quinta-feira, 19 de outubro de 2017


19 DE OUTUBRO DE 2017
LYA LUFT

Palavras como balas de goma


Engraçado, mas a maioria de nós tem medo das palavras. Da palavra escrita, então, é um terror, pois parece definitiva, mesmo agora, no computador, podendo deletar a qualquer hora. Aliás, deletar nos salva tantas vezes. Substituir também. Comecei a usar computador, acho eu, quando os primeiros escritores no Brasil começaram, e foi para aliviar o meu trabalho braçal de tradutora, às vezes lidando com isso por muitas horas todo dia.

Depois, o definitivo grito de liberdade quando, antes de entregar originais de um romance meu para a editora, já escrito no computador, na última hora achei que o nome da personagem principal, a narradora, Teresa, era um nome muito forte, ela frágil. Num impulso, pra variar, botei o "substituir" e troquei "Teresa" por "Nora". Alguém me explica por que o segundo me pareceu mais fraco? Mais líquido, menos toc toc toc do que Teresa, começando com T? Não há muita explicação para nossos amores e predileções, coisas lá nos subterrâneos do inconsciente, ou meros caprichos.

Esta que aqui escreve é apaixonada por palavras desde muito pequena, para quem elas lembravam pedrinhas coloridas ou saborosas balas de goma. Elas eram borboletas nos meus pensamentos. Lindas ou assustadoras, amigas ou desafiadoras, não fazia mal.

Não sonhava, então, usá-las profissionalmente, mas acaba que com elas ganhei a vida e ainda pago as contas. Nestes tempos em que tanta gente tem coisas a dizer, e diz alto e bom som, pedagogicamente querendo ensinar todo mundo, as palavras retomam seu valor. Só que, pobres de nós, tendemos a usar clichês. 

E, quando são os ideológicos, os deuses se compadeçam de nós: que cansaço. Perdem-se amizades, desfazem-se amores, ofendem-se pessoas ou se decepcionam outras, porque nos agarramos às palavras que, pensamos, expressam nosso pensamento. Será? Teremos pensamento claro, livre, dominante, ou corremos atrás das ideias de outros, ainda tendo enrolados nos tornozelos os ramos das nossas crenças adolescentes?

Tudo muito chato, penso com frequência. Possivelmente outros também me achem assim, muito chata. Uma atriz certa vez disse que detestava meus livros porque eu escrevia "sempre a mesma coisa". Não chego a tanto, mas a verdade é que todo artista tem seus temas centrais, ou sua frase vital, e a repete disfarçando, aqui e ali, pelo resto da vida. 

Eu, em geral, escrevo sobre família e seus desencontros. Sobre pessoas diferentes e sua solidão. Quando pinto (nisso não sou profissional, mas amadoríssima), acabo fazendo nuvens e ondas. Coisas que me dão prazer. Andamos curtindo pouca alegria por aqui, notícias espantosas, receios esquisitos, bizarrices demais.

Então, nesta minha última interinidade de Verissimo, viva às palavras que nos formam, conformam, confortam, espantam e eventualmente transfiguram.

* O colunista Luis Fernando Verissimo está em férias - LYA LUFT

sábado, 14 de outubro de 2017



14 DE OUTUBRO DE 2017
CARPINEJAR

SHIMEJI OU SHITAKE?

Quando abrimos o cardápio de um novo restaurante japonês, eu e minha esposa não lembramos se gostamos de shimeji ou shitake. Como que esquecemos de novo? Paramos com o dedo entre as duas porções de cogumelos. Qual será mesmo a de nossa preferência? Shimeji ou shitake na manteiga?

Sofremos de um lapso mútuo, de um Alzheimer amoroso. E vacilamos o pêndulo da mão diante dos números dos pratos.

- Não acredito que não me lembro - diz Beatriz. - Não acredito que também não me lembro - respondo. Já comemos dezenas de vezes. É, inclusive, um de nossos menus prediletos, ao lado do carpaccio de salmão, do guioza e do sashimi.

Porém, há um bloqueio inexplicável de nossa parte. Não guardamos os dados. Somos um Google offline naquela hora.

Coisa estranha. Raciocinando em perspectiva, não é um fato isolado. Existem lembranças que não se fixam por algum motivo inaudito. Registros impossíveis de se decorar. Pode ser um telefone discado com frequência que não entra na cabeça de jeito nenhum. Pode ser o nome de uma cidade recorrente que escapa das sinapses.

Surpreendente é o esquecimento mútuo, o esquecimento sincrônico, eu e ela repetindo a dúvida pela enésima oportunidade.

Chamamos sempre o garçom para esclarecer o dilema. - Qual dos dois é o menor? - questionamos. - O shimeji - o garçom explica. - Queremos o shimeji! - exclamamos em uníssono.

Batemos palmas, gritamos gol, festejamos com beijos. O atendente deve se espantar com o nosso contentamento, exagerado para uma informação trivial.

É que o alívio dá realmente um barato próximo da droga - assim como espirrar é bom, por mais desagradável e barulhento que seja.

Desobrigar o cérebro a mais uma tarefa traz leveza e picos de endorfina.

Rimos sem parar dali por diante, nunca duvidando de que o nosso amor é o grande. A gente nunca erra esse pedido.

CARPINEJAR


14 DE OUTUBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

KEEP CALM e não vire um reaça

Aquele carrancudo que entrou e saiu do elevador sem dar bom-dia não tem nada contra você, o problema é que ele, além de não ter o hábito de ser cortês, descobriu ontem à noite que a mulher com quem casou há dois anos tem um amante.

O apressadinho que está buzinando de forma alucinada atrás do seu carro não tem nada contra você. Além de ser naturalmente mal-educado, ele dormiu apenas três horas esta noite e não tomou café da manhã, o que não colaborou para melhorar seu precário humor.

A mulher que postou na sua página do Face uma ofensa despropositada porque discorda das suas ideias não está com raiva de você, ela nem entendeu direito o que você quis dizer, aliás, ela nem sabe quem você é. A coitada não se conforma de nunca ter passado num concurso público e esse frustração transformou a mulher num azedume ambulante.

O cara que furou a fila não está competindo com você, ele já perdeu pra si mesmo faz tempo. O chato que conta piadinhas machistas não está querendo provocar você, é que o infeliz não pega ninguém. O colega que questiona tudo que você faz não está querendo importunar você, óbvio que o sujeito tem baixa autoestima. Aquele olhar atravessado que a passageira do ônibus deu pra sua roupa não é uma crítica a você, ela é que não tem coragem de se expressar com mais criatividade.

Somos todos inocentes das neuras, traumas, complexos e distúrbios alheios. Se a pessoa surta, se a pessoa faz estardalhaço, se a pessoa briga por qualquer coisa, não é contra você nem contra mim, a encrenca é com ela mesma. Taí uma fórmula precária, porém bem intencionada, de colaborar com a paz no mundo: não dê trela.

Mantenha a calma e reserve toda sua indignação para quem está realmente atrapalhando sua vida com total consciência disso. Política, sim, é sobre você, sobre mim, sobre nós todos, não tem atenuante. É com essa corja que temos que nos entender - ou nos desentender. Mas com inteligência. 

Não caia na conversa de qualquer oportunista que surgir com um discurso preconceituoso e radical, tipo um Trump tupiniquim, destes que prometem colocar ordem na casa, mas que não passam de ignorantes que só aprofundam o atraso da nação. Você não precisa decidir agora em quem votará para presidente em 2018. Cuide para não ser reacionário, porque a tentação é grande. 

O país está nervoso, e a tendência é confundir ditadura e conservadorismo com salvação. Não dê aval para este brutal retrocesso. Não acredite em mitos, em frases de efeito, em extremismos. Aguarde até saber quem serão os candidatos, qual o comprometimento de cada um deles, seu passado, seu currículo, suas propostas de desenvolvimento econômico e inclusão social, e aí sim, pense, pondere e dê o troco com sanidade - não com desespero.

MARTHA MEDEIROS


14 DE OUTUBRO DE 2017
CLÁUDIA LAITANO

PERDEU, PLAYBOY


Quando um psicopata mata a família ou coloca fogo na casa, sempre aparece um vizinho espantado para dizer que o assassino era um sujeito pacato, desses que plantam violetas no jardim. O magnata do cinema Harvey Weinstein, 65 anos, era mais ou menos o oposto desse tipo de criminoso discreto e anônimo que floresce à sombra da própria insignificância. Cofundador da produtora Miramax (batizada em homenagem a seus pais, Miriam e Max), responsável pelo sucesso de filmes como Pulp Fiction, O Paciente Inglês e Shakespeare Apaixonado, Weinstein era até o mês passado um dos homens mais poderosos - e impunes - de Hollywood.

Desde que uma reportagem publicada no The New York Times levantou a lebre, atrizes e modelos famosas têm feito fila para relatar episódios de assédio sexual envolvendo o produtor. Os casos eram tantos e tão conhecidos que um site se deu ao trabalho de recolher referências cômicas ao comportamento "expansivo" do produtor em séries, talk-shows e até no anúncio das indicadas ao Oscar de melhor atriz coadjuvante de 2013. Ou seja: nem as lajotas da calçada da fama foram pegas de surpresa.

Na última terça-feira, uma reportagem publicada na New Yorker colocou ainda mais lenha no escândalo. O repórter Ronan Farrow (filho de Mia Farrow e Woody Allen) apurou uma série de casos de diferentes tipos de agressões sexuais envolvendo o produtor. Entre as vítimas, atrizes como Mira Sorvino, Rosana Arquette, Angelina Jolie e Gwyneth Paltrow - nada menos do que o Olimpo hollywoodiano.

O roteiro do ataque, ao contrário da maioria dos filmes que Weinstein produziu, era repetitivo e pouco inspirado. Sob o pretexto de alguma reunião de trabalho, o produtor atraía as atrizes para o quarto de um hotel de luxo. Quando a estrela se distraía, o patrão se apresentava apenas de roupão - pedindo ou oferecendo uma massagem (sério?). 

Se elas resistiam, Weinstein argumentava que a "massagem" era "parte do business". Se o repeliam, eram ameaçadas de retaliação. Algumas perderam trabalhos, outras foram difamadas por notícias plantadas em jornais de fofocas. A maioria simplesmente ficava calada, com medo ou vergonha. Weinstein não brincava em serviço.

Em 2015, porém, a jovem modelo italiana Ambra Battilana Gutierrez, com 22 anos na época, decidiu pedir ajuda da polícia e levou um gravador para a "reunião" no hotel. A gravação faz parte da reportagem da New Yorker. Perdeu, playboy.

Sim, nos últimos dias, o playboy perdeu o emprego (na própria companhia), a mulher (que pediu divórcio), os amigos e o que ainda lhe restava de reputação depois de três décadas de abuso de poder. Por um lado, parece que a justiça foi feita. Ainda assim, é assustador perceber que mesmo quando as vítimas são ricas ou famosas é muito difícil romper a capa de impunidade que protege homens como o ex-médico Roger Abdelmassih, o comediante Bill Cosby ou o produtor Harvey Weinstein. Uma capa tramada não apenas por dinheiro e poder, mas pela histórica - e ainda tolerada - naturalização da violência contra o desejo das mulheres.

CLÁUDIA LAITANO


14 DE OUTUBRO DE 2017
LYA LUFT

Os iconoclastas e um vaga-lume


Na última semana, escrevi, quinta-feira (como interina do Verissimo, que está de férias), que andamos demasiadamente parecidos com aquele burro falante que meu pai gostava de mencionar: fala alto, muitas palavras, grande convicção, feliz da vida..., sobre assuntos de que pouco ou nada sabe. Ou "para se fazer de interessante!", dizia minha mãe, já que hoje dei pra citar os pais.

Mais se entusiasma ainda essa criatura quando, achando-se original, segue uma parte da manada derrubando conceitos sem analisar, dando pontapés em filosofias sem entender, fazendo suas necessidades 1 e 2 em cima de coisas que nem consegue avaliar. Algumas manifestações de leigos ou artistas nesses dias me impressionaram, como alguém comendo (espero que de mentirinha) um absorvente de onde escorria sangue (espero que falso). A que levaria isso? Por que estamos tão agressivos, dispostos a decepar cabeças e cuspir nos outros? Por que assumimos essas brigas e cruzadas hiperbólicas? Inquietação, medo, indignação, decepção - confusão mesmo?

Falando com um filósofo (de verdade...) outro dia, ele me lembrou de que estamos mais para iconoclastas do que para criadores de boas coisas. Tanto se desfez o conceito de arte, tanto se destruiu, tanto bancamos os moderninhos e seguimos - sem informação e humildade, essenciais - o que nos pareciam novidades luminosas, que aos poucos tudo foi-se esboroando. Cada um fala o que quer, apresenta o que bem entende, e ai de quem não considerar arte panela de fezes ferventes, pingolim cortado e outras belezas.

Se estranhamos, vêm os que vociferam: então vocês defendem a censura? Então vamos quebrar o David de Michelangelo, cobrir teto e paredes da Capela Sistina... e outros delírios mais. Um momento, gente! Um pouco de bom senso e humildade faz bem! Ninguém pensa em censurar arte. Por outro lado, nem todo mundo quereria suas criancinhas induzidas a manipular uma pessoa nua (que não é uma escultura...). 

Em muitas casas, nudez é natural. Não em todas. Então a primeira lei seria respeitar as diferenças de costumes, assunto do dia - o que acho muito bom! Mas não precisamos exagerar. Logo, quem não é gay nem trans nem bi ou poli será objeto de preconceito e terá de sair às ruas para se defender. Que cansaço.

Melhor prestar atenção no que acontece aqui neste pobre país, onde até no Supremo reina confusão, onde está quase decretado que raposas serão julgadas por raposas, e as galinhas vão se ferrar de maneira fenomenal. Onde a miséria reina, gente morre de falta de higiene, mulheres dão à luz no chão, velhos morrem em macas, crianças estão sem escola, e corremos nas ruas como ratazanas caçadas.

Mas fiquei feliz na última semana com a conversa, na Federasul, no Tá na Mesa: carinho, respeito, cumplicidade, ótimas perguntas, e a sensação de que, sem romantismo algum - como é meu caso em relação ao país -, sempre há uma luz logo ali. Pode ser só um vaga-lume... mas é luz.

lya.luft@zerohora.com.br

sábado, 7 de outubro de 2017



07 DE OUTUBRO DE 2017
CARPINEJAR

Saídas de emergência

Minha escola pública não tinha um único portão de entrada e saída. Na verdade, tinha. Mas eu não poderia arriscar. Vivia no coliseu de Roma. Não se matava um leão por dia, fugia-se dele.

Em minha turma da segunda série, havia meninos muito maiores, já de bigode, que haviam rodado três anos seguidos. Eles roubavam a merenda e criavam um método nada refinado de tortura psicológica com apelidos e ameaças. Era apenas não dar cola na prova que qualquer um já virava jurado de briga.

- Vou lhe pegar na saída!

Quando um dos membros da gangue dos repetentes dizia tal sentença em voz alta, a escola inteira espalhava o indício de briga depois do último período. Improvisava-se a arena na praça, defronte à escola, longe dos professores e das advertências do SOE. Uma escolta de curiosos e mórbidos levava o condenado para o abatedouro e não lhe permitia pensar e declinar do perigoso convite.

No momento em que alguém prometia guerra, não se admitia covardia. A pessoa marcada ficava assinalada para sempre. Até conhecer o sangue de sua boca e perder os dentes de leite.

Terminava sendo a vítima predileta: franzino, desengonçado e de fala fina. Um ideal saco de pancadas para demonstração de virilidade dos agressores. Eu passava o recreio testando acessos de emergência. Poderia ter sido bombeiro.

Conhecia a segurança da estrutura na palma da minha mão. Pulando duas grades da casinha de jardinagem, eu chegava à rua pela lateral do prédio. Eu me vali desse atalho algumas vezes, corria pela escadaria da Rua Itaqui e contornava cinco quadras. Fiz sempre caminhos mais longos no retorno ao lar. A ida para escola durava 10 minutos, a volta demorava meia hora. A mãe devia pensar que me distraia poeticamente com os pássaros, mas apenas escapava da fundo mortal dos cruzados de meus colegas. 

O sinal mal soava e já disparava, encerrava as tarefas com antecedência para deixar a mochila pronta e escapulir sem perseguição. Pelo tempo apertado, às vezes, não conseguia me desvencilhar do rebanho e dos dedos em riste na minha cara. Daí fingia ir ao banheiro e descia para a quadra de asfalto do futebol, o que me restava saltar do paredão de três metros. A sorte é que uma carroça largava sacos de lixo com jornais e papéis velhos no terreno, que amortizava a queda. Preferia quebrar a perna pulando a dar ao outro a honra das feridas.

Para sair da escola, não dependia de boas notas. Exigia um tanto de preparo físico e de resiliência.

Quando não vejo saída, guardo ainda o costume de abrir as portas de meu medo.

CARPINEJAR


07 DE OUTUBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Uma história


Mesmo quem não é noveleiro deve lembrar: em fevereiro de 2014, o país parou para ver o primeiro beijo gay na Globo, trocado pelos atores Mateus Solano e Thiago Fragoso no último capítulo da novela Amor à Vida. Os índices de rejeição à cena foram mínimos se comparados à sua ampla aceitação. Na ocasião, eu estava em Gramado, assistindo à tevê num quarto de hotel, e me lembro de ter escutado fogos de artifício quando os lábios dos dois se encontraram, e não havia jogo de futebol acontecendo.

Corta para o primeiro capítulo da novela Babilônia, reunindo duas grandes divas da dramaturgia nacional, Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, totens da dignidade, cujos personagens deram um selinho que iria repercutir estrondosamente nas rede sociais: foram condenadas ao fogo do inferno. Um único segundo de afeto lésbico e o mundo caiu.

A diferença entre uma cena e outra: o casal de homens havia construído uma história durante todo o período em que a novela esteve no ar. Aproximação, dificuldades, dores, alegrias, superações. O beijo foi um epílogo natural. Já daquelas duas senhoras, no primeiro capítulo, ninguém sabia nada ainda, e não obtiveram perdão. Ganhar nossa condescendência assim, de forma instantânea? Sem chance.

Saindo da ficção para a vida real. Dois políticos escolhidos aleatoriamente para ilustrar este pensamento: Geddel e Lula. Por que é mais fácil condenar um do que o outro?

Porque Geddel não tem história. Este sobrenome estreou na nossa rotina há alguns meses, ninguém sabe de onde ele veio e pouco se importa para onde ele vai, ninguém reconheceria sua foto se a mostrassem no meio da rua durante uma enquete, só se sabe que ele escondia 51 milhões de reais dentro de malas e caixotes. Perdeu, zé-ninguém.

Lula, não. Lula tem história. Saiu do Nordeste como boia fria, trabalhou como metalúrgico, virou um sindicalista importante, tem cena 1, cena 2, cena 3. Lula arregimentou seguidores em sua vida muito antes de as redes sociais existirem. Lula tem nome, sobrenome, apelido social, família, rosto, digitais, voz, personalidade, começo e meio.

Como dedicar a Lula o mesmo fim que merece um Geddel sem começo e meio?

Especialistas não levam nada disso em consideração, mas a opinião pública, sim. A história contextualiza e atenua os fatos, mesmo quando eles são condenáveis (em tempo: beijos não são condenáveis; corrupção, sim). Surgir do nada nunca sugere inocência, mas ter caminhado muito até chegar aqui abranda o nosso julgamento.

Não estou em campanha, não tenho candidato, não há subtexto. Dei apenas dois exemplos do quanto uma trajetória reconhecida publicamente pode alterar o olhar de quem julga. Moral da história: que se tenha, pra começar, uma história.

MARTHA MEDEIROS

07 DE OUTUBRO DE 2017
LYA LUFT

O coração do enigma



Hoje, quando escrevo isto, está uma manhã brilhante, clara. Olho a paisagem enquanto tomo meu café, vejo algumas notícias de jornal e TV porque isso é um de meus vícios, venho ligar este computador porque tenho trabalho - mas a notícia da morte de mais uma pessoa jovem pousa no meu ombro como uma ave noturna.

Há alguns anos, comecei um romance (O Quarto Fechado) com uma cena que nasceu lá dos cantos retorcidos do meu coração: pai e mãe sentados dos dois lados do caixão do filho adolescente morto. Toda a trama do livro parte desse momento, e acho que com ele termina. Não sei mais por que me ocorreu, nunca vi cena igual, mas tudo o que lemos, sonhamos, vivemos, nos contam, se deposita no nosso inconsciente como aquela lamazinha no fundo de um aquário. Escrever é como mexer ali com um lápis, uma varinha: tudo vem à superfície.

Morte é o grande enigma; morte de jovens é o coração mais escuro desse enigma, ali onde nem o amor alcança. "Gente demais morrendo", queixou-se uma amiga. Acrescentei "jovens demais morrendo" - por doença, por fatalidades, ou porque namoram, nas drogas, a morte. Lembro das visitas que fiz, anos atrás (gosto de repetir), a uma famosa clínica para recuperação de adictos no interior de São Paulo. 

Da estrada, via-se um belo resort (acho que ainda nem usávamos a palavra): colinas, edifício bonito de dois andares, árvores, piscina grande. À beira dela, grupinhos de jovens, biquínis e sungas, guarda-sóis, alguém batucava um samba numa das pontas, e todos pareciam alegres.

Mais tarde, chegando perto deles, vi poucos olhares atentos: a maioria distantes, parados, ausentes de si mesmos. Vários pulsos com cicatrizes ou ainda curativos. Depoimentos angustiados ou ditos com indiferença: muitos eram assíduos ali, tinham alta e em semanas ou menos estavam de volta. Mesmo lá dentro, sob vigilância que devia ser forte, conseguia-se alguma droga. Fora dali, em casa, uma das meninas me contou que os traficantes jogavam pelotinhas de coca pela sua janela de madrugada.

Sempre saí de lá com uma terrível sensação de desesperança, embora, sei disso, haja os que de verdade se recuperam: agarram aquele touro selvagem pelos chifres e, com tratamento, psiquiatra, família firme, muita sorte - sobretudo vontade de viver e viver melhor -, vão em frente sem a fatal muleta da droga (álcool é droga). Alguns deles, me diziam, estavam cansados. Não era por diversão que cortavam os pulsos, saltavam da janela ou se injetavam mais veneno, querendo se aliviar do duríssimo fardo do desalento.

"Algumas pessoas nascem mal equipadas para a vida", comentou alguém numa dessas ocasiões, e nunca esqueci. Como se não tivessem pele que as proteja, para elas qualquer brisa é uma dor infinita. Querem sossego, querem alívio, querem morrer. E quando a dor é demasiada, fica difícil analisar o sofrimento dos que vão ficar, ou a possibilidade de, horas depois, poder

ter-se arrependido.

Esse pássaro noturno pousado em meu ombro me faz sentir o quanto todo o resto - que não é resto, sei!!! -, os mil desastres e dificuldades que por aqui imperam, parece pequeno quando ouvimos pulsar, ameaçador, o coração do eterno enigma.

lya.luft@zerohora.com.br

quarta-feira, 4 de outubro de 2017



04 DE OUTUBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Museus


Depois da polêmica envolvendo a mostra Queermuseu, que foi cancelada em Porto Alegre por causa de alguns ativistas escandalizados, nova polêmica tomou conta das redes sociais. O Museu de Arte Moderna de São Paulo abriu a mostra Panorama da Arte Brasileira com uma apresentação única para convidados e devidamente sinalizada sobre seu teor: nela, um homem nu manipula um origami, numa interpretação livre da obra Bicho, de Lygia Clark. Uma menina, acompanhada da mãe, estava no recinto e tocou nos pés do homem, e foi o que bastou para o museu ser acusado de incitar a pedofilia.

Talvez eu não levasse uma criança para assistir a uma performance que incluísse nudez total, mas apenas por uma questão de pudor, pois não vejo diferença em levá-la a uma praia em que se faz topless. Quando não há conotação erótica, a nudez pode ser apenas o simbolismo de um organismo vivo (uma proposta artística) ou pode ser uma atitude naturalista (ao ar livre, sem nenhum propósito sacana). Nudez não significa apenas sexo.

Esse verbo - significar - precisa ser mais bem compreendido, partindo de uma premissa: não existe um único significado para as coisas. E é aí que entra a importância de um museu.

No momento em que se entra em um, devemos estar abertos para o conhecimento e conscientes de que ali é um universo de representação. Quadros, esculturas, gravuras, instalações, performances, grafites, fotografias, antiguidades: nada é exatamente o que é. Uma xícara não é apenas uma xícara, mas a representação de uma época e de um costume. Um ferro retorcido não é apenas um ferro retorcido, mas a representação de um suplício. 

Uma tela vazia não é apenas uma tela vazia, mas a representação do silêncio. Uma bandeira de papel não é apenas uma bandeira de papel, mas a representação da infância. Um homem nu não é apenas um homem nu, mas a representação da nossa ancestralidade. Tudo o que se encontra dentro de um museu é representação de alguma espécie de beleza, de dor, de perturbação e de tudo mais que compõe nossa humanidade. Ninguém deve entrar num museu com uma ideia preconcebida. 

Pode-se, claro, gostar ou não gostar do que se vê, ficar ou ir embora, opinar contra ou a favor: somos livres. O único erro é não levar em consideração que esses são espaços sagrados (e aí incluo teatros, cinemas, livrarias, auditórios) que nos dão a oportunidade de atravessar um portal, deixando do lado de fora a banalidade da nossa existência para recepcionar uma provocação que nos elevará a outra categoria de gente - a de seres pensantes com capacidade de expansão.

Não estou certa de nada, a não ser de que a ausência de arte em nossas vidas é o que nos condena à mediocridade, é o que torna nossas vidas pequenas e é o que nos faz ter tanto, tanto medo de tudo.

martha.medeiros@terra.com.br

sábado, 30 de setembro de 2017


30 DE SETEMBRO DE 2017
PIANGERS

Última moda


Nunca fui o que se pode chamar de pessoa estilosa ou arrumada, culpa da convenção social que determinou que calças largas de moleton e camisas com perfurações de traças não são vestimentas très chic. Jamais usei gravata fora de festas de casamento e, mesmo em festas de casamento, sempre fui o primeiro a afrouxar o nó e, eventualmente, deixar a gravata dobrada em cima da mesa enquanto devorava o bufê. Minha gravata já foi meu guardanapo, confesso. O pessoal da Spirito Santo deve estar indignado comigo.

Minha mãe sempre achou um terror o jeito que o filho se vestia, mas sempre me considerei um trend setter: usava calças largas com a cueca aparecendo antes dos rappers, camisas velhas de flanela herdadas do vô antes dos grunges, casacos de lã de brechó antes dos hipsters. Meu estilo hoje é a passarela de amanhã. Quer dizer, não bem amanhã, pode ser que demore anos até que finalmente minhas roupas surradas apareçam na Vogue, mas um dia aparecem. Pode ter certeza que aparecem.

Uma espécie de artista visual, uso meus trapos como forma de me expressar. Minha família é contra. Minhas camisetas favoritas viraram pano de chão quando viajei mês passado. Meu casaco favorito foi doado aos pobres no último inverno. Não sou eu que decido essas coisas, é minha mulher. Doou todas as minhas camisetas promocionais que eu usava como pijama e minhas calças de sarja, hit dos anos 1990. Eu gostava tanto daquela calça que virava bermuda que minha esposa sem coração dispensou.

Vida que segue, comprei meias coloridas que envergonham minhas filhas. Estávamos caminhando para o colégio, e eu falei pra evitarmos determinada esquina. "Tem um mendigo maluco naquela esquina", falei. Minha filha de 12 anos disse: "Sei. Aquele mendigo de barba ruiva levando as filhas pra escola?". Demorei pra entender a piada: ela estava se referindo a mim. Muito engraçado. Vai engolir suas palavras quando meu modelito aparecer em capas de revistas como a última moda.

PIANGERS



30 DE SETEMBRO DE 2017
CARPINEJAR
A prepotência do mentiroso


É muito fácil desmascarar o mentiroso. Quando pego em contradição, fica possesso e indignado. Ataca para não se ver atacado. Distrai a atenção com o escândalo.

Todo mentiroso é um canastrão, gesticula sem necessidade, abraça o ar até sufocá-lo, tem as bochechas vermelhas de ódio, transforma companheiros de longa data em inimigos, delata os afetos para adquirir imunidade.

Todo mentiroso esperneia e se movimenta de modo frenético. Em vez de ter humildade e desfazer tranquilamente o engano, fica mais prepotente e não deseja dar satisfações. Sai de cena bufando, volta à cena aos gritos. Bate à porta, empurra a cadeira, os objetos sofrem à sua volta.

Todo mentiroso ameaça, como um profeta de rua. Antecipa o apocalipse por tê-lo posto à prova. Já começa a inventar castigos e reprimendas como o fim da amizade e o término da relação. Prefere acabar a confessar.

Todo mentiroso não se desculpa. Pelo contrário, imagina o acusador pedindo perdão de joelhos pelo mal-entendido.

Todo mentiroso se projeta numa vaga de emprego, não parando de se elogiar, destacando os seus pontos positivos, sublinhando a sua honradez e ética na tomada de decisões.

Todo mentiroso nega e nega e nega: vai soletrando não antes mesmo de ser questionado.

Todo mentiroso conversa sozinho: não escuta nada, pergunta e responde, num júri imaginário. Ocupa, simultaneamente, os papéis de advogado de defesa, promotor e juiz.

Seu primeiro movimento é desqualificar a pessoa que o colocou em dúvida. Poderia desmontar a mentira, mas leva para o lado pessoal e ofende o outro, insinuando uma perseguição.

Não apresenta argumentos, muito menos detalha o ocorrido. Diz inicialmente que é um absurdo a falta de confiança. Tenta entrar no jogo psicológico dos atenuantes, lembrando que se conhecem há tempo e não merecia tamanha desconsideração. Implicará com a lealdade, falando que jamais esperava ser agredido com um golpe baixo. Desmerece a curiosidade e a caracteriza como prova de mais alta traição.

Todo mentiroso não quer perder tempo conversando, mas tampouco cala a boca. Como não convence com fatos, depois age como um psiquiatra. Cria diagnósticos, despeja receitas, acumula distorções, estabelece sintomas de paranoia. Fará de tudo para provar que tudo é uma loucura e que todos estão doidos, menos ele.

Todo mentiroso é igual. Abomina a lógica e recusa as provas. Não entende que a inocência não se prova.

Os sinais são evidentes. Quem não tem razão se sente cheio de razão. Quem tem razão não se sente intimidado com o erro. A verdade é calma e curta. A mentira é penosa e aflitiva.

A verdade é um atalho. A mentira é o caminho mais longo e sempre passa pelo ataque de nervos.

CARPINEJAR



30 DE SETEMBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Minha primeira TATTOO

Existe um argumento clássico contra tatuagens: é definitivo demais. Como saber se, daqui a três meses, três anos ou três décadas, o desenho escolhido ainda terá um significado especial? Como pode alguém entregar-se de mão beijada à possibilidade de um arrependimento? E quando a pele começar a ficar flácida e enrugada, nosso visual não parecerá um filme de terror? E quando... Tá, já entendemos.

Quem se faz tantas perguntas deve passar longe de um estúdio de tattoo. E longe de uma maternidade também, pois ainda não inventaram nada mais definitivo do que filho. Talvez sejam as únicas coisas perenes que restaram no mundo: nossas crias e as marcas que o tempo impõe ao nosso corpo - e as que nos autoimpomos. 

De resto, nada mais é durável. Tudo é provisório, descartável, tendência de mercado. Vale para a altura do cós das suas calças e o comprimento das mangas da sua blusa. Vale para a cor das paredes onde você mora, o tipo de lugar onde você mora e até com quem você mora: amigos, namorados, maridos e esposas. Estamos todos de passagem, e a aventura se renova, se transforma. Como estará sua vida daqui a um ano? Tem certeza?

Sendo desse jeito, eis a reviravolta: o argumento clássico contra as tatuagens tornou-se, agora, um argumento a favor. Finalmente, algo que dura. Que não vai desaparecer da sua vida quando o verão terminar, que nunca estará sujeito a modismos, que irá com você até o fim - nisso uma tatuagem é ainda mais fiel que filhos, esses andarilhos que somem no mundo e só mandam notícia por Skype. 

A tatuagem gruda em você, esteja você passando por dificuldades financeiras, esteja você bebendo mais do que deveria, esteja você confundindo palavras, tropeçando nos próprios óculos e fazendo todo tipo de besteira. Pensa: tatuagem é praticamente um cachorro, sendo que este, às vezes, foge.

A razão desta crônica: neste exato dia em que escrevo, que não é o mesmo em que você me lê, estou com uma hora marcada num estúdio para fazer minha primeira tatuagem, aproveitando essa onda possante de empoderamento, de juventude esticada, de valorização da experiência e demais movimentos modernos de autoafirmação em que me jogo inteira (mas, neste caso, com as pernas bambas - não tenho nenhum fetiche por agulhas).

Enquanto você me lê, a data que agendei já passou. Eu fui? Eu fiz? Serei hoje uma mulher marcada a ferro e fogo com um pequeno sol nas costas, bem pertinho da nuca? Ou desmarquei inventando qualquer desculpa e voltei para o buraco onde as ratazanas se refugiam de seus próprios medos?

Acho que fui, em homenagem à permanência, essa raridade.

MARTHA MEDEIROS



30 DE SETEMBRO DE 2017
LYA LUFT

A felicidade de cada um

Somos, entre tantas coisas - animais predadores, meio obtusos, às vezes gloriosos -, uns eternos buscadores. Deve ser uma das molas de nossa vida, mais até do que sexo e poder. Essa busca meio indeterminada que nos faz sair da cama, tomar café, ver notícias no jornal e na TV (porque nos julgamos de ferro), ir para o trabalho ou a escola ou simplesmente ficar em casa. Buscamos eternamente, eu sei, essa estranhíssima coisa chamada felicidade: tão diferente em diferentes fases e até diversos lugares.

Quando menina, felicidade era segurança amorosa: os pais ali perto, o irmãozinho, as funcionárias que cuidavam de nós, o jardineiro conversando com plantas, a chuva na vidraça, o vento nas árvores, a lareira ou a perspectiva da praia, um dia de feriado para não ter de ir à escola (não, não fui boa aluna...). Sobretudo, estar ali em nossa casa, no meu quarto, a cama embutida em prateleiras cheias dos meus melhores amigos. Décadas depois, alguém me contou que, ao visitar meu pai, em seu escritório em casa, e admirar as prateleiras de livros forrando as paredes, meu pai fez um gesto simples e disse: "Esses são os meus amigos".

No curso da vida, a gente faz umas descobertas engraçadas sobre si mesmo, como certa vez quando, falando com jornalistas antes de uma palestra em São Paulo, um deles, muito jovem, disparou a pergunta que nunca tinham me feito: "Qual é o seu sonho de consumo?". Parei, sorri, surpreendida, e sem precisar pensar respondi: "Meu sonho de consumo? Ficar quieta". Era uma longa fase de muitas viagens para palestras e lançamentos. Era bom curtir o afeto dos leitores, era bom promover um livro.

No avião, voltando para casa, fui monologando coisas como: "Ora, se eu quero mesmo ficar mais quieta, por que não faço isso? Por que não diminuo esse giro de viagens e encontros e não curto mais o sossego que me falta?". Sem muito programar, que sou mais de impulsos, comecei a aprender a arte de recusar - nada fácil. Os convites mais simpáticos (quase todos são assim) tiveram de ser reduzidos, e como fazer essa seleção? Sempre havia uma razão verdadeira: estar preparando um novo livro, atender alguma coisa na família ou simplesmente estar cansada. "E se um dia não te convidarem para mais nada?". Bom, aí eu também não vou gostar nada! O jeito é dosar.

Fiquei bem mais feliz assim. Certa vez, perguntaram para minha filha onde seria mais fácil encontrar a mãe, e ela respondeu: "Em casa". Há quem estranhe: "Você quase não tem vida social, não frequenta os mais novos restaurantes, nem clubes, nem grupos...". Nada contra, mas para mim foi uma conquista. Uma obediência ao meu mais antigo e honrado desejo. 

Quando estou nessa falsa vagabundagem lírica, talvez de livro na mão até sem ler nem pensar nada especial, é que as coisas "se fazem" dentro de mim: futuros personagens, tramas, poemas, ou só encantamentos fugazes. Pode ser que nesta fase da vida eu mereça estar assim, com família, amigos, cachorrinhas, paisagem linda, o refúgio na Serra, música, livros, e tantos ótimos programas que - apesar dos protestos - a boa televisão oferece: agora, um concerto de Mozart para piano, tocado na TV por um Barenboim jovem.

(E ainda por cima, neste momento, começa a chover mansinho.)

lya.luft@zerohora.com.br

sexta-feira, 29 de setembro de 2017



Jaime Cimenti

Caminhando pela Redenção 

Saio da redação do glorioso Jornal do Comércio, o jovem octogenário de blazer azul em plena forma, sigo pela avenida João Pessoa e vou para a Redenção, ou Parque Farroupilha, se o leitor gaudério prefere assim.

Chegando lá, tarde de sol de início de primavera, começo a caminhada. Cinco e meia, pessoas tomam chimarrão, namorados namoram, algumas pessoas correm, outras caminham, crianças jogam bola ou andam de bicicleta e eu sigo nas aleias ensaibradas, evitando os matinhos e espaços despovoados, com medo de algum assaltante vespertino. Nos bolsos levo apenas uns trocados e a vontade de flanar.

O Adão me orientou a não levar o celular e as chaves do carro. Obedeci, claro, que não sou tão bobo, e o Adão é esperto. Imagino que aquele grande espaço, no meio do parque, onde está o chafariz, é Paris, a Champs Élysées, o Central Park nova-iorquino ou o Hyde Park londrino e contemplo os gramados, as árvores, os arbustos, as folhagens e as flores, enquanto os sabiás de setembro fornecem a trilha sonora adequada para minhas viagens mentais.

Descanso um pouco do tenebroso noticiário político-econômico-policial e dos escândalos das organizações criminosas municipais, estaduais e federais e respiro o ar do relaxamento possível. Está difícil ficar no Brasil e complicado sair. A coisa tá osca. Melhor seguir rezando para Nossa Senhora Aparecida descolar a economia da política e ir tocando o barco do que jeito que dá, enquanto uma bala perdida não nos alcança e o dia amanhece mais uma vez.

Melhor buscar um pouco de refúgio no passado, sem saudosismo, e pensar que a Redenção é o pátio de nossas melhores memórias, que por ali circulam nossas várias infâncias e idades, que aquelas árvores testemunharam, testemunham e vão testemunhar nossos pensamentos e ações. A Redenção é a eternidade porto-alegrense, o campo da lembrança, do presente e do futuro infinitos, mesmo sem os bichos do zoológico e mesmo sem os monumentos e placas remanescentes em melhores condições.

No meio do gramado o gaúcho de pé, em bronze eterno, mira o pedaço de pampa fake do parque e a modernidade urbana dos prédios da Ufrgs e parece dizer que a vida continua, que os sonhos foram, são e serão o essencial dos dias. Parece dizer que, mesmo sendo um gaúcho a pé, não deixa de ser um bagual que não se entrega assim no mais, como na linda canção clássica de Antonio Augusto Ferreira e Ewerton Ferreira, imortalizada pela interpretação de Leopoldo Rassier e merecidamente vencedora da Califórnia da Canção Nativa.

A temperatura vai caindo, o sol vai se despedindo e a caminhada vai dando os últimos passos. Os pedalinhos aguardam, perfilados, pelas filas dos feriados e dos fins de semana e o trenzinho está a postos para as próximas viagens. Bem que o aluguel de bicicletas poderia voltar e o café do lago já poderia estar funcionando, como esteve. E não seria possível charretes circulando pelo parque, ocupando os cavalos e carroceiros que a municipalidade quer desempregar? Cartas para a redação.

a propósito...

Podemos cuidar melhor da Redenção, ou Parque Farroupilha. Ela é o coração verde, amarelo e vermelho da Capital. Precisamos falar sobre cercamento, ao menos de parte, do local. Aluguel de bicicletas, charretes, café do lago, recuperação e manutenção de placas e monumentos e outras ideias tornarão ainda melhor esse espaço sagrado.

Quem caminhou, caminha e caminhará por ali sabe que não se deve nem pensar em apagar as memórias passadas, presentes e futuras do lugar que já se chamou Campos da Redenção em homenagem à precoce abolição da escravatura em Porto Alegre, em 1884, e que foi chamado Parque Farroupilha em 1935, na comemoração dos cem anos da Guerra dos Farrapos. O que é o estudo, hein? - Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/09/colunas/livros/587521-jose-gallo-o-melhor-ceo-do-brasil.html)


José Galló, o melhor CEO do Brasil 

Detalhe da capa do livro EDITORA PLANETA/DIVULGAÇÃO/JC José Galló, graduado em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas, diretor-presidente da Renner, membro do Conselho de Administração da Localiza Rent a Car, do Itaú Unibanco Holding e do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), mais de 30 anos de experiência em varejo, foi eleito, em 2016, O Melhor CEO do Brasil pela Época Negócios. Em cinco edições do Executivo de Valor do Valor Econômico foi premiado. 

Nas últimas quatro edições do Latin America Executive Team Ranking, da Institucional Investor, recebeu o título de Melhor CEO do setor de varejo e consumo. O poder do encantamento (Planeta Estratégia, 272 páginas), de Galló, traz sua vida desde a infância até hoje e, especialmente, trata da bem-sucedida trajetória, de fatos e de lições do executivo que, partindo de oito lojas, transformou a Renner em uma empresa que valia menos do que um milhão de dólares em uma corporação de US$ 6 bilhões. 

Na obra, cujo prefácio é de Fabio Barbosa, Galló fala de seu nascimento em Galópolis, da família de origem italiana que teve grandes negócios por lá e de sua formação na FGV em SP. O início na Copersucar, os desafios com a Imcosul, a ModaCasa, a Eletroshop e a consultoria para o Grupo Joaquim Oliveira estão no volume, em meio a revelações sobre o aprendizado do empresário, que sempre valorizou a simplicidade, a disciplina, a inquietação criativa, o trabalho contínuo, a comunicação eficaz, o encantamento, a liderança, a valorização das pessoas e o foco no cliente. 

Da entrada na Renner em 1991 até sua transformação em primeira corporação do Brasil, em 1998, passando pela saída da J.C.Penney do Brasil no emblemático 2005 e, chegando a 2012 com a grande expansão, os ciclos de sete anos mencionados por Galló mostram seu caminho confundido com o da empresa. Corporação que não tem um claro acionista, controlada por profissionais escolhidos por um Conselho de Administração. 

Alguns duvidaram da fórmula. Hoje é parte boa e vitoriosa de nossa cultura empresarial. Depoimentos de empresários e líderes do porte de Jorge Gerdau Johannpeter, Roberto Setubal, Luiza Helena Trajano, Adelino Colombo, Nelson Sirotsky, Oswaldo Schirmer e Salim Mattar revelam aspectos pessoais e profissionais de José Galló, executivo focado na consistência estratégica, na austeridade, na confiança, na eficiência operacional e sempre de olho vivo no cliente e na concorrência. 

lançamentos 

Voos Pátrios (Editora Insular, 224 páginas), do executivo e empresário chinês Peter Ho Peng, que viveu no Brasil entre 1951 e 1973 e, atualmente, vive na Flórida, traz artigos sobre México, Califórnia, Brasil, política, futebol, médicos cubanos e outros tópicos relevantes. 

Fala de seu sequestro pelo Doi-Codi e de sua expulsão do Brasil, para onde retornou nos anos 2000. Em 2013, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça reparou seus danos. 

O Lagarto na Taipa-1936 (AMZ Editora, 368 páginas) é o romance de estreia do professor João Celeste Agostini, que lecionou muitos anos Língua e Literatura Brasileira e Portuguesa. 

É estreia literária madura, e resgata os valores e a história dos bravos imigrantes italianos, através de envolvente e bem narrada trama envolvendo famílias de imigrantes entre 1883-1936, em uma colônia imaginária. Alma humana, comportamento e lembranças doloridas dos Alpes estão na obra. 

Um psiquiatra na Coreia do Norte (Editora Buqui, 112 páginas), do médico e doutor em Psicologia Nelson Asnis, autor de Homem Bomba, o sacrifício das pulsões (2013) e Do divã ao aeroporto (2015), publicados pela Buqui, é o relato da viagem do autor, sozinho, à Coreia do Norte. 

O país não oferece irreverência ou boemia e apenas cinco brasileiros por ano enfrentam a nação totalitária. Asnis nos mostra o que está escondido aos olhos do mundo. - Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/09/colunas/livros/587521-jose-gallo-o-melhor-ceo-do-brasil.html)

29 DE SETEMBRO DE 2017
JORNADA DO CONHECIMENTO

Atriz lança livros e portal de "mindfulness"


SESSÃO DE AUTÓGRAFOS e evento sobre qualidade de vida fazem parte da programação de Bruna Lombardi em Porto Alegre

Atriz, roteirista de cinema, apresentadora, escritora, Bruna Lombardi vem a Porto Alegre neste fim de semana para mostrar mais duas facetas de seu multifacetado trabalho. Ela lança, hoje, dois novos livros, Clímax, seu primeiro volume de poemas inéditos em mais de 30 anos, e Poesia Reunida, que, como explica o título, agrega os três volumes que publicou anteriormente. Amanhã, Bruna será a anfitriã e mestre de cerimônia da Jornada do Conhecimento, evento no Teatro do Bourbon Country que terá como convidados os escritores Eduardo Bueno, Letícia Wierzschowski, o historiador e professor Leandro Karnal e o ator Caetano OMaihlan.

Clímax, o novo livro, reúne poemas que alternam o ponto de vista do erotismo como uma experiência espiritual e da espiritualidade como uma experiência erótica. É o primeiro livro de poemas da autora desde O Perigo do Dragão (1984).

Já a Jornada do Conhecimento se constitui em um misto de encontro intelectual e sarau artístico centrado nos desafios para uma vida com qualidade. Eventos semelhantes já foram realizados por Bruna em outras capitais como São Paulo, Rio e Salvador (veja a entrevista ao lado) e servem para apresentar o portal que a atriz e escritora lançou em agosto, a Rede Felicidade (redefelicidade.com.br), fórum sobre temas como arte e cultura, espiritualidade, saúde, viagens e vida natural. Além de reunir textos e vídeos de convidados, a Rede Felicidade também reúne um blog no qual Bruna escreve e responde a questionamentos dos leitores cadastrados.

Nas jornadas, Bruna discute muitos dos mesmos temas com seus convidados. A ideia, segundo ela própria, é ter sempre nessas presenças diferentes visões e formações.

- Falamos muito de escolhas, de "mindfulness", ou seja, de atenção plena, da felicidade como escopo da vida, mas mostrando todas as facetas desses temas. Quero mostrar todos os ângulos de um tema, e mostrar também que todas as pessoas que estiverem dispostas, cada uma pelo seu ângulo, podem achar um jeito de dividir uma experiência para a criação de um mundo melhor - diz Bruna, em entrevista por telefone a ZH.


29 DE SETEMBRO DE 2017
DAVID COIMBRA


Foi o Grêmio que rebaixou o Inter

Ontem, o Wendell Ferreira, do Esporte da Zero, me pediu um texto no qual deveria responder como o Inter se sairia na Primeira Divisão se jogasse com esse time de hoje.

É claro que se sairia bem. O Inter tem time, sim, para jogar na Primeira Divisão, inclusive desde que caiu para a Segunda.

Mas caiu. Por que caiu? Por causa do Grêmio.

Foi o Grêmio quem rebaixou o Inter.

Antes que os colorados comecem a xingar minha mãezinha, dona Diva, explico. O time do Inter, no ano passado, não era tão ruim a ponto de ficar 14 partidas sem vencer, como ficou, nem era tão ruim a ponto de remanchar nas últimas colocações por mais de dois terços do campeonato, como remanchou. Além disso, não havia sinais explícitos de revolta no grupo de jogadores: os salários estavam em dia e, se existiam problemas financeiros, nenhum deles era tão grave a ponto de se infiltrar no vestiário.

Mas um time, qualquer time, para vencer, precisa de um ingrediente mais do que de todos os outros: concentração.

Olhe para o Grêmio hoje. Não foi apenas a venda de Pedro Rocha que fez o time despencar de rendimento. Foi a desconcentração. De repente, pequenas questões começaram a desviar o Grêmio do rumo seguro que seguia: a dúvida sobre como tratar o Campeonato Brasileiro, o acúmulo de competições, a derrota para o Corinthians, os pênaltis perdidos, a demora da renovação de Luan... Foi esse conjunto de contingências que distraiu o grupo do Grêmio, e ninguém ganha quando está distraído, nem no futebol, nem no tênis, nem no boxe, nem no xadrez, nem na vida.

Já o Inter de 2016 tinha um só foco: não cair para a Segunda Divisão. O problema é que o objetivo de não fracassar é muitíssimo mais pesado do que o de ter sucesso, sobretudo se o fracasso é mais do que um fracasso: é uma desgraça.

Pois foi assim que o Inter encarou a possibilidade de rebaixamento: como a maior desgraça que poderia ocorrer com o clube. E, por Inter, que digo, é a instituição inteira: dirigentes, torcida, funcionários e jogadores.

É claro que a ameaça da Segunda Divisão é aterradora para todos os clubes grandes, mas, no caso do Inter, havia um elemento mais perturbador: a queda significaria a perda de um argumento importante no debate com os gremistas.

Grêmio e Inter, já disse e repito, vivem um para o outro, existem um para o outro, espelham-se um no outro. Quando D?Alessandro estava para ser contratado, Fernando Carvalho viajou para Buenos Aires, sentou-se em frente a ele e explicou:

- É o seguinte: lá, nós temos que ganhar do Grêmio. O importante é ganhar do Grêmio.

Certíssimo. D?Alessandro compreendeu essa realidade e, desta forma, transformou-se em uma lenda no Rio Grande do Sul.

É assim, sempre foi assim: quando o colorado brande D?Alessandro, o gremista responde com Renato Portaluppi. Cada conquista de um clube serviu para que, com ela, o torcedor espezinhasse o torcedor do outro clube. Os dois foram crescendo nessa emulação. De repente, tornaram-se campeões do Estado, do Brasil, da América e do mundo. Eram iguais nos triunfos, mas diferentes no malogro: o Grêmio havia caído para a Série B, e o Inter, não.

Então, a queda do Inter representava a perda de um galardão. Era insuportável. Imagine, agora, os jogadores ouvindo a todo momento, de todo mundo, que o Inter NÃO PODIA cair.

Foi essa angústia que contaminou o vestiário e cimentou as chuteiras ao solo. Foi essa angústia que roubou a concentração dos jogadores do Inter. Não tenho nenhuma dúvida: é o tamanho da rivalidade que eleva a dupla Gre-Nal aos píncaros. Mas, quando um deles cai de tal altura, a dor é muito maior.

DAVID COIMBRA

sábado, 23 de setembro de 2017



23 DE SETEMBRO DE 2017
SEXO

(Re)acenda esta chama

Sete passos para fugir da rotina na cama e fora dela em relacionamentos longos

Brindes, troca de presentes, declarações de amor Cada jantar de aniversário de namoro ou casamento merece uma comemoração à altura, mas também uma atenção redobrada com a rotina à medida que os anos passam. Ainda que virar muitas páginas do calendário possa significar que vocês estejam fazendo as coisas certas, relacionamentos de uma década ou mais podem entrar em um processo de escassez de diálogo e de sexo e, via de regra, uma coisa está relacionada à outra.

A falta de comunicação e de compreensão é uma queixa maior do que a falta de sexo, de acordo com a sexóloga Priscila Junqueira. Já a especialista em sexualidade feminina Cátia Damasceno afirma que a dificuldade de falar com o outro - especialmente sobre a vida íntima - é tanta que, muitas vezes, quando o casal decide procurar um terapeuta, o relacionamento já está em um estágio tão avançado de desgaste que a reconciliação é difícil ou improvável.

- O sexo, quando é bom, tem uma pequena importância dentro do relacionamento, de 30% a 40%. Mas, quando é ruim, ocupa um percentual muito alto de relevância. E pode levar à separação, porque as pessoas preferem terminar a falar sobre isso com o parceiro. Precisamos nos conscientizar de que o sexo tem que ser conversado - explica Cátia.

A seguir, as sexólogas Cátia e Priscila dão sete dicas sobre o que pode funcionar para manter a chama acesa em relações longas, tanto na cama quanto no dia a dia.

2 MANTENHA A INDEPENDÊNCIA DOS FILHOS

O fato de ter crianças em casa não pode ser usado como desculpa para o casal não cuidar um ao outro. Priscila destaca que as crianças - mesmos os bebês - são dependentes, mas não necessariamente apenas dos pais. Assim, de tempos em tempos, um familiar ou uma babá de confiança pode entrar em cena para ajudar o casal a sair da rotina e encontrar amigos, ir ao cinema ou apenas ficar a sós um com o outro.

- Esses momentos de estar com os amigos ou a sós, os dois, tornam qualquer rotina mais prazerosa. Se estão bem cuidados, os filhos vão ficar bem algumas horas ou um fim de semana sem os pais - afirma Priscila, mãe de um menino de dois anos.

Assim como Priscila, Cátia tem crianças pequenas em casa. E afirma, por experiência própria, que os filhos não são limitadores dos momentos íntimos do casal.

- Não dá para justificar uma ausência do comportamento de marido e mulher por causa dos filhos. Mas há, sim, muitos homens que passam a enxergar a mulher apenas como mãe depois de ela dar à luz, ignorando que ela continua tendo desejo. Se é essa a situação, precisa ser conversada - sugere a especialista.

3 RETORNE ÀS ORIGENS

Lembra quais programas vocês curtiam quando começaram a namorar? Resgatar velhos hábitos costuma render momentos prazerosos para recordar, uma vez mais, por que vocês estão juntos. Que tal colocar em movimento aquela bicicleta parada na garagem ou retomar caminhadas no parque que eram tão frequentes quando vocês se conheceram?

Cátia sugere que o casal liste, em uma folha, tanto os programas do começo do namoro que ficaram para trás quanto coisas que acabaram virando rotina. Spoiler: nesse último quesito, andar desleixados em casa casa, sem se cuidar um para o outro, costuma ser um item frequente.

- Depois de identificar isso, recomendo não apenas voltar a fazer o que se fazia no início de namoro, mas deixar de lado esses costumes que abraçamos por causa da rotina. Veja como isso pode melhorar qualquer relacionamento - diz Cátia.

4 COLOQUE O SEXO NA AGENDA

Se está difícil encontrar tempo para transar, talvez seja o momento de estabelecer isso como prioridade, com compromisso na agenda e tudo. Planejar momentos íntimos como nos velhos tempos, quando o clima de conquista ainda estava no ar, pode trazer boas memórias e até reacender o tesão.

- No início do namoro, os hormônios nos deixam muito alegres. Depois de anos de relacionamento, para manter essa mesma sensação, é preciso agir de forma racional. Planeje um momento íntimo, uma viagem, um final de semana sem os filhos. Pensem em tudo o que vocês vão fazer quando tiverem esse tempo livre para vocês. Só não vale ficar cada um pendurado no seu celular - diz Cátia.

O recurso do sexo na agenda, porém, deve ser usado por tempo limitado, de acordo com Priscila:

- É uma solução de emergência. Se você tiver de recorrer sempre à agenda para transar, perde a naturalidade e provavelmente vai virar mais um compromisso chato.

1 TENHA MOMENTOS A SÓS

O passar dos anos tende a levar muitos casais a se isolar em sua própria rotina a dois ou com os filhos. É como se tivessem se transformado em uma única pessoa, sem nenhum cuidado com a individualidade de cada um. Fazer programas com os amigos ou a sós, com respeito e compreensão do que é importante para o outro, é fundamental para manter a vitalidade na vida a dois. Priscila recomenda escolher pelo menos uma atividade semanal, como um hobby, para cada um fazer sozinho.

- Colocar na agenda espaço para um esporte ou uma atividade que lhe faça bem pode dar um respiro à relação, porque as pessoas começam a funcionar só como casal e esquecem de si - afirma a sexóloga.

Manter uma agenda de compromissos sem seu par é um exercício de liberdade natural quando há segurança no relacionamento, explica Cátia:

- Não é para fazer nada escondido. É tudo com respeito e confiança no outro a ponto de que, se ele quiser sair para uma aula de dança, você não vai ver problema nisso. É preciso confiança e liberdade para chegar nesse estágio.

6 TIRE FÉRIAS DE FINAL DE SEMANA

Quando perguntados sobre os momentos bons na vida a dois, muitos casais costumam lembrar das férias, aquele momento programado em que se esquece das contas a pagar e dos problemas do cotidiano. A dica das especialistas é dividir momentos de ócio ao longo do calendário, sem necessariamente precisar esperar por longos períodos de folga. Use a criatividade e experimente mudar de ambiente, visitando alguma parte da cidade que vocês não costumam frequentar ou fazer viagens curtas em um final de semana ou feriadão, curtindo um ao outro como se estivessem de férias.

- O que não dá é esperar o ano inteiro para passar bem em um mês de férias - afirma Cátia.

5 CONVERSE SOBRE SEXO

A diminuição do tesão parece inevitável ao longo dos anos. E um dos caminhos para contorná-la é conversar para entender o porquê de isso estar acontecendo. E, se for necessário, buscar a ajuda de um especialista. Na maior parte dos casos, a falta de libido tem causas associadas.

- As mulheres que têm queda no desejo muitas vezes estão com um problema com o parceiro, mas também entrando na menopausa. E isso deve ser conversado com ele, contando com a compreensão e ajuda do par nesse momento - diz Priscila.

Como dar a volta por cima? Em muitos casos, a solução pode ser simples, explorando possibilidades até então inéditas para o casal. As sexólogas estão de acordo em afirmar que é possível descobrir novidades no sexo mesmo com uma década - ou mais - de relacionamento, respeitando e estimulando a própria transformação e a do outro. A dica é conversar abertamente sobre o que você não gosta mais de fazer e as coisas novas que gostaria de tentar. E, claro, estar aberto a escutar os desejos de seu par.

- Muitas pessoas passam anos e anos tendo um mau relacionamento porque têm vergonha de falar sobre esse assunto, porque acham que o outro vai ficar chateado. Não cometa esse erro - indica Cátia.

7 TOME A INICIATIVA

Ficar insatisfeita esperando que o outro tome uma atitude para melhorar tanto o dia a dia quanto o sexo não leva a lugar nenhum - provavelmente, seu par tem o mesmo pensamento em relação a você. Dá para começar planejando um jantar romântico, com uma trilha sonora especial, culminando em uma noite diferente na cama. Depois de tomar a iniciativa algumas vezes, já é permitido cobrar que o outro também pense em programinhas para fugir da rotina.

- Dá para cobrar de uma maneira positiva: "No mês passado, eu fiz isso e isso. Que tal esse mês você produzir uma surpresinha para nós dois?" - sugere Cátia.

A especialista acredita que um programa diferente por mês é o mínimo para um casal que está junto há muitos anos manter a harmonia da relação.

- Não dá para esperar o aniversário de namoro ou casamento para comemorar. Faça uma gracinha diferente, esteja presente para o outro naquele momento. Mande uma mensagem sugerindo alguma coisa bacana. Se a pessoa não gostar, você pergunta: "E o que você sugere que a gente faça juntos?" - propõe Cátia.

ROSSANA SILVA, ESPECIAL