sábado, 4 de agosto de 2018



04 DE AGOSTO DE 2018
DAVID COIMBRA

Os javalis comedores de ovelha

Tinha uma visão romântica do javali, por causa dos banquetes de Asterix e Obelix, mas agora não mais. Agora descobri que o javali, deslocado dos bosques da Gália, se transformou em uma praga no Brasil. Há milhares deles soltos pelos campos, devorando colheitas e animais. O Tio Niba, que tem estância em Rosário, me contou que, nas terras de um amigo dele, os javalis mataram e comeram 400 ovelhas! Nunca imaginei que javalis pudessem ser tão ferozes. Um bando de leões talvez não fizesse tanto estrago.

Fiquei sabendo que foi um uruguaio que trouxe o primeiro casal de javalis para a América do Sul, nos anos 1980. A partir de então, eles começaram a se espalhar. Javalis não respeitam fronteiras, nem os muros de Trump podem detê-los. Eles saíram do Uruguai e foram subindo pelo continente. Já estão no meio do Brasil, comendo tudo o que surge em sua frente.

O cocô do hipopótamo

Essa história me lembrou o caso dos hipopótamos do narcotraficante Pablo Escobar. Isso também aconteceu nos anos 1980. Escobar, como você sabe, era riquíssimo - vendia 80% da cocaína consumida no planeta. Tinha tanto dinheiro, que gastava R$ 10 mil por mês só em atilho, para amarrar os maços de dólares. 

Tanto, mas tanto dinheiro, que, uma vez, sua filha estava com frio e ele tocou fogo em US$ 2 milhões só para aquecê-la. Tanto, mas tanto, mas tanto dinheiro, que financiava esquisitices, como importar da África casais de hipopótamos, um bicho do qual gostava muito.
Mas Escobar morreu e os hipopótamos ficaram vivos, crescendo e se multiplicando, como ordenou o Senhor. 

Desde então, os hipopótamos do Norte passaram a se reproduzir como os javalis do Sul. Hoje, hipopótamos podem ser vistos passeando pelas ruas de algumas cidades colombianas, o que é preocupante por dois motivos: um é que o hipopótamo pode se tornar bastante agressivo quando irritado; dois é que os hipopótamos, como você, eu e até a Megan Fox, fazem cocô, com a diferença de que um hipopótamo é muitíssimo maior e mais pesado do que a Megan Fox, e por isso faz muito mais cocô. Ocorre que os cocôs dos hipopótamos estão atolando os rios colombianos e matando os peixes e a vegetação. Um drama.

O chifre do rinoceronte

Há algo interessante nesses dois casos de sucesso reprodutivo. É que nós, seres humanos, somos o que somos graças à nossa capacidade de transformar a natureza. As cidades, a agricultura, a pecuária, a irrigação dos campos, toda a civilização é produto da transformação da natureza. Somos capazes até de inventar novas espécies, como o cachorro, que por nós foi criado e para nós existe. Se deixarmos de existir, o cachorro desaparecerá da face da Terra. Suponho que fará a evolução ao contrário e voltará a ser o lobo orgulhoso e selvagem que um dia foi.

Mas, se somos responsáveis pela existência dos cachorros, somos também culpados pela extinção de várias espécies, como a dos rinocerontes-brancos. Você sabe: o último macho dessa espécie morreu em março, no Quênia. Chamava-se Sudan e, nos seus anos derradeiros, viveu vigiado por três guardas armados de escopetas 24 horas por dia, sete dias por semana. Não fosse assim, caçadores o poriam a dormir com tranquilizantes e lhe serrariam o chifre a fim de moê-lo e transformá-lo em pó medicinal, que é vendido na Ásia. 

Dizem que o pó do chifre do rinoceronte cura desde câncer até impotência. Por isso, um único chifre chega a valer R$ 1 milhão. Mas não acredite nisso. Se você tiver câncer, procure um oncologista; se tiver impotência, procure um psiquiatra. Deixe os rinocerontes em paz.

A derrota humana

De qualquer forma, o que eu queria dizer é que desde sempre transformamos a natureza, matamos e escravizamos bichos e tudo mais. Porém, muitas vezes, como no caso dos hipopótamos da Colômbia e dos javalis do Uruguai, a natureza nos ignora. Não conseguimos controlá-la e, de repente, não sabemos o que fazer. 

As chuvas vêm e causam enchentes que não dominamos, os furacões devastam o Caribe, os terremotos estremecem o Japão e há bichos que simplesmente se multiplicam sem o nosso consentimento. Por mais força que façamos, a natureza é ainda mais poderosa. Uma derrota nossa. Mas não será uma boa notícia?


04 DE AGOSTO DE 2018

MÁRIO CORSO


Já encontraste o teu dom?


Cada um nasce com um dom. Tem quem veio para a música, outros para um esporte, ou para línguas, ou ainda para uma carreira intelectual. Falo em talento, aquela disposição anímica e cognitiva que, de partida, te deixa à frente dos outros. Quando recebemos essa graça, aprendemos com facilidade, nadamos de braçada onde os outros se afogam.

Muitos passam a vida procurando seu dom. Foi meu caso. Não há nada que eu aprenda rápido ou desempenhe bem. Nos esportes, ao menos tinha a desculpa da miopia, apanhava de relho da bola. Para a música, sou tão desafinado, que meus amigos sempre sabem que sou eu quando toco a campainha. Se juntar com coordenação motora é pior. Quando me viram dançando, minhas filhas me disseram que só não sou confundido com uma foca tendo um ataque epilético pela cor. Salvo focas albinas, creio.

Sou ótimo em matemática, mas não quando ela é misturada a números. Tenho uma memória prodigiosa, mas só para desimportâncias. Escrevo porque existe corretor ortográfico. Faço 20 rascunhos para uma página. Tenho dislexia, troco letras, devoro sílabas e acentos. Tanto que meu revisor da ZH pediu aumento.

Foi um choque descobrir minha aptidão. Afinal, lavar louça não é uma perícia valorizada. De qualquer forma, ninguém lava louça como eu nos quesitos rapidez, eficiência e economia. Uso o mínimo de água e produtos, sem falar que nunca quebro nada. Habilidade útil e altruísta, pois mais vantajosa para os outros do que para mim.

A questão é o reconhecimento. Talento para chef ganha programa de televisão, mas os lavadores de pratos, panelas e congêneres como ficam? Não há mídia, não há prêmio, não há charme. Embora um prato sujo desmereça um restaurante, o asseado não o enobrece. Louça limpa é uma arte não valorizada.

Todos temos um dom. Aqueles que dizem não ter apenas não admitem que o seu é mixuruca. Aceita, o universo não é justo. Desiste de buscar o gênio dentro de ti e te resigna que teu dom é cuidar de cachorro. Será melhor para o cosmos, para tua família e para o teu cão. Para de torturar teu professor de violão - e os vizinhos - e vai passear com teu amigo peludo.

Agradeço publicamente a Aspodofa - Associação dos Portadores de Dons Fajutos -, que me ajudou a curar minha "disforia de gênio". O transtorno psíquico de pessoas que acreditam ter uma genialidade que não possuem.

Vai cuidar do jardim, quem sabe está lá tua transcendência. Eu, lavando louça, encontrei meu tamanho. Nós, que não somos especiais em nada, nem por isso somos menores. Somos artistas na modalidade esforço, perseverança, dedicação. Graças aos nossos dons de segunda divisão, aprendemos a viver sem superpoderes. Sabemos que a vida não é o que ganhamos do destino, é, sim, como fazer bem aquilo que recebemos. Nem que seja fritar pastel.

MÁRIO CORSO

04 DE AGOSTO DE 2018
ARTIGO

AGOSTO SEM GOSTO


Em agosto-setembro de 1918, há cem anos, a "gripe espanhola" brotou no Brasil e matou 300 mil pessoas, entre elas o ex-presidente Rodrigues Alves, recém eleito para novo mandato, que nunca exerceu. A II Guerra Mundial nasceu a 28 de agosto de 1939, quando Hitler mobilizou seu exército para invadir a Polônia. Em agosto de 1945, o terror atômico caiu sobre Hiroshima e Nagasaki. Aqui, em 24 de agosto de 1954, o presidente Getúlio Vargas suicidou-se, numa tragédia interminável. Sete anos depois, a 25 de agosto de 1961, o presidente Jânio Quadros renunciou e tentaram um golpe.

