e rara. Sexo envolve plena confiança, ou ficaríamos travados, temendo cair no ridículo. Desperta a coragem para permitir que nossos desejos mais secretos sejam expostos e realizados. 

    Exige compreensão do tempo que cada um precisa para se desnudar de seus pudores. Requer um olhar generoso e terno para a desinibição do outro e, sobretudo, inteligência – sim, inteligência – para lidar com tudo que há de estranho, ilógico e dicotômico neste embate íntimo. Costumamos valorizar o corpão (que a maioria não tem), mas uma cabeça boa é que faz toda a diferença entre o sexo vigoroso e o sexo protocolar.

    Diante desta universalidade de sensações, faz sentido dizer que sexo vale menos que amor? Essa hierarquia só existe para os excessivamente românticos, apegados aos contos de fada. Não é por acaso que transar é sinônimo de “fazer amor”, pois é disso mesmo que se trata, de um êxtase emocional e não apenas físico (ainda que “fazer amor” seja uma expressão enjoada). Sexo pode ser bandido, perverso e impuro em sua essência, nunca em sua conotação. Em análise, sexo é sublime também.



    27 de maio de 2017 | N° 18856 
    CARPINEJAR

    Regime semiaberto

    Só a mulher pode decretar o início e o fim de seu regime. E o regime pode durar um mês, um trimestre ou apenas 24 horas. E você, marido, não precisa ser informado com um edital. E não procure tirar vantagem do fim da dieta, que ela pressentirá um duro boicote.

    Eu venho enlouquecendo, mas agora já estou entendendo. Quase entendendo.

    A minha mulher avisa que está de regime. Vejo que a geladeira será uma horta dali por diante. Não há de comer nada de doce e suntuoso na frente dela. Sumirão as latas de leite condensado e creme de leite. Eu me preparo para a hostilidade bélica, a guerra civil dos talheres. A casa terá uma cobertura extra de linhaça, aveia e flocos. Os passarinhos farão banquete e aparecerão em bando.

    Quando me adapto à ideia e passo a respeitá-la com esforço e obstinação, vejo a esposa na cozinha mexendo um brigadeiro com a colher de pau. Tento não demonstrar susto. Se eu perguntar se ela não estava de dieta, ficará brava. Lembrarei que quebrou o voto de abstinência. Faço cara de feliz, e ela me oferece. Comemos raspando a panela.

    Aproveitando o embalo, de noite, dou a dica de uma pipoca para assistirmos a nossa série na Netflix. Ela me encara, furiosa:

    – Estou de dieta, esqueceu?

    Não ouso argumentar, mesmo com a nitidez do brigadeiro nas papilas gustativas de minha língua. Ok, deve ter voltado ao esquema dos grãos. Sigo a rotina espartana. De repente, na semana seguinte ela prepara um pudim. Mastigo, paranoico, com medo de sua reação. Meus olhos são pontos de interrogação e remela. Continuo com as minhas palestras, viajo e recordo de trazer a cocada de sua preferência. Penso em agradá-la. Ela, então, me fuzila:

    – Esqueceu de novo que estou de dieta? Você nunca me ajuda...

    Ela desencadeia e encerra e renova a reeducação alimentar num passe de mágica. O prazer surge num clarão, a culpa logo corrige a consciência e põe uma pedra no assunto. A sensação é de incoerência e perplexidade, que perdi alguns capítulos importantes da novela.

    Para não errar, toda a mulher está de regime. E nunca está de regime. Compreendeu? É sempre regime semiaberto: livre, mas nem tanto. Jamais acertarei o dia do indulto.



    27 de maio de 2017 | N° 18856
    PALAVRA DE MÉDICO | J.J. CAMARGO

    AMOR E RESPEITO: O QUE VEM ANTES?

    As escolas de todos os níveis têm recebido críticas crescentes pela maneira com que têm participado da educação dos nossos filhos. Com essa perspectiva fantasiosa, a decepção é completamente previsível: está sendo atribuída à professora de 40 alunos, sentindo-se ameaçada, trabalhando em ambiente desfavorável e com carga horária abusiva, a função de educar os rebentos que não conseguiram ser domesticados por dois pais amorosos e dedicados, apesar de lhes oferecerem um convívio adocicado, amoroso e pretensamente estimulante.

    O ser humano não é um animal acomodado ao meio em que foi aleatoriamente inserido. Pelo contrário, é um contestador nato que aparentemente descobre, ainda no útero, que dando uns pontapés consegue uma posição mais cômoda e já nasce gritando e esperneando, e aprende logo no primeiro dia de vida a importância do choro como arma poderosa para tratar a fome e o desconforto de uma fralda suja. 

