sábado, 23 de setembro de 2017



23 DE SETEMBRO DE 2017
SEXO

(Re)acenda esta chama

Sete passos para fugir da rotina na cama e fora dela em relacionamentos longos

Brindes, troca de presentes, declarações de amor Cada jantar de aniversário de namoro ou casamento merece uma comemoração à altura, mas também uma atenção redobrada com a rotina à medida que os anos passam. Ainda que virar muitas páginas do calendário possa significar que vocês estejam fazendo as coisas certas, relacionamentos de uma década ou mais podem entrar em um processo de escassez de diálogo e de sexo e, via de regra, uma coisa está relacionada à outra.

A falta de comunicação e de compreensão é uma queixa maior do que a falta de sexo, de acordo com a sexóloga Priscila Junqueira. Já a especialista em sexualidade feminina Cátia Damasceno afirma que a dificuldade de falar com o outro - especialmente sobre a vida íntima - é tanta que, muitas vezes, quando o casal decide procurar um terapeuta, o relacionamento já está em um estágio tão avançado de desgaste que a reconciliação é difícil ou improvável.

- O sexo, quando é bom, tem uma pequena importância dentro do relacionamento, de 30% a 40%. Mas, quando é ruim, ocupa um percentual muito alto de relevância. E pode levar à separação, porque as pessoas preferem terminar a falar sobre isso com o parceiro. Precisamos nos conscientizar de que o sexo tem que ser conversado - explica Cátia.

A seguir, as sexólogas Cátia e Priscila dão sete dicas sobre o que pode funcionar para manter a chama acesa em relações longas, tanto na cama quanto no dia a dia.

2 MANTENHA A INDEPENDÊNCIA DOS FILHOS

O fato de ter crianças em casa não pode ser usado como desculpa para o casal não cuidar um ao outro. Priscila destaca que as crianças - mesmos os bebês - são dependentes, mas não necessariamente apenas dos pais. Assim, de tempos em tempos, um familiar ou uma babá de confiança pode entrar em cena para ajudar o casal a sair da rotina e encontrar amigos, ir ao cinema ou apenas ficar a sós um com o outro.

- Esses momentos de estar com os amigos ou a sós, os dois, tornam qualquer rotina mais prazerosa. Se estão bem cuidados, os filhos vão ficar bem algumas horas ou um fim de semana sem os pais - afirma Priscila, mãe de um menino de dois anos.

Assim como Priscila, Cátia tem crianças pequenas em casa. E afirma, por experiência própria, que os filhos não são limitadores dos momentos íntimos do casal.

- Não dá para justificar uma ausência do comportamento de marido e mulher por causa dos filhos. Mas há, sim, muitos homens que passam a enxergar a mulher apenas como mãe depois de ela dar à luz, ignorando que ela continua tendo desejo. Se é essa a situação, precisa ser conversada - sugere a especialista.

3 RETORNE ÀS ORIGENS

Lembra quais programas vocês curtiam quando começaram a namorar? Resgatar velhos hábitos costuma render momentos prazerosos para recordar, uma vez mais, por que vocês estão juntos. Que tal colocar em movimento aquela bicicleta parada na garagem ou retomar caminhadas no parque que eram tão frequentes quando vocês se conheceram?

Cátia sugere que o casal liste, em uma folha, tanto os programas do começo do namoro que ficaram para trás quanto coisas que acabaram virando rotina. Spoiler: nesse último quesito, andar desleixados em casa casa, sem se cuidar um para o outro, costuma ser um item frequente.

- Depois de identificar isso, recomendo não apenas voltar a fazer o que se fazia no início de namoro, mas deixar de lado esses costumes que abraçamos por causa da rotina. Veja como isso pode melhorar qualquer relacionamento - diz Cátia.

4 COLOQUE O SEXO NA AGENDA

Se está difícil encontrar tempo para transar, talvez seja o momento de estabelecer isso como prioridade, com compromisso na agenda e tudo. Planejar momentos íntimos como nos velhos tempos, quando o clima de conquista ainda estava no ar, pode trazer boas memórias e até reacender o tesão.

- No início do namoro, os hormônios nos deixam muito alegres. Depois de anos de relacionamento, para manter essa mesma sensação, é preciso agir de forma racional. Planeje um momento íntimo, uma viagem, um final de semana sem os filhos. Pensem em tudo o que vocês vão fazer quando tiverem esse tempo livre para vocês. Só não vale ficar cada um pendurado no seu celular - diz Cátia.

O recurso do sexo na agenda, porém, deve ser usado por tempo limitado, de acordo com Priscila:

- É uma solução de emergência. Se você tiver de recorrer sempre à agenda para transar, perde a naturalidade e provavelmente vai virar mais um compromisso chato.

1 TENHA MOMENTOS A SÓS

O passar dos anos tende a levar muitos casais a se isolar em sua própria rotina a dois ou com os filhos. É como se tivessem se transformado em uma única pessoa, sem nenhum cuidado com a individualidade de cada um. Fazer programas com os amigos ou a sós, com respeito e compreensão do que é importante para o outro, é fundamental para manter a vitalidade na vida a dois. Priscila recomenda escolher pelo menos uma atividade semanal, como um hobby, para cada um fazer sozinho.

- Colocar na agenda espaço para um esporte ou uma atividade que lhe faça bem pode dar um respiro à relação, porque as pessoas começam a funcionar só como casal e esquecem de si - afirma a sexóloga.

Manter uma agenda de compromissos sem seu par é um exercício de liberdade natural quando há segurança no relacionamento, explica Cátia:

- Não é para fazer nada escondido. É tudo com respeito e confiança no outro a ponto de que, se ele quiser sair para uma aula de dança, você não vai ver problema nisso. É preciso confiança e liberdade para chegar nesse estágio.

6 TIRE FÉRIAS DE FINAL DE SEMANA

Quando perguntados sobre os momentos bons na vida a dois, muitos casais costumam lembrar das férias, aquele momento programado em que se esquece das contas a pagar e dos problemas do cotidiano. A dica das especialistas é dividir momentos de ócio ao longo do calendário, sem necessariamente precisar esperar por longos períodos de folga. Use a criatividade e experimente mudar de ambiente, visitando alguma parte da cidade que vocês não costumam frequentar ou fazer viagens curtas em um final de semana ou feriadão, curtindo um ao outro como se estivessem de férias.

- O que não dá é esperar o ano inteiro para passar bem em um mês de férias - afirma Cátia.

5 CONVERSE SOBRE SEXO

A diminuição do tesão parece inevitável ao longo dos anos. E um dos caminhos para contorná-la é conversar para entender o porquê de isso estar acontecendo. E, se for necessário, buscar a ajuda de um especialista. Na maior parte dos casos, a falta de libido tem causas associadas.

- As mulheres que têm queda no desejo muitas vezes estão com um problema com o parceiro, mas também entrando na menopausa. E isso deve ser conversado com ele, contando com a compreensão e ajuda do par nesse momento - diz Priscila.

Como dar a volta por cima? Em muitos casos, a solução pode ser simples, explorando possibilidades até então inéditas para o casal. As sexólogas estão de acordo em afirmar que é possível descobrir novidades no sexo mesmo com uma década - ou mais - de relacionamento, respeitando e estimulando a própria transformação e a do outro. A dica é conversar abertamente sobre o que você não gosta mais de fazer e as coisas novas que gostaria de tentar. E, claro, estar aberto a escutar os desejos de seu par.

- Muitas pessoas passam anos e anos tendo um mau relacionamento porque têm vergonha de falar sobre esse assunto, porque acham que o outro vai ficar chateado. Não cometa esse erro - indica Cátia.