Em 1964, a ditadura inventou "agostos" em qualquer mês. Depois, voltamos à normalidade, mudamos de século e de epicentros da política e da sociedade. E vimos os novos ídolos tropeçarem em seus pés de barro. Assim, em 31 de agosto de 2016, Temer assumiu a Presidência em forma definitiva, não como mero "vice" interino.

Que outros desastres podemos esperar neste agosto, mês do desgosto?

Agora, o que aflige e angustia é o fúnebre desinteresse e apatia pela eleição de presidente, governadores e parlamentares. Com partidos que são aglomerados de gente sustentada pelos milhões do fundo partidário e sempre em bu$ca de mai$ negócio$, os candidatos viraram papagaios falantes. Recitam generalidades sem significado, numa pobreza de ideias que iguala, até, os que parecem diferentes.

Ninguém apresenta programas concretos de governo. Tudo é vago e genérico. O que dizem serve para uma festa de aniversário ou para um enterro, basta mudar o tom.

A pobreza é tão ampla e profunda, que chega a abrir espaço para nomes como Lula da Silva e Jair Bolsonaro, iguais um ao outro no tom místico e autoritário, na habilidade de nunca revelar o que são. Nada os diferencia. Nem que um tenha pose de "esquerda" e o outro pose de "direita". Jamais alguma pose definiu alguém, e é apenas "uma pose", tão falsa e quebradiça como um anel de vidro.

O que distingue o encarcerado Lula do não encarcerado Bolsonaro é só a habilidade de se esconder mais ou ocultar-se menos. Eles próprios se desnudam em público alegando que jamais foram o que são nem como agem, resumindo o que a política tem de perigoso ou, até, de perverso - a "enganação", como diz o povo.

Haverá tempo de "os outros" retificarem o rumo, dando algum gosto a este agosto, mês do desgosto? Ou teremos apenas um esgoto?

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

04 DE AGOSTO DE 2018
INDICADORES - Alfredo Fedrizzi

Uma concorrência real se aproxima


Há poucos dias, a amiga Nathalie Trutmann, da Hyper Island, voltou da China impressionadíssima com o que viu: o foco, a capacidade de execução dos chineses na busca de mais eficiência e a firme determinação de voltarem a ser o que já foram: a primeira economia do mundo. Até 2030, querem ser líderes mundiais em tecnologia de ponta, ultrafocados em inteligência artificial. Só em Pequim, estão investindo US$ 2,1 bilhões em IA.

A China está aproveitando a janela de oportunidades criada por Donald Trump, que, ao sair de vários acordos internacionais, impor pesadas regras contra imigrantes, entre outras trapalhadas, está deixando os EUA isolados. Contrataram os maiores especialistas dos EUA para traçarem sua estratégia de desenvolvimento, atraíram as principais universidades do mundo e fortaleceram as suas universidades, presentes em 10 mil empresas e 400 incubadoras, que investem até US$ 1 milhão em startups a fundo perdido. A China agiu com rapidez para acabar com o analfabetismo e a diminuição da poluição do ar. Recebem muito bem quem quer investir. Com humildade, cuidam de detalhes como receber o investidor falando português ou ter aplicativos para tradução em inglês nos táxis.

O governo tem forçado as empresas a se globalizarem, comprando em setores estratégicos. Já são líderes mundiais em fintechs e e-commerce, são donos de 20% das farmacêuticas dos EUA, do Club Med, do Cirque du Soleil, entre tantas coisas. É o país com maior quantidade de unicórnios (startups que valem US$ 1 bilhão ou mais). Construiu 20 mil quilômetros de ferrovias para o trem bala em sete anos. Os chineses já pagam suas contas de água, luz, tudo, pelo WeChat (WhatsApp deles), só para citar algumas referências. Para conseguirem tudo isso, trabalham das 9h às 21h, seis dias por semana.

Enquanto brasileiros saem do país, os chineses chegam. Parece que eles acreditam mais no futuro do Brasil do que nós mesmos. Mais de 30 mil vistos de permanência no Brasil foram emitidos para chineses nos últimos 10 anos. E continuam a aumentar. São engenheiros e executivos que chegam para administrar os investimentos de mais de US$ 100 bilhões feitos no Brasil em mineração, petróleo e gás, carros e motos, infraestrutura, componentes eletrônicos, energia, agricultura, finanças, hotelaria. Já são donos da 99Taxis, onde a Didi - empresa de compartilhamento de carros, IA e tecnologia autônoma - investiu US$ 1 bilhão. O Wecash, empréstimos por aplicativo, já fez mais de um milhão de empréstimos.

O conceito de liberdade deles é que é diferente do nosso: se tudo funciona e a vida melhora, o resto fica em segundo plano. Só se queixam da velocidade das mudanças. O Dragão acordou. E tem um olho esticado para o Brasil. Uma concorrência real que se aproxima.

Alfredo Fedrizzi escreve aos fins de semana, a cada 15 dias.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018


01 DE AGOSTO DE 2018
DAVID COIMBRA

De repente, a normalidade


Aconteceu algo extraordinário com o Brasil, depois do sucesso do Plano Real.

Algo que nunca havia acontecido desde, pelo menos, o golpe de 1930.

Algo difícil de acreditar. O seguinte: O Brasil se tornou um país normal.

Sério. O presidente não era um pai dos pobres como Getúlio, nem um excêntrico como Jânio, nem fazia promessas faraônicas como Juscelino, ou messiânico como Collor. Por um período, o presidente não correu o risco de perder o cargo antes da hora, fosse por impeachment constitucional, fosse pela força das armas, fosse por renúncia. Por esse mesmo período, as regras da economia e da vida civil foram mais ou menos as mesmas, não havia grande inflação, nem grande desemprego, nem crises incontornáveis.

O Brasil tinha seus problemas, é claro. Todos têm. Mas a vida seguia seu curso natural, sem eventos estrambólicos que estremecessem a nação.

A rara estabilidade levou à eleição de Fernando Henrique Cardoso, porque ele era a continuidade. E levou, também, à eleição de Lula, porque ele jurou que tudo ficaria igual. A famosa Carta aos Brasileiros, redigida a quatro mãos por Emílio Odebrecht e Antônio Palocci, garantia justamente isso: não era preciso ter medo de Lula - ele faria o que estava sendo feito.

Lula cumpriu a promessa. O Brasil seguiu governado da mesma forma que vinha sendo desde a queda de Collor. Nem os defeitos mudaram: as relações entre poder e dinheiro continuaram sendo promíscuas e os que ganhavam antes continuavam ganhando agora.

Mas havia uma diferença, gerada, curiosamente, pela normalidade democrática: as instituições começaram a se consolidar de maneira inédita no país. O Judiciário, o Ministério Público, a Polícia Federal e a imprensa se fortaleceram. A Constituição, ainda que leniente, deu proteção à sociedade civil, e os instrumentos da sociedade civil tomaram corpo.

Ao mesmo tempo, Lula, com aguda intuição, valia-se da tradição totalitária brasileira para se transformar numa mistura de Getúlio com Jânio, de pai dos pobres com homem folclórico, um tipo "do povo", malandro, engraçado e falastrão. Esse personagem era perfeito para liderar o projeto de poder continental do PT, alimentado pelo dinheiro daquelas velhas relações dissolutas entre políticos e empreiteiros.

Você consegue perceber a contradição? As elites políticas e econômicas agiam como se o Brasil ainda fosse um país em que o dinheiro e o poder eram intocáveis, enquanto os demais estamentos da sociedade se solidificavam graças ao cimento da lei. Chegaria o momento em que essas duas forças iriam se chocar.

Foi o que se deu com a Lava-Jato, que não é só uma operação policial. A Lava-Jato é a expressão da normalidade institucional brasileira. Juízes, desembargadores, policiais, promotores, funcionários públicos de carreira, enfim, exercem suas funções com correção e, apenas por fazerem isso, apenas por cumprirem o seu dever, confrontam-se com o que está sendo feito de errado. Com o que sempre foi feito de errado. Antes, um juiz temia o dinheiro e o poder. Hoje, não mais.

A divisão que se sente no Brasil é precisamente esta: de um lado, o Brasil antigo, meio romântico, meio fantasioso, de soluções fáceis, que anseia por líderes fortes e salvadores da pátria, um Brasil em que a normalidade é exceção, em que a lei está a serviço da elite iluminada; do outro lado está o Brasil que anseia ser um país como as outras grandes democracias do mundo, meio sem graça, mas com estabilidade, com igualdade perante a lei, com gente séria fazendo seu trabalho com seriedade e, assim, transformando a comunidade para melhor. É esse também o dilema do brasileiro na próxima eleição. Que não será a solução de todos os nossos problemas. Nunca é. Mas bem pode ser uma evolução.