    Como é completamente dependente de ajuda, porque de outra forma não sobreviveria, a paparicação inicial é inevitável. Como faz parte da natureza humana, ele tende a se acomodar às circunstâncias favoráveis, mas acomodação não educa ninguém, precisamos preparar nossas crias para a vida real, que começa a mostrar a cara ainda na primeira infância. É quando se descobre que nem sempre haverá alguém para servir, que chorar não ajuda e espernear só parecerá ridículo. Nesta fase é que se qualifica o pimpolho para o convívio social e o mundo. 

    Pois é exatamente nesse estágio da vida que as mudanças na estrutura familiar da modernidade têm se revelado ineficientes. Com ambos ocupados com a atividade profissional, os pais esperam que creche não só ocupe e proteja os rebentos, mas, na medida do possível, oferte os ensinamentos básicos de sobrevivência para a selva social que os aguarda. Num momento crítico da educação da criança, quando ela deveria aprender a identificar os limites do direito de cada um, imposto pela civilidade, o que mais se vê são pais iludidos com a ideia de que precisam se fazer amar e que o resto será mera consequência. Claro que assim a criança será deseducada com a percepção tola de que sempre terá tudo o que quiser. E que ter mais ou menos dependerá apenas da veemência dos pedidos.

    Dona Joana viuvou muito cedo e criou quatro filhos homens, que tinham entre cinco e 11 anos quando o marido morreu. Impressionado com a disputa de desvelo com que o quarteto cuidava da mãe quando adoeceu, não resisti em perguntar-lhe qual era o segredo dessa conquista de afeto tão evidente. Ela demorou para responder, e interrompeu a minha primeira tentativa com uma frase pouco convincente: “Esses filhos foram um presente de Deus para compensar minha perda!”. 

    Dias depois, às vésperas de uma cirurgia de risco, ela espontaneamente retomou a conversa: “Não foi nada fácil, doutor. Meu filho mais velho era uma peste e a má influência sobre os menores só atrapalhava. Imagina que um dia, aos 14 anos, inventou que eu tinha que lhe dar uma moto. Disse-lhe que não daria de jeito nenhum e que não falasse mais no assunto antes dos 18 anos. Ele, então, me provocou, retrucando: ‘Então não espere que lhe ame até os 18 anos’. Aquilo me doeu, doutor, mas tive forças para dizer: ‘Meu filho, meu dever de mãe não é me fazer amar, mas me fazer respeitar. Porque amor é uma escolha que farás adiante na vida, mas respeito é pra hoje e é uma obrigação!’.”

    Dois dias depois, ele esperou os irmãos dormirem, entrou no meu quarto, se pendurou no meu pescoço, sem dizer uma palavra, e choramos abraçados até que ele adormeceu. Daí em diante, ele foi o pai de quem os pequenos já nem lembravam muito bem”.

    Não sei por onde andará a Joana e sua prole, mas que frase aquela: amor é escolha, respeito é obrigação.



    27 de maio de 2017 | N° 18856 
    MÁRIO CORSO - Psicanalista

    PARA ONDE VAMOS?

    Um dos meus prazeres é ler revista velha, bem velha, de pelo menos uns 20 anos. Para quem, como eu, gosta do mergulho no passado recente, existem dois santuários ecológicos para esse espécime que se salvou do lixo: consultórios de dentistas e casas de praia. Paira um mistério sobre por que territórios tão díspares tendem a aglutinar essas preciosidades, mas assim é.

    Encontramos nessas revistas celebridades esquecidas, subcelebridades extintas. Como fomos dar bola para essa gente? O visual, então, esse diz tudo, as roupas, antes elegantes, nem brechó aceitaria. No vestuário, a moda e sua efemeridade são mais visíveis e risíveis.

    Sensacionais mesmo são os anúncios de carros fantásticos que hoje são sucata. TVs de tubo incríveis, com uma definição nunca sonhada, do tamanho de uma lavadora e peso de um piano. Ofertas de computadores ultramegaplus em tudo, menos potentes que o celular que está no teu bolso. No setor saúde, nunca falta a notícia da cura iminente do câncer, o regime definitivo para emagrecer, ou remédio para a calvície. E, ainda, o vaticínio de tendências que nunca aconteceram, o proselitismo de certezas que se desfizeram em poeira, ideias revolucionárias de gurus que se mostraram puro modismo.

    Nessas páginas, encontramos profecias sobre qualquer coisa, menos os fatos que realmente deram uma nova cara ao mundo: a internet, as redes sociais, os games, o smartphone, o Google, o multiculturalismo, o início do derretimento da fixidez das identidades de gênero. Somos o futuro que ninguém previu.

    Desse encontro, tiro duas teses. Primeira: ninguém realmente sabe para onde vamos. Segunda: nos levamos demasiado a sério. Daqui a 30 anos, alguém vai pegar uma revista de hoje e enxergar-nos exatamente como vemos o passado: apegado a quinquilharias como se fossem o máximo, elogiando ideias tolas, acreditando estar no cruzamento cósmico de algo muito especial. O exercício dessa leitura não é saudosismo, mas para entender o exagero de como percebemos o presente. Aproveito como uma imprescindível lição de transitoriedade.

