sábado, 18 de novembro de 2017


18 DE NOVEMBRO DE 2017
PIANGERS

Os tempos mudaram

Não faz muito tempo eu e minha esposa resolvemos viajar pela primeira vez sem as crianças, decisão que nos tomou tempo e discussões. As meninas teriam que ficar com as avós, e nosso medo era que de que as senhorinhas não dessem conta do recado. Que elas não soubessem alimentar direito nossas filhas. Que perdessem o horário da aula de natação. Que permitissem assistir televisão demais. Que dessem bolacha e suco artificial de jantar, algo que as duas fizeram comigo e minha esposa quando éramos crianças nos anos 80.

Essas senhoras, as avós, não entendem que as coisas mudaram. Na época que nos educaram o mundo era outro, menos violento e mais permissivo. Minha mãe tinha um Fusca e permitia que eu viajasse no vão atrás do banco de trás do carro, sem cinto e muito menos cadeirinha. Minha esposa conta que sua mãe permitia que ela saísse de casa depois do almoço e só voltasse às nove horas da noite, com a roupa suja e o joelho ralado. Imaginem isso acontecendo hoje em dia! Prendam estas senhoras!

Por isso nossa preocupação. Dizem que o trabalho dos avós é destruir todo o trabalho dos pais, e isso seria inadmissível. Levamos meses para que a minha filha de 12 anos se interessasse por matemática, através de um canal do YouTube que é engraçado e informativo ao mesmo tempo. Nossa filha de cinco anos está comendo um prato inteiro de comida no almoço, basta darmos as colheradas uma a uma na boca. Imagina estragar tudo isso deixando as meninas com as avós.

Durante a viagem imaginamos as avós permitindo tudo, comida em cima da cama e pular corda no meio da sala. Imaginei minha filha pequena indo sozinha à padaria. Meu deus! As avós não sabem como é o mundo hoje, cheio de perigos e gente má. Nos anos 80, a última década em que minha mãe cuidou de uma criança, era normal as pessoas fumarem. Só o que me falta a vovó oferecer um Marlboro pra minha filha mais velha!

O que fizemos! Precisamos voltar desta viagem!

As duas avós se revezaram para cuidar das netas. Quando chegamos em casa, preocupados, minha filha mais velha veio correndo nos receber: "Olha o que a vovó me deu", nos disse. Era um ábaco. "Agora consigo fazer qualquer conta!". A mais nova já dormia. Minha mãe me disse que ela agora come um prato inteiro de comida sozinha. "Sem aviãozinho?", perguntei. "Sem aviãozinho. E escova os dentes e dorme sozinha na cama dela", respondeu a vó.

Seguiram-se semanas em que as meninas dormiam em suas próprias camas, sempre no horário apropriado. Comiam sozinhas. Liam livros e não assistiam desenhos. Tudo muito estranho e organizado. Depois de um tempo de convivência elas deram uma piorada, é verdade. É o que dizem: trabalho de pai é destruir todo o trabalho dos avós.

PIANGERS


18 DE NOVEMBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Um bebê na plateia

Acho que já comentei este episódio: muitos anos atrás, em 1993, assisti a um show da banda Living Colour num pequeno ginásio em Santiago do Chile. Quem conhece o grupo sabe que eles tocam um funk rock pesado. O som estava incrivelmente alto, e as pessoas fumavam no local. Foi quando vi, ao meu lado, uma moça com um bebê de colo. 

Que agonia. Um bebê naquele ambiente era tão adequado quanto um gorila num concurso de miss. Não me segurei: perguntei a ela se o bebê não estaria melhor em casa. Ela respondeu que não tinha com quem deixá-lo. Tinha, sim, respondi. Com você. E dei uma piscadinha pra ela, pra parecer simpática. Ela me fulminou.

Sei que fui invasiva, mas na época eu tinha uma filha pequena e bateu mesmo um desespero: se meus tímpanos mal estavam aguentando (saí antes do bis), imagine o desconforto daquela criaturinha de poucos meses.

Os argumentos a favor da moça: só por que virou mãe não tem mais o direito de se divertir? O pai, pelo visto, não estava a postos, e babá é caro. É provável que não tivesse um parente ou uma amiga que a socorresse, e devia estar amamentando. Merece ser crucificada por causa disso?

Agora um episódio mais atual, envolvendo o ator Marco Caruso, que passou recentemente por uma situação desagradável. Ele estava encenando a peça O Escândalo Philippe Dussaert quando percebeu uma senhora na segunda fila amamentando seu filho de nove meses, uma criança que logo começou a fazer os ruídos naturais de todo bebê (regurgitar, resmungar etc). A plateia distraiu-se, o ator também, e por fim ele solicitou que ela se retirasse para que pudesse continuar o espetáculo.

A mulher saiu do teatro direto para as redes sociais, onde chamou o ator de preconceituoso, machista, ignorante, mal-educado, além de dizer que a peça era horrível (já assisti, é genial). Muitos defenderam o ator, outros deram razão à mulher, e não consigo entender mais nada. O que faz uma mãe levar um bebê a uma peça de teatro adulto, à noite? A administração do teatro deveria ter orientado a espectadora antes de o espetáculo começar, mas não o fez, e deu-se a confusão.

Mães têm o direito de amamentar no ônibus, numa sala de espera, no meio da rua. Elas precisam se deslocar até o trabalho, ir a consultas médicas e, ao mesmo tempo, manter seus bebês alimentados. Amamentação não é um ato erótico e pode acontecer em qualquer lugar, mas levar um lactente a um show de rock pesado ou a um monólogo teatral é, convenhamos, facultativo: a opção de ficar em casa tem que ser considerada. Pelo bem da própria criança e também por uma questão de bom senso.

Mas alguém quer saber de bom senso? Cada um faz o que bem entende e defende seus direitos aos berros, peitando quem ousar questioná-los. Ok, estando dentro da lei, podemos tudo, mas não custa se perguntar de vez em quando: poder, eu posso, mas devo?

MARTHA MEDEIROS

sábado, 11 de novembro de 2017


11 DE NOVEMBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Somos todas DIVAS


Até mesmo as mulheres mais estonteantes do planeta passam por momentos tensos em frente ao espelho. Nunca estamos 100%, ao menos não na nossa própria avaliação. Digo nossa a fim de englobar o gênero feminino, e não a classe específica das estonteantes, coisa que nunca fui. Bem que eu queria ser lindona, mas não me coube essa sorte e tudo certo. 

A beleza pode ser substituída por charme, por sensualidade, por exotismo, por maturidade, por mil outros atributos. Jamais sonhei em ser clone da Barbie, uma perfeitinha sem expressão. Ando ocupada com questões mais relevantes, porém, claro, adoraria ser bonita, e não interessante, o eufemismo clássico para quem não chegou lá.

Calma. Está tudo bem. Ninguém cortando os pulsos por aqui.

A maioria das mulheres é bela. As brasileiras são exuberantes e atraentes em toda a sua diversidade. Negras, brancas, crespas, lisas, gordas, magras. Eu percebia isso já na sala de aula, criança ainda. Cada menina tinha sua graça. Eu me sentia o patinho feio entre todas elas e, como namorava menos, tinha solidão de sobra para me dedicar aos livros, que foram meus verdadeiros affairs da adolescência.