DAVID COIMBRA


01 DE AGOSTO DE 2018
ARTIGOS

AMOR SEM LEGENDAS


Ao perceber a frequência do afeto demonstrado de forma oculta, de modo que o outro precisa decifrar, acabei desenvolvendo no meu livro lançado recentemente a expressão "amor sem legendas".

Reconhecimento, elogio, afeto, carinho, amor e outras tantas manifestações positivas das quais somos todos carentes não deveriam ser de difíceis interpretações.

Ouvi muitas vezes relatos de pessoas que sabiam que seus pais as amavam, mas que isso nunca havia sido dito de forma direta, ou melhor, sem legendas.

Demonstrar atitudes de amor é fundamental em uma relação afetiva. E a fala sem ações perde valor. Mas, ao mesmo tempo, não importa a idade que você tenha, você certamente sempre fica muito feliz de ouvir um "eu te amo" dos seus pais.

O amor sem legendas derruba vícios e padrões comportamentais nas famílias e nas relações intimamente afetivas. E na mesma linha ocorre com os reconhecimentos. Os ambientes de trabalho, na falsa ideia da escassez do tempo, estão deixando de elogiar, reconhecer e parabenizar.

"É a minha forma de mostrar que gostei" é legendado demais para quem suou muito para conseguir um resultado. "É minha forma de mostrar que senti sua falta" é legendado demais para quem se afastou e precisa saber que sua ausência faz diferença.

"É minha forma de pedir desculpas" é legendado demais para quem está magoado e precisa seguir em frente. "É minha forma de demonstrar preocupação" é legendado demais para quem está angustiado, com medo e inseguro com algo na sua vida.

Dentro do trabalho da gestão de conflitos, seja entre líderes, sócios ou família, a legenda complica demais a capacidade de resiliência do ser humano. No fundo, somos todos frágeis e precisamos uns dos outros para evoluirmos diante das dificuldades que, inevitavelmente, a vida seguirá trazendo para todos nós.

Este texto fez você lembrar de alguém? Abra logo o WhatsApp e envie algo sem legenda. Mal eu lhe garanto que não vai fazer.

GABRIEL CARNEIRO COSTA


01 DE AGOSTO DE 2018
+ ECONOMIA

A CVM DÁ ALÍVIO A BANRISUL, FICA A LIÇÃO


Adecisão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que na semana passada informou o governo do Estado do encerramento do processo administrativo que investigava a venda de ações do Banrisul, foi um alívio ao banco e ao Piratini. Seguem as apuraçoes dos Ministérios Públicos Federal, Estadual e de Contas, além da Polícia Federal, mas todos devem se referenciar na apreciação da xerife do mercado.

Apesar de ver interesses políticos no surgimento de denúncias, integrantes do governo e da direção do banco fizeram uma autocrítica sobre o confuso processo de comunicação - para os contribuintes e para o mercado - da venda de ações. Vice-presidente do Banrisul, Irani Sant?Anna Junior explica que algumas decisões sobre divulgação foram tomadas para tentar preservar o valor das ações que seriam oferecidas.

A expectativa de governo e Banrisul é de que os demais processos sejam encerrados na esteira da decisão da CVM. Mas ficou a lição de que processos de venda de ações em geral, e os de empresas relacionadas ao governo especificamente, precisam ser melhor tratadas. Internamente, Piratini e banco reconhecem "trapalhadas" no processo que, esperam, não sejam repetidas em futuras ofertas.

Apesar da suspensão da venda de ações da Banrisul Cartões prevista para este mês, não se descarta a retomada caso o mercado dê condições. Em julho, a bolsa subiu quase 10% - só não cravou os dois dígitos por conta do recuo superior a 1% de ontem. Se a recuperação se sustentar (o que vai depender do quadro eleitoral nacional ), o banco poderá retomar a oferta da rede Vero. Desta vez, asseguram governo e Banrisul, sem o vaivém e a confusão até com investidores que marcaram as tentativas anteriores.

a Atlas inaugura hoje sua nova planta industrial. Com investimento de R$ 40 milhões, a unidade integrará as operações da fábrica de pincéis com a de acessórios para pintura em um único complexo, em Esteio. os pincéis, que saíram do nome, representam apenas 15% do faturamento.

A coluna pede desculpas a quem já sabe, mas não resistiu a compartilhar o que viu e ainda é novidade para muitos: três décadas depois de inspirar a América Latina, o Puerto Madero, em Buenos Aires, encara sua terceira fase. A primeira foi a restauração, aluguel e venda dos armazéns do antigo porto, a segunda, o conjunto de arranha-céus erguido a partir de 2003. Agora, a mesma empresa - para lembrar, formada por Nación (governo federal) e Cidade Autônoma de Buenos Aires - pôs em obras o Paseo del Bajo, corredor de 7,1 quilômetros que conectará duas autoestradas - Illia e Buenos Aires-La Plata.

Terá quatro pistas exclusivas para caminhões e ônibus interurbanos e oito para veículos leves. A intenção é dar circulação mais rápida a pesados e um entorno melhor ao metro cúbico considerado o mais caro da América Latina (acima de US$ 7 mil). Será criada área verde equivalente a seis quadras. A maior parte dos US$ 650 milhões foi financiado pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF, que manteve a sigla mas mudou de nome), no entanto, as duas esferas públicas entram com recursos. A intenção é entregar a obra em 2019. E quem recorreu ao FMI foi a Argentina. MAIS PUERTO MADERO

O PIB calculado pela Fipe para o RS ainda rende polêmica. Professores assinaram documento, em que contestam o indicador, entregue ontem pelo Sindicato dos Economistas do RS ao Tribunal de Contas do Estado.
MARTA SFREDO

01 DE AGOSTO DE 2018
ARTIGO

Crenças


As nuvens do Cléo Kuhn não nos deixaram ver o eclipse da última sexta-feira em Porto Alegre, mas imagens produzidas em outros Estados e em outros países comprovam que o fenômeno - o maior do século - começou e terminou exatamente como os cientistas previram. Habitantes dos seis continentes puderam ver com os próprios olhos o mergulho da Lua na sombra da Terra. Eu não vi, pelas circunstâncias referidas, mas não tenho por que duvidar do farto noticiário a respeito do assunto. Também não vi o homem desembarcando na Lua, em 1969, pois sequer tinha televisão em casa naqueles tempos pré-históricos, mas acredito nos registros amplamente divulgados sobre a fantástica aventura dos astronautas norte-americanos. Porém, tem gente - muita gente, inclusive gente ilustre - que não acredita.

Na noite da Lua de Sangue, o goleiro Iker Casillas, campeão mundial pela Espanha em 2010 e, atualmente, guarda-redes do Futebol Clube do Porto, jantava com amigos quando o assunto entrou em discussão. Aí, o atleta, que se tornou célebre por ganhar uma Copa e beijar a linda repórter Sara Carbonero (então, sua namorada e, depois, esposa) durante uma entrevista ao vivo, resolveu passar para seus quase 9 milhões de seguidores no Twitter uma questão, digamos, astronômica. Traduzo livremente o que escreveu o goleirão:

- No ano que vem, serão comemorados os 50 anos da chegada do homem à Lua. Vocês acreditam que o homem realmente pisou lá? Eu não acredito.

Mais de 300 mil tuiteiros se manifestaram e o resultado não foi muito folgado para os crentes na ciência: 58%. Os outros 42% acham que aquela foto da pegada de Neil Armstrong no solo lunar é uma montagem e que as imagens divulgadas pela Nasa são falsas. Sinceramente, pensava que este Gre-Nal de torcidas por russos e americanos tinha terminado com a Guerra Fria, mas parece que não. Nem as viagens multinacionais de astronautas nem a amizade colorida entre Trump e Putin encerraram o debate.

Casillas não é propriamente uma autoridade no assunto, mas sua provocação causou tanta repercussão, que até o ministro de Ciência, Inovação e Universidades da Espanha e uma engenheira aeroespacial da Nasa entraram na discussão, ambos para questionar sua crença - ou melhor, sua descrença. A revista National Geographic também mandou para o goleiro algumas fotos da missão Apolo 11, mas não sei se ele se dobrou às evidências. As pessoas acreditam naquilo que querem acreditar.

Há, porém, crenças limitantes, que nos impedem de pensar, de refletir, de ouvir teses contrárias e de alterar nossas próprias opiniões. Sobre esse tema, recomendo a leitura do diálogo Crer ou não Crer, entre o padre Fábio de Melo e o historiador Leandro Karnal, novo colunista deste jornal. Os argumentos são tão inteligentes, que a gente termina a leitura achando que tanto o religioso quanto o ateu têm razão.

Eu creio que o homem pisou na Lua, mas talvez não seja exemplo para ninguém, pois acredito até no Cléo Kuhn.

nilsonlsouza31@gmail.com

sábado, 28 de julho de 2018


28 DE JULHO DE 2018
LYA LUFT

Me ajuda a entender?


Anda difícil demais, nestes tempos, dar sentido a tantas coisas que nos acontecem. Digo "nos acontecem" porque tudo ou quase tudo deste mundo chega a nossa casa por TV, computador ou iPhone sempre que queremos... e queremos quase sempre.

Como agora, com a intensificação da coisa política, que sempre me assusta e intriga. Quem, como, quando, onde, e por que motivo? Quem vai melhorar a cidade, o Estado, o país, o mundo? Por todas as loucuras que se desenrolam onde menos esperávamos (tiroteio na civilizadíssima Toronto, gente morrendo assada na linda Grécia, comemorações na França virando pancadaria, o Japão morrendo de calor, nos Estados Unidos temos o Trump. Todo dia, dezenas de assassinatos aqui no Brasil, confusões jurídicas e políticas), cadê os líderes sensatos, poderosos, honradíssimos, cadê quem nos ajude a refazer este Brasil tão descosturado?

Não sei. Aliás, nunca soube e, quando acreditei, em geral, me desiludi. Mas continuo tendo esperança, e desejo, ardentemente, que a coisa melhore, que as pessoas parem de querer sair do país, que não fiquemos só nas mãos dos corruptos ou sonsos ou incompetentes. Perguntam se tenho preconceito contra política. (Uma de minhas netas, quando pequena, certa vez perguntou se eu tinha preconceito. Respondi, muito sincera, que sim, tenho preconceito contra mau caráter, falsidade e burrice. Devo ter outros, mas esses já me bastam.)

Sobre política, escrevi muito modestamente em Paisagem Brasileira: dor e amor pelo meu país. Prefiro falar de gente. O que não é menos complicado, mas aí eu me entendo um pouco mais. Porque gente sempre foi meu fascínio, objeto de meus tantos livros, de minha eterna contemplação e estranheza - porque gente é bicho muito esquisito.

E porque a vida é bela e difícil, ninguém controla a vida, isso a gente sabe. Mas podia ser um pouco menos enigmática. E eu gosto disso. Eu iria entregar ao editor meu primeiro romance, As Parceiras, então decidi tirar os parágrafos finais, muito explicativos. Vai ficar muito mais interessante, pensei. E foi, e causou aflição a muitos vestibulandos quando o livro esteve em lista de leituras obrigatórias. O não explicado, não entendido, exige que a gente aplique sensibilidade e intuição, com alguma liberdade: susto.

Pois então eu deveria, com tantos outros da minha raça mental ou emocional ou seja o que for, andar animadíssima. Porque quase tudo ao redor carece de significado tranquilizador. Os males pelo planeta se acumulam, o gigantesco iceberg na Groenlândia, a cessação ou não das tramas nucleares na Coreia do Norte, o misterioso veneno que alguém anda largando por ruas bucólicas da Inglaterra, as elucubrações trumpianas e os caminhos desta minha amadíssima pátria. Sem falar nas complicações da chamada "nova família", que parece de verdade mudar - mas as emoções humanas não mudam.

Enfim, alguém me ajude a entender o mundo, como minha mãe resolveu lindamente num certo momento em que, olhando as árvores do terraço de casa, escutando e vendo aproximar-se um vendaval com aqueles rumores das folhagens, ela botou a mão no meu ombro e disse: "Waldrausch": rumor do bosque. E achei lindo, e me emociono até agora. Mas e o mundo, o Brasil, e tudo, quem bota a mão no meu ombro e me ilumina?

LYA LUFT

28 DE JULHO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

Adoráveis malucos


A cena: o primeiro vinho da vida de vocês. Sentados frente a frente, cada um fala sobre as músicas favoritas, se prefere praia ou campo, se gosta de ler, se pratica esporte, se já morou em outra cidade. Sem esquecer o indefectível: qual o seu signo?

Ao fim da noite, haverá mesmo uma pista segura sobre as chances da relação? A gente pensa que sim, mas a vida mostra que nada disso interessa: nem o time que torce, nem se sabe cozinhar, nem se é de áries ou libra. Segundo o filósofo Alain de Botton, a gente deveria perguntar no primeiro encontro: qual é a sua loucura? Este seria um bom começo para avaliar se temos capacidade de segurar a onda do outro.

Não há como negar que somos todos meio esquisitos. Quem é que tem todos os parafusos no lugar? Combinado: ninguém. Então admitir isso seria um jeito mais honesto de iniciar uma história. O cara se abre: "Costumo fazer caminhadas durante a madrugada, preciso ficar totalmente sozinho no dia do meu aniversário, tenho um histórico de assédio moral que me perturba até hoje, fico meio enfurecido quando alguém insiste em saber sobre minha infância".

Sua vez de alertá-lo: "Não consigo ficar sozinha nem por cinco minutos, não posso engordar 200 gramas que fico sem comer por três dias, janelas abertas me causam pânico, desconfio que sou filha da minha tia".

Achou que iria ser facinho? Praia ou campo?

O ser humano, qualquer um, é um depósito de angústias, carências, traumas, neuras. Não somos apenas o nosso gosto para cinema, o nosso jeito de vestir, o nosso prato favorito - se fôssemos apenas isso, amar seria como jogar dominó. Mas o jogo entre dois amantes é mais complexo. Aos poucos, vão aparecendo os medos secretos, a dificuldade em lidar com certas emoções, a fixação em ideias estapafúrdias, o complexo de inferioridade, a ansiedade incontrolável, as perdas pelo caminho.

Nada disso é exatamente uma loucura, mas é um pacote existencial que é colocado no colo de quem deseja se relacionar conosco. A pessoa terá que amar não apenas nosso par de olhos verdes e nossa bicicleta na garagem, mas todas as estranhezas que cultivamos e a dor que tentamos subestimar.

O amor, em si, não é difícil. O amor é fácil. Difíceis somos nós. Somos uma simpática encrenca para quem se atreve a entrar na nossa vida e ficar conosco por mais de 10 dias, prazo suficiente para lembrar que perfeição não existe.

Alguém vai desistir de amar por causa disso? Ao contrário: o desafio é estimulante. Quase competimos para ver quem é mais maníaco, quem tem mais problemas familiares, quem se irrita mais com a rotina, quem explode mais - pra tudo terminar em chamegos embaixo do lençol, onde é obrigatório se entender.

Taí a graça e a desgraça de quem resolve dividir o mesmo teto, taí a bagagem surpresa que cada um traz de casa. Qual é a sua loucura? A minha, só conto depois do segundo cálice.

mar­thamedeiros@terra.com.br - MARTHA MEDEIROS

28 DE JULHO DE 2018
CARPINEJAR


O melhor amigo está namorando, o que faço? O grande desafio da amizade é ver o parceiro feliz e não se sentir deslocado. É quando o outro está amando e você não se vitimiza, não identifica o namoro alheio como uma ameaça à rotina ou como um roubo da cumplicidade.

Aguenta o ciúme e a inveja e não cobra absolutamente nada. Respeita o sumiço, o sequestro da paixão, o cativeiro da cama. Pois todo mundo desaparece no início de um envolvimento.

Entende o momento diferente do seu e que o amigo experimenta uma nova relação que exige exclusividade para dar certo.

Se antes vocês se telefonavam todo o dia, o amigo apaixonado ligará uma vez por semana. Se antes vocês batiam ponto num boteco, o amigo apaixonado deixará de beber. Se antes vocês se aventuravam juntos nas festas, o amigo apaixonado terá agora novos programas a dois. Se antes vocês não se largavam no WhatsApp, o amigo apaixonado estará off-line a maior parte das horas.

A mudança de hábitos não significa desprestígio, a transformação da rotina não é desimportância. Não estar mais sempre junto não desfaz a cola da intimidade. É um intervalo necessário para o autoconhecimento.

Há pessoas que se acham abandonadas, corneadas, excluídas e desenvolvem uma saudade histérica, possessiva, que pode levar a falar mal de quem não merece e destruir um companheirismo de muito tempo.

Não adianta realizar uma caça às bruxas e vodu. Não adianta fazer torcida para o término e avisar dos perigos. Não adianta vestir a roupagem pessimista e agourenta de urubu.

Talvez o mais complicado para os laços seja não falar do seu próprio sofrimento quando o amigo engata um romance, e somente partilhar a felicidade das confidências. E não jogar na cara a repentina conversão de objetivos, de um modo que soe como denúncia de uma hipocrisia. Natural que o amigo que festejava a solteirice agora pense em casar, previsível que o amigo que endeusava a independência agora queira filhos.

Apoiar as decisões durante a ausência é maturidade, gesto de nobreza reservado aos longevos álibis de nossa existência.

carpinejar@terra.com.br - CARPINEJAR

28 DE JULHO DE 2018
PIANGERS

Como criar um idiota


É um trabalho fácil que não exige tempo nem dedicação. Apenas péssimos exemplos. Comece se esforçando para ser um idiota, você mesmo. Desrespeite tudo. Tenha um bebê com uma pessoa de quem você não gosta. Assim que nascer, mostre aos outros dizendo: "Este vai ser comedor!". Deixe seu filho na frente do tablet desde cedo. Patati Patatá em looping no iPad, televisão durante o dia todo. 

Ofereça seu celular para seu filho ficar no YouTube, enquanto você cuida das coisas importantes da sua vida. Não perca tempo interagindo com o bebê. Não estimule, não crie conexões afetivas. Contrate uma babá. Se ela não puder dormir no serviço, contrate outra. Arrume uma creche que funcione no fim de semana. Você tem que descansar. Tenha pessoas para cuidar do seu filho o tempo todo. Esteja sempre ocupado.

Substitua sua presença por brinquedos. Dê tudo o que seu filho pedir. Use seu filho como sinal de status, mostrando a todos as roupas caríssimas que ele usa. Faça festas monumentais de aniversário. Não se envolva na escola do seu filho. Destrate garçons, motoristas e atendentes na frente de seu filho. Jogue lixo pela janela do carro. Beba e dirija. Dê um iPhone de última geração antes de ele completar 10 anos. Reforce sua aversão ao diferente, demonstrando nojo de qualquer pessoa que seja de outra classe social, tenha outra cor ou pense de forma diferente de você. Diminua as mulheres, com comentários e piadas.

Revolte-se com qualquer pessoa que avise que você está cometendo erros na criação de seu filho. Brigue com professores que ousarem dar nota baixa para seu pequeno gênio. Desafie psicólogos. Diminua a opinião de especialistas. Permita que ele tenha uma adolescência de excessos. Que beba cedo, seja o primeiro da turma a ganhar um carro, antes mesmo de completar 18 anos. Incentive-o a ser macho: que brigue em festas, ande armado, dirija em alta velocidade. Bata palmas quando destruir carros, atropelar pessoas, escapar de blitz. Desrespeite qualquer policial que tente punir seu filho. Pague as multas e as fianças.

Sustente seu filho até ele fazer 30 anos. Arrume um emprego pra ele na empresa. Coloque-o em um cargo de chefia. Entenda que todos tentaram ser injustos com ele, mas ele é uma pessoa boa. Tudo o que ele conseguiu foi por esforço próprio. Vai ser uma pessoa de bem, como você.

piangers@atlantida.com.br - PIANGERS


28 DE JULHO DE 2018
ENTREVISTA

O veredicto das mulheres

Conversamos com as três juízas à frente das associações de magistrados no RS sobre igualdade de gênero, feminicídio, aborto e reforma trabalhista

Pela primeira vez, as três entidades que representam os magistrados do Rio Grande do Sul são presididas por mulheres. A posse da juíza Rafaela Santos Martins da Rosa na Associação dos Juízes Federais do Rio Grande do Sul (Ajufergs), no começo de julho, fechou a trinca formada pela juíza Vera Lucia Deboni, presidente da Associação de Juízes do Rio Grande do Sul, e por Carolina Hostyn Gralha, da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 4ª Região. Não é a primeira vez que uma mulher toma posse como presidente em nenhuma delas mas, considerando a discrepância entre o número de presidentes mulheres e homens em todas essas associações, é, de fato, simbólico que os mandatos dessas juízas sejam concomitantes.

São mulheres diferentes com trajetórias distintas. Quando entrou na magistratura em 1987, Vera Lúcia Deboni fazia parte dos 20% de juízas mulheres. Agora, a presidente da Ajuris lembra que, no Estado, as mulheres representam um total de 53% dos magistrados.

- Obviamente, isso veio acontecendo devagar, mas foi sem revés. Depois que começaram a aceitar as mulheres, e realmente foi difícil que isso acontecesse, não houve como voltar atrás. Hoje, dois dos maiores tribunais são presididos por mulheres - afirma, lembrando da ministra Cármem Lúcia, presidente do Superior Tribunal Federal, e da ministra Rosa Weber, à frente do Tribunal Superior Eleitoral.

Rafaela Santos Martins da Rosa e Carolina Hostyn Gralha, têm 12 e 13 anos de carreira, respectivamente. Reconhecem que fazem parte de outra geração, mas que algumas questões ainda se mantêm.

- Ainda é difícil de se aceitar a presença da mulher em um papel de liderança e confiança. Fica claro o quanto se identifica os papéis de poder com a figura masculina, e nós três chegarmos em 2018 sendo as representantes dos nossos juízes é uma virada de mesa - avalia Carolina.

A juíza Rafaela vê o momento como uma oportunidade para trabalhar as questões de gênero internamente:

- Conseguimos representatividade e estar em todas as instâncias, mas ainda existe uma diferença de tratamento quando é um juiz ou uma juíza falando. Acho que agora temos um papel importante nisso também, em trabalhar internamente, porque sabemos que, no seio das instituições, também há muito a ser feito.

E fora das instituições também: nossa vida é pautada por diversos temas que ganham ainda mais força por causa dessas questões de gênero. Aproveitamos o momento para ouvir o que as três juízas têm a dizer sobre assuntos que tocam a nossa rotina, como a diferença salarial entre homens e mulheres, feminicídio, aborto e reforma trabalhista.

CAMILA MACCARI, ESPECIAL

28 DE JULHO DE 2018
HORIZONTES

HORIZONTES



Gerações de fãs cresceram assistindo ao capitão Kirk e aos tripulantes da nave interplanetária Enterprise, na série Star Trek, materializarem no food replicator drinks e pratos elaborados em segundos. Embora as novas tecnologias ainda não permitam produzir instantaneamente bebida e comida ao toque de um botão, a realidade é que a impressão 3D de substâncias comestíveis, como chocolate e massas, já é uma ideia possível há alguns anos. Mais recentemente, no remake de outro clássico da ficção científica, a série Perdidos no Espaço, a espaçonave Júpiter 2 aparece equipada com uma sofisticada impressora 3D utilizada, já nos primeiros episódios, para produzir ferramentas, componentes da nave e até uma arma letal.

No mundo real, as oportunidades abertas pela popularização da impressão 3D e outras formas de fabricação digital são inegáveis, já que, por meio delas, processos avançados de manufatura, anteriormente só disponíveis em empresas de alta tecnologia, passaram a estar acessíveis a qualquer ser humano mortal.

Fala-se com entusiasmo, até certo ponto justificável, que o mundo testemunha, neste início de século 21, a Terceira Revolução Industrial, provocada pela crescente disseminação das ferramentas digitais. Diz-se que a partir de agora será possível produzir em casa grande parte dos objetos que anteriormente só se podia adquirir em lojas.

Os equipamentos que tornaram possível a realização dessa tecno-utopia são as máquinas de comando numérico computadorizado (CNC), que seguem, via de regra, o mesmo princípio tecnológico: guiar por meio de um computador os movimentos de um equipamento eletromecânico informatizado, com o auxílio de um software. Com base nesse conceito, máquinas de corte a laser, impressoras 3D e fresadoras, entre outros dispositivos, alimentam nos dias atuais a proposta de uma cultura maker, ou "cultura do fazer", que aparece como um revival da contracultura que, nos anos 1960 fez do "faça você mesmo" uma de suas marcas mais conhecidas.

As transformações causadas pela fabricação digital já são visíveis no dia a dia, por meio de objetos produzidos em espaços físicos apresentados como makerspaces, locais identificados com a cultura maker. Esses espaços são laboratórios (como os Fab Labs, rede mundial de fábricas digitais) dedicados a produzir diferentes tipos de inovação, relacionadas a imaginários utópicos, mas também ideologias nem sempre perceptíveis.

Um dos personagens centrais da Cultura Maker, Neil Gershenfeld, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e criador dos Fab Labs, afirma que a fabricação digital permitirá aos indivíduos projetar e produzir objetos tangíveis sob encomenda, onde e quando precisarem deles, concluindo que o acesso generalizado a essas tecnologias desafiará os modelos tradicionais de negócios, cooperação internacional e educação.

Apesar do entusiasmo que move os makers e as aspirações de Gershenfeld, no entanto, assiste-se também ao surgimento e ao crescimento em escala global daquilo que estudiosos chamam de "cyberproletariado". Nesse sentido, uma reflexão para o universo maker vem de um dos mais notáveis cientistas de todos os tempos, Stephen Hawking (1942-2018), que em um de seus últimos posts no site de mídia social Reddit.com comentou: "Todos podem desfrutar de uma vida de luxo e prazer se a riqueza produzida pelas máquinas for compartilhada, ou a maioria das pessoas pode acabar miseravelmente pobre. (...) Até agora, a tendência parece ser a segunda opção, com a tecnologia levando a uma desigualdade cada vez maior".

Desde 2016, São Paulo conta com a maior rede pública de laboratórios de fabricação digital do mundo, a rede municipal Fab Lab Livre SP. É interessante notar como a democratização do acesso às tecnologias avançadas presentes em locais como esse passou a ser encarada como um direito social adquirido. Essa iniciativa mostra-se como o primeiro e grande passo para a utilização dos laboratórios em sua, talvez, maior potencialidade: a inovação social participativa, descentralizada e articulada com outros atores do poder público e da sociedade civil.

Repensar o papel da tecnologia no contexto de países como o Brasil implica compreender como as ferramentas de fabricação digital podem coadjuvar processos sociais na solução de problemas reais que são, em grande parte, vinculados ao território e à escala local. Caso contrário, como reflete Gui Bonsiepe, um dos mais conhecidos designers e teóricos do mundo, referindo-se às impressoras 3D: "Não se pode excluir a possibilidade de que se termine em uma fabricação massiva de bibelôs".

Professor da Faculdade de Arquitetura da USP, coordenador do Fab Lab SP - PAULO EDUARDO FONSECA DE CAMPOS

28 DE JULHO DE 2018
SINGULAR

Onde fica o Cafundó


Aos pés da Serra de São Martinho, na Região Central, os cerros cobertos de mata retiram o horizonte da vista, e o emaranhado de estradinhas de chão abertas pelos imigrantes italianos da Quarta Colônia vai levando aonde nem Judas chegaria não fosse a ajuda de uma ou outra placa.

É o caminho do Cafundó, o Cafundó mesmo, de batismo oficial e escrito com o C maiúsculo, lugar onde a dona de casa Vera Quatrim Dal Molin, 55 anos, e o marido dela, o agricultor Dilmar Dal Molin, 49, escolheram para travar a luta diária pela sobrevivência. Trata-se de uma localidade dentro dos limites de Ivorá, município com pouco mais de 2,1 mil habitantes - a maioria deles na zona rural - a cerca de 50 quilômetros de Santa Maria. Não há quase nada por lá, o que talvez justifique o gracejo do nome, que foi, anos atrás, até motivo de vergonha para Vera.

- A gente achava ruim o nome, não gostava. Mas agora fiquei velha, não tenho mais vergonha. E foi aqui que, com honestidade e muito trabalho, criei meus filhos. Esse chão é meu, vou morrer aqui, por que ter vergonha? - ufana-se a mulher, no chalé de madeira ao sopé de um dos morros que compõem a paisagem.

A comunidade do Cafundó é uma espécie de resistência aos apelos da cidade e às dificuldades naturais do lugar. Não passa de duas dezenas de famílias, apostam os moradores, já que dados oficiais não dão conta do número atual exato da população. As plantações de milho, feijão, fumo e outras culturas assentam-se em peraus impiedosos que exigem dos moradores força nas pernas e serenidade para esperar que do terreno pedregoso germine fartura.

Vera já sofre as dores provocadas pelo esforço contínuo de apoiar no quadril os cestos com batata e alimentação dos animais no sobe e desce das trilhas íngremes. Esperar pela terra é a sina de quem se destina a existir por aquelas bandas, desde muito antes de os imigrantes italianos abrirem as primeiras picadas e linhas da Quarta Colônia.

O Cafundó, pelos registros históricos de Ivorá, foi ocupado por gente de São Martinho da Serra e Júlio de Castilhos, gente esta que fugia da violência da Revolução Federalista de 1893. Boa parte era formada por descendentes de portugueses, negros ou indígenas que habitavam as proximidades da sesmaria dos Mello, o grande proprietário da área de aproximadamente 3 mil hectares na época do Império.

- Os italianos não foram os primeiros a chegar no Cafundó, mas sim pessoas da região que queriam se esconder das lutas, daqueles tempos de degola nos campos mais altos. Só mais tarde é que os colonos começaram a adquirir essas terras, porque as áreas mais planas, das várzeas, já estavam ocupadas pelos alemães. Mas, desde aquela época, sempre foi um lugar escondido - conta o professor de História Sergio Venturini, um ivorense dedicado à memória do município.

Venturini explica que, muito antes da imigração de famílias italianas do Vêneto e de Friuli, em 1883, Cafundó e a comunidade de Barreiro, outra nos limites de Ivorá, registravam a presença de povos indígenas, que já tinham contato com o cristianismo por conta do primeiro período das reduções jesuíticas no Estado - a Redução da Natividade ficava onde atualmente é Júlio de Castilhos.

Acredita-se que esses locais periféricos da região tenham sido palco dos primeiros contatos entre imigrantes italianos e nativos. Inicialmente, os novos moradores vindos da Europa ignoravam costumes, língua e cultura dos locais, a quem chamavam, não importando se negros ou índios, de "nacionais", ou "brasileiros", por vezes, como uma maneira de distingui-los pejorativamente dos italianos.

Nas levas seguintes de novos proprietários de terras no Cafundó, estava a família do agricultor Alexandre Paulo Simonetti, 75 anos. Ele chegou ao local aos quatro anos, acompanhando os pais e outros 10 irmãos e de lá não arredou mais pé. Saíram da chamada Linha Simonetti, a oito quilômetros dali, em busca de mais espaço para plantar, ainda que o relevo acidentado pouco oferecesse a uma roça plana.

- Aqui, a gente planta com espingarda e colhe com o laço - diverte-se Simonetti, apoiando-se no ditado popular entre os colonos para explicar a dificuldade de se trabalhar naqueles terrenos.

O Cafundó já teve mais plantações e mais gente também. Muitos dos antigos moradores morreram e outra parte preferiu seguir rumo à cidade, num movimento que desfigura a vocação dos mais jovens para a vida no campo - não só em Ivorá, mas também em outras cidadezinhas da Quarta Colônia.

- As lavouras são limitadas, porque há muito cerro. Então, o pessoal vai embora por falta de condições - diz João Paulo Simonetti, filho de Alexandre e atual morador do centro de Ivorá.

Vera também lembra que, anos atrás, a localidade tinha mais atrativos. Vizinha da antiga "brizoleta" (a escola criada em 1960 por Leonel Brizola quando governou o Rio Grande do Sul de 1959 a 1963 e na qual ela estudou até a quarta série), a moradora recorda dos adjutórios, frequentes nas comunidades rurais e católicas da região, e das celebrações que reuniam gente de linhas vizinhas ao Cafundó em partidas de bocha e futebol. O período na escola era divertido e valorizado. Ivorá tem uma tradição em educação. Quando ainda pertencia a Júlio de Castilhos, foi o primeiro distrito do Rio Grande do Sul a ter uma escola pública com Ensino Médio.

A cidade é, pela forte tradição católica, um celeiro de padres. Por anos, funcionou no atual prédio da prefeitura uma espécie de pré-seminário para rapazes na modalidade de internato. O empreendimento foi idealizado por Monsenhor Busato, o primeiro pároco do município depois que a Capelania de São José do Núcleo Norte, antigo nome de Ivorá, tornou-se uma paróquia, em 1918.

A liderança religiosa de Busato, aliás, até hoje é motivo de controvérsia na comunidade. É venerado pelo espírito empreendedor e por obras que deixou na cidade, mas, ao mesmo tempo, retratado como um homem severo e implacável na disciplina de seus fiéis. Em seu livro Ivorá - Sangue Italiano na Quarta Colônia, Venturini descreve a figura do religioso como protagonista de episódios de violência, como uma bofetada em uma noiva e um pontapé, à porta da casa canônica, em um viúvo que havia casado novamente sem as bênçãos do pároco.

Monsenhor Busato também mantinha seu rebanho atento ao que chamava de "ameaça protestante". Em áreas de colonização alemã da Quarta Colônia, via-se as religiões protestantes ganharem força, e ele, orientado por circulares enviadas pelos bispos, deixava claro a excomunhão daqueles que se aventurassem longe da Igreja Católica. O povoado vivia, conta Venturini, sob o medo onipresente dos anos 2000, pois acreditava-se que seria o fim do mundo, do terceiro segredo de Fátima, à época não revelado pela Igreja, e do diabo.

- As pessoas tinham muito medo. Onde fosse, ele (Busato) queria saber se tinha gente fazendo reuniões dançantes ou culto protestante. Não se podia dançar. Enquanto o Monsenhor existiu, não se dançou em Ivorá. Teve gente que morreu sem nunca ter ido a um baile - conta o professor.

O Cafundó também entrava na área de jurisdição de Monsenhor Busato, mas por lá pouco se lembram dele. A herança educacional dos primórdios da cidade ficou relegada às lembranças. As crianças atravessavam o barro, encaravam o frio dos dias de inverno para aprender a "ler e fazer conta" e aproveitar a merenda, feita na instituição mesmo.

- A gente comia repolho temperado. Era bem bom. Sempre tinha - recorda Vera.

A brizoleta, oficialmente chamada Escola Municipal Senador Alberto Pasqualini, em homenagem ao político que virou o filho mais ilustre de Ivorá, quando teve as atividades escolares canceladas em 1995, tornou-se uma espécie de salão comunitário, onde ocorrem missas mensais, palestras e encontros da terceira idade, cada vez mais raros.

- Olha, era muito divertimento por aqui. Faziam as promoções na comunidade. Não tem mais nada disso. Por quê? Não sei. Só sei que era tudo diferente - lamenta Vera, em frente ao antigo colégio e ao campo de futebol tomado pelo mato.

O tempo no Cafundó passa devagar, marcado por verões escaldantes e invernos úmidos, entrecortados por um ou outro episódio rumoroso. Diferentemente das grandes cidades, a violência não faz parte do dia a dia de quem vive por lá. O que mais tira o sossego da Polícia Civil e da Brigada Militar são os abigeatos e os rebuliços por brigas em bailes do interior, mas, em 2012, um agricultor foi morto a pauladas em casa, vítima de latrocínio. Um ano depois, dois homens foram presos pelo crime. O assassinato brutal comoveu e assustou os moradores da localidade, desde então mais atentos ao movimento de estranhos que volta e meia cruzam por ali em busca de aventura.

Cafundó, além das gentes, esconde belezas naturais quase inexploradas pelo turismo. Há pelo menos duas cachoeiras na área, mas que ainda não integram roteiros turísticos. Ivorá tem mais de 30 cascatas e piscinas naturais que atraem visitantes para a área rural do município nos meses mais quentes.

- As cachoeiras do Cafundó têm acesso muito difícil, fica complicado de levar o pessoal lá por causa da falta de segurança e da trilha. É no cafundó mesmo - reforça Leandro Sarzi, engenheiro elétrico formado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Sarzi diplomou-se e voltou para sua terra natal para abrir um comércio e se dedicar ao projeto Caminhos de Ivorá, que promove roteiros pela Quarta Colônia, incluindo a visita a pontos turísticos, como o Monte Grappa e a Cruz Luminosa, e almoços preparados por famílias de origem vêneta ou friulana.

O relevo da região atrai ao longo do ano grupos de trilheiros que encontram terreno ideal para o esporte. O Cafundó, por ser um cafundó, não está contemplado na programação oficial dos passeios, mas o entusiasmo de Sarzi em impulsionar o turismo local já vislumbra o potencial da localidade, banhada pelo Rio Mello, com cascatas escondidas e córregos.

Décadas atrás, atribuía-se ao nome dessa remota localidade qualquer infortúnio ou a ausência do progresso. Pensou-se até em trocá-lo, mas a falta de consenso entre moradores não só manteve a alcunha como também sequer conseguiu oficializar o nome de uma das sangas do lugar, deixando o curso d?água ser chamado ao gosto de cada um.

E não é que mais tarde foi justamente a denominação de Cafundó que deu fama ao lugarejo? Programas de TV de diversos lugares do país (incluindo o Fantástico, anos atrás), estudantes universitários em busca de um peculiar objeto de estudo, fotógrafos e repórteres aportam por lá para entender o lugar onde não tem quase nada aos olhos de quem pensa que tem tudo, mas quase tudo para quem, por opção ou destino, vive nesse esconderijo protegido pela natureza.

BRUNA PORCIÚNCULA - ROBINSON ESTRÁSULAS 

28 DE JULHO DE 2018
LEANDRO KARNAL

IMIGRAR



O Brasil é um mosaico. Houve migrações internas (grupos indígenas da Amazônia que desceram o litoral para o Sul); migrações forçadas (africanos) e migrações em busca de melhores condições de vida (como muitos europeus). Houve sentimentos variados: a vista do Pão de Açúcar na capital do império poderia representar o início desolador de um cativeiro brutal ou a promessa de uma nova chance social e econômica.

Entre os governos de D. João VI e de D. Pedro I, existiu a ênfase em atrair imigrantes de fala alemã. Os motivos eram variados: da necessidade militar de preencher os vazios demográficos da fronteira Sul até os declaradamente racistas como "branquear a raça".

Ocorreram experiências anteriores com suíços e alemães no Rio de Janeiro e na Bahia. A experiência mais bem-sucedida da primeira fase de imigração teutônica foi no Rio Grande do Sul. Um grupo de colonos partiu de Hamburgo para o Brasil e chegou a Porto Alegre em 18 de julho de 1824, ou seja, há exatos 194 anos. Na semana seguinte, chegou à Real Feitoria do Linho e Cânhamo, futura São Leopoldo. Trinta e nove "alemães" (não existia ainda a Alemanha como Estado) desembarcaram na margem do Rio do Sinos naquele dia 25 de julho que, desde então, passou a ser o Dia do Colono Alemão.

Nascido em São Leopoldo, fui educado na admiração a tais pioneiros corajosos que vieram desbravar os rincões do Sul. Em 1974, ano do sesquicentenário da data, encenou-se a chegada do grupo de argonautas loiros para aplauso dos seus descendentes. O nome da imperatriz Leopoldina, adepta do movimento, era lembrado entre fogos de artifício. O próprio topônimo, São Leopoldo, era uma homenagem a um imperador austríaco. 

Desde o início de 1974, o Poder Executivo no Brasil era liderado por um luterano, o segundo protestante a governar o Brasil, exatamente um descendente de imigrantes alemães, Ernesto Geisel. Tudo parecia ter lógica. Cantamos o hino que se iniciava com o verso: "Loiro imigrante só a natureza, te viu chegar para trabalhar aqui, e o gigante vale com certeza, se engalanou para esperar por ti". Eu estava lá e cantava no coro "Großer Gott, wir loben dich", um clássico Te Deum alemão que agradecia por todas as graças acumuladas.

Éramos pouco críticos em um momento pouco crítico. Ignorávamos as dificuldades, não aquelas que eram louvadas como uma prova de fogo para os imigrantes, mas outras igualmente graves. O agente da imigração para o Brasil (von Schäffer) recebia por cabeça, e tratou de pintar o quadro mais róseo possível aos candidatos no Porto de Hamburgo. Todos ganhariam terras imediatamente e teriam plenos direitos políticos. Não era um Mayflower puritano de "povo escolhido" que se inaugurava na travessia, mas um grupo agitado. 

Não havia apenas colonos. Foram recrutados soldados entre indivíduos que príncipes alemães queriam despachar para longe. Houve rebelião a bordo e até execuções. Chegaram 39 pessoas a São Leopoldo de maioria protestante (apenas seis eram católicos) e logo descobriram que as terras não estavam demarcadas, as sementes não tinham chegado e o voto era restrito a católicos. O paraíso era mais áspero do que fora apresentado. Em breve, em outras ondas migratórias, alguns colonos chegaram a enlouquecer em função das dificuldades, provocando proibição de novas levas para o Brasil da parte de alguns governos alemães.

Apesar de todos os desafios, o projeto continuou crescendo e se espalhando pelo Rio Grande do Sul, Santa Catarina, serra fluminense e pelo Espírito Santo. Abaixo dos africanos e lusitanos, os alemães chegaram a ser o terceiro maior grupo de imigrantes para o Brasil.

O Brasil é um mosaico de imigrantes, eu disse à partida. Nenhum veio para cá por gozar de plena prosperidade na sua terra natal. A crise despertou o grosso do êxodo de italianos, portugueses, espanhóis, alemães e outros. Perseguições religiosas e restrições atraíram muitos judeus para o Novo Mundo. Quase todos aqui somos descendentes de imigrantes que saíram de situações ruins para sonhar do outro lado do oceano. Há pobreza, falta de perspectiva e perseguição na base das nossas árvores genealógicas. Quase sempre temos um miserável entre os ancestrais.

Ser descendente de imigrantes pobres deveria nos tornar muito receptivos aos novos grupos de pessoas em fuga. Especificamente, imigrantes atuais como bolivianos, venezuelanos e haitianos, que repetem o que nossos avós alemães, italianos, japoneses, portugueses e espanhóis fizeram. Nem sempre temos a solidariedade que nossa condição imporia. Pelo contrário, é comum que o imigrante da segunda-feira olhe o da quinta-feira como um invasor arrivista, um perigo. Acontece no Brasil. 

Acontece nos EUA, onde Trump, descendente de imigrantes alemães e casado com uma imigrante eslovena, aperta o cerco contra "forasteiros". Sempre me pareceu que, entre a utopia pouco praticável de escancarar fronteiras e a ideia de uma muralha xenofóbica, poderiam existir soluções equilibradas. Temos espaço no território. Talvez tenhamos pouco espaço nos corações. É sempre estranho que um ser humano possa ser ilegal no planeta Terra. Muita esperança para os imigrantes de ontem e de hoje.

LEANDRO KARNAL

28 DE JULHO DE 2018
DRAUZIO VARELLA

A PRESSÃO DOS MAIS VELHOS



No passado, éramos condescendentes com a hipertensão arterial dos mais velhos. Na faculdade, aprendíamos que a pressão de 12cm x 8cm, considerada normal, deveria ser mantida até os 40 anos. Daí em diante, eram aceitos aumentos de 1cm para cada década de vida. Assim, entre 40 e 50 anos, os limites da normalidade se estendiam para 13cm x 9cm. Dos 50 aos 60 anos, até 14cm x 10cm; dos 60 aos 70 anos, até 15cm x 11cm; e dos 70 aos 80 anos, até 16cm x 12cm. Acima dos 80 anos, não havia regras nem pessoas que vivessem tanto.

Estudos posteriores comprovaram que limites tão frouxos tinham consequências. Mesmo nos mais velhos, níveis pressóricos acima de 12cm x 8cm estavam associados a aumentos da incidência de infartos do miocárdio, acidentes vasculares cerebrais, insuficiência renal crônica e insuficiência cardíaca, entre outras complicações.

Publicações mais recentes sugerem que níveis de 11cm x 7cm são mais seguros do que os tradicionais 12cm x 8cm. Ficou estabelecida, então, a regra de que, quanto mais baixa a pressão, melhor, em qualquer idade.

Acaba de ser publicado um estudo realizado na cidade de Leiden, na Holanda, que questiona esse rigor no caso das pessoas mais velhas e mais frágeis. Os autores levantaram os níveis de pressão sistólica (máxima), as taxas de mortalidade e de declínio cognitivo em 570 mulheres e homens com mais de 85 anos, dos quais 44% recebiam tratamento medicamentoso anti-hipertensivo. Vários participantes estavam internados em casas de repouso, apresentavam déficit cognitivo e tomavam diversos medicamentos para outros agravos de saúde.

Os níveis de pressão sistólica foram relacionados com a mortalidade geral por qualquer causa e com as funções cognitivas avaliadas por meio da aplicação de um teste, o Mini-Mental State Examination. Para estimar o estado de fragilidade física, foi realizado o teste de "força de apreensão", no qual o participante comprime um pequeno dispositivo manual dotado de mola e uma escala que mede a força da mão empregada no aperto. Os autores excluíram os casos de morte no primeiro ano de seguimento, bem como os que já sofriam de doenças cardiovasculares.

Os dados revelaram mortalidade mais alta no grupo dos que tomavam medicamentos anti-hipertensivos e apresentavam pressão sistólica mais baixa. Para cada redução de 1cm na pressão sistólica, o risco aumentou 29%. Da mesma forma, esse grupo experimentou declínio mais rápido das funções cognitivas. A fraqueza muscular medida pelo teste de força de apreensão também esteve relacionada com o declínio cognitivo mais acelerado. Entre os participantes que não receberam tratamento anti-hipertensivo não houve associação direta com o aumento da mortalidade nem com o declínio cognitivo.

Portanto, reduzir a pressão sistólica com tratamentos agressivos nos mais velhos e mais frágeis pode ter repercussão negativa na mortalidade geral e na progressão do declínio cognitivo. É preciso levar em conta o estado de saúde e a cognição na indicação de hipotensores para os que passaram dos 85 anos.

DRAUZIO VARELLA


28 DE JULHO DE 2018
J.J. CAMARGO

ÉTICA PRÊMIO E CASTIGO

Dois vídeos circularam pela rede nas últimas semanas, e o contraste é tão ostensivo que ficou impossível não comentar, especialmente neste momento em que a autoestima dos brasileiros anda ao rés do chão e só não se espatifa porque, apesar de tudo e do trocadilho, todos reconhecem que só a minoria é patife.

Em 2003, em um jogo entre a Dinamarca e o Irã, um atleta iraniano, quase no final do segundo tempo, confundiu um apito da torcida com o do juiz e segurou a bola com as mãos, dentro da área. Apesar dos protestos, o juiz não teve outra alternativa senão marcar o pênalti para a Dinamarca, que a esta altura estava perdendo a partida por 1 a 0.

Com a torcida vibrando diante da perspectiva do empate, justo quando tudo parecia perdido, o jogador Morten Hieghorst, responsável pela cobrança após consultar o treinador da Dinamarca, Olsen, caminhou lentamente e, com um leve toque, mandou a bola para a linha de fundo. A Dinamarca perdeu por 1 a 0, mas ganhou o mundo como um modelo ético que, 15 anos depois, ainda emociona. A arquibancada aplaudindo freneticamente depois que entendeu o que ocorrera ajuda a explicar por que este pequeno grande país se orgulha de ter o menor índice de corrupção no mundo.

Era uma tarde ensolarada e, ao fundo, se identificava a Praça do Comércio, um dos pontos turísticos mais famosos de Lisboa. De repente, a câmera de vídeo passou a acompanhar um cidadão que, com sua barriguinha fora de controle, bermuda e camiseta branca pouco recomendável para o sobrepeso e um ar de turista descomprometido, caminhava tranquilamente e, depois, acelerou o passo na tentativa vã de se livrar do cinegrafista inconveniente.

Todos os brasileiros honestos, que não têm condições de se refestelar amiúde no generoso verão português, se sentiram representados quando o repórter improvisado iniciou um rosário de impropérios, dirigidos com fúria crescente a quem, feito surdo por total conveniência, tentava seguir seu passeio, definitivamente arruinado por um tipo indiscreto que brandia acusações graves, inclusive a de ter emigrado para Portugal porque o Brasil se tornara insuportável por culpa, veja só, daquele venerando senhor que, por alguma razão, tem tido dificuldade de circular no seu país de origem onde se alojam multidões de implicantes.

Nascerá um dia em que a sociedade culturalmente mais diferenciada não tolerará a prepotência boçal dos que não conseguiram ser respeitados nem por seus pares e, ao invés de se comportarem como símbolos da Justiça que representam, parecem se orgulhar da repulsa que provocam no povo humilde que deviam proteger. Quando este dia chegar, que a arquibancada se prepare para aplaudir, porque os vendilhões serão todos chutados para a linha de fundo. E não haverá segunda instância para socorrê-los.

J.J. CAMARGO