    A inflação do presente nubla o essencial. A revista velha nos devolve um momento congelado, onde o ontem ainda mostra-se como presente e por isso captamos como ele se via superestimado. Porém, não é apenas o passado, mas porque já vivíamos, como seguimos fazendo, percebendo a realidade um tom acima. Somos assim, tentamos fazer uma narrativa épica onde às vezes só há repetição, inventamos uma densidade histórica para as banalidades. Uma tentativa de viver numa época especial; afinal, é a que nos tocou. Recentemente, vejo muita gente opinando que vivemos a maior crise econômica e política da história do Brasil. Bom, se você não estudou História, é mesmo.



    27 de maio de 2017 | N° 18856 
    DAVID COIMBRA

    Cem centímetros de glúteos

    “Cem centímetros de glúteos!”, foi a manchete que dei no Timeline de sexta, antecipando o tema que abordaria no bloco seguinte do programa. Achei que largar assim aquela frase, “Cem centímetros de glúteos!”, seria impactante. Deixaria os ouvintes ansiosos para saber a respeito e meus colegas, o Potter e a Andressa Xavier, decerto não ficariam menos curiosos, sobretudo o Potter, que aprecia glúteos de bom tamanho.

    Minha ideia era ler o release que havia recebido sobre uma modelo brasileira chamada Luana Caettano, eleita Musa do Barcelona. O texto informava: “A morena é dona do maior bumbum da Espanha, o que acabou lhe rendendo o apelido de ‘Bumbum Catalão’, o qual carrega com muito orgulho.”

    Embora não tenha ficado claro, concluí que o que ela “carrega com muito orgulho” é o apelido. Ou seja, se você for a Barcelona e passar pela Luana Caettano, pode dizer “E aí, Bumbum Catalão!”, que ela vai gostar.

    Pensei realmente que todos se entusiasmariam em saber que uma brasileira é dona dos maiores glúteos da Espanha, título que me parece bastante expressivo. Cem centímetros, afinal de contas, é um metro, a altura de uma criança de cinco anos de idade. Dispor de glúteos com essa dimensão me parecia algo digno de nota.

    Mas, quando comecei a dar a informação, o Potter me cortou:

    – Ah, mas eu tenho cem centímetros de glúteos!

    Aquilo já arruinou-me o entusiasmo. O Potter não tinha de ter me dado aquela informação. Porque, no momento em que ele falou, os glúteos do Bumbum Catalão fugiram da minha mente e foram substituídos pelos do Potter. Não, não, vade retro, eu não queria pensar nos glúteos do Potter! Tentei me concentrar no Bumbum Catalão e seguir com o texto, mas a Andressa observou, até com certo enfaro:

    – Ora... Qualquer uma tem cem centímetros de glúteos...

    Qualquer uma... Senti certa admiração pela colega. Mas é claro que ela estava se referindo às brasileiras. Andressa poderia dizer: qualquer brasileira tem cem centímetros de glúteos e o Potter também. Eu acreditaria nela, devido ao nosso sabido apreço pelos glúteos.

    Sempre pensei que isso tem algum significado. Não deve ser por acaso que a palavra “bunda”, tão redonda, tão globosa, tão perfeita para definir essa região do corpo humano, nasceu no Brasil. É uma história conhecida: muitas das escravas que foram trazidas da África vinham de Angola e Luanda, onde se falava o idioma mbundu. Eram mulheres belas, de longas pernas e nádegas generosas, porém sólidas. Os portugueses salivavam quando as viam e comentavam entre si:

    – Que bunda!

    Isto é: as bundas eram admiradas pelas bundas que tinham e, assim, as bundas das bundas, que antes não eram chamadas de bundas, mas de nádegas, tornaram-se bundas, conceito que passou a abranger não apenas as bundas das bundas, mas as bundas de todas as mulheres e também dos homens.

    Esse cadinho de raças, que é o Brasil, aperfeiçoou a arte do drible, do passe de trivela, da lavagem de dinheiro e as bundas das mulheres. Hoje, encontramos loiras com bundas de negras, e quando isso acontece é a glória.

    Agora, una a genética privilegiada pela miscigenação à tecnologia dos exercícios para os glúteos nas academias e o que resulta? Sucesso internacional, como a moça que ganhou o título de Bumbum Catalão, com seus cem centímetros desprezados pelo Potter e pela Andressa.

    Continuo não desprezando aqueles cem centímetros, embora tenha sido desprezado no programa. Meus colegas fizeram pouco caso da minha informação. Descartaram-na em um minuto e já se puseram a falar de algum obscuro deputado. Tudo bem, seguirei em frente com minhas convicções. Continuo pensando que nosso amor pelos glúteos produziu algo na nossa psiquê. Continuo desconfiando de que somos um subproduto da bunda. Desenvolverei melhor essa tese. Mas não contarei minhas conclusões para o Potter e a Andressa. Fiquem eles com seus deputados.