sábado, 3 de março de 2018




03 DE MARÇO DE 2018
PIANGERS

Os filmes do Oscar com filhos

Não assisti a nenhum dos indicados a melhor filme no Oscar em 2018, afinal tenho filhos e só temos assistido no cinema a filmes family friend. Os últimos foram Viva A Vida é Uma Festa (concorre como melhor animação, choramos tanto no final!), A Bela e a Fera (faz quase um ano!) e Extraordinário (mais choro!). Agora, fico imaginando como um crítico de cinema conseguiria avaliar os filmes do Oscar com filhos em casa. Tenho certeza de que lá em casa seria mais ou menos assim.

Lady Bird é um filme interessante com a, o que foi Aurora?, papai agora está vendo filme, aquela atriz de Francis Ha que virou diretora e nesse filme conta, Anita, agora não posso, a história de sua infância em uma, o quê? A Aurora fez cocô, já vou limpar, em uma cidade de médio porte na Califórnia. O que foi, Anita? Califórnia é um Estado americano.

Me Chame Pelo Seu Nome é um filme muito bonito, não Anita, você não pode assistir com a gente, que se passa no interior da Itália onde, opa, essa cena é pesada demais, dá um pause que a Aurora tá vindo, o que foi Aurora? Sim, consigo separar essas duas peças de Lego, onde o filho adolescente de uma família muito erudita, meu deus, vamos pular essa cena, se envolve amorosamente com um rapaz que está visitando-os.

Já A Forma da Água é um filme que conta a história de um monstro, buááááá, calma Aurora, o monstro é bonzinho, que se envolve com uma mulher muda, muda é quando ela não pode falar, Anita, sim, ouvir ela consegue, só não consegue falar, e os dois tentam escapar, Pó, Pi, Pó, que barulho é esse? Vocês podem jogar Genius no quarto, por favor, escapar de um agente militar malvadão, buááááá, calma Aurora, o malvadão vai se dar mal no final, calma!

Três Anúncios para um Crime, não, não pode ver junto porque é muito violento, conta a história de uma mãe, Aurora, pega aqui o celular, que provoca os policiais da cidade, nós gatos já nascemos pobrees, porém, já nascemos livreeees, abaixa o volume, Aurora, a resolverem o caso do assassinato da sua filha, o que você tá olhando com esse olho arregalado, Anita? Eu falei que era um filme violento. Vai pro quarto e leva a Aurora, por favor? Au, au, au. Cocorocó.

PIANGERS

03 DE MARÇO DE 2018
CARPINEJAR

Ritual de permanência


Os adolescentes sofrem pressão para perder a virgindade. Como se fosse uma espinha que tivesse que desaparecer do meio da testa diante dos colegas.

A coerção social leva a experiências vazias de sentido, abruptas, mecânicas, violentas. Se a vida sexual inicia com a indiferença, isso pode bloquear a emoção dos próximos relacionamentos. A rapidez, a falta de carinho e de cuidado geram traumas que não serão resolvidos facilmente. O risco é criar uma aversão a uma dinâmica que deveria ser feita com ternura. Quantas pessoas odeiam sexo pois foram atropeladas no primeiro encontro?

A precocidade faz com que o jovem se sinta num açougue, como mero objeto sexual. A pegação necessita ser envolvida de conversa e suspense, degustação e envolvimento, acima do laboratório químico do corpo. O sim cresce com o não, o desejo aprende a se respeitar com a resistência. O enamoramento é lenta aceitação, requer a solução de inúmeras dúvidas. Estar pronto é entender o que está acontecendo e ter um motivo, maior do que a obrigação, para justificar a entrega.

Por que não trocar a virgindade por afeto? Daí não se perde nada.

Cada um tem seu ritmo e seu tempo, não há pressa nem data de vencimento. Sexo não é experiência, só o amor dá experiência, o amor é a verdadeira iniciação.

Melhor esperar alguém com confiança para perguntar, recuar e depois vencer o medo.

Melhor esperar alguém com amizade frequente e ligação plena de afinidades para não ficar com a ilhada sensação de ser usado.

Melhor esperar alguém para admirar, partilhar a lembrança e perdurar o encanto.

Melhor esperar alguém para experimentar a conchinha, dormir junto e acordar querendo preparar café da manhã.

Melhor esperar alguém para rir do que deu errado e tentar novamente com graça e compreensão.

Melhor esperar alguém para não morrer de culpa e solidão e agradecer que o enlace foi uma escolha, sonhada e assumida com antecedência.

Não existe cedo ou tarde para o sentimento. Quem busca se livrar logo da virgindade estará desperdiçando um referencial de seu ciclo biológico, um marco da história de pele.

Não é para ser um ritual de passagem, mas de permanência do que somos e do que seremos, um degrau prazeroso do nosso caráter e da nossa responsabilidade.

CARPINEJAR

03 DE MARÇO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

Liberdade, substantivo feminino


Pergunte a uma mulher o que ela inveja nos homens e a resposta provavelmente será fazer xixi em pé. Nada original, mas pense: não fosse isso, seria o quê?

Nossas avós e bisavós costumavam responder essa enquete dizendo "invejo a liberdade deles". Eram de outra época, ainda que contemporâneas da escritora e psicanalista Lou Andreas-Salomé (sugiro comemorar o Dia da Mulher assistindo ao filme Lou), que nasceu há 157 anos e que, muito antes da palavra empoderamento constar dos dicionários, já era dona da sua vontade. Ela sabia que convenção é uma abstração, e não um capataz com peso, altura, medida e um chicote nas mãos. O conjunto de costumes sociais é um acordo sem contrato. Facilita as relações, mas é passível de questionamento.

As convenções foram criadas por homens, logo, seus maiores beneficiários. Eram deles a prerrogativa de não ter horário para chegar em casa, não precisar dar explicação sobre seus passos, contratar, demitir, legislar. Ninguém controlava seu vocabulário nem o jeito que sentavam, nem com quem transavam. Qualquer escorregadela em seu comportamento era recebida com uma desculpa abonadora: homem é assim mesmo. "Assim mesmo" era seu habeas corpus. Um homem fora da curva costumava ser, no máximo, um exótico, um excêntrico, já uma mulher fora da curva era a doida, a sem vergonha. Ai de nossas avós se não andassem na linha, mesmo suspeitando o descompasso desse arranjo.

Isso foi na pré-história. Que mulher hoje precisaria invejar a liberdade de um homem? Apenas as que escolheram ficar dentro da prisão, mesmo estando a porta destrancada. A liberdade é excitante como fantasia, mas nem todas querem assumir a responsabilidade de suas escolhas. Uma vez acostumadas ao quadradinho conhecido, pode colocar a chave na mão delas que não saem, não. Ficam onde estão.

Lá fora tem empregos e demissões, tem viagens e tem penúria, tem paixão e tem sofrimento, tem escolhas acertadas e vacilos históricos, tem você sozinha e muito bem casada. A vertiginosa inconstância da vida, acessível a ambos os sexos.

Fazer xixi em pé? Nem nisso vejo vantagem - com a correria dos dias, poder sentar por 30 segundos é um luxo. Portanto, hoje estamos aptas a dar a mesma reposta que eles dão a este tipo de pesquisa (como bem lembrou Mirian Goldenberg em recente artigo). Quando perguntados o que invejam nas mulheres, eles naturalmente respondem: nada.

Melhor assim, sobra mais tempo para a admiração mútua. Liberdade não significa libertinagem, irresponsabilidade ou descompromisso. Ser livre não é um defeito, e sim uma virtude. É o que permite criar uma trajetória que não seja imitação de outras, ter uma existência com assinatura própria, enfim, ser uma pessoa absolutamente honesta e autêntica. Mulher é assim mesmo. Agora é.

MARTHA MEDEIROS

03 DE MARÇO DE 2018
LYA LUFT

Fugir do caos



Lendo um livro que me emociona, do pensador canadense professor Jordan Peterson: 12 Rules for Life, An Antidote for Chaos. Parece que está por ser publicado no Brasil. Corram e leiam! Não é autoajuda, apesar do título, que talvez nos induza ao erro. É um ensaio muito agradável de se ler, misturando filosofia, mitologia, psicologia, antropologia, política: revoluciona um pouco o conceito de democracia e liberdade, quando beiram a bagunça e o caos.

Naturalmente, não o resumirei aqui, mas comento algumas de suas ideias de que compartilho inteiramente. Uma delas, o conceito ilusório de liberdade como aquela cenoura na frente do jumento para que ele ande. Liberdade como penso que deve ser, que nos faz crescer, conviver, eventualmente progredir, construir e atingir certo grau disso que chamamos "felicidade", num meio-termo entre o caos e a rigidez.

Rigidez, jamais. Nem mesmo a rígida ideia de liberdade como ausência de regras, de disciplina, de concessões, de limitações. O ser humano, como os outros animais, necessita de regras e ordem. Não para se punir ou mutilar, mas para que veja alguma luz, enxergue algum caminho, e se sinta bem progredindo enquanto ser humano.

No começo de minha carreira, traduzi um livro de uma psicóloga americana (esqueci, nesse longo tempo, nome e título) sobre crianças criadas praticamente sem limites. Um menininho tanto atormentou a mãe, que certa vez ela lhe deu uma palmada no traseiro. Para horror de certos educadores ultramodernos, o menino suspirou aliviado, abraçou a mãe e disse algo como "até que enfim você prestou atenção em mim". Sem limites, sem regras, seremos piores do que os animais selvagens, que se guiam pelo instinto. 

Nós, que tanto falamos em natureza, andamos bem longe dela, nossos instintos se embotaram, e nem todos servem para conviver no mundo moderno: matar, devorar o outro que nos incomoda, não são atividades que se prezem. No fundo de cada um de nós, sobrevive um predador atávico, que precisa de algumas regras para poder criar sua personalidade, sua vida, seu mundo. Este mundo, em que se possa viver em paz. O caos conduz ao caos, provoca profunda angústia, causa destruição e morte, e eventualmente loucura. E não me refiro a um mítico caos total, mas a um nível preocupante de desordem, violência, agressividade, zero empatia.

Então, como tantas vezes nesses anos todos escrevendo em revista ou jornal, ou falando nas palestras, que hoje raramente aceito, repito aqui, incansável e convicta: tudo começa em casa. A educação, a formação, as bases de uma vida feliz, conforme o sonho ou a possibilidade de cada um. 

Viver decentemente, conquistar algumas coisas positivas, sentir-se bem na própria pele exige que se fuja do caos, que pode parecer interessante para alguns visionários ou ideólogos obstinados, mas é feio, burro, e pobre. E se não recebermos desde pequenos algum senso de ordem, regras, conceitos de vida, passaremos o resto da nossa lutando talvez de maneira inglória para não sermos selvagens detestados ou temidos.

Assim que o livro do doutor Peterson sair no Brasil (ou pela Amazon para quem lê no idioma original), procurem por ele: faz bem à alma, abre a cabeça, e de certa forma conforta saber que nós, que apreciamos alguma ordem, não estamos sozinhos.

LYA LUFT


sábado, 24 de fevereiro de 2018



24 DE FEVEREIRO DE 2018
CLAUDIA LAITANO

mães e FILHAS


No início de Lady Bird, um dos filmes que disputam o Oscar no próximo final de semana, uma adolescente se atira de um carro em movimento para se livrar da voz (e da presença) da mãe, que está ao volante. Pode parecer exagerado, e é, mas não há filha ou mãe que não tenha sentido vontade, em algum momento, de encenar um gesto grandiloquente como esse - principalmente tendo a garantia de que ninguém, a não ser o bom senso, sairia ferido.

Exagerada tanto em amor quanto em cobranças e expectativas mútuas, a relação entre mães e filhas pode ser sublime e exasperante em igual medida. Duas mulheres espelhadas e diferentes, íntimas mas não necessariamente próximas. Duas pessoas que podem se amar incondicionalmente e ainda assim não se gostar muito - como sugere, aliás, um dos melhores diálogos do filme.

Em Três Anúncios para um Crime, outro concorrente ao Oscar deste ano, acompanhamos a jornada uma mãe em busca de uma solução para o assassinato da filha. À sua maneira, a personagem vivida por Frances McDormand age como as mães e avós da Praça de Maio e tantas outras mulheres da vida real que não se conformaram com a morte ou o desaparecimento dos filhos, lutando por justiça mesmo quando a própria vida estava em risco. A certa altura da história, ficamos sabendo que a relação desta mãe incansável com a filha nem sempre foi fácil - o que não chega a ser surpreendente, dado o temperamento da personagem. Amor materno às vezes é briguento, cricri, sem noção, mas não deixa de ser sublime mesmo quando é exasperante.

Minha mãe e eu sempre fomos muito diferentes. Em nossos universos separados, por temperamentos e ambições, encontramos uma área neutra onde o afeto era mais importante do que a afinidade. O fato de que muitas coisas que eu considero essenciais eram irrelevantes para ela, e vice-versa, deixou de ter qualquer importância depois que me tornei adulta.

Eu já tinha uma filha quando deixei de ser a filha de alguém com quem eu podia brigar e fazer as pazes logo em seguida. Assistir à morte da minha mãe, segurar sua mão até o fim, foi para mim uma experiência tão intensa e reveladora quanto dar à luz. Foi naquele momento de dor e perda que eu entendi a dimensão do vínculo que me une às duas mulheres mais importantes da minha vida. As duas pontas da minha história.

Na infância, sentimos como se a mãe fosse uma parte de nós. Mais tarde, é preciso cortar esse cordão, sair do ninho, marcar diferença, inventar um destino (ou um nome, como a jovem personagem de Lady Bird). Para algumas mulheres, entre as quais me incluo, a sensação de que somos atravessadas, de forma visceral, pela relação que tivemos com nossas mães se torna ainda mais evidente depois que temos filhas. Nossas mães são como uma figueira centenária plantada no centro da nossa vida, com raízes que se estendem muito além daquilo que é visível. Nossas filhas são os frutos que nos levam a voar pelo mundo - até onde a imaginação delas, e a nossa, for capaz de ir.

CLAUDIA LAITANO

24 DE FEVEREIRO DE 2018
PIANGERS

Alguém tem que fazer

Desde garoto, minha mãe me ensinou a realizar atividades domésticas. Ensinou é um substituto elegante para obrigou. Louça, cama, chão, banheiro, lixo, almoço, cuidar da minha irmã. Não tínhamos empregada nem babá. Lembro de detestar tirar o pó da casa, o pano molhado ia ficando preto, uma desgraça. Minha mãe era linha dura, chegava do trabalho e estava tudo brilhando. Hoje em dia as crianças nos chamam depois de fazer cocô até os trinta anos. Paiê! Manhê!

Acabei desenvolvendo predileções. Atualmente, minhas atividades domésticas favoritas são lavar a louça, ferver água e distribuir entre as garrafas da geladeira, ir catando os sapatos e brinquedos espalhados pela casa e ir realocando para seus devidos aposentos e arrumar as camas. Nada mais bonito do que uma cama arrumada. Meus ofícios menos favoritos são tirar a roupa lavada da máquina e estender, recolher os lixos do banheiro e da cozinha (lixo seco sou de boa) e limpar o chão da cozinha.

Limpar o chão da cozinha é um negócio desmoralizante. Você passa a vassoura, depois pega um pano e fica de quatro, arrastando o pano de um lado pro outro, tentando tirar os farelos presos no chão esfregando com o polegar, joelhos no azulejo frio, o pano solta mais sujeira do que absorve. Existem aqueles esfregões modernos, mas me arrisco dizer que só uma boa esfregada de pano enrolado no polegar tira todos os farelos de comida grudados no chão. 

Tem aquela técnica também de ir com os dois pés em cima do pano, cheng chong cheng chong, os passos pequenos arrastando o pano pela cozinha, parece que você é um pinguim. Me recuso. Se for pra limpar o chão da cozinha eu me submeto, é um trabalho desmoralizante, mas alguém tem que fazer. Melhor eu que outra pessoa. Ainda mais se a outra pessoa faz o passo do pinguim.

O lixo dos banheiros tenho nojo. Recolho apenas quando a tampa já não fecha. Sou daqueles que tira a sacola de supermercado cheia de papel higiênico usado e mantêm longe do corpo, segurando na ponta dos dedos, dando o nozinho com os braços esticados. O lixo da cozinha é um terror, porque sempre que você vai tirar ele está todo arregaçado, boca de bêbado dormindo, uma parte do lixo está dentro do saco e a outra caiu pra dentro da lata. Tem que pegar com a mão aquelas cascas de banana, aquela gordura da picanha, aquela borda de pizza que sua filha não come, colocar tudo no saco bonitinho, dar o nozinho com os braços esticados, colocar os sacos no corredor, na frente da porta do apartamento. 

Que coisa infame colocar sacola de lixo na frente da porta pra descer depois. Mas eu faço. O pior é quando alguém come melancia, joga no lixo e forma uma aguinha no saco, quando você vai tirar o lixo sai pingando tudo pela casa. Se não percebe, forma uma poça na frente da porta do apartamento. Aí, então, você tem que pegar um pano molhado e ficar de quatro limpando bem aquela sujeira toda. Que seu filho não pode fazer porque está cansado de tanto ficar no celular.

PIANGERS

24 DE FEVEREIRO DE 2018
CARPINEJAR

Sonhadores vitalícios

"Posso fazer melhor" é uma frase com dois sentidos.


Se você diz "posso fazer melhor", quando erra e é criticado, representa culpa. Alguém apontou o vacilo e se viu questionado a se pronunciar. Não foi uma manifestação espontânea. Pretende apenas corrigir uma falha com a esperança, mas não significa que realmente queria ter feito melhor, é uma desculpa social, coletiva, para ser perdoado e seguir burocraticamente em frente. É um remorso por ser criticado pelos outros, uma vergonha engolida a seco, não traz revolução interior e impulso para se aperfeiçoar de verdade.

Se você diz "posso fazer melhor" quando acerta, daí é criatividade. Enxerga muito além do óbvio. Não houve pressão externa, e sim resolução de seus próprios pensamentos. Tem um nível de exigência e disciplina que não permite ser corrompido pelo elogio ou se facilitar pela bajulação. Sabe o que pode oferecer, é o quanto é acima ou abaixo de seu potencial. 

Alguns comentarão que está sendo perfeccionista, entretanto partilha uma noção de que acertar é estar em movimento, jamais comemorar uma vitória - as vitórias são momentâneas e parciais, à semelhança dos fiascos. Trata-se de um realista otimista, que vive se cobrando antes de ser cobrado. É filho da resiliência, de um rigoroso diagnóstico de suas vontades. Não se perturba com o não, e tampouco com um sim. O grande motivo de carreiras cortadas é a acomodação. Quando é dado só o que é solicitado, não mais, não o impossível.

Walt Disney, antes de fazer sucesso, faliu com o seu primeiro estúdio. Steve Jobs não completou a escola e foi expulso de sua própria empresa aos 30 anos. Michael Jordan terminou cortado da equipe de basquete de seu colégio por não corresponder às expectativas. Assim como Thomas Edison enfrentou a suposição de retardado.

Todos têm em comum a obstinação positiva. Não desanimaram com o julgamento exterior, já que se autoexaminavam com constância, e se dobraram em esforço para arcar com as suas ambições. Sussurravam para si "posso fazer melhor" mesmo quando atingiram a excelência depois. Não se acovardaram com as opiniões alheias. Não se intimidaram com os obstáculos e o medo externo da aprovação. Não engavetaram as suas ideias, pois se mantiveram fiéis às suas crenças e objetivos. Não mudaram de trajetória por quedas eventuais. Não recolheram os seus projetos e migraram para tarefas estáveis, seguras e menos pessoais.

"Posso fazer melhor" é sonhar. Quem fala isso para si mesmo, e nunca espera alguém de fora falar, jamais desiste.

CARPINEJAR



24 DE FEVEREIRO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

As minúcias


Todos sabem: chato é aquele que, ao ser perguntado se está tudo bem, não consegue responder simplesmente que está. Ele acha que a pergunta foi pra valer, então ele discorre sobre tudo o que tem passado e sobre como anda sem esperança na humanidade. Como avisá-lo, sem que ele se sinta ainda mais deprimido, que foi apenas um cumprimento e nada mais?

Minúcias a gente guarda para o nosso advogado. Ele certamente vai precisar delas para nos inocentar.

Minúcias podem ser reservadas também para a família, já que nossos pais e filhos adoram saber o que já aprontamos, aqueles segredos que só podemos contar depois que o crime prescreveu e tudo vira piada.

Por fim, minúcias são bem-vindas em livros, na defesa de teses e em consultas médicas. Em nenhuma outra situação que eu me lembre. Nem mesmo (e principalmente) em conversa ao pé do ouvido com seu amor. Não quebre o clima levando a conversa para muito longe de onde vocês estão.

Ao telefone, evite. Seu neto se machucou na escola? Tadinho. Pule rápido para a parte em que ele se recuperou e ficou tudo bem. Adote a presteza do WhatsApp. O quê? Você discursa pelo WhatsApp? Chegou de que planeta?

Minúcias em festas, nem pensar. Alugar um convidado com uma história comprida é uma inconveniência. As pessoas querem circular, dançar, e não saber detalhes da sua operação no joelho. Você não operou o joelho? Sério, acabou de fazer o caminho de Santiago de Compostela? Ótimo, condense a odisseia em seis minutos. Sete, se foi tão fantástico assim. E troque para outro assunto, a não ser que seu ouvinte pegue você pelo braço, leve-o até um canto e implore pelos pormenores.

Quando estamos falando sobre nós mesmos, é quase incontrolável fazer uma retrospectiva detalhada das nossas experiências, mas lembre-se que a maioria das pessoas prefere o compacto dos melhores momentos. É mais que suficiente.

Entendi, você não está falando sobre si mesmo, e sim sobre seu primo que foi casado com não-sei-quem, que ele conheceu numas férias não-sei-onde. Você está falando do seu professor de matemática da quarta série que tinha propensão a ter acne. Você está falando da sua tia-avó falecida que fazia ótimos bolinhos de chuva. Você está falando de pessoas que não tivemos a honra de conhecer - e falando por horas, sem que a história empolgue. Não se magoe, mas tente lembrar se você não teve um primo que ficou preso no elevador com a Madonna, uma tia-avó que traficava maconha dentro dos bolinhos de chuva, um professor que foi preso político. Se não teve, invente.

Conversar é uma delícia: trocar confidências, falar de sentimentos, opinar sobre o mundo, dar dicas culturais, narrar aventuras, contar episódios divertidos - a tarde inteira, a noite inteira. Mas se o assunto for de uma banalidade extrema, não especifique demais. A gente ama você, mas ninguém está com tanto tempo sobrando.

MARTHA MEDEIROS


24 DE FEVEREIRO DE 2018
LYA LUFT


Somos fênix

A estranha ave lendária que se imolava no fogo e dele renascia é muito usada como metáfora de nosso próprio renascimento de horas ou fases muito difíceis.

Ninguém, eu acho, olhando sua vida, pode dizer que jamais teve esta sensação: "Agora, acabou; nada faz sentido". Ou: "Não vou aguentar". Ou: "Isso eu não vou poder suportar". Coisas desse gênero.

No entanto, me ensinou a vida, mesmo quando estamos numa UTI emocional, como a perda de alguém muito amado, esperando ou até desejando o fim e a paz, um dia conseguimos levantar, somos liberados dos aparelhos que nos mantinham vivos, chegamos até a porta... somos transferidos para um quarto mais promissor.

Dali, podemos espiar o corredor, andar por ele quem sabe apoiados em alguém ou de bengala, e finalmente conseguimos respirar. "Estou respirando livremente. A pedra pesada e escura no meu peito aliviou. Um pouco. Mais um pouco. Talvez eu nunca me livre dela inteiramente, mas estou aprendendo a lidar com ela. Tenho para isso o resto da minha vida." 

Tenho agora a força do pensamento de que o ser amado que se foi está em outra dimensão, outro registro, mas presente, gostaria que eu saísse da sombra da dor e voltasse a viver: em sua homenagem também, porque a vida deve ser vivida, merece ser vivida. Pessoas queridas nos ajudaram, confortaram, ou simplesmente foram uma presença bondosa e quieta. A gente sabia sem grande escarcéu: ele, ela, está ali para mim.

Estamos vivos. Saímos das próprias cinzas. Existe o mundo com suas belezas e crueldades, existem as pessoas com seus amores ou maldades, existem a loucura, a neurose, o rancor inexplicado, a violência e a guerra, mas também existe vida. Esse primeiro movimento para alguma claridade é como comprar uma flor e botar no vaso à nossa frente quando pouca coisa parece sobrar. E depois, a janela aberta sobre a floresta, ou o mar, ou o belo parque, a porta aberta para algumas pessoas especiais, porque multidão ainda não aguentamos. Essas que, longe ou perto, estiveram ao nosso lado ao redor da fogueira sabendo, torcendo para que a gente pudesse renascer do montinho de cinza em que tínhamos nos transformado.

Descobrimos ou redescobrimos o valor dos afetos, das coisas simples, daquela voz no telefone, aquele e-mail ou Whats, daquele passo no corredor, aquele gesto afetuoso ou um simples olhar de cumplicidade - pois nem todos sabem, ou conseguem, grandes abraços e palavras, mas estão ali conosco. E tudo isso nos fez de novo viver.

A fênix incansável volta a andar, a abrir as asas, a tentar seu voo: isso somos, até que um vendaval mais forte nos carregue também. Em paz.

LYA LUFT

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018


23 DE FEVEREIRO DE 2018
+ ECONOMIA

ECONOMIA DO RS TEM ALTA DE 2%, MOSTRA BC


Depois de três anos de marcha a ré engatada, a economia gaúcha voltou a andar para frente. Em 2017, a alta no Estado chegou a 2,13%, mostram dados do Rio Grande do Sul no Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), do Banco Central (BC). O crescimento no Rio Grande do Sul equivale ao dobro do avanço registrado pelo Brasil. No ano passado, o país teve elevação de 1,04%, conforme o BC.

O IBC-Br é considerado uma espécie de prévia dos resultados oficiais, expressados pelo Produto Interno Bruto (PIB), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A metodologia, no entanto, é diferente. O instituto apresentará o desempenho da economia brasileira em 2017 na próxima semana. No Rio Grande do Sul, é a Fundação de Economia e Estatística (FEE) que se encarrega da tarefa - o resultado será publicado no fim de março.

- A economia gaúcha melhorou no ano passado. Mas, em 2016, havia caído mais do que a brasileira. Com a base mais deprimida, é natural que o crescimento do Estado seja maior no momento de retomada - pondera a economista-chefe da Fecomércio-RS, Patrícia Palermo.

A "prévia do PIB" do país foi apresentada pelo BC no começo da semana. Já os dados do Boletim Regional, com os números detalhados do IBC-Br para todos os Estados, serão detalhados hoje, mas já estão disponíveis no site da instituição.

Para o restante do ano, Patrícia projeta que a retomada econômica persistirá tanto no país quanto no Estado. A reação nos próximos meses, afirma, terá o consumo como combustível.

- O cenário para o Estado e para o país é bem semelhante. A retomada no consumo tem relação com a melhora no mercado de trabalho, que ainda não é nada excepcional. Em 2018, não há dúvidas: haverá crescimento porque a economia está em ciclo de ascensão - menciona Patrícia.

Entre analistas, o que provoca inquietação em relação ao futuro da atividade no Brasil - e, consequentemente, no Estado - tem relação com as incertezas que rondam as eleições de outubro.

- Hoje, a economia apresenta certo descolamento da política nacional. Mas a grande dúvida é o que deverá acontecer depois das eleições, a partir de 2019 - argumenta Patrícia.

leonardo.vieceli@zerohora.com.br - LEONARDO VIECELI


LIVROS 

Notícia da edição impressa de 23/02/2018. Alterada em 22/02 às 18h35min Machado de Assis, melhores contos Jaime Cimenti Cento e dez anos depois de sua morte na casa do Cosme Velho, no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908, Machado de Assis segue como o maior escritor brasileiro de todos os tempos, sempre muito editado, lido e estudado, no Brasil e em muitos países do exterior. 

Autor de poemas, contos, crônicas e romances, também crítico e teatrólogo, Machado foi alto funcionário do Ministério da Viação e fundador da Academia Brasileira de Letras. Melhores Contos - Machado de Assis (Global, 374 páginas), da coleção dirigida pela escritora e editora Edla van Steen, com apresentação reelaborada para esta 16ª edição e seleção do consagrado professor, crítico, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras Domício Proença Filho, é das melhores antologias de contos do autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, se não for a melhor.

Depois de escrever sobre a permanência e atualidade da ficção machadiana, Proença explica, na introdução, os critérios utilizados para a seleção e o desafio que foi escolher 29 contos entre os 68 que Machado publicou em sete volumes de histórias curtas. 

A coletânea traz contos muito conhecidos e magistrais, como Teoria do Medalhão, Missa do Galo, Uns braços, A Igreja do Diabo, Conto de Escola, Cantiga de Esponsais, O caso da vara, Verba testamentária e o consagradíssimo O Alienista, que alguns consideram como sendo uma novela. 

O humor, a fina ironia, os estudos psicológicos requintados e a brasilidade dos textos são algumas marcas maiores da ficção do Bruxo do Cosme Velho, que foi romancista genial e não menos genial contista. Escreveu Domício Proença Filho: "Nos contos machadianos, o que importa é a atitude e o sentir dos personagens, mais do que as ações, a trama e o espaço. 

Com atenção especial ao modo de fazer o texto, à técnica de construção, caracterizada em frequentes exercícios de metalinguagem. A prosa machadiana continua viva e presente, e presente e viva permanecerá ainda por muito tempo, porque a mentira de sua arte é daquelas que conseguem revelar muito da verdade de nossa complicada condição humana". 

É isso. Na urdidura do relato, na transparência da escrita, na universalidade dos dramas, no olhar aprofundado e na análise das almas e sentimentos dos personagens, Machado mostra por que figura como um dos grandes escritores da literatura mundial e por que segue entre nós. lançamentos Música de montagem - A composição de música popular no pós-1967 (É Realizações Editora, 200 páginas, R$ 39,90), do compositor, professor e palestrante Sergio Molina, mostra a formalização de alterações que remodelaram o processo de confecção da canção brasileira e internacional no pós-1967. 

O autor analisa obras de Milton Nascimento, Beatles, Gilberto Gil, Stevie Wonder e muitos outros compositores. A obra enriquece nossa bibliografia sobre a canção popular. A Batalha dos Livros (Ateliê Editorial, 136 páginas), de Lincoln Secco, professor de História Contemporânea da Universidade de São Paulo, de modo criativo, profundo e embasado, traça a trajetória da história editorial das ideias de esquerda no Brasil, desde os primeiros escritos socialistas utópicos do Brasil do século XIX até títulos publicados até 2005. 

Secco coteja, com muita informação, a recepção e a difusão das ideias socialistas no Brasil. Operação Banda Oriental (Editora Catarse, 116 páginas), do escritor, cicloturista, hortelão, professor e jornalista Demétrio de Azeredo Soster, que também é estudante de shakunachi, fala de uma viagem de 1.130 quilômetros, de bicicleta, em 10 dias, de Santa Cruz do Sul a Buenos Aires, atravessando o Uruguai, a partir de Chuy até Colonia del Sacramento, às margens do Rio da Prata. Em 12 capítulos, o autor narra momentos significativos.

Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2018/02/colunas/livros/612510-machado-de-assis-melhores-contos.html)

sábado, 17 de fevereiro de 2018




17 DE FEVEREIRO DE 2018
J.J. CAMARGO

OS FRAGMENTOS ESCORREGADIOS DA MEMÓRIA

Sempre que se pretendeu recuperar dados da história pessoal de alguém a partir da própria fonte, ao contrário do que se previa, ficou evidente o quanto a nossa memória é falha ou, o que é muito frequente, tendenciosa e falsa. Em parte, porque negamos o que foi ruim e glamourizamos o que foi bom de tal maneira que, depois de muitas versões, nem um nem outro se parece com o que contamos que tenha sido.

Então se aprendeu que, se quisermos saber como de fato éramos, temos de registrar o que pensamos e sentimos em cada momento. Claro que, depois de um tempo, isso implicará surpresas e pasmos além da tentativa patética de negar o inegável. Como na história da moça que comparou um vestido antigo com o ex-namorado, reunindo-os no mesmo comentário: "Não acredito que, um dia, eu tive a coragem de sair com isto na rua!". Pois é, mas teve, e provavelmente se achando muito.

As pesquisas sobre qualidade de vida de uma determinada população consideram elementar a prática do registro temporal sistemático, considerando a tendência falsificadora de elementos subjetivos facilmente descartados da memória pelo saudável exercício da negação. Foi assim quando se documentou que a existência de relações humanas ricas e numerosas aos 50 anos tinha sido o fator determinante de vida saudável entre os afortunados octogenários. 

Sem o registro sistemático, talvez estivéssemos dando mais importância ao nível do colesterol ou ao perímetro abdominal. O mesmo ocorre quando garimpamos as nossas gavetas, onde as memórias arquivadas devem ser periodicamente sacudidas para revitalizar a alma e enternecer o coração. Ao preço de alguns espirros por mofo estocado, é comum que, ao encerrarmos a expedição, estejamos tão mais leves quanto mais tenhamos descoberto o número de vezes em que despertamos em alguém o doce sentimento da gratidão.

Durante um tempo, fui tentado a hierarquizar os registros, mas depois percebi que a importância que eu dava a cada história não era constante e que algumas citações que tinham liderado o ranking depois de alguns anos estavam ameaçadas de rebaixamento. E não por culpa delas, mas por conta de o quanto eu tinha mudado em sensibilidade, amadurecimento ou desânimo.

Na tarde de 16 de maio de 1989, o Vilamir, que tinha passado pela sofrida experiência de primeiro transplantado de pulmão do continente, sem ter a consoladora possibilidade de compartilhar com ninguém o medo colossal de sua experiência pioneira, despertou da anestesia, chorou, sorriu, chorou outra e outras vezes e, por fim, ainda intubado, pediu uma folha de papel para registrar com a letra trêmula de um pós-operatório imediato o mais denso desabafo que já presenciei nestes 45 anos de medicina de alta complexidade: "Eu não disse que esta porra ia dar certo?". Desde então, esse bilhete, como topo da lista, não tem sido ameaçado.

jjcamargo.vida@gmail.com - J.J. CAMARGO


17 DE FEVEREIRO DE 2018
LYA LUFT

Gostar de Carnaval

Esta vai ser mais uma coluna sem grande aprovação: os apaixonados por Carnaval vão torcer o nariz e passar adiante.

Não desgosto de Carnaval. Quando mocinha, fui a bailes de clube e achava muito divertido, fantasia de holandesa, que combinava comigo, ou de odalisca, que não tinha naaaada a ver.

Éramos adolescentes meio inocentes do Interior, mas, estranhamente, todo mundo usava lança-perfume, hoje condenado. As mães só recomendavam para não aspirar direto nem cheirar lenço molhado com o produto, cujo cheiro aliás eu adorava, lembrava alegria e descontração.

Não havia quase Carnaval de rua, nada parecido com os blocos de hoje, as multidões suadas e não muito vestidas, num aperto meio indigno de não haver onde fazer xixi nem o resto, gente de porre vomitando é quase normal, peitos e bundas oferecidos com generosidade absoluta.

Acho que éramos cheios de manias naquele tempo. Carnaval era mais alegria do que deboche. Talvez ainda fôssemos moralistas ou bobos.

Hoje me entristece um pouco: não a alegria, a diversão, a catarse de um povo explorado e sofrido, mas a capacidade meio desesperada de por vários dias e noites esquecer a situação do país - que beira o dramático ou trágico - pulando, requebrando, chacoalhando numa felicidade ímpar.

Por um breve tempo de ilusão, esquecem-se as contas atrasadas, a comida cara, a condução desconfortável, o pagamento atrasado, o terror da violência tão habitual, o temor de adoecer e não ter hospital nem remédio.

Talvez esses dias de total alienação - estranha para quem não participa - sejam um intervalo necessário e misericordioso num país em tamanhas dificuldades. A imagem que fica é a de um povo rico, saudável, despreocupado, bem empregado e feliz, não dando a menor bola para os chatos que, como esta colunista, assistem com um vago espanto às sucessivas e intermináveis (e incansáveis) ondas de corpos suados, caras desfeitas, risos abertos e copos sempre cheios que por dias e dias e dias e dias enchem ruas e avenidas numa alegria atroz.

Quem sabe hoje escreve aqui uma bruxa nem tão boa, nem tão divertida, mas com certeza um bocado preocupada e atenta ao que fazem conosco e com este país que a gente ama.

LYA LUFT



17 DE FEVEREIRO DE 2018
PIANGERS

Enquanto você sambava


Enquanto vocês se esbaldavam na avenida e nos bloquinhos de Carnaval, amassando-se uns nos outros com seus corpos bêbados e suados em calçadas sujas de xixi e vômito, reencontrando amores do passado e iniciando casos tórridos com desconhecidos, acordando às três da tarde e indo dormir com o céu claro de um sol escaldante, fantasiando-se de marinheiros e diabas, travestindo-se e experimentando mãos e coxas e bocas das mais variadas origens, 

Enquanto vocês se refestelavam ao som estridente dos hits do sucesso radiofônico e derramavam bebida alcoólica nos corpos uns dos outros, enquanto compravam cerveja barata de ambulantes carregando isopores cheios de gelo em meio à multidão e procuravam banheiros químicos em pleno meio-dia, enquanto vocês esqueciam-se de almoçar e jantar e tomar café da manhã e ignoravam orgulhosamente o conselho de suas mães de levarem um casaquinho e não pegarem chuva, enquanto dormiam na grama na frente da casa de praia dos amigos porque as camas e os quartos estavam todos ocupados por visitas inesperadas, 

Homens musculosos e meninas com tatuagens de golfinho no pé, enquanto os apartamentos do centro da cidade recebiam festas alternativas onde se usavam drogas ilícitas e o som alto não incomodava os vizinhos que estavam assistindo aos desfiles das escolas de samba no último volume enquanto tomavam licor de chocolate em copos de plásticos, enquanto vocês terminavam namoros incentivados por um impulso alcóolico e um desejo ardente de experimentar a vida acreditando que existe algo mais, 

Algo mais emocionante, mais excitante, um sentimento de alegria e satisfação plena que só pode ser conseguido com saltos no desconhecido, enquanto vocês choravam decepções amorosas em festas onde pagaram um salário mínimo no ingresso e eram incentivados pelos amigos a esquecerem aquele que parecia ser seu grande amor, enquanto conheciam salivas de Pernambuco, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, enquanto vocês bebiam vodka com energético para aguentarem a terceira noite seguida em claro e dirigiam em alta velocidade com a imprudência de quem está desesperado pra se sentir vivo 

E enquanto tinham seus celulares roubados no meio da rua por gangues que fazem isso há anos e nunca são pegas pela polícia e quando são apenas os celulares de modelos mais antigos são recuperados, enquanto você tentava um último convite para uma última festa onde aquela última pessoa também estaria, enquanto vocês tomavam banho acompanhados, entravam em piscinas de casas de desconhecidos, 

Vomitavam em táxis e ubers e ônibus e carros de amigos e enquanto rasgavam preservativos e certidões de casamento, enquanto pegavam doenças venéreas e questionavam-se sobre feridas que lhes apareciam nos lábios, enquanto vocês não percebiam mau hálito e cheiro de sovaco e ouviam música alta em caixas de som portáteis falsificadas e de formato cúbico, 

Enquanto namoros, casos e separações começavam eu estava em casa assistindo a episódios de seriados disponíveis em serviços de streamings e sorrindo, feliz por vocês e por mim.

piangers.com – PIANGERS



17 DE FEVEREIRO DE 2018
CARPINEJAR

A mesa de sinuca

Às vezes é melhor não ter. Eu alimentava uma inveja monstruosa do meu amigo Rodrigo. Ele ostenta uma mesa de sinuca no centro da sala. Em primeiro lugar, meu olho gordo se destinava ao poder de negociador dentro do casamento. Como ele conseguiu convencer a sua mulher a ter uma mesa de sinuca no meio da sala? A minha esposa jamais aceitaria. Ela era capaz de sentenciar: ou ela ou eu. Nem com todo o poder de sedução sequer traria uma mesa de Fla-Flu, o pônei da mesa acavalada de sinuca.

O ciúme crescia porque a mesa era vermelha, não verde, o que a diferenciava ainda mais dos lares de nós, mortais.

Eu babava de ódio. Durante os campeonatos, ainda sofria com os tacos novos, o giz recém comprado e um quadro para marcar a pontuação. O cara contava com um snooker bar em sua residência, com o bônus de não pagar qualquer consumação. As cervejas vinham geladas, a música ambiente estava na frequência exata do rock e havia independência para arrastar a conversa e as tacadas até de madrugada. Que vida perfeita, suspirava.

Mas, entre uma partida e outra, Rodrigo desabafou, para o meu completo espanto:

- A pior coisa que fiz foi ter comprado essa mesa de sinuca.

Não entendi. Achei que estivesse esnobando, sendo irônico, tirando vantagem. Só que não. Falava sério, condoído.

- Ela tem algum problema?

- Não, ela está ok. O problema é que ninguém valoriza as minhas vitórias. Tenho obrigação de ser invencível. Não há graça nenhuma.

Acabei aceitando os seus argumentos. Quando ele ganhava, o adversário virava as costas e fazia pouco caso de seu desempenho: você tem uma mesa para praticar todo o dia. Quando ele perdia, o adversário debochava de seu fracasso: mesmo com você praticando todo o dia, não me venceu, é muito ruim.

Eu cogitei pedir a mesa para mim e salvá-lo do martírio, acho que poderia convencer a esposa alegando loucamente que combinaria com os quadros do nosso apartamento, porém preferi continuar vencendo fora de casa, o gosto da vitória é dobrado. Não pude controlar: a inveja logo se transformou em arrogância.

/fabriciocarpinejar – CARPINEJAR


17 DE FEVEREIRO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

Minimalismo

Tenho uma amiga que mora na Europa há anos. Vive com a filha num apartamento de frente para um parque, tem um carro, um emprego e um namorado. Em tese, ela não tem do que se queixar, mas conversávamos outro dia sobre o que significa estar tudo bem. Para ela, tudo bem é experimentar novas formas de existir. A gente assina um contrato de locação de um imóvel, se acostuma com a mercearia da esquina e quando vê está enraizado num estilo de vida que se repete dia após dia, sem testar nosso espanto, nossa coragem, nossa adaptação ao novo. Humm. O que você está inventando?, perguntei a ela.

- Vou morar num barco.

Ainda bem que eu estava sentada. Pensei: "Essa garota é maluca". E logo: "Que inveja".

Tenho zero vontade de morar num barco. Minha inveja foi do desapego e da facilidade com que ela escreve capítulos surpreendentes da sua biografia. "Tenho coisas demais, Martha. Livros demais, roupas demais, móveis demais. Está na hora de viver com menos para poder redefinir o significado de espaço, tempo, silêncio". O gatilho da nossa conversa foi o documentário Minimalism (disponível na Netflix), que escancara a estupidez do consumo compulsivo, como se ele pudesse preencher nosso vazio. Vazio se preenche com arte, amor, amigos e uma cabeça boa. Consumir feito loucos só produz dívidas e ansiedade.

Temos perdido tempo, nas redes sociais, criticando o bandido dos outros e defendendo o nosso, sem refletir que o caos político e social têm a mesma fonte: nossa relação doentia com o dinheiro. A ideia de "poder" deveria estar associada à gestão do ócio, às relações afetivas, ao contato com a natureza e à eficiência em manter um cotidiano íntegro, produtivo e confortável (nada contra o conforto), no entanto, "poder" hoje é sinônimo de hierarquia, acúmulo de bens, ostentação e lucratividade non-stop. É por isso que, para tantas pessoas, é natural incorporar benefícios imorais ao salário, ganhar agrados de empreiteiras e fazer alianças com pessoas sem afinidades, mas que um dia poderão vir a ser úteis.

A sociedade não se dá conta do grau de frustração que ela mesma produz e continua cedendo a impulsos. Uma vez, eu estava na National Portrait Gallery, em Londres, quando, na saída, passei pela loja do museu e percebi, ao lado do caixa, um aquário cheio de latinhas de metal à venda, pouco maiores que uma moeda. Era manteiga de cacau no sabor "chocolate & mint". 

Sem hesitar, comprei uma latinha e trouxe-a comigo para o Brasil: hoje ela reside na bancada do banheiro, intocada, para me lembrar de como se pode ser idiota - eu estava dentro de um dos maiores museus do mundo e mesmo assim fiquei tentada a comprar a primeira besteira que vi. O exemplo é bobo, mas ilustrativo de como certos gritos ecoam dentro de nós 24 horas: Compre! Leve! Aproveite! Você nunca mais será o mesmo depois de usar a triunfante manteiga de cacau da National Gallery!

O único excesso que preciso é de consciência para não me deixar abduzir por essa forma equivocada de dar sentido à vida.

/marthamattosmedeiros - MARTHA MEDEIROS

sábado, 10 de fevereiro de 2018


10 DE FEVEREIRO DE 2018
J.J. CAMARGO

QUANDO A DELAÇÃO É INVOLUNTÁRIA


"O cara, apesar de superfamoso, é uma pessoa muito simples." Essa frase é recorrente entre os admiradores da riqueza, da inteligência ou do talento de alguém. E os encantados balançam a cabeça em aprovação, como se a simplicidade de quem alcançou a fama não fosse um pré-requisito para chegar lá.

Enquanto isso, o objeto da admiração, empenhado em manter o nível de competição que gerou o diferencial, não tem paciência nem tempo para perder com ostentações que fazem a alegria dos cronistas sociais e são festejadas pelos adeptos da futilidade, mas causam invariavelmente irritação em quem sabe o quanto o desafio da superação e a gana por conquistar somaram para construir o que os outros atribuem à sorte. 

Aliás, a sorte é sempre reverenciada por aqueles que creem, ou dizem que creem, que o sucesso depende muito das estrelas, e citam mil exemplos de pessoas que, por estarem no lugar certo, foram agraciadas com as bênçãos divinas. Como essa generalização é rotina, fica fácil entender que alguns homenageados, intolerantes à bajulação, saiam emburrados das homenagens.

O problema começa com a descoberta, quase sempre tardia, de que o sucesso não é transferível para a geração seguinte. E só seria se a determinação por trabalho e o fascínio por desafio fossem obrigatoriamente hereditários. Como não o são, os herdeiros tendem a ser menos famosos e, o que os entristece muito, menos ricos. Talvez, por isso, se tornem perdulários precoces e ostentadores incorrigíveis, no afã de "aproveitar a vida que caiu do céu" antes que a farra acabe.

Em tempos remotos, a admiração do fã-clube era impunemente alimentada por publicações deslumbradas com as extravagâncias desses pseudo-heróis nessas revistas de segunda categoria cujo combustível é a vaidade humana, sempre documentada com mais fotos do que textos, porque os editores sabem como ninguém que não há nada realmente interessante para contar aos seus desavisados leitores, ávidos de oca idolatria.

Na modernidade, com a criação de inúmeros mecanismos de vigilância dos sinais exteriores de riqueza, a ostentação da prole começou a criar constrangimentos cada vez mais frequentes toda vez que alguém (sempre um invejoso recalcado!!) se espanta com o ritmo de expansão patrimonial do monarca. E como a necessidade de transparência, felizmente, vem sendo transformada em critério de sobrevivência política, os homens públicos estão como nunca ameaçados pela necessidade de explicar ganhos nem sempre contabilizados.

É difícil convencer os partidários, mesmo os mais crédulos e ingênuos, que seus líderes viveram sempre de maneira austera e honesta se eles nem conseguem evitar que os filhos, de passado medíocre e presente suntuoso, desfilem em Mônaco, numa tarde de sol, praia e deboche, com cabelos esvoaçantes ao vento do Mediterrâneo, a bordo de uma Ferrari amarela. Ou vermelha? Só lembro que era linda.

jjcamargo.vida@gmail.com - J.J. CAMARGO

10 DE FEVEREIRO DE 2018
PIANGERS

Virei o que sempre condenei


Não vou dizer aqui que sempre fui o homem mais festeiro do Carnaval florianopolitano mas, vejam bem, eu tive os meus momentos. Já desfilei na avenida e me vesti de mulher em bloco sujo, com certo desconforto, é verdade, e sempre mais influenciado pelos amigos do que gostando exatamente do que estava acontecendo. Houve uma vez que eu até deixei, na sexta de Carnaval, um recado na mesa da cozinha dizendo apenas: Mãe, fugi e fui com três amigos para a praia em uma busca adolescente frustrada por encontros casuais com o sexo feminino e porres homéricos, falhando miseravelmente no primeiro e tendo algum sucesso no segundo.

Digo tudo isso para deixar claro que não é um sentimento que me acompanha desde sempre mas que agora, aparentemente, eu odeio o Carnaval. Só queria informar. Me tornei aquilo que sempre odiei, aqueles senhores que reclamam que o supermercado está cheio durante as festas de Carnaval, que as marchinhas são irritantes e o pessoal está se passando na bebida. Que acha um saco a sujeira na rua. Que olha os vídeos da multidão em Salvador e sente claustrofobia só de se supor lá, imagina se dá vontade de fazer xixi ali no meio. Que, quando ouve de amigos que estão indo para um Carnaval de rua, avisa pra não levar o celular. Que é muito perigoso. Me tornei minha mãe.

Ainda não sou aquele senhor assistindo aos desfiles pela televisão e acompanhando as notas na quarta-feira, mas também não julgo que um dia eu chego lá. Porque me encaminho pra isso, estou cada vez mais interessado em ficar na beira da praia com a família sem muita coisa pra fazer e, não vou negar, uma caipirinha sempre ajuda a deixar as coisas melhores. Só me falta uma casa de praia, que no momento afirmo que jamais terei, mas nunca se sabe e talvez eu vire um desses caras que pega estrada na sexta de manhã, junto com todos os outros seres humanos do mundo, e fique parado horas no trânsito. Talvez eu me torne um desses que tem o dinheiro do pedágio separadinho no carro. Que guarda o recibo.

Não vou dizer que sempre fui o mais festeiro da turma mas posso tranquilamente afirmar que, na atual conjuntura, estou mais pra ficar em casa dormindo e vendo Netflix do que pra encher a cara de cerveja barata. Celebro o feriadão na esperança de ver os filmes indicados ao Oscar. Fico avaliando a fotografia dos filmes indicados na categoria de melhor estrangeiro. Vejo documentários sobre corais e me emociono.

Meu deus. Virei meu vô!

piangers.com - PIANGERS

10 DE FEVEREIRO DE 2018
CARPINEJAR

A prova dos nove do Carnaval



O Carnaval é uma síntese das nossas contradições. Há a obrigação de ser feliz que deixará muita gente triste. Há o escândalo da euforia que pode gerar a ressaca da melancolia. Há a cidade emprestada aos turistas, as ruas interditadas, os caminhos sem volta. Não tem como seguir com a rotina, e ser normal. As farmácias viram supermercados, os supermercados viram farmácias.

Nem adianta procurar a posteridade - ela morre durante o período. É o efêmero que manda, é o provisório que dá as ordens.

Não tente em vão se casar. Os amores foliões desaparecerão nos dias úteis. É preciso entender que as pessoas se apaixonam pelo anonimato, não desejam relações sérias. As paixões também são fantasias.

Não vigorará herança de qualquer entrega, alguma recompensa, prêmio ao final. O Facebook se transformará num cemitério de acenos. Seu WhatsApp terá números sem nomes. Não receberá nenhum e-mail na semana, a não ser spams.

Existe uma descontinuidade entre o que acontece antes e depois. Pois a seriedade morre.

Há uma única forma de comunicação: o riso, a gargalhada, o grito - pensar e conversar se convertem em operações incomunicáveis. Ou você se mistura ao esquecimento dos refrões, ao abre-alas dos apressados, ou se reduzirá a um chato da realidade. Ou você deixa as contas de lado que vencerão dia 14 e gasta sem piedade do futuro ou cada lata de cerveja doerá para descer pela garganta. Ninguém economiza no carnaval, ninguém se economiza no carnaval, é um atentado à solidão e ao bom senso. Os adoradores de música clássica dançarão funk, os funkeiros dançarão marchinhas.

Você faz amigos e não irá mais reconhecê-los. Você empreende loucuras e não saberá como contar o seu cotidiano em ordem cronológica. Você é capaz de ser um pato no chafariz da praça, ou um Pokémon na janela de um museu.

Conhecerá a igualdade do remorso, a democracia da irreverência. Liberará as suas censuras e ficará envergonhado dos excessos. Se uma foto vazar, perderá o emprego. Rezará para que não tenha sido filmado e identificado. Mas, ao mesmo tempo, gostaria de ser lembrado pelos disfarces.

Nada acontece conforme deseja. O bloco certo que será um sucesso será um fracasso. O que acha que será um fracasso será um sucesso.

Testará a sua capacidade de improviso: levará horas para se arrumar e de repente choverá e todos se assemelharão molhados. Perderá a chance de chamar atenção. A maquiagem terminará borrada e a produção desmanchada pelo barro. Restará reencontrar no fundo de si o contentamento de infância do banho de chuva e não se incomodar com a possibilidade de gripe e resfriado do mundo adulto.

Buscará a multidão para não se sentir sozinho, mas reclamará quando não conseguir nem espaço para sambar.

Tudo o que é planejado não perdura, o acaso se arma de serpentina, confetes e espuma para pichar a sua fachada controlada.

O Carnaval é para os fortes. Uma amostra de como a vida não nos pertence.

/fabriciocarpinejar - CARPINEJAR


10 DE FEVEREIRO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

Me chame pelo seu nome

O cinema cumpre sua função quando nos deixa sem palavras, arrebatados. Porém, mesmo que as palavras pareçam insuficientes, tentarei contar um pouco do que senti quando eu estava no escuro da sala do cinema, de frente para Timothée Chalamet, que eu nunca tinha visto atuar (e nem sei se ele estava atuando, pois dizem que o verdadeiro ator não atua, ele é o personagem). Então, corrigindo: estava eu ali diante de Elio, um garoto de 17 anos passando um verão tedioso em uma vila italiana, matando o tempo ao piano, lendo um livro atrás do outro, tomando banho de rio e iniciando-se sexualmente com uma garota da idade dele, até que surge Oliver, 24 anos, um americano que passará seis semanas como hóspede na casa da família de Elio. E acontece o incontrolável: um sentimento.

O filme Me Chame pelo seu Nome mostra o nascimento de um amor livre de qualquer interesse, de qualquer vaidade, de qualquer carência. Não é o amor encomendado a que nos habituamos, aquele que chega e nos encontra predispostos a acomodá-lo numa idealização prévia, aquele que se apresenta e a gente o captura para que acalme nossa ansiedade. Não é o amor que vem com certificado de adequação e longevidade. O filme mostra o amor em seu estado mais puro e livre. O amor que não leva em conta idade, gênero, futuro. 

O amor que não cabe em um projeto de vida. Ele apenas é o que é. Um sentimento que sai pelos poros, embevece o olhar e transfere a nossa alma para o corpo do outro. Nenhum "eu te amo" é capaz de traduzir essa epifania. O casal do filme, Elio e Oliver, dizem "eu te amo" sem dizê-lo, dizem de outra forma, apenas trocando de nome, fundindo suas identidades. Elio chama Oliver de Elio. Oliver chama Elio de Oliver. O "você" desaparece para existir apenas um "eu" agigantado pela existência do outro. Não é isso que esperamos do amor? Que ele nos dilate, nos torne maior, melhor? O "dois em um" levado à última consequência. Você é eu, eu sou você. Me chame pelo seu nome.

Pode acontecer entre um homem e uma mulher, mas no filme acontece entre dois homens, o que é um convite para eliminarmos qualquer resquício de homofobia e entrarmos de verdade numa nova era, onde dois corações possam se conectar independentemente da anatomia dos corpos que os revestem.

O diálogo final entre Elio e seu pai é o ponto alto do filme e é de comover até um muro de pedras. É comum dizermos para nossos filhos, a título de consolo: não sofra. Nem reparamos que estamos induzindo a uma repressão. Que pai teria coragem de insuflar seu filho a usufruir plenamente de seu sentimento, de estimular a intensificação deste sentir, mesmo que seja algo doloroso?

Se o filme pudesse ser resumido numa frase, seria: "Sinta, pois nem todo mundo teve esta sorte".

Palavras, palavras, que importam? Sentir é o que basta.

/marthamattosmedeiros - MARTHA MEDEIROS