Ao menos era alta e tinha um corpo bacana, mas isso não era suficiente pra ser a primeira opção nas reuniões dançantes. Então os anos passaram e meu cabelo melhorou, minha cabeça melhorou, a vida melhorou, e por fim descobri que a atração entre um casal pode ser dar por outros caminhos, tanto que tive namorados, casei, descasei, segui namorando e me tornei o grande amor de mim mesma, a relação essencial que alavanca todas as outras. Mas, entre mim e meus botões, às vezes ainda lamentava: quem dera ser gata.

Até que surgiram as redes sociais e o autobullying chegou ao fim. Hoje, nem mesmo a irmã gêmea do Quasímodo tem do que reclamar. Somos todas divas.

A criatura acorda às sete da manhã com o rosto inchado pelas 26 long necks que entornou na noite anterior. Posta uma selfie de ressaca, coberta de olheiras, e adivinha os comentários: Lindíssima! Poderosa! Lacrou!

Se você tem um pouco de noção, deleta a foto da ressaca e posta a foto em que está com o cabelo estrategicamente cobrindo metade do rosto: Musa! Deusa! Arraso!

Você tem 96 anos, com aparência de 104, está deformada por uma dúzia de plásticas e posta um autorretrato mesmo assim, pois anda meio gagá e já não enxerga quase nada: Gatíssima! Avião! Perfeita!

Não é o paraíso? Se a gente não está num dia bom, é só escolher a melhor foto entre as duzentas que tirou no fim de semana, caprichar no enquadramento e postar com a legenda: "sem filtro". E então começar a contar os "uau" pipocando um embaixo do outro. Não existe mais mulher feia nem com baixa autoestima - a não ser que ela não tenha seguidores.

MARTHA MEDEIROS


11 DE NOVEMBRO DE 2017
CLÁUDIA LAITANO

PODER E RESPONSABILIDADE


Se Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, fosse o Homem-Aranha, este seria o momento em que seu Tio Ben deveria puxar o guri prum canto para proferir uma das mais célebres (e sábias) lições de moral do universo dos quadrinhos: "Com os grandes poderes vêm também as grandes responsabilidades".

Em junho, o Facebook atingiu 2 bilhões de usuários - quase 25% da população mundial, que chegou a 7,6 bilhões de almas no mesmo mês -, mas a responsabilidade de Zuckerberg diante do seus superpoderes na internet anda mais para Formiga Atômica do que para Homem-Aranha.

As cobranças tornaram-se especialmente intensas nas últimas semanas, depois que a própria empresa admitiu que mais de 10 milhões de usuários da rede social foram expostos a anúncios cuja finalidade era estimular a divisão política nas eleições americanas de 2016. A chapa esquentou ainda mais no último domingo, dia 5, quando as investigações da série de reportagens Paradise Papers revelaram que um empresário ligado ao Kremlin andou investindo na empresa.

Originalmente, o Facebook via a si mesmo (e era visto) como uma força do bem, uma plataforma criada para facilitar a comunicação entre as pessoas e "mudar o mundo" - para usar o jargão preferido de Silicon Valley. Amistosa o suficiente para ser frequentada por avós e seus netinhos, a rede social era também potencialmente revolucionária, com a capacidade de mobilizar forças em torno de causas justas sem a necessidade de intermediários. A imaginação no poder, como sonhavam os jovens rebeldes de 1968.

Nos últimos tempos, porém, o Facebook anda mais parecido com aqueles vilões megalomaníacos que dão gargalhadas macabras enquanto fazem planos para dominar o mundo. Não que Mark Zuckerberg seja uma espécie de Lex Luthor disfarçado de nerd, mas o fato é que ele não tem agido à altura dos seus superpoderes. Talvez lhe faltem as luzes (ou a disposição) para perceber que sua empresa deixou de ser um negócio como outro qualquer, tornando-se uma entidade sem paralelo, em dimensão e influência, na história das relações humanas.

Esse ambiente em que fotos de gatinhos, publicidade e notícias falsas disputam a atenção das pessoas sem que elas percebam que estão sendo manipuladas por algoritmos que nem sequer entendem como funcionam, tem produzido, como subproduto, a erosão do espaço público e da capacidade de convívio com o contraditório. Nada mais justo que sejam cobradas da rede social transparência e algum tipo de regulamentação - e até mesmo que o modelo de negócios seja menos ávido por dinheiro de origem nebulosa.

O Facebook tem se mostrado muito ágil para reconhecer e censurar peitos (mesmo os de mármore...) e para desenvolver algoritmos capazes de antecipar os movimentos de seus usuários. O que se espera agora é que a empresa reaja com a mesma eficiência para combater a desinformação, as notícias falsas, as fraudes e o dinheiro suspeito.

CLÁUDIA LAITANO


11 DE NOVEMBRO DE 2017
J.J. CAMARGO

A FALTA QUE FAZEM AS COISAS MAIS SIMPLES


O consultório pode ser um lugar monótono e desanimador, mas também pode ser divertido e estimulante. Claro que uma parte de como será vai depender do que você leva consigo, mas o mais instigante é não ter a menor ideia do que vai encontrar.

Muitas vezes penso nisso quando empurro a porta e abro o melhor sorriso para anunciar um simpático "boa tarde". Tudo aprendizado de anos de atendimento que me ensinaram o quanto é difícil restaurar uma relação que começou torta. Por isso, insisto com os residentes da importância de ter em mente que aquele paciente saiu de casa com a maior expectativa, fantasiosa ou não, de que encontraria alguém capaz de ao menos ouvi-lo com dignidade, e isso não deve ser considerado um bônus do atendimento médico, mas a rotina entre duas pessoas estranhas, aproximadas por uma circunstância inesperada que vitimou emocionalmente a uma delas.

E como o médico, por mais experiente e generoso que seja, não consegue carregar mais do que um ser humano com suas limitações, problemas e angústias, sempre haverá um dia daqueles em que o modelo de gentileza e doçura não funciona.

Às vezes, se consegue restaurar a cordialidade atropelada, outras não. Muitos meses depois da cirurgia, o Albino fez um comentário revelador: "Hoje, meu doutor, estamos comemorando o nosso aniversário de namoro. E depois de um ano posso lhe contar que só aguentei a primeira consulta porque me disseram que o senhor era muito bom pra consertar a traqueia das pessoas, mas que antipatia naquela segunda-feira!".

O comentário do Albino, um homem tosco, mas afetivo, tinha a sinceridade que marca as pessoas mais puras, e por isso mais confiáveis. Eu não lembrava o que tinha ocorrido na tal segunda-feira, mas fiquei com a certeza de que o extravasamento daquele mau humor, por mais justificado que fosse, tinha sido imperdoável. Menos mal que a tolerância do Albino permitira uma segunda chance que, quando negada, deixa a sequela definitiva com que são penalizados os subestimadores do sofrimento alheio.

Outras vezes, a relação fortuita traz uma revelação inesperada e inesquecível. Quando abri a porta que dá acesso ao ambulatório dos pacientes mais humildes e chamei a dona Rosaura, não houve resposta imediata. Até que uma velhinha, depois do segundo chamado, começou a se deslocar com aquela lerdeza de quem está iniciando a única tarefa do dia. Quando lhe dei a mão, a ideia, como sempre, era de cumprimentá-la, e então, metade porque ela tinha a pele com aquela inconfundível maciez da velhice e outra metade porque queria ajudá-la a percorrer mais rapidamente o caminho até a minha sala, continuamos de mãos dadas.

Ao perguntar-lhe quais eram suas queixas, ela foi muito sincera: "Ah, doutor, eu não queria que o senhor ficasse bravo comigo e me desculpasse de eu não ter nada doendo, mas eu só queria conversar com alguém, e já vou lhe contando que lá fora tem duas mulheres, até mais moças do que eu, que também não têm doença nenhuma. Mas o que aconteceu comigo aqui eu não esperava, e aquelas ciumentas nem vão acreditar. Desde que o Antenor morreu, há 13 anos, eu nunca mais tinha andado de mãos dadas com ninguém".

E encheu os olhos para confessar: "E eu sinto uma falta dele!".

J.J. CAMARGO


11 DE NOVEMBRO DE 2017
LYA LUFT

O menino e sua mãe



No dia 2 de novembro, Finados, a morte - que tudo comanda - levou um de meus filhos. André, um gigante de corpo e alma, belíssimo por dentro e por fora, morreu na plenitude da vida, fazendo o que mais amava: surfando nas águas verdes de Florianópolis, onde, embora trabalhando na África, ele e sua mulher residiam. Ainda incapaz de escrever coisas coordenadas, reproduzo aqui, para meus leitores, o trecho da página 67 de meu novo livro, A Casa Inventada, que já está nas livrarias. O menino, então com uns sete anos, era o André.

Um menino e sua mãe voltavam das compras no ônibus quase vazio. Ele segurava no colo o presente cobiçado: um microscópio "de verdade", dado pelo pai, mas a mãe fora com ele comprar. De vez em quando, ele passava a mão no pacote:

- Parece mentira, né, mãe? - olhar sonhador daqueles olhos grandes de um azul indescritível.

- Mãe, que igreja é essa?

- Nossa Senhora Auxiliadora.

- Por que tem tanta Nossa Senhora? Não era só uma?

- É uma, sim, filho, mas ela tem muitos nomes.

- E o Nosso Senhor é São Pedro, né? Marido dela.

- Não, é Jesus. Quem se casou com ela foi São José. São Pedro era amigo de Jesus - a mãe suspirou: não praticar muita religião dava nisso.

- Ah... E por que o José não é o Nosso Senhor, se era casado com Nossa Senhora? - os olhos azuis começavam a deixar a mãe inquieta.

- Acho que é porque Jesus e Nossa Senhora são mais importantes, filho.

- Mas o José não era pai dele?


- Não era de verdade, o pai dele era Deus, José era pai adotivo.

- Então Jesus não nasceu da sementinha do José?

O silêncio no ônibus já meio vazio parecia imenso. O menino falava em voz alta e clara, pra ele era tudo natural, assim ensinavam em casa.

- Não, filho, Deus fez brotar a sementinha direto em Nossa Senhora, foi um milagre.

- Ué, então não foi como nas pessoas? - agora o silêncio podia ser cortado com faca. A mãe se fez de distraída, mas o menino pensava, concentrado.

- Mãe, como é que antigamente as primeiras pessoas sabiam como se fazia pra ter bebê, se ninguém tinha ensinado a elas?

- Ora, filho, essas coisas a natureza ensina.

- Mas a natureza não é pessoa pra ensinar a gente.

- Quer dizer, quando a gente cresce, aprende por si.

- Mãe, olha, nessa placa estava escrito Rua Mozart! Eu acho que ele mora aqui!

- Ele quem?

- O Mozart, mãe. Quem ia ser?

- Não, filho, ele viveu na Europa.

- Ah é? Até achei que era nos Estados Unidos, onde moram pessoas importantes.

Finalmente desembarcaram. Parado na calçada, sol nos cabelos claros, o menino retomou seu ar sonhador ainda segurando o pacote.

- Mãe, como eu tenho um pai bom, né?

E acrescentou depressa:

- Mãe também, claro...

LYA LUFT

sábado, 4 de novembro de 2017



04 DE NOVEMBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

DEMÔNIO

Há 16 anos, publiquei uma crônica em que citava coisas que tinham demônio, em detrimento de outras. Tipo: cinema tem mais demônio que televisão, poesia tem mais demônio que autoajuda, Janis Joplin e Billie Holliday têm mais demônio que Celine Dion e Whitney Houston, a ironia tem mais demônio que o pastelão, Manhattan tem mais demônio que Berna, a paixão e o sexo têm mais demônio que o amor. Não foi preciso explicar a subjetividade do conceito que eu estava aplicando: confiei na inteligência dos meus leitores e todo mundo entendeu, curtiu e até me enviou outros bons exemplos.

Voltei a pensar nisso, pois na época incluí o Brasil como um país que, graças a Deus, tinha demônio. Apesar dos problemas de sempre, éramos um país apimentado, com uma atmosfera irreverente, uma estética psicodélica, uma cultura pluralista e era isso que nos diferenciava das outras nações. 

Nosso despudor era um capital, deixava a todos atentos, ninguém pegava no sono ao escutar a palavra Brasil. Não faço aqui a exaltação da vulgaridade, e sim de um espírito naturalmente anárquico que nada tem a ver com falta de educação e atitudes ilícitas. Anarquia como delírio criativo, ousadia, inspiração. Éramos o país do carnaval, do tropicalismo, do folclore regional, do samba, da libido - um país quente, feliz e com tesão.

Éramos.

Estamos perdendo nosso demônio para os caretas e covardes (Senhor, piedade), para os pastores que catequizam seus rebanhos a fim de transformá-los em tementes da livre expressão e da arte que ousa ir mais longe - independentemente de ter qualidade ou não. Só se avança rompendo limites. Mas, em vez de expandirmos, estamos perdendo a saliência e buscando o caminho da banalidade e do puritanismo infértil. Caminhamos rumo a um autoritarismo travestido de ordem, mas que visa apenas engessar aqueles que pensam e vivem fora da caixa. Em vez de um país alegremente atrevido, estamos nos transformando num país castrado. Um país de pau mole.

Moralizar o Brasil é uma emergência: devemos seguir combatendo a corrupção e denunciar a troca de favores entre parlamentares que só desejam perpetuar seu pseudopoder e continuar forrando os próprios bolsos. Essa é a nossa verdadeira vergonha, a maior das indecências. Porém, não é transformando o país numa igreja que iremos nos salvar. 

Confundir moralidade com censura e rigidez será a nossa perdição. Moralidade na política nada tem a ver com manter a população enquadrada e em estado de anemia. Não é asfixiando nossas inquietações produtivas que iremos entrar no primeiro mundo, ao contrário, será o atestado da nossa burrice. Um país que perde a capacidade de subjetivar é um país condenado à mediocridade eterna, amém.

Lutemos pelo nosso demônio sagrado.

MARTHA MEDEIROS


04 DE NOVEMBRO DE 2017
CARPINEJAR

O nó entre pai e filho


Há certos rituais que ainda são dos homens, hábitos exclusivos entre pai e filho, que não podem se perder com o tempo e a tecnologia.

Ensinar a se barbear com a devida espuma é um deles. Nada mais bonito do que pai e filho próximos no espelho, rostos sobrepostos, o pai pedindo licença para descer a lâmina na pele do filho, avisando que não vai machucá-lo, que não é para ter medo, demonstrando a firmeza da diagonal do gesto. O filho prestando atenção, e admitindo a exceção de uma mão que não a sua tocando em sua face, como um beijo diferente, como parte da sua vida. E depois colocar a toalha quente e borrifar loção, estapeando levemente os poros abertos e partilhando a ardência saborosa e perfumada da virilidade. Que tudo termine numa risada com "entendi, pai, entendi".

Fazer o nó da gravata é outra lição essencial. Acabei de explicar ao meu filho Vicente. Tinha que ser eu. Para que pudesse lembrar de mim em sua formatura, em seus dias de emprego, em suas saídas oficiais para festas e casamentos.

É hastear a bandeira do nosso amor no colarinho. A gravata traz uma delicadeza séria, uma doçura digna. Não importa a cor, será o nosso jardim nos ombros.

Quando ele firmou o nó pela primeira vez em seu pescoço, eu senti que nenhum mal e desavença posterior nos soltaria. Estávamos presos aos cadarços das camisas.

Foi um misto de orgulho e de nostalgia. Era pôr um laço definitivo de filiação. Eu o deixava ir para ficar na memória. Aceitava, com dificuldade, que ele estava grande, de que cresceu, de que deveria abrir o seu caminho sem precisar de mais ninguém para pedir favor. Daria conta de si sozinho dali por diante.

Não haverá abraço no futuro que nos torne tão rentes como naquele momento.

Assim que deve ser: é o filho que fará a gravata no enterro do pai. Valor a ser passado de geração em geração, pelos ciclos da existência.

Só ele repetirá a minha assinatura, ponto por ponto, dobra por dobra, não aceitando a ponta da gravata maior do que a cintura, não aceitando a despedida de qualquer jeito, mantendo o respeito e o capricho da minha essência na aparência.

CARPINEJAR

04 DE NOVEMBRO DE 2017
PIANGERS

Palavras cruzadas


A Aurora está aprendendo a ler e a escrever. Os fonemas ainda são literais, te amo ainda é ti amu, mas luto pra que este estilo de escrita, tão comum entre os jovens de hoje em dia, evolua quando ela não tiver mais cinco anos. Gramática, matéria escolar ignorada por jovens com nove letras.

Cada pequena evolução infantil nos emociona, como naquelas propagandas em que o pai segura a filha na bicicleta sem rodinhas até que ela consiga pedalar sozinha. O pai comemora em câmera lenta enquanto a filha se afasta feliz. Estou empolgado com esta fase, incentivando a leitura e a escrita. Brincamos juntos de fazer palavras cruzadas e assim ela vai treinando a construção das sílabas. Um desenho de um quadrado amarelo com um telhado. "CAAAA? SA?", ela pronuncia enquanto escreve. O desenho de um pisante de couro preto. "TE?NISSSS", ela escreve deixando sobrar um quadradinho. Era sapato.

Incrível, soberbo, magistral. Com onze letras. Ela tem alguma dificuldade e lê apenas o que está escrito em caixa alta, mas se esforça e todas as manhãs quando vamos até a escola ela vai lendo as placas ao redor. "PAAAAA?RE", diz olhando para uma placa. "ES?GO?TO", lê no bueiro da rua. Nossa caminhada diária até a escola demora longos minutos, mas cada sílaba é celebrada. 

Não consigo não sorrir. "Parabéns!", grito ao fim de cada palavra, batendo palminhas. Não estou querendo dizer que ela é genial ou algo assim. Ela não é brilhante, tenho certeza. Demorou para conseguir pronunciar o erre, recorta com a boca aberta, tem dificuldades matemáticas. Mas está aprendendo a ler e se isso não é maravilhoso não sei o que é.

Saudação de despedida com cinco letras. Nossos filhos estão sempre nos dizendo adeus. Quando aprendem a caminhar, estão nos dizendo o primeiro adeus. Depois, quando aprendem a falar. Depois, quando aprendem a caminhar. Agora a ler. Depois quando estudam sozinhos. Depois quando escolhem uma profissão. 

Depois quando arrumam emprego. Passam os anos nos dizendo pequenos "tchaus", ganhando autonomia. Estaremos batendo palminhas em cada um desses momentos, felizes por eles. Viva! Você conseguiu! Até que dirão o adeus mais dolorido. Formarão suas famílias. Sentiremos falta de suas limitações. Das vezes que nos pediam ajuda. Torceremos por uma ligação no domingo. Sentaremos no sofá, fazendo palavras cruzadas. Sentimento de falta de alguém, com sete letras.

PIANGERS

quarta-feira, 1 de novembro de 2017


01 DE NOVEMBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

MARTHA MEDEIROS

Havíamos sido apresentados durante um evento. Ele sabia que eu era escritora, eu não sabia nada dele e fim da história. Até que, dois dias depois, ele me encontrou sozinha e se aproximou. Disse, num tom muito sério, voz preocupada: "Quero aproveitar este momento pra te pedir um conselho".

Meu Deus. Ok. Peça.

"O que você diria para o pai de uma menina que desde os cinco anos de idade, até hoje, aos 24..."

Suspirei. A menina seria viciada em crack? Não se identificava com o sexo com que havia nascido? Era abusada por algum familiar? Teria algum distúrbio, alguma doença, algo que precisasse de um acompanhamento psicanalítico? Qual seria o seu segredo, a sua dor, o que ele estaria prestes a me confidenciar?

"...que até hoje, aos 24, não faz outra coisa na vida a não ser ler?"

Olhei bem para o rosto dele e aguardei a gargalhada que denunciaria a piada. Não veio. Ele estava falando sério. Então iniciei meu questionário.

"Ela dorme à noite e se alimenta bem durante as refeições?"

"Sim."

"Ela estuda ou trabalha?"

"Sim." "Ela namora, tem amigos, vida social?"

"Sim." "Então, desculpe, não entendi."

Quantos pais, hoje, subiriam 300 degraus de joelhos pela graça de ter um filho que adorasse ler? Eles existem, os leitores jovens. Mas não são muitos, não tantos quanto precisaríamos para manter defensores da ditadura longe das intenções de voto, para que não se fizesse confusão entre pedofilia e performance, para que não existisse tanta gente sem saber escrever um bilhete decente, para que não houvesse tanta tacanhice e dificuldade de transcendência. 

Leitura está diretamente associada a evolução, a desenvolvimento, a sabedoria e amplitude de ideias. Sem leitura, resta o confinamento, a estreiteza, o escuro. Viver neste buraco gera medo e o medo nos faz segurar qualquer corda que nos alcancem. Viramos presas fáceis de oportunistas.

"Que pai sortudo você é", disse a ele. "Vício em leitura é virtude."

"Sinceramente, acho um exagero", ele respondeu, e se afastou. Não tocou mais no assunto e nunca mais o vi, mas espero que seja surpreendido pelos textos impecáveis, pelas conversas inteligentes, pelos projetos audaciosos, pelo patrimônio intelectual que sua filha começa a conquistar.

Pais sortudos, não pirem. Não existe "ler demais". Preocupem-se com o "ler de menos", essa epidemia às avessas que nos afunda e impede que sejamos um povo mais aberto e interessante. Em tempo: a Feira do Livro de Porto Alegre está começando. Neste ano, não irei autografar, mas a gente poderá se cruzar na praça, em busca de novos títulos nas barracas. Pois o que eu já li e o que você já leu ainda não é suficiente, e nunca será.

sábado, 28 de outubro de 2017


28 DE OUTUBRO DE 2017

PIANGERS

Seja um herói


Não faz muito tempo, a Ana estava lendo O Menino Maluquinho para a Aurora. Nosso livro tem o autógrafo do Ziraldo, mais uma das vantagens do livro de papel sobre o tablet. Acho tablet maravilhoso mas livro de papel tem cheiro, dá pra deixar na areia da praia e não acaba a bateria. A Aurora estava fascinada com o menino que tinha asas nos pés, pernas que abraçavam o mundo e o olho maior que a barriga. Sempre que lemos juntos celebramos a delícia que é entrar de mãos dadas em um universo encantado.

Mas, então, a Ana estava lendo O Menino Maluquinho para a Aurora. E olhem que coisa fofa o que ela disse. No final do livro, como vocês devem saber, o Menino Maluquinho cresce. O livro diz: "Ele cresceu e virou um cara legal! Aliás, virou o cara mais legal do mundo!". Nesse momento, a Aurora olhou pra Ana com os olhos arregalados e disse: "Mãe, então esse livro é sobre o papai!".

Nossos filhos nos acham incríveis. Lembro que falávamos sobre o Japão uma vez no carro, e a Aurora disse, no banco de trás: "Papai sabe falar japonês". Não sei, mas não disse na hora, que não quero estragar a fantasia da menina. Quando viu que eu guardava os remédios em uma mala de médico na despensa, ela exclamou: "Papai! Você é médico! Que legal!". E passamos semanas colando band-aid em todas as marquinhas de mosquito.

Ao mesmo tempo em que me emociono, reflito sobre o olhar de admiração da pequena. Nossos filhos nos consideram seus heróis. Carregamos duas sacolas de supermercado e somos os homens mais fortes do mundo. Somos os homens mais lindos a seus olhos. Meu amigo Marcos está notavelmente acima do peso e sua esposa não o deixa esquecer disso mas sempre que o faz sua filha vem abraçá-lo e cochicha: "Você está muito bem assim, papai".

Somos os mais fortes, os mais lindos, os mais inteligentes. Nossas crianças confiam mais em nós do que nas professoras. Mais em nós do que no Google. Acreditam que somos os mais gentis, os mais educados, os mais honestos. Seja o herói que seu filho acha que você é. Crianças são um ótimo balizador de decisões. Se eu tomar esta decisão profissional, o que meu filho acharia? Se eu ficar com o troco errado, o que meu filho acharia? Se eu não for gentil com as pessoas, o que meu filho acharia? É um ótimo critério para tomar decisões.

Seja o herói que seu filho acha que você é. É o que digo pra mim mesmo. Preciso aprender japonês.

PIANGERS

28 DE OUTUBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Amor bandido

O tempo coloca tudo rapidinho no passado. Lembra a Bibi? Aquela lindona da Juliana Paes numa novela remota chamada A Força do Querer, que até dias atrás hipnotizava o país e que já entrou para o cemitério global? Pois ela evidenciou o amor bandido, esse que atrai meio mundo, que desperta fantasias, que é tema de música, cinema, literatura e que deixa homens e mulheres a ponto de bala metaforicamente, claro. Amor bandido não precisa envolver disparos de metralhadora.

O que é um amor bandido? Well, começa pelo escolhido (ou escolhida, mas não me patrulhe por eu adotar o gênero masculino para descrever o indivíduo - vale para as perigosas, também).

Ele é o protótipo do safado, isso fica claro já no início da troca de mensagens - ninguém é tão sedutor numa segunda-feira. Mas pra ele não existe dia inútil, sempre é hora para um xaveco. Você me abala, você é sexy, você é um arraso. Ele não dirá que você é a nora que a mãe dele sonhou, ele é bandido, não um palerma.

Então, o bandido marca um encontro num boteco e aparece bem vestido e sem pistola no coldre, e você até pensa que a regeneração começou, mas não se iluda, ele tem munição de sobra: as dissimulações, os segredos, a parte trash de uma história que ele revelará parcialmente e com cenas censuradas. Você é apenas um capítulo da biografia dele, ok? Relaxe e não se ache.

O amor bandido pode não ter nada de criminoso. É apenas um amor vadio, um amor sem endereço fixo, um amor que faz perder o sono, um amor que requer exames de HIV, um amor cheio de nudes no WhatsApp, um amor onde haverá uma terceira pessoa sendo traída, um amor que telefona bem na hora em que você não pode atender, um amor que exige lingerie provocante, um amor que jamais passará um Natal com você, um amor que obriga você a mentir e que faz você usar um batom de uma cor que ninguém sabia que existia na cartela, de um vermelho extra picante. Gente, quem resiste?

O amor bandido jamais será pai dos seus filhos. Se for, será rebaixado a amor domesticado, e perderá a graça e o adjetivo. Amor bandido tem que ser estéril e pra sempre, sairá da sua vida em poucos meses, mas nunca da sua cabeça.

Ele faz você usar uma jaqueta que você pensava em doar para uma periguete, faz você falar certos verbos que nem a Madonna se atreve, faz você parecer a menina da escola que seus pais proibiam de cumprimentar, faz você se sentir a mulher mais gostosa de toda a quadra da Mangueira. Um filho da mãe adorável que você odeia amar (ou ama odiar, fica a critério do freguês).

Amor bandido vem com olhar de lince, voz aveludada, corpo gingado, aventuras inventadas e tendo você como dona do altar. Ajoelhado a seus pés, ele reza e promete o impossível, e você, mais malandra que ele, finge que acredita e dá a ambos a extrema-unção: que morramos juntos nesta piração.

MARTHA MEDEIROS

28 DE OUTUBRO DE 2017
CARPINEJAR

Nenhuma desculpa é instantânea


Quando você erra nunca tem tempo para se explicar. Sempre ficará de castigo.

Não existe retratação imediata, entenda isso, não há desculpa instantânea, não receberá o indulto no próximo minuto.

Nem conseguirá argumentar. Gaguejará as primeiras palavras de arrependimento, e o microfone do coração será cortado. A pessoa agredida com a falsidade não vai querer ouvir - baterá a porta, sairá de perto, virará as costas.

Ninguém aceita bem uma mentira desfeita ou uma lealdade quebrada. O pecado tem o seu preço, os seus juros e os seus números quebrados. Aquele que foi enganado precisa de tempo para absorver a notícia.  Quanto mais demorar em dizer a verdade mais estrago produzirá na confiança.

A ingenuidade é acreditar que não importa o que tenha feito de errado, o amor prevalecerá. Todo mundo que pede perdão comete a gafe de não imaginar a recusa e a raiva após a decepção. Todo mundo que pede perdão é romântico e se ferra. Desenha o melhor dos cenários e não cogita o cancelamento do show.

No relacionamento, o conserto depende da difícil reposição. Não é só chegar na oficina sentimental e aguardar a troca sumária das peças.

Talvez a convivência jamais seja a mesma, talvez a amizade jamais readquira a sua espontaneidade.

Voltar a confiar é uma das missões mais complicadas da vida, pois depende da benevolência da memória e da força de vontade.

Qualquer confissão implica em trabalho para reconquistar o outro. Passará uma semana inteira telefonando ou aparecendo de repente sem chance alguma de ser atendido. Desculpa se alcança com insistência.

Terá que gastar a fortuna de seus dias e de sua paciência. Dependendo da gravidade da falha, exigirá meses ou anos ou quem sabe nunca se concretize um retorno. Mas não tem como ser diferente, não tem como ser indiferente, não tem como seguir uma relação sem honestidade.

CARPINEJAR

28 DE OUTUBRO DE 2017
LYA LUFT

Bullying



Eu não ia escrever sobre, porque não se fala em outra coisa. Mas, talvez por isso mesmo, e porque alguns leitores pediram, estou comentando o caso. Vários ângulos, todos difíceis, todos espinhosos, perigosos, sempre tristes. Num excepcional período de violência física ou emocional, a qualquer estranhamento saímos de dedo em riste ou brandindo uma espada (pode ser verbal) feito serial killers. Estressados por condições da própria vida, da cidade, Estado, país e ultimamente também do vasto mundo, zombarias ou brigas que em outros tempos podiam se resolver no pátio da escola, ou com alguma conversa mais sensata, hoje às vezes se tornam dramas. 

Não só os assédios ficaram mais violentos como, espalhados em redes sociais, difundem a humilhação, o desamparo e a dor em grupos maiores e - todo mundo irritado, inconscientemente assustado - a situação se torna grave. Mesmo assim, habitualmente não nos matamos nem matamos os outros por isso.

Como ajudar, abrandar, reduzir o problema que se agrava? Tudo começa em casa, o que parece clichê: falo na autoestima da meninada. Na sua segurança e na capacidade de enfrentar desafios. Isso vem, em parte, com a própria personalidade, mas depende também do ambiente familiar. De poder-se abrir com pai ou mãe numa dificuldade maior. Se faltam estímulo, aprovação, parceria e até alegria na família, o adolescente ou a criança é mais vulnerável. 

Paternidade, maternidade, já são bastante difíceis, apesar de toda a felicidade e ternura que nos dão. Ninguém pode evitar que um filho tropece na calçada e quebre a perna, por exemplo. Mas é preciso estar atento a coisas bem mais sutis do que isso. Se um pai, ou mãe, cujo filho acaba de matar colegas e ferir muitos outros, ou que se suicidou, nunca notou que seu filho sofria com zombarias ou deboches, nesse amor talvez houvesse lacunas ou muros.

Um filho mais quieto nem sempre está deprimido ou a perigo. Pode só querer ficar em paz, sem intromissões dos pais (amor pode ser excessivo, sim...), querer refletir, curtir uma descoberta ou até uma perda. Crescer dói. Adolescentes, como as crianças, são pessoas. E sofrem, têm perplexidades, angústias, solidão, dramas e dilemas. É bom saber que há por perto adultos amorosos e interessados. É bom ter a quem recorrer sem medo.

Porém: se amar é cuidar, é também ficar atento sem histeria. Interessado, mas não intrometido. Amoroso, não esmagador. (Quais os limites? Nem eu sei, criar filho é um pouco tatear no escuro.) E não nos enganemos: o pai, a mãe, não são o "melhor amigo ou amiga" dos filhos ou filhas - isso eles têm na escola, no bairro. Pais devem ser pai amigo e mãe amiga: aqueles que, o filho sabe, sente, podem acolher, orientar, abraçar como nenhum amigo.

Que os deuses inventem sempre um adulto em casa, ou na escola um professor querido e respeitado, para ajudar a vencer desafios emocionais e a superar eventuais perseguições. Isso pode salvar uma vida.

lya.luft@zerohora.com.br

quarta-feira, 25 de outubro de 2017


25 DE OUTUBRO DE 2017
PEDRO GONZAGA

PALAVRAS


De fundos coloridos elas emergem em fontes gritantes, sempre com o tom imperativo dos slogans, a modo de disfarçar sua falsa profundidade. Redutoras e flavorizadas, as frases motivacionais infiltram-se em diálogos, passam a ser reveladoras da intimidade, volvem cada espaço sentimental numa prateleira de autoajuda de papelaria. É como se tudo fosse regido pela prática sordidez do mundo dos negócios, e assim surgem produtos como: Eu tenho que saber meu valor; É preciso investir na relação; Fique do lado de quem cresce com você.

A pobreza verbal está para a mente, assim como a pobreza material está para o corpo, mas a primeira pouco se nota. Tempo faz que bato nesta tecla, nas salas de aula, nas palestras, naquilo que escrevo: o uso dos bordões das redes sociais, a ausência da literatura no cotidiano (algo dramático num país de tantos excluídos sem escolha), somados ao esquecimento dos velhos ditos populares, nunca pomposos, nunca ocos, só poderia dar nisso: Eu não sou mesmice, sou intensidade. Ou: O que os outros chamam loucura, eu chamo ousadia. Ou ainda: Superar não é escolha, é necessidade.

Por não conhecerem dúvida, por não enxergarem o outro senão como adversário, por não saberem que o silêncio e o desassossego são partes integrantes da experiência humana, tais lemas conformam todos os eventos vitais a uma espécie de concurso de virtudes em que as pessoas conhecidas são apenas plateia. Por isso, por trás de cada obviedade, existe um eu raso convertido num você raso e subordinado, que não se sabe discípulo de uma ordem estúpida. Tal conversão é simples, tão simples que parece mágica, de fato, é mágica. 

De um Eu sou a pessoa mais linda, passa-se a Acredite que você é linda; de um Eu sou a minha maior expectativa, a Seja você sua maior expectativa; de algo como Eu sou grato a mim mesmo por existir, nasce uma nova "gratidão", que só em aparência se assemelha à tão bela e velha palavra, porque neste caso, dada a exclusão dos outros, diz seu justo contrário. E este é o maior perigo de fazer de tantos clichês um procedimento: palavras levianas calcinam palavras, palavras arrogantes calcinam ideias, palavras egoístas calcinam sentimentos.

A literatura, com seu amor às palavras, bem poderia ser uma saída.

As listas dos mais vendidos alimentam as chamas.

pdgonzaga@icloud.com

sábado, 21 de outubro de 2017


21 DE OUTUBRO DE 2017
CARPINEJAR

Você é uma abelha ou uma mosca do amor?

Você pode ser uma abelha ou uma mosca no relacionamento.

A abelha busca o pólen, prepara longamente o mel do seu esforço, articula as asas em nome da colmeia, chega a esquecer de si pelo alvoroço da família, tem a euforia de passear acompanhada. Mesmo quando a vida não ajuda, trabalha a esperança. Não entrou num romance para esperar algo, mas para fazer. Não reclama à toa, partilha os seus dilemas procurando uma solução. A dúvida a inspira a perseguir novos jardins e explorar outras paisagens.

Por sua vez, a mosca namora ou casa já pensando no divórcio, já receosa do fracasso, já aguardando a confirmação de seus medos. Sempre tem razão, sempre replica expectativas desagradáveis. Quer provar que o seu par não presta, ainda que tenha que se privar da própria felicidade.

Ela sobrevoa sobras mortas e fica catando implicâncias superadas. Adota o ciúme para desqualificar, emprega a competição para constranger. Não avalia a sua alegria por aquilo que pode oferecer, mas por aquilo que pode receber. Não vai adiante nas adversidades, para no ar, fixa-se no passado. Revela o pior de sua companhia, desmerecendo os elogios e omitindo os avanços. Não cria o seu espaço, aproveita-se da personalidade alheia. Suga apenas a realidade de suas projeções, pois nenhuma mosca é capaz de morder ou mastigar os problemas.

A mosca finge que está tudo bem quando está mal, finge que está mal quando está tudo bem, não enfrenta a verdade, conversa fatiado, realizando muitas coisas paralelamente, isenta-se pela pressa dizendo que não é a melhor hora para mudar (nunca é a melhor hora), não coloca a sua companhia como prioridade, deixa o telefone tocar quando vê o nome, conserva uma atenção dispersiva, arruma pretextos para não se mexer, não pede desculpa porque não acredita no parceiro, arma-se de uma pendência no trabalho para manter a confortável inércia.

A mosca é egoísta, a abelha é solidária. A mosca é do contra, a abelha é a favor. A mosca é conformada, a abelha é curiosa. A mosca provoca enterros, a abelha apressa renascimentos. A mosca revira o lixo das contradições, a abelha organiza o caos e separa o útil do fútil. A mosca incomoda, a abelha incentiva. A mosca não defende ninguém, a abelha possui a ferroada para proteger quem ama. A mosca abandona, a abelha carrega.

Ambas voam. Mas só a abelha sobe alto no amor.

CARPINEJAR

21 DE OUTUBRO DE 2017
CLARA AVERBUCK


De boas intenções as famílias estão cheias

Olá, familiares. Venho trazer um pedido: nunca, nunca, JAMAIS, em hipótese alguma, falem mal dos corpos das adolescentes.

Se você acha que ela está "gordinha", "acima do peso" ou qualquer coisa assim, guarde pra você.

Se você acha que ela poderia comer menos pois, olha só, como engorda fácil, também guarde pra você. Se você acha que se essa menina não "se cuidar e fizer um esporte vai ficar gorda", guarde muito profundamente pra você.

Se sua nobre intenção era "ajudar" falando coisas desse naipe, saiba que você FALHOU. Falar mal dos corpos das meninas que estão começando a crescer e se acostumar com corpo de mulher só vai fazer com que elas se sintam mal, muito mal consigo mesmas, em um mundo que já faz isso com maestria, começando pelo fato de que, apenas por crescerem, elas já recebem olhares que não recebiam antes nas ruas e não sabem o que fazer com eles. 

Só vai fazer com que tenham vergonha de seus corpos, com que se escondam, e sabe o que mais? Que DESENVOLVAM DISTÚRBIOS ALIMENTARES. Que busquem remédios milagrosos e perigosos. Encontrem nichos de meninas já doentes com "dicas" na internet, que existem aos borbotões.

Criticando uma adolescente, familiar, você não está ajudando; Você está atrapalhando e ajudando a criar uma mulher insegura.

Caso a sua grande preocupação seja a saúde, que é sempre a desculpa para dar pitaco no corpo alheio, aborde A SAÚDE, não o corpo ou usando o jurássico IMC para justificar sua abelhudice. Não custa repetir: magreza não é saúde. Há inúmeras pessoas magras com colesterol alto e distúrbios mil e outras, consideradas "acima do peso", vivendo saudáveis e felizes.

Sabe o que não é saudável nessas pessoas? Saúde mental. Se a sua preocupação é saúde, pense também na saúde mental e em quantas meninas jovens enlouquecem diante de corpos manipulados, seja por imagem ou por plásticas que criam corpos inatingíveis e que elas buscam com o desespero da aprovação que jamais virá, porque nunca é o suficiente.

A intenção pode ser boa. Passei muito tempo da minha vida ouvindo que tinha um belíssimo rosto mas que meu corpo, hmmm... E isso que eu nunca fui gorda. Menos ainda na adolescência. E mesmo assim desenvolvi distúrbios que me acompanham até hoje. Novamente: não sejam essas pessoas. Lembro que, no auge de uma depressão misturada com anorexia, a única que percebeu foi a minha avó. Todo mundo achava aquela magreza linda (49kg para 1.73), e apenas a minha avozinha viu que tinha algo errado ali. Tinha. Eu estava morta por dentro. Mas magra! Linda! Não, gente. Meus olhos sequer brilhavam.

Querem elogiar? Arrumem novos elogios. "Como você emagreceu", como tanto tenho ouvido agora, chega a me agredir, já que eu emagreci porque tive uma gastrite galopante e fiquei dias sem comer. Agora estou bem, fazendo esportes, mas isso ainda me afeta. E se eu ainda estivesse doente? E se fosse mais sério? E se eu não quisesse falar sobre isso?

Parem com isso, por favor. Parem de tratar magreza como sinônimo de normalidade e felicidade.

Todos os corpos merecem ser felizes e respeitados. Então, por misericórdia, se não tiver nada de positivo para falar, não diga nada.

Shhh. O silêncio é mesmo de ouro quando o que sairia da sua boca seria ouro de tolo.

CLARA AVERBUCK


21 DE OUTUBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Perder o casal


Cena da peça A Reunificação das Duas Coreias, do francês Joël Pommerat: é noite, o marido e a esposa retornam de um jantar e a babá está aguardando-os, sentada numa cadeira da sala. Indo direto ao quarto dos filhos, a esposa dá pela ausência deles. Volta para a sala e pergunta para a babá onde estão as crianças. A babá, atônita, não responde. A mulher e o homem começam a gritar com ela. A babá não sabe o que dizer. O homem pega o telefone e chama a polícia, a esposa chora, e a babá segue constrangida. 

Eles continuam berrando com ela: Onde estão nossos filhos?. Ela, então, responde: Que filhos? Vocês não têm filhos. Vocês me contrataram para ficar aqui como se houvesse crianças, mas elas não existem. Aceitei essa palhaçada porque estou precisando de dinheiro. A polícia já está batendo à porta, mas o casal não abre, agora estão ajoelhados em frente à babá, implorando para que ela não destrua a farsa. O texto deles é um soco.

"Se você tirar nossos filhos, nossa vida vai parar. Não existiremos mais. Nossa história perderia todo o sentido, tudo desabaria. Nossa vida não teria mais nada de real, nenhuma justificativa, acabaríamos nos perdendo um do outro. No fundo, não temos nada de importante a nos dizer, nada a compartilhar, nada em comum. Nada de importante para fazermos juntos, nada de verdadeiramente necessário e crucial sem nossos filhos. 

Nos tornaremos dois estranhos, dois fantasmas.Tememos isso como a morte. Não queremos perder nosso casal, isto é o que nos mantém vivos. Você sabe que um casal é como um ser vivo. É um parâmetro essencial, é uma luz que chama a atenção dos outros para a sua existência. Nosso casal se construiu com base nos nossos filhos. Então, sem filhos, nós desaparecemos, não temos identidade própria. Isso não lhe causa nenhuma compaixão? Por favor, devolva nossos filhos."

É perturbador ver alguém implorando para que lhe devolvam uma ilusão.

Cruzamos com vários casais pelas ruas sem conhecer as mentiras que sustentam suas existências. Para não perderem "o casal", alguns homens e mulheres fazem vista grossa para a ausência de amor e para os desejos particulares que cada um abafou. Horrorizam-se com a possibilidade de não terem projeção social caso retornem ao mundo dos solteiros. Enquadrados, sentem-se mais seguros.

Famílias são bênçãos, são projetos conscientes de vida, mas também podem ser formadas apenas a fim de constituir uma prova de ajustamento. Através da família, pertencemos a um mundo idealizado. Quem se desmembra deste mundo carrega consigo a sombra de um defeito moral. É visto como um desgarrado, um solitário, essa gente estranha que assusta, pois são livres demais.

Por isso, alguns "ajustados", não tendo coragem de ser sós, recorrem à farsa. Há uma pequena nação de covardes por trás das cortinas.

MARTHA MEDEIROS


21 DE OUTUBRO DE 2017
LYA LUFT

Objeto precioso


Minha coluna de hoje seria sobre um vídeo que recebi de uma amiga, que me deu um belo susto e me levou a escrever um artigo logo. Sem pesquisar, sem conferir. Até a voz do vídeo eu pensei reconhecer. Era uma jovem mostrando uma boneca que a filhinha teria recebido entre outros presentes, boneca "menina" de vestidinho e tudo, que - descobriu a criança trocando a roupa do brinquedo - ostentava um óbvio "piu-piu", na linguagem dela. Mas, compensando uma precipitação que em geral não tenho ao escrever, logo alguém chamou minha atenção, o vídeo era fake, e nem novidade era. Suspendemos a coluna, e eis-me aqui fazendo outra, bem mais agradável para mim.

Falo de um precioso objeto que acaba de chegar em minha casa, via Sedex, naturalmente com algum atraso porque estivemos em greve. Que objeto, e por que precioso - para esta que aqui escreve? Meu novo livro. Meu livro de número trinta. Trinta? Refiz a conta e, sim, em muitas décadas, escrevi trinta livros, então não é um exagero. Bem menos de um por ano.

Estou habituada a escrever e receber meus livros. Essa é a minha profissão. Mas este, talvez pelo número, me tocou mais. Estou com ele em cima da escrivaninha, aquele primeiro e único que o editor me manda sempre antes que chegue meu lote completo: pequeno, discreto, A Casa Inventada. Que casa, e quem inventa? Criei uma alegórica casa da vida, da vida de cada um de nós, que a vamos criando. Diz uma personagem a outra: "Você não está inventando a casa da sua vida, está tecendo a sua mortalha. A cada noite interrompemos o trabalho, e recomeçamos no dia seguinte". Seremos todos Penélopes da própria existência?

Quem sabe. O jeito é ler o livro. Que deve estar nas livrarias do país no dia 6 de novembro, em pouco mais de duas semanas. O editor escreveu uma orelha breve mas que me agradou, pois pergunta-se, como todo mundo fará: que gênero é esse? Ficção, memória, ensaio não acadêmico? Gosto de misturar tudo isso, desde O Rio do Meio, de 1997, passando pelo Perdas & Ganhos, e alguns outros, além de mais poesia e mais ficção. O editor conclui, e lhe agradeço por mais isso: "É o gênero Lya Luft".

Então nasceu e está chegando o meu novo livro, minha nova criatura, essa casa na qual não somos pedreiros nem arquitetos, mas amadores.

Quando ele estiver nas livrarias, eu aviso. Logo haverá, como sempre, aquela noite de autógrafos que me dará pesadelos (também como sempre), embora cada vez acabe numa celebração de afetos e carinho.

Quando chegar a hora, eu anunciarei aqui, e escreverei de novo: "Não me deixem só". E divirtam-se com mais uma invenção minha.

lya.luft@zerohora.com.br

quinta-feira, 19 de outubro de 2017


18 DE OUTUBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Novostempos.com

Fui uma menina romântica. Vibrava quando o príncipe surgia no final da história da Branca de Neve e da Bela Adormecida: ufa, basta de perrengue, agora é só subir na garupa do cavalo branco e ser feliz pra sempre, bora.

Mas não demorou para eu descobrir que esse desapego - elas não levavam nem bolsa - era irreal. Um dia, uma colega de aula me convidou para ir à sua casa: sua irmã mais velha iria se casar dali a uma semana e ela queria me mostrar uma coisa. O que seria? Cheguei e fomos direto para o quarto da tal irmã, que não estava. Minha colega abriu a porta bem devagarzinho. Meu coração aos pulos. Foi então que vi.

Ou melhor, não vi. Não vi a cama. Não vi as mesas de cabeceira. Não vi o chão. Estava tudo - tudo! - coberto de presentes, pratarias, cristais. Tum-tum, tum-tum, meu peito batia forte. Parecia a caverna do Ali Babá. Jogos de louça, faqueiros, copos, cálices, vasos, castiçais, bandejas, luminárias, liquidificador, torradeira, aparelho de fondue, baldes de gelo, pratinhos de sobremesa, porta-retratos, jogos americanos, aparelhos de chá, xícaras, cachepôs. Que cavalo branco, o quê. Quem casa precisa é de um bom caminhão de carreto.

Meu romantismo infantil foi ligeiramente corrompido por aquela visão materialista. Amor e uma cabana? Só se a cabana for muito bem equipada. Tudo bem, ainda parecia um conto de fadas. Deveria ser estimulante começar vida nova ganhando tanta coisa, desde o pano de prato até a baixela de prata.

A partir de então, passei a valorizar esse rito de passagem matrimonial, tanto que, quando recebo um convite de casamento, logo me pergunto: em que bazar estará a lista de presentes? Planejo ir até a loja e, diante das opções sugeridas pelo casal, encontrar algo que me permita participar de seu novo cotidiano, seja através da jarra em que eles se servirão de suco pela manhã ou dos cálices em que tomarão seu vinho à noite. 

Ou dar algo mais original, feito por alguma artesã que eles não conheçam: tigelas pintadas à mão para a salada de frutas ou uma toalha de mesa bordada. Até que alguém me acorda e avisa que parei no tempo, que tudo o que relatei acima virou um documentário de época e que hoje os noivos vivem juntos e já têm casa montada. Lista? No site.

O processo de presentear agora é instantâneo: você abre o computador e encontra um cardápio com fotos de alguns objetos utilitários, ou a proposta de comprar uma cota para as passagens aéreas e os passeios que serão feitos durante a lua de mel. Você escolhe, clica, dá o número do seu cartão de crédito, digita uma mensagem virtual e envia - foi. Os noivos, do outro lado da tela, receberão o quê? O dinheiro equivalente.

Tum-tum, tum-tum, bateria meu coração emocionado, se ainda se emocionasse.

MARTHA MEDEIROS