7 TOME A INICIATIVA

Ficar insatisfeita esperando que o outro tome uma atitude para melhorar tanto o dia a dia quanto o sexo não leva a lugar nenhum - provavelmente, seu par tem o mesmo pensamento em relação a você. Dá para começar planejando um jantar romântico, com uma trilha sonora especial, culminando em uma noite diferente na cama. Depois de tomar a iniciativa algumas vezes, já é permitido cobrar que o outro também pense em programinhas para fugir da rotina.

- Dá para cobrar de uma maneira positiva: "No mês passado, eu fiz isso e isso. Que tal esse mês você produzir uma surpresinha para nós dois?" - sugere Cátia.

A especialista acredita que um programa diferente por mês é o mínimo para um casal que está junto há muitos anos manter a harmonia da relação.

- Não dá para esperar o aniversário de namoro ou casamento para comemorar. Faça uma gracinha diferente, esteja presente para o outro naquele momento. Mande uma mensagem sugerindo alguma coisa bacana. Se a pessoa não gostar, você pergunta: "E o que você sugere que a gente faça juntos?" - propõe Cátia.

ROSSANA SILVA, ESPECIAL

23 DE SETEMBRO DE 2017
CARPINEJAR

LÍNGUA no canto da boca

O homem tem a incômoda língua para fora quando se esforça. É carregar algo ou gostar de uma situação que ele põe a tramela no canto da boca.

De repente, não mais do que de repente, prepara um wrap dobrando a sua língua.

Parece um louquinho com camisa de força. Uma criança fazendo careta. Um cachorro com sede. Não traz seriedade, não inspira confiança.

A língua para fora sugere problemas motores incontornáveis. Assusta aqueles com quem dividimos intimidade, ameaça quem nem conhecemos.

Nenhuma mulher gosta, com a devida razão. Pois estraga a maior parte das selfies e das cenas amorosas. Isso que pode surgir no meio do sexo, com os espelhos do motel apontados para o corpo, provocando inevitáveis desdobramentos broxantes.

É um ataque epilético manso que acomete todo macho. Acontecerá jogando sinuca, levando as compras do mercado, batendo um pênalti, numa brincadeira no sofá, dançando em uma balada, levantando peso na academia.

Não há como apagar aquela porção de Coringa em nosso rosto, acalmar o Jim Carrey de nossas expressões. O contorcionismo poderia ser cômico se houvesse controle. Mas não tem como programá-lo ou desprogramá-lo. É um bug no sistema operacional masculino. Ainda corremos o risco de babar.

Trata-se de um movimento intuitivo, do princípio da linguagem, evocação da transição de gestos bucais nas cavernas, que emerge sem percebermos nas tarefas que exigem grande concentração. Só identificamos quando alguém chama atenção, mas já não existe desculpa convincente e reparo sociável imediato.

Às vezes, quando a esposa coloca a mão em meus lábios, não é para me silenciar, é para devolver o monstro ao seu lugar. Outras vezes quando ela me surpreende com um beijo não significa arrebatamento, é apenas uma mordaça, um selinho constrangido, destinado a interromper a vergonha de qualquer jeito.

CARPINEJAR



23 DE SETEMBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Ler mesmo

Muito tempo atrás, escrevi um texto em que eu diferenciava o querer do querer mesmo o verbo acompanhado do advérbio de afirmação. Ou seria advérbio de intensidade? Acho que de intensidade.

Querer, a gente quer muita coisa, mas quase sempre é um querer preguiçoso, que não nos impulsiona a agir. Querer mesmo significa abrir mão de uma série de confortos, tomar muito chá de banco e ver inúmeras ideias darem errado antes de darem certo - se é que darão certo. Querer mesmo escalar uma montanha, surfar uma onda gigante, filmar um documentário, trabalhar no Exterior e outras aventuras supostamente inatingíveis.

Anos depois, escrevi uma crônica chamada Escritor Mesmo, reconhecendo a distância que havia entre mim e aqueles que colecionam prêmios, têm alto padrão intelectual, são catedráticos, virtuoses da língua e candidatos fortíssimos à Academia Brasileira de Letras. Eu? Sou nada disso.

Agora faço uso novamente do advérbio para diferenciar não os escritores, mas os leitores. Há aqueles que leem, e aqueles que leem mesmo - e a crônica de jornal é um bom balizador desta diferença. Na correria cotidiana, muitas vezes o leitor apenas passa os olhos pelo o que está escrito. Tudo bem. Passar os olhos, hoje em dia, já é digno de nota, mas o apressado corre o risco de se confundir. Por exemplo, domingo passado recebi uma dezena de cumprimentos pela passagem do meu aniversário, o que foi uma delicadeza, só que nasci em agosto. 

O que aconteceu? Aconteceu que publiquei aqui neste espaço uma crônica fictícia - um pequeno conto - com o título Algum dia, em que o personagem (masculino) sonhava em realizar vários projetos mirabolantes, porém sem jamais levantar da cama e sem perceber a passagem do tempo. A leitura do texto induzia a pensar que eram planos de um adolescente, até que, ao final, o personagem comentava que no dia seguinte completaria 58 anos.

Talvez por eu não ser uma escritora mesmo, muitos não perceberam que era um homem falando. Acharam que eu falava de mim. Que eu havia trocado de sexo, que eu tinha a intenção de morar numa praia com uma gata, que eu desejava fotografar as aves do Mato Grosso, que eu sonhava em ser guitarrista de uma banda em Berlim e que faria 58 anos no dia seguinte (a propósito, tenho 56 - não minto a idade, mas aumentá-la, isso não).

Há os que querem, e os que querem mesmo. Há os escritores, e os escritores mesmo. Há os que leem, e os que leem mesmo (pode incrementar a lista: há os que amam, e os que amam mesmo; os amigos do Face, e os amigos mesmo...). Tudo anda tão da boca pra fora, tão volátil, descartável, escorregadio, que a intensidade tornou-se um diferencial a ser comemorado.

MARTHA MEDEIROS


23 DE SETEMBRO DE 2017
LYA LUFT

Dona Wally, minha mãe

Minha mãe, dona Wally, foi uma mulher linda, alegre, otimista. Lembro de seu passo enérgico no corredor, a voz cantando no jardim quando mexia nas suas rosas, a risada clara conversando com meu pai. Adorava viajar, adorava suas tardes com amigas (e primas) jogando cartas, adorava jogar tênis, e adorava acima de tudo meu pai, meu irmão e esta que aqui escreve - que, eu acho, nunca correspondeu direito ao que ela imaginava ser uma menina, jovem ou mulher contente, normalzinha. 

Nunca aprendi a jogar cartas, a jogar tênis, a arrumar o quarto (a empregada fazia isso muito melhor do que eu, era o meu argumento). Na cadeira, empilhavam-se minhas roupas, o armário era uma confusão, até ela jogar tudo no chão para eu arrumar do jeito que era bonito. "Tem meninas que empilham calcinhas e pijamas conforme a cor, e amarram com fitas lindas". Eu achava aquilo uma perda de tempo lastimável. Queria ler, sonhar, ser feliz, quieta e em paz. Queria entender o mundo.

Tivemos uma relação tumultuada. Nada dramático, apenas as diferenças entre uma mãe ansiosa e controladora e uma filha rebelde e amante da liberdade. Ainda que fosse a liberdade boba de andar descalça no pátio, acender o abajur do lado da cama e ler madrugada adentro, rir alto demais, rir fora de hora, e ter uma quase absoluta incompetência e desgosto pelas coisas domésticas. Isso, e ler demais, segundo minha mãe e seu bando de primas e amigas, me impediria de conseguir marido: coisa gravíssima, aliás.

Minha mãe era ansiosa em parte porque a gente nasce assim ou assado, mas também - aprendi quando tive meus filhos - porque o primeiro bebê tinha morrido e ela talvez nunca se recuperasse dessa angústia. Seja como for, fui muito cuidada, vigiada, controlada, e detestava isso embora dissessem que era "para o meu bem". 

Uma prenda doméstica que tentei dominar foi bordado. Lembro encantada de tardes que passávamos juntas na grande sala, cada uma com seu bordado, conversando animadas, ela falando da infância, da família, de como conheceu meu pai. Naturalmente, os bordados dela eram perfeitos, e os meus, uma confusão de fios tortos, encardidos, o lado avesso cheio de grandes nós. Eu era um desastre nisso e em outras coisas, como cozinha.

"As filhas de minhas amigas e primas sabem cozinhar, fazer bolo, arrumar a mesa lindamente. Pra outras coisas, você é tão inteligente, por que não aprende?". Eu não me interessava, e pela vida afora, sem interesse ou entusiasmo, em geral faço tudo malfeito. Brigamos incrivelmente, pelas coisas mais bobas, ligadas a esses meus defeitos. Mas ela curtia imensamente sua casa, os netos e a neta. Era ótima parceira nos assuntos que eu deveria cultivar: comprar roupas bonitas, me vestir melhor, gostar de festas. Às vezes me olhava como quem diz "Que pessoa é essa que eu pari e não entendo?" - nada original em muitas mães.

Nos últimos 10 anos de vida, até os 90, foi prisioneira na clausura do Alzheimer. Cuidei dela até o fim: já não me reconhecia, enrolada no xale da sua ausência. Guardei algumas mágoas infantis, mas agora, tantos anos depois, quando me dói não ter mais a quem chamar de "mãe", sei que fizemos as pazes. Acreditem, é uma sensação maravilhosa. Onde quer que você esteja, dona Wally: você me faz muita falta.

lya.luft@zerohora.com.br
LYA LUFT

sábado, 16 de setembro de 2017



16 DE SETEMBRO DE 2017
CARPINEJAR

SESTA perfeita

Nada substitui o sono na própria cama. Não tem hotel cinco estrelas que rivalize. Não tem pousada de madeira na Serra que traga o mesmo conforto.

Mas sesta, no início da tarde, não combina com o quarto. Traz culpa e pesadelo, ansiedade e alarme de extravio.

Sesta não se faz com o consentimento. É um dos raros prazeres roubados da vida.

Para a cabeça funcionar e jamais ficar perdida depois, sesta depende de um lugar provisório, como se fôssemos adormecer por descuido, ouvindo - até desaparecer progressivamente - os barulhos da casa.

Sesta perfeita é no sofá, sem travesseiro e lençol, sem ninho e fortaleza, com as almofadas grandes reviradas, exposto ao trânsito da família.

Ela somente prospera contra o relógio, não a favor do tempo.

A imperfeição é parte do plano do cochilo. A graça vem em vencer a resistência. Não pode haver facilidades, como o escuro, o blecaute das janelas, a quietude, a porta fechada.

Deve-se ceder à preguiça integral: deitar logo após comer, não escovar os dentes, não realizar nenhum esforço de concentração, não mexer no celular, não convocar os neurônios a movimentos bruscos.

Sesta é queda livre. É fingir que vai ver um pouquinho de televisão e se esparramar de repente no vazio terapêutico da sala.

A mais saborosa sesta é aquela que é interrompida, mas jamais nos entregamos. Abrimos um canto do olho e não desistimos dos sonhos.

Sono fora de hora renuncia pré-requisitos. Que venha de qualquer jeito, longe do luxo. Que seja por rápidos 30 minutos, que seja uma vingança por despertar cedo no dia, que seja amontoado, dobrado e amassado, que seja deitado de roupa e cinto, com os sapatos de cabeça para baixo no chão, também roncando.

Sesta planejada somente nos piora. Sesta que nos melhora é caprichoso acidente da rotina.

CARPINEJAR


16 DE SETEMBRO DE 2017
PIANGERS

Feliz por nada


Queria dizer que eu e minha mãe gostamos da Martha Medeiros. Uma vez troquei e-mails com ela e lembro de ficar nervoso quando ela me respondia. É um nervosismo em duas vezes, primeiro: Ela respondeu!; e depois: Vou ter que responder com um e-mail muito bem escrito! Tragam o dicionário!. Quer dizer, hoje em dia a gente nem usa dicionário, usa o Google. Quando quero escrever uma palavra bonita sempre penso em um palavra comum e busco um sinônimo no Google. Foi assim que descobri o que é doctiloquia. Duvido que a Martha Medeiros procure palavras no Google, ela já sabe tudo de cor.

Sei que a Martha é muito ligada à própria mãe porque, nos poucos e-mails que trocamos, já foi logo citando a mãe. Falou da mãe em duas ou três frases. E, claro, escreve sobre mães como ninguém. As frases da Martha viram aqueles PowerPoints animados que as mães mandam umas para as outras. A forma mais singela de perceber que um escritor é um verdadeiro sucesso.

Assim como a Martha, adoro a minha mãe. Ela é de ferro. Passou por câncer, acidente de carro que vitimou seu namorado, 15 dias de coma na UTI. Ela anda com a perna firme, cheia de cicatrizes, como se fosse um soldadinho de chumbo. Nunca quer ajuda quando estendo a mão para ajudá-la, a não ser quando estamos em público. Quando estamos em público, me dá o braço como se fosse uma anciã endinheirada passeando com seu filho escritor. Seu filho escritor que sonha em ver suas frases em PowerPoints animados.

Assim que conseguiu, minha mãe se aposentou e fugiu pra sua casa de praia. É um condomínio decadente em que as paredes estão sempre descascando. Mas minha mãe não liga. Compra garrafas de vinho branco no supermercado por R$ 9. Não importa se é um bom vinho, por este preço é o melhor vinho que existe. Combina com o jogo semanal de cartas com as amigas. Combina com os filmes da Netflix. Combina com os livros da Martha Medeiros. Combina com as caminhadas no fim de tarde na areia. Combina com a leitura deste jornal.

Ela sempre avalia que meu texto tem muito a melhorar. Sempre diz que a Martha está maravilhosa. Quando colocaram nossas colunas na mesma página, em outro jornal, me mandou foto pelo WhatsApp: "Vocês dois na mesma página!". Naquele dia pensei: cheguei lá. Na boa, não há mais necessidade de colocar minhas frases em PowerPoints animados. Estou feliz com esse alcance. Com esta companhia. Com a alegria da minha mãe. E claro, com esse vinho de R$ 9.

PIANGERS



16 DE SETEMBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Algum dia

Algum dia, eu vou ser um produtor de documentários reconhecido em todo o país, tenho preparo, cultura, experiência, uma boa rede de contatos, conheço a fundo esse meio. Enquanto isso não acontece, vou tocar adiante uma ação inédita na área da gastronomia, tive uma ideia genial para lançar no Nordeste, conheço as pessoas certas para me ajudar a fazer deste projeto um divisor de águas nos hábitos alimentares do povo brasileiro, é só conseguir patrocínio. 

Para não ficar ocioso antes disso, estou pensando em passar um mês no interior do Mato Grosso fazendo fotos de pássaros, foram catalogadas mais de 200 espécies de aves num parque ecológico, farei uma sequência espetacular de registros do gavião-real e depois posso montar uma exposição que percorrerá todo o Brasil e a América do Sul e ainda lançar um livro arrasador. 

Aliás, dois livros, porque um dia vou escrever sobre a história dos açorianos que fundaram Porto Alegre e sobre a contribuição deles para a religiosidade local, um assunto ainda pouco abordado, mas que dará um livro incrível, é só começar a escrever, já está tudo na minha cabeça.

Algum dia, eu vou escrever também um poema de amor bem dilacerante e vou enviar para uma gata que vai querer casar comigo antes mesmo de chegar ao último verso, e a gente irá morar numa casinha rústica numa praia linda que ainda não tenha sido invadida por turistas e eu vou pescar e ela fará doces que venderá no armazém da vila e dormiremos em redes e terei então a vida que sonhei, só amor e simplicidade, bem longe desses abutres que sugam nossa energia. 

Eu poderia inclusive musicar esse poema que vou escrever pra minha futura mulher e montar uma banda, um dia vou aprender a tocar guitarra e então vou fazer um som de verdade, eclético, moderno e não esses embustes que tocam em FM e que viram jingle de refrigerante, e irei me apresentar nos clubes fechados de Berlim onde encontrarei uma plateia preparada para o vanguardismo da minha proposta. 

É certo que um dia vou morar na Europa, tenho o ouvido bom para idiomas e transito bem na cena artsy, poderia até fazer a curadoria de um festival de cultura latino-americana, os gringos prestigiam esse tipo de iniciativa e pode render uma grana boa, aí aproveito pra pegar um trem até Amsterdã, onde tenho uns amigos que me emprestarão o estúdio deles, eles vivem me chamando, um dia irei, é só fechar antes o contrato com a empresa de calçados para a qual apresentei um plano de vendas revolucionário, os caras são muito lerdos, não têm capacidade de avaliar o potencial de uma ideia que foge do lugar-comum, o mundo é muito careta, as pessoas são muito limitadas, mas logo depois do meu aniversário eu levanto dessa cama (jura, já são três da tarde?) e vou agilizar meu futuro. 

Pois é, faço 58 amanhã.

MARTHA MEDEIROS



16 DE SETEMBRO DE 2017
LYA LUFT

Os pacíficos e os ferozes


Tenho comentado como andamos esquisitos: nervosos, assustados, furiosos e ferozes, ou acuados espiando pelo buraco da fechadura. O que há lá fora? Quem quer nos fazer mal, isto é, a quem devemos atacar? Ou estamos deprimidos, mal-humorados, chatíssimos. O universo virou um Fla-Flu ou Gre-Nal, ou se é preto ou branco, ou direita ou esquerda, ou autoritário ou molenga, ou no Olimpo ou relegado às trevas exteriores. Precisamos de ideias, defender ideias, ah, as ideias.

Poucas vezes nesta vida já longa recordo tamanha hostilidade, tanto gasto de energia, tempo e palavras em insultos, mágoas e ironias, exposição de falsa cultura ou ignorância expressa, dedo apontado para acusar. Um punhalzinho nas costas também vai? Imagino que seja em boa parte porque somos bastante desinformados, mas arrogantes: gostamos de falar, falar, falar, sobre coisas que não entendemos direito nem digerimos bem. A desinformação é mãe de muita coisa negativa neste mundo, dizia meu velho e sábio pai.

Aquele político é um herói? Um mártir? Um bandido? Aquele artista é uma fraude ou um gênio? Aquele amigo nos trai ou é boa gente? Em lugar de debates racionais ou trocas de ideias, parecemos moleques jogando pedrinhas uns nos outros, ou meninas botando a língua na esquina de casa. Brigamos feio, ofendemos duramente, nem pensamos direito em tudo isso. E pela internet, melhor ainda: estamos protegidos de um soco, tiro ou facada: insultos bastam.

Talvez seja hora de curtir mais calma, mais lucidez, mais informação, menos precipitação, sobretudo se for em nome de cultura e arte: as duas já têm sido muito castigadas, eventualmente na maior boa vontade, pensando salvar a honra do que não precisa ser salvo porque se impõe por si, por sua qualidade, quando a tem. Política, então, quanta inteligência jogada fora. Tanta coisa útil a fazer, tanto estudante a estimular, tanto filho a abraçar, tanta família a reunir, tanta saúde a cuidar, tantos amigos a reunir, tanta humildade a aprender, tanto universo a discernir, tanta injustiça a corrigir, tanta maldade a evitar... Mas nos perdemos em duelos que extrapolam o verdadeiro tema, fustigamos a torto e a direito, muitas vezes sem sequer saber mais por que estamos lutando.

A vida anda complicada. O país está difícil. Ansiedade e desesperança nos oprimem. Pagar as contas, temer o desemprego e a violência, ter nossos jovens sob ameaça de bebida, droga, acidente e assalto, será que fomos bons pais, será que instruímos o suficiente, será que se sentem amados, será que... E por aí vai. Pessoalmente, sou boa com palavras, é o mínimo, mas não tenho prazer em debater quando não acredito numa causa. Facilmente me canso, a paciência não é uma virtude minha.

Então, parar para pensar, coisa tão temida, pode ser útil. Ouvir o bom senso é aconselhável. Cultivar algum bom humor, apesar de tudo ser um pouquinho generoso, informado e flexível pode reduzir essas guerrilhas que pouco ajudam, muito perturbam, instigam o preconceito, inventam monstros e nos fazem, em vez de criaturas construtivas e pacíficas, uma matilha feroz - enquanto o tempo e a vida estão passando e nós inutilmente nos desperdiçamos.

LYA LUFT

sábado, 9 de setembro de 2017



09 DE SETEMBRO DE 2017
CARPINEJAR

As camas estão mudas

É triste que as camas estão mudas no sexo. Não gemem mais. Não participam dos vaivém da nudez com os seus rangidos.

Os colchões são de espuma, ortopédicos, duros e firmes, os estrados têm uma firmeza de rochedo. Não existe mais o balanço de mar no balanço do amor.

O colchão de molas inspirava os amantes com os seus chiados. Era um trem apitando, era um barco em tempestade. O quarto inteiro tremia junto. As paredes falavam. O terço chacoalhava na cabeceira. Os quadros entortavam. As venezianas se mexiam. Os espelhos pediam perdão.

O aço nas vértebras da cama enfeitava as nossas emoções. Acentuava a passionalidade e a calidez dos encontros com os seus efeitos sonoros. Agia como um cupido do enredo dos corpos, soando as poderosas trombetas pela vizinhança.

Mesmo as transas mais tímidas eram espalhafatosas. Parecia que todos amavam com intensidade e paixão, com volúpia e pressa.

Não dava para disfarçar e amar quietinho. A cama sofria pelo casal. Gritava pelo casal. Urrava pelo casal. Uivava pelo casal. Humilhava o silêncio do resto da casa.

Assim que o par amoroso abandonava o aposento, a família soltava um risinho malicioso de quem ouviu tudo o que recém acabara de acontecer.

Qual a graça de transar hoje sem o risco de a cama cair? Relação feliz poderia acabar no chão, relação feliz vivia sob constante ameaça de desabamento.

Combinávamos força e precisão para nos mantermos dentro do tatame erótico. Namorar significava aguentar um terremoto. Pedia um equilíbrio extraordinário de beijar, não bater a cabeça e se equilibrar com as inclinações fortes da cama de ferro. Havia o sério risco de voar para longe e esfriar o contato.

Saudade da romântica cama de ferro, sempre recompensada pelos momentos barulhentos de prazer com uma colcha de chenille bem esticada.

CARPINEJAR


09 DE SETEMBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Descansou em paz

Durante alguns anos, convivi com uma senhora que trabalhou a vida inteira numa casa de família. Praticamente criou os filhos dessa família, que depois cresceram e seguiram amparando-a. Era uma mulher de alma boa, mas com uma vida desértica. Não sabia ler nem escrever. Não sabia identificar os números. Falava um português sofrível. Nasceu e viveu no interior do Rio Grande do Sul. Conheceu Porto Alegre, mas na Capital não conseguia pegar um ônibus ou fazer compras sozinha. Não teve filhos. 

Não se tem notícia de algum namorado, é bem possível que nunca tenha amado um homem. Colecionava bonecas mesmo depois de adulta. Era de uma ingenuidade assombrosa. Assistia televisão, mas entendia muito pouco do que via. Era uma mulher inocente que desconhecia a maldade, o sarcasmo, as segundas intenções. Cozinhava bem, seu grande dom. Fora isso, ter seis ou 60 anos não fazia a menor diferença, a não ser no aspecto físico. Nunca deixou de ser uma criança.

Soube que ela faleceu esta semana. Eu não a via há muitos anos e, quando soube da notícia, senti a melancolia natural de quem passa a recordar de alguém que já não habita esse mundo. Que eu saiba, não aconteceu nada de genial na vida dela, nada de minimamente empolgante, e isto me soou como um desperdício. Que graça tem viver a repetição sistemática dos dias, qual o sentido de existir sem arte, sem conhecimento, sem paixão, sem questionamentos? Me perguntei se ela teria sido feliz.

Imediatamente caí em mim: se bem a conhecia, ela nem sonhava com a possibilidade de haver outra opção que não a de ser feliz. Dava a impressão de que não reconhecia a existência de alternativas: ou isso ou aquilo. Só conhecia "isso": a vida dela, do jeito que era, sem desejos ou frustrações. Agradar às pessoas ao redor parecia ser a única coisa que queria fazer. Talvez tenha sido carrancuda algumas vezes, ou egoísta, ou desaforada: certamente foi, não era uma planta, e sim um ser humano. 

Mas nenhuma dessas reações vinha acompanhada de alguma consciência filosófica, de algum embasamento teórico. Ela não conectava suas emoções aos porquês. Impossível uma criatura dessas não ser feliz - ou perceber que é infeliz. Simplesmente, ela não racionalizava sobre seu estado de espírito. Não tinha recursos intelectuais para tal. Assim como ela, quantas outras vivem dessa maneira? Um mundaréu de gente, todos ignorantes de si próprios, mas nem por isso insatisfeitos.

Certa vez escrevi uma crônica chamada Minha Felicidade Não É a Sua, inspirada em um livro de Carlos Moraes. Lembrei dessa crônica ao pensar nessa senhora. O que sabemos nós sobre aquele que parece radiante ou sobre aquele outro que parece à beira do suicídio? Eles podem parecer o que for e seguiremos sem saber de nada, sem saber de onde eles extraem prazer e dor. É um atrevimento nos outorgar o direito de reconhecer, apenas pelas aparências, quem sofre e quem não.

Essa senhora que nunca leu, nunca viajou, nunca amou, nunca fez sexo, ou seja, que nunca experimentou os requintes e dissabores da vida adulta, parece ter desperdiçado sua vida. Mas estar no mundo apenas por estar, vá saber, pode ser uma forma sofisticadíssima de paz.

MARTHA MEDEIROS

09 DE SETEMBRO DE 2017
LYA LUFT

De primeira necessidade


Às vezes, paro para pensar - na verdade, faço isso com muita frequência, minha mãe já reclamava, "essa menina sempre no mundo da lua". Naquele tempo, eram sonhos. Hoje ainda são, mas dali resultam trabalhos: poema, artigo, romance. Conto.

Tenho pensado em como simplificar mais a vida, nesta fase que tantos temem, ah, a terrível passagem do tempo - mas por enquanto me agrada. Simplificar a roupa foi fácil, até porque nunca fui modelo de capa de Vogue. Calça comprida, camiseta preta, suéter ou um tipo quimono. Sapato idem, pois sou pesada e com um chatíssimo problema inato na coluna, ótimo é calçado rasinho.

Com o tempo, a maturidade, a experiência e alguma ousadia, fui simplificando várias coisas. Com algumas é difícil, exemplo: as relações pessoais. Não é fácil afastar sem ferir, sem despertar desconfianças, o bom sujeito que liga fora de hora para contar seu drama avisando que devemos escrever sobre isso ou exigindo um artigo de jornal contra algo que lhe desagrada. Aquela pessoa tão legal, que nos últimos tempos só fala de doenças, remédios, rancor contra tudo e todos: sombras de que ninguém precisa a mais na vida. Simplificar as saídas: sou realmente um bicho da minha toca, uma mulher da sua caverna. Minha casa sempre foi minha zona de conforto, por várias razões, inclusive fobias.

Quero poucas pessoas, assim me aflijo menos, eu que sou aflita: parceiro, família, amizades especiais, as fiéis funcionárias que me ajudam na enorme incompetência para o doméstico, e que eu quero bem. Os leitores que me dão tanta alegria com seu carinho. Sou feliz com as horas no computador, na poltrona com livro, ou olhando a paisagem, de onde me vem muita informação: aquela frase, aquela palavra, aquele personagem... ou simplesmente beleza. Os verdes mudando de nuance conforme o dia passa; os nevoeiros que deixam tudo mágico, do jeito que eu gosto. No Rio, até hoje meus amigos se espantam: "Essa gaúcha maluca gosta de dia com nevoeiro ou chuva!".

Também preciso simplificar o que ofereço à minha alma: reduzir o número de noticiosos a que assisto, fissurada desde sempre pelas loucuras (às vezes maravilhas) do mundo. Levar menos a sério algumas novidades médicas amadoríssimas ou prenúncios de mais desgraças, me interessar menos (de momento) pelas intrigas brasilienses e desastres do Congresso, que haveriam de me tirar o sono se os hospedasse por mais tempo e com mais atenção. A gente sempre pode se ajudar, se corrigir, se pegar no colo e se agradar um pouco, para não cultivar aquela extrema chatice que só resmunga, só se lamenta, só faz previsões das mais sombrias e, se desse, espantaria até a si mesmo do convívio cotidiano.

Mas eu lhes digo: não é fácil. Parece que a estrada está lamacenta demais, não se avança sem sujar o calçado. A irresponsabilidade geral está enorme, corrói a fímbria da alma; país e planeta andam adoentados, e é coisa feia. Nós, agarrados à casca desta terra, pobres cracas, precisamos nos dividir numa necessária esquizofrenia: metade atenta à chamada realidade, metade curtindo sonho, amores e beleza, que afinal ainda existem - e são produtos de extrema necessidade.

lya.luft@zerohora.com.br

sábado, 2 de setembro de 2017


02 DE SETEMBRO DE 2017
CAPA

A VOZ DELAS ECOA NAS REDES

Às 14h33min de 16 de agosto, uma mulher publicou um texto de 142 linhas no Facebook sobre o relacionamento que teve com um músico da banda Apanhador Só - no relato dela, um homem desleal, que usava artimanhas psicológicas para oprimi-la e chegou a quebrar seu dedo durante uma discussão. Às 18h01min do dia seguinte, o grupo anunciava a suspensão de suas atividades, por meio de um post na mesma rede social.

A repercussão rápida do caso, que logo se tornou assunto nacional, evidencia a força feminina na internet. Historicamente coadjuvantes em espaços tradicionais de debate, as mulheres amplificam e fazem valer a sua voz nos canais digitais - além de oferecer o ombro para as outras ou estimular alguma reação coletiva.

- O feminismo se popularizou, virou um debate corriqueiro. Não é mais assunto daquela meia dúzia de chatas que ficavam "pentelhando" os caras - resume Maria Fernanda Geruntho Salaberry, integrante do Coletivo de Mulheres da UFRGS e da organização da Marcha das Vadias.

Na última segunda-feira, foi a vez de a escritora Clara Averbuck publicar um relato pessoal no Facebook, afirmando que havia sido estuprada. "O nojento do motorista do Uber aproveitou meu estado (ela havia bebido), minha saia, minha calcinha pequena e enfiou um dedo imundo em mim", descreveu. 

O resultado imediato foi uma enxurrada de comentários de apoio, de mulheres e homens, e o aplicativo de transporte em duas horas e meia informava ter banido o motorista. Mais tarde, ainda no mesmo dia, a escritora incentivou: "Que meu caso sirva para que outras mulheres não tenham medo de expor o acontecido. Que não se culpem". Clara ainda convidou internautas a relatarem situações de assédio utilizando as hashtags #MeuMotoristaAbusador e #MeuMotoristaAssediador.

Acredita a ativista Maria Fernanda que, com o advento das redes sociais, as mulheres encontraram um ambiente para denunciar e também discutir sua realidade fora dos espaços convencionais - uma reivindicação que já durava décadas. Formaram-se grupos que permitem conversar sobre questões que poderiam deixá-las constrangidas individualmente. Nesses espaços, diz Maria Fernanda, elas recebem o amparo de outras mulheres:

- Antigamente, a mulher apanhava e achava que o problema era ela, achava que não estava fazendo direito. Hoje, entra na internet e percebe que não é só com ela. E outras mulheres se solidarizam.

Como descreveu a filósofa Marcia Tiburi em um artigo publicado em 5 de dezembro de 2015 em Zero Hora: "As mulheres que não se sabiam feministas estão se descobrindo, saindo do armário do patriarcado também pelos portais virtuais". Falando por telefone com a reportagem, ela aprofundou a argumentação, explicando que, de tempos em tempos, o movimento irrompe na história, valendo-se dos mecanismos de sua época. Contudo, pondera que, impulsionado pelas redes sociais, o feminismo cresceu no Brasil apenas como discurso, já que a representação política das mulheres continua ínfima:

- Nas redes, parece que tudo está andando muito rápido, mas não está. Há uma matança incrível de mulheres, uma violência inacreditável.

A historiadora Ana Maria Colling, especialista em história das mulheres e gênero, acrescenta:

- São novos tempos, mas a palavra de ordem segue a mesma da década de 1970, quando dizíamos: "Meu corpo me pertence". Se a palavra de ordem ainda é a mesma é porque alguma coisa não avançou.

Para a historiadora, de tanto ouvirem do marido, do padre ou de qualquer homem que são menores, por muito tempo, as mulheres se apropriaram desse sentimento.

- Mas isso está mudando - comenta Ana Maria Colling. - Eu não sou a mesma que foi minha mãe ou minha avó, e certamente nossas filhas serão diferentes.

Em movimentos como o feminismo, uma geração conquista, a seguinte usufrui e, em determinado momento, há uma geração posterior que naturaliza a nova realidade - dando-se conta de que ainda faltam avanços. Se há um resultado prático esperado do ativismo feminista nas redes sociais, para Ana Maria é a capacidade de desnaturalizar qualquer tipo de agressão contra a mulher, a começar pela cultura do estupro.

No combate online das violências contra as mulheres, as campanhas marcadas pelo uso de hashtags, como a lançada por Clara Averbuck, constituem uma das principais armas. Conforme levantamento divulgado em 2014 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 26% das pessoas entrevistadas concordaram com a afirmação "Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros". Na época, milhares de mulheres responderam divulgando fotos de seus corpos expostos acompanhadas da inscrição #EuNãoMereçoSerEstuprada.

Dois outros grandes movimentos estabelecidos nos canais virtuais tiveram muita popularidade: #meuprimeiroassedio, por meio da qual as brasileiras partilharam depoimentos sobre a ocasião inaugural e traumatizante em que se viram vítimas de abuso masculino, e #meuamigosecreto, com denúncias de práticas e comportamentos machistas que conheciam - sem revelar nomes.

Em abril deste ano, atrizes e apresentadoras de TV fizeram uma campanha contra o ator José Mayer, consequência de uma denúncia de assédio sexual da figurinista Susllem Tonani. Entre outras, famosas e anônimas, Fernanda Lima, Astrid Fontenelle, Alice Wegmann e Drica Moraes se mobilizaram com a hashtag #ChegadeAssédio e também com outra, que sintetiza a solidariedade e o engajamento das mulheres nas redes: #MexeuComUmaMexeuComTodas. A TV Globo chegou a suspender o galã em função do episódio.

Também houve recentemente episódios que começaram com a denúncia não da vítima, mas de testemunhas, caso da suspeita de agressão cometida por Marcos Harter contra Emilly Araújo no Big Brother Brasil, também da Globo - que culminou com a expulsão do participante. Igualmente midiática, a denúncia de Poliana Bagatini, grávida, contra o então marido, o músico sertanejo Victor, foi outra que acabou com a saída do acusado da televisão - ele teve suas falas cortadas de um episódio já gravado do The Voice Kids e pediu afastamento do programa. A dupla sertaneja viu sua agenda afetada - um show em Pelotas chegou a ser cancelado -, Victor foi indiciado e ele e sua mulher se separaram.

Angelo Brandelli Costa, professor do programa de pós-graduação em Psicologia da PUCRS, observa que são vários os grupos que agora conseguem fazer sua voz ser ouvida:

- A internet quebra hegemonias na ocupação dos espaços tradicionais de debates. Em termos de poder, a esfera pública sempre foi ocupada por grupos majoritários. Isso mudou.

Já Raquel Recuero, professora e pesquisadora da UFPel e da UFRGS ligada ao campo das redes sociais, relata que movimentos ganham força nessas mídias porque é mais fácil se mobilizar na internet e encontrar quem tem pautas em comum. O próprio algoritmo do Facebook "entende" o que o usuário quer ver e mostra mais sobre os temas de seu interesse, com base nas suas atividades online. O problema é que a mesma rede social que une também tem o poder de polarizar. É aí que, muitas vezes, impera a lei do extremo: se você não está a meu favor, é meu inimigo.

- Quando a conversa se dá pessoalmente, você vê o outro, e a tendência é amenizar determinadas questões, afinal, ninguém quer terminar toda santa conversa dando um soco no seu interlocutor. Na internet, falando diante de uma tela, as pessoas tendem a se exaltar. E o debate perde características importantes, uma vez que o objetivo passa a ser silenciar o outro - comenta Raquel.

A falta do "olho no olho" também facilita linchamentos morais das mulheres que se expõem fazendo as denúncias e também de homens que, em função de alguma atitude ou relato, são considerados machistas.

- Há projeções das massas sobre indivíduos e há manipulações das massas. Hoje em dia, as pessoas pensam de maneira insuficiente sobre o que estão fazendo, além de desconhecerem o campo do Direito. Às vezes estão xingando o outro e cometendo um crime, mas não sabem que não se pode caluniar, difamar - diz Marcia Tiburi.

A filósofa acrescenta que as redes são um espaço de denúncia, de escândalo e de mistificação, no qual qualquer um exerce sua visão de mundo como um "inconsciente a céu aberto". Mas ela pondera: as ideologias às vezes se apresentam na sua verdade e, noutras, no seu esvaziamento:

- Muita gente usa as redes sociais em busca de diálogo, para expandir suas perspectivas. Ao mesmo tempo, parece que basta chegar na internet e se autoafirmar. O simples fato de se dizer feminista amplia o cenário do feminismo, mas não amplia a qualidade do feminismo que se propõe - opina. - Há de se tomar muito cuidado com essa carnavalização. O feminismo não é uma coisa fácil. Se fosse, a gente já teria transformado a sociedade.

O papel que o homem deve exercer nesse debate não é consenso. Há quem queira que eles participem, há quem queira integrá-los, mas também há quem reserve ao público masculino um espaço limitado.

A ativista Maria Fernanda compara esse debate a uma assembleia de trabalhadores - diz que os patrões não participam da reunião porque legislariam em causa própria. Ela defende que ter homens no debate pode inibir as mulheres - e eles podem, ainda, querer falar mais alto que elas:

- Temos 10 mil anos de patriarcado, do homem decidindo as coisas. Eles não estão acostumados a ficar quietos.

A solução, segundo Maria Fernanda, é que eles conversem sobre feminismo com os cerca de 3,5 bilhões de homens que há na Terra, poupando as cerca de 3,5 bilhões de mulheres.

- Você acha que está qualificado para discutir sobre situação das mulheres? Converse com seu brother que é mais machista do que você, ou com seus filhos, sobre como se deve respeitar a mulher. Não vai faltar gente para você conversar - diz a ativista.

A historiadora Ana Maria vê a questão de outra forma. Para ela, o debate não deve ser uma "briga de dois exércitos" - mulheres versus homens:

- Se o homem é feminista, pode vir participar. O que não se quer é que participe um homem ou uma mulher machista.

Para o escritor Fabrício Carpinejar, antes de qualquer outra coisa, o homem tem de aprender a não ser o centro das atenções e começar a ouvir mais do que falar. Depois disso, deve praticar uma velha qualidade (que muitas vezes se perde nos debates das redes sociais): a empatia. Ele prega que o homem tem de se colocar no lugar da mulher - um lugar em que, historicamente, nunca esteve.

Carpinejar compartilha da ideia de Ana Maria, de que os homens se sentem amedrontados, acuados diante da iminência feminista nas redes sociais.

- Mas eu acho que o susto é uma forma de sensibilidade. Os homens pensam: não posso mais ser do jeito que eu era, então como vai ser agora? - diz o escritor. - Hoje uma vida privada é uma vida pública, não é mais permitido ter duas caras.

A respeito de uma possível sensação masculina de que "não se pode falar mais nada", Brandelli Costa comenta:

- Essa cultura de que debate a respeito de gênero deve ser silenciado é conivente com injustiças e violências contra mulheres.

jessica.weber@zerohora.com.br


02 DE SETEMBRO DE 2017
PIANGERS

Deu bandeira!

Foi com algum constrangimento que falei sobre maconha com minha filha pela primeira vez. Ela tinha 10 anos. Não pelo tema, que aqui em casa achamos que é dever dos pais falar sobre tudo, mas pela situação. A menina estava fazendo um trabalho escolar sobre o México, cartolina com letras enfeitadas contando a história da nação, e bem grande no meio do cartaz tinha uma bandeira mexicana tirada da internet. 

Era a bandeira do México, sem dúvida, verde branca e vermelha, a águia com uma serpente no bico, ramos de louro embaixo, mas, na bandeira que minha filha pegou da internet, uma gigantesca folha de sete pontas aparecia em destaque na boca da águia. Se você procurar bandeira do México no Google Images vai encontrá-la, no meio de tantas outras bandeiras mexicanas caretas, a bandeira que minha filha escolheu. Achei esta mais enfeitada, me disse a pequena. Mas esta tem uma folha a mais, não é a bandeira correta, argumentei. É a mais bonita, ela me disse.

Bonita ou não, por alguns momentos pensei em deixar que a menina fizesse a apresentação na frente da turma. A professora, talvez, nem notasse. Minha filha iria mostrar as virtudes do batalhador povo mexicano, explicando o brasão de armas e o deus da guerra, e quando perguntada sobre a estranha folha no bico da água diria: "é só um enfeite". 

Mas sempre existe um garoto de 10 anos com um irmão mais velho, um garoto que já identificou um padrão nas roupas do irmão e perguntou o que era aquela planta na camiseta, no boné ou no caderno. Identificando a folha, denunciaria para toda a turma: "Maconha! Aquilo é maconha!". Minha filha diria que é apenas um enfeite que deixa a bandeira mais bonita, mas tenho certeza de que o mole impactaria sua nota.

"É uma planta ilegal que as pessoas fumam pra ficarem tipo bêbadas", disse pra ela. "Pegaria mal usar essa imagem no trabalho de classe", expliquei. "Mas porque as pessoas não bebem cerveja pra ficarem bêbadas?", perguntou Anita, a menina das argumentações intermináveis. "Algumas preferem fumar", expliquei, relembrando os colegas da faculdade. "Mas porque cerveja é legalizada e essa planta não?", me perguntou a menina. É uma boa pergunta, eu reconheço. Não sei porque eu insisto em responder às perguntas infantis. Crianças são especialistas em perguntar, eu sou um amador na arte de responder.

"Anita, simplesmente tira esta bandeira do México e substitui pela bandeira sem a folha", eu disse. "Por favor!" Substituição feita, trabalho apresentado, Anita voltou pra casa com uma nota oito. Foi prejudicada por alguns erros de português. Desatenção boba, você sabe como é. Papai aqui ficou tão atrapalhado com a bandeira que não deu atenção pro trajeto com g.

PIANGERS


02 DE SETEMBRO DE 2017
CARPINEJAR

Fisioterapia do coração

Quem sofre por amor perdido precisará encontrar a calma dentro do desespero. É quase insuportável, mas até hoje não existe outro jeito. A tranquilidade será obtida fazendo tudo a contragosto, mas nunca deixando de fazer. Nunca deixar de pontuar, ainda que sejam empates modorrentos. Nunca deixar de comparecer na rotina. Nunca deixar de seguir o cotidiano mais banal, mesmo não querendo. Nunca deixar de conversar, apesar do silêncio longo das lembranças magoadas.

Não deve, de maneira nenhuma, fingir felicidade, apenas não seja sufocado pela imobilidade. Ocupe os seus horários para o tempo não se fixar inteiramente naquela pessoa perdida.

É não ter vontade de dormir, e resistir na cama, no escuro, para o sono finalmente aparecer com seu livro monótono. É não ter vontade de abandonar o quarto e abrir as janelas para a claridade impor a sua realeza e realidade.

É não ter vontade de sair, detestar o sol brilhando nas árvores, e dar uma caminhada pelo bairro.

É não ter vontade de comer, enfrentar a careta e juntar força para levantar quatro garfadas grandes por refeição.É não ter vontade de cuidar dos filhos, e entender que eles não têm nada a ver com as suas escolhas erradas e não merecem sangrar junto.

É não ter vontade de tomar banho e entrar no box por obrigação, forçado por si mesmo, carregado por si mesmo, como alguém que depende da ducha fria para acordar da bebedeira dos pensamentos.

É não ter vontade de trabalhar e desenvolver projetos dentro daquilo que é possível, perdoando a lentidão com a constância. 

É não ter vontade de arrumar a casa e seguir lavando a roupa, ligando a máquina, mantendo o esforço braçal de estender as peças prendedor por prendedor. Doerá o gesto alçado ao céu, entretanto respire fundo e vá colocando bandeiras brancas em seu varal.

A aparência de ordem ajudará o caos interno a ser menos barulhento.

A dor é egoísta e deseja que suspenda a rivalidade: desmarque qualquer compromisso e pare qualquer prazer para senti-la completamente. Combata a exclusividade da angústia mantendo as suas tarefas mínimas: levantando quando não há esperança, passeando quando não há força, cantando uma canção favorita bem alto quando o choro roça a garganta e embaça os olhos.

A comida não terá gosto, a água não levará embora a sujeira por dentro, o dia não se mostrará aventureiro, nenhuma frase alheia apresentará relevância, nenhuma viagem provocará curiosidade, nenhuma visita despertará atenção, porém continue a estar presente de corpo - o espírito virá depois, o espírito volta.

Separar-se é perder a alma e prosseguir com o casco. É uma fisioterapia exaustiva e, a princípio inútil, para voltar a estar de pé. Você não consegue enxergar a recuperação porque a ruptura é recente e a vergonha é imensa. E também porque recomeçar do zero sempre será mais difícil, envolve uma ideia de retrocesso e derrota.

Mas a contrariedade cura pois lhe conservará ativo.

Um passinho de cada vez, não mais que isso, não menos que isso. Seja um passarinho caminhando sem pressa de voar e, assim, fortalecerá os pés das palavras para readquirir, lá adiante, o amor pela vida.

CARPINEJAR


02 DE SETEMBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

A distância entre mim e o caos


Desliguei o computador, abandonei revistas e jornais na área de serviço (mausoléu das más notícias), escolhi um livro e fui para a sacada tentar dar ao sábado uma cara de sábado mesmo, e não de segunda-feira. Essa mania de trabalhar nos fins de semana pode ser muito produtiva, mas é preciso saber parar e experimentar a vida sem a ajuda de aparelhos.

Antes de abrir o livro, olhei para fora. Moro num andar alto, e a vista que tenho é bem abrangente. Enxergo minha rua, esquinas, os prédios vizinhos, algumas casas e um parque, e também uma avenida ao longe, um posto de gasolina e a copa das árvores de outro parque. Até dois morros, eu enxergo. Nos edifícios mais próximos, posso inclusive bisbilhotar o que acontece no interior dos apartamentos, meu momento "janela indiscreta" sem precisar de luneta.

Sendo assim, como se estivesse diante de uma tela panorâmica, passei a observar um casal lá embaixo passeando com o cachorro, um homem empunhando uma raquete de tênis e caminhando rumo ao clube, um carro que passou em baixa velocidade sem colidir com outro e sem atropelar ninguém, uma idosa em pantufas e robe de chambre pendurando roupas no varal do seu pátio, uma garota adolescente caminhando com fones de ouvido e cruzando com um garoto que não a assaltou, um homem sentado numa cadeira de praia na calçada, tomando seu primeiro banho de sol do segundo semestre, a persiana de uma janela sendo aberta no prédio ao lado sem que nenhum deprimido saltasse lá de dentro, o porteiro batendo papo com o entregador de pizza sem que nenhuma gangue o rendesse a fim de fazer um arrastão nos apartamentos. 

Estava tudo dentro de uma fascinante normalidade.

Assim tem sido aqui nas redondezas. Eu caminho todos os dias pelos quarteirões, vou a pé para o estúdio de pilates, percebo orquídeas nascendo em árvores, moças passeando com carrinhos de bebês, gente saindo com seu automóvel de dentro das garagens. É bem verdade que já escutei tiroteio de madrugada, já escutei sirene de viatura, já escutei histórias de roubos, que é quando minha vizinhança se aproxima das notícias da tevê e das queixas que transbordam no Facebook, mas ver, nunca vi.

Finalmente, abro o livro, que narra conflitos psicológicos sem nenhum derramamento de sangue, e me dou conta do silêncio da minha casa e da minha circunstância. Nem uma freada brusca, nem uma ambulância ruidosa e apressada, nem mesmo o miado do meu gato interrompe minha concentração e minha fé - está tudo em suspeita calmaria.

A violência da vida se mantém muito bem escondida quando estou desconectada. Quase acredito na paz.

MARTHA MEDEIROS

02 DE SETEMBRO DE 2017
LYA LUFT

Caio F.

No dia 7 de setembro, quinta-feira, haverá no Theatro São Pedro o início de um festival sobre Caio Fernando Abreu. Não vou poder estar presente, mas gravei um pequeno depoimento que deverá me representar naquela hora.

Minha relação com Caio foi singular: dez anos mais moço do que eu, aniversariando um dia depois de mim, eu o conhecia de nome desde seu primeiro livro, sobretudo por comentários inusitados de severos professores e críticos literários: "Esse rapaz nasceu pronto. Raríssimo um escritor nascer pronto".

Muitos anos depois, Luciano Alabarse pergunta se eu permitiria que ele encenasse um de meus romances, Reunião de Família. Como sempre, minha primeira reação foi dizer não. Nem eu sei por que fobia, quase sempre esse é meu primeiro movimento. Depois, aceito o que me parece bom, e possível: já não estou disposta a cruzar o país dando palestras e entrevistas. Um começo de sabedoria me faz cultivar minha toca, meu sossego.

Mas quando Luciano comentou que a adaptação seria de Caio, que tinha gostado muito do livro, superei minha hesitação e concordei, quase feliz. Daqueles dois juntos, só podia sair coisa boa. Foi assim que algumas vezes Caio F. e eu nos encontramos, em geral na minha casa. Nasceram amizade, profundo respeito, lealdade. E um humor meio nosso, a que vou me referir mais adiante. Aliás, ele comentava com amigos: "A Lya, com aqueles cândidos olhos azuis, não sabe nada daquilo que escreve, as loucuras e tragédias. É tudo psicografado". E ria, voz grave e olhos brilhantes, misto de ironia e ternura.

Continuamos amigos, raramente nos encontrando, ele em São Paulo ou Londres, eu aqui em Porto Alegre e por pouco tempo no Rio. Nos escrevíamos, aquela coisa nada regular do Caio, duas, três longas cartas, deprimidas e angustiadas, outras engraçadas: "Estou feito uma velhinha inglesa, varrendo a casa, tomando chá, nada de drogas, nem sexo, nem coisa nenhuma. Um santo". Falava de solidão, desencanto, falta de dinheiro, amores infelizes.

Pouco antes de sua morte, já sem receber visitas, do hospital, alguém me ligou: o Caio queria falar comigo, pedia que eu ligasse. Há um bom tempo não nos víamos nem nos falávamos, talvez desde que elogiei, comovida, o pungente artigo em que comentou sua doença. A enfermeira passou o fone para ele, a voz era a mesma. A pergunta veio direta, e simples: "Lya, o que você acha que vai acontecer comigo, quando eu me libertar deste corpo?". Olhei pela janela, lembro que chovia forte: "Acho que vai ser como deve ter sido nas mortes recentes das duas pessoas que amei muito: pura intuição, deslumbramento. Numa fulguração, vamos entender tudo isso que aqui nos intriga tanto, e por isso escrevemos".

Breve silêncio, ele então disparou: "E se não for assim?". Respondi espontaneamente, com aquele humor meio louco que havia entre nós: "Olha, Caio, se não for assim, se depois desta vida complicada a gente descobrir que existe um Deus rabugento com fita métrica na mão para nos avaliar, nós dois vamos virar uns diabos bem loucos e fazer muita maldade neste mundo".

A resposta foi aquele riso, na sua voz inesquecível. Poucos dias depois, ele morreu. Mas sua voz, sua arte, seu gênio, suas dores e amores, e nossa despedida, estão aqui comigo para sempre.

lya.luft@zerohora.